Não será um tema prioritário e que nesta altura difícil nos deva preocupar especialmente o facto da candidatura de Portugal e Espanha à organização do Mundial de Futebol de 2018, à qual concorriam também a Inglaterra, a Holanda/Bélgica e a Rússia, ter sido preterida em favor da última. Menos ainda nos deverá atormentar ter o Qatar ganho à Austrália, aos Estados Unidos, ao Japão e à Coreia do Sul na escolha para organização do Mundial de 2022. Mas talvez já nos deva inquietar um tanto verificar que venceram a contenda as candidaturas que menos condições estruturais ofereciam (estádios prontos, vias de comunicação funcionais, alojamento com oferta, público indiscutivelmente interessado) mas que mais obras a erguer da raiz e rios de dinheiro a gastar com elas prometiam. Estão a pensar no mesmo que eu, não é verdade?
Encontrei no Arquivo da Internet Portuguesa alguns pequenos textos publicados noutros blogues e que julgava perdidos. Recupero para já este, escrito em 2005 após o encontro casual com um manual de dança de salão. Segue com dedicatória a quem tem feito constar de maneira infame que este blogue «anda demasiado sério».
Uma tarde de domingo será sempre uma boa tarde para rodopiar. Por companhia Dança Comigo, um compêndio achado numa feira do livro que oferece por um singelo euro os conselhos avisados de quem se vê logo ser pessoa experiente. Anuncia o autor, o Sr. Castelló, que, ao dançar, deve «a dama» saber-se inequivocamente conduzida. E, dócil, sacarina, «sentir a mão do cavalheiro nas suas costas e na sua omoplata, com firmeza e segurança». Certo o lesto varão de que à expectante fêmea «mão frouxa e apática lhe não inspirará confiança». Deverá, porém, mostrar-se a mulher complacente para com as dificuldades que, nas viravoltas do baile, possa o acompanhante revelar. Se tal acontecer, solução haverá, esforçando-se ela por dançar «um pouco em pontas e tentar voltar o dedo grande do pé em direcção ao passo que vai dar, sempre como prolongamento do tornozelo e nunca da planta do pé». Sugere ainda o mestre que, seja qual for a situação, se revele sempre a maior compreensão «para com os cavalheiros principiantes», pois, magnânimo, assegura que «um olhar, um gesto ou uma palavra de censura podem desmoralizar completamente o cavalheiro inseguro», sendo certo que, a partir de tão fatídico momento, este «não mais consiga acertar durante o resto da música». Quase duzentas páginas, suadas e vertiginosas, de contributo editorial para a compreensão entre os povos. Igualmente capazes de se revelarem uma fonte de aflições e de eventuais entorses. Ou de sucesso no amor.
Na crónica de hoje da Babelia, Antonio Muñoz Molina evoca as excursões provincianas a Madrid que sempre reservavam um dia para visitar o Escorial e o Vale dos Caídos. Lembra que fez essa peregrinação quando tinha 14 anos, ido do sul andaluz na companhia dos avós, comentando que, à excepção dos franquistas exaltados, então as pessoas já só cumpriam o ritual «porque era o que todos faziam quando iam a Madrid, e porque uma parte da vida consistia misteriosamente em cansar-se calcorreando espaços monumentais que pertenciam ao vago mundo do histórico». Muitos portugueses de passagem por terras de Castela faziam o mesmo – não sei se ainda o fazem – e, sim, eu fui também um deles. Mantenho na memória a percepção que tive daqueles espaços e as impressões que troquei, porque já tinha idade para isso, com outros romeiros portugueses, partilhando a convicção de que aquela monstruosidade arquitectónica separava com clareza a brutalidade asfixiante da monarquia filipina e do franquismo da mesquinhez sórdida do salazarismo, sem rasgo para erguer um santuário ao seu próprio destino. Por isso os nossos vizinhos podem perpetuar naquelas horríveis proclamações em pedra, pedagogicamente, a memória de um passado de ódio e de força bruta do qual a democracia os libertou. E por isso elas devem ser preservadas. No que nos diz respeito, quase nada temos para convencer as gerações mais recentes de que o «salazarismo real» existiu e que podemos tocá-lo com as mãos para garantir que existiu mesmo. Se não contarmos, claro, com as paredes de reboco da Capelinha das Aparições ou do Portugal dos Pequenitos, já que até as prisões do regime permanecem esquecidas e maltratadas. É bem mais difícil garantir que o demónio passou por aqui se dele não pudermos exibir a pata cascuda ou os pontiagudos cornos.
