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Profes

Atenas

Alguns jornais dizem a verdade mas não dizem toda a verdade. Uma parte da verdade é esta: «Professores universitários formaram uma cadeia humana em torno do edifício da Universidade de Atenas.» O complemento desta verdade parcial é o seguinte: aqueles professores, pelas imagens televisivas quase todos com mais ou bem mais de cinquenta anos – pois não é apenas o corpo docente do ensino superior português que está a ficar preocupantemente envelhecido –, formaram o cordão para defenderem a sua escola. De quê? Da pilhagem e da destruição, imposta por alguns bandos que debaixo da capa de impunidade criada pela actual situação insurreccional se preparavam para assaltar, e provavelmente vandalizar, as instalações da Universidade. O seu trabalho e o lugar da sua da actividade diária estavam em causa, e alguns, particularmente perturbados pela emoção, declararam aos jornalistas que por aquela missão não se importariam de dar a vida. Um exagero, claro, mas nestes momentos conservar a calma e procurar uma retórica de convencimento nem sempre é fácil.

    Atualidade, Democracia, Olhares

    Não há país como o meu

    Mercedes-Benz

    Hoje não fui «para Tábua», mas parei à beira da estrada para almoçar num daqueles restaurantes onde é sempre possível encontrar um certo e determinado padrão de português: aquele para quem os prazeres da vida não mudaram muito desde os tempos do Doutor Oliveira do Vimieiro. O bacalhau com todos continua a ser o bacalhau com todos, a Água das Pedras a Água das Pedras, o Benfica o Benfica, e o leitão da Bairrada o leitão da Bairrada. Parei pois a pileca num daqueles comedouros nos quais, logo à entrada, percebemos não estar na Finlândia ou em Singapura: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra»), nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira.

    Claro que eu ia também à procura do meu pleonástico lacãozinho, mais a sua pele crocante, mas tive um mau pressentimento quando vi à entrada um grande pano anunciar o «Convívio de Natal dos Amigos dos Mercedes». E mal entrei no estacionamento reparei no contraste entre a minha viatura utilitária amolgada do lado direito e a enorme quantidade de automóveis orgulhosamente reluzentes – prateados, brancos, pretos, grenás – da mesma marca da qual a Janis Joplin pedia ao Senhor um só para si («Oh Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz? / My friends all drive Porsches, I must make amends»). Mas sou um bocado distraído e não liguei. Lá dentro, contudo, percebi logo que a fauna era outra que não a costumeira: homens morenos, de bigode farto e fato domingueiro, em idade de pré-reforma, mas todos com os sapatos convenientemente limpos e reluzentes, as esposas com aspecto de esposas a quem o caro-metade apresenta sempre como «a minha senhora» (para não a confundirem com «a outra») ostentando vistosos colares de pérolas, nem um único jovem à vista e meia dúzia de crianças com ar de quem espera desesperadamente por crescer para se livrarem daquela chatice domingueira. O ruído era enorme, o cheiro a perfume era intenso, a única mesa livre ficava junto aos lavabos, e não tive outro remédio senão dar meia volta e partir à procura de outro poiso. Trauteando mentalmente: «Worked hard all my lifetime, no help from my friends, / So Lord, won’t you buy me a Mercedes Benz?». Não há nada como um domingo de chuva na estrada. E não há país como o meu.

