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Moravia passeia-se por Leiria, a idólatra

Moravia e Pasolini
Alberto Moravia com Pier Paolo Pasolini

A esquisitice de pôr as mãos em tudo o que seja papel levou-me hoje a folhear A Voz de Domingo, o «semanário diocesano» de Leiria. As páginas deste pasquim pingam beatice, mau gosto e obscurantismo em estado bruto. Nada de novo para quem conheça um pouco da imprensa católica ultramontana que teima em sobreviver. Fixei principalmente dois artigos. O primeiro foi a «Carta do Canadá» assinada por uma Dona Fernanda Leitão e que não passa de uma inflamada declaração de ódio – acompanhada de uma maldição condescendente e nada católica: «é deixá-lo andar» – dirigida a José Saramago e às suas «vociferações contra Deus». No segundo artigo reparei, pela cómica ignorância que testemunha, numa lista de «livros novos» recomendados. Aí se anexa, a títulos desanimadores como Gota d’Água, Dez Passos no Caminho dos Valores, Teatro nos Colégios dos Jesuítas e os dois volumes de Sacerdos, nada mais nada menos que Os Indiferentes, de Alberto Moravia. Editado em 1929 e considerado por vezes um romance existencialista avant la lettre que terá antecipado O Estrangeiro, de Camus, o livro de estreia de Moravia – que até chegou a ser compagnon de route dos comunistas – centra-se em alguns dos temas que cruzarão boa parte da sua obra posterior. Como o tédio da existência, a impossibilidade de uma verdadeira comunicação entre as pessoas, a alienação social ou a obsessão do sexo. Nada mau para estimular a cabecinha dos fiéis e das fiéis leirienses.

    Apontamentos, Olhares

    Ternura virtual

    tenderly

    O Facebook atira de tempos a tempos com avisos curiosos. Lembra-me, por exemplo, de que não tenho falado «há muito tempo» com uma certa crítica literária checa. Ou de que Jan, meu antigo companheiro de mesa na cantina da Escola Normal de Rožňava, que não é crítico nem literato mas escreve todos os dias, «é novo no Facebook», merecendo por isso um pouco mais da minha atenção. Ou sugere ainda que me «torne amigo» de Anton Bernolák, um tipo com enormes óculos de massa e bigode de aviador que jamais conheci. Estranhos instantes de ternura virtual nesta vida um pouco triste e solitária de imigrante do leste.

    Iuri Bradáček

      Apontamentos

      Sem explicação

      O advogado Jorge Ferreira acaba de morrer em Lisboa com apenas 48 anos. Nunca o conheci pessoalmente e pouco ou nada tinha a ver com as ideias pelas quais se bateu – foi dirigente da Juventude Centrista, depois líder parlamentar do CDS e fundador do Partido da Nova Democracia, um currículo que normalmente só me afastaria dele –, mas muitas vezes citou ou comentou no seu Tomar Partido, sempre a propósito e com uma elevação rara, alguns dos posts d’A Terceira Noite. Por isso, perdoe-se-me o egoísmo, recebi a notícia com tristeza e um certo sentimento de perda.

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        Falsas partidas

        O tempo passa passa

        A aceleração do tempo ateia o esquecimento. Mesmo sem o desejarmos, acabamos então por dar como perdidos alguns dos rostos que foram ficando para trás, no lado mais frágil da nossa memória. Julgamo-los apagados quando pensamos que tudo aconteceu há tantos anos, com pessoas que acreditávamos serem já tão antigas, que só poderiam mesmo morar agora nesse Império do Nenhures do qual não existe retorno. Foi pois com espanto, e medo de me estar a confrontar com alguma fraqueza do entendimento, que num número recente da revista Manière de voir dedicado à «emancipação na história» dei de caras com os rostos e as vozes de dois homens que faziam as capas dos jornais quando eu ainda me interessava mais pela lenda do Joãozinho e do Feijoeiro Mágico do que pelos caminhos tortuosos da libertação dos povos. Afinal o vietnamita Vo Nguyên Giap, vencedor dos franceses em Dien Bien Phu (1954) e dos americanos na Ofensiva do Tet (1968), nasceu apenas em 1911, permanecendo vivo e aparentemente com opiniões. E Mohamed Ahmed Ben Bella, principal líder da luta pela independência da Argélia (1954-1962) e o primeiro presidente do país, nasceu só em 1918, continuando com a cabeça a laborar. Vou ter de confirmar se Emiliano Zapata foi mesmo abatido em Chinameca pelos disparos traiçoeiros do general Guajardo.