Uma frase de Upton Sinclair – «É difícil conseguir que um homem perceba uma coisa quando o seu salário depende de não percebê-la» – resume muito bem um princípio de política que corrompe o debate democrático. Aceitar as razões dos outros quando elas chocam com os nossos interesses pessoais, sejam eles legítimos ou inconfessáveis, representa sempre um acto de coragem e de entrega para o qual poucos de nós estamos preparados.
Em tempo de guerra – leia-se, de crise económica grave, profunda e imprevisível, embora, como tudo na vida, sempre reversível – não se limpam armas. O proscrito da esquerda reemerge como salvador do Estado social e de um sistema «sabiamente gerido». Mr. John Maynard Keynes, o defensor, contra as teorias da «ordem espontânea» de Herr Friedrich Hayek, da intervenção económica contracíclica, renasce das cinzas nas maiores livrarias, nos seminários académicos, nos suplementos dos jornais, nos blogues que falam de economia política. Um sinal da viragem dos tempos? Apesar de tudo, gostava de acreditar que sim.
Acabo de assinar uma «petição» online com a qual não concordo inteiramente. Neste como noutros casos, porém, parece-me que uma certa noção de consenso, imprescindível para o impacto público de determinada posição, nos dispensa de transformar em questão de princípio aquilo que em dado momento é acessório. E por isso assinei esta «petição» destinada a exprimir a solidariedade dos signatários para com a greve geral de protesto do próximo dia 24 de Novembro. É muito mais importante o gesto colectivo de apoio do que questionar agora o significado de petição (a «petição» pede, solicita, e o texto proposto declara, manifesta). É também muito mais importante assinar do que colocar em causa que se proponha como forma de luta «fechar os livros no dia 24». Isso eu não faço, porque a noção de trabalho associada à leitura e ao estudo só em parte tem a ver com a gestão capitalista da actividade intelectual. E ler, estudar, é também uma forma de luta pela apropriação social do quotidiano. Prioritária até, na minha opinião. Sem horários, férias, feriados ou greves de braços caídos. Sem esquecer este aspecto, se quiserem assinar – em princípio, só se forem ou tiverem sido bolseiros, investigadores, professores e estudantes – podem ir aqui.
Eu sei que hoje são 16 de Novembro, que estamos ainda a seis semanas do Natal e que isto não podia acontecer. Mas aconteceu mesmo. Lia o jornal pela manhã, comme d’habitude com a cabeça submersa entre as páginas. Alheio ao ruído de fundo e ao tráfego dos passantes. De repente, mesmo à frente dos meus olhos, uma mão grossa, seguida de um punho de falso arminho e depois de uma manga larga em tecido vermelho-vivo, que procurava cumprimentar-me. «Estás bom, pá? Então que é feito de ti?» Assustei-me um bocado com aquele Pai Natal inoportuno. Depois pensei que poderia ser Ele mesmo, o verdadeiro, vindo do Norte mais a Norte para anunciar que me tinham enganado quando me contaram que não existia. Tinha de ser o meu Pai Natal, pois além de parecer conhecer-me até me tratava por tu. Só depois de me recompor comecei a perceber que aquilo não fazia muito sentido, que eu, um materialista agnóstico, não podia ter andado tanto tempo enganado. O próprio se encarregou então de esclarecer o enigma: por cinco segundos desviou a falsa barba o suficiente para eu poder reconhecer um antigo camarada dos tempos em que andei a brincar às guerras. Não fui capaz de lhe perguntar se participava em alguma campanha de solidariedade, ou, mais prosaicamente, se carecia de uns euros para aguentar a crise. Só me ocorreu dizer: «Porreiro, pá. E tu? Estás na mesma.» A conversa acabou ali porque uma criança escoltada pela mãe mostrou vontade de interagir com o simpático velhinho. Fiquei sem saber se me queria dar uma prenda, se pretendia que eu lhe emprestasse uma nota, ou se tinha só gostado de me rever. Esta mania de anteciparem o Natal dá cabo de mim.
