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Mundo perdido

A passagem dos vinte anos sobre a queda do Muro de Berlim e o colapso brusco do comunismo na Europa Central e do Leste tem servido de pretexto para a divulgação de um volume impressionante de informações muito diferentes – e de diferente valia, naturalmente – sobre esse mundo que se esvaiu, que vão do testemunho de quem viveu directamente os seus episódios finais às análises de quem se serve deles para a crítica ou para a apologia das experiências do «socialismo real». A verdade é que até há pouco os ecos que chegavam ao Ocidente desse universo passado que a propaganda da Guerra Fria havia tornado particularmente estranho continuaram a limitar-se, quase exclusivamente, ao testemunho dos viajantes ocasionais e dos dissidentes de longa data que haviam sido marginalizados e perseguidos pelo sistema.

Só muito recentemente os relatos sobre o quotidiano da vida do outro lado da Cortina de Ferro começaram então a circular de forma sistemática, e O Mundo Perdido do Comunismo, do jornalista e produtor britânico Peter Molloy, representa um bom exemplo deste novo padrão de informação. O livro reúne depoimentos únicos de pessoas, comuns ou não, anónimas ou notáveis, adversárias ou próximas do poder, que viveram muitos anos na Alemanha Oriental, na Checoslováquia e na Roménia, e que relatam vidas padronizadas, mostrando como os três regimes, distintos sob certos aspectos mas idênticos na essência, se comportavam em relação aos que perseguia mas também àqueles que consideravam dos seus. Evocando humores, preocupações e experiências muito concretas, e com rosto, de um tempo que se perdeu.

[O Mundo Perdido do Comunismo. História do Quotidiano do Outro Lado da Cortina de Ferro. Trad. de Maria Filomena Duarte. Bertrand Editora, 280 págs.]

    Apontamentos, História, Memória

    50 anos sem Albert

    Apesar do aniversário ser quase ignorado pela nossa «imprensa de referência», passam hoje 50 anos sobre a morte trágica de Albert Camus, ocorrida na sequência de um acidente de automóvel. Logo com ele, que tinha medo da estrada. Um bom dia para evocar a vida e o esforço de um intelectual engagé – no sentido puro, zoliano, do termo – ao qual a História acabaria por dar razão, tanto no seu combate contra os totalitarismos como na dolorosa querela com o ex-amigo Sartre, suscitada pela publicação, em 1951, de O Homem Revoltado. Uma obra, editada há muitos anos em Portugal pela Livros do Brasil, na qual Camus questionava o terrorismo de Estado e o papel que a esquerda intelectual atribuía à violência revolucionária. A verdade, seja ela de direita ou de esquerda, eis o que contava para este «francês da Argélia» que teve um dia a ousadia de proclamar que a ter de escolher entre a justiça e a sua própria mãe optaria pela mãe.

      Apontamentos, História

      Do Avatar

      O argumento de Avatar é trivial, na linha de um certo cinema americano pós-sixties de bilheteira – agora já sem os tiques da Guerra Fria – para o qual a luta entre o bem e o mal traduz frequentemente um confronto directo entre pessoas comuns, lesadas nos seus direitos, e os agentes de uma qualquer tirania que procuram subjugá-las. Só que, no caso, essas «pessoas comuns» são os Na’vi, seres de pele azul e compleição esguia, que vivem em comunhão com o que o espaço e os animais que os rodeiam no distante e quase edénico planeta Pandora. O resto do filme de James Cameron tem contornos de western, fechando com o castigo do vilão e o transpirado herói a ficar de bem com a mocinha (ou a squaw, já não sei bem).

      Trata-se de um aparatoso filme de entretenimento, com quase três horas de efeitos 3D que deixam qualquer espectador exausto, com o sentido da visão momentaneamente perturbado, mas feliz por isso. Eu, pelo menos, fiquei-o. Transcrevo, para não dizer mais ou menos o mesmo por outras palavras, aquilo que Jorge Leitão Ramos escreveu no Expresso: «Mesmo percebendo que há uma falta de textura, de peso, que retira aos eventos e à acção emoções profundas, a verdade é que os achados visuais são portentosos e não me refiro só aos seres fantásticos, ora insectos, ora árvores imensas, ora canídeos ferozes, ora criaturas dinossáuricas ou aos espaços da natureza de uma exuberância que roça o delírio. Refiro-me aos intérpretes, aos corpos dos Na’vi, aos seus felinos movimentos, a uma respiração sensual que habita todo aquele mundo mágico e espantoso.»

