Para a estética romântica, poesia e aventura não eram experiências puras, desinteressadas. Além do pormenor e da peripécia, ambas detinham um móbil, ambas visavam preencher um destino partilhado de uma forma passional mas razoável. Escrever ou pensar, escolher ou agir de outro modo, insinuava uma vontade de fuga, uma tentativa de escape, vista como algo de socialmente perigoso e por isso condenável. Só a partir das décadas finais do século XIX o desejo de tomar sem barreiras a indefinida direção da aventura deixou de ser tão insistentemente olhado com essa carga negativa. E só depois de Baudelaire, Verlaine, Rimbaud, Mallarmé, o desejo de ação sem outro objetivo que não o cumprimento de uma vontade indómita e de um imperativo inexplicável passou a guiar sem necessidade de justificação aqueles que escolheram o caminho da jornada insurrecta, da via errante. Sem norte seguro, sem clara intenção, sem absolutas certezas.
Correndo o risco de insistir num assunto repisado, chamo a atenção para o parágrafo do Miguel Cardina que, no Arrastão, sublinhou três fatores importantes relacionados com a microlicenciatura do ministro Relvas: a desgraçada dimensão ética da mentirola aprontada pelo próprio sobre a sua formação académica; as ligações perigosas entre setores dos partidos do poder, certos negócios e determinadas instituições do ensino superior privado; o provincianismo traduzido na vontade de deter o título de «doutor» para se fazer respeitar entre as massas informes de fatos cinzentos. Junto-lhe um curto comentário sobre dois aspetos que têm sido tratados de maneira mais lateral mas merecem alguma atenção, transcendendo até o timing preciso deste episódio de vaudeville. (mais…)
Elvis “The Pelvis” Aaron Presley gravou o seu primeiro álbum a 5 de Julho de 1954. Há precisamente cinquenta e oito anos. E o planeta não mais deixou de bambolear as ancas.
E. M. Cioran sobre a escravidão da absoluta certeza. Em Do Inconveniente de Ter Nascido (Letra Livre).
A partir do momento em que formulo uma dúvida, ou mais exactamente: a partir do momento em que sinto necessidade de formular uma, experimento um bem-estar curioso, inquietante. Ser-me-ia de longe mais fácil viver sem qualquer vestígio de crença do que sem qualquer vestígio de dúvida. Dúvida devastadora, dúvida nutritiva!
Para Albert Camus, a pobreza que conhecera, que vivera, durante a infância passada em Argel, não lembrava necessariamente a mais crua desgraça. Ei-la à luz de O Avesso e o Direito.
Nas noites de Verão os operários punham-se à janela. Na sua casa não havia senão uma janela muito pequena. Traziam-se então cadeiras para defronte da casa e gozava-se a noite. Havia a rua, os vendedores de gelados ao lado, os cafés em frente, e os ruídos de crianças correndo de porta em porta. Mas sobretudo, por entre as grandes figueiras, havia o céu. Há uma solidão na pobreza, mas uma solidão que dá a cada coisa o seu valor. Com um certo grau de riqueza, o próprio céu e a noite cheia de estrelas parecem bens naturais. Mas no fundo da escada, o céu retoma todo o seu sentido: uma graça sem preço.
Uma gente em fuga de outra gente,
num país debaixo do sol
e de algumas nuvens.
Deixam para trás um tal seu tudo,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos, nos quais o fogo se mira,
levam às costas os cântaros e as trouxas,
quanto mais vazios mais pesados com o passar dos dias.
É em silêncio que alguém desfalece,
é na algazarra que alguém arranca o pão de alguém
e alguém sacode o filho morto.
Nunca é pela estrada que têm à frente,
nem é esta ponte
sob a qual passa um rio estranhamente avermelhado.
Em redor, disparos, ora longínquos ora próximos,
no alto, um avião errante rodopia.
Dava jeito ser invisível,
pedra de cor parda,
ou ainda melhor não existir
durante um pouquinho ou por mais tempo.
Mais ainda está por acontecer, apenas onde e quando.
Alguém lhes sairá ao caminho, apenas quem e quando,
de que forma e com que intenções.
Se puder escolher,
talvez não queira ser inimigo
e os deixe com alguma vida.
