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Reflexão

reflexão

Sempre vi o «dia de reflexão» que antecede cada acto eleitoral como um disparatado sinal de imaturidade democrática. Como se por decreto nos mandassem tomar um duche frio. Ou desviar os olhos dos outdoors, tapar a boca e fechar os ouvidos às mensagens que chegam de todo o lado. «Pensa bem, rapaz, não te precipites.» «Vá lá, respira fundo e conta até dez.» «Vê lá bem o que fazes.» «Tu tem-me juizinho nessa cabeça.» De certa maneira faz de nós crianças. Ou seres impulsivos e um pouco tolos. Não será agora que vou mudar de opinião. [Que tanta reflexão não vos faça esquecerem-se de votar neste domingo.]

    Apontamentos, Atualidade

    A cultura popular do salazarismo

    cultura popular

    A Angelus Novus editou no final de 2010, na série de História (que coordeno) da colecção «Biblioteca Mínima», o livro A Cultura Popular no Estado Novo, de Daniel Melo. Este constitui uma excelente e actualizada introdução a um tema sobre o qual o autor vem trabalhando desde há anos. A editora acaba entretanto de divulgar no seu blogue uma entrevista com o historiador. Nesta se fala, entre outros aspectos, da forma como o modelo de cultura popular estimulado ou construído pelo salazarismo serviu na época de «’almofada’ social». Ele oferecia, sublinha Daniel Melo, «um conforto existencial face aos receios que a mudança pode compreensivelmente despertar», mas funcionava também como «pilar ideológico, guia da acção e inculcador de certos valores, práticas, vivências e comportamentos, fortemente unidimensionais.» Pode seguir-se aqui toda a entrevista.

      Apontamentos, Olhares

      Bom conselho

      Chico

      A esquerda em campanha parece incapaz de falar para os que precisam realmente de campanha. A fazer chover no molhado quando a savana está ali mesmo ao lado. Bate em Cavaco 24 horas sobre 24 junto daqueles que jamais votarão em Cavaco e não precisam de que lho lembrem. Dando ao mesmo tempo a este oportunidades para ir dizendo ao bom povo hesitante que é atacado pelos que «só sabem dizer mal» e que, no fundo, «nada fazem». A esquerda em campanha denuncia as trapaças e as malfeitorias de Cavaco de segunda a segunda como se parte importante do povo eleitor que decide não visse em muitos desses actos actos sinais de uma «esperteza» que cobiça ou lhe é indiferente. Porque não uma preocupação maior em explicar pacientemente e com imaginação, boca a boca, porta a porta, debate a debate, comício a comício, post a post, a tanta gente que hesita ou ainda duvida, AS RAZÕES pelas quais vale a pena votar positivamente no seu candidato? (Quase três da madrugada. Desligo o computador, apago a luz e desço as escadas trauteando a velha canção de Chico Buarque. «Oiça um bom conselho, que lhe dou de graça.»)

        Apontamentos, Olhares, Opinião

        Onde estará você a 23 de Janeiro? (2)

        verderubra

        Como não me prende qualquer dever de solidariedade para com um partido ou movimento dotado de programa, estatutos ou objectivos a curto prazo – com Albert Camus, reconheço apenas que «se existisse um partido daqueles que não têm a certeza de terem razão, eu faria parte dele» – posso dar-me ao luxo de ser sincero e de falar com quem me lê sem preocupações exageradas com o impacto do que escrevo. Posso dizer, por exemplo, que sendo adepto obstinado de uma intervenção cívica atenta e permanente, neste momento mais facilmente me revejo na expressão resistente da recusa e do protesto do que na associação a propostas programáticas voltadas para a acção organizada. Haverá quem diga que essa é uma posição cómoda, e provavelmente é-o, mas vivendo numa sociedade sem projectos políticos mobilizadores, sem movimentos nos quais confie ao ponto de aderir fisicamente a eles – já que a alma, lamento, essa só ao velho diabo a doarei –, não é nada de particularmente singular que faça parte da multidão de cidadãos politizados que se não revêem na militância de papel passado. Serão tentações de anarquista? Sim, um pouco, pois admito que entre o vermelho e o negro o meu coração já balançou mais. Mas as circunstâncias não carecem de grandes justificações: muito simplesmente, incomoda-me gritar palavras de ordem, vivas, hurras ou morras quando o meu apoio às ideias, instituições ou pessoas às quais elas se aplicam conserva uma razoável distância crítica.

