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A Ovelha Xoné, John Wayne e o Verão de 69

boinas verdes

Domingo. Hoje de manhã, ao deambular por entre escaparates repletos de DVD enquanto tentava fintar as crianças que corriam destrambelhadas à procura de filmes da Ovelha Xoné, dei de caras com um episódio do passado. Com um incidente que não esquecera mas estava claramente adormecido no fundo mais fundo da minha memória RAM. A razão da lembrança foi ter deparado com uma versão remasterizada de uma «película» estreada em 1968, The Green Berets (Os Boinas Verdes), com John Wayne no esplendor da sua compleição de trangalhadanças reaccionário a actuar também como realizador. Trata-se do primeiro filme americano sobre a Guerra do Vietname, rodado no auge da intervenção militar de Washington na Ásia do Sudoeste, e que assume uma posição claramente anticomunista e pró-Saigão. Tendo em consideração a política externa americana da época, a dimensão simbólica ocupada pelo conflito vietnamita, o perfil particularmente odioso de Wayne e o sentido ideológico do filme, é fácil de ver que este fez levantar protestos em muitos lugares do planeta, chegando mesmo a registar-se casos de violência e de boicote a salas de cinema que se atreveram a passá-lo.

Em Junho ou Julho de 1969, quando o filme passou em Portugal, eu vivia em Tomar, onde me preparava para concluir o ensino secundário. Recordo-me de ser Verão porque fui, na minha inocência política daqueles anos – que provavelmente se mantém bem conservada – ver o filme, como se de um simples filme de aventuras se tratasse, a um cinema ao ar livre que funcionava mesmo no centro da cidade, no parque que faz, ou fazia, paredes-meias com o Estádio Municipal. Lembro-me apenas de o filme ter começado, e, pouco minutos depois, do ruído de pés a bater no chão de cimento e de gritos a impedirem as famílias pacatas e ordeiras de continuarem a seguir as proezas do Coronel Mike Kirby e dos seus subordinados. De repente um brado em crescendo: «Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial!» Afinal uma grande parte dos espectadores – alguns deles, presumo, estudantes de Coimbra que já tinham abandonado a cidade por ser altura de férias e a luta estudantil estar interrompida – eram manifestantes anticolonialistas que aproveitaram o filme para gritarem contra outra guerra, a sua Guerra, que detestavam e queriam ver terminada. Claro que depois de alguma hesitação também gritei. E quando chegaram meia dúzia de polícias para terminarem com a sessão corri também pelas ruas mais próximas tentado escapar das bastonadas. Foi a minha primeira manifestação anticolonial. Thank You, Mr. Wayne! R.I.P.

    Apontamentos, Memória, Olhares

    A vida de Marcelino

    Marcelino Camacho

    Muitos são já os que não sabem quem foi Marcelino Camacho, desaparecido hoje aos 92 anos. Por nada de especial: os anos vão passando e vão pesando, a saúde fraqueja, e a dada altura não é fácil permanecer na primeira linha do combate e ter a atenção dos meios de comunicação, para os quais os velhos são tantas vezes trapos que não atraem audiências. Além disso, ser sindicalista não constitui uma «profissão de sucesso»: os sindicalistas não aparecem nas páginas da ¡Hola!. No entanto, quem acompanhou o seu percurso sabe do papel interveniente que teve em momentos tão dramáticos e decisivos da História de Espanha como a Guerra Civil (batendo-se, naturalmente, nas fileiras republicanas), a resistência clandestina ao franquismo ou a construção de um movimento sindical combativo e autónomo. Foi militante do Partido Comunista de Espanha desde 1935, e jamais deixou de o ser, tendo-se aliás oposto, em 1991, à dissolução do PCE na Izquierda Unida. Mas foi ao mesmo tempo um dos principais impulsionadores das Comissiones Obreras, a poderosa organização sindical que manteve sempre uma atitude modelar, de combate mas politicamente bastante aberta, unitária sem ser unitarista, de cuja prática se excluía o centralismo e onde o sectarismo não foi a regra mas sim a excepção. Durante décadas, foram «as CCOO de Marcelino Camacho» e estava tudo dito. Ficou-nos um exemplo e os exemplos não são para esquecer.