      Apontamentos, Devaneios, Olhares

      O meu post fútil do mês

      José Sócrates

      Só quem é cego ou não diferencia um par de atacadores de um laço de usar ao pescoço não reparará na forma moderna e cuidada de José Sócrates se ataviar. E, já agora, de se calçar e de cortar o cabelo (sim, que aquele corte dispensa o pente no bolso de trás das calças). No panorama masculino da política portuguesa ele representa, sem qualquer dúvida, um caso insólito. Para além de penoso, seria bastante enfadonho enumerar aqui as figuras públicas masculinas de porte sem gosto, antiquado ou mesmo grotesco, muitas delas até bem mais novas que o primeiro-ministro, que desfeiam os nossos dias. Aliás, a tendência geral integra-se numa tradição antiga, historicamente ancorada na estética burguesa oitocentista, pós-calvinista e pós-revolucionária, que considera serem apenas as mulheres a terem o direito à cor e ao bom aspecto. «Os homens não se querem bonitos», diz o adágio português, acentuando uma tendência que na Península Ibérica se cruzou ainda com uma sobriedade estimulada pela legislação anti-sumptuária do século XVIII. Para os cavalheiros reserva-se então a sobriedade escura, cinzenta, agora apenas dourada por um nó de gravata «à Windsor», ou, vá lá, um corte de cabelo à Santana Lopes. Suspeito mesmo que algum político caseiro apanhado a ler a Esquire ou a Men’s Health (para não falar da Arena), ou a quem se descubra a estranha mania de usar cremes hidratantes e regeneradores, possa ver definitivamente comprometida a carreira. O pessoal das «jotas» sabe-o muito bem.

      Por isso não me espanta que o diário espanhol El Mundo tenha considerado Sócrates, mais os seus trajes Armani e os seus sapatos Prada, como dando corpo, e provavelmente também alguma alma, ao 6º homem-figura pública «mais elegante do mundo». O galardão, que colocou Karl Lagerfeld em primeiro, Roger Federer em segundo, Barack Obama em terceiro e Brad Pitt em quarto lugar, apenas contém uma inexplicável nódoa: Carlos de Inglaterra encontra-se, apesar do seu look enfatuado e, peço perdão, algo asinino, classificado em 8º lugar (ok, mas sempre usa uma roupinha «à Príncipe de Gales»). Para quem todos os dias tem de suportar governantes mal vestidos, deputados com gravatas horríveis, sindicalistas com bigodes inestéticos ou desportistas com penteados de pesadelo, a imagem visual de Sócrates até poderia constituir um lenitivo. Isto se o nosso primeiro se visse menos e falasse num outro tom, evidentemente. Não se pode ter tudo. Visualmente falando, claro.

        Atualidade, Etc., Olhares

        ♪ Para sempre

        Love

        O objectivo de uma cadeia voluntária que circula por aí é achar aquilo que não existe: «a melhor canção de amor de sempre». Porque todas as canções de amor são como todas as cartas de amor: um pouco estúpidas, sim, como dizia o menino Fernandinho, e fugazes, mas «para sempre». Por isso são quase todas boas. Avanço com uma fiftie, febril e imortal. Podiam ser outras mil.

        Paul Anka – Put Your Head on My Shoulder [aumentar bastante o som]

          Música, Olhares

          Nem sempre uma carta em papel perfumado

          Love

          Enquanto metia na ranhura o cartão de plástico, corria no monitor da máquina Multibanco uma frase a vermelho-escuro: «Violência no namoro não é amor!» Assim mesmo, a bold e com o ponto de exclamação. Afinal é preciso dizê-lo em voz alta, gritá-lo, pois uma boa parte da violência no casamento começa de facto muito antes dele: acontece com uma em cada quatro pessoas, diz um estudo recente da Universidade do Minho. Ao mesmo tempo, as mulheres-guerrilheiras que jamais aceitarão um insulto, um murro, uma chapada, sem os restituírem e seguirem o seu caminho na direcção contrária, são ainda uma minoria. Mesmo aqui, a ocidente do ocidente. E o futuro é já a seguir.