        Sim, já o disse aqui e repito-o agora: no dia 23 votarei em Manuel Alegre. Dele afasta-me muita coisa. Afastam-me desde logo certos pressupostos culturais e modos de estar. Não gosto da exibição de «moralina», essa palavra inventada por Nietzsche para designar uma arrebatada agitação declamatória, em forma de pregação, que nega a dimensão crítica e convicta da intervenção política. Não me agrada a sua concepção protocolar e estritamente canónica de cultura. Não me agrada o vínculo com um Portugal simbolicamente virilizado, taurino e venatório, que me parece de outras eras. Afasta-me também um trajecto recente marcado por atitudes de hesitação ou pouco claras, apesar da afirmação pública de inegável coragem que tem pontuado a sua vida. Aproximam-nos, todavia, factores que se relacionam com muito daquilo que representa, ou pode vir a representar, que é basicamente a reconstrução de territórios de política solidária, a activação de expectativas de mudança, de prioridades sociais, de uma sensibilidade centrada nas pessoas, que se encontram nos antípodas do que Cavaco Silva exprime. É este o campo de combate que agora interessa, muito mais importante do que o espaço para os gostos e os desagrados de pessoas mais ou menos como eu. Por isto, apesar de não andar por aí em desfiles ou comícios a gritar os tais vivas e hurras – sem nada, mas mesmo nada, contra quem o faz –, agirei a 23 sem hesitações. Não me posso refugiar em esquisitices pessoais, não me posso abster, quando, para além de Manuel Alegre, não existe alternativa capaz de impedir que por mais cinco anos tenhamos de conviver diariamente com a cabeça rústica mas perigosa daquele senhor esguio, azedo e de direita.

          Apontamentos, Atualidade, Olhares, Opinião

          Édipo na Austrália

          Marie B

          Sobrinha-bisneta do imperador Napoleão I, a princesa Marie Bonaparte (1882-1962) foi uma figura central para a definição da psicanálise enquanto prática clínica e saber autónomo e reconhecido (ou antes, razoavelmente reconhecido, uma vez que ao fim de mais de um século de combate os seus inimigos permanecem activos e vigilantes). Muito próxima de Freud, a quem ajudou pessoalmente quando em 1938, já com 71 anos, este precisou de sair de Viena para escapar dos nazis, Marie usou a sua enorme fortuna – em boa parte herdada do avô, François Blanc, fundador do Casino de Monte Carlo – para financiar encontros científicos e trabalho de investigação na disciplina que ela própria viria a adoptar profissionalmente. O eco longínquo de um destes trabalhos acaba de me chegar através de uma referência num artigo de Evan Osnos saído na New Yorker («Meet Dr. Freud», sobre a recente voga da psicanálise na China após longas décadas de perseguição e clandestinidade). Ali se refere a dada altura o financiamento, por parte de Marie, de uma viagem do psicanalista e antropólogo húngaro Géza Róheim à Austrália com o objectivo de determinar se entre os aborígenes existia complexo de Édipo. Róheim concluiu que sim, em apoio da ocorrência de uma estrutura edipiana universal. A conclusão é respeitável, mas é também irresistível a analogia que pode ser feita entre aquela pesquisa e os esforços dos evangelizadores católicos do século XVI para determinarem pela observação empírica – por vezes com recurso à tortura – se os ameríndios possuíam alma (já que, de acordo com a opinião à época dominante, os negros não a tinham de todo). Fica a declaração urbi et orbi de que esta analogia vale por si, não transportando consigo qualquer preconceito em relação à teoria e à prática da psicanálise, à bondade da princesa Marie ou ao trabalho do notável ex-bolseiro húngaro.

            Apontamentos, Olhares

            Medidas da felicidade

            Ando a ler/reler trabalhos publicados nas décadas de 1970 e 1980 por João Martins Pereira. Este é o segundo fragmento seguido de um texto (muito) de circunstância que tenho vontade de partilhar.

