É com espírito de naturalista, qual David Attenborough amador, que observo sempre, nos congressos dos partidos do Grande Centro, as manobras e ademanes das crias-jotas durante os seus rituais de iniciação. Afiando as facas, já de blazer sombrio convenientemente ajaezado, saia-casaco sem mácula, melena amansada, expressão rectilínea e voluntarismo à flor da pele. Preparando o currículo que as conduzirá ao futuro de predador anotado nas agendas. Clonadas e previsíveis como peças em cadeia de montagem. Soft-porno do bom para quem se excita com muito pouco.
«Doce soles», dijo. /«Diez». / «No sea codicioso. Es nuevo. Me há legado hoy». / «Yo sé que es nuevo», dije. «Lo escribí yo».
Por escrever isto, alguns amigos desejarão comer-me vivo, assado no forno, depois de convenientemente estripado, cortado aos pedaços e deixado a marinar em vinho, vinagre e louro. No mínimo, quererão denunciar-me à polícia. Mas não posso deixar de simpatizar com uma prática relatada sábado passado numa página do El País. Em «La vida entre los piratas», o escritor peruano Daniel Alarcón fala-nos de uma realidade do seu país que pode vir a ecoar pelo planeta: no Perú, o mundo dos livros copiados movimenta já mais dinheiro do que o das obras legalmente produzidas. Mas isso não parece ser necessariamente um mal: há gosto pela leitura mas pouco dinheiro para comprar livros e os leitores recorrem à contrafacção – não falamos de fotocópias, mas sim de cópias quase perfeitas dos originais –, existindo já autores que não se importam de que tal aconteça. Uma vez que ganham pouco ou nada com o seu trabalho, preferem acima de tudo que os leiam. Sei que esta prática da bibliocandonga terá alguns inconvenientes, mas desconfio que, a generalizar-se, poderá produzir algumas situações interessantes. A baixa dos preços de capa, por exemplo, com menores custos com o trabalho das tipografias, ou um maior respeito das cadeias de livrarias e das empresas de distribuição por autores e pequenos e médios editores, ou o natural alargamento do número de pessoas que compram livros. Um cenário de utopia erguido sobre um campo de batalha, com sirenes, fugas pelos telhados e ruas esconsas pelo meio. Alguém quererá experimentar?
Não acreditem em tontices, boatos da reacção ou síndromes da dor de cotovelo associados a falta de assunto. Deixei de fazer parte da equipa do Arrastão rigorosamente pelos motivos que por lá expus à cidade e ao planeta. E permanecendo amigo, companheiro e camarada daquela malta. Mai’nada.
Partindo da correspondência, em larga medida inédita, trocada entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, Elzbieta Ettiger, professora de Humanidades no MIT, narra com detalhes o atormentado caso de amor e de proximidade intelectual que, em fases distintas, uniu dois dos mais destacados pensadores alemães do século passado. O que lhe interessa não são, naturalmente, os detalhes, em larga medida ausentes deste livro, da relação conturbada mas persistente entre a intelectual judia que denunciou o totalitarismo e o autor de Ser e Tempo que foi um apoiante confesso e contumaz do Partido Nacional-Socialista. Aquilo a que aqui vale a pena atender é à revelação das alegrias e das mazelas de uma ligação conturbada, desafiando a imagem padronizada de um Martin observado como pensador e académico austero e subtil, e de uma Hannah vista como intelectual independente e absolutamente segura de si. Ettinger sugere uma releitura e uma relativização de marcas que num certo momento julgámos poder estabelecer sobre a obra e o carácter de cada um deles.
Hannah Arendt e Martin Heidegger. Trad. de Isabel Castro Silva. Relógio d’Água, 152 págs.