      Apontamentos, Democracia, Memória, Olhares

      Política e lazer

      A striper

      O título da notícia é: «Não queriam pagar a conta de 5 mil euros em bar de strip». Se o caso tivesse acontecido com o Zé dos Anzóis ou a Maria Zarolha, os nomes verdadeiros dos meliantes e da sua agremiação viriam escarrapachados no jornal, acompanhados da idade, do local de nascimento e talvez dos depoimentos de um vizinho ou da madrinha do Crisma. Como se trata de «dois conhecidos políticos da cidade de Coimbra», para mais «desagradados com a situação» na qual por acaso se meteram, ficaram as identidades por revelar, centrando-se a notícia em detalhes mais ou menos insignificantes. Sobre a questão essencial – como podem «conhecidos políticos» passar «uma noite de animação» e gastar tanto dinheiro neste género de actividades para labregos endinheirados – nem uma só palavra. Será o local do crime, omitido também, uma sucursal da Tommy Gun’s Garage, nostálgica da Chicago de Mr. Alphonsus Gabriel Capone? Já chegámos ao Uzbequistão?

        Apontamentos

        Boa, Jon, meu

        Jon Stewart

        De vez em quando escrevo três ou quatro linhas sobre uma coisa que deveria ser óbvia: a América não é o Inferno na Terra (e claro que também não é o Céu) e o anti-americanismo primário é tão absurdo e tão idiota quanto o seu contrário, à maneira dos meninos e das meninas do Tea Party. O pequenino e o enorme caminham por ali lado a lado, como em toda a parte, mesmo no Inferno e no Céu. Existe o ódio cego e o crime à escala pública e privada, mas também a generosidade, o movimento e sempre a esperança. Foi esta também que alimentei um pouco mais ao saber hoje que numa votação realizada através da Internet pelo portal AskMen, na qual participaram 500 mil pessoas, Jon Stewart, o judeu agnóstico Leibowitz que é o implacável apresentador de The Daily Show, foi considerado o homem mais influente de 2010 e aquele «no qual os americanos mais confiam». À frente de figurões como Bill Gates, Mark Zuckerberg (o tipo que fundou o Facebook) e Steve Jobs. Barak Obama já não se encontra nos lugares da frente.

          Apontamentos, Atualidade

          Não há c… que aguente

          o jornal

          Está a tornar-se insuportável a convivência com tanta página de jornal, tanto tempo radiofónico nas «manhãs da informação», tantas horas dos noticiários e debates televisivos a propósito do mesmo assunto. A situação económica do país, a aprovação do Orçamento para 2011, as consequências previsíveis do PECIII e das suas sequelas, inquietam qualquer pessoa que se preocupe com os destinos colectivos e precise de gerir o seu dinheiro. Ou pelo menos de pagar a factura da mercearia. Só um tonto pode fazer de conta que não é consigo. Mas o excesso de informação transformou-se em ruído e está a produzir efeitos muito negativos. O fastio, o desinteresse, mesmo a repulsa ou a pré-depressão, acompanham frases que ouvimos por todo o lado: «já não se aguenta», «não suporto mais», «estou farto disto». Os gestores dos meios de informação deveriam acordar e preocupar-se um pouco com o facto de as pessoas mudarem ainda mais rapidamente do que antes de canal, desligarem o rádio com uma pancada seca, nem sequer olharem para os títulos da imprensa diária. Desde logo por causa dos seus imprescindíveis anunciantes, visivelmente a perderem audiência. Mas, muito mais importante do que isso, porque prestam um péssimo serviço público ao obrigarem os cidadãos a desinteressarem-se, por razões de sanidade mental, de temas que condicionarão obrigatoriamente as suas vidas e sobre os quais deveriam ter uma informação clara, objectiva e plural.

