Arquivo de Categorias: Apontamentos

É a ortografia, pá

A decisão do governo brasileiro no sentido de diferir por três anos a aplicação do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, faz-me voltar ao tema. Tal como escrevi noutros dois posts – reunidos num só – não me interessa entrar aqui (ou ali) em pequenas guerras e grandes exaltações a propósito do assunto. Tenho procurado tratá-lo de uma forma muito prática e, na verdade, a única coisa que neste caso uma vez ou outra me tem tirado do sério é o uso de falsos argumentos, ou de poses «caturras», na defesa das posições mais rigidamente imobilistas. Na realidade, se alguma coisa tinha entendido já, muitos anos antes da situação ser criada e da polémica surgir, foi que a língua é um grande barco transatlântico cuja essência, e razão de ser como veículo de comunicação, é tão rígida quanto móvel. Pelo que me toca, posso dizer que passei por quatro fases neste processo: a primeira de alguma desconfiança em relação à mudança, a segunda de observação daquilo que esta anunciava, a terceira de adoção crítica (condicionada em boa parte por imperativos profissionais), e a quarta de integração, compreendendo rapidamente, apesar de ter passado mais de meio século a escrever com regras diferentes, que algumas das novas normas até «naturalizam» mais os modos da fala e da escrita, embora outras, em menor quantidade, de facto os perturbem também. (mais…)

    Apontamentos, Atualidade

    Crime na estrada

    Já conheci um mecânico de automóveis, por acaso ainda um meu parente, que desmontava, reparava e lubrificava motores, testando-os depois no meio do trânsito em hora de ponta e recorrendo com insistência ao uso da buzina, sem jamais ter possuído carta de condução. Agora pude ver mais longe na lógica do empreendedorismo sem barreiras e do crime consciencioso aplicado aos assuntos do asfalto: na LER deste mês, o fazedor de livros Vítor Silva Tavares (ele não gosta que lhe chamem editor e eu faço-lhe a vontade) conta ter trabalhado em Angola como «engenheiro» examinador dos candidatos a condutores encartados… sem sequer saber guiar.

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      Pobreza e caridade

      Sábado. Dia das compras da semana. No hipermercado deparo com brigadas do Banco Alimentar Contra a Fome. Estranhamente, por comparação com outros anos, muito menos pessoas param, aceitam os sacos vazios para encher de alimentos para quem precisa, oferecem o que podem com um sorriso de compreensão. Não sei se será consequência do agravamento das condições de vida da classe média, de onde provinha a maioria dos doadores, se será resultado das infelizes declarações da presidente do Banco, ou se advirá de ambas as coisas. Por um acaso, quando no final da manhã entrei num quiosque, dei de caras com este texto, incluído na reimpressão em fac-simile de um Livro de Leitura da 1ª Classe editado em 1957. Também a mim, como a Isabel Jonet, com quem neste particular concordo, dói a possibilidade da miséria e da fome em Portugal poderem chegar ao nível do que acontece atualmente na Grécia. Mas não me doerá menos ver o meu país a regredir até ao passado infame e desditoso que este texto apresentava como natural.

      Adenda

        Apontamentos, Democracia, Memória

        O pecado de Jonet

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        A polémica em redor das lamentáveis declarações de Isabel Jonet sobre a naturalidade da fome e da pobreza está a ir pelo lado errado. Não me parece que a pessoa em causa seja a pura incarnação da maldade e do filisteísmo, como alguns sugerem, ou que a dádiva pela dádiva seja um mal em si, pois sou dos que entendem, creio que avisadamente, que mais vale comer um pão oferecido do que morrer à fome. O que julgo dever ser criticado foi a defesa política que fez, na linha de um certo catolicismo conservador e de direita, de um regresso à condição de pobreza. Como se esta fosse uma inevitabilidade sem outra causa que não a ordem natural das coisas. Nesta leitura, sim, revi com um calafrio as «senhoras» da minha infância, que nas iniciativas das Conferências de São Vicente de Paulo pregavam a tal caridadezinha sem beliscarem a ordem social injusta que determinava a sua necessidade. O pecado de Isabel Jonet foi sair do seu trabalho – e até sou dos que costumam ajudar o Banco Alimentar Contra a Fome, a que preside – e pôr-se a pregar em defesa de uma certa ideia de sociedade. Está no direito de o fazer, mas deve arcar com as consequências da sua escolha. Arrastando consigo o infelizmente necessário BACF.