Sobre o trabalho do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski escrevi em tempos isto. Foram-se depois adensado rumores sobre a sua actividade como agente dos serviços secretos comunistas e, nessa qualidade, como denunciante de colegas de trabalho e pessoa com privilégios que os outros não tinham. Entretanto acaba de ser editada a biografia escrita por Artur Domoslawski, seu compatriota, também ele jornalista, que o conheceu de muito perto e é agora acusado de ser excessivamente benévolo para com o amigo Kapuscinski. Trata-se de um daqueles casos, admito, em que não sou capaz de fazer um juízo moral assim da noite para o dia. É como nos amores indecisos: preciso de um tempo para pensar.
Suicidado aos 18 anos, em 1770, na cama da sua mansarda em Holborn, um dos mais mal-afamados bairros da Londres da época, o poeta Thomas Chatterton transformou-se rapidamente no arquétipo do herói romântico. Milhares de anémicos jovens viram-se ao espelho, por mais de um século, como Chattertons em potência, tão geniais quanto incompreendidos. Pois agora Jürgen Heizmann, um académico alemão que ensina na Universidade de Montréal, vem confirmar aquilo que a verdade alternativa desde há algum tempo vinha murmurando: que os poemas do jovem Thomas foram sistematicamente decalcados de manuscritos antigos (um falsário pois) e que a morte prematura não se deveu a suicídio, mas sim a um tratamento mal aplicado contra uma doença venérea. A ser verdade, não passa de mais um caso em que a doce fantasia excedeu largamente a crueza dos factos. Fiquemo-nos pois pela lenda e atiremos a realidade pela janela.
Pode parecer uma bizantinice, mas vale a pena encarar a questão levantada por Pedro Correia – de quem cordialmente ‘dissido’ neste particular (e por vezes noutros) – a propósito da palavra ‘dissidente’, quando considera que o termo não deve ser utilizado para referir opositores ou contestatários isolados dos regimes de Pequim ou de Havana. Para sustentar a sua opinião, refere que ele foi cunhado na antiga União Soviética «para designar todos quantos se afastavam da ‘normalidade’ política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica». Se o regime dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia então ser ‘dissidente’. Ou seja, anormal, louco e criminoso.
É parcialmente verdadeiro este referencial histórico, mas não o é inteiramente. Na verdade, a palavra surgiu de início, no ocidente, para se referir aos intelectuais soviéticos que se opunham, quase sempre isoladamente e de forma ilegal, a um regime totalitário que remetia a diferença, a divergência em relação ao pensamento único e a um sistema que se considerava a caminho da perfeição, para a esfera da marginalidade e da doença. Como era possível alguém em seu perfeito juízo, e para mais um cidadão supostamente informado, membro da intelligentsia, divergir do cientificamente determinado e comprovado, do tão indiscutivelmente justo que nem precisava ser sufragado? Foi o eco do combate desses homens e dessas mulheres – nem sempre com idêntico sentido, uma vez que agiam isoladamente ou em pequenos grupos e não constituíam propriamente uma associação com objectivos programáticos – que os revelou como… dissidentes. E para cunhar o qualificativo não foi preciso ir longe: bastou recorrer à velha palavra dissidentia, que em latim significa oposição, antipatia, desarmonia. E hoje lá vem no dicionário dissidência como o «acto de separar-se (de uma parcela de um grupo, agremiação, partido, etc.) em virtude de divergência de opiniões». Em qualquer tempo ou lugar.
Sim, Hu Jia ou Wei Jingsheng, como Guillermo Fariñas ou Yoani Sánchez, podem ser considerados dissidentes. E até o devem ser, uma vez que os antecedentes históricos do qualificativo apenas enobrecem o seu combate pelo direito a pensarem por si e a comunicarem aos outros aquilo que pensam. O direito a dissidir, o imperativo moral de viver e actuar em dissídio. Ainda que se enganem mil vezes.