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          Ponérselos

          Ponérselos

          Durante muito tempo o El País resistiu a dar o mínimo passo que pudesse aproximar o jornal do nível ético dos tablóides. Mas a crise da imprensa em papel forçou o diário madrileno a rever esse princípio orientador, criando-se assim as condições para que a poesia do quotidiano passasse a ter lugar nas suas páginas de anúncios classificados.

            Apontamentos, Olhares

            Ponte

            Ler

            Soube em segunda mão, por uma entrevista a Elie Wiesel, que Mauriac afirmou algures constituir a literatura uma ponte entre a infância e a morte. Não sei se se pode dizer isto assim, como um absoluto, mas gosto da ideia porque ela aproxima a leitura e a escrita da vida em estado puro. E reduz a pouco o valor que esta possa ter quando passa sem elas.

              Apontamentos

              Pê-ésse-dê forever

              A gravata

              Nada de realmente surpreendente nas palavras chistosas, assistidas por um delicado sorriso de desdém, de José Sócrates ao investir na Assembleia da República contra José Pacheco Pereira invocando o passado rebelde deste: «uma vez revolucionário, revolucionário toda a vida». Posso garantir que conheço de contacto directo pelo menos quinhentas pessoas que um dia foram revolucionárias e que, apesar de hoje estarem maioritariamente «instaladas na vida», não sentem necessidade alguma de renegar esse lado inconformista do seu passado. Ainda que muitas tenham alterado as suas convicções, ainda que atribuam agora ao conceito de revolução, associado a um princípio de vida, uma conotação negativa, elas sabem – mesmo que não tenham lido Rimbaud – que «on n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans». Ou seja, que ninguém que mereça viver pode passar a juventude sem, pelo menos durante umas horas, ter pensado na possibilidade de o mundo ser aquilo que não é. Sabem que são o que são devido a essa experiência, geralmente partilhada. Sabem também – meio-mundo sabe-o – que foi ela a despertar o regime democrático. Muitas votam mesmo PS, algumas apoiaram Sócrates publicamente, umas quantas colaboram até com o governo. É por isso uma verdadeira tristeza que o primeiro-ministro português, com o dever de fazer pedagogia democrática ainda que seja historicamente um parvenu da democracia, tenha afirmado o que afirmou e da forma como o fez. Dir-se-á que foi da adrenalina, que se tratou de uma irrelevância, mas são irrelevâncias destas que definem um carácter. Mário Soares, por exemplo, jamais diria tal coisa. Como exclamou uma amiga minha indignada com o episódio, «apetecia responder-lhe: uma vez PSD, para sempre PSD».

                Apontamentos, Atualidade

                Merci beaucoup, Professor Claude

                Claude Lévi-Strauss

                Escrevi este post há perto de um ano, quando Claude Lévi-Strauss fez os 100. Hoje que soube do seu desaparecimento, fui buscá-lo ao arquivo, limpei-o do pó e trouxe-o de novo para a parte mais visível do blogue.

                Quero recordar os 100 anos que o antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss completa neste 28 de Novembro. Mas começo pelo fim: pelo esquecimento. Hoje, quando menciono numa aula de licenciatura o nome de Lévi-Strauss, para tornar mais clara a identificação preciso dizer que não me estou a referir àquele senhor de origem alemã que em 1853 fundou em São Francisco a primeira fábrica de blue jeans. E preciso começar por recomendar, para evitar grandes choques, a leitura mais facilmente sedutora desses apontamentos de trabalho de campo na terra amazónica, aparecidos em 1955 e por vezes apresentados como um mero exemplo de literatura de viagens, que são os Tristes Trópicos. Lévi-Strauss, como o estruturalismo, está fora de moda.

