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O peso da memória

Não sou antifadista. Aliás, o Vasquinho da Anatomia, d’A Canção de Lisboa, era-o – «Morra o fado!», chegou a gritar do fundo da alma – e acabou por ser chamado à razão, passando, por via da redentora mudança proporcionada pelo estudo e pela moderação, da condição de degenerado à de doutor. Como aconteceu com o estrangeirado moço Luís, n’O Feitiço do Império, de António Lopes Ribeiro, no momento em que trocou os prazeres tóxicos da jazz-band e a namorada americana Fay Gordon, que fumava e detestava Portugal, pela «canção nacional» e o amor de Mariazinha, esse símbolo casto, modesto e compassivo da «portugalidade» no feminino. Mas que tanto fado me reconduz ao passado, lá isso, perdoem a franqueza, reconduz. Admito que estejamos a precisar de qualquer coisa que nos sacuda a autoestima, mas não exageremos. «Viva o fado!», muito bem, levanto também o meu copo, mas não façamos dele o hóquei em patins que nos falta. O fado não merece que lhe façam isso.

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    Apontamentos, Atualidade, Memória

    «Imaterial», o tanas

    Diz-se que fado vem de fatu, a palavra latina para destino. E que é fado dos portugueses cantar o fado. Fado é assim aquilo que é fatal, o que necessariamente tem de acontecer. A índole plangente e fatalista da canção de Lisboa não pode assim ser outra, porque, com ou sem faina de renovação, fado será sempre fado. O resto, bem, o resto é invenção de escriturários, engomadinhos, temerosos de sangue, lágrimas e cheiro a vinho tinto. O que cantaram em tempos certos estudantes de Coimbra – e que uns quantos repetem, até à náusea, sem ousadia ou inventiva – não era fado mas balada, tristonha e lamecha, chansonette de quem não sabia muito bem que coisa seria espetar, apenas por paixão ou desfastio, uma faca nas tripas de alguém. E meter toda a raiva, todo o sofrimento e danação, numa só cantiga.

    A Amália que tantos lembram não era bem fado, pois cantava com uma elevação, olhar altivo e queixo levantado que não eram próprios do fado. Talvez fosse mais canto lírico. Fado-fado era a Severa, a desgraçada, ou o Marceneiro, com a voz a precisar de uma colher de mel coado, talvez a Hermínia quando estava com os copos, talvez Maria da Visitação, Zé Porfírio, Ginginhas, e outros malandros igualmente desconhecidos do excelentíssimo público. Fado era assim, e assim continua, o que fazia quem puxava pela voz quando tinha ganas de puxar da pistola. Ou quem só queria carpir a infelicidade sobre o ombro de alguém. Por isso pode servir, agora que nos empurram para uma nova vida de condenados, como choro e maldição face ao destino que não conseguimos fintar. Ou então, de faca na mão (ou na liga), como canção de combate. «Imaterial», o tanas.

    Variação (em ré menor) sobre dois fragmentos de um artigo que publiquei em 1996.

     

      Apontamentos, Atualidade, Coimbra, Olhares

      João Martins Pereira | colóquio-evocação

      JMP na Alemanha, 1958
      Na Alemanha, em 1958

      Para os amigos, os seus leitores, os colegas de profissão e os companheiros das muitas causas com as quais se foi envolvendo, João Martins Pereira (1932-2008) permanece como uma referência da oposição de esquerda ao Estado Novo, da resistência às agressões do capitalismo e, já em plena democracia, da crítica aguda e inteligente à política oportunista e fulanizada. Engenheiro de formação e de profissão, ensaísta atento, governante efémero, jornalista acidental, escritor de causas, estudioso da história do capitalismo português e de economia industrial, foi também um independente obstinado, um marxista heterodoxo, um sartreano radical.  E sempre um pensador inconformista, empenhado numa intervenção pública que entendia como igualitária e democrática.