Desde que em 2006 entrou em vigor em Espanha a legislação destinada a reprimir o ancestral hábito de fumar, diminuiu o consumo do tabaco mas cresceu o número de fumadores. Em 2009, 31,5% dos nuestros hermanos afirmou fumar, no mínimo, de forma moderada, quando três anos antes a percentagem era de 29,5%. A diferença seria insignificante se não derrotasse os objectivos «profilácticos» da lei e não servisse agora de justificação para impor regras ainda mais severas e restritivas. A verdade é que ao longo destes anos elas se mantiveram razoavelmente suaves e de aplicação bem mais flexível do que aconteceu em Portugal, como qualquer cidadão pode constatar, entre três passas e outras tantas baforadas, de cada vez que cruze a linha de fronteira e avance até à distância de um tiro de bacamarte. Porém, se tudo for agora uniformizado pelo diapasão do antitabagismo furioso, deixaremos de distinguir o «mau vento» que a nicotina insinua e sofrerá rude golpe a castiça defesa da identidade dos nossos ares. Sejamos claros: lá no fundo, os defensores espanhóis de uma lei mais severa são iberistas disfarçados ou então ressabiados de 1640. Por isso, se os de Madrid aprovarem as suas normas mais limitativas, apenas nos restará, em nome da pátria dos Pereiras, dos Albuquerques, dos Mouzinhos e dos Coutinhos, um voluntarioso regresso ao uso liberal do Provisórios e do Três Vintes.
Sim, também eu perdi Eric Rohmer (1920-2010). Fica a memória das noites obscuras de cinema de província que me ensinaram a presença dos corpos e alguns jogos amorosos.
A passagem dos vinte anos sobre a queda do Muro de Berlim e o colapso brusco do comunismo na Europa Central e do Leste tem servido de pretexto para a divulgação de um volume impressionante de informações muito diferentes – e de diferente valia, naturalmente – sobre esse mundo que se esvaiu, que vão do testemunho de quem viveu directamente os seus episódios finais às análises de quem se serve deles para a crítica ou para a apologia das experiências do «socialismo real». A verdade é que até há pouco os ecos que chegavam ao Ocidente desse universo passado que a propaganda da Guerra Fria havia tornado particularmente estranho continuaram a limitar-se, quase exclusivamente, ao testemunho dos viajantes ocasionais e dos dissidentes de longa data que haviam sido marginalizados e perseguidos pelo sistema.
Só muito recentemente os relatos sobre o quotidiano da vida do outro lado da Cortina de Ferro começaram então a circular de forma sistemática, e O Mundo Perdido do Comunismo, do jornalista e produtor britânico Peter Molloy, representa um bom exemplo deste novo padrão de informação. O livro reúne depoimentos únicos de pessoas, comuns ou não, anónimas ou notáveis, adversárias ou próximas do poder, que viveram muitos anos na Alemanha Oriental, na Checoslováquia e na Roménia, e que relatam vidas padronizadas, mostrando como os três regimes, distintos sob certos aspectos mas idênticos na essência, se comportavam em relação aos que perseguia mas também àqueles que consideravam dos seus. Evocando humores, preocupações e experiências muito concretas, e com rosto, de um tempo que se perdeu.
[O Mundo Perdido do Comunismo. História do Quotidiano do Outro Lado da Cortina de Ferro. Trad. de Maria Filomena Duarte. Bertrand Editora, 280 págs.]
Apesar do aniversário ser quase ignorado pela nossa «imprensa de referência», passam hoje 50 anos sobre a morte trágica de Albert Camus, ocorrida na sequência de um acidente de automóvel. Logo com ele, que tinha medo da estrada. Um bom dia para evocar a vida e o esforço de um intelectual engagé – no sentido puro, zoliano, do termo – ao qual a História acabaria por dar razão, tanto no seu combate contra os totalitarismos como na dolorosa querela com o ex-amigo Sartre, suscitada pela publicação, em 1951, de O Homem Revoltado. Uma obra, editada há muitos anos em Portugal pela Livros do Brasil, na qual Camus questionava o terrorismo de Estado e o papel que a esquerda intelectual atribuía à violência revolucionária. A verdade, seja ela de direita ou de esquerda, eis o que contava para este «francês da Argélia» que teve um dia a ousadia de proclamar que a ter de escolher entre a justiça e a sua própria mãe optaria pela mãe.