      Merece entretanto um comentário um padrão de crítica que se compraz a depreciar o filme com argumentos bastante perversos. No Telegraph, Will Heaven fala de um «subtexto racista» que se fica a dever ao pormenor dos Na’vi usarem adereços e armas próximas das utilizadas por algumas etnias africanas. Mas principalmente ao facto da libertação da tirania ser trazida «de fora», de forma paternalista, por seres híbridos que tinham sido originalmente humanos e dispunham de sageza e tecnologia próprias da sua espécie de origem. Não importa se estes humanos tomaram o partido dos naturais e escolheram passarem a ser uns deles. A tolice repetitiva do remorso ocidental é ecuménica e, pelo lido, transportável também para Pandora. Para mim trata-se, insisto, de um filme belo e divertido que deixará nos espectadores uma marca de preocupação ecológica e de grande humanidade (sim, somos nós, humanos de não-ficção, que a escrevemos e lemos essa humanidade). E pontua o início de uma nova epopeia visual aplicada ao cinema que muito provavelmente repercutirá, como tem sido dito, uma alteração das expectativas plásticas do espectador idêntica à projectada em 1968 por 2001: Odisseia no Espaço, de Kubrick.

        Apontamentos, Cinema

        O som suave das palmas

        Em Dia D – A Batalha da Normandia, Antony Beevor retoma ao seu estilo a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no sul da Europa durante a segunda metade do século passado, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre quente, sempre épico ou azedo, sempre um pouco nostálgico, povoado de imagens que conferem às descrições um inevitável recorte cinematográfico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis. Um passo do livro documenta na perfeição o modo como o testemunho oral – e a inclusão do que podemos considerar o eco poético do vivido na memória de quem o transmite – oferece ao historiador (e ao leitor, claro) fragmentos do passado absolutamente únicos e que deixaram um rasto ténue mas indissipável.

        «O comandante de uma companhia [de infantaria americana] descreveu uma estranha experiência, vivida enquanto avançavam ao longo de um trilho florestal [na Bretanha]. De repente, ele e os seus homens ouviram o som suave de palmas: “Quando nos aproximámos, conseguimos ver as formas indistintas de homens, mulheres e crianças franceses, a debruar o caminho, sem falar, alguns chorando baixinho, mas a maioria apenas a bater palmas ao de leve, estendendo-se por várias dezenas de metros de ambos os lados da estrada. Uma menina veio pôr-se ao meu lado. Era loura, bonita, talvez com uns cinco anos. Deu-me a mão, cheia de confiança, caminhou um pouco comigo e, depois, parou e disse adeus até termos desaparecido.” Mesmo cinquenta anos mais tarde, ainda conseguia ouvir o som suave das palmas numa floresta.»

          Apontamentos, História, Memória

          Cepticismo

          No último dia do ano, o Zé Neves deixou no Cinco Dias uma citação de John Holloway que exaltava a dimensão não-heróica do projecto comunista-radical no qual acredita. Nela se proclama que «o objectivo da revolução é a transformação da vida comum, quotidiana, e é certamente dessa vida comum e ordinária que a revolução deve surgir». Claro que a revolução da qual se fala aqui não é a messiânica (a dos tontos e dos exaltados) ou a golpista (a dos leninistas e dos oportunistas), ambas com R maiúsculo, que apenas valem pela transferência do poder e pela instauração posterior de uma liturgia sacralizadora do «acto fundador» e dos seus intérpretes. De forma diversa, Holloway fala antes da possibilidade de conceber e de instaurar uma ordem do mundo que exige uma perspectiva solidária e uma iniciativa radical em condições de ultrapassar essa «gestão do possível» da qual tanto gostam os reformistas. E que se não esgota na festa da vitória sobre a ordem velha. De acordo. Agora aquilo que não vislumbro é a possibilidade desse gesto refundador emanar naturalmente da vida de todos os dias, e das mãos de pessoas comuns, sem a intervenção de protagonistas organizados e mesmo de heróis que, como todos os heróis, ignoram a hesitação e a dúvida. Como ideia acho-a linda, embora como mapa do tesouro me pareça um tanto fantasiosa. A gestão da fantasia também faz parte da acção, bem sei, só que funciona mais como um pauzinho na engrenagem ou como balanço para o impulso. Não chega para tudo e dura muito pouco. Infelizmente, admito.

