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Repórteres de guerra

Como a própria guerra, o jornalismo que faz dela objeto não se limita aos episódios mais sangrentos da frente, à observação dos destroços ou aos meios da ação política que, invertendo o conhecido aforismo de Clausewitz, fazem a guerra por outros meios. Em regra, as reportagens mais interessantes produzidas em teatro de conflito não são as que descrevem os combates, os avanços e os recuos dos exércitos ou das milícias, mas antes as que retratam em primeiro plano os seus atores e figurantes, soldados e civis, perpetradores e agentes, vítimas e espetadores. No atual conflito líbio, são por isso exemplares e particularmente impressivas as reportagens que Paulo Moura tem escrito para o Público e Juan Miguel Muñoz para o El País. Sendo diferentes os cenários que cada um deles escolhe – Moura, mais na retaguarda, insiste na dimensão humana de quem viu as rotinas voltadas do avesso, Muñoz, perto da frente, sublinha a ansiedade, o medo e a esperança dos que se preparam para combater – ambos oferecem testemunhos de uma verdade antiga, relatada já por William Russell, que nas campanhas da Crimeia estabeleceu o género trabalhando para o Times. Revelam como é em situação de conflito armado que a solidariedade entre os que partilham um destino é levada ao extremo e que a perceção da transitoriedade dos hábitos e das convicções, da sua importância relativa, se revela mais perfeita, mais percetível, passando tudo o resto para um distante segundo plano.

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    Cérebros e corações

    Em When Harry Met Sally, por cá Um Amor Inevitável, a comédia romântica de Rob Reiner filmada no final dos eighties com Billy Crystal e Meg Ryan, uma linha de diálogo faz soar uma verdade numa tonalidade lamechas que por sê-lo não lhe faz perder a exatidão. «Os nossos cérebros são bons a registar datas e factos que podem ser esquecidos quando já não são necessários. Mas nada do que é bem guardado nos nossos corações alguma vez se perderá.» Provavelmente uma das deixas mais despretensiosas e certeiras da história do cinema.

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      Memórias de um leitor #1

      Contraste

      A capa do número de Agosto-Setembro de 1986 da interessante, (“pós-“)moderna e humorosa Contraste, dirigida por Miguel Portas, era assim. Na revista colaboravam também Guiomar Belo Marques, Joaquim Margarido, Luís Calhau, Rui Zink (criador desta capa), Paulo Varela Gomes, Henrique Cayatte e muitos outros. Custava 75 escudos.

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        Thomas Mann e o FBI

        Thomas Mann

        O escritor Thomas Mann, humanista après la lettre e homem estruturalmente conservador, cujas convicções mais estáveis mergulhavam na cultura alemã de Oitocentos, teve durante o exílio americano, em conjunto com os filhos Klaus e Erika, um processo de mais de mil páginas aberto pelo prestimoso Federal Bureau of Investigation. Segundo Rob Riemen, a acusação mais notável que ali pode ser encontrada é a de «antifascismo prematuro», isto é, resistência ao fascismo antes dos Estados Unidos da América declararem guerra à Alemanha no final do ano de 1941. Corriam os tempos turvos do McCarthismo e a sua atitude, de acordo com os aplicados investigadores do FBI, só poderia dever-se a uma simpatia não declarada pelo comunismo.

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          Os arrependidos

          fuck off

          Releio dois parágrafos de Claudio Magris, em Danúbio, nos quais o escritor recorda certos frequentadores do clube Strohkoffer, na Viena dos anos 50 e 60, e revejo aquelas pessoas pelas quais todos passamos – ou que pelo nosso bairro físico e imaterial continuam a mostrar-se – cuja radicalidade alardeada, mas invariavelmente falha de inteligência e humanidade, se transvestiu rapidamente no seu reverso. E naquelas outras que em sentido contrário são capazes de escalar as suas circunstâncias e ir alimentando, devagar mas com segurança, sem mais ruído que o necessário, a heróica capacidade de infringir.

          Nos seus «actos poéticos» de exibição, que pretendiam transformar a vida, havia a ingenuidade persistente de quem julga transgredir a lei do Pai despindo as calças, a presunção patética de programar a espontaneidade por encomenda e a arrogância dos que se crêem anunciadores de um novo evangelho clownesco-orgástico-cibernético, com muito pouca novidade.

