É dúbia, esquiva, quase sempre sombria, a aparência do desertor. Amaldiçoada ou reconhecida, criminalizada ou heróica, a deserção começa por ser aquilo que os outros – aqueles que a avaliam à distância – declaram que é. Na guerra de 14-18 os pacifistas exaltavam-na como acto de coragem, ao mesmo tempo que os códigos de justiça militar agravavam os castigos sobre os «traidores». No confronto civil que se seguiu à revolução de 1917, o julgamento variou consoante a direcção tomada pelo foragido. O mesmo aconteceu em Espanha durante a Guerra Civil, na Segunda Grande Guerra, no Vietname, em Angola, em Israel, na Chechénia ou no Afeganistão. A cada momento, em cada situação, foram quase sempre os outros, aqueles que não calçavam a bota militar, a decidir sobre a dimensão ética e o enquadramento penal desse gesto radical e sem retorno de desertar.
Raramente têm sido reconhecidas as razões dos que não aceitam uma motivação política ou moral para continuarem a combater e se decidem pela recusa. Os que o fizeram, ou continuam a fazer, não por um belo dia darem por si na trincheira errada de uma guerra justa ou injusta, ou por se descobrirem pacifistas, mas apenas pelo humano medo da morte, por lhes parecer que a vida é demasiado hospitaleira para caírem no campo de batalha, esventrados por uma granada ou com os miolos perfurados por uma bala. Esses são aqueles que ambos os partidos combatentes rejeitam, mas cujas razões são tão válidas, tão certas, tão admissíveis, quanto as dos que encontram uma explicação para morrerem ou para trocarem de lado e prosseguirem o combate. São aqueles cuja decisão urgente os leva a decidirem-se pelo último assomo de coragem que só faltou ao valente soldado Schweik porque Hašek não chegou a concluir o seu romance.
Não é fácil abordar a dimensão kitsch de um certo poder autárquico e das campanhas eleitorais que o consagram. O exercício pode ser visto como um gesto imprudente, resultante de snobismo ou de arrogância. Pode ser olhado como manifestação de desdém por um dos círculos do regime democrático onde mais se têm feito sentir as mudanças positivas. Embora qualquer pessoa honesta e razoável reconheça que corresponde também a um dos campos nos quais a corrupção, o esbanjamento e o desatino têm ido mais longe. Em regra impunemente, pois os seus promotores têm quase sempre o bom senso de irem apagando as pistas. Mas resta a obra e o estilo, e sobre estes podemos sempre ir conversando.
A voga do kitsch enquanto experiência de mau gosto com capacidade para consagrar códigos estéticos que contribui para sacralizar o poder – nesta direcção, o nazi e soviético foram particularmente eloquentes – materializa uma dos sinais mais fortes deste lado lamentável e disforme da política. Reportando-se à sua ligação com o campo das artes, Gillo Dorfles anotou, num artigo publicado em 1963 na revista Aut-Aut, que o próprio conceito de kitsch é aplicável «à obra de arte, ao seu criador e ao seu desfrutador». Acredito que a ideia pode ser estendida à dimensão visual e simbólica de um certo modo de exercer, de dar voz e de legitimar o poder local.
Sob esta perspectiva, exercer o poder local significa então sobretudo «mostrar obra», independentemente da sua integração harmoniosa no meio e da racionalidade do valor de uso que comporta. Produzem-se então – todos conhecemos centenas ou mesmo milhares de casos – estradas e arruamentos desnecessários, rotundas supérfluas, praças megalómanas, edifícios sem serventia clara, museus e bibliotecas desprovidos de recheio e de programação, estátuas e mobiliário urbano de péssimo gosto, opções toponímicas duvidosas, quando não ridículas, e políticas culturais atentas apenas ao paladar e aos ímpetos identitários mais primários.
Dar voz passa, nesta dimensão, por personalizar o poder, não tanto em função do resultado final mas antes a partir do rosto visível do «dono da obra». Só isto pode justificar o alastramento frequente de uma política clientelar local tendo como vértice, nos casos de maior sucesso, figuras de chefes locais reconhecidamente autoritários, por vezes corruptos, com uma má imagem para além dos limites físicos do concelho, mas associados a um discurso e a uma imagem populista e kitsch, próprias daquele «chico-espertismo» arrivista e bem sucedido do qual recentemente falou José Gil. Os casos de Ferreira Torres, Valentim Loureiro ou Fátima Felgueiras, com uma iconologia própria, são os mais conhecidos, por mais mediatizados, mas estão longe de serem únicos (o campeonato de Isaltino de Morais é, reconheça-se, um pouco diferente).
