Ao meu lado, duas estudantes, universitárias pelo negro trajar, procuram um livro. «Ele deve gostar deste, não achas?», pergunta uma delas, segurando um título que fala de um amor que não sei quantos. Abre o volume e fecha-o de novo sem ler uma linha: «pensando melhor, talvez ele não goste disto». E atira-o para cima da mesa. «Olha, Sónia, talvez, este», diz a outra. «Qual deles, Martinha?»«Este da Margarida não-sei-quê não-sei-quê».
Afinal o Vaticano ainda não deferiu a canonização dos três pequenos pastores da Cova da Iria. Só a diferiu. Parece que falta uma evidência confirmada em laboratório. Para a Santa Sé, diz o sibilante cardeal Dom José Saraiva Martins, natural de Gagos de Jarmelo e prefeito da excelentíssima Congregação das Causas dos Santos, são sempre necessárias «provas científicas do milagre».
Vale a pena seguir a interessante série «Eles adoram queimar», publicada por Francisco José Viegas n’A Origem das Espécies. A propósito do episódio da incineração de uns quantos exemplares da revista Veja por esta incluir um artigo muito crítico da personalidade e da acção de Che Guevara. A série é, no mínimo, bastante educativa.
Já depois de publicado este post chegou-me o número da Veja. O artigo em causa, do qual, aliás, em boa parte discordo – mais pela leitura parcial que propõe do que pelos factos que invoca – é um texto opinativo completamente banal, igual a milhares de outros que todos os dias nos chegam. O problema residirá na proposta de questionamento de uma certa dimensão do sagrado. E desta vez não se trata de Maomé…
Um homem que amou muito os livros despediu-se dos livros que tanto amou. Não porque deixasse de os querer para si, mas apenas porque, aos 90 anos, no pleno uso das suas faculdades intelectuais, a vista simplesmente já não lhe obedece. Olhou os seus livros uma última vez, virou costas e foi à sua nova vida de estantes vazias. Conheço poucas histórias de renascimento tão tristes quanto esta.
A jornalista insiste com António Lobo Antunes. Trata-o quase como se tratam os velhinhos. «Comoveu-se» com a recepção que teve em Berlim? E «comoveu-se» com o Prémio Camões? Acontece que, por estes dias, comover-se – ou seja, chorar em público – passou a ser notícia. Uma patologia simpática, que se procura em certos rostos. As câmaras da televisão buscam sedentas as lágrimas nos olhos de Rui Costa, de Cristiano Ronaldo, de Nelson Évora, de Luís Filipe Menezes. Mesmo quando elas custam a sair. Sampaio foi durante algum tempo o nosso chorão de estimação e as câmaras procuravam-no: levou o lenço aos olhos? estava a fungar? a voz embargou-se-lhe? E se sim, que admirável! E que belas, que belas, as lágrimas amargas de Eusébio ou as ardentes dos jogadores da selecção de râguebi! E os duros, não se comovem? Gostamos de imaginar que sim, embora precisemos esperar para obter a prova. Câmaras prontas na direcção de Filipe Scolari, de Vasco Pulido Valente, de Manuela Ferreira Leite, de Valentim Loureiro, de Paulo Portas! E José Sócrates, chorará? Não importa se chora sozinho e com a cabeça entre as pernas, mas sim se o mostra em público. Será apanhado, um dia, e então rejubilaremos. E a Kate McCann, porque não chora baba e ranho, como Elton John quando soube da morte da Diana, que chorava todos os dias?
Neste tempo seduzido pelo divertimento ininterrupto, pelo efémero que já era, pelo sorriso fácil, rápido e fotogénico, comover-se, chorar, torna-se notícia, um luxo, que irrompe no quotidiano previsível daqueles que vendem uma imagem de felicidade. Procura-se nos famosos o instante de abandono, a morte do familiar, a carreira em queda. E fotografam-se-lhes então as lágrimas. As daqueles que as vertem todos os dias, essas nada têm de particularmente interessante. São banais, por vezes um tanto sórdidas, e não importa perder tempo com elas. As de António Lobo Antunes, que todos reconhecemos, essas sim. Queremos vê-las, ou, pelo menos, que ele nos fale um pouco delas. Mas só mesmo um pouco.
André Gorz e D. diante da fábrica Renault-Billancourt, em 1947. Foto. Suzi Pillet
Fundador, com Jean Daniel, do Nouvel Observateur, colaborador de Les Temps Modernes e de Multitudes, marxista heterodoxo, amigo de Marcuse, amigo e ex-amigo de Sartre, anti-capitalista descrente do proletariado, pensador da ecologia política, André Gorz, o filósofo austríaco-francês, suicidou-se hoje em sua casa, juntamente com a mulher, Dorine. O mundo que foi preenchendo a vida de ambos já o fizera há muito. «Os corpos do casal repousavam um ao lado do outro».