      É deste português exemplar, e dos temas que o preocuparam e com os quais persistentemente se envolveu – muitos deles confluindo com o nosso presente –, que tratará o Colóquio-Evocação «João Martins Pereira e o seu, nosso tempo», a ter lugar nos dias 25 e 26 de Novembro, nesta sexta-feira e neste sábado, no Auditório do Picoas Plaza, em Lisboa. A organização é do Centro de Estudos Sociais e de Centro de Documentação 25 de Abril e integrará uma pequena mas significativa exposição. Pode consultar aqui o programa completo e a lista dos intervenientes. E recolher um flyer para divulgar ou imprimir. Pode ainda ler a partir daqui dois posts saídos neste blogue há cerca de três anos.

        Apontamentos, Heterodoxias, Oficina

        Teimosia e ilusão

        Mantenho quase sempre um grande arco de acolhimento em relação à diversidade das opiniões e das escolhas dos outros. Partilho com Camus a decisão de, se um dia for criado o partido dos que não sabem se têm razão, poder ser o primeiro a inscrever-me. Mas essa capacidade de aceitação não chega ao ponto – salvo nos casos, cada vez em maior número, em que as condições de sobrevivência do posto de trabalho e a coação patronal o exijam – de pactuar sem alguma mágoa ou ressentimento com quem não adere a uma greve como esta. Por isso, neste dia de Greve Geral, e uma vez que no meu local de trabalho não se organizam piquetes, evitarei passar por espaços nos quais laboram pessoas com quem mantenho uma relação diária próxima e afável. Acontece que, nas atuais circunstâncias, se as descubro de espinha curvada, «amarelas», aceitando sem resistir a queda coletiva no abismo que leva ao abismo, jamais voltarão para mim a ser rigorosamente as mesmas. Por isso, para ser franco, prefiro não saber da sua escolha. Desta maneira, e até prova em contrário, continuarei a confiar na sua sageza, coragem e sentido de justiça.

          Apontamentos, Atualidade, Olhares

          Manual para manetas

          Parece o esboço de um sketch perdido dos Monty Python. Mas não é. Ao folhear um recém-traduzido livro de Peter Sloterdijk, deparei com uma estranha referência bibliográfica. Em 1915 foi publicado na Alemanha um manual para manetas (esqueçamos a contradição nos termos), que foi preciso reeditar no prazo de um mês, dado o aumento da procura determinado pelo crescimento exponencial dos mutilados de guerra. Na segunda edição da obra, constatava o seu autor, Eberhard Von Künzberg, com um mal disfarçado alvoroço, que a afluência de novos manetas chegados da frente viera dar «um novo impulso aos antigos manetas». «Como é favorável a situação do mutilado de guerra! Graças à sua pensão está para sempre ao abrigo da necessidade.» Digamos, passe o caráter sinistro da comparação, que se pode antever no atual aumento do número de pobres e no alijar das responsabilidades do Estado o imparável incremento, a médio prazo, das instituições de caridade capazes de assegurarem um prato de sopa certo e seguro. Há um ano, o paralelismo pareceria um absurdo ou uma brincadeira de mau gosto. Agora ficamos a pensar se não corresponde a uma premonição.

            Apontamentos, Etc., Olhares

            Os cómicos

            Jacques Tati
            Jacques Tati em «Play Time»

            Italo Calvino disse uma vez de Groucho Marx que o seu sucesso se deveu ao facto de, «enquanto consumado viveur e conquistador irresistível», se apresentar sempre com os atributos exteriores do prestígio, da autoridade e do saber viver. Fatores que terão ajudado a manter a relação de cumplicidade com um público que lhe permaneceu sempre fiel. Como acontece com todos os cómicos que através de performances  burlescas partilham com quem os observa um sentimento de conivência para com a sua forma oportunista e habilidosa, individualista e sem grandes preocupações morais, de representar a vida. É o que se passa com atores como Fernandel, António Silva, Louis de Funès, Jerry Lewis, Mel Brooks e Rowan Atkinson. Com eles, a ironia é remetida para um limiar estreito e incerto, muitas vezes invisível. Talvez por isso tenha preferido sempre um outro género de humor. O dos clowns pobres, grandes solitários, histriões de roupa amarrotada e paixões impossíveis, de semblante triste e porta-moedas vazio, que não riem ou quase não riem, como Buster Keaton ou Chaplin, Totó ou Jacques Tati, Cantinflas ou Woody Allen. A essência da comicidade – tão intensa que pode levar às lágrimas – não se encontra aqui no espalhafato ou no gag inusitado, mas nas virtualidades subversoras de um modo sóbrio e desastrado, desolado e quixotesco, de usar o humor como meio de sobrevivência e estilo de vida. Os Monty Python não entram nestas contas pois o nonsense pertence a outro planeta.