As eleições autárquicas são também um momento decisivo no processo que visa legitimar a autoridade e as opções de quem se instala. Dada a visibilidade do momento, torna-se aqui mais perceptível do que nunca a dimensão do mau gosto exibido pelas campanhas e pelos seus figurantes. Desde logo na propaganda concebida para a ocasião: a pose «presidencial» na roupa domingueira, o grafismo exuberante e primário dos cartazes, a sobreposição até à náusea da simbólica identitária local, as palavras de ordem sobre a devoção filial do candidato à sua terra e sobre o amor desmedido que consagram às ruas, às tradições e, naturalmente, aos seus eleitores. Aliás, na Fenomenologia do Kitsch Ludwig Giesz chamou a atenção para o sentimentalismo – como é sabido, um subproduto do ultra-romantismo – como um dos recursos mais poderosos de «mau gosto estético». Daí a proliferação de candidatos que se servem dos cartazes para, mimando a publicidade aos concertos de Tony Carreira, chegarem, «com amor», «com ternura», com açúcar e afecto, aos corações sensíveis de quem os elege.
Por último, intimamente associados a estes aspectos, as políticas e os programas culturais seguem muitas das vezes a mesma lógica kitsch, assumindo o conceito de cultura na sua perspectiva mais popular – no sentido do vulgar, nem tanto no do etnográfico – e passadista. Declaram, para o efeito, uma opção de interesses por um passado histórico frequentemente manipulado e pelo culto do «popularucho», rejeitando, em regra por inabilidade política, provincianismo e fechamento de perspectiva, uma lógica de adequação ao mundo contemporâneo e às expectativas dos segmentos mais informados e dinâmicos da população que os escolhe.
Este panorama não pode ser generalizado, pois subsistem bons exemplos de atitudes completamente diversas. Mas vivendo como vivo em Coimbra, posso dizer que habito um dos mais destacados vórtices da política autárquica kitsch. Fazendo, garanto, um esforço diário para lhe sobreviver e para não deixar de amar a minha cidade.
* O Partido Socialista recebeu uma transfusão de sangue de Manuel Alegre e de alguns dos «históricos» que os seus mais fiéis apparatchiki tanto depreciaram ainda há pouco tempo atrás. Em larga medida, e em conjunto com a energia de Sócrates, foram eles quem estancou no limite a hemorragia que iria fazer crescer ainda mais o eleitorado do Bloco. Não foram as Lurdes, os Albertos ou os Augustos.
* PS e PSD – partidos «aparelhistas» e, na verdade, pouco politizados – perderam terreno para as forças com um eleitorado mais convicto e mais militante. Basta escutar com alguma atenção a longa fila de pessoas que vota em ambos por hábito e fé, frequentemente incapaz de declarar o porquê da escolha. Poderiam acorrer às eleições para o seu clube do coração ou a tomar a camioneta para Fátima. Com os outros não é tanto assim, embora em democracia, como é sabido, não existam votos de 1ª e de 2ª.
* Todos subestimaram o CDS. Provavelmente, até uma boa parte dos centristas o terá feito também. Mas o CDS, deveriam sabê-lo os estrategos, é voz atávica de uma boa parte do «país real». Aquela que vem de passado que perdura, do respeitinho pelas hierarquias que atravessa a longa duração, do preconceito de classe que separa patrões e empregados, patroas e empregadas, do catolicismo ultramontano que sobreviveu a trinta e cinco anos de laicismo democrático como sobrevivera noutros tempos aos dezasseis de republicanismo costista.
* Quem vendeu uma imagem dinâmica, cintilante, optimista, atenta à sede de novidade que alimenta as maiorias e às regras básicas da mobilidade cénica ganhou (o PS e mesmo o BE, que agora investiu muito nesse campo). Quem apostou numa campanha repetitiva, negativista, e apoiada em valores antieuropeus ou conservadores, no medo ou no rancor, perdeu (o PSD e, do outro lado, o PCP). O CDS, esse trilhou uma campanha autónoma, pois dirige-se a um eleitorado conservador que reconhece um certo padrão de imutabilidade como próprio da natureza humana.