Já quase toda a gente crucificou Maria José Nogueira Pinto pela peregrina ideia de fazer erguer uma Chinatown alfacinha que afastasse os vendedores chineses da Baixa, dando lugar apenas a um comércio «decente». Com preços que não envergonhem o cliente, claro. Pulido Valente faz hoje, no Público, uma acusação particularmente contundente, considerando que ela «não tem no ADN o mais vago vestígio do amor português pela pechincha». Ora nem mais. É o que se pode chamar a excelente conclusão de uma «análise objectiva do conteúdo de classe» das declarações da senhora.
Reconhecemos os clichés garantindo que todos americanos são extremamente estúpidos, que todos os japoneses são workaholic nerds de instintos acentuadamente suicidas, que todas as suecas são umas boazonas um tanto ou quanto aventureiras, que todos os irlandeses são uns alcoólicos que se vestem de verde. O «caso McCann» tem-nos feito relembrar o estereótipo do inglês. «Calmo», «fleumático», «demasiado contido» dizem e repetem polícias, advogados, jornalistas, comentadores ou psicólogos. Um professor espanhol, visivelmente problemático, assegurou mesmo, na RTP1, que, no caso «del matrimonio McCann», tanta contenção acabava por revelar a evidência da culpa. «Continental people have sex life; the English have hot-water bottles», escrevia George Mikes em How to be an Alien, um livro no qual se parodiava um certo modelo do «ser-se inglês», transformando os súbditos da rainha Elizabeth Alexandra Mary em seres frouxos, impenetráveis e potencialmente violentos como todos os frouxos. A PJ não irá por aí, naturalmente.
Não gosto de hinos porque não gosto de guerras. Nem mesmo daquelas muito pequenas, travadas nos estádios à custa de petardos, palavrões e pontapés nas canelas. Os hinos são cânticos guerreiros, ou marchas militares, que lembram sempre o fogo cerrado e a morte em combate, falam de pátrias e de heróis, de glórias passadas ou previstas, e se destinam a motivar como um urro antes do mergulho num rio de água gelada. Mais prosaicamente, são também instrumentos de submissão do indivíduo ao colectivo, como a ordem unida que os exércitos ensinam aos recrutas desde o primeiro dia no quartel. E servem para exaltar o ânimo e a coragem. Não são cantilenas, lengalengas, como aquelas palavras entarameladas que balbuciam os jogadores-milionários da nossa selecção de futebol. São brados e estados de alma, como o cantam, vibrantes e únicos, os nossos rapazes da selecção de râguebi, neste momento a disputar em França o mundial da modalidade. Se não me entendem, vejam e oiçam como se canta um hino a sério, no próximo dia 15, cinco minutos antes dos corajosos Lobos defrontarem os esplêndidos All Blacks e a vozearia maori da sua haka. E depois cantem-no assim. Ou então façam como eu e calem-se para sempre.
Duas notas posteriores:
1. Para o L’Equipe, «enquanto se ouvia A Portuguesa eles cantavam com tanta força que até dava para desfazer os maxilares». O Guardian comenta que o hino foi cantado com «um orgulho fora do normal», e que «não houve o ‘estou a perder a compostura porque estou a cantar’ que tantos profissionais mostram hoje».
2. Bem procurei uma fotografia totalmente apropriada para ilustrar este post, mas quem a encontrou, magnífica, foi o Carlos Freitas, publicando-a no seu blogue Prosas Vadias. Pode vê-la também aqui, em todo o seu esplendor. E aqui o vídeo.
Julgo tratar-se de uma doença. Gosto muito, mesmo muito, de cinema, passei uma fase da vida em que, cheio de olheiras mas sempre desperto, via em média uns 10 filmes por semana – antes ainda do surgimento do VHS, se bem me faço entender –, continuo a ver aquilo que posso, mas raramente consigo guardar a memória dos filmes por mais de umas quantas horas. Se não tomo umas notas ou guardo o recorte de alguma crítica que saiu na imprensa, lá se vão as imagens, os sons, as figurinhas a mexer e os «perfumes visuais». Por vezes, sobra um vestígio acessório associado a um artigo que possa ler, a um livro que evoque um certo filme, a um programa de televisão ou a uma passeata pelo You Tube. Dos Dez Mandamentos lembro-me apenas da dureza das cadeiras em madeira do Cineteatro da Figueira e de dar uma volta nos carrinhos de choque antes da sessão. De O Homem que Amava as Mulheres recordo-me só do vislumbre das pernas da Brigitte Fossey (mas já não me lembrava de todo do nome dela). De Saló ou os Cem Dias de Sodoma tenho a exclusiva memória de o ter visto com uma terrível dor de dentes. Isto para falar apenas de recordações com mais de trinta anos. Acho por isso extraordinária a forma como certas pessoas – de João Bénard da Costa, que tem sempre uma referência cinéfila para contar, até uma amiga minha que sabe mesmo dizer quais as condições atmosféricas e com quem foi ao cinema no dia tal do ano xis –, falam de filmes que viram há décadas. Com aquela mesma certeza descritiva que usamos para relatar um encontro da manhã ou a ida ao hipermercado. Invejo-os e acho que a medicina devia procurar uma cura para quem padece deste tipo de esquecimento. Faria da memória das vidas de quem dele padece, ou pelo menos da minha, um território com toda a certeza um pouco mais movimentado.