                No entanto, quando reentrei na universidade logo após a revolução de Abril, a primeira obra cuja leitura me foi recomendada, e que tenho agora aqui mesmo à minha frente na edição velhinha da Presença, foi o Raça e História, um livro publicado pela primeira vez em 1952 que naqueles anos setenta sublinhei conscienciosamente. Retenho dele – numa altura em que volto a ouvir na televisão os apresentadores falarem de povos «mais» ou «menos» civilizados – fragmentos da sua reapreciação das culturas ditas «arcaicas» ou «primitivas». E sobretudo da sua crítica radical e refundadora do etnocentrismo: «Preso entre a dupla tentação de condenar experiências que o chocam afectivamente e de negar as diferenças que ele não compreende intelectualmente, o homem moderno entregou-se a toda a espécie de especulações filosóficas e sociológicas para estabelecer vãos compromissos entre estes pólos contraditórios, e para aperceber a diversidade das culturas procurando suprimir nesta o que ela contém, para ele, de escandaloso e de chocante.»

                O ponto final na hipótese da existência de uma «mentalidade primitiva», posto definitivamente em causa, no ano de 1962, em O Pensamento Selvagem – numa defesa dos «saberes indígenas» que ainda hoje desagrada a muitos porque queima um certo sentido da história construído ao longo de séculos – já se encontra ali, seguindo um método de observação do social e uma filosofia para a vida que procuro praticar e que tento ainda partilhar com quem me vai ouvindo: «A tolerância não é uma posição contemplativa dispensando indulgências ao que foi e ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em promover o que quer ser. A diversidade das culturas humanas está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito – exigência que cria para cada indivíduo valores correspondentes – é que ela se realize sob formas em que cada uma seja uma contribuição para a maior generosidade das outras.» Muito obrigado, Professor Claude.

                  Apontamentos, Memória, Olhares

                  Saramago e o talibã

                  Saramago

                  É verdade que Saramago fez afirmações descomedidas sobre o valor histórico e a medida ética da Bíblia. O excesso não se encontra, porém, nas marcas de iconoclastia que elas contêm, na crítica da violência inerente à matriz das religiões do livro que elas comportam, mas sim no modo simplista do qual o escritor se serviu, uma vez mais vertido naquele tom de arrogância e superioridade moral para o qual não há já paciência. Acontece porém que a onda de protestos que se lhe seguiu tem alguns contornos perigosos, e se pessoas como um tal Mário David, ao que consta deputado europeu do PSD, consideram que as palavras do autor de Caim não passam de «imbecilidades» e de «impropérios», capazes de justificarem a perda compulsiva de nacionalidade, as coisas atingem um grau de gravidade superior. Mostram que existem portugueses com responsabilidades políticas que têm cabeça de talibã ou talvez de familiar do Santo Ofício. E isto já preocupa um bocado.

                    Apontamentos, Atualidade

                    Fantasia bíblica

                    Bíblia ao pequeno almoço

                    Contou-me certa vez um antigo dirigente estudantil que na juventude tinha lido e sublinhado integralmente O Capital. Disse-lhe então uma coisa um bocado destemperada mas sincera: «Acho que merecia um prémio. Ao fim destes anos todos a viver como marxista e ex-marxista, e a conviver com marxistas e ex-marxistas, é a primeira pessoa que encontro que tenha lido O Capital de uma ponta à outra». Admito que também não o li na totalidade e costumo sempre sugerir a quem sei que jamais o lerá – mas precise de alguns rudimentos sobre os conceitos de mais-valia e de modo de produção capitalista – que ao menos se entretenha com o prefácio à Contribuição para a Crítica da Economia Política. Como é sabido, este apontava já para algumas das principais teses desenvolvidas anos depois no livro mais espesso do barbudo de Trier.