O argumento de Avatar é trivial, na linha de um certo cinema americano pós-sixties de bilheteira – agora já sem os tiques da Guerra Fria – para o qual a luta entre o bem e o mal traduz frequentemente um confronto directo entre pessoas comuns, lesadas nos seus direitos, e os agentes de uma qualquer tirania que procuram subjugá-las. Só que, no caso, essas «pessoas comuns» são os Na’vi, seres de pele azul e compleição esguia, que vivem em comunhão com o que o espaço e os animais que os rodeiam no distante e quase edénico planeta Pandora. O resto do filme de James Cameron tem contornos de western, fechando com o castigo do vilão e o transpirado herói a ficar de bem com a mocinha (ou a squaw, já não sei bem).
Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, mas feliz por isso. Eu, pelo menos, fiquei-o. Transcrevo, para não dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras, aquilo que Jorge Leitão Ramos escreveu no Expresso: «Mesmo percebendo que há uma falta de textura, de peso, que retira aos eventos e à acção emoções profundas, a verdade é que os achados visuais são portentosos e não me refiro só aos seres fantásticos, ora insectos, ora árvores imensas, ora canídeos ferozes, ora criaturas dinossáuricas ou aos espaços da natureza de uma exuberância que roça o delírio. Refiro-me aos intérpretes, aos corpos dos Na’vi, aos seus felinos movimentos, a uma respiração sensual que habita todo aquele mundo mágico e espantoso.»
Merece entretanto um comentário um padrão de crítica que se compraz a depreciar o filme com argumentos bastante perversos. No Telegraph, Will Heaven fala de um «subtexto racista» que se fica a dever ao pormenor dos Na’vi usarem adereços e armas próximas das utilizadas por algumas etnias africanas. Mas principalmente ao facto da libertação da tirania ser trazida «de fora», de forma paternalista, por seres híbridos que tinham sido originalmente humanos e dispunham de sageza e tecnologia próprias da sua espécie de origem. Não importa se estes humanos tomaram o partido dos naturais e escolheram passarem a ser uns deles. A tolice repetitiva do remorso ocidental é ecuménica e, pelo lido, transportável também para Pandora. Para mim trata-se, insisto, de um filme belo e divertido que deixará nos espectadores uma marca de preocupação ecológica e de grande humanidade (sim, somos nós, humanos de não-ficção, que a escrevemos e lemos essa humanidade). E pontua o início de uma nova epopeia visual aplicada ao cinema que muito provavelmente repercutirá, como tem sido dito, uma alteração das expectativas plásticas do espectador idêntica à projectada em 1968 por 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick.
Em Dia D – A Batalha da Normandia, Antony Beevor retoma ao seu estilo a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no sul da Europa durante a segunda metade do século passado, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre quente, sempre épico ou azedo, sempre um pouco nostálgico, povoado de imagens que conferem às descrições um inevitável recorte cinematográfico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis. Um passo do livro documenta na perfeição o modo como o testemunho oral – e a inclusão do que podemos considerar o eco poético do vivido na memória de quem o transmite – oferece ao historiador (e ao leitor, claro) fragmentos do passado absolutamente únicos e que deixaram um rasto ténue mas indissipável.