            versão 2.0 – original de 2006

              Apontamentos, Artes, Cinema

              O fim da democracia

              Deveria estar contente. Ou pelo menos agradecido às circunstâncias. Afinal lá caiu Berlusconi. Como se estatelou Papandreou. E antes deles tombaram Sócrates, Cowen ou Brown. Quanto a Zapatero, seguirá em breve para uma vida calma de conferencista. Não os comparo, embora com nenhum deles tenha simpatizado. Em particular com o abjeto Cavaliere, naturalmente. Mas é assustador olhar a vaga de políticos trocados por «reputados técnicos» ou por revanchistas que apenas pretendem reconduzir o Estado ao papel de polícia mau. De governantes eleitos com programas e com um contrato social, substituídos por administradores da coisa pública com formação de manga-de-alpaca e espírito de moralista. De humanos pecadores por asséticas santidades. Neste sentido, a queda do pequeno Napoleão italiano, e a forma como caiu, são até um mau sinal. Mais um. Pois não foram o povo e a democracia que o derrotaram. Foi a ditadura, invisível e pesada, do dinheiro e da finança.

                Apontamentos, Atualidade, Opinião

                Mudar o destino

                Destino

                Na conhecida obra de Diderot, o fatalista Jacques insiste em que tudo aquilo que de bom e de mau nos acontece se encontra escrito algures «lá no alto». As teorias deterministas partilham desta certeza ao tomarem o ser humano como peça de um mecanismo que é incapaz de controlar. Trata-se de uma forma mais elaborada dessa mesma ideia de destino que com menor dose de especulação os ultrarromânticos reconheciam como dona da vida, «marcando a hora» dos acontecimentos decisivos: um encontro único, um momento de sorte (que assim não seria fruto do acaso), o instante preciso da traição, da doença e da morte. Sabemos que esta é a forma mais fácil de encontrar uma explicação para aquilo que parece inexplicável, de encontrar uma certeza, uma âncora, na corrente do incerto. De certa maneira, é esse também o fundamento das religiões da aceitação e do suplício. Nas circunstâncias em que vivemos, parece pois inevitável um retorno em força deste princípio: perante uma realidade que todos os dias volteia e revolteia, e já ninguém se atreve a prever ou a tentar explicar, será quase natural um regresso das conceções fatalistas da vida. Bom para os fadistas, portanto, mas mau para aqueles que procuram contrariar a desgraça. A quem compete então inverter o que aparenta ser irreversível. Bater-se para mudar o destino. Aceitando, com o cantor Godinho, que «antes o poço da morte que tal sorte».

                  Apontamentos, Atualidade, Olhares

                  Olhar e resistência

                  Vivemos escravos do olhar. O que não é mau, pois o olhar é um mestre esquivo, que muda muitas vezes de rosto, dá ordens inesperadas, e por isso admite um quinhão de independência a quem escraviza. Permite-nos ver e rever as mesmas coisas de maneira diversa, passando por elas como passamos pelas cidades invisíveis do Calvino italiano, sempre abertas a trajetórias novas, a roteiros que projetamos e percorremos à nossa própria custa, sem nos preocuparmos em demasia com os mapas, as polícias, os muros, os sinais de trânsito. Rei dos sentidos, como insistiam os poetas barrocos, o olhar é o último reduto da resistência e da liberdade.

                    Apontamentos, Etc., Olhares

                    Pesadelo regionalista

                    Vira do Minho

                    Talvez por vergonha ou esquecimento, já quase ninguém fala do tema, mas numa destas noites ele deu corpo a um horrível pesadelo noturno que me fez acordar sobressaltado, com suores frios e os piores presságios. Nele o referendo de 8 de novembro de 1998 tinha afinal aprovado o plano de regionalização do país que ia multiplicar os cargos, as prebendas, as parcerias público-privadas, os processos do Tribunal de Contas, as Madeiras e os Audi pretos. E agora tínhamos um défice das contas públicas vinte vezes pior e quarenta vezes mais difícil de resolver do que o da Grécia. Quando percebi de que lado estava a realidade senti um imenso alívio. Por instantes achei até que tinha despertado na Noruega.