          Hoje seriíssimos volumes académicos celebram esse «ativismo» poético e ostentam com gravidade ideológica as fotografias de autores que se apresentavam ao público nus, a fazer chichi, mergulhando a pila em jarros espumantes de cerveja e amontoando-se em atitudes que gostariam de ser obscenas, quer dizer, originais e inocentes. A tudo isto falta cruelmente a invenção, o autêntico nonsense, a fantasia imprevisível, a ironia: a nudez e os gestos provocantemente ostentados são previsíveis como as fardas dos cadetes numa academia militar. Hoje, os ex-iconoclastas ganharam juízo, como os goliardos que se transformaram em notários, proferem conferências na universidade e criticam 1968.

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            Outras musas

            Vespa

            Falava sobre a presença das musas. Pensava levianamente que para aquele público de estudantes seria como falar da morte, do riso ou do gin tónico, realidades sensíveis que qualquer um reconhece culturalmente pelo reflexo, sem a necessidade de grandes explicações. Referia-me pois às nove hiperativas e instáveis filhas de Zeus e de Mnemósina, capazes, por mais de dois mil anos a trabalhar em full-time, de soprarem ao ouvido do comum dos mortais o génio necessário ao ato de criar. Mas falava também daquelas outras, figurações imaginadas do homem querido ou da mulher amada, capazes de inquietarem todo aquele – mesmo o descrente ou o lobo solitário – que espera alguém capaz de sussurrar-lhe ao ouvido, no momento certo, a fórmula para suplantar a mediocridade. A surpresa ficou a dever-se a naquele instante nem uma só de entre as cinquenta boas almas presentes ter sido capaz de esboçar a fisionomia ou de descrever uma só das habilidades de Euterpe, Clio ou Terpsícore. Ou sequer de as inventar, como lhes sugeri.

            Não concluí no entanto que as esguias figuras que cruzam o mito e a vida pudessem ter abandonado os bosques, as fontes e as bordas dos riachos onde costumam ocultar-se, retornando, fartas das nossas hesitações, ao velho Olimpo ou à pacatez dos textos clássicos, deixando-nos desolados nas mãos da apatia e da ignorância. O que tem acontecido é apenas uma metamorfose, capaz de libertá-las do fortuito das suas circunstâncias, do aspeto demasiado helénico ou próximo dos frescos arrebatados de Veronese, de uma sexualidade pouco equívoca. Tornadas outras, como mutantes, circulam agora táteis no meio de nós, servindo-se de smartphones ou ipads, vestindo roupa colorida, usando lentes de contacto, atravessando as ruas de capacete em vespas prateadas, trabalhando em edifícios climatizados. Tão próximas da imaginação quanto da vida de todos os dias. Reformulando as fábulas, trocando as máscaras, confundindo os papéis, oferecendo os corpos, partilhando vontades. Fartaram-se dos enredos desgastados e procuram outros mais convincentes. Para as vermos basta acreditarmos nelas.

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              A guerra às avessas

              As imagens até há poucos dias chegadas do conflito na Líbia, mostrando o seu lado desregrado imposto pelo voluntarismo dos insurgentes, foram ampliadas agora que desceram à grande cidade. Em Tripoli, observamos no terreno uma espécie de manual ilustrado da forma de não fazer a guerra. A cadeia de comando é impercetível ou pelo menos irreconhecível, ultrapassada por uma horda que combina deserdados do sistema com uma massa de jovens que, afora o pormenor das armas, se apresentam ao combate como se estivessem a caminho do Festival do Sudoeste. Avançam desafiadores, arrogantes, mas mal armados, pior equipados e em completa desordem. Movimentam-se em campo aberto, usando bonés de basebol brancos ou coloridos detetáveis a olho nu pelos atiradores inimigos, t-shirts do Inter de Milão ou com a efígie do Che, keffyehs iguais aos da Fatah, corsários de marca e sandálias havaianas. Disparam em todas as direções, a qualquer momento, gastando munições sem um sentido claro ou objetivo percetível, sem precisar um alvo do qual não possuem quaisquer coordenadas, por vezes com companheiros na provável linha de tiro.

              Nestas condições, é inevitável que uma grande parte das mortes e ferimentos seja autoinfligida. A ocupação do complexo de Bab Al-Aziziyah foi particularmente notável sob este aspeto, assistindo meio-mundo, em direto pela televisão, ao que parecia ser uma réplica de um imenso e ruidoso mercado árabe, com pessoas circulando aos magotes em todas as direções, conduzindo pickups em derrapagem como se fossem burros de carga em versão turbo, transportando objetos roubados, aqui e ali tentando mesmo vender algumas coisas aos jornalistas ocidentais. Mas se gente nestas condições pôde avançar desta maneira e conquistar terreno tão depressa, isso só pode querer dizer que, para além da importante ajuda militar da NATO, o regime de Khadaffi se encontrava ainda mais dividido e isolado das pessoas comuns do que poderíamos ingenuamente imaginar. Só neste cenário podemos entender que tenha sido possível chegar-se a um tal ponto de não-retorno, fazendo tábua rasa dos manuais mais elementares da arte da guerra clássica ou dos princípios consagrados da guerrilha urbana. Ainda assim é extraordinário não se ouvirem apelos ao bom-senso táctico e a uma atitude cívica que pouparia muitas vidas.