            Apontamentos, Atualidade

            Frases inquietantes (2)

            superhero

            «Fue precisamente en la década de los treinta, cuando las prolongadas secuelas de la Gran Depresión roían la existencia de la inmensa mayoría y otra guerra mundial se vislumbraba en el horizonte, cuando surgió en Estados Unidos una nueva mitología repleta de superhéroes consoladores: Superman, Batman y Robin, Wonder Woman, Capitán Marvel, Aquaman, Supergirl, etcétera. Ellos serían, en la imaginación de las gentes, los únicos capaces de enfrentarse a los más terribles villanos.» (Manuel Rodriguez Rivero)

              Apontamentos, Recortes

              Pensem nisto por um minuto

              rage

              Este é um post-catástrofe. Números divulgados apontam para que cerca de 20 por cento da população portuguesa sofra de uma doença «que se caracteriza por tristeza mais marcada ou prolongada, perda de interesse por actividades habitualmente sentidas como agradáveis e perda de energia ou cansaço fácil». Isto é, de depressão. Estes dados reportam-se a estimativas que por sua vez se fundam nos casos já diagnosticados. Na realidade, os números tenderão a subir quando puderem ser consideradas as situações de fronteira, que colocam quem com elas convive numa posição de grande vulnerabilidade, ou os casos não declarados, mascarados através de atitudes erráticas que resistem à melancolia recorrendo a uma «fuga para a frente». Mas trata-se aqui de um vigor à beira das lágrimas, perto de se transformar, ao primeiro pretexto, no seu contrário. Ou de testar os seus próprios limites.

              Em Janeiro, o mais tardar em Fevereiro, quando o bolo-rei estiver comido e já não houver bacalhau para meter no microondas, quando os cintos começarem verdadeiramente a apertar, o panorama será agravado, concorrendo depressão e recessão na propagação da infelicidade. Desta nascerá o desespero e a prostração, mas também, acreditem, a ira. Diminuirá então a produtividade e crescerá o desprezo por uma ordem injusta, propagando o anseio de uma mudança radical. Cidadãos comuns transformar-se-ão em hooligans ou em maximalistas para poderem sobreviver. E não será apenas à noite, a coberto da escuridão. Se virem bem os diligentes responsáveis pelas agências de rating, bem como os agentes económicos e os dirigentes políticos que se lhes submetem sem resistência, despeito e desordem são factores pouco favoráveis ao crescimento económico e à paz social que supostamente o deverá sustentar, e dos quais tanto cuidam. Não é preciso ser-se adivinho ou profeta para perceber isto. Não sei se dentro deste caldo de cultura crescerá a semente da violência se o ovo da serpente, ou se ambos, mas nada de bom se anuncia. Pensem nisto por um minuto.

                Apontamentos, Atualidade, Olhares

                Punhos de aço

                querido camarada

                Outros companheiros desta guerra de trincheiras por uma esquerda democrática e de causas coerente com a defesa essencial dos direitos dos trabalhadores e a das liberdades individuais, já falaram bastante nos seus blogues dos silêncios e das cumplicidades da direcção do PCP diante daquilo que está a acontecer, aos olhos do mundo inteiro, nos territórios controlados «com punhos de aço» – como tanto gostam de dizer os «queridos camaradas» dirigentes dos «partidos-irmãos» –  pelas ditaduras chinesa e norte-coreana. Para memória futura, aqui fica mais um modestíssimo contributo da referida agremiação para uma espécie de folhetim universal da infâmia.

                  Apontamentos, Atualidade

                  Seinfeld e o Facebook

                  Seinfeld

                  No mundo antigo, organizado à volta das relações de parentesco e dos laços dinásticos, as afinidades electivas, as amizades, eram excepcionais, aparecendo muitas vezes, justamente por isso, como subversivas. O cristianismo tentará eclipsar este tipo de ligação ao colocar como modelo a relação individual com Deus. Por isso também, as comunidades monásticas afastaram a amizade das regras do seu quotidiano: as ligações privadas representavam uma ameaça para a coesão do grupo e para a fé. Os humanistas, porém, retomaram-nas, construindo a primeira rede pan-europeia assente na fidelidade pessoal e numa aproximação de valores e de sensibilidades, que mantinham recorrendo principalmente à correspondência privada. Já a Revolução Francesa emancipou o valor da aproximação pessoal ao colocar a fraternidade como uma das suas divisas nucleares. A cultura da amizade de grupo chegaria décadas mais tarde, associada em parte à extensão do sistema escolar e ao serviço militar obrigatório e universal, criadores de espaços e de tempos de aproximação. Terá atingido o seu zénite nos anos sessenta, permanecendo como um vestígio ainda atraente por volta de 1989, quando arranca a série televisiva Seinfeld. A coesão do grupo dependia aí, em primeiro lugar, das cumplicidades assentes no relacionamento diário, directo e pessoal, entre aqueles que o compunham.