Wislawa Szymborska – de Paisagem com Grão de Areia
(trad. Elzbieta Milewska e Sérgio das Neves)
Discriminado pelo comportamento ou pela fala, em cada pequena comunidade é o «louco» quem anuncia as verdades que muitos reconhecem mas ninguém verbaliza fora do domínio do privado. Na aldeia, na pequena vila, na cidade provinciana, é fácil identificá-lo pela presença diária, pela estranheza do comportamento, pelo estatuto de marginalidade. Ele pode ser o doido, o beberrão, o velho que perdeu o tino, o pobre de pedir, o vagabundo, o sem-abrigo, a prostituta entrada na idade. No limite, pode também ser o poeta, o artista, ou aquele que aspira a sê-lo, principalmente se não detiver algum reconhecimento público. Se o tiver, caso raro, ganha então o estatuto de excêntrico, sinalizando uma promoção social.
Esses «loucos» eram particularmente visíveis em sociedades nas quais o Estado-Providência faltava ou falhava: em Portugal, antes da Revolução de Abril, quando os mecanismos de apoio social eram escassos ou nulos, era vê-los de manhã, esperando em grupo que as tascas abrissem, pedindo esmola nos adros das igrejas, deambulando pelas ruas para servirem de divertimento dos que se julgavam integrados e sãos de espírito. O jornal da terra erguia-os como figura local «típica», supostamente única, como vulto curioso, um pouco cómico e extravagante, a quem se deveriam dar uns trocos para que pudessem continuar a viver e deixassem os outros em paz. E quando enfim morriam, tinham reservado um parágrafo de obituário, que assinalava para memória futura, num último assomo de indignidade, o trilho de uma vida de desterro, desconsolo e abandono.
Reprodução de um documento, disseminado através do Facebook, que justifica o maior eco possível. Testemunho tristemente exemplar do comportamento arbitrário do regime de Luanda. E afronta às longas décadas de luta de tantos angolanos pela democracia e pela independência do seu grande país.
Em 1853, o explorador inglês Richard F. Burton (1821-1890) foi o primeiro ocidental que entrou em Meca. Fê-lo arriscando a vida – visitar Meca e Medina está proibido aos não-muçulmanos –, apenas pelo prazer de viajar e de conhecer outras maneiras de viver. Eis a sua descrição de algumas das medidas que tomou para cumprir a façanha.
Além do disfarce de «Mirza Abdullah», tinha «um miswak ou palito» — um galho para limpar os dentes; «um pedaço de sabão e um pente, de madeira, porque osso e casca de tartaruga não são, religiosamente falando, corretos.» Uma muda de roupa, um cantil de pele de cabra, um «tapete de pele grosso, que além de ser cama funcionava como cadeira, mesa e oratório», uma almofada, um cobertor, um grande chapéu de sol amarelo vivo […], uma «dona de casa» (agulhas, linha e botões numa bolsa), um punhal, um tinteiro e um porta-penas de latão, «e um rosário forte que em certas ocasiões possa ser convertido em arma de defesa.»
Personal Narrative of a Pilgrimage to Al-Madinab and Mecah, 1853 (citado por Paul Theroux em A Arte da Viagem)
Curta-metragem do jovem realizador sírio Bassel Al Shahade, assassinado em Homs pelas tropas de al-Assad. Num dos massacres que alguns dos habitués da distorção da História dizem não ter acontecido. E que os adversários do não-intervencionismo a qualquer preço fazem por ignorar. Enquanto permaneceu vivo, Bassel foi aliás uma das testemunhas do que estava (e continua neste preciso momento) a acontecer. De notar que poderia ter permanecido a salvo, por se encontrar a estudar nos EUA com uma bolsa Fulbright, tendo decidido regressar ao seu país para cobrir os acontecimentos. Mais informação aqui.
O fim da ordem bipolar introduzida pela Guerra Fria e o estado de desgraça ao qual na atualidade chegou o capitalismo têm trazido de volta a hipótese da demolição da ordem pública tal qual a conhecemos. Fala-se da «anarquia das ruas», com o pavio acendido em Atenas, causada pela revolta incontida contra o recuo abrupto do Estado social e a falta de horizontes de sobrevivência, mas fala-se também da «anarquia dos mercados», determinada pela incapacidade de alguém prever ou moderar o seu comportamento errático. Todavia, a teoria política e a experiência dos movimentos sociais, não têm promovido o retorno do ideário anarquista ou anarcossindicalista que, desde os meados do século XIX, orientou os primeiros passos da reivindicação operária e ajudou a construir a perceção do futuro de um grande número de filósofos, escritores, artistas e outros atores sociais. Existe de facto um peso, determinado pela domesticação dos partidos da esquerda e dos sindicatos, que esvaziou o velho filão do anarquismo militante, da escola de Bakunine, confinado à cultura antiquada dos militantes saudosos de outros tempos, com bandeiras desbotadas que já não mobilizam, ou, longe deles, a setores de jovens automarginados, que encontram na atitude libertária o arsenal da sua barricada identitária. E, no entanto, como sugere Octavio Alberola, porque não associar o anticapitalismo que a crise fez reemergir a um antiautoritarismo renascido, capaz dar perigosamente voz a quem já não acredita nas burocracias partidárias e sindicais? Eis uma questão levantada, com uma reflexão convincente e propostas à vista, num pequeno livro de M. Ricardo de Sousa (Os Caminhos da Anarquia, da Letra Livre) que anda aí, algo escondido, pelas estantes das livrarias. Apresentado como uma reflexão pessoal «sobre alternativas libertárias em tempos sombrios», levanta uma possibilidade de ressurgimento na luta social que, no contexto presente de gestão crítica das expectativas e das sobrevivências, é de ter em atenção.