              A partir de hoje os posts publicados seguirão as regras do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

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                Não há revoluções perfeitas

                Não há revoluções perfeitas e ainda bem que assim é. As revoluções imperfeitas que procuraram fazer-se passar por perfeitas transformaram-se rapidamente em instrumentos de uma ordem social imposta, tendencialmente despótica, crescentemente violenta e opressiva, que de revolucionário manteve apenas o rótulo e a retórica. Aconteceu com todas aquelas que irromperam depois de deixarem amadurecer os «grandes princípios» e os programas que deveriam ser aplicados com mão de ferro após a vitória da nova ordem. Aconteceu como a francesa, a russa, a chinesa ou a iraniana. Por isso são sempre mais admiráveis as revoluções inacabadas, como a portuguesa, a checa ou a egípcia, que nasceram de princípios vagos e sem um programa claro, que apenas prepararam o terreno para uma mudança de longo curso, inevitavelmente complexa e contraditória, a percorrer em ziguezague, que só a realidade vivida poderia ou poderá ditar.

                O que importa nas revoluções imperfeitas é pois o instante, o ponto de viragem, o momento de fuga em relação ao passado, a possibilidade de transformar, a consciência de se viver um tempo rigorosamente único de libertação colectiva de uma ordem injusta e indesejada. O que nelas conta é acima de tudo, e talvez exclusivamente, o voltar anárquico da página. Por isso, antes a projecção da esperança e a consciência da possibilidade da mudança – ainda que esta vá alterando os sentidos, e possa trazer consigo muita desilusão – do que o conformismo e a inacção perante as tiranias bloqueadas. Ou a expectativa de um sinal que mostre o momento ajustado para a tal revolução exemplar, feita com os aliados absolutamente certos e em nome da inquestionável «linha justa». É nisto que deveriam pensar um pouco os cépticos crónicos das revoluções desprogramadas, para quem, como na popular chula do Minho, «p’ra pior já basta assim». Estou a falar da Líbia, obviamente.

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                  A natureza alemã

                  Produzir generalizações sobre as características comportamentais deste ou daquele povo, de uma determinada profissão ou dos adeptos de uma equipa de futebol, pode ser tão perigoso quanto divertido. Perigoso porque tipifica em excesso, aproximando quem se não acomode ao modelo da condição de pária, de excluído, ou, no mínimo, de ser um pouco estranho. Mas divertido para os maníacos da taxinomia, permitindo-lhes entreterem-se a acumular indícios capazes de confirmarem a identidade e a autonomia de cada espécie. Para estes, torna-se então fácil provar que as mulheres são frágeis, os negros indolentes, os japoneses trabalhadores, os judeus avarentos, os árabes negociantes espertos, os franceses obcecados por sexo, os espanhóis ruidosos, os italianos histriónicos, os ingleses fleumáticos ou os alemães ultra-organizados. Mas de todas estas caracterizações, talvez seja a última aquela que se aproxima mais de uma atitude social bastante disseminada. Claudio Magris relembra a propósito, em Danúbio, um plano secreto preparado para a tomada de Ulm, em 1701, por parte dos bávaros aliados de Luís XIV, alguns dos quais tinham por missão infiltrar-se na cidade disfarçados de camponeses, com a missão de abrirem as portas às suas tropas: «O tenente Baertelmann levará debaixo do braço um cordeiro; o sargento Kerbler, dois frangos, o tenente Habbach, vestido de mulher, levará na mão uma cesta de ovos (…)». Tudo prescrito e organizado ao pormenor, «à alemã», Deus lhes perdoe. Deus e as legiões de alemães desorganizados cuja existência excepcional contrariará sempre essa regra falível que os arruma a todos na categoria dos obsessivos-compulsivos.