                  Não sei se existe ou não uma linha de continuidade, nesta narrativa flash da amizade, com o universo dos «amigos» que todos os dias fazemos entre os mais de 520 milhões de habitantes – a larga maioria composta por mulheres, vá lá o Diabo explicar o porquê – que povoam o mundo-rede do Facebook. Parece que a média por pessoa é de 130 afectuosos companheiros e amorosas parceiras, o que só por si nos remete para esse conceito de «salto qualitativo» utilizado nos catecismos do materialismo dialéctico para significar uma alteração efectiva do estado das coisas. Significará esta multiplicação de «amigos» o futuro da amizade? Por mim, admito que a maioria dos quase 500 que tenho me aparece como um vulto. Simpático muitas vezes, sobretudo quando salta da penumbra e lhe oiço a voz, mas um vulto. Isto se excluir a quantidade de voyeurs e exibicionistas que passa no horizonte, muitos deles mais empenhados em multiplicar audiências do que em agregar empatias. Mas há mesmo, por ali, pessoas que não conhecemos em pele e osso e de quem, até prova em contrário determinada pelo feitio, o penteado ou o mau hálito, gostamos ou acreditamos que gostamos. Com elas, e com algumas das outras, vamos cruzando gostos e cumplicidades, defendendo causas de outro modo perdidas, trocando informações úteis e frases calorosas que só ali nos saem do tinteiro. Será isto «amizade»? Ou apenas, nesta sociedade atomizada, com as referências vindo e partindo em perpétuo movimento, «uma tentativa de encontrar um sentimento de pertença a um colectivo», como escreve a socióloga Stéphane Hugon? Assistimos ali à construção de relações de proximidade que partem do colectivo para o indivíduo e não o contrário? Pode ser esta a chave para entender a mudança? Se for assim, não será mau de todo. Basta adaptarmo-nos. E ir aproveitando os restos do mundo arcaico feito de afectos conquistados com a epiderme. Afinal Jerry Seinfeld, George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer não se conheceram no Facebook.

                  [Vem um bom dossier sobre este tema no número de Outubro da revista francesa Books.]

                    Apontamentos, Cibercultura, Olhares

                    O seu nome era Tony

                    Tony Curtis

                    Talvez faça parte da última geração que construiu o seu amor pelo cinema debaixo dos telhados maternais dos velhos cineteatros de província. Daqueles com palco de cortina, pequenos camarotes, primeiro e segundo balcão, duas plateias e, certas vezes, um «piolho» onde era possível fumar e atirar cascas de amendoim para o chão. Dessa primeira experiência deslumbrada sobra-me a memória de alguns clássicos para o grande público (Cecil B. DeMille e John Ford forever!) e a recordação das paredes beije de foyers decorados com fotografias um tanto descoloridas de astros e de estrelas da Hollywood dos anos 40 e 50. Foi esta a primeira imagem que me ocorreu – lamento, não foi um fotograma de Some Like It Hot (1959), de Billy Wilder – quando soube ontem da morte de Tony Curtis (1925-2010). Um dos rostos omnipresentes nessas galerias íntimas do maravilhamento. Deve ter sido por isso que senti mais uns quantos gramas de passado a caírem no chão com algum estardalhaço.

                      Apontamentos, Cinema, Memória

                      U2? Not me.