            «31 de Janeiro [de 1985] Sempre que a minha filha chega a casa e diz «Hoje foi um dia tão bom!» – correram-lhe bem as aulas, ganhou o jogo de basquete, trocou olhares cúmplices com um colega, sei lá que mais — não consigo evitar lembrar-me, abusivamente, das últimas palavras de Um Dia na Vida de Ivan Denisovich, de Soljenitsine (de que então apenas conhecia esse livro e nada mais: se fosse hoje, voltando ao tema de há dias, tê-lo-ia lido da mesma maneira?): «No campo de prisioneiros Sukhov adormeceu completamente satisfeito, feliz. Fora bafejado por vários golpes de sorte durante aquele dia: não o haviam posto no xadrez; não tinham enviado a brigada para o Centro; surripiara uma tigela de kasha ao almoço; o chefe de briga­da fixara bem as rações; […] comprara tabaco. E não caíra doente. Um dia sem uma nuvem carregada, sombria. Quase um dia feliz»

            E um desempregado, que calcorreia por trabalho, ou se arrasta pelas ruas? E um empregado, que diariamente repete, a horas cer­tas, os mesmos gestos maquinais e desinteressantes? E um velho, que frequenta, dias sem fim, os mesmos cantos da casa ou os mesmos bancos de jardim? Que pequenos nadas lhes conseguirão fazer «um dia feliz»? Que sociedade é esta, de tão baixas expectativas, que a simples pausa de uma máquina, o tempo de uma beata, ou um banco livre batido pelo sol cheguem talvez para tornar «feliz» um dia igual a todos os outros?» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

              Apontamentos, Olhares, Recortes

              Incomunicar

              incomunicar
              ©2007-2011 melezartworks

              «22 de Fevereiro [de 1985] – Por vezes cruzamo-nos com rostos que nos reconciliam com o mundo. Na maior parte dos casos são rostos de crianças, ou de adolescentes. Algumas vezes, de velhos. Quase nunca de adultos, esses crispados, tensos, ruminando frustrações, pressas, responsabilidades, preocupações – rostos sem desejo, sem alegria. Incomunicáveis.» [João Martins Pereira, O Dito e o Feito. Cadernos – 1984-1987]

                Apontamentos, Olhares, Recortes

                Bananas

                Banana

                Günther Schabowski, um ex-membro do Politburo do partido do poder na antiga República Democrática Alemã que trabalhou como chefe de redacção do Neues Deutschland, o diário oficial, contou há alguns anos a uma jornalista que numa reunião plenária efectuada em 1989, no preciso momento em que uma crise económica sem precedentes, a revolta popular e o rápido crescimento da fuga de cidadãos para o ocidente abalavam definitivamente o regime, aquele órgão se recusou a debater a situação. Limitou-se na altura a abordar os preparativos para as comemorações oficiais dos quarenta anos da chegada dos comunistas ao poder. Só numa conversa de corredor um alto responsável se terá referido vagamente aos protestos, sugerindo uma solução para acabar de vez com o descontentamento dos cidadãos cujo rumor parecia não chegar à vida ultraprotegida da nomenklatura leste-alemã: «Podemos dar-lhes bananas!» A ideia parece absurda, e naquele contexto era-o particularmente, mas tinha a ver com a forma como, para muitos cidadãos da antiga Europa do «socialismo realmente existente», o consumo de bananas, um fruto raro e caríssimo, se encontrava ligado a uma certa ideia de abundância e de felicidade, ingenuamente associada ao consumo de certos bens no lado ocidental. Contam-se episódios tragicómicos, como o daquele cidadão acabado de cruzar o recém-aberto Muro, que após ter uma na mão – na noite da Queda as bananas esgotaram em Berlim-Oeste – comeu rapidamente a casca deitando fora o «caroço».

                Ainda que não a tal escala, também do lado de cá da velha Cortina o consumo de bananas foi sinal de bem-estar e de prazer. Ainda pelas décadas de 1950-1960 era um produto raro nas regiões da Europa mais distantes dos portos e das principais vias de comunicação terrestre, funcionando o seu consumo, em muitos lados, como sinal de distinção social. Foi também factor de configuração de uma certa ideia de exotismo, da qual é exemplo o seu lugar na composição do arranjo floral-frutístico que se tornou parte destacada da imagem exuberante e tropical de Carmen Miranda, nos anos trinta e quarenta a portuguesa mais brasileira do Brasil. A definição de «república das bananas», parodiada em 1971 por Woody Allen, não se distancia muito dessa projecção icónica: uma área politicamente periférica na qual o poder arbitrário de um qualquer ditador latino-americano assentava na protecção de grandes empresas americanas, como a United Fruit Company ou a Standard Fruit, cuja riqueza se baseava na exportação do produto para regiões nas quais era vendido a preços elevados sem qualquer benefício para as populações dos países produtores. Mas não pode dizer-se que esta seja uma tradição com grande futuro. E não é pelo facto do seu consumo se ter democratizado. Em artigo saído num número recente da New Yorker, Mike Peed alerta para uma realidade preocupante: um conjunto de factores de natureza climatológica e genética está a provocar uma rápida redução da produção de bananas – ainda assim o 4º produto alimentar mais produzido em todo o mundo –, ao mesmo tempo que introduz transformações radicais na definição biológica das suas diferentes variedades, com alterações de textura, formato e sabor. Pode assim acontecer que, num tempo não muito distante, a banana, ou pelo menos a banana como a conhecemos hoje, venha a transformar-se numa espécie de dinossauro, ou de dodó, das plantas herbáceas. Reconvertida na recordação mitificada de um mundo que já não existe.