* O método de Hondt continua a fazer das suas. O CDS apenas com mais 0,61% de votos que o Bloco conseguiu eleger mais 5 deputados. Já o BE com mais 1,97% de votos que o PCP conquistou só mais 1 deputado que este. Mas contra isto, sem um irrealizável acordo de revisão da lei eleitoral – que até poderia produzir uma lei pior –, pouco se poderá fazer. Ou não?
* O peso da opinião pública na construção de consensos e de dinâmicas de mudança pode agora ganhar uma nova dimensão. O fim do «quero, posso e mando» tenderá a ampliar o debate democrático, uma vez que no novo contexto político é possível fazer vingar posições, e não apenas «marcar posição». A vontade de participação tem assim condições para viver um novo impulso. Resta saber como e se por muito tempo.
* O Bloco de Esquerda está numa encruzilhada. Ao contrário do que pensam alguns simpatizantes mais optimistas, dificilmente crescerá mais do que cresceu agora sem se assumir como partido de combate pelo poder. E apenas o pode fazer questionando aquela parte da sua matriz fundadora que se assume como visceralmente anticapitalista e protestativa. Abre-se um tempo de reflexão para que tudo se torne mais claro e equilibrado, antes que o balão comece a esvaziar e as fragilidades apareçam à luz do dia.
* Espera-se que a parte sã do PS se deixe de teorias da conspiração e perca a nostalgia da maioria absoluta. E que não permita a repetição da atitude autista ou a vertigem autoritária, apoiadas nas costas largas do «contexto de crise», que dominaram o partido ao longo destes quatro anos últimos. Que tenha coragem política para procurar primeiro o consenso ou o acordo, e não o confronto. Para colocar as pessoas à frente das estatísticas. Provando finalmente que uma maioria relativa pode impor um clima de abertura que o poder não partilhado inevitavelmente rejeita.
Em função dos resultados destas eleições – e da inconsistência de muitas escolhas, claramente camaleónicas, episódicas e volúveis –, não é preciso ser-se adivinho para prever quatro anos, ou provavelmente menos, de contorcionismo táctico, negociações complicadas e difíceis debates intestinos. Uma coisa é certa: encerrou o mais recente ciclo do poder absoluto. A discussão e e o confronto de ideias ganharam um novo sentido e são agora indispensáveis.
De repente lembro-me dos outros. Daqueles que permaneceram na penumbra, verdadeiramente na penumbra, ao longo da campanha. Olhados como eleitores potenciais, a quem seduzir, mas quase sempre ignorados na materialidade das suas vidas, nas diferenças que consubstanciam, nas expectativas e anseios que são só seus. Nas mulheres destacadas por preencherem quotas, aparentando paridade onde existe desigualdade de facto. Nos jovens transformados em figurantes, protagonistas para fazerem ruído e simularem futuro. Nos desempregados que perdem voz à medida que se distanciam da vida activa e se deprimem, fora de comícios, manifestações e arruadas. Nos imigrantes diligentemente varridos para longe das câmaras embora participem do nosso destino comum. Nos idosos cujos rostos passam num instante quando a televisão persegue os candidatos. Nos gays, nas lésbicas, nos artistas, nos intelectuais, arregimentados para evocarem um «capital de modernidade» perante a opinião pública, mas excluídos ou confinados a recantos invisíveis nas propostas concebidas para serem lidas pelo cidadão comum e decifradas pelos legisladores. Lembro-me de todos estes, que são milhões, e pergunto-me sobre o que lhes oferece a política institucional, aquela que verdadeiramente decide e governa as nossas vidas. Aquela cujos actores, após a dança das cadeiras, reocupará hoje os seus lugares reservados.
«The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.
Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»
De acordo com um artigo publicado hoje no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.
Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.