            Apontamentos, Opinião

            O antiexistencialista

            Liberdade, liberdade

            Mal sabia eu, quando falava há poucos dias, durante uma aula, sobre os processos de emancipação diante dos grandes sistemas doutrinários e de afirmação da liberdade individual postos em movimento depois da Segunda Guerra Mundial, e enquanto recordava essa «cultura da antidisciplina» nascida nos anos 50-60 que enforma ainda boa parte do nosso tempo, que antes de adormecer iria ler esta frase: «temos assistido a uma deriva libertária que vai no sentido de que eu desejo pura e simplesmente, eu quero assim e isso é razão e quase que moral suficiente para seguir independentemente do que os outros pensem ou do que as instituições me peçam, sem ter de dar satisfações a ninguém.» Mas felizmente assim passou a ser. E assim vamos basicamente vivendo dentro do universo imperfeito e cada vez mais complexo, mas apesar de tudo mais livre e geralmente mais feliz do que aquele que o precedeu, erguido ao longo dos últimos sessenta anos. Ainda não o disse, mas e importante: quem pronunciou a frase e se lamentou de um tal estado das coisas – em entrevista de tonalidade retrógrada, defensiva e moralista publicada hoje pelo Expresso – foi D. Manuel Clemente, bispo da Igreja católica e Prémio Pessoa 2009.

              Apontamentos, Atualidade, Opinião

              Enragé da lucidez

              George Orwell

              O número de Dezembro do Magazine Littéraire inclui um dossiê de 32 páginas sobre George Orwell, identificado na capa como «escritor e profeta político». Como seria de esperar – acontece sempre que um conjunto de pessoas se reúne para falar ou escrever sobre este escritor e jornalista inglês – é principalmente do segundo aspecto que se ocupa, directa ou indirectamente, a maior parte das colaborações. Mesmo quando estas abordam mais directamente o seu trabalho como jornalista – como no seu primeiro livro, Na Penúria em Paris e em Londres, onde se levanta contra a romantização da miséria – ou como romancista. Destaco o artigo de Éric Dior sobre «o enragé da lucidez» que se bate contra os franquistas na Guerra Civil de Espanha ao mesmo tempo que mostra o seu horror em face das «ideologias malcheirosas» que tratam os indivíduos como insectos, presentes também, como é sabido, do lado republicano (atitude que lhe valerá, para todo o sempre, o ódio assassino de gerações de estalinistas). E também o contributo de Jean-Jacques Rosat, que procura reidentificar politicamente o autor sem quaisquer equívocos: «nem anarquista, nem tory: socialista». Importantes ainda a entrevista ao filósofo Michael Walzer, que reconhece Orwell como promotor de uma defesa da democracia radical muito à frente do seu tempo, e sobretudo a de Jean-Claude Michéa, que o considera como um dos intelectuais que mais caro pagou pela sua independência, apontando para uma concepção orwelliana de política – enquanto área de combate contra a redução do indivíduo ao «estado de gramofone» – que continua a ser ignorada ou negligenciada pela esquerda. Apesar de manter, ou até de ter reforçado, a sua actualidade.

                Apontamentos, História

                E o vencedor foi…

                A selecção de Manuel Clemente para Prémio Pessoa 2009 apenas confirma uma evidência: a iniciativa do Expresso tem vindo a escolher cada vez menos vultos incontornáveis, figuras fortes de intelectuais, cientistas ou cidadãos de mérito tranversalmente reconhecido, para eleger representantes de corporações circunstancialmente colocados debaixo dos holofotes. Trata-se, sem dúvida, de uma escolha que assiste à entidade privada responsável pelo galardão e que desta vez entendeu ser o bispo do Porto «uma referência ética para a sociedade portuguesa no seu todo». Uma escolha tão legítima quanto o é a inevitável tendência pública, que tem vindo a ganhar força, para se deixar de atribuir grande importância ao Prémio e de tirar o chapéu ao laureado.

                P.S. – Pensei relacionar a escolha do bispo do Porto com o ano-republicano que se aproxima, mas acabei por achar que a ligação poderia resultar de um devaneio meu. Só que, entretanto, encontrei o seguinte fragmento de uma entrevista de Manuel Clemente concedida há dois anos atrás:

                «Por que é que a Igreja está a reclamar intervenção activa nas comemorações do centenário da República?»
                «É para entrar neste debate. Para esclarecer questões que muitas vezes nem sequer estão enunciadas correctamente. Para mostrar que, relativamente à I República, da parte da Igreja a questão nunca foi o regime mas algumas práticas dos sectores mais radicais do republicanismo e, a partir daí, fazer o tal debate acerca do que é o lugar das confissões religiosas e do que haja de ser a expressão religiosa em termos individuais e colectivos numa sociedade democrática.»