                  Apontamentos, Atualidade, Memória

                  Manifesto da juventude de Gaza pela mudança

                  Chegou-me às mãos este manifesto que merece ser lido com atenção. Pelo que mostra sobre a possibilidade, ou a necessidade, de também em relação ao problema de Gaza afastarmos do horizonte as posições estritamente maniqueístas a propósito dos «bons» e dos «maus».

                  Este é o manifesto da juventude de Gaza pela mudança!
                  publicado pelo Gaza Youth Breaks Out (GYBO) a 29 de Dezembro de 2010

                  Que se foda o Hamas. Que se foda Israel. Que se fodam as Nações Unidas, o UNWRA. Fodam-se os EUA! Nós, os jovens em Gaza, estamos fartos de Israel, do Hamas, da ocupação, das violações dos direitos humanos e da indiferença da comunidade internacional! Queremos gritar e quebrar este muro de silêncio, injustiça e indiferença assim como os F16 israelitas quebram a barreira do som; gritar com todo o poder nas nossas almas, de maneira a libertar esta enorme frustração que nos consome por causa da situação fodida em que vivemos; Somos como piolhos entre duas unhas a viver um pesadelo dentro de um pesadelo, sem lugar para esperança, sem espaço para liberdade. Estamos enjoados de nos vermos metidos nesta luta política; enjoados de noites frias e escuras com aviões a sobrevoar as nossas casas; enjoados de ver agricultores inocentes serem abatidos em zonas de contenção, porque estão a tomar conta das suas terras; enjoados de tipos barbudos que caminham com as suas armas abusando do seu poder, espancando ou encarcerando jovens que manifestam os seus ideais; enjoados do muro de vergonha que nos separa do resto do nosso país e, nos mantém presos num bocado de terra do tamanho de um selo; enjoados de sermos retratados como terroristas, fanáticos amadores com explosivos nos bolsos e maldade nos olhos; enjoados da indiferença recebida da comunidade internacional, especialista em expressar preocupação e esboçar resoluções mas, covarde em reforçar qualquer coisa sobre a qual chega a acordo; estamos enjoados e cansados de viver esta vida de merda, sermos aprisionados por Israel, espancados pelo Hamas e completamente ignorados pelo resto do mundo.

                  Existe uma revolução a crescer dentro de nós, uma imensa insatisfação e frustração que nos irá destruir a não ser que encontremos uma forma de canalizar esta energia para algo que possa desafiar o estado actual das coisas e nos dê algum tipo de esperança. A última gota que fez os nossos corações tremerem com frustração e sem esperança foi lançada no dia 30 de Novembro, quando oficiais do Hamas chegaram ao Fórum juvenil Sharek, uma organização de jovens (www.sharek.ps), com as suas armas, mentiras e agressividade, expulsando todos, prendendo alguns e impendindo a  Sharek de funcionar. Alguns dias mais tarde, manifestantes em frente à Sharek foram agredidos e alguns presos. Nós estamos realmente a viver um pesadelo dentro de um pesadelo. É difícil encontrar palavras para a pressão a que estamos sujeitos. Mal sobrevivemos à Operação Cast Lead na qual Israel, de forma bastante eficaz, nos bombardeou violentamente, destruindo milhares de casas e ainda mais vidas e sonhos. Eles não se livraram do Hamas, como pretendiam, mas assustaram-nos sem sombra de dúvida e espalharam a síndrome de stress pós-traumático por todos, como se não houvesse para onde fugir.