Um dos meus primeiros heróis literários foi Zane Grey (1872-1939). É impossível saber quantos rapazes que se criam temerários, quantas moças ousadas às escondidas das mães, com ele descobriram o mundo selvagem, perpetuamente inquieto, no qual cowboys de génio estupendo, e caravanas de pioneiros fugindo da miséria, enfrentavam hordas de índios bravíssimos e, nas suas páginas, alucinadamente suicidas. Somente muitos anos depois soube que até se tornar conhecido pelos seus romances populares Grey passou pelo Oeste profundo apenas por uma vez, em 1906, durante uma apressada lua-de-mel. Percebi então que a imaginação de tanta gente foi alimentada, ao longo de sucessivas gerações, pela mais completa fantasia criada por aquele pacato dentista de uma pequena cidade do Ohio. O homem que ajudou a conceber os índios e os cowboys da forma como os encarnámos nas brincadeiras da infância – cientes, na nossa inocência, de um mundo que acreditávamos justo, no qual os bons e os maus conheciam o seu lugar e não desejavam outro –, entre faltas às aulas, muros de tijolo como esconderijo e arbustos que tornavam quase selvagem o cenário em que elas tinham lugar. Como acontecera com Zane, ao mesmo tempo dentro e longe das pradarias desejadas enquanto territórios de aventura.
Na viragem para a década de 1970 tornou-se muito popular em França uma cantora que os jornais consideravam «a nova Piaf». Mireille Mathieu tinha de facto uma voz interessante, num registo gutural próximo daquele que caracterizara Edith Piaf, e quem a ouvisse cantar num vulgar rádio de pilhas em onda média, ou numa longínqua instalação sonora de festa de aldeia, facilmente confundia a sua voz com a da intérprete de Non, je ne regrette rien. Mas quando se prestava maior atenção à pessoa, à música e ao tom, as diferenças tornavam-se flagrantes. O aspecto de jovem perfeita, asseada e bem comportada, o conteúdo açucarado do seu repertório, e principalmente a ausência daquele pathos que caracterizava a minúscula Edith e a tornava um animal de palco, mostravam imediatamente as debilidades de Mireille. Por isso ninguém se espantou verdadeiramente quando ela desapareceu de cena. Lembrei-me desta distância entre a Piaf e a sua cópia após ler a notícia sobre a confirmação de José Manuel Durão Barroso no segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. Confrontando a sua presença medíocre e o discurso apenas melífluo e de circunstância com os de Monsieur Europe, o socialista Jacques Delors, uma personalidade forte que chefiou a Comissão entre 1985 e 1995 e fez com que a voz europeia fosse ouvida e respeitada muito para além do perímetro de Bruxelas, vemos como foi rápida a passagem do original para a sua indigente cópia.
Morreu hoje, aos 99, o fotógrafo francês Willy Ronis, conhecido acima de tudo pelas imagens da vida parisiense, e de algumas cidades da Provença, nos anos do pós-guerra. Durante algum tempo, em sites e blogues, fui-me apropriando de algumas delas para iluminar artigos e apontamentos. Se pudesse tinha-lhe agradecido.
O Bloco fica-se e o PCP avança em «Um neo-reformismo de fachada socialista». Teoria de altíssima densidade, mes amis. Estão a ver as coisas agora um pouco melhor? Só falta falar – mas está quase tudo lá – da «cobardia que se encobre na bravata verbal», da embriaguez da «própria concepção do poder do verbo», de «sentimentos e ambições de classe», de «aliança objectiva com o capital», de «desligação das massas populares» ou de «perda de contacto com a classe operária». Apenas algumas das centenas de expressões de idêntico teor utilizadas por Álvaro Cunhal no recuado Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, um livro de 1971, para tratar dos «esquerdalhos e outros bandalhos». Como se escreve no prefácio à 3ª edição, publicada já depois do 25 de Abril, «a luta ideológica e política contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista não terminou com o derrubamento da ditadura (…), conserva plena actualidade». E dura, e dura, e dura.