O governador da Florida, Charlie Crist, sugeriu que Jim Morrison possa vir a receber um perdão póstumo da condenação por ter mostrado tudo, e simulado mais umas quantas coisas na linha do supostamente indecoroso, durante um concerto público que teve lugar em Miami há cerca de 41 anos. Acho mal, pois vão prejudicar o bom nome do ex-vocalista dos Doors. O próximo passo deverá ser a divulgação maciça deste vídeo iconoclasta. Mas não a deste.
Num acesso súbito de imodéstia, pensei em escrever um post crítico mas optimista sobre os caminhos previsíveis da nossa vida colectiva num tempo próximo presente. Mas fui incapaz, não me saiu uma ideia, não consegui ver mais longe do que um palmo à frente do nariz. O nevoeiro está cerrado, o terreno escorregadio e falta-me uma lanterna.
Domingo. Hoje de manhã, ao deambular por entre escaparates repletos de DVD enquanto tentava fintar as crianças que corriam destrambelhadas à procura de filmes da Ovelha Xoné, dei de caras com um episódio do passado. Com um incidente que não esquecera mas estava claramente adormecido no fundo mais fundo da minha memória RAM. A razão da lembrança foi ter deparado com uma versão remasterizada de uma «película» estreada em 1968, The Green Berets (Os Boinas Verdes), com John Wayne no esplendor da sua compleição de trangalhadanças reaccionário a actuar também como realizador. Trata-se do primeiro filme americano sobre a Guerra do Vietname, rodado no auge da intervenção militar de Washington na Ásia do Sudoeste, e que assume uma posição claramente anticomunista e pró-Saigão. Tendo em consideração a política externa americana da época, a dimensão simbólica ocupada pelo conflito vietnamita, o perfil particularmente odioso de Wayne e o sentido ideológico do filme, é fácil de ver que este fez levantar protestos em muitos lugares do planeta, chegando mesmo a registar-se casos de violência e de boicote a salas de cinema que se atreveram a passá-lo.
Em Junho ou Julho de 1969, quando o filme passou em Portugal, eu vivia em Tomar, onde me preparava para concluir o ensino secundário. Recordo-me de ser Verão porque fui, na minha inocência política daqueles anos – que provavelmente se mantém bem conservada – ver o filme, como se de um simples filme de aventuras se tratasse, a um cinema ao ar livre que funcionava mesmo no centro da cidade, no parque que faz, ou fazia, paredes-meias com o Estádio Municipal. Lembro-me apenas de o filme ter começado, e, pouco minutos depois, do ruído de pés a bater no chão de cimento e de gritos a impedirem as famílias pacatas e ordeiras de continuarem a seguir as proezas do Coronel Mike Kirby e dos seus subordinados. De repente um brado em crescendo: «Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial!» Afinal uma grande parte dos espectadores – alguns deles, presumo, estudantes de Coimbra que já tinham abandonado a cidade por ser altura de férias e a luta estudantil estar interrompida – eram manifestantes anticolonialistas que aproveitaram o filme para gritarem contra outra guerra, a sua Guerra, que detestavam e queriam ver terminada. Claro que depois de alguma hesitação também gritei. E quando chegaram meia dúzia de polícias para terminarem com a sessão corri também pelas ruas mais próximas tentado escapar das bastonadas. Foi a minha primeira manifestação anticolonial. Thank You, Mr. Wayne! R.I.P.