                      Apontamentos, Devaneios, Etc.

                      Desaparecidos

                      A imigrante

                      No centro da turbulência tendemos a concentrar-nos na nossa própria segurança e a esquecermos os outros. Faço o giro dos jornais, fico atento às notícias, e vejo como alguns assuntos desapareceram. Esquecidos porque as prioridades estão noutro lado, para aquém e para além das velhas fronteiras. Naquilo que decide ou não decide Merkl, no que resolve ou retarda Coelho, no que Papandreou supõe ser o dia de amanhã, naquilo que Barroso diz para não dizer. Algumas reportagens lançam alarmes sobre a fuga dos cérebros de putativos génios, seduzidos por uma bolsa de pós-doutoramento no Dakota do Norte ou pelo negócio da venda de imóveis na Nova Gales do Sul. Ao lado, imperturbável, o circo do futebol continua a preencher as primeiras páginas: com ele não há crise que meta medo e o único mercado capaz de preocupar as consciências é aquele que permitirá em janeiro o reforço dos plantéis. Mas a imigração, que ainda há uma dúzia de meses aparecia com algum destaque nos títulos, parece agora esquecida.

                      É verdade que já estava longe de ser o centro da atenção do país, até porque nunca foi assunto que preocupasse em demasia os sindicatos, os partidos e a conferência episcopal. Só que agora desapareceu de vez: ucranianos, moldavas e romenos, brasileiras e cabo-verdianos, apenas ressurgem quando se fala de um crime de sangue, de um assalto por esticão, ou, ocasionalmente, de «atividades de sucesso» no domínio do desporto, da restauração e das práticas mágicas. No entanto, ainda que um bom número tenha regressado aos seus países de origem ou partido para outros destinos, a maioria continua por cá. Sofrendo connosco a recessão, os salários amputados, os impostos que disparam, a insegurança e o receio do futuro. Só que não se ouvem, silenciosamente ocupados a sobreviver, como sempre fizeram e continuarão a fazer. Quanto a nós, de tão absorvidos com o deve e o haver da vida a prazo que agora levamos, tendemos a esquecê-los. E nem damos parte do seu desaparecimento. Um mau sintoma do estado de degradação da solidariedade e de desinteresse pelo coletivo, de um dramático sauve qui peut, ao qual chegámos.

                        Apontamentos, Atualidade, Democracia

                        O regabofe

                        Annibale Carracci - «O comedor de feijões», 1585

                        Uma frase curta com a qual nos têm martelado os ouvidos, como afirmação supostamente mordaz para justificar tudo aquilo que de mau nos está a acontecer, declara que «é preciso acabar com o regabofe». A frase é incómoda e perigosa porque tem sempre um sentido unívoco. Com ela se pretende indicar que ao longo das últimas décadas as pessoas comuns tiveram direitos a mais, uma qualidade de vida que não se justificava, educação e saúde exageradamente acessíveis, transportes ao preço da uva mijona, férias preocupantemente longas, uma estabilidade no trabalho que só lhes fez mal à inteligência e aos músculos. Que passaram demasiado tempo a passear, a comer refeições completas, a tomar banhos de mar, a ler romances, a namorar, a programar futuros melhores para si e para os seus filhos. Porém, aquilo que pretende significar quem se serve da expressão não é que tais práticas fossem intrinsecamente más, indubitavelmente escusadas e fonte incontornável do pecado. É que não foram as pessoas certas a fruí-las. Que o regabofe não deveria ter sido para quem queria, mas apenas para quem podia. Não para todos, mas só para alguns. Não para quem trabalhou mas para quem, no andar de cima, geriu o trabalho dos outros e, supostamente, dessa forma foi «criando riqueza» para gastar consigo próprio. Num merecido e eterno regabofe.