Mais um desafio em cadeia. Este, chegado através do Eduardo Pitta, parece estimulante: contar os dez livros que não mudaram a nossa vida. Vale a pena verificar, nesta série, como obras reputadas «incontornáveis» são repetidamente citadas. Aqui ficam pois os meus livros-niet, todos eles lidos sem deixarem manchas. Dez obras que poderiam, claro, ser outras cem.
قُرْآن/ Corão (séc. VI), de Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim (abençoado copy-paste)
A la Recherche du Temps Perdu / Em Busca do Tempo Perdido (1913-1927), de Marcel Proust
Ulysses / Ulisses (1922), de James Joyce
Der Zauberberg /A Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann
Mrs. Dalloway(1925), de Virginia Wolf
Как закалялась сталь / Assim foi Temperado o Aço (1945), de Nikolai Ostrovski
Huis-Clos/ Entre Quatro Paredes (1945), de Jean-Paul Sartre
Die Blechtrommel / O Tambor (1956), de Günter Grass
毛主席语录/ O Livro Vermelho (1964), de Mao Tsé-Tung (este não mudou, mas quase mudava)
Generation X: Tales for an Accelerated Culture / Geração X (1991), de Douglas Coupland
Mas, por supuesto, o primeiro livro da lista pode estar ainda a tempo de transformar a minha vida.
A Coreia do Norte parece ir em breve abandonar o «eixo do mal» e promete «desmantelar todas as centrais nucleares», os taliban agora não degolam todos os missionários cristãos nem dão chibatadas em todas as sul-coreanas que apanham a viajar sem burka, o general Khadaffi tornou-se justo, compassivo e um excelente cliente para a indústria francesa do armamento. O mundo já não é o que era.
As revelações sobre a longa e profunda crise de fé que, contra todas as aparências, viveu Agnes Gonxha Bojaxhiu, Teresa de Calcutá, não podem deixar-nos indiferentes. A partir da correspondência mantida ao longo de 66 anos com os seus confessores e superiores, que o livro Mother Teresa: Come Be My Light põe agora à nossa disposição, é todo um percurso de dúvida que o acto de entrega ao tormento dos outros e às missões que lhe foram destinadas pela sua Igreja jamais foram capazes de resolver por inteiro. São ali recorrentes as referências a sentimentos de «secura», de «escuridão», de «solidão» e de «tortura», que, no constante convívio com o Inferno que foi quase sempre a sua vida, a levaram a duvidar da existência do Céu e até do próprio Deus. «O sorriso», o seu sorriso, escreveu Agnes, o sorriso que sempre lhe associamos, «é uma máscara» ou mesmo «um manto que cobre tudo». E este não parece tratar-se de um trajecto de ascensão espiritual rumo ao absoluto da fé, como o de Santo Agostinho (dizia ele, sabemos lá nós), mas exactamente o seu inverso: um olhar permanente, e inevitavelmente amargurado, sobre uma dúvida que não cessa e colide com o próprio sentimento de dever. O que não pode deixar de nos oferecer um olhar bem mais humano sobre a vida difícil desta albanesa pequenina, missionária, e, sabemo-lo agora, sempre sofrida e inquieta. Santidade é isto, é duvidar, é crer e descrer, não a entrega cega, segura e néscia seja a que fé ou a que causa for.
Citações retiradas de um artigo da Time que a revista Visão traduziu e publicou.
Marguerite Duras afirmou, em A Vida Material, que «o jornalismo só releva da literatura quando é exercido de forma passional». Acabei de ler A Face da Guerra (Dom Quixote), uma selecção de reportagens sobre diversos conflitos escritas no terreno por Martha Gellhorn (1908-1998) entre os anos 30 e 90 do século passado, começando com a Guerra Civil de Espanha (a primeira reportagem é de Julho de 1937), passando por Dachau, Saigão ou Jerusalém, e fechando com a invasão americana do Panamá. Ao percorrer aqueles textos, que quase não perecem datados, acabei por ficar ainda mais seguro da justeza da afirmação de Duras. Um jornalismo como o praticado por Gellhorn, que não receia a polémica, que informa mas também se emociona e toma partido – e não engana o leitor, pois assume que o faz – é o único que se distingue e permanece para além do instante. Separando-se daquele outro, supostamente «isento» e «objectivo», sem corpo, alma ou identidade. Que nos pode ser de alguma utilidade prática, revelando o onde, o quando ou o para quê, mas logo se torna irrelevante. E que acaba por morrer incógnito.
