Antes que se desdobre por aí a ladainha dos obituários tradicionais (ou as declarações de intenção dos que se obstinam em fazer-nos saber que não estão para essas coisas de acariciar os mortos), um pequeno parágrafo sobre Norman Mailer na data do seu passamento.
De Mailer apenas posso dizer que, como quase toda a gente, pouco mais li que o já amarelecido Os Nus e os Mortos. Que lhe ficamos a dever algumas das primeiras facadas do new journalism. Que dele sobrará um rasto do estereótipo hemingwayano do escritor-macho enquanto provocador, bruto e supostamente femeeiro. Absolutamente anti-norma na relação com o romancista ou com o poeta low-profile que povoa hoje, até à náusea, os suplementos e as revistas literárias. Fazem-nos falta, pois, sacanas assim. Quanto mais não seja para nos irritarmos com eles e aprendermos a relativizar a fala previsivelmente mansa, dócil, de muitos dos outros.
Percorridas as 627 páginas de Rio das Flores, o novo «romance histórico» de Miguel Sousa Tavares, preparava-me para anotar duas ou três impressões quando o leitor de feeds do Bloglines me avisou de que n’A Invenção de Morel tinha acabado de sair uma pequena nota crítica sobre o livro. Esta acabou por aliviar-me bastante do esforço de dizer qualquer coisa de inteligível sobre uma obra cuja leitura, pesadas as coisas, me aborreceu muito mais do que me agradou. A verdade é que, conhecida então a opinião de José Mário Silva, não posso senão concordar inteiramente com ela e recomendá-la.
Acrescento-lhe, porém, um brevíssimo comentário, servindo-me de uma afirmação produzida pelo autor durante uma entrevista publicada, a 20 de Outubro último, no suplemento Única, do Expresso. Declarava aí MST que «finalmente estou a tornar-me um escritor». Um escritor sim, sem dúvida – um romancista também, pois era isso que certamente pretendia dizer –, mas um escritor que convive com um equívoco. Ao pretender escrever de uma forma «inteligível», que possa ser compreendida sem dificuldade pelo leitor comum, aquele sem cultura literária e sem o hábito de ponderar o valor de uma obra de outra forma que não seja pelo interesse que lhe desperta a história que esta conta, MST põe de parte a procura da forma única, original, do texto irrepetível, que separa a chamada grande literatura daquela que, embora legítima, se limita a reproduzir estereótipos e se destina apenas a um público que não é muito exigente nas suas escolhas. É isso que o conduz, por exemplo, a perder-se em longas páginas descritivas com as quais pretende fazer o enquadramento histórico de determinados episódios, redigidas sempre de uma forma bem informada mas incomodativamente escolar. Muitos leitores, porém, entenderão esta característica como uma qualidade.
Apreciei bastante Sul e razoavelmente Não Te Deixarei Morrer, David Crockett. Gosto do Miguel Sousa Tavares cronista e «grande repórter». Gostaria que ele pudesse investir mais naquilo que faz realmente bem, por vezes muito bem. Mas se lhe dá prazer escrever uma coisa assim, olhar para a capa de Equador e ver que este vai na 32ª edição portuguesa, acompanhar José Rodrigues dos Santos e Fátima Lopes nos mesmos escaparates flamejantes, ser visto com concupiscência (literária, claro) por balzaquianas típicas ou frequentadoras da Nails and Beauty, quem sou eu para lhe reprovar as intenções? Nada tenho contra a chamada literatura light, e reconheço que esta preenche um espaço de interesse pelos livros e pela leitura que é inteiramente respeitável e até necessário. Principalmente quando quem a pratica é competente e não amarfanha a gramática, como é o caso. Mas já não me parece bem que ela passe por aquilo que realmente não é.
O dia começou-me esplêndido. Na livraria, um cliente quer pedir ao empregado A Angústia da Influência (The Anxiety of Influence), de Harold Bloom, e pede A Angústia da Flatulência. Poderá ter confundido Bloom com Carolina Salgado.
Por mais que me desgoste a situação, e a tente contrariar adiantando outros assuntos, os posts deste blogue que mais recorrentemente são consultados possuem como títulos «Maria e o sexo oral», «Pornografia para crianças» e «Garganta Funda». Eles não são nada daquilo que aparentam ser – bastará aos leitores fazerem uma rápida procura no motor interno para o poderem confirmar – mas tal não demove esse exército de cidadãos lusófonos que sistematicamente se dedicam a pesquisar semelhantes assuntos na sex-machine planetária que se dá pelo nome de Google. A minha esperança é que o título deste post possa ajudar a criar um ponto de equilíbrio e me reabra as portas da Salvação. Oxalá e amen.