                    Apontamentos, Devaneios, Olhares

                    Descer para baixo

                    marxismo

                    Como existe quem saiba – e eu até agora julgava consabido – «mais-valia» é o termo, ou o conceito, desenvolvido por Karl Marx para se referir à diferença entre o valor da mercadoria produzida e a soma do custo dos meios de produção e da força de trabalho que são necessários para a obter. Na sua aplicação se situa a origem do lucro, considerado injusto e parasitário pelo filósofo alemão, que constitui a mola real do sistema capitalista e a pedra basilar da explicação que dele ofereceu a economia marxista. Uma expressão que surpreendi este sábado num comentarista desportivo da SportTV que ostentava o epíteto de «professor» – ou por este título era respeitosamente tratado pelo repórter de serviço – é reveladora do modo como, após décadas de omnipresença, Marx, a par de outros pensadores fundamentais do mundo contemporâneo, está a desaparecer da formação universitária mais elementar. Entre largas dezenas de dislates, de palavras inadequadas e de erros do português básico que não vêm agora ao caso, referia-se o tal comentarista-professor a determinado jogador de futebol como representando para a sua actual equipa «uma mais-valia, passe a redundância».

                      Apontamentos, Devaneios, Olhares

                      O ruído do silêncio

                      rua israelita

                      Não é apenas por ser Verão e o número de cidadãos alheados dos infortúnios do mundo aumentar sempre com os calores da estação. Também nos meios habitualmente activos e interessados na mudança parece existir um pacto de silêncio em relação ao que está a acontecer agora mesmo em dois Estados do Oriente Médio. Na Síria, as cidades são bombardeadas sistematicamente pelo exército enquanto os manifestantes pró-democracia, presos, torturados ou simplesmente assassinados – «financiados pela CIA», bradam os mensageiros do costume – esperam em vão por iniciativas diplomáticas que ninguém toma. Fica assim o tirano Assad com as mãos livres para fazer o que bem lhe apetece. Uma boa prova de que do «não-intervencionsimo absoluto» pode resultar uma efectiva cumplicidade com o crime mais ignóbil. Em Israel, manifestações com uma dimensão sem precedentes questionam na rua as políticas sociais do governo, mas a solidariedade de quem do lado de cá se bate por idênticas causas permanece muda, queda e invisível. Outra prova de que do «anti-semitismo primário» facilmente pode resultar uma grande capacidade para confundir o justo com o injusto. Em ambos os casos, o activismo selectivo, mais preocupado com os meandros da política interna e os equilíbrios geoestratégicos, com o que importa invocar e o que interessa calar, do que com a vida efectiva das pessoas concretas, convive pacificamente com a iniquidade. Cala e por isso consente.

                        Apontamentos, Atualidade, Democracia

                        Atestado de pobreza

                        Atestado de pobreza
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                        Talvez seja um reflexo condicionado pela interferência da memória num horizonte mais imediato, mas é-me difícil deixar de ligá-lo a um tempo no qual o «Estado social» ainda não tinha passado a representar «um peso». Quando sigo o conjunto de medidas paliativas do Plano de Emergência Social proposto pelo governo e as vejo muito mais fundadas numa lógica caritativa de apoio aos indigentes do que num processo digno e eficaz de recuperação dos cidadãos carenciados ou marginalizados pela via da qualificação e da reinserção, regresso àquele tempo no qual o limiar mínimo da sobrevivência estava – quando estava – assegurado pelo velho «atestado de pobreza». A nódoa vexatória, a marca de exclusão, está de regresso, em nome de uma resposta das «boas consciências» às necessidades mais elementares das pessoas, e estas são cada vez mais, que subsistem no limite.

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                          Cortar na silly season

                          silly season

                          Está tudo tão difícil de engolir, tão apertado nas costuras, tão sério nas consequências, tão sombrio nas previsões, que por mais que se revolvam suplementos de verão, jornais nacionais e regionais, magazines televisivos ou radiofónicos, blogues para todas as estações, dificilmente encontramos agora as habituais chamadas de atenção para as trivialidades garridas e um tanto obscenas da silly season. Os tons pastel dominam este ano as paisagens de Verão e esse não é propriamente um sinal positivo.

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                            Gares, comboios e o resto

                            A partir da década de 1830, com a abertura das primeiras linhas preferencialmente destinadas a passageiros, a Europa e as Américas descobriram no caminho de ferro uma dimensão da utopia. O novo meio de transporte permitia agora percorrer enormes distâncias a velocidades inauditas, construindo, para quem tinha a possibilidade de viajar, uma forma radicalmente nova de apreender o mundo, os mapas, as fronteiras, as paisagens, as relações humanas, os negócios, o conhecimento e até a memória. A literatura oitocentista testemunha mil vezes a participação do comboio e das suas linhas na aceleração dos enredos, na verbalização do fascínio romanesco por uma geografia renovada feita de chegadas, de partidas e de movimento.