                    Lembrei-me disto quando soube hoje pelos jornais que os resultados de um inquérito feito a nível nacional revela que «apenas» 9,7% dos portugueses leram a Bíblia Sagrada. Por acaso sou um deles, embora o tenha feito numa idade em que apenas vi aquilo que queria ver: uma narrativa mágica sobre a eterna luta entre o Bem e o Mal que eu concebia à imagem e semelhança de um filme de Cecil B. DeMille ou de William Wyler. Mas pelo que conheço dos meus compatriotas e dos seus hábitos de leitura – a larga maioria nem o Código da Estrada de João Catatau terá lido com atenção de fio a pavio –, não me parece que tantos o tenham feito. Corro alguns riscos ao dizer isto, mas acredito que uma boa parte dos que afirmaram ter lido a Bíblia se devem referir a fragmentos do Novo Testamento escutados num ofício religioso ou àquele intocado volume negro de capa cartonada que têm lá em casa, dignamente perfilado com a Enciclopédia Alfa, o Livro de Pantagruel e os volumes encadernados da obra completa de Agatha Christie que escondem da pequenada a trilogia do Henry Miller. Ou será mesmo assim ou então a vida terá feito de mim um cínico e um incréu.

                      Apontamentos, Atualidade

                      Um problema para o Super-Obama resolver

                      Super-Obama

                      Hoje de manhã, quando me perguntaram o que pensava sobre a escolha de Barak Obama para Nobel da Paz, pensei que estavam a gozar comigo. Não porque me parecesse completamente imerecido – não faço para daquele grupo de idiotas que considera «Obama pior que Bush» sem conseguir perceber que o vento mudou e a América com ele – ou por falta de simpatia pela pessoa em si. Longe disso. Mas simplesmente porque ainda não tinha ouvido a notícia e não a julgava possível. Acontece que a parte que cabe ao presidente dos EUA na obra de pacificação do mundo está ainda quase toda por fazer e declarações de intenção, associadas a enormes doses de charme, não deveriam servir, julgava eu, de atestado de cumprimento da missão que este prémio supõe. Ao mesmo tempo, eleva a fasquia e coloca sobre os ombros do presidente americano uma pressão que pode vir a prejudicar o seu trabalho futuro. Obama não é Clark Kent e muito menos o Super-Homem.

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                        Desigualdade é isso mesmo

                        Bem sei que nem tudo aquilo que os candidatos autárquicos, principalmente ao nível de freguesia, anda por aí a dizer, decalca necessariamente as posições dos partidos que sustentam as suas candidaturas. Por isso não vou identificar a lista que concorre à Junta de Freguesia de Alcafache, em Mangualde – digo apenas que não é de direita –, que sendo composta apenas por mulheres declara possuir, por este preciso motivo, razões de sobra para ter «maior sensibilidade para os problemas sociais». Como toda a gente sabe, os homens são sempre, e lá no fundo, uns grandes e insensíveis brutos. E as senhoras óptimas a fazer naperons, a ajudar os necessitados e a espalhar o Bem. São ínvios e insondáveis os caminhos das representações conformistas do feminino.

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                          Sem noite

                          Estive apenas duas semanas em Banská Bystrica, à beira do Hron. Mas foram dias felizes, perfeitos, sem noite. Naquela época não sabia que existiam dias sem noite abaixo do paralelo 62.

                          Iuri Bradáček

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                            Também eu

                            Roberto Bolaño

                            Pior que os seguidistas, que falam de qualquer coisa por falta de tema ou só porque toda a gente escreve sobre o assunto e não são capazes de se conter, são os pseudo-enfants terribles que abrem a boca com a soberba da insciência convencida. Eu cá, que lá fui decifrando o Ulisses e mais alguns livritos voluminosos, mas só ontem comecei o 2666 do Bolaño e o vou ter de ler devagar, prefiro não falar de cor. Frequento a crítica, penso pela minha cabeça, ando um bocado a pé, e depois se verá. Por enquanto calo-me para não perturbar o encantamento ou escrever disparates.