                          Apontamentos, Atualidade, Olhares

                          O caminho, provavelmente

                          Muitos cidadãos dos Estados periféricos da UE, mas também muitos dos que habitam o conforto dos Estados centrais, não gostarão desta ideia. Afetos aos nacionalismos cada vez mais ocos, irracionais e perigosos, temerão o fim das identidades ancestrais. Por motivos históricos e pelo medo de um dia ver emergir uma «Europa dos povos», a direita bater-se-á contra esta solução. Porque teriam de rever toda a sua estratégia de tomada e conservação do poder, os «patriotas de esquerda» farão a mesma coisa. Mas poderá ser este o rumo para evitarmos a derrocada e podermos emergir da crise com alguma segurança e dignidade. E afinal até parece simples de pensar e de dizer. Exista vontade política, respeito pela democracia e uma conjugação de esforços que permita dar, sem equívocos, os primeiros passos neste caminho complexo, difícil, mas provavelmente necessário.

                            Apontamentos, Opinião, Recortes

                            O clube dos rapazes solitários

                            «Nunca ficava tão feliz como quando ia a algum lado sozinho, e quanto mais tempo demorasse a lá chegar, melhor. Caminhar era agradável, andar de bicicleta era aprazível, as viagens de autocarro divertidas. Mas o comboio era o céu. Nunca me dei ao trabalho de explicar isto aos meus pais e amigos, e por isso via-me obrigado a fingir objetivos: lugares que queria visitar, pessoas que queria ver, coisas que precisava de fazer. Tudo mentiras.» (Tony Judt, O Chalet da Memória)

                            À medida que fui avançando na leitura da última obra de Tony Judt, num comovente registo autobiográfico procurado quando a vida já lhe fugia, fui ampliando a impressão que me surgiu há mais ou menos dez anos, quando o li pela primeira vez. Estava ali, naquelas páginas, o rasto de uma pessoa que eu nunca vira, com quem jamais falara, com uma origem social, um trajeto geográfico e uma formação tão diferentes dos meus, e que, no entanto, «pensava como eu», interessando-se recorrentemente por muitos dos assuntos, tradições e linguagens com os quais me importo. O Chalet da Memória veio pois reforçar essa impressão, mas ao mesmo tempo introduzir-lhe uma nuance que me parece importante. Sim, é provável que partilhássemos temas ou preocupações, que tivéssemos opiniões bastante ou relativamente próximas – virá daí a sensação de perda que observei com a sua morte precoce; vem daí também, seguramente, a razão pela qual o recomendo vivamente aos alunos que ainda leem – mas existe algo mais, e que será comum a muito mais pessoas do que a Tony e mim próprio, a criar esse estado de proximidade. Este «algo mais» observo-o a dois planos.

                            O primeiro tem a ver com o tempo em que chegámos a este mundo. Judt era um pouco mais velho do que eu, mas ambos nascemos e crescemos numa Europa na qual, se apurássemos os sentidos, ainda era possível escutar o estrondo da artilharia pesada e sentir os ecos da guerra contra Hitler. Partilhando um tempo no qual a miséria e a esperança, o trauma e o alívio, competiam ainda de forma muito evidente. Já o segundo plano será mais de ordem temperamental: o historiador fazia parte, e jamais deixou de o fazer, daquela estirpe de rapazes um tanto introvertidos e que se viam a sim próprios como inequívocos rebeldes – ser rapaz era aqui importante, pois implicava uma intimidade não-partilhada que a maioria das raparigas podia então ultrapassar nos seus gineceus –, comprazendo-se numa observação do mundo atenta, individualista e forçosamente solitária. Leio o passo transcrito no início e sou capaz de revisitar memórias contíguas com uma boa sensação de cumplicidade. Mas também com uma tomada de consciência daquela mesma espécie de perda da qual, nos últimos anos, Judt vinha dando conta: a dessa esperança juvenil, reconfortante e incitadora, que agora a todos começa a ser difícil manter. O que não significa que se preveja o desaparecimento para breve dos sócios do clube dos rapazes solitários. Nem pensem.

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                              A Lição de Estaline

                              A Lição

                              Um quadro de A Lição de Salazar para turistas britânicos de passagem pelo Hotel Palácio do Estoril pelos inícios dos anos cinquenta? Não, não, trata-se antes de uma página de um manual de aprendizagem de inglês – oficial, naturalmente, como o eram todos também por aquelas bandas – publicado na União Soviética pela mesma época. Mais informação e imagens aqui.