[audio:http://aterceiranoite.org/sons/Samba De Uma Nota So.mp3]
Recordava-me há dias um amigo que em período eleitoral sobrevém «uma suspensão da normalidade em todos os planos, o discursivo incluído». Concordo com ele, penso que todos concordaremos, e, quanto mais não bastasse, para lhe dar razão bastaria ver como aqui, na blogosfera – onde, se não estou equivocado, não circulam dominantemente magarefes e lutadores de wrestling –, pessoas habitualmente reputadas como estimáveis, ponderadas e inteligentes se travestem episodicamente em desbocadas, deixando entre parêntesis a politesse (a palavra «delicadeza» corre hoje certos riscos), e comportando-se como elementos radicais das claques de futebol. Muitos retomam, aliás, os velhos princípios da política provinciana, na qual, como se sabe, qualquer argumento político racional é ultrapassado por afirmações gratuitas e um «diz-se que diz-se» bastante dependente das intricadas teias locais do favor, da família e da amizade. Nessa tendência para a interrupção da normalidade integra-se o recurso à «pequena política», ao truque barato, ao «pé para o chinelo», ao uso da primeira arma de arremesso que apareça para achincalhar o adversário e reduzir a discussão ao menor denominador comum.
Isto vem tudo a propósito de uma espécie de notícia publicada pelo Correio da Manhã, na qual se utilizam fragmentos de uma conversa informal, off the record, ocorrida nos estúdios da RTP antes do debate da passada terça-feira entre Francisco Louçã e José Sócrates. Aí se dá destaque, como se de um escândalo se tratasse, a umas quantas graças banais ditas principalmente pelo secretário-geral do PS. Além da sua utilização jornalística ser muito condenável no plano ético, aquele tipo de piada é coisa que qualquer de nós poderia dizer, e não vejo que um político responsável, pelo facto de o ser, tenha necessariamente de controlar as emoções e as palavras 24 em cada 24 horas. Aliás, devemos desconfiar, e muito, de alguém que não saiba rir, não diga tolices e em público apenas fale a sério. Pela mesmíssima razão, fui, aliás, um dos que condenaram a manipulação do normalíssimo «porreiro, pá» (prefeririam os utilizadores um «cumprimento vossa excelência»?), ou a utilização de pequenas frases casuais retiradas do Twitter pessoal de políticos e jornalistas para os diminuir, como já ocorreu. A educação democrática, julgo sinceramente, passa também por aqui. Deve ser uma prática permanente, não um acto de circunstância. E a lógica do «vale sempre tudo» apenas contribui para reduzir a dimensão humana da actividade política e alimentar uma noção de debate público como se de um jogo de pingue-pongue contra uma parede de cimento se tratasse. São preferíveis políticos de rosto humano, falíveis, por vezes vaidosos, a autómatos previsíveis e aparentemente clarividentes. E isto nada tem a ver com a minha hipotética simpatia, ou a falta dela (muito mais provável, já agora), por José Sócrates, Manuela Ferreira Leite, Carmelinda Pereira ou aquele senhor de bigode que é o Presidente da Junta.
Sempre que falo sobre a afirmação triunfante da música e da cultura pop nos inícios da década de 1960 para um público jovem, deparo com uma boa dose de compreensão, ou mesmo de simpatia, se evocar Elvis Presley ou Jim Morrison. Mas a referência aos Beatles é invariavelmente acompanhada de sorrisos trocistas, denunciadores de uma certa dificuldade em compreender, ou em aceitar, o papel dos fab four em todo aquele movimento. «Quem? Aqueles tipos de franja ridícula que cantavam umas coisas mais ou menos melosas, mais ou menos kitsch, para damas meio passadas?» No momento em que o lançamento mundial de uma edição totalmente remasterizada da sua discografia completa faz regressar às primeiras páginas os rostos e a memória dos quatro de Liverpool, apetece-me porém voltar ao tema.
Tanto quanto sou capaz de recuar até à pré-adolescência, confino a minha percepção inicial do papel dos Beatles neste mundo a três momentos. Num primeiro, o mais antigo, recordo a descoberta em casa de uns primos de um single em vinil que destacava Love Me Do e ouvi obsessivamente, com grande demonstração de paciência da parte dos meus tios, ao longo de semanas. O segundo momento foi marcado pelo meu encontro de rapaz de província com o número especial da revista francesa Salut les copains, dedicado ao grupo inglês em plena beatlemania e repleto de imagens daquela que então me parecia ser a mais excitante forma de vida possível à face da Terra. A terceira evocação leva-me ao reencontro do meu primeiro pecado mortal, consumado quando invejei profundamente L., um tipo um pouco mais velho que eu, proprietário de um daqueles casacos de gola «à Beatle» – isto é, sem gola –, que calçava umas botas pontiagudas de elástico lateral e fazia uma imitação, a meu ver perfeita e com grande êxito entre o público feminino, de Twist and Shout.
