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Em Figures des Femmes Criminelles, uma obra colectiva sobre mulheres criminosas publicada há meses pelas veneráveis Publications de la Sorbonne, aparece um artigo bastante curioso sobre crimes praticados por monjas entre os séculos XIII e XV, da autoria da historiadora Élisabeth Lusset. O tema em si não terá nada de assombroso: afinal, por que motivo não poderiam as numerosas comunidades monásticas femininas ser habitadas por uma certa quantidade de ladras, homicidas, incendiárias, falsárias, agressoras, difamadoras, receptadoras, violadoras das regras de castidade ou simples rufias? Aquilo que aqui se pode afigurar particularmente interessante não é pois a longa relação de práticas susceptíveis de culpa e a existência de uma punição aplicável às santas criaturas que a dado momento resolveram passar das marcas, mas sim a caracterização do próprio castigo: por regra, este era muito moderado, traduzido numa simples admoestação da criminosa ou na sua transferência para um convento razoavelmente distante.

Esta regra apenas era violada quando o crime tivesse sido tornado público. De facto, a preocupação maior das autoridades religiosas que superintendiam os processos manteve-se sempre ligada à necessidade absoluta de que nada do que ocorrera pudesse transpirar para fora das paredes do mosteiro. Se o secretismo do acto fosse mantido, a pena era quase sempre ligeira. Em 1492, uma tal Petrina de Bosser, monja de uma comunidade nos arredores de Milão, confessou ter dado à luz uma criança, que depois de baptizar matou e enterrou. Descoberto o crime e solicitado ao papa um perdão, este chegou acompanhado de uma esclarecedora precisão: como «o delito permaneceu secreto e a fim de evitar o escândalo», estipulava-se apenas que a referida Petrina fosse confiada «a um padre de reconhecida probidade», cuja função seria a de a reintroduzir no «bom caminho» pela via da intercessão espiritual. Os pecados ocultos, conhecidos apenas da criminosa e dos seus confessores, eram pois sistematicamente perdoados. Praticados por mulieres sanctae, que não podiam deixar de o ser, eles deveriam, acima de tudo, ser silenciados e esquecidos, de modo a não afectarem a respeitabilidade da própria Igreja.

    Apontamentos, História

    Condenação à liberdade

    J.-P. Sartre

    Deparei num comentário do Facebook com uma das mais populares frases de Jean-Paul Sartre – «o homem está condenado a ser livre» – ali utilizada para validar a inevitabilidade histórica dessa liberdade política, supostamente absoluta, que o 25 de Abril de 1974 trouxe consigo. Não é, porém, a esta forma de liberdade que a frase do filósofo se refere: a liberdade em Sartre encontra-se associada a uma dimensão dramática de escolha pessoal, de livre-arbítrio, produzida dentro de um universo que ao mesmo tempo a condiciona. Essa liberdade não é, pois, plena e festiva, exprimindo antes a angustiante situação do indivíduo perante as condições que revelam os seus limites e em face das escolhas solitárias e desamparadas que deve fazer. Sempre e inapelavelmente como «um estranho num mundo absurdo». Em última instância, esta liberdade essencial dispensa o combate democrático – não escolher, calar-se, fugir, perverter-se, suicidar-se, será também um acto de livre escolha –, embora ela se possa afirmar de uma forma provavelmente mais completa em democracia. Convém não confundir, pois foi a partir da concepção sartriana da liberdade como uma condenação que, durante a noite salazarista, muitos portugueses projectaram, nos casulos da vida pessoal, os simulacros de uma liberdade possível e determinadas estratégias de sobrevivência.

      Apontamentos, História

      Da vida da luta de classes

      lutadeclasses

      Num inquérito sobre cunhas publicado hoje na revista Única do Expresso («Qual a cunha mais descarada que já lhe pediram?»), a socióloga Maria Filomena Mónica revela-nos que foi uma metida «por uma empregada doméstica» que lhe pediu ajuda para conseguir obter um alvará de taxista para o marido («pelos vistos uma preciosidade», desabafa un peu ennuyée). É nestas alturas, e perante impropérios desta magnitude, que torno a duvidar da morte anunciada da luta de classes.