A primeira reação foi de alegria, a segunda de ceticismo, a terceira de esperança. Como pessoa de esquerda, adversário da transformação da realidade europeia num laboratório para a produção de meros exercícios de gestão financeira no interior de um capitalismo retornado ao estado de barbárie, custem eles o que custarem em termos sociais e humanos, não pude deixar de me sentir momentaneamente feliz com a vitória da esquerda francesa reunida em torno da candidatura de François Hollande. Nem com os avanços que essa esquerda anti-austeritarista, projetada à margem das cartilhas dogmáticas pré-Queda do Muro, foi capaz de obter na Grécia.
Já como alguém que sabe não serem só os problemas colocados que são complexos e reconhece que as soluções para os superarmos o podem ser ainda mais, não posso deixar de despertar rapidamente do estado de graça e de perceber que o que aí vem irá defraudar muitas das expetativas dos eleitores. Hollande não é propriamente a mola de uma frente unitária contra a ditadura dos mercados, a desigualdade social e o recuo do Estado-providência. Dentro do sistema que domina a economia europeia, as suas tímidas propostas reformistas poucas hipóteses terão de ser aplicadas e de produzir efeitos duradouros. Já o Syriza, é, no contexto grego, um partido do protesto, do descontentamento, o que não assegura capacidade para afirmar aquilo que não tem: uma estratégia de governo e uma saída à vista para os problemas mais dramáticos dos gregos.
No entanto, a esperança nasce também das maiores dificuldades. A perceção de que é necessário encontrar uma solução e a pressão dos cidadãos para que tal se faça de forma rápida e com uma gestão de recursos que não seja cega, irão criar condições para que, em França, na Grécia e noutros teatros da crise, novos e melhores caminhos possam ser visados, preparados e percorridos. Não os que levam a Pasárgada, a cidade-ideal da vida boa projetada no conhecido poema de Manuel Bandeira, mas os que alimentam essa dose de esperança necessária a toda a regeneração.
Tem sido boa a repercussão pública do ensaio Humilhação e Glória, de Helena Vasconcelos. Sendo inteiramente merecido, esse eco deve, no entanto, ser confrontado com algumas dúvidas que a leitura da obra levanta. É desde logo evidente a intenção da autora de conceber o livro como uma introdução à história das mulheres, concebida de forma atraente e vocacionada principalmente para o leitor comum. Ele vem preencher, aliás, na linha do que fez em Espanha Rosa Montero com o seu Histórias de Mulheres, uma lacuna na edição nacional. Ao mesmo tempo, a autora propõe um importante trabalho de resgate efetuado sobre os feitos e os trajetos públicos de um conjunto de mulheres, principalmente portuguesas, com papéis na literatura, nas artes, nas ciências ou na intervenção cívica que têm permanecido injustamente esquecidos ou na sombra. Se a Marquesa de Alorna é, pelo menos nos meios académicos, razoavelmente conhecida, poucos terão ouvido falar, por exemplo, de Teresa Margarida da Silva Orta, apesar de esta ter sido a primeira portuguesa a escrever um romance (As Aventuras de Diófenes, de 1752). Atravessa também o livro uma brisa de otimismo que contribui, sem dúvida, para ampliar o seu papel de instrumento destinado a sublinhar a importância de um trajeto histórico de combate pela emancipação e de afirmação positiva da voz das mulheres.