                      U2

                      No princípio gostei moderadamente da música dos U2. E ainda oiço bem alguns dos temas mais antigos, saídos dos primeiros álbuns. Boy (1980) e October (1981) são rudes, ingénuos, verdadeiros como a primeira bebedeira. War (1983) já integra a intervenção política como parte da arte do grupo (oiça-se o épico «Sunday, Bloody Sunday»). Por sua vez, The Unforgettable Fire (1984) é um álbum mais elaborado, quase adulto, com a produção decisiva de Brian Eno e Daniel Lanois a sublinhar as melodias e a guitarra de The Edge a moderar o protagonismo de Bono. The Joshua Tree (1987), prolonga-o em parte, sendo o último que ouvi com algum prazer. A partir do disco seguinte, Rattle And Hum (1988), a banda «americaniza» a produção, globalizando-se e tornando-se o «supergrupo dos megaconcertos» que hoje conhecemos (Achtung Baby, de 1991, e blá-blá por aí fora).

                      Como acontece tantas vezes neste terreno movediço da música popular, a fixação numa sonoridade repetida e sem chama tornou-a mais facilmente reconhecível, fazendo-a chegar a um sector de público com menos interesse pelo áspero e pelo autêntico. E com maior vontade de ouvir aquilo que já ouviu e que espera continuar a ouvir até à eternidade. Os U2 são agora um mero produto de mercado, como um Big Mac ou a Lady Gaga, e até a sua «rebeldia» foi completamente incorporada na máquina de fazer dinheiro que promove a imagem industrial de um «grupo de causas» com a mesma facilidade com que num mercado se vendem t-shirts do Che ou medalhinhas com a efígie do papa ou de Lenine.

                      É esta a banda que vai estar em Coimbra nas noites de 2 e 3 de Outubro, em concertos, esgotadíssimos há quase um ano, com bilhetes a 125 euros (entretanto inflacionados para 200 ou mais). Por mim, que moro a dez minutos do local do crime, vou passar ao lado: a música recente dos U2 não me interessa de todo, as versões antigas são tocadas em piloto automático e não sou suficientemente basbaque para me deixar impressionar com a «aranha» e a pirotecnia megalómanas que a magnânima Câmara da cidade ajudou a financiar com a módica quantia de 200.000 euros. Além disso, não me apetece encontrar-me com o Pedro Passos Coelho ou algum clone seu. «É uma coisa que me chateia, pá.»

                        Apontamentos, Música

                        Rir e não rir

                        Funès e Bourvil

                        Perdoem a confidência mas quero dizer-vos que adoro rir. E mais ainda de fazer rir os outros. «If I can get you to laugh with me, you like me better, which makes you more open to my ideas», afirmou numa entrevista o enorme John Cleese. Talvez por vezes não pareça, eu sei, porque também gosto muito da tristeza (bonjour, bonjour, minha amiga), mas acredito que o melhor riso é o que nos interrompe os dias, não o que faz de nós perpétuos sorridentes, animados e um tanto patetas. Gosto pois de umas gargalhadas, das boas (mesmo, mesmo, mesmo, mesmo boas) e principalmente daquelas que largamos sem lhes conhecer a razão. Rir-se, lá dizia o velho Bergson, é um acto de intuição, e que melhor prova desta ligação do que rir por rir, sem mais nem menos.

                        Já o não fazia há muito, admito, mas aconteceu agora como vídeo do ministro suíço das finanças que circula à velocidade da luz pelo You Tube. Quase não percebi nada daquilo que o senhor dizia e os meus rudimentos de alemão não são suficientes para me esclarecer, mas a piada está toda aí: o próprio governante, soube-o entretanto, achou o discurso que algum acessor lhe havia colocado à frente tão non-sense que esqueceu o protocolo e não foi capaz de conter o riso. E riu, riu muito, descontroladamente, fazendo-nos rir com ele. Resultou comigo, como resultou com muitas outras pessoas. No caso em apreço, nem me interessa saber aquilo que o homem disse, nem quem é ou o que representa: aquele instante, tão raro nos espaços da política geralmente circunspecta e pardacenta, foi um momento especial, quase de catarse, que valeu por si e por isso foi extraordinário.