            Atualidade, Democracia, Olhares

            Ton style

            Maiakovski

            São muitas as fotografias de Vladimir Maiakovski nas quais este segura um cigarro aceso entre os dedos ou suspenso dos lábios. Sabemos como ao longo daquele século que deixámos para trás – existem livros inteiros sobre isso – o cigarro, para além do prazer sem constrangimentos que podia oferecer ou do vício pesado que teimava em perseguir, funcionava como um emblema de estilo, associado frequentemente a figurações de mistério, poder, volúpia ou inteligência. Aquilo que apenas hoje soube é que Maiakovski, proibido de fumar desde a juventude devido a doença pulmonar, insistia em exibir um cigarro aceso sempre que era fotografado. O que confirma o velho e sábio princípio dândi de acordo com o qual o estilo pode ser, é, um valioso arrimo da própria vida.

              Apontamentos, Olhares

              A minha homenagem ao XVIII Congresso

              Pravda

              Ao que me dizem, nos países do leste europeu a piada tem barbas. Ao ponto de já não se saber muito bem qual a sua origem. Checa? Polaca? Búlgara? Mas continua a funcionar muito bem. Principalmente junto dos e das imberbes. Os outros já só dizem «piada número 2376!», e todos riem.

              O professor diz à aluna para escrever um texto intitulado «Porque adoro a União Soviética». A aluna vai para casa e pergunta ao pai: «Paizinho, porque é que adoras a União Soviética?»

              «Não adoro, detesto», responde o pai.

              A menina vai então ter com a mãe e depois com o irmão mais velho recebendo a mesma resposta de ambos.

              Depois, já no seu quarto, começa a fazer os trabalhos de casa e escreve: «Adoro a União Soviética porque mais ninguém gosta dela…»

              fonte

                Atualidade, História, Olhares

                ♪ Nocturna

                Marianne Faithfull

                Easy Come, Easy Go é o seu mais recente álbum, acabado mesmo de editar. Há já muitos anos que Marianne Faithfull deixou de ser a miúda em trajecto borderline que em 1965 cantarolava As Tears Go By como se fosse dissolver-se ali mesmo. Sobreviveu a várias tormentas, a maldita, e aos 62 continua a sussurrar-nos coisas a meio da noite.

                Aqui Children of Stone e Black Coffee

                [audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/11/106-marianne_faithfull-children_of_stone.mp3][audio:http://aterceiranoite.files.wordpress.com/2008/11/202-marianne_faithfull-black_coffee.mp3]
                  Música, Olhares

                  Um Z contemporâneo

                  Zorro

                  Adaptação de um artigo publicado em 2006 na revista Penetrarte

                  Em A Máscara de Zorro (1998), o filme de Martin Campbell anterior à sequela A Lenda do Zorro, o herói na pré-reforma (Anthony Hopkins) passava o testemunho ao jovem bandoleiro (António Banderas). Entretanto saiu Zorro – O Começo da Lenda, o romance de Isabel Allende no qual se forja a educação e a sina da velha figura de capa, espada e mascarilha. Na página inicial, uma frase curta – «Existem muito poucos heróis de coração romântico e de sangue leviano. Digamo-lo sem rodeios: não há nenhum como o Zorro» – arrasta o leitor para um universo de mistério e intriga que a chilena reinventa, reconduzindo o personagem às suas origens e avançando um passo mais na sua renovação.