Nessa altura, a minha percepção daquela música e daquelas imagens era totalmente acrítica e marcada pela absoluta admiração. Por uma sedução, percebi-o depois, suscitada pela desafectação melódica daquelas canções, pela simplicidade dos textos estritamente vivenciais, pelo ritmo vibrante, então único. Marcada também, como estava a acontecer com milhões de jovens em todo o mundo, pela atracção por uma atitude cénica desafiadora e sem termo de comparação, pela ostentação da alegria e da brincadeira face a uma cultura dominante «adulta» que as procurava espartilhar dentro de limites «aceitáveis». Só depois, muito depois, encontrei nas canções dos Beatles – aquelas que já não oiço mais ainda prefiro, as dos primeiros álbuns, de Please Please Me, saído em 1963, até Revolver, lançado em 1966 – alguma coisa mais: o seu papel de território pioneiro sobre o qual outros puderam depois projectar sob os holofotes uma percepção poética e hedonista do mundo, uma naturalização do amor e do sexo descomprometido, uma atitude independente e de certa maneira rebelde. Característica dessa cultura juvenil, então em formação, que inflectiu a experiência do quotidiano dos filhos do Pós-Guerra, para lançar os fundamentos de um mundo que definiu a nossa contemporaneidade.
Mas claro que, para um número crescente de pessoas, a compreensão deste papel pela via única da inteligência ou dos manuais de história, mesmo a projectada pelos média ou reproduzida – tal como vai acontecer a partir desta semana – num jogo de computador, será sempre insuficiente. Por muitas reedições que se façam da discografia parcial ou completa dos Beatles, John, Paul, George e Ringo morrerão um dia, definitivamente, com o eclipse final dos últimos daqueles que um dia de alguma forma ajudaram a libertar. Não vislumbro os nossos descendentes do século 22 a trautearem No Reply ou Ticket to Ride. Entretanto, podemos divertir-nos ainda um pouco.
De quando em vez, sem o desejarmos, somos injustos até para pessoas que não conhecemos. Uma das injustiças que tenho feito a algumas consiste em considerá-las mortas quando afinal se conservam entre nós e no uso das suas faculdades. Ainda há pouco, numa conversa, «matei» Claude Lévi-Strauss, afinal vivo e activo com 101 anos. Passou-se agora a mesma coisa com Ernst Nolte, o controverso historiador alemão conhecido, principalmente nos anos oitenta, pela polémica interpretação do nazismo como uma reacção inevitável, e de certa forma compreensível, aceitável até, à ascensão do comunismo. Sugeria mesmo o «assassinato por razões de raça», perpetrado por Hitler, como uma resposta ao «assassinato por razões de classe» projectado universalmente pelos bolcheviques. A altercação pública a propósito do tema que manteve então com François Furet apenas fez com que essa explicação ganhasse uma maior visibilidade.
Pois Nolte – que eu já «enterrara» e afinal não passou ainda dos 86 – volta agora à arena, em Die Dritte Radikale Widerstandsbewegung: Der Islamismus, já de 2009, com uma teoria nova e não menos controversa. Procura desta vez explicar a irrupção do islamismo radical como algo de «justificável», de «compreensível», surgido como expressão da resistência à presença e à envergadura do Estado de Israel. Num raciocínio marcado por um antisemitismo redivivo à medida do nosso tempo, chega ao ponto de considerar como «percursor corajoso do combate palestiniano» a Mohammed Amin a-Husseini, o mufti de Jerusalém que em 1942, aos gritos de «Matem-nos a todos!», apelou em Berlim a uma jihad contra os judeus, apoiando a «solução final» proposta pelos nazis e colaborando mesmo na organização de uma divisão das Waffen-SS composta por muçulmanos bósnios. O islamismo será então, para Nolte, uma «ideologia muçulmana defensiva» face a um Israel colonial e imperialista. Interessante, como resultado do seu raciocínio tortuoso, é a aproximação do nazismo ao islamismo como movimentos político-culturais legítimos irmanados pela sua oposição a um «mal maior». Veremos agora que eco terá esta leitura entre aqueles que condenam Israel sem olharem à complexidade dos trajectos históricos e à realidade objectiva que moldaram e moldam a sua existência. Que eco terá dentro do universo islâmico também. Ahmadinejad aplaudirá com toda a certeza.