Muitos são já os que não sabem quem foiMarcelino Camacho, desaparecido hoje aos 92 anos. Por nada de especial: os anos vão passando e vão pesando, a saúde fraqueja, e a dada altura não é fácil permanecer na primeira linha do combate e ter a atenção dos meios de comunicação, para os quais os velhos são tantas vezes trapos que não atraem audiências. Além disso, ser sindicalista não constitui uma «profissão de sucesso»: os sindicalistas não aparecem nas páginas da ¡Hola!. No entanto, quem acompanhou o seu percurso sabe do papel interveniente que teve em momentos tão dramáticos e decisivos da História de Espanha como a Guerra Civil (batendo-se, naturalmente, nas fileiras republicanas), a resistência clandestina ao franquismo ou a construção de um movimento sindical combativo e autónomo. Foi militante do Partido Comunista de Espanha desde 1935, e jamais deixou de o ser, tendo-se aliás oposto, em 1991, à dissolução do PCE na Izquierda Unida. Mas foi ao mesmo tempo um dos principais impulsionadores das Comissiones Obreras, a poderosa organização sindical que manteve sempre uma atitude modelar, de combate mas politicamente bastante aberta, unitária sem ser unitarista, de cuja prática se excluía o centralismo e onde o sectarismo não foi a regra mas sim a excepção. Durante décadas, foram «as CCOO de Marcelino Camacho» e estava tudo dito. Ficou-nos um exemplo e os exemplos não são para esquecer.
O título da notícia é: «Não queriam pagar a conta de 5 mil euros em bar de strip». Se o caso tivesse acontecido com o Zé dos Anzóis ou a Maria Zarolha, os nomes verdadeiros dos meliantes e da sua agremiação viriam escarrapachados no jornal, acompanhados da idade, do local de nascimento e talvez dos depoimentos de um vizinho ou da madrinha do Crisma. Como se trata de «dois conhecidos políticos da cidade de Coimbra», para mais «desagradados com a situação» na qual por acaso se meteram, ficaram as identidades por revelar, centrando-se a notícia em detalhes mais ou menos insignificantes. Sobre a questão essencial – como podem «conhecidos políticos» passar «uma noite de animação» e gastar tanto dinheiro neste género de actividades para labregos endinheirados – nem uma só palavra. Será o local do crime, omitido também, uma sucursal da Tommy Gun’s Garage, nostálgica da Chicago de Mr. Alphonsus Gabriel Capone? Já chegámos ao Uzbequistão?
De vez em quando escrevo três ou quatro linhas sobre uma coisa que deveria ser óbvia: a América não é o Inferno na Terra (e claro que também não é o Céu) e o anti-americanismo primário é tão absurdo e tão idiota quanto o seu contrário, à maneira dos meninos e das meninas do Tea Party. O pequenino e o enorme caminham por ali lado a lado, como em toda a parte, mesmo no Inferno e no Céu. Existe o ódio cego e o crime à escala pública e privada, mas também a generosidade, o movimento e sempre a esperança. Foi esta também que alimentei um pouco mais ao saber hoje que numa votação realizada através da Internet pelo portal AskMen, na qual participaram 500 mil pessoas, Jon Stewart, o judeu agnóstico Leibowitz que é o implacável apresentador de The Daily Show, foi considerado o homem mais influente de 2010 e aquele «no qual os americanos mais confiam». À frente de figurões como Bill Gates, Mark Zuckerberg (o tipo que fundou o Facebook) e Steve Jobs. Barak Obama já não se encontra nos lugares da frente.