É muitas coisas a solidão. É o estado de quem se encontra ou sente desacompanhado. É o próprio isolamento. É também, anuncia secamente o Houaiss, essa «sensação ou situação de quem vive afastado do mundo ou isolado no meio de um grupo social». A solidão é tudo isto é, e é muito mais. Mas sempre uma condição que se define por um estatuto complexo e contraditório. É boa e é má, é inevitável ou impossível, é admirável ou indigna, mas raramente somos capazes de a situar no meio-termo ou de lhe sermos indiferentes. O mundo contemporâneo teme-a quando a associa ao isolamento imposto pela vida nas cidades, pelo exílio, pelo cativeiro. Mas nega-a quando considera que «todo o homem é uma ilha» e, ao mesmo tempo, o integra num imenso arquipélago. Na era da comunicação de massas e do triunfo da sociedade em rede, a solidão radical tende até a ser considerada doentia, subversiva, quase incompreensível, devendo por isso ser proscrita. Ao ponto de, nas escolas básicas, as equipagens de psicólogos perseguirem as crianças «diferentes» que, não sendo autistas, se isolam apenas porque gostam de construir o seu próprio mundo, ou, mais simplesmente, porque lhes desagrada aquele universo hipersociável e ruidoso que lhes pretendem impor.
O último número especial do Magazine Littéraire inclui um extenso dossier sobre A Solidão (La Solitude), tomada ali, de forma dúplice, como «mal de vivre ou quête de soi». Nele se abordam, em quase três dezenas de artigos desiguais mas sempre propedêuticos, instantes ou experiências dessa condição que oscila entre «a punição divina ou a fatalidade sociológica» sempre que é imposta, e «a estranha doçura», elemento da busca da felicidade e da plenitude, que pode adquirir quando é procurada. A filosofia, a religião, a arte e a literatura são os inevitáveis territórios de aproximação propostos neste conjunto de textos, através dos quais se fala da solidão do trabalho do filósofo e do escritor, da pintura de Goya, Van Gogh ou Magritte, da decisão pessoal de Aquiles, do exílio de Ovídio, da vida e das buscas dos ermitas, das reflexões de Montaigne, Pascal e Rousseau, do individualismo romântico que enaltece o solitário, de Emerson e Flaubert, de Nietzsche e Rilke, de Kierkegaard, Heidegger e Blanchot, de Peter Handke e de Paul Auster. No final, dois artigos expõem perspectivas alternativas: um aborda o «complexo de Robinson», mostrando a obra de Daniel Defoe como tentativa para enunciar definitivamente a condição social, não-solitária, do humano; o outro trata as «novas solidões» impostas agora ao ser humano comum e determinadas pela precariedade e pela mobilidade do emprego, pela brutal expansão da vida urbana, pela dissolução das solidariedades familiares, pela crescente insularização das gerações. Recomenda-se, naturalmente, que a leitura deste número do ML se faça em modo solitário.
O Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas tem toda a razão. A possibilidade de fusão do BCP e do BPI é um assunto privado que interessa a quem o promove apenas como negócio, mas que omite, pelo menos em termos públicos, os aspectos menos bonitos e mais complexos da possível operação. Não deixa de ser um sinal dos tempos que nem uma palavra tenha sido dita – e os repórteres também nada perguntaram – a propósito da sorte de boa parte das dezenas de milhar de trabalhadores que servem as duas instituições bancárias e que, a confirmar-se a operação, irão inevitavelmente para o desemprego. O governo não terá nada a ver com isto?
Habitualmente distribuídos entre tias e avozinhas – com o devido respeito, como dizia a outra, por aquelas que efectivamente o são –, cargos públicos como a presidência da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ou a provedoria da Casa Pia de Lisboa excluem geralmente os homens. Marca, ou nódoa, de um atavismo cultural que continua a considerar as mulheres como particularmente sensíveis para determinados cargos ligados ao exercício da prodigalidade cristã, e os homens (se ressalvarmos o Padre Melícias) como uns brutos «muito homens» que não têm vocação para tais mariquices. Ou tratar-se-á da política de quotas sob a forma de farsa?