                  Apontamentos, Atualidade

                  A cicatriz

                  No Verão de 66 os meus interesses na vida eram ainda as séries Thunderbirds e Bonanza, os romances de Walter Scott e de Emilio Salgari, e o futebol. Passei por isso grande parte de um Julho particularmente quente agarrado à televisão, aos jogos do Mundial e aos pontapés gloriosos de Eusébio e companhia. O jogo dos jogos, mais importante do que os das vitórias suadas sobre brasileiros e húngaros, foi para mim o Portugal-Coreia do Norte. Com o resultado já num humilhante 0-3, os «magriços» – assim chamados por se supor retomarem os feitos de Álvaro Gonçalves Coutinho, o penedonense, valente embora fraco de carnes, que foi um dos lendários Doze de Inglaterra evocados por Camões e Garrett – deram a volta ao jogo e passaram-no para 5-3, numa recuperação fantástica liderada pelo preto mais branco do país. O jogo doou-me uma marca incisa e profunda, pois ao quarto golo nacional, obtido de penálti, dei um salto tão grande que bati com a mão direita num candeeiro e deixei um centímetro cúbico de carne a pingar sangue entre ferragens e pendentes. Conservo do episódio a cicatriz que me recorda todos os dias a vibração (e a dor forte, claro) daquele momento. E revi-o quando soube hoje que na campanha sul-africana de 2010 nos calhou de novo a Coreia do Norte. O desafio que aguardo com maior expectativa e um certo desejo de vingança será pois aquele que disputaremos contra os vassalos do «querido líder» Kim Jong-Il. Embora saiba que a paixão do instante jamais será a mesma.

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                    Apontamentos, Etc., Memória

                    Moravia passeia-se por Leiria, a idólatra

                    Moravia e Pasolini
                    Alberto Moravia com Pier Paolo Pasolini

                    A esquisitice de pôr as mãos em tudo o que seja papel levou-me hoje a folhear A Voz de Domingo, o «semanário diocesano» de Leiria. As páginas deste pasquim pingam beatice, mau gosto e obscurantismo em estado bruto. Nada de novo para quem conheça um pouco da imprensa católica ultramontana que teima em sobreviver. Fixei principalmente dois artigos. O primeiro foi a «Carta do Canadá» assinada por uma Dona Fernanda Leitão e que não passa de uma inflamada declaração de ódio – acompanhada de uma maldição condescendente e nada católica: «é deixá-lo andar» – dirigida a José Saramago e às suas «vociferações contra Deus». No segundo artigo reparei, pela cómica ignorância que testemunha, numa lista de «livros novos» recomendados. Aí se anexa, a títulos desanimadores como Gota d’Água, Dez Passos no Caminho dos Valores, Teatro nos Colégios dos Jesuítas e os dois volumes de Sacerdos, nada mais nada menos que Os Indiferentes, de Alberto Moravia. Editado em 1929 e considerado por vezes um romance existencialista avant la lettre que terá antecipado O Estrangeiro, de Camus, o livro de estreia de Moravia – que até chegou a ser compagnon de route dos comunistas – centra-se em alguns dos temas que cruzarão boa parte da sua obra posterior. Como o tédio da existência, a impossibilidade de uma verdadeira comunicação entre as pessoas, a alienação social ou a obsessão do sexo. Nada mau para estimular a cabecinha dos fiéis e das fiéis leirienses.

                      Apontamentos, Olhares

                      Ternura virtual

                      tenderly

                      O Facebook atira de tempos a tempos com avisos curiosos. Lembra-me, por exemplo, de que não tenho falado «há muito tempo» com uma certa crítica literária checa. Ou de que Jan, meu antigo companheiro de mesa na cantina da Escola Normal de Rožňava, que não é crítico nem literato mas escreve todos os dias, «é novo no Facebook», merecendo por isso um pouco mais da minha atenção. Ou sugere ainda que me «torne amigo» de Anton Bernolák, um tipo com enormes óculos de massa e bigode de aviador que jamais conheci. Estranhos instantes de ternura virtual nesta vida um pouco triste e solitária de imigrante do leste.