        Apontamentos, Atualidade, Democracia

        A voz

        A voz

        No Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas fala da voz de Van Morrison como voz que lhe pareceu sempre representar «a humanidade inteira». Cada um de nós, em certos dias, em determinados momentos, encontra de vez em quando uma voz assim. Que chega de parte incerta e nos segreda ao ouvido o momento límpido no qual todas as coisas, todos os tempos, todas as forças e vozes, parecem convergir. Só que apenas nós o percebemos, e, por isso, esse fragmento de humanidade fica por nossa conta, como um segredo impossível de transmitir. Como uma jóia rara, translúcida e sem peso, impossível de partilhar, que tocamos por cinco minutos e mais ninguém vê, mais ninguém ouve.

          Apontamentos, Etc.

          Conjurados

          O cardeal Saraiva

          Esta manhã, enquanto tentava fintar o trânsito a caminho do trabalho, ouvi na rádio as últimas declarações do prefeito emérito da inigualável Congregação para a Causa dos Santos. Em mais uma imitação bem conseguida do Diácono Remédios, o cardeal José Saraiva Martins falava, a propósito da vaga de denúncias de actos de pedofilia praticados por membros do clero católico, de uma «conjura contra a Igreja». Existe, sem dúvida, uma coincidência de provas e de acusações cujo eco nos média suscita um efeito de avalanche, mas quanto mais este estilo de reacção tem lugar, mais se percebe a necessidade de ir ainda mais fundo nas denúncias e nas investigações. Se preciso for, descendo ao universo sombrio de seminários diocesanos e colégios de meninas. Um trabalho por fazer que a hierarquia da Igreja, se não estivesse impedida de renegar o seu mundo de sombras e meias-palavras, deveria reconhecer como benéfico para um retomar da dignidade dos próprios católicos. Necessário também para atenuar, tanto quanto possível, as feridas abertas e jamais saradas no passado das vítimas. E para que, de uma vez por todas, a hipocrisia romana a em matéria de sexo e de moral possa ser colocada no seu devido lugar. Se para que tal aconteça for preciso organizar uma acção concertada – vulgo conjura – dos queixosos, dos tribunais e da opinião pública, pois que se organize.

          Publicado também no Vias de Facto

            Apontamentos, Atualidade

            Beatlemania

            The Beatles

            «Attraverso la loro musica quei quattro ragazzi di Liverpool, splendidi e imperfetti, sono stati capaci di leggere e di esprimere i segni di un’epoca che a tratti hanno persino indirizzato, imprimendovi un marchio indelebile.»

            Lembro-me bastante bem. Há quarenta e quatro anos, as minhas pré-borbulhas regurgitavam de emoção porque John Lennon proclamara serem os Beatles mais famosos do que Jesus Cristo. Não sabia para que servia uma afirmação daquelas, mas soava-me bem: queria dizer que «nós, os jovens» estávamos a caminho de tomar o mundo, e que o Nazareno escanzelado e barbudo, já na altura com uns provectos 1966 anos, estava decididamente «velho» e deveria aposentar-se. Claro que a Igreja Católica Apostólica Romana não reagiu de forma tão entusiástica e resolveu tratar mal as Quatro Cabeleiras do Após-Calipso. A partir dessa altura, quem assobiasse «Strawberry Fields Forever» candidatava-se a viver até à eternidade ao lado de Lúcifer, com os pés nus bem assentes num tapete de brasas.

            Pois agora, tanto tempo depois, e com dois dos Beatles já arrumados e os outros de mala aviada, L’Osservatore Romano decide prestar tributo às suas «belas melodias», concedendo o seu perdão aos antigos guedelhudos. Procura mostrar-se convincente: «sim, eles drogavam-se […] e tiveram vidas dissolutas», mas agora «ao ouvir as suas músicas, tudo isso parece distante e sem importância». A Igreja católica passou assim a amar os Fab Four e as «jóias preciosas» que são as suas músicas. E já quase podemos imaginar o Papa, de iPod e earphones nas Santas Orelhas, a bater o pé com o seu sapatinho vermelho Prada enquanto cantarola «Yesterday». Não sei porquê, este aggiornamento 2.0 soa-me a farisaísmo. Sim, porque a melhor forma de Roma se penitenciar por mais esse «erro de percepção» não é, de novo, batendo no peito em acto de contrição. É, ou deveria ser, evitando repetir a falta de capacidade para perceber na devida altura, de forma aberta e tolerante, os anseios, as expectativas e os problemas do mundo actual. E desses continua a Igreja católica, frequentes vezes, a procurar esquivar-se. Como o Diabo da cruz.