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                    Apontamentos, Atualidade, Olhares

                    Chuck B. Goode

                    Desde que começou a tocar em público e gravou o primeiro hit da história do rock ’n’ roll – «Maybellene», de 1955, ainda com um costela nos blues – Chuck Berry viu nascer, crescer, vencer, arruinar-se, trair ou morrer sucessivas gerações de rockers. Ontem, aos 84 anos, depois de uma hora de concerto em Chicago, sentiu-se mal, desmaiou e bateu com a cabeça no piano em que tocava. Assistido no local, retomou o concerto, que abreviou por se sentir «um pouco cansado». Já não se fabricam motores assim. [Aqui CB com Keith Richards em «Roll Over Beethoven»]

                    [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=YeYF0qZBhYY[/youtube]
                      Apontamentos, Música, Olhares

                      Os meus dez mais de 2010

                      O leitor

                      Chegamos então à época das listas. A minha não é a dos melhores nem a dos piores livros saídos ao longo do ano que agora parte. É só a daqueles dez que foram editados em português europeu, pude ler ou reler, e me (lo)comoveram um pouco mais que o habitual. A daqueles que com algum egoísmo maior prazer sinto em partilhar. Ao fechar o balanço, reparei que foram 365 dias com menos ficção (e sobretudo menos poesia) do que foi a norma noutros anos. Pode ser um sinal de condescendência para com a cultura da competição em que nos querem afogar. Na hora de substituir o tradicional calendário de pin-ups e de meter à boca as passas da praxe, um dos meus desejos será reparar este grande pecado.

                      A ordem é apenas alfabética. Não aparecem e-books porque os que fui lendo estão por traduzir.

                      Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel (Teorema)
                      George Orwell, Livros & Cigarros (Antígona)
                      Hans Küng, Islão. Passado, presente e futuro (Edições 70)
                      Herta Müller, Tudo o que tenho trago comigo (Dom Quixote)
                      John Newsinger, George Orwell. Uma biografia política (Antígona)
                      Manuel António Pina, Por outras palavras & mais crónicas de jornal (Modo de Ler)
                      Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta (Quetzal)
                      Orlando Figes, Sussurros. A vida privada na Rússia de Estaline (Alêtheia)
                      Tony Judt, Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos (Edições 70)
                      Walter Benjamin, O Anjo da História (Assírio & Alvim)

                        Apontamentos, Olhares

                        Vulcanologia

                        Uma das definições que o Houaiss oferece de anestésico toma-o como um produto que «diminui ou elimina a sensibilidade». Ou, de uma forma mais abrangente e difusa, como algo que inevitavelmente «provoca apatia, desinteresse, impassibilidade». Por isso, neste tempo de arriscados declives, piso deslizante e precipícios à vista, se revela particularmente perigoso o forte gás anestésico que emana da quadra das festas e dos bolos. Ao som de caixas de música, flautas de Pã e toques de telemóvel, proclama-se uma suspensão fictícia do tempo e coloca-se a vida colectiva em modo de pausa e de aparente paz. Mas o vulcão não está adormecido. Irá explodir.

                          Apontamentos, Atualidade, Olhares

                          Anarquia a 25/12

                          O Natal de Ronald

                          O Natal itinerante que escolhi este ano guardava-me duas boas surpresas. Surpresas mesmo, ocasiões raras, associadas a gestos que julgava perdidos para sempre dentro deste reduto perpendicular de 92.090 Km2. A primeira veio com o bolo-rei. Pela primeira vez em bastantes anos pude comer um com fava e brinde embrulhado em papel vegetal, como os da infância. Gozado com um deleite asininamente cavaquista, associado na sua intensidade à certeza de passar por cima de uma daquelas regras sanitaristas e lerdas emanadas da União Europeia. Mas a segunda surpresa foi ainda maior e melhor. Juro que, numa pastelaria-padaria do interior, frequentada por famílias aparentemente honestas e sem pinta de simpatia pelo Diabo, pude, na companhia de dezenas de prevaricadores, fumar um cigarro ao balcão, lançando baforadas intensas sobre os receptáculos nos quais repousavam pacíficos pães de trigo e de passas, ordeiras broas de milho, serenos cacetes integrais e, mesmo por baixo do meu nariz, um esplêndido pão-de-ló. Claro que não declaro onde aconteceu isto: não sou denunciante nem quero ficar na consciência com a responsabilidade de prejudicar algum chefe de família, funcionário da ASAE, na avaliação de competências relativa ao ano civil de 2010.