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                                Uma fotocopiadora, uma cela

                                Um estudo a correr no ISCTE, do qual acabam de ser reveladas algumas conclusões preliminares, aponta para a existência em Portugal de 500 postos de venda de livros fotocopiados. Refere-se apenas, muito provavelmente, a unidades comerciais que admitem como normal este tipo de prática, uma vez que serão em muito maior número as fotocopiadoras privadas ou em funcionamento em instituições de investigação e de ensino que, sem o admitirem, fazem diariamente cópias de livros, artigos ou capítulos de obras. Um dos responsáveis pelo estudo fala entretanto de um «efeito pernicioso no mercado». O resultado previsível da sua publicitação será com toda a probabilidade o reforço das medidas policiais e penais aplicadas em reprimir este género de prática. Mas as consequências sociais e culturais desta atitude serão devastadoras para a expansão do conhecimento e para a sustentação dos hábitos de leitura.

                                Mesmo entre aqueles portugueses que deveriam fazer da leitura o centro da sua vida ativa, sabe-se que ler não será uma prioridade para um grande número, mas a verdade é que a falta de investimento na aquisição de títulos pela maioria das bibliotecas, levando muitas vezes à inexistência sistemática de edições recentes e à presença de um só exemplar de cada título – ao que pode juntar-se a inexistência de uma política de stocks e de preços acessíveis nas livrarias – faz com que sem o recurso à fotocópia se torne rigorosamente impossível para a maioria aceder a obras indispensáveis para o padrão de atividade a que se dedicam. Os principais afetados serão, naturalmente, os estudantes, os professores e os investigadores. Ou os amantes de obras e de leituras raras. Dito de outra forma: sem livros fotocopiados, não existirão livros atualizados disponíveis para as necessidades. A solução que tenha em conta os interesses de editores, autores, livreiros e consumidores só pode passar por medidas equilibradas que atendam às necessidades de todos e por uma política do livro ágil, justa e democrática. Não pelo policiamento das fotocopiadoras e pelo decretar da miséria dos leitores.

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                                  How I Learned to Stop Worrying

                                  Peter Sellers

                                  Um grupo de técnicos de uma unidade industrial de Amarillo, Texas, dependente da National Nuclear Security Administration, acaba de concluir o desmantelamento daquele que o governo norte-americano afirma ter sido o último exemplar da B-53. O objeto não era de todo inofensivo, uma vez que continuava a ser considerado a bomba termonuclear mais poderosa do mundo, seiscentas vezes mais potente do que a lançada sobre Hiroxima em 1945. Esta arma assustadora fora um produto demencial da fase mais quente da Guerra Fria, e tinha sido concluído de forma acelerada, no início dos anos sessenta, na altura da Crise dos Mísseis de Cuba. A B-53, carinhosamente apelidada de Big Dog pelos militares que a haviam concebido com o objetivo de exterminar parte da humanidade, destinara-se a ser lançada de bombardeiros estratégicos de longo alcance B-52. Era capaz de rebentar com bunkers e de enviar ondas de energia através do solo semelhantes às dos sismos, fazendo desaparecer grupos de cidades ou países inteiros, e desimpedindo de vez o uso dos botões vermelhos da Casa Branca e do Kremlin. Despoletando então a batalha final, o dia antes do «day after», o fim dos tempos, esse Armagedão que, com forte sentido de realismo, Stanley Kubrick desenhou em 1964 na sequência derradeira do filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb (em Portugal Dr. Estranho Amor ou: Como Aprender A Deixar De Me Preocupar E A Amar A Bomba). No entanto, este gesto simbólico da administração americana não parece suscitar agora qualquer sentimento de alegria, alívio ou segurança, surgindo nas notícias como uma simples curiosidade. Na realidade, todos sabemos que a indústria da guerra foi entretanto inventando outros meios menos espetaculares, menos definitivos, mas mais insidiosos e eficazes de gestão do medo e do poder. Por isso este objeto estrondoso pode muito bem ser abatido sem danos de maior para a atual ordem do mundo.

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