              Apontamentos, Devaneios, Memória, Música

              Pecado e remissão

              De acordo com o cada vez mais inimitável diário i, João Paulo Borges Coelho, romancista e historiador, vencedor do Prémio Leya 2009 com O Olho de Hertzog, nasceu no Porto mas «confessa que optou por ser moçambicano». Vamos perdoar-lhe o pecado? Se confessa, por mim está perdoado.

                Apontamentos, Devaneios

                Silêncio romano

                Silêncio

                Os anticlericais mais impenitentes têm-se divertido bastante com a recente revelação em catadupa de casos de abuso de menores ou de práticas de exploração e comércio sexual levadas a cabo, durante décadas, por um número indeterminado mas seguramente alto de membros do clero católico. Claro que, neste como noutros casos ocorridos com a Igreja romana, a procissão jamais sairá do adro. Ao longo de séculos, a sexualidade ínvia determinada pelos Padres da Igreja, que encaravam o sexo como um mal necessário, apenas admissível por ser indispensável à reprodução da espécie, bem como a prática compulsória do celibato, ambas associadas a posições de poder e de influência sobre pessoas, terão contribuído para atribuir a tais práticas uma natureza inevitavelmente endémica e continuada da qual jamais será possível conhecer a verdadeira dimensão. No entanto, nem todos os casos podem ser avaliados do mesmo modo: uma coisa são os abusos, desejavelmente denunciados e eventualmente punidos, outra são as legítimas escolhas de cada um daqueles homens e daquelas mulheres para viverem a sexualidade que jamais deixaram de possuir. O que não está a ser devidamente realçado é, por isso, a dimensão de hipocrisia que preside à convivência entre este tipo de situações e a atitude formal da suprema hierarquia da Igreja católica: existem com toda a certeza dramas intensos de infelicidade e de solidão, vividos por pessoas obrigadas a habitar uma vida inteira com os seus fantasmas e as suas secretas fantasias, das quais Roma e os seus representantes jamais falarão com clareza e verdadeiro arrependimento.

                  Apontamentos, Democracia, Olhares

                  Não se matem pelo amor de Deus

                  Harakiri

                  Já meio mundo glosou a «lei da rolha» imposta ao PSD pelo ressabiamento de Pedro Santana Lopes e a asneira colectiva de muitos delegados ao ajuntamento de Mafra. Mas atribuir agora ao partido criado por Sá Carneiro o epíteto de «estalinista» é tão injusto para com o antigo Partido Comunista da União Soviética quanto para com o actual Partido Comunista Português. Acontece que, ao contrário destes, o PSD jamais terá condições, por congénita incapacidade de decisão e impossibilidade de pôr em prática o centralismo democrático e de gerar um Beria, para aplicar as medidas contra a divergência interna agora aprovadas. Tentar fazê-lo constituiria um trágico acto de harakiri e a maioria dos militantes social-democratas até é, se não estou em erro, «pela vida».

                    Apontamentos, Atualidade

                    Rapazes e meninas

                    Gravatas

                    É com espírito de naturalista, qual David Attenborough amador, que observo sempre, nos congressos dos partidos do Grande Centro, as manobras e ademanes das crias-jotas durante os seus rituais de iniciação. Afiando as facas, já de blazer sombrio convenientemente ajaezado, saia-casaco sem mácula, melena amansada, expressão rectilínea e voluntarismo à flor da pele. Preparando o currículo que as conduzirá ao futuro de predador anotado nas agendas. Clonadas e previsíveis como peças  em cadeia de montagem. Soft-porno do bom para quem se excita com muito pouco.

                      Apontamentos, Etc.

                      Bibliocandonga

                      Los libros

                      «Doce soles», dijo. /«Diez». / «No sea codicioso. Es nuevo. Me há legado hoy». / «Yo sé que es nuevo», dije. «Lo escribí yo».