As declarações de James Watson sobre os testes que «provam» a menor inteligência dos pretos em relação à inteligência média dos caucasianos fizeram recordar uma história de há muitos anos. A história de Rosalind Franklin, que desenvolvia em King’s College, desde 1950, um trabalho crucial para a descoberta da estrutura molecular do ADN que daria a Francis Crick, a Maurice Wilkins e ao mesmo Watson, em 1962, o Nobel da Fisiologia e da Medicina. A «descoberta» foi divulgada na Nature durante a primavera de 53, quando Crick e Watson trabalhavam no Laboratório Cavendish, da Universidade de Cambridge, mas ambos omitiram no artigo o contributo, entretanto publicado, da sua colega de King’s. Há décadas que se comenta que o fizeram pela pouca importância que atribuíam ao facto desta ser mulher. Rosalind morreu em 1959, devido a uma doença contraída no laboratório, enquanto Crick e Wilkins desapareceram deste mundo em 2004. Quanto a Watson, parece que continua por aí a fazer estragos.
Um comentário a este post coloca este episódio em termos diferentes. Vale a pena conhecer esta outra leitura, a qual contraria aquela que aqui transparece.
Storia della Bruttezza, o último livro de Umberto Eco, deveria chamar-se em português História da Fealdade, e não História do Feio, como aconteceu na novíssima edição da Difel. Pois aquilo que se expõe neste esplêndido livro-álbum (precedido de uma História da Beleza publicada em 2004) não é o relato da sucessão de debates em redor do conceito, mas antes uma avaliação, formal e situada no tempo, «do feio em si mesmo (um excremento, um cadáver em decomposição, um ser coberto de chagas que emana um cheiro nauseabundo)» e também «do feio formal, como desequilíbrio na reacção orgânica entre as partes e o todo». A ambos associa ainda Eco um terceiro tipo, resultante da representação artística dos dois primeiros.
É então em redor das figurações da fealdade que concretizam o conceito flutuante de feio, que este livro é construído. Que ele nos vai mostrando um cortejo de diabos, monstros e portentos, de figuras grotescas e carnavalescas, mulheres pavorosas, bruxas e seres sádicos. E também de românticos que se comprazem da sua fealdade (infelizes, doentes, perseguidos, solitários), de decadentes, freaks, fantasmas e mortos-vivos, de produtos resultantes da recusa vanguardista do consenso, das expressões desequilibradas do kitsch e da estética camp. Integrando reproduções de imagens e de textos que, longe de qualquer paradoxo, produzem no leitor uma sensação ambígua, amálgama de repulsa e de atracção, de horror e de beleza. Recorrendo a uma estratégia de compulsão que o triunfo da imagem e as estratégias contemporâneas da comunicação conduziram hoje a um ponto de neutralidade. A este lugar onde os conceitos de belo e de feio perderam o seu lado aparentemente absoluto e deixaram de funcionar como opostos. Podemos, a partir das páginas deste livro, perceber melhor o modo como aqui chegámos.
Em 1921, Lenine, ordenou a criação de um laboratório de venenos secreto, um «gabinete especial» que tinha por missão «combater os inimigos do poder soviético». Mas este rapidamente foi transformado num instrumento de ataque aos dirigentes comunistas que podiam fazer sombra à tomada do poder por José Estaline. Foi o caso do general Mikhail Frunze, envenenado logo em 1925 no decorrer de uma intervenção cirúrgica à qual foi submetido contra a sua vontade. Após longa investigação, o escritor e jornalista russo Arkadi Vaksberg traçou, em Laboratório de Venenos (da Alêtheia), a história minuciosa de uma interminável série de assassinatos políticos, que começaram nos tempos de Lenine e de Estaline e continuaram, já após o fim da União Soviética, com a eliminação de Anatoli Sobtchak, o antigo presidente da câmara de São Petersburgo, do deputado e jornalista Iuri Chtchekotchikhine e do espião Alexander Litvinenko. Victor Yushchenko, o presidente ucraniano, terá escapado por pouco.
O livro apresenta uma massa documental impressionante, com o senão de, referindo muitos dos fundos de arquivo consultados, não identificar outros e remeter para o seu espólio pessoal a origem exacta de informações cruciais. O que reduz a possibilidade deste livro se transformar num libelo acusador de efeitos devastadores para a imagem pública da acção política da maioria dos principais dirigentes soviéticos e russos. De Lenine a Putin. Ainda assim, a sua leitura, que deve ser feita de uma forma crítica, não deixa de impressionar pelo modo como mostra o grau de refinamento que essa antiquíssima forma de eliminação violenta dos adversários políticos foi adquirindo por aquelas paragens. E por preparar-nos para as cenas dos próximos capítulos.