Uma leitura crítica levanta, porém, algumas perplexidades. Anoto três. Em primeiro lugar, a consideração de eventos e práticas originários de distintos tempos e lugares como se inscritos num percurso único, visando uma espécie destino trans-histórico comum. Em segundo lugar, a falta das propostas, dos problemas e dos combates que se levantaram, a partir da década de 1980, no contexto do chamado feminismo de terceira vaga, ficando as alusões canónicas pelas pelas autoras de segunda vaga (Simone de Beauvoir, Elaine Showalter, Betty Friedman e outras). E em terceiro o tom quase celebratório, em relação à situação atual de uma «tendência para a igualdade» que estudos no campo da sociologia e da ciência política têm vindo a desmontar, revelando, ao invés, que este padrão de discurso pode validar subordinações reais, aparentemente invisíveis. Pode ainda, entretanto, levantar-se uma última objeção que parecendo apenas formal, de facto o não é. A designação de um enquadramento do ensaio, enquanto género, no campo dos estudos «femininos» – e não «sobre as mulheres», ou «feministas», como são catalogados dentro de um universo hoje já bastante alargado, inclusivamente em Portugal, que se dedica ao seu estudo nos domínios da investigação de ponta e do debate teórico – advém de uma escolha da autora que sendo inteiramente legítima, respeitável, pode também ser questionada por dar a impressão de advir de uma noção essencialista sobre o «belo sexo» derivada de um modelo cultural dominantemente masculino. Um livro bastante útil e recomendável que convirá ler com alguma vigilância crítica.
Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória. O acidentado percurso de algumas mulheres singulares. Quetzal. 328 págs.Versão revista de nota saída na LER de Abril.
A propósito das cenas violentas e completamente degradantes provocadas pela campanha de descontos do Pingo Doce, não parece justo culpar apenas a atitude canalha da empresa de Jerónimo Martins, ao servir-se do feriado do Primeiro de Maio para desencadear a sua campanha de publicidade agressiva, manipulando as carências das pessoas e provocando os seus próprios trabalhadores. Como não será correto culpar os largos milhares de famílias que para sobreviverem à crise foram até à selva das prateleiras lutar corpo a corpo por escassas centenas de euros. Para sermos justos, e entendermos o que aconteceu de um modo mais completo, precisamos olhar também para a atitude continuada dos partidos políticos e de muitas organizações sindicais que têm desenvolvido a sua ação exclusivamente centradas numa política de interesses, na gestão economicista do deve e do haver de todos e de cada um. Fazendo-o sem atenderem à defesa da consciência cívica como princípio de solidariedade, da honra individual como eixo da vida coletiva, da (voltemos sem medo à palavra) ideologia como instrumento de mobilização e de mudança. Marx dizia que a consciência política do operário – alarguemos: do trabalhador, do cidadão – não se mede apenas pelo tamanho do porta-moedas. Talvez o que aconteceu se deva, em boa parte, ao esquecimento de que nem só de pão vivemos.
Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão, uma certeza. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para baixo. Com a certeza de que esse resgate chegaria um dia. E por isso um sinal de futuro. Era essa a palavra bonita, «c’est un joli nom, tu sais», que Jean Ferrat, comunista combatente e artista de variedades, proclamava no distante ano de 1968. Aquela que combinava o sabor da cereja e o da romã com os perfumes do Maio. Mas na mesma canção Ferrat rompia com o PCF e acusava os tanques russos: «Ce fut à cinq heures dans Prague/ Que le mois d’août s’obscurcit/ Camarade Camarade». Porque a palavra serviu também, no dobrar das décadas, para perseguir e delatar, para demarcar um grau de pureza («amigo, companheiro, camarada»), para torturar e abater («porque desejas, canalha, matar o Camarada Estaline?»), manchando o brilho matinal da sua natureza. E, no entanto, sobreviveu. Porque nenhum mal conseguiu expulsar a centelha que contém. A fraternidade que invoca, espera, procura. «Camarada» permanece uma palavra linda e necessária.
O passado, modos de usar, de Enzo Traverso – saído em 2005, antes de L’Histoire comme champ de bataille –, trata principalmente daquilo a que Habermas chamou «o uso público da história». O trabalho deste historiador e cientista político italiano tem vindo a ser preenchido com o estudo de épocas e de temas contemporâneos com os quais conflituam interesses atuais e que por esse motivo permanecem perturbantes, como acontece com a «questão judaica», o Holocausto, o totalitarismo, o fascismo, a violência nazi, o comunismo ou o eurocentrismo. Em conexão com todos eles, Traverso tem-se ocupado com os problemas difíceis mas incontornáveis que levanta a conexão entre história e memória. Aquela proximidade com o presente torna entretanto o tratamento destes assuntos algo que não pode deixar de dialogar – independentemente do rigor inerente à intervenção própria dos historiadores – com as suas escolhas políticas, com as repercussões do seu trabalho entre os outros profissionais do mesmo ofício e, acima de tudo, com o impacto junto dos setores da opinião pública que vão acolhendo os ecos do que dizem ou escrevem. (mais…)