                            Esta dependia em larga medida do traçado em rede, que dava azo a que as antigas jornadas lineares, normalmente por etapas, ganhassem agora novas configurações, mais complexas e ao dispor da vontade e da bolsa dos viajantes que se multiplicavam. Mas não servia apenas para os levar a conhecer mundos, uma vez que esses mundos podiam também desembarcar nas cidades. Eça fala-nos do alvoroço dos estudantes que peregrinavam semanalmente até à estação de Coimbra para verem chegar, e logo ali serem abertos, os caixotes contendo as últimas novidades literárias da admirada Paris. O Sud Express surge então como parte do que se acreditava poder vir a ser uma linha continental capaz de unir Lisboa a São Petersburgo. Foi a expansão dos nacionalismos, culminando com as duas guerras mundiais e a afirmação dos Estados autoritários assentes no controlo dos cidadãos, que tornou impossível, e por vezes pintado de negro carregado, o devaneio oitocentista. O medo e o desespero apoderaram-se então das gares e das carruagens, tantas vezes «rigorosamente vigiadas», como evocava o filme de Jirí Menzel.

                            O fim das ditaduras e o derrube do Muro poderiam ter deixado que a utopia ferroviária retomasse o seu caminho, mas entretanto o uso das estradas já se havia tornado determinante. A linha de comboio, no entanto, não deixou de continuar associada a um certo padrão de viagem, tendo ao longo de décadas ajudado milhões de jovens a descobrirem o seu continente e gerações de trabalhadores a ganharem as suas vidas. Habitando o nosso imaginário colectivo, ela está agora em condições de ajudar a resolver muitas das dificuldades de transporte que a crise económica está a impor à maioria dos cidadãos. O comboio tomado – excepto para quem continue a comprar os pacotes turísticos que simulam os míticos Expresso do Oriente ou o Transiberiano – já não como espaço previsível de «aventura e descoberta» mas como uma necessidade e um veículo para ir traçando sucessivas linhas da vida. Assim o considerem as autoridades públicas, antes que os carris abandonados fiquem cobertos de pedregulhos, ervas daninhas e ninhos de serpentes.

                            Fotografia: Marta Bevacqua, The Train

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                              Arqueologia

                              Do número 8 da revista Almanaque, saído em Maio de 1960: «A rapariga portuguesa não é normalmente muito alta. A altura média anda por 1,55 m. O peso é de 52 kg. A cor dos olhos e dos cabelos é castanha. Mede de peito 86 cm e de ancas 90.»

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                                A voz sem voz da solidão

                                Solidão

                                A condição do solitário traduz ausência de afectos, uma necessidade intelectual ou a escolha radical de um modo de vida. Ou então tudo isso a um só tempo. Ele é aquele que ninguém interpela, e que, à força de não ser nomeado, acaba por adquirir uma espécie de transparência. É assim, como assim foi há mil anos, no tempo em que o escape do mundo podia até transportar consigo um halo de respeito ou de santidade. A solidão moderna, todavia, abandonou os lugares de ascese ou de exílio, os eremitérios, as ilhas perdidas, as florestas mais obscuras, para se instalar no coração da experiência urbana, contaminando a vida daqueles que não tiveram, ou em algum momento perderam, a possibilidade de manterem uma teia física de relações, de objectivos e de interesses. Sem espaço para fazerem ecoar a sua voz, escutando ao mesmo tempo as dos outros, estão condenados ao silêncio, à irrelevância, à morte em vida. Podem até agarrar-se a um terminal, deambulando pelas redes sociais, subscrevendo mil causas, protestos ou clubes de fãs de qualquer-coisa aqui ou além, mas sem o hálito e o olhar dos seus semelhantes permanecem insulados num deserto próprio. Tão sós que até a sua sombra perdeu a fala.

                                A propósito da saída de um número do Magazine Littéraire dedicado ao tema da solidão.

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                                  Antes tarde que nunca

                                  marreta

                                  Antes tarde que nunca. E mais vale já que depois.

                                  A comissária europeia para a Justiça, Viviane Reding, acaba de propor, em declarações ao jornal alemão Die Welt, o desmantelamento das três principais agências de rating norte-americanas, a Standard & Poor’s, a Moody’s e a Fitch. «A Europa não pode permitir que o euro seja destruído por três empresas privadas norte-americanas», disse esta comissária luxemburguesa, exigindo mais transparência e mais concorrência na avaliação de Estados pelas referidas agências. Resta saber se este tipo de declaração corresponde a uma intenção sincera, a um programa a traçar e a cumprir, ou se se limita a servir para pacificar os ânimos mais exaltados.

                                    Apontamentos, Atualidade