Está a tornar-se insuportável a convivência com tanta página de jornal, tanto tempo radiofónico nas «manhãs da informação», tantas horas dos noticiários e debates televisivos a propósito do mesmo assunto. A situação económica do país, a aprovação do Orçamento para 2011, as consequências previsíveis do PECIII e das suas sequelas, inquietam qualquer pessoa que se preocupe com os destinos colectivos e precise de gerir o seu dinheiro. Ou pelo menos de pagar a factura da mercearia. Só um tonto pode fazer de conta que não é consigo. Mas o excesso de informação transformou-se em ruído e está a produzir efeitos muito negativos. O fastio, o desinteresse, mesmo a repulsa ou a pré-depressão, acompanham frases que ouvimos por todo o lado: «já não se aguenta», «não suporto mais», «estou farto disto». Os gestores dos meios de informação deveriam acordar e preocupar-se um pouco com o facto de as pessoas mudarem ainda mais rapidamente do que antes de canal, desligarem o rádio com uma pancada seca, nem sequer olharem para os títulos da imprensa diária. Desde logo por causa dos seus imprescindíveis anunciantes, visivelmente a perderem audiência. Mas, muito mais importante do que isso, porque prestam um péssimo serviço público ao obrigarem os cidadãos a desinteressarem-se, por razões de sanidade mental, de temas que condicionarão obrigatoriamente as suas vidas e sobre os quais deveriam ter uma informação clara, objectiva e plural.
«Fue precisamente en la década de los treinta, cuando las prolongadas secuelas de la Gran Depresión roían la existencia de la inmensa mayoría y otra guerra mundial se vislumbraba en el horizonte, cuando surgió en Estados Unidos una nueva mitología repleta de superhéroes consoladores: Superman, Batman y Robin, Wonder Woman, Capitán Marvel, Aquaman, Supergirl, etcétera. Ellos serían, en la imaginación de las gentes, los únicos capaces de enfrentarse a los más terribles villanos.» (Manuel Rodriguez Rivero)
Este é um post-catástrofe. Números divulgados apontam para que cerca de 20 por cento da população portuguesa sofra de uma doença «que se caracteriza por tristeza mais marcada ou prolongada, perda de interesse por actividades habitualmente sentidas como agradáveis e perda de energia ou cansaço fácil». Isto é, de depressão. Estes dados reportam-se a estimativas que por sua vez se fundam nos casos já diagnosticados. Na realidade, os números tenderão a subir quando puderem ser consideradas as situações de fronteira, que colocam quem com elas convive numa posição de grande vulnerabilidade, ou os casos não declarados, mascarados através de atitudes erráticas que resistem à melancolia recorrendo a uma «fuga para a frente». Mas trata-se aqui de um vigor à beira das lágrimas, perto de se transformar, ao primeiro pretexto, no seu contrário. Ou de testar os seus próprios limites.
Em Janeiro, o mais tardar em Fevereiro, quando o bolo-rei estiver comido e já não houver bacalhau para meter no microondas, quando os cintos começarem verdadeiramente a apertar, o panorama será agravado, concorrendo depressão e recessão na propagação da infelicidade. Desta nascerá o desespero e a prostração, mas também, acreditem, a ira. Diminuirá então a produtividade e crescerá o desprezo por uma ordem injusta, propagando o anseio de uma mudança radical. Cidadãos comuns transformar-se-ão em hooligans ou em maximalistas para poderem sobreviver. E não será apenas à noite, a coberto da escuridão. Se virem bem os diligentes responsáveis pelas agências de rating, bem como os agentes económicos e os dirigentes políticos que se lhes submetem sem resistência, despeito e desordem são factores pouco favoráveis ao crescimento económico e à paz social que supostamente o deverá sustentar, e dos quais tanto cuidam. Não é preciso ser-se adivinho ou profeta para perceber isto. Não sei se dentro deste caldo de cultura crescerá a semente da violência se o ovo da serpente, ou se ambos, mas nada de bom se anuncia. Pensem nisto por um minuto.