                      Iuri Bradáček

                        Apontamentos

                        Sem explicação

                        O advogado Jorge Ferreira acaba de morrer em Lisboa com apenas 48 anos. Nunca o conheci pessoalmente e pouco ou nada tinha a ver com as ideias pelas quais se bateu – foi dirigente da Juventude Centrista, depois líder parlamentar do CDS e fundador do Partido da Nova Democracia, um currículo que normalmente só me afastaria dele –, mas muitas vezes citou ou comentou no seu Tomar Partido, sempre a propósito e com uma elevação rara, alguns dos posts d’A Terceira Noite. Por isso, perdoe-se-me o egoísmo, recebi a notícia com tristeza e um certo sentimento de perda.

                          Apontamentos

                          Falsas partidas

                          O tempo passa passa

                          A aceleração do tempo ateia o esquecimento. Mesmo sem o desejarmos, acabamos então por dar como perdidos alguns dos rostos que foram ficando para trás, no lado mais frágil da nossa memória. Julgamo-los apagados quando pensamos que tudo aconteceu há tantos anos, com pessoas que acreditávamos serem já tão antigas, que só poderiam mesmo morar agora nesse Império do Nenhures do qual não existe retorno. Foi pois com espanto, e medo de me estar a confrontar com alguma fraqueza do entendimento, que num número recente da revista Manière de voir dedicado à «emancipação na história» dei de caras com os rostos e as vozes de dois homens que faziam as capas dos jornais quando eu ainda me interessava mais pela lenda do Joãozinho e do Feijoeiro Mágico do que pelos caminhos tortuosos da libertação dos povos. Afinal o vietnamita Vo Nguyên Giap, vencedor dos franceses em Dien Bien Phu (1954) e dos americanos na Ofensiva do Tet (1968), nasceu apenas em 1911, permanecendo vivo e aparentemente com opiniões. E Mohamed Ahmed Ben Bella, principal líder da luta pela independência da Argélia (1954-1962) e o primeiro presidente do país, nasceu só em 1918, continuando com a cabeça a laborar. Vou ter de confirmar se Emiliano Zapata foi mesmo abatido em Chinameca pelos disparos traiçoeiros do general Guajardo.

                            Apontamentos, Devaneios, História, Memória

                            Ponérselos

                            Ponérselos

                            Durante muito tempo o El País resistiu a dar o mínimo passo que pudesse aproximar o jornal do nível ético dos tablóides. Mas a crise da imprensa em papel forçou o diário madrileno a rever esse princípio orientador, criando-se assim as condições para que a poesia do quotidiano passasse a ter lugar nas suas páginas de anúncios classificados.

                              Apontamentos, Olhares

                              Ponte

                              Ler

                              Soube em segunda mão, por uma entrevista a Elie Wiesel, que Mauriac afirmou algures constituir a literatura uma ponte entre a infância e a morte. Não sei se se pode dizer isto assim, como um absoluto, mas gosto da ideia porque ela aproxima a leitura e a escrita da vida em estado puro. E reduz a pouco o valor que esta possa ter quando passa sem elas.

                                Apontamentos

                                Pê-ésse-dê forever

                                A gravata

                                Nada de realmente surpreendente nas palavras chistosas, assistidas por um delicado sorriso de desdém, de José Sócrates ao investir na Assembleia da República contra José Pacheco Pereira invocando o passado rebelde deste: «uma vez revolucionário, revolucionário toda a vida». Posso garantir que conheço de contacto directo pelo menos quinhentas pessoas que um dia foram revolucionárias e que, apesar de hoje estarem maioritariamente «instaladas na vida», não sentem necessidade alguma de renegar esse lado inconformista do seu passado. Ainda que muitas tenham alterado as suas convicções, ainda que atribuam agora ao conceito de revolução, associado a um princípio de vida, uma conotação negativa, elas sabem – mesmo que não tenham lido Rimbaud – que «on n’est pas sérieux, quand on a dix-sept ans». Ou seja, que ninguém que mereça viver pode passar a juventude sem, pelo menos durante umas horas, ter pensado na possibilidade de o mundo ser aquilo que não é. Sabem que são o que são devido a essa experiência, geralmente partilhada. Sabem também – meio-mundo sabe-o – que foi ela a despertar o regime democrático. Muitas votam mesmo PS, algumas apoiaram Sócrates publicamente, umas quantas colaboram até com o governo. É por isso uma verdadeira tristeza que o primeiro-ministro português, com o dever de fazer pedagogia democrática ainda que seja historicamente um parvenu da democracia, tenha afirmado o que afirmou e da forma como o fez. Dir-se-á que foi da adrenalina, que se tratou de uma irrelevância, mas são irrelevâncias destas que definem um carácter. Mário Soares, por exemplo, jamais diria tal coisa. Como exclamou uma amiga minha indignada com o episódio, «apetecia responder-lhe: uma vez PSD, para sempre PSD».