Já não podemos dizer que as boas medidas deste governo são só aquelas que não implicam encargos adicionais para o Orçamento de Estado. Para 2008, o OE propõe que os pastéis de bacalhau desçam ao nível dos croquetes, com uma redução do IVA de 12 para 5%.
1. Fátima ressurge. Mas o que me preocupa no seu ressurgimento não é a intrusão, na paisagem caótica daquela incaracterística cidade de oito mil habitantes e de não sei quantos milhares de forasteiros, de mais uns quantos edifícios e de uma igreja gigantesca. É a forma acrítica como a comunicação social se extasia – tal como aconteceu com os estádios do Euro – com o seu luxo e dimensão. É a forma passiva como faz reverberar o significado dos acontecimentos de 1917 e da sua leitura pelos poderes instalados após o 28 de Maio. É o modo como a transmissão da «mensagem divina» nos é mostrada como acontecimento e não enquanto construção. A maneira como a ignorância, a superstição e o desespero surgem nas reportagens e nos ecrãs envolvidos numa atitude farisaica de benévola aceitação, de quase cumplicidade. A meu ver, também de crueldade.
2. Os templos católicos são hoje, quase sempre, museus do kitsch. Juntam à sua arquitectura original, imagens toscas, peças avulsas, decorativas, onde predominam rendas e brocados, sedas e tafetás, acessórios electrónicos obsoletos, lâmpadas fluorescentes, alcatifas carmesim, anexos atípicos mandados erguer por um qualquer pároco ou benemérito. Num certo sentido, essa deprimente profusão de objectos sem norte cumpre a sua função sacralizadora, dado o padrão de gosto e a capacidade de elaboração simbólica da maioria esmagadora dos crentes. Por isso, a nova Cruz Alta de Fátima, concebida pelo alemão Robert Shad – e que, sempre optimista, Frei Bento Domingues tanto elogia numa crónica hoje publicada – é de facto, na sua concepção ousada, moderna, um objecto espúrio. Enquanto deambulam pelo terreiro grande da Cova da Iria, dele dizem quase todos os entrevistados que «é uma decepção», «não me diz nada», «não percebo». Poderia ser de outra forma?
Ao meu lado, duas estudantes, universitárias pelo negro trajar, procuram um livro. «Ele deve gostar deste, não achas?», pergunta uma delas, segurando um título que fala de um amor que não sei quantos. Abre o volume e fecha-o de novo sem ler uma linha: «pensando melhor, talvez ele não goste disto». E atira-o para cima da mesa. «Olha, Sónia, talvez, este», diz a outra. «Qual deles, Martinha?»«Este da Margarida não-sei-quê não-sei-quê».
Afinal o Vaticano ainda não deferiu a canonização dos três pequenos pastores da Cova da Iria. Só a diferiu. Parece que falta uma evidência confirmada em laboratório. Para a Santa Sé, diz o sibilante cardeal Dom José Saraiva Martins, natural de Gagos de Jarmelo e prefeito da excelentíssima Congregação das Causas dos Santos, são sempre necessárias «provas científicas do milagre».
Vale a pena seguir a interessante série «Eles adoram queimar», publicada por Francisco José Viegas n’A Origem das Espécies. A propósito do episódio da incineração de uns quantos exemplares da revista Veja por esta incluir um artigo muito crítico da personalidade e da acção de Che Guevara. A série é, no mínimo, bastante educativa.
Já depois de publicado este post chegou-me o número da Veja. O artigo em causa, do qual, aliás, em boa parte discordo – mais pela leitura parcial que propõe do que pelos factos que invoca – é um texto opinativo completamente banal, igual a milhares de outros que todos os dias nos chegam. O problema residirá na proposta de questionamento de uma certa dimensão do sagrado. E desta vez não se trata de Maomé…
Um homem que amou muito os livros despediu-se dos livros que tanto amou. Não porque deixasse de os querer para si, mas apenas porque, aos 90 anos, no pleno uso das suas faculdades intelectuais, a vista simplesmente já não lhe obedece. Olhou os seus livros uma última vez, virou costas e foi à sua nova vida de estantes vazias. Conheço poucas histórias de renascimento tão tristes quanto esta.