Neste ocidente que nos cabe, quanto mais se penetra em sociedades de matriz cultural católica mais se sente o peso longevo do eurocentrismo e da rigidez hierárquica herdada dos tempos que antecederam a afirmação «igualitária» da burguesia. Nelas continua a reproduzir-se essa forma superior de preconceito que associa o destino do indivíduo ao seu invólucro. À forma como este se mostra em público, ao peso da identificação estatutária materializada em gestos, na fala, na valorização simbólica do ter e do parecer. A aceitação do diferente define-se na razão directa da domesticação da sua diferença.
Em Cancún, no México, Rigoberta Menchú, activista indígena, candidata à presidência da Guatemala e Prémio Nobel da Paz, foi há dias expulsa de um hotel de cinco estrelas por ter sido confundida com uma vendedora ambulante. Terá sido um caso de ignorância e discriminação que poderia ter ocorrido aqui, em Lima, Dublin ou mesmo em Viena. Poderia, e provavelmente foi-o. Mas muito mais dificilmente teria acontecido em cidades como Nova Iorque, Estocolmo ou Amesterdão. Afinal, foram séculos de pedagogia da resignação, ensinando que cada um tem o seu o lugar e a sua «cruz», mas que nem todas as «cruzes» possuem o mesmo valor. De vigilante inquisição da divergência, de consagração barroca da hierarquia (que a liturgia vaticana, aliás, tem preservado no essencial), de ensino sistemático da reverência diante do cesarismo, que o universo católico herdou. A relação preconceituosa com os sinais que espartilham a vida social, a relativização do valor da diversidade, o respeito pela ordem social e pelos seus símbolos, não são factores que se apaguem da memória e da experiência colectiva nos escassos cinquenta anos que se sucederam ao último acto conciliar. Aliás, sem eles, democratizada e desprovida de atitudes paternalistas, a própria Igreja católica terá dificuldade em preservar o poder, a autoridade e a noção de supremacia moral que ainda conserva. Coisa que o actual papa percebeu há já muito tempo.
Compreendo as possibilidades dramáticas de acontecimentos que rejeito num plano mais ou menos racional. Uma tourada, por exemplo. Ou um combate de wrestling, uma sessão de flamenco, uma longa procissão de penitência. E não só admito como, em determinadas circunstâncias, consigo vivenciar os instantes de volúpia ou de exaltação que esses momentos produzem em alguns. Aceito, por isso, que em determinadas pessoas a missa em latim, o canto gregoriano, a sombra das vestes litúrgicas, o aroma do incenso ou a sonoridade de um órgão de tubos, produzam um efeito de comoção, delírio ou sublimação que lhes dará algum prazer.
Cedo automatizei as respostas dos fiéis no ofício celebrado em latim medieval. Sem entender a maior parte do que ouvia e das palavras que pronunciava, introduzia-me, através da solenidade mágica da língua litúrgica, no ritual colectivo que em breve iria ser abalado. As transformações democráticas introduzidas no cerimonial após o termo do Concílio Vaticano II produziram, sem dúvida, um efeito de aproximação entre o celebrante e os fiéis. Ao mesmo tempo, porém, diluíram a auréola de sagrado conferida pela missa como acto colectivo no qual a pompa e a incompreensão ampliavam a sensação de participação. Entendo, por isso, o texto de João Bénard da Costa saído no Público de domingo, no qual este desenvolveu uma certa defesa cultural de Summorum Pontificum, o recente documento papal através do qual Bento XVI aceitou a validade da reintrodução não-obrigatória do latim. No fundo, Bénard da Costa, em nome da sua própria vivência de uma religiosidade católica que viria a abandonar nos finais da década de 1960, reconhece que as mudanças alteraram a substância de uma forma milenar de viver a fé. E que tal terá contribuído para o questionamento da própria fé.
Percebo João Bénard, ainda que continue a ver como avanço no sentido de uma certa humanização as medidas conciliares e como sinal de retrocesso este tipo de iniciativa do Sumo Pontífice. Afinal, quando eu próprio ia à missa, sentia um grande alívio ao responder com um rápido «Deo gratias» ao conclusivo «Ite, missa est». E a seguir raspava-me.