                            Apontamentos, Devaneios, Olhares

                            Natal judaico

                            Passo estes dias frios na Beira Baixa e de manhã subi até Belmonte. Não ia há muito a esta vila de um grande interior abandonado à estagnação e ao isolamento. Parece agora um lugar que renasce devagar, apoiado em parte no interesse por uma tradição criptojudaica longamente ignorada ou omitida pela cultura cristã-velha. Afinal o antisemitismo tem por esta aba da Europa uma presença rígida e persistente que tardou em diluir-se na aparente normalidade multiétnica que agora partilhamos. Fiz a via sacra das ruas estreitas e graníticas, um tanto escorregadias também, da antiga judiaria. E estive no Museu Judaico, um dos melhores, mais bem concebidos e mais amorosamente conservados dos que conheço em Portugal. Nele revi pedaços de vidas escamoteadas, submersas gerações após gerações, roçando o fundo mais fundo do esquecimento, mas capazes ainda de nos acenarem um pouco. No fim da visita agradeci ao rapaz de kippah na cabeça o cuidado com a conservação daquela memória única. Sendo 24 de Dezembro, tive o pudor de não mencionar a um judeu as boas festas cristãs. Mas ele não se coibiu nada de me desejar um Bom Natal.

                              Apontamentos, Olhares

                              Real social (e se de repente) (ok, um bocado nostálgico)

                              [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=V0UcQDUR-fU[/youtube]

                              All the leaves are brown / and the sky is grey / I’ve been for a walk / on a winter’s day
                              // I’d be safe and warm / if I was in L.A / California Dreamin’ / on such a winter’s day

                              Então foi assim. Seguia de manhã a via-sacra das compras da época, absorto em pensamentos um tanto doentios que metiam os efeitos da crise e a consciência de estar a ser sugado por uma espiral muito negra. Provavelmente nem disfarçava a tristeza. Uns metros adiante, uma mulher que nunca tinha visto revolvia estantes de CD à procura de qualquer coisa. Cara fechada, metida na sua vida, talvez com pensamentos não menos sombrios. De repente, a instalação sonora da loja, activada por um qualquer fantasma revivalista e com problemas de visão, começou a bradar «California Dreamin’», o hino sixtie de esperança e evasão. Então eu e a desconhecida como que acordámos. Cada um de nós reparou que o outro tinha despertado. Por momentos um vento antigo girou pelo ar. Olhámo-nos sem uma palavra, como cúmplices. Sorrimos levemente e fomos às nossas queridas vidas de cinquentões. Durou tudo 2’ 41’’. Ou talvez menos.

                                Apontamentos, Devaneios, Memória

                                Aerograma

                                Natal 2010

                                Nunca fui um adorador do Natal, com o seu burrinho, a sua vaquinha, e a restante parafernália pagã cercando o pequeno nazareno. Não por ter vivido muito cedo um qualquer momento de epifânica suspeição em relação a esse evento capital – bem mais forte por certo, para uma criança, do que o aflitivo instante do martírio – da religião na qual fui educado. Não por me agoniar «desde que me lembro» a dissipação, o luxo e a hipocrisia que geralmente rodeiam os espaços iluminados que lhe servem de trilho e de cenário. Afinal até houve um tempo no qual acreditei sem reservas na generosidade do Pai Natal e se me deixassem teria passado noites ao frio, emboscado num ermo escuro, para o ver passar de trenó na companhia da simpática rena Rudolfo. E atalhar logo com a minha encomenda. O desgosto não veio por aí, não. Chegou depois, pela percepção forte, sempre renovada, vivida como um calafrio, de uma ficção de paz, de compaixão o de igualdade que só consigo materializar quando me levanto da mesa da consoada, deixo o peru no sossego da travessa, e vou lá fora, em silêncio, sondar os rumos e os azimutes.

                                  Apontamentos, Devaneios, Etc.

                                  Tédio

                                  tédio

                                  Sem ser adivinho, consigo decifrar à distância de cinquenta anos uma notícia em destaque no dia 4 de Dezembro de 2060, quando se comemorar o quadragésimo aniversário do desaparecimento do último jornal em papel e as gerações mais novas falarem todas, com alguma familiaridade, um 官话 técnico (ou mandarim simplificado) ensinado desde a pré-primária: «o Parlamento Europeu vai discutir a criação de uma nova comissão de inquérito destinada a reapreciar o caso Camarate». Se ainda for vivo, nesse dia morrerei de tédio.

                                    Apontamentos, Devaneios