                        Parece-me pois completamente obtusa e sem ponta de piada a versão que circula por aí, supostamente «legendada em português» por um blogue de direita, que põe na boca do senhor suíço um qualquer arrazoado depreciativo sobre o Portugal de hoje e os seus governantes, tentando mostrar como estamos tão baixo, tão baixo, tão baixo, tão baixo no respeito das nações que até um pobre burocrata suíço se ri de nós. Para além de não ter graça alguma e de agregar uma série de clichés em tom de autocomiseração sobre a nossa vida social e política, redunda numa intervenção claramente reaccionária, vagamente messiânica e trauliteira, insinuando com bastante clareza a necessidade de «acabar com a brincadeira» para que nos ganhem respeito. E não é por ser «contra o Sócrates» que perde essa qualidade. Acham que é para rir?

                          Apontamentos, Atualidade, Olhares

                          Não, obrigado

                          camisa branca

                          Não diria que é aquilo que mais temo perante a possibilidade de a crise política que se adensa nos empurrar para as mãos de Pedro Passos Coelho. O que pode acontecer aos destinos do país e à vida das pessoas, entregues de vez à volúpia da «cultura empresarial», afigura-se bem pior do que o aspecto de quem venha a gerir o estabelecimento. Mas é este, seguramente, um dos factores que me perturba. Ponderar como inquilino da residência de S. Bento um típico e obstinado beto dos eighties, seguido por um séquito de réplicas, é um pesadelo que me tem povoado as noites. Ser governado por alguém que aparenta querer impingir-nos a qualquer momento um pólo da Lacoste ou da Ted Lapidus, penteado «à Joe Dassin», de discurso tenso e redondo, soturno e previsível, ter de conviver diariamente com a seriedade enfatuada e a representação icónica do aborrecimento, constitui para mim uma preocupação adicional de ordem estética e ecológica. Talvez pareça um tanto frívolo e com angústias de baixa densidade política, mas não encontro nada que afaste de mim este enjoo. Já a cidadã Zulmira Ferreira, cujo voto vale rigorosamente o mesmo que o meu, pensa de forma muito diferente.

                          Esclarecimento ao Dgmo. Público: Este post não é um apelo ao voto útil.

                            Apontamentos, Devaneios

                            Pimenta nessa língua

                            pimenta

                            Os pais não falavam de sexo com os seus filhos. «Naquele tempo», como se dizia nas parábolas, tudo era envolvido em véus e meias-tintas. Embora essa ausência acordasse em muitos deles uma irrefreável vontade de se chegarem à prateleira mais alta para surripiarem A Nossa Vida Sexual, de Fritz Kahn, escondida por detrás do volume do Novo Testamento e do Livro de Pantagruel da Dona Berta Rosa-Limpo. Aos estudantes do secundário estava também vedado o acesso normal a tudo do qual pudesse assomar uma sexualidade exterior à obscura vida de alcova consagrada pelo sacramento do matrimónio. O que inibia muitos de lerem nas aulas de português um certo Canto dos Lusíadas, forçando-os a fazê-lo fora delas ao mesmo tempo que iam imaginando coisas. E, claro, não se deviam, não se podiam, escrever ou pronunciar palavrões. «Pimenta nessa língua» era a ameaça mais suave para quem o fizesse. Mas qualquer criança da escola primária conhecia, ainda que de forma enviesada, mediada por algum colega mais vivaço e solícito para quem os termos já não tinham segredo algum, o significado vernáculo de caralho, cona ou broche.

                            Pois agora são o Diário de Notícias ou a RTP a indignar-se por um dicionário abreviado da língua portuguesa utilizado em escolas do ensino básico conter «palavrões» como os acima mencionados. No pressuposto de que jamais deveriam ser conhecidos por menores, independentemente destes os pronunciarem por hábito e com o maior à-vontade. Pessoalmente nunca gostei do abuso do palavrão, que sempre me soou a indigência vocabular ou à expressão de uma vontade infantil de chocar as audiências (vejam-se os tiques retóricos de certos bloggers mais agressivos). Uso-o muito moderadamente, em ocasiões raras e só por necessidade, embora quando me magoo na esquina de uma cadeira não me sirva propriamente de um modesto «fornique-se!». Mas o espanto projectado a partir da simples existência do tal dicionário e a sugestão implícita da sua proibição formal parecem-me resultado de um moralismo estúpido, anacrónico e, agora mais do que nunca, completamente inútil. Ele sim maldoso por apelar à ignorância. A propósito: o corrector ortográfico Flip, versão 8, que estou a utilizar neste momento, não sublinhou automaticamente a vermelho as palavras grossas que atrás escrevi. Será que se destina apenas a maiores de 18 anos?