Posso tornar-me suspeito de estar a fazer publicidade à editora que tem publicado alguns dos meus livros. E provavelmente estarei – embora não inteiramente, pois não a nomeio no texto do post nem colo aqui o link –, mas este cartaz justifica o regime de excepção.
Uma das causas do descontentamento popular que fez ruir as experiências europeias do «socialismo real» teve provavelmente a ver com os ditames da indústria nacionalizada do calçado e com os escassos modelos impostos aos cidadãos. Afinal quem não desejaria alterar o estado das coisas?
Na imagem, uns sapatos Tisza Cipő fabricados em Martfű, na Hungria. Uma marca extremamente popular até aos anos oitenta, pois era a única disponível no mercado.
O surgimento de blogues como o Simplex e o Jamais, reunindo pessoas dispostas a intervir no processo eleitoral apoiando o PS ou o PSD, foi de início uma boa notícia para a democracia. Anunciava o reconhecimento partidário, ainda que informal, da importância de um território de opinião e de informação cada vez mais frequentado, capaz de crescer na exacta medida em que os meios de propaganda tradicionais, como o comício, a arruada, ou mesmo o debate televisivo e radiofónico, se tornaram cada vez menos sedutores. O esforço dirigia-se então àquela parte do eleitorado, aparentemente em crescimento, que lê blogues de opinião (ou simplesmente «que lê»), não se limita a profissões-de-fé e detesta o ruído dos altifalantes e dos zé-pereiras. A quem não precisa ouvir aquilo que nada acrescenta ao que já conhece. Mas o tom e o conteúdo de quase todas as intervenções apresentadas nestes dois espaços parecem-me incongruentes na relação com esse objectivo. Com excepções, a maioria das participações sucede-se num registo de petit politique, do mero panegírico ou da cega depreciação, da trica, do «ele disse»/«ela não escreveu», próprio na aparência de «irmãos inimigos» separados questões de águas, que não me parece possa convencer quem não se encontre já convencido. Que nada acrescenta a quem, de facto, procura uma motivação racional, e a percepção de um rumo e de factores de esperança, para se decidir a desenhar uma cruz neste ou naquele quadrado do boletim de voto.
O caso do Jamais diz-me pouco, pois este situa-se num campo que não é o meu, mas já não se passa o mesmo com o Simplex, uma vez que este pretende, pelo menos em parte, dirigir-se ao «eleitor de esquerda», e alguns dos seus colaboradores estiveram já, e por certo um dia voltarão a estar, do mesmo lado da barricada que eu (embora saiba que não apreciarão muito o próprio conceito de «barricada»). Aqui, admito que o tom geral me incomoda um tanto, uma vez que nada soma ao autocomplacente discurso partidário oficial e revela um lado, por vezes perigosamente agressivo ou próximo do primário, para mim até agora desconhecido, de pessoas que estimo e por cujo trabalho e inteligência tenho apreço. Em vez de agregarem capacidade crítica e de questionamento dos inegáveis bloqueios partidários, abrindo-se ao diálogo e alargando a capacidade de convencimento, a maioria dos participantes tem-se cingido a repetir ad nauseam séries de banalidades – em alguns casos, aconteceu já, chegou-se mesmo à enormidade – que não servem literalmente para nada. A não ser para uma afirmação pública, aos olhos do próprio grupo político e dos seus apoiantes, das certezas de quem escreve. Não me atrevo, como houve já quem o fizesse, a dizer que a motivação desta ou daquela pessoa seja a previsão de futuras prebendas governamentais. Não acredito que isso se passe com a maioria – embora obviamente não possa colocar as mãos no lume por todos –, pelo que a explicação do espectáculo diário ao qual tenho assistido se me torna difícil de entender. Só sei que aquilo que começou por ser a aplicação de um bom princípio se transformou num preocupante sintoma de dificuldade, ou de ausência de vontade, para repensar o repensável. Vindo de quem vem, não pressagia nada de bom para depois do 27 de Setembro.