«O comandante de uma companhia [de infantaria americana] descreveu uma estranha experiência, vivida enquanto avançavam ao longo de um trilho florestal [na Bretanha]. De repente, ele e os seus homens ouviram o som suave de palmas: “Quando nos aproximámos, conseguimos ver as formas indistintas de homens, mulheres e crianças franceses, a debruar o caminho, sem falar, alguns chorando baixinho, mas a maioria apenas a bater palmas ao de leve, estendendo-se por várias dezenas de metros de ambos os lados da estrada. Uma menina veio pôr-se ao meu lado. Era loura, bonita, talvez com uns cinco anos. Deu-me a mão, cheia de confiança, caminhou um pouco comigo e, depois, parou e disse adeus até termos desaparecido.” Mesmo cinquenta anos mais tarde, ainda conseguia ouvir o som suave das palmas numa floresta.»
No último dia do ano, o Zé Neves deixou no Cinco Diasuma citação de John Holloway que exaltava a dimensão não-heróica do projecto comunista-radical no qual acredita. Nela se proclama que «o objectivo da revolução é a transformação da vida comum, quotidiana, e é certamente dessa vida comum e ordinária que a revolução deve surgir». Claro que a revolução da qual se fala aqui não é a messiânica (a dos tontos e dos exaltados) ou a golpista (a dos leninistas e dos oportunistas), ambas com R maiúsculo, que apenas valem pela transferência do poder e pela instauração posterior de uma liturgia sacralizadora do «acto fundador» e dos seus intérpretes. De forma diversa, Holloway fala antes da possibilidade de conceber e de instaurar uma ordem do mundo que exige uma perspectiva solidária e uma iniciativa radical em condições de ultrapassar essa «gestão do possível» da qual tanto gostam os reformistas. E que se não esgota na festa da vitória sobre a ordem velha. De acordo. Agora aquilo que não vislumbro é a possibilidade desse gesto refundador emanar naturalmente da vida de todos os dias, e das mãos de pessoas comuns, sem a intervenção de protagonistas organizados e mesmo de heróis que, como todos os heróis, ignoram a hesitação e a dúvida. Como ideia acho-a linda, embora como mapa do tesouro me pareça um tanto fantasiosa. A gestão da fantasia também faz parte da acção, bem sei, só que funciona mais como um pauzinho na engrenagem ou como balanço para o impulso. Não chega para tudo e dura muito pouco. Infelizmente, admito.
Mal sabia eu, quando falava há poucos dias, durante uma aula, sobre os processos de emancipação diante dos grandes sistemas doutrinários e de afirmação da liberdade individual postos em movimento depois da Segunda Guerra Mundial, e enquanto recordava essa «cultura da antidisciplina» nascida nos anos 50-60 que enforma ainda boa parte do nosso tempo, que antes de adormecer iria ler esta frase: «temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém.» Mas felizmente assim passou a ser. E assim vamos basicamente vivendo dentro do universo imperfeito e cada vez mais complexo, mas apesar de tudo mais livre e geralmente mais feliz do que aquele que o precedeu, erguido ao longo dos últimos sessenta anos. Ainda não o disse, mas e importante: quem pronunciou a frase e se lamentou de um tal estado das coisas – em entrevista de tonalidade retrógrada, defensiva e moralista publicada hoje pelo Expresso – foi D. Manuel Clemente, bispo da Igreja católica e Prémio Pessoa 2009.
O número de Dezembro do Magazine Littéraire inclui um dossiê de 32 páginas sobre George Orwell, identificado na capa como «escritor e profeta político». Como seria de esperar – acontece sempre que um conjunto de pessoas se reúne para falar ou escrever sobre este escritor e jornalista inglês – é principalmente do segundo aspecto que se ocupa, directa ou indirectamente, a maior parte das colaborações. Mesmo quando estas abordam mais directamente o seu trabalho como jornalista – como no seu primeiro livro, Na Penúria em Paris e em Londres, onde se levanta contra a romantização da miséria – ou como romancista. Destaco o artigo de Éric Dior sobre «o enragé da lucidez» que se bate contra os franquistas na Guerra Civil de Espanha ao mesmo tempo que mostra o seu horror em face das «ideologias malcheirosas» que tratam os indivíduos como insectos, presentes também, como é sabido, do lado republicano (atitude que lhe valerá, para todo o sempre, o ódio assassino de gerações de estalinistas). E também o contributo de Jean-Jacques Rosat, que procura reidentificar politicamente o autor sem quaisquer equívocos: «nem anarquista, nem tory: socialista». Importantes ainda a entrevista ao filósofo Michael Walzer, que reconhece Orwell como promotor de uma defesa da democracia radical muito à frente do seu tempo, e sobretudo a de Jean-Claude Michéa, que o considera como um dos intelectuais que mais caro pagou pela sua independência, apontando para uma concepção orwelliana de política – enquanto área de combate contra a redução do indivíduo ao «estado de gramofone» – que continua a ser ignorada ou negligenciada pela esquerda. Apesar de manter, ou até de ter reforçado, a sua actualidade.