                            Adenda: Não sei se não será relevante o facto de o dicionário ser da responsabilidade de uma editora do Porto. Diariamente confrontada com o meio envolvente.

                              Apontamentos, Atualidade, Olhares

                              Egas e Gilberto

                              Vila Nova
                              Ruínas da Casa de Vila Nova, quinta onde viveu D. Egas Moniz

                              Com um bocado de preguiça para ir agora à procura de livros e de fotocópias que li e guardei há uma data de anos, sirvo-me da Infopédia para num exercício acrobático de copy-paste me referir a um dos mitos que povoaram a infância de muitos compatriotas de outras eras, identificando um dos esteios da linhagem de heróis e de santos, ou de santos-heróis, que um dia fizeram com que Portugal se tornasse Portugal.

                              «Conta a lenda que, por altura do cerco a Guimarães, Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, decidiu negociar a paz com o monarca castelhano Afonso VII. A troco da paz prometeu-lhe a vassalagem de D. Afonso Henriques e dos nobres que o apoiavam. Afonso VII aceitou a palavra de Egas Moniz. Um ano depois, D. Afonso Henriques quebrou o prometido e resolveu invadir a Galiza. Vestidos de condenados [e de baraço ao pescoço, prontos para a forca, rezam algumas vozes, RB], Egas Moniz e a sua família apresentaram-se na corte de D. Afonso VII, em Castela, pondo nas mãos do rei as suas vidas como penhor da promessa quebrada. O rei castelhano, diante da coragem e humildade de Egas Moniz, decidiu perdoar-lhe. Ao entregar-se, Egas Moniz ressalvava a sua honra e também a de Afonso Henriques, assegurando através da sua astúcia a futura independência de Portugal.»

                              Acrescento alguns dados que me deu menos trabalho obter: Egas, filho de D. Munho (ou Muninho) Ermiges de Riba Douro e de D. Ouroana, pertencia a um das trinta famílias que originaram a nobreza de Portugal. Combateu os mouros entre 1106 e 1111, governou a região de Lamego a partir de 1113 e durante cinco ou seis anos. Foi por essa altura que o Conde D. Henrique lhe entregou como pupilo o irrequieto filho, Afonso Henriques, que D. Egas passou a acompanhar. O episódio lendário encontra-se associado ao termo do cerco de Guimarães pelo exército de Leão, ocorrido em 1127 (quando Afonso VII ainda era somente rei da Galiza e Leão; em breve sê-lo-ia também de Castela, juntando mais tarde Navarra e Aragão). Em 1136 Moniz tornar-se-ia figura fulcral da corte do nosso primeiro rei, morrendo dez anos depois, coberto de honras, propriedades e divinas bênçãos. A lenda, essa veio muito mais tarde, quando alguns dos seus descendentes requereram da monarquia algumas prebendas devidas pelo suposto testemunho de honradez que o seu avoengo ofertara.

                              Julgo não ser de todo inopinada a associação deste episódio à ida do burguês licenciado D. Gilberto Madaíl, nascido no Congo mas português de quatro costados, e do jurisconsulto D. João Rodrigues, homens-bons do governo da Federação Portuguesa de Futebol, a Madrid, a fim de prestarem vassalagem ao Condestável D. José Mourinho, solicitando os seus préstimos para salvar a pátria futebolística da miséria e do opróbrio. Este recebeu-os com primor, brindando-os com uma lauta refeição, na presença de damas, moços da escuderia e de alguns menestréis, e tudo fez para que os enviados portugueses pudessem chegar à fala com o seu senhor, D. Florentino Pérez, alcaide-mor do Real Madrid, a fim de selar o desejado pacto. Infelizmente tinha D. Florentino a agenda muito preenchida e não os pôde receber, pelo que regressaram os gentis-homens portugueses aos seus territórios sem lograrem cumprir o preito de sujeição ao qual tinham sido cometidos. Ficaram assim impedidos por ora de acautelar os destinos do reino e de por tal via retomarem a lendária e exemplar gesta de D. Egas, que Deus conserve em sua guarda pelos séculos dos séculos.