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                              Xeque ao capitalismo

                              Spassky e Fischer

                              Apesar de ter hoje nacionalidade eslovaca, faz agora 25 anos vivia ainda em Brno. Julgo que foi pelo diário Právo, e por algumas notícias que passavam no canal estatal de televisão, que segui o primeiro encontro para o título mundial de xadrez travado entre Gary Karpov a Anatoli Kasparov. A minha recordação desse tempo é muito vaga. É curioso mas lembro-me muito melhor, talvez por causa da propaganda, dos duelos anteriores de Boris Spassky com Bobby Fischer, que no princípio dos anos setenta nos eram mostrados como combates de morte entre a descomunal argúcia socialista e uma esperteza capitalista rude e sempre arrogante. Nessa época tratava-se de uma verdade inquestionável e só anos depois entendi que o mundo não era assim tão simples de interpretar.

                              Iuri Bradáček

                                Apontamentos, Memória

                                Por um cigarro em paz

                                Um cigarro em paz
                                Soldado republicano fotografado na frente de Madrid

                                Já sabia que tinha acontecido assim, mas a crónica de Antonio Muñoz Molina no Babelia reavivou-me a memória de uma ocorrência que sempre achei perturbante. Mesmo quando fazia por acreditar em absolutos e na límpida separação entre o bem e o mal. Sobreviventes anónimos da Guerra Civil espanhola recordam insistentemente, conta Molina, como fora das áreas de combate o mais duro de suportar era, para além da fome, a falta de tabaco. Este faltava na zona republicana, pois era produzido na Estremadura e nas Canárias, controladas desde o início pelos franquistas, mas nas áreas administradas pelos insurrectos não havia papel de fumar de boa qualidade, uma vez que as fábricas estavam em regiões nas mãos da República. Organizavam-se então encontros perto da linha da frente para que os dois produtos fossem trocados e pelo menos alguns pudessem experimentar desse «alívio plácido após uma longa privação».

                                Episódios de uma camaradagem desta natureza, entre populações situadas em campos adversos ou mesmo entre inimigos, são comuns em situações de conflito e aconteceram também durante as nossas Guerras Coloniais. Um antigo comandante guerrilheiro do MPLA descreveu-me certa vez o modo como os seus combatentes, sabendo que os opositores directos iriam passar pelo mesmo trilho e estavam há muito tempo isolados, deixavam afixados num papel espetado numa árvore os resultados do campeonato português de futebol da Primeira Divisão. Se fosse o caso, alguns portugueses faziam a mesma coisa. Outras vezes metiam-se uns com os outros, de maneira quase amigável, a propósito de certas simpatias clubísticas: «no domingo vão ser cinco a zero!», «vocês ontem não jogaram nada, cabrões». Episódios que reforçam o particular absurdo das guerras atravessadas por um passado partilhado e uma língua comum.

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                                  Que mil Cíceros floresçam

                                  Cícero

                                  Durante a entrevista concedida ao semanário Expresso deste sábado, Judite de Sousa considera que «se recuássemos dois ou três mil anos Francisco Louçã era o Cícero da Grécia Antiga». Sim, falamos de Marcus Tullius Cicero, o versátil romano que foi um grande orador, filósofo, escritor, jurisconsulto e político lá pelo século I a.C. Segundo Judite, Marco Túlio terá também viajado no tempo (aliás, não é preciso ser-se grande erudito para saber que mil anos de décalage para ele eram ginjas). Diz ainda que Obama é «o Cícero contemporâneo». É cada vez mais perturbante a forma como certos pivôs e jornalistas considerados de topo – que deveriam, ao menos estes, possuir uma formação sólida e não se verem como vedetas a quem é permitido dizer qualquer coisinha – ostentam ignorância e proclamam banalidades em estado gasoso como se fossem  pensamentos lapidares. Já quase me esquecia: Judite declara na mesma entrevista ser levada a crer que «José Sócrates emprenha pelos ouvidos». O que não fará dele propriamente um grande Cícero. Nem dela uma especialista em freaks.

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