                      Por escrever isto, alguns amigos desejarão comer-me vivo, assado no forno, depois de convenientemente estripado, cortado aos pedaços e deixado a marinar em vinho, vinagre e louro. No mínimo, quererão denunciar-me à polícia. Mas não posso deixar de simpatizar com uma prática relatada sábado passado numa página do El País. Em «La vida entre los piratas», o escritor peruano Daniel Alarcón fala-nos de uma realidade do seu país que pode vir a ecoar pelo planeta: no Perú, o mundo dos livros copiados movimenta já mais dinheiro do que o das obras legalmente produzidas. Mas isso não parece ser necessariamente um mal: há gosto pela leitura mas pouco dinheiro para comprar livros e os leitores recorrem à contrafacção – não falamos de fotocópias, mas sim de cópias quase perfeitas dos originais –, existindo já autores que não se importam de que tal aconteça. Uma vez que ganham pouco ou nada com o seu trabalho, preferem acima de tudo que os leiam. Sei que esta prática da bibliocandonga terá alguns inconvenientes, mas desconfio que, a generalizar-se, poderá produzir algumas situações interessantes. A baixa dos preços de capa, por exemplo, com menores custos com o trabalho das tipografias, ou um maior respeito das cadeias de livrarias e das empresas de distribuição por autores e pequenos e médios editores, ou o natural alargamento do número de pessoas que compram livros. Um cenário de utopia erguido sobre um campo de batalha, com sirenes, fugas pelos telhados e ruas esconsas pelo meio. Alguém quererá experimentar?

                        Apontamentos, Devaneios

                        Almas gémeas (ou talvez não)

                        Hannah e Martin

                        Partindo da correspondência, em larga medida inédita, trocada entre Hannah Arendt e Martin Heidegger, Elzbieta Ettiger, professora de Humanidades no MIT, narra com detalhes o atormentado caso de amor e de proximidade intelectual que, em fases distintas, uniu dois dos mais destacados pensadores alemães do século passado. O que lhe interessa não são, naturalmente, os detalhes, em larga medida ausentes deste livro, da relação conturbada mas persistente entre a intelectual judia que denunciou o totalitarismo e o autor de Ser e Tempo que foi um apoiante confesso e contumaz do Partido Nacional-Socialista. Aquilo a que aqui vale a pena atender é à revelação das alegrias e das mazelas de uma ligação conturbada, desafiando a imagem padronizada de um Martin observado como pensador e académico austero e subtil, e de uma Hannah vista como intelectual independente e absolutamente segura de si. Ettinger sugere uma releitura e uma relativização de marcas que num certo momento julgámos poder estabelecer sobre a obra e o carácter de cada um deles.

                        Hannah Arendt e Martin Heidegger. Trad. de Isabel Castro Silva. Relógio d’Água, 152 págs.

                          Apontamentos, Olhares

                          Preciso de um tempo para pensar

                          Kapuscinski

                          Sobre o trabalho do jornalista polaco Ryszard Kapuscinski escrevi em tempos isto. Foram-se depois adensado rumores sobre a sua actividade como agente dos serviços secretos comunistas e, nessa qualidade, como denunciante de colegas de trabalho e pessoa com privilégios que os outros não tinham. Entretanto acaba de ser editada a biografia escrita por Artur Domoslawski, seu compatriota, também ele jornalista, que o conheceu de muito perto e é agora acusado de ser excessivamente benévolo para com o amigo Kapuscinski. Trata-se de um daqueles casos, admito, em que não sou capaz de fazer um juízo moral assim da noite para o dia. É como nos amores indecisos: preciso de um tempo para pensar.

                            Apontamentos, Olhares

                            Tu quoque Chatterton fili mi!

                            Chatterton

                            Suicidado aos 18 anos, em 1770, na cama da sua mansarda em Holborn, um dos mais mal-afamados bairros da Londres da época, o poeta Thomas Chatterton transformou-se rapidamente no arquétipo do herói romântico. Milhares de anémicos jovens viram-se ao espelho, por mais de um século, como Chattertons em potência, tão geniais quanto incompreendidos. Pois agora Jürgen Heizmann, um académico alemão que ensina na Universidade de Montréal, vem confirmar aquilo que a verdade alternativa desde há algum tempo vinha murmurando: que os poemas do jovem Thomas foram sistematicamente decalcados de manuscritos antigos (um falsário pois) e que a morte prematura não se deveu a suicídio, mas sim a um tratamento mal aplicado contra uma doença venérea. A ser verdade, não passa de mais um caso em que a doce fantasia excedeu largamente a crueza dos factos. Fiquemo-nos pois pela lenda e atiremos a realidade pela janela.