Vivemos tempos difíceis para a rebeldia – sim, bem sei que a palavra vegeta démodée fora dos anúncios de marcas de refrigerantes –, sitiada por vozes insistindo em que «as coisas são como são». A audácia, lançada a contracorrente, que se desvia do imediato, é cada vez mais apontada como irrealista e suicidária. O impulso utópico é proscrito ou caricaturado. O rebelde – do latim rebellis, aquele «que começa a guerra», que recusa obedecer e se insurge – é depreciado, olhado como um vestígio do passado, herdeiro de uma subespécie hominídea que perfez o seu caminho mas se perdeu algures na cadeia da evolução. Bakunine e Nietzsche, Sade e Rimbaud, Camus e Beauvoir, mesmo Ghandi ou o Che, mortos, devem permanecer nas paredes, mas apenas como quadros de uma exposição. Os vivos, como Cohn-Bendit, Mandela ou o subcomandante Marcos, passam por troféus, quase inofensivos agora apesar da atitude desafiadora que um dia exibiram.
Aceita-se apenas – melhor, define-se como arquétipo de uma «rebeldia mansa», domada, sem perigo para a ordem imperante – o pequeno gesto que excede por instantes os limites do conformismo, simulando uma força inexistente. Como exemplo, uma revista de actualidades entrevistava há alguns dias uma jovem actriz e destacava o seu «passado rebelde», quando nos anos 80, para alvoroço da pequena cidade de província onde crescera, «andava pela rua de saia e sapatos de ténis». Políticos profissionais recorrem a idêntica estratégia, procurando legitimar uma imagem de «personalidade forte» quando destacam a irrequietude de banalíssimos episódios biográficos do seu passado mais remoto. Entretanto, alguma esquerda invoca ainda uma «rebeldia teórica», condicionada pelo apego à ideologia envelhecida que a moldou ou a um modelo falido de sociedade. De acordo com esta perspectiva disforme, rebelde não será então o homem ou a mulher que luta pela liberdade individual, pelo direito à diferença, por uma sociedade desbloqueada, mas sim o polícia que zela sem descanso pela suprema «ordem revolucionária».
Contrariamente, em A Política do Rebelde, Michel Onfray exalta a figura singular do rebelde, do verdadeiro rebelde, esse cujo génio sempre algo colérico o conduz, no encontro do seu percurso pessoal com a história humana, a um irreprimível desejo de confronto, a um impulso projectado para a superação dos limites. Com ele, sempre uma mesma recusa: a da ordem estabelecida, seja ela social ou cultural, percebida como uma ameaça e um obstáculo a ultrapassar. «Tudo aquilo que olhamos é falso», escrevia Tzara no Manifesto Dada de 1918. E em 1929, o brasileiro Oswald de Andrade constatava: «a falsa cultura, a falsa arte, a falsa moral, a falsa religião, tudo desaparecerá, mastigado por nós com a maior ferocidade». Sempre a recusa de uma gestão do presente «tal qual ele é» e a defesa da possibilidade do impossível.
Para além da negação cruel do cenário imposto pela ditadura do real, o rebelde observa o futuro com lentes de aumentar, por entre corredores espelhados que projectam um efeito caleidoscópico. Exagera e distorce a perspectiva, claro, mas nos assuntos que se relacionam com a administração do real vivido e do real possível não existem meias-tintas: ou se é avisado, atinado, «realista», ou se é excessivo, ao mesmo tempo apolíneo e donisíaco, uma vez que Apolo e Dioniso, os dois deuses superiores da mais importante epifania délfica, parecendo opor-se, afinal se completavam. Ou se gere o mundo apenas à vista, mergulhado na banalidade e, mais cedo ou mais tarde, no desespero, ou se projecta o salto em frente, superando, por vezes na dimensão de um pathos incidental, a enganadora sombra. As «pessoas extraordinárias» – de Thomas Paine a Billie Holiday – das quais falava Eric Hobsbawm na conhecida obra homónima, pertencem a este segundo tipo. São aquelas que convivem com o ar do tempo, com o fragor mediático, mas não se limitam a servi-lo, reconhecendo corajosamente a existência de um eco maior, receptivo à transformação e à busca da felicidade, que pode ouvir-se no horizonte. Se nos calarmos todos por um momento, e prestarmos atenção, conseguiremos ouvi-lo. É bom fazê-lo de vez em quando, sobretudo agora que nos oferecem programas sem alternativa, buscando governar à vista, confinar à maneira de Haussmann, as nossas vidas.