                              Adenda: Raramente aqui trato de futebol, mas neste caso a preocupação com os destinos da pátria falou mais alto.

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                                Os juros e a evolução da espécie

                                juros

                                Passei hoje três quartos de hora num banco à espera de ser atendido. Como cometi a imprudência de não levar nada para ler, pois acreditava ingenuamente que tudo seria rápido, tentei despistar o tédio respondendo a mails com recurso ao meu fiel iPhone. Com a consciência de estar a passar, junto dos circunspectos companheiros de infortúnio, por mais outro maluquinho do SMS. Cansado de dedilhar, levantei-me e cada vez mais impaciente comecei a andar de um lado para o outro lendo um a um todos os cartazes com anúncios de produtos financeiros. Desses que prometem a felicidade suprema desde que a paguemos em prestações mensais com taxas «indexadas à Euribor». Dei então com um anúncio especial, destinado «aos jovens». Prometia uma linha de crédito para pagar viagens, bilhetes para concertos, roupa (o cartaz chamava-lhe «moda»), gadgets electrónicos e, pasmem-se os e as mais inocentes, «experiências». «VALE TUDO!», proclamava o reclame em enormes caracteres. Endividar-se aos 18 anos e continuar nesse mesmo estado aos 68 deverá, entretanto, produzir alterações sensíveis no comportamento humano e no relacionamento intergrupal. Pode ser que a expressão «VALE TUDO!», aplicada pelas instituições credoras à grande massa de endividados, siga então essa evolução. Escravizando-os, por exemplo, já que não caberão todos nas prisões. E forçando-os a trabalhar como «cobradores do fraque». Isto se o sistema não estourar antes, claro, regredindo a espécie a esse estado natural de «guerra de todos contra todos» desenhado por Hobbes no Leviathan. O que justificaria, com toda a certeza, a suspensão imediata dos pagamentos de juros.

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                                  Tentadoras

                                  capas

                                  Sou dos que já compraram livros só por causa das suas capas. Claro que isto representou repetidos arrependimentos, decepções escavadas e algum dinheiro mal gasto. Mas ainda nestes casos, pelo menos durante aquele tempo que transcorre entre o acto da compra e a leitura muitas delas me sopraram grandes esperanças ou fantásticos cenários. Não recrimino os editores, e muito menos os autores, que fizeram pela vida e me ofereceram durante umas horas, talvez por alguns dias, doses de gozo expectante e de faina da imaginação. E mesmo após a desilusão, volto muitas vezes a pegar nesses livros de alma frágil, não pelo que eles contêm – que vale pouco, ou quase nada, e que por isso rapidamente esqueci – mas pelo que ainda parecem encerrar. Ao contrário, romances magníficos, ensaios notáveis, textos que deveriam permanecer sagrados, são muitas vezes diminuídos por capas medíocres e enfadonhas, sem ponta de beleza ou de criatividade, que impedem o potencial leitor de ver para além do que o texto oferece. Como gosto de acariciar livros, prefiro-os por isso apetecíveis e provocantes, antes mesmo de gostar deles «pelo que são».

                                  Tudo isto por causa de Montag: by their covers: resgate do fogo (Ray Bradbury presente, claro), um blogue que acabo de descobrir todo ele dedicado ao design gráfico das capas dos livros. Essa bela arte que tem a vantagem de não precisar de paredes nuas e brancas ou de uma luz favorável. Nos últimos dias tem reproduzido textos de Jorge Silva Melo que partem de capas portuguesas belas ou insinuantes para falar dos romances, dos editores e dos gráficos que tiveram a sorte de se envolver com elas.

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