A selecção de Manuel Clemente para Prémio Pessoa 2009 apenas confirma uma evidência: a iniciativa do Expresso tem vindo a escolher cada vez menos vultos incontornáveis, figuras fortes de intelectuais, cientistas ou cidadãos de mérito tranversalmente reconhecido, para eleger representantes de corporações circunstancialmente colocados debaixo dos holofotes. Trata-se, sem dúvida, de uma escolha que assiste à entidade privada responsável pelo galardão e que desta vez entendeu ser o bispo do Porto «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo». Uma escolha tão legítima quanto o é a inevitável tendência pública, que tem vindo a ganhar força, para se deixar de atribuir grande importância ao Prémio e de tirar o chapéu ao laureado.
P.S. – Pensei relacionar a escolha do bispo do Porto com o ano-republicano que se aproxima, mas acabei por achar que a ligação poderia resultar de um devaneio meu. Só que, entretanto, encontrei o seguinte fragmento de uma entrevista de Manuel Clemente concedida há dois anos atrás:
«Por que é que a Igreja está a reclamar intervenção activa nas comemorações do centenário da República?»
«É para entrar neste debate. Para esclarecer questões que muitas vezes nem sequer estão enunciadas correctamente. Para mostrar que, relativamente à I República, da parte da Igreja a questão nunca foi o regime mas algumas práticas dos sectores mais radicais do republicanismo e, a partir daí, fazer o tal debate acerca do que é o lugar das confissões religiosas e do que haja de ser a expressão religiosa em termos individuais e colectivos numa sociedade democrática.»
No Verão de 66 os meus interesses na vida eram ainda as séries Thunderbirdse Bonanza, os romances de Walter Scott e de Emilio Salgari, e o futebol. Passei por isso grande parte de um Julho particularmente quente agarrado à televisão, aos jogos do Mundial e aos pontapés gloriosos de Eusébio e companhia. O jogo dos jogos, mais importante do que os das vitórias suadas sobre brasileiros e húngaros, foi para mim o Portugal-Coreia do Norte. Com o resultado já num humilhante 0-3, os «magriços» – assim chamados por se supor retomarem os feitos de Álvaro Gonçalves Coutinho, o penedonense, valente embora fraco de carnes, que foi um dos lendários Doze de Inglaterra evocados por Camões e Garrett – deram a volta ao jogo e passaram-no para 5-3, numa recuperação fantástica liderada pelo preto mais branco do país. O jogo doou-me uma marca incisa e profunda, pois ao quarto golo nacional, obtido de penálti, dei um salto tão grande que bati com a mão direita num candeeiro e deixei um centímetro cúbico de carne a pingar sangue entre ferragens e pendentes. Conservo do episódio a cicatriz que me recorda todos os dias a vibração (e a dor forte, claro) daquele momento. E revi-o quando soube hoje que na campanha sul-africana de 2010 nos calhou de novo a Coreia do Norte. O desafio que aguardo com maior expectativa e um certo desejo de vingança será pois aquele que disputaremos contra os vassalos do «querido líder» Kim Jong-Il. Embora saiba que a paixão do instante jamais será a mesma.