                                  Apontamentos, Atualidade

                                  Merci beaucoup, Professor Claude

                                  Claude Lévi-Strauss

                                  Escrevi este post há perto de um ano, quando Claude Lévi-Strauss fez os 100. Hoje que soube do seu desaparecimento, fui buscá-lo ao arquivo, limpei-o do pó e trouxe-o de novo para a parte mais visível do blogue.

                                  Quero recordar os 100 anos que o antropólogo, professor e filósofo Claude Lévi-Strauss completa neste 28 de Novembro. Mas começo pelo fim: pelo esquecimento. Hoje, quando menciono numa aula de licenciatura o nome de Lévi-Strauss, para tornar mais clara a identificação preciso dizer que não me estou a referir àquele senhor de origem alemã que em 1853 fundou em São Francisco a primeira fábrica de blue jeans. E preciso começar por recomendar, para evitar grandes choques, a leitura mais facilmente sedutora desses apontamentos de trabalho de campo na terra amazónica, aparecidos em 1955 e por vezes apresentados como um mero exemplo de literatura de viagens, que são os Tristes Trópicos. Lévi-Strauss, como o estruturalismo, está fora de moda.

                                  No entanto, quando reentrei na universidade logo após a revolução de Abril, a primeira obra cuja leitura me foi recomendada, e que tenho agora aqui mesmo à minha frente na edição velhinha da Presença, foi o Raça e História, um livro publicado pela primeira vez em 1952 que naqueles anos setenta sublinhei conscienciosamente. Retenho dele – numa altura em que volto a ouvir na televisão os apresentadores falarem de povos «mais» ou «menos» civilizados – fragmentos da sua reapreciação das culturas ditas «arcaicas» ou «primitivas». E sobretudo da sua crítica radical e refundadora do etnocentrismo: «Preso entre a dupla tentação de condenar experiências que o chocam afectivamente e de negar as diferenças que ele não compreende intelectualmente, o homem moderno entregou-se a toda a espécie de especulações filosóficas e sociológicas para estabelecer vãos compromissos entre estes pólos contraditórios, e para aperceber a diversidade das culturas procurando suprimir nesta o que ela contém, para ele, de escandaloso e de chocante.»

                                  O ponto final na hipótese da existência de uma «mentalidade primitiva», posto definitivamente em causa, no ano de 1962, em O Pensamento Selvagem – numa defesa dos «saberes indígenas» que ainda hoje desagrada a muitos porque queima um certo sentido da história construído ao longo de séculos – já se encontra ali, seguindo um método de observação do social e uma filosofia para a vida que procuro praticar e que tento ainda partilhar com quem me vai ouvindo: «A tolerância não é uma posição contemplativa dispensando indulgências ao que foi e ao que é. É uma atitude dinâmica, que consiste em prever, em compreender e em promover o que quer ser. A diversidade das culturas humanas está atrás de nós, à nossa volta e à nossa frente. A única exigência que podemos fazer valer a seu respeito – exigência que cria para cada indivíduo valores correspondentes – é que ela se realize sob formas em que cada uma seja uma contribuição para a maior generosidade das outras.» Muito obrigado, Professor Claude.

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                                    Saramago e o talibã

                                    Saramago

                                    É verdade que Saramago fez afirmações descomedidas sobre o valor histórico e a medida ética da Bíblia. O excesso não se encontra, porém, nas marcas de iconoclastia que elas contêm, na crítica da violência inerente à matriz das religiões do livro que elas comportam, mas sim no modo simplista do qual o escritor se serviu, uma vez mais vertido naquele tom de arrogância e superioridade moral para o qual não há já paciência. Acontece porém que a onda de protestos que se lhe seguiu tem alguns contornos perigosos, e se pessoas como um tal Mário David, ao que consta deputado europeu do PSD, consideram que as palavras do autor de Caim não passam de «imbecilidades» e de «impropérios», capazes de justificarem a perda compulsiva de nacionalidade, as coisas atingem um grau de gravidade superior. Mostram que existem portugueses com responsabilidades políticas que têm cabeça de talibã ou talvez de familiar do Santo Ofício. E isto já preocupa um bocado.

                                      Apontamentos, Atualidade