                  O nascimento do Zorro conta-se em poucas linhas. Quando o galante Douglas Fairbanks casou com a diva Mary Pickford e os dois seguiram em wedding-trip para a Europa – uma espécie de viagem de núpcias para americanos ricos – durante a travessia do Atlântico, Fairbanks, entediado com a monotonia do horizonte, entreteve-se a ler The Course of Capistrano, uma espécie de folhetim publicado em 1919 na All-Story Weekly pelo autor de novelas e de argumentos Johnston McCulley. Por sua vez, este havia-se inspirado em Life and Adventures of Joaquin Murieta: The Celebrated California Bandit (1854), uma obra de pulp fiction do escritor índio John Rollin Ridge (também lembrado por alguns como Yellow Bird). A trama do livro interessou Fairbanks a tal ponto que, de regresso a Hollywood, produziu e protagonizou de imediato a película A Marca do Zorro (1920). Inspirado na figura recriada por McCulley, deu-lhe no entanto um toque pessoal, compondo alguns dos seus traços físicos e inventando o sinal «Z», desenhado, como toda a gente sabe, com três estocadas rápidas e destras de florete. As legendas iniciais – «Na Califórnia, há cerca de cem anos, apareceu um cavaleiro mascarado, protector do povo e carrasco dos seus sanguinários opressores» – fundaram o mito contemporâneo, construído ao longo dos anos através de variantes conotadas com um sentido justiceiro comum. De facto, mesmo nas versões mais inócuas das andanças do Zorro e dos seus sucedâneos – como os que aparecem na série de televisão produzida entre 1957 e 1959 pela Disney, na banda desenhada do Lone Ranger (com o seu companheiro de nome Tonto), semi-plagiada na década de 1930 por Striker e Arbo (adaptada no Brasil e em Portugal como Zorro), ou ainda no talhe essencial da figura redentora de Batman, de Bob Kane – reconhece-se como central a função reparadora daquilo que carece de ser reparado, mesmo quando esta acção é colocada ao serviço de uma ordem dominante que jamais é posta em causa.

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                    Memória, Olhares

                    Traumas

                    Mary Poppins

                    Um pesado momento traumático ocorreu quando deparei com uma fotografia de Julie Andrews – responsável por continuadas tentativas de imbecilização das quais fui alvo durante a pré-adolescência, e que imaginara um ser angélico e assexuado – apresentando-se à sociedade, creio que no filme S.O.B., com uma desafiadora caixa torácica devidamente ao léu. Um outro, que terá perturbado uma geração mais recente, relaciona-se com as transformações plásticas de Ana Malhoa, a saudosa animadora das tardes de domingo do Buéréré. Outro ainda, que poderá afectar negativamente milhares de crianças, acaba entretanto de ocorrer: numa capa da Caras, reproduzida no blogue melancómico, deparei com a cidadã portuguesa Luciana Abreu, que deu corpo na televisão à assombrosa Floribella, a princesa das meninas-totós, revelando-se a quem a queira ouvir «uma mulher ousada e sensual». Não há direito. O Ministério da Educação, a Conferência Episcopal e o Doutor César das Neves deveriam tomar uma posição pública contra isto.

                    Adenda – Encontrei entretanto uma evocação de Andrews na qual um leitor documenta o supra-citado efeito. Transcrevo: «(…) Quero agradecer a Deus o privilégio de ter conhecido Julie Andrews através de seu filme mais famoso “The Sound of Music” ou a “A Noviça Rebelde” em português [“Música no Coração” em Portugal]. Sua atuação é maravilhosa e terminou por marcar minha vida para sempre pela sua meiguice e talento invejável. O primeiro filme que assisti com Julie Andrews foi Mary Poppins que marcou minha infância.» Assim está bem, não há problema.

                      Devaneios, Olhares

                      Chove em Havana

                      Havana

                      Porque há já alguns dias não passava pelo Generación Y, também não tinha lido o artigo de Yoani Sánchez sobre a curiosidade e as expectativas cubanas – dos cubanos comuns, pessoas da rua que vivem apenas vivem a sua vida – a propósito das eleições americanas. Um excesso de tédio produzido por dois presidentes em cinquenta anos e uma América física e culturalmente muito próxima, aguçaram o interesse e levaram até a tomadas de posição por um ou por outro dos candidatos. Com expectativas que se prendem com o futuro de Cuba, naturalmente. No ar, a sombra de uma democracia em diferido e uma vontade de que tudo mude para melhor, pois para pior já basta assim. Com a esperança de que, também aqui, a América se possa comportar agora de uma forma menos obtusa e brutal, deixando de fornecer argumentos a quem, ali mesmo, continua a defender-se com garras e dentes de uma mudança sempre adiada mas cada vez mais inevitável.

                        Atualidade, Olhares