                              Apontamentos, História

                              O direito a dissidir

                              Dissidência

                              Pode parecer uma bizantinice, mas vale a pena encarar a questão levantada por Pedro Correia – de quem cordialmente ‘dissido’ neste particular (e por vezes noutros) – a propósito da palavra ‘dissidente’, quando considera que o termo não deve ser utilizado para referir opositores ou contestatários isolados dos regimes de Pequim ou de Havana. Para sustentar a sua opinião, refere que ele foi cunhado na antiga União Soviética «para designar todos quantos se afastavam da ‘normalidade’ política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica». Se o regime dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia então ser ‘dissidente’. Ou seja, anormal, louco e criminoso.

                              É parcialmente verdadeiro este referencial histórico, mas não o é inteiramente. Na verdade, a palavra surgiu de início, no ocidente, para se referir aos intelectuais soviéticos que se opunham, quase sempre isoladamente e de forma ilegal, a um regime totalitário que remetia a diferença, a divergência em relação ao pensamento único e a um sistema que se considerava a caminho da perfeição, para a esfera da marginalidade e da doença. Como era possível alguém em seu perfeito juízo, e para mais um cidadão supostamente informado, membro da intelligentsia, divergir do cientificamente determinado e comprovado, do tão indiscutivelmente justo que nem precisava ser sufragado? Foi o eco do combate desses homens e dessas mulheres – nem sempre com idêntico sentido, uma vez que agiam isoladamente ou em pequenos grupos e não constituíam propriamente uma associação com objectivos programáticos – que os revelou como… dissidentes. E para cunhar o qualificativo não foi preciso ir longe: bastou recorrer à velha palavra dissidentia, que em latim significa oposição, antipatia, desarmonia. E hoje lá vem no dicionário dissidência como o «acto de separar-se (de uma parcela de um grupo, agremiação, partido, etc.) em virtude de divergência de opiniões». Em qualquer tempo ou lugar.

                              Sim, Hu Jia ou Wei Jingsheng, como Guillermo Fariñas ou Yoani Sánchez, podem ser considerados dissidentes. E até o devem ser, uma vez que os antecedentes históricos do qualificativo apenas enobrecem o seu combate pelo direito a pensarem por si e a comunicarem aos outros aquilo que pensam. O direito a dissidir, o imperativo moral de viver e actuar em dissídio. Ainda que se enganem mil vezes.

                                Apontamentos, Democracia

                                Fantasia reaccionária

                                Os bons velhos tempos

                                Desde que em 2006 entrou em vigor em Espanha a legislação destinada a reprimir o ancestral hábito de fumar, diminuiu o consumo do tabaco mas cresceu o número de fumadores. Em 2009, 31,5% dos nuestros hermanos afirmou fumar, no mínimo, de forma moderada, quando três anos antes a percentagem era de 29,5%. A diferença seria insignificante se não derrotasse os objectivos «profilácticos» da lei e não servisse agora de justificação para impor regras ainda mais severas e restritivas. A verdade é que ao longo destes anos elas se mantiveram razoavelmente suaves e de aplicação bem mais flexível do que aconteceu em Portugal, como qualquer cidadão pode constatar, entre três passas e outras tantas baforadas, de cada vez que cruze a linha de fronteira e avance até à distância de um tiro de bacamarte. Porém, se tudo for agora uniformizado pelo diapasão do antitabagismo furioso, deixaremos de distinguir o «mau vento» que a nicotina insinua e sofrerá rude golpe a castiça defesa da identidade dos nossos ares. Sejamos claros: lá no fundo, os defensores espanhóis de uma lei mais severa são iberistas disfarçados ou então ressabiados de 1640. Por isso, se os de Madrid aprovarem as suas normas mais limitativas, apenas nos restará, em nome da pátria dos Pereiras, dos Albuquerques, dos Mouzinhos e dos Coutinhos, um voluntarioso regresso ao uso liberal do Provisórios e do Três Vintes.

                                  Apontamentos, Devaneios, Memória