Outros companheiros desta guerra de trincheiras por uma esquerda democrática e de causas coerente com a defesa essencial dos direitos dos trabalhadores e a das liberdades individuais, já falaram bastante nos seus blogues dos silêncios e das cumplicidades da direcção do PCP diante daquilo que está a acontecer, aos olhos do mundo inteiro, nos territórios controlados «com punhos de aço» – como tanto gostam de dizer os «queridos camaradas» dirigentes dos «partidos-irmãos» – pelas ditaduras chinesa e norte-coreana. Para memória futura, aqui fica mais um modestíssimo contributo da referida agremiação para uma espécie de folhetim universal da infâmia.
No mundo antigo, organizado à volta das relações de parentesco e dos laços dinásticos, as afinidades electivas, as amizades, eram excepcionais, aparecendo muitas vezes, justamente por isso, como subversivas. O cristianismo tentará eclipsar este tipo de ligação ao colocar como modelo a relação individual com Deus. Por isso também, as comunidades monásticas afastaram a amizade das regras do seu quotidiano: as ligações privadas representavam uma ameaça para a coesão do grupo e para a fé. Os humanistas, porém, retomaram-nas, construindo a primeira rede pan-europeia assente na fidelidade pessoal e numa aproximação de valores e de sensibilidades, que mantinham recorrendo principalmente à correspondência privada. Já a Revolução Francesa emancipou o valor da aproximação pessoal ao colocar a fraternidade como uma das suas divisas nucleares. A cultura da amizade de grupo chegaria décadas mais tarde, associada em parte à extensão do sistema escolar e ao serviço militar obrigatório e universal, criadores de espaços e de tempos de aproximação. Terá atingido o seu zénite nos anos sessenta, permanecendo como um vestígio ainda atraente por volta de 1989, quando arranca a série televisiva Seinfeld. A coesão do grupo dependia aí, em primeiro lugar, das cumplicidades assentes no relacionamento diário, directo e pessoal, entre aqueles que o compunham.
Não sei se existe ou não uma linha de continuidade, nesta narrativa flash da amizade, com o universo dos «amigos» que todos os dias fazemos entre os mais de 520 milhões de habitantes – a larga maioria composta por mulheres, vá lá o Diabo explicar o porquê – que povoam o mundo-rede do Facebook. Parece que a média por pessoa é de 130 afectuosos companheiros e amorosas parceiras, o que só por si nos remete para esse conceito de «salto qualitativo» utilizado nos catecismos do materialismo dialéctico para significar uma alteração efectiva do estado das coisas. Significará esta multiplicação de «amigos» o futuro da amizade? Por mim, admito que a maioria dos quase 500 que tenho me aparece como um vulto. Simpático muitas vezes, sobretudo quando salta da penumbra e lhe oiço a voz, mas um vulto. Isto se excluir a quantidade de voyeurs e exibicionistas que passa no horizonte, muitos deles mais empenhados em multiplicar audiências do que em agregar empatias. Mas há mesmo, por ali, pessoas que não conhecemos em pele e osso e de quem, até prova em contrário determinada pelo feitio, o penteado ou o mau hálito, gostamos ou acreditamos que gostamos. Com elas, e com algumas das outras, vamos cruzando gostos e cumplicidades, defendendo causas de outro modo perdidas, trocando informações úteis e frases calorosas que só ali nos saem do tinteiro. Será isto «amizade»? Ou apenas, nesta sociedade atomizada, com as referências vindo e partindo em perpétuo movimento, «uma tentativa de encontrar um sentimento de pertença a um colectivo», como escreve a socióloga Stéphane Hugon? Assistimos ali à construção de relações de proximidade que partem do colectivo para o indivíduo e não o contrário? Pode ser esta a chave para entender a mudança? Se for assim, não será mau de todo. Basta adaptarmo-nos. E ir aproveitando os restos do mundo arcaico feito de afectos conquistados com a epiderme. Afinal Jerry Seinfeld, George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer não se conheceram no Facebook.
[Vem um bom dossier sobre este tema no número de Outubro da revista francesa Books.]