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          A lei seca da bolacha Maria

          De acordo com um artigo saído hoje no Público, a Direção-Geral de Saúde vai recomendar às escolas que os alunos deixem de ter à vista gulodices imundas como pastéis de nata, queques, bolos de arroz, croissants ou bolachas Maria. Apesar de não saírem dos bares, elas saem dos expositores, que ficam então reservados para os alimentos ditos «mais saudáveis», como sandes com verdura, leite branco, iogurtes sem edulcorantes, água ou fruta. Segundo a mesma peça, há também alguma comida fora da categoria dos doces que passará à condição de pecaminosa, como os malvados croquetes, os perigosos pastéis de bacalhau e as peçonhentas sandes de chouriço ou mortadela. O estranho, porém, é que os alunos-junkies poderão continuar a comê-las desde que as peçam, mais ou menos à socapa, ao dealer de serviço ao bar. Ninguém informado e no seu perfeito juízo nega que existam produtos alimentares que não devam ser oferecidos em doses exageradas a crianças e jovens sem discernimento suficiente para saberem o que é bom ou mau para a sua saúde, mas também é verdade que grande parte desses hábitos é adquirida em casa e que existe um limite razoável para separar o veneno daquilo que não passa de um pequeno pecado. Tenho grandes recordações de infância que incluíam orgias de portuguesíssima bolacha Maria (com muita manteiga ou tiras de marmelada) e os fantásticos pastéis de bacalhau feitos pela minha mãe. Custa-me imaginar gerações futuras que do seu tempo de escola lembrem sobretudo bebedeiras de leite branco e bacanais de pão integral com alface.

            Apontamentos, Etc., Olhares

            Dar a cara

            Não gosto de esconder a cara ou de trocar de nome para não ser reconhecido. Quando esta atitude se torna um hábito, associo-a sempre ao medo, ou então à perfídia, a formas ínvias de pensar ou de falar sem assumir a responsabilidade do que se pensa ou se diz. Já usei um nom de guerre, conspirativo, e com ele procurava camuflar a minha identidade. Aconteceu antes da democracia, quando fiz parte de uma organização política clandestina que combatia o fascismo e o colonialismo. Servi-me depois, episodicamente, de um pseudónimo literário, com o qual publiquei alguma poesia e dois ou três contos. Fiz ainda pequenas investidas em blogues, servindo-me ali de nomes inventados, mas mais como ensaios de heteronímia que como processos para dizer escondido o que supostamente, seria incapaz de pronunciar às claras. E usei ainda um ou outro nickname na Internet, sempre associado nos registos ao apelido e ao sobrenome inscritos no Cartão de Cidadão. Repugna-me o anonimato sem um motivo sólido que o justifique, as máscaras ou os óculos que escondem a expressão, as vozes que se alteram para camuflar o seu proprietário, os anoraques que tapam o rosto, o cabelo e os olhos, dando a quem deles se serve uma sensação de impunidade. A coragem é ainda uma atitude socialmente apreciada, e isso deveriam saber os adeptos ou companheiros de viagem dos grupos que, sob um regime injusto, mas que não segue os métodos das ditaduras, apenas se manifestam na sombra, ou escrevem sem dar o nome, sem assumir as razões e as consequências das suas escolhas. Ao dar o nome e a cara, darão um rosto mais humano e um sentido ético mais acentuado à sua luta, às suas razões, e ficarão mais próximos daqueles em cujo nome tomam a palavra. Elevando a sua causa perante o cidadão comum e elevando-se a si próprios também.

              Apontamentos, Democracia, Olhares

              A piedade dos outros

              Fotograma de ‘Alceste à bicyclette’.
              Filme de Philippe Le Guay (2012)

              «Há um cego que prefere sair à noite, entre a uma e as quatro da madrugada, com um amigo também cego. Porque está seguro de não encontrar ninguém nas ruas. Se vão de encontro a um candeeiro da iluminação pública podem rir-se à vontade. E riem. Durante o dia há a piedade dos outros que os impede de rir.» (Albert Camus, Carnets I, ed. 1962)

                Apontamentos, Olhares, Recortes

                Falar com os becos

                Paul Celan com Nani e Claus Demus
                Londres,1955

                Falar com os becos sem saída
                ali defronte,
                da sua
                expatriada
                significação –:

                mastigar
                este pão, com
                dentes de escrita.

                Paul Celan – de A parte da neve
                (Trad. de João Barrento e Y. K. Centeno)

                  Apontamentos, Poesia

                  Deus lhe perdoe

                  Viajo no tempo e tento concentrar-me na época em que deixei a Igreja católica apostólica romana. Até à altura em que as dúvidas apareceram, tinha sido um fiel convicto, praticante, tão seguro da minha crença e dos seus dogmas que cheguei uma vez a zangar-me com os meus pais por estes se afirmarem católicos e não frequentarem a Santa Missa. Aos 14, porém, comecei a sentir-me desconfortável e rapidamente encontrei duas razões para me afastar dos rituais, primeiro, e depois da fé. A primeira razão teve a ver com a recusa de uma retórica oca, repetitiva e indecifrável que nada me segredava: as prédicas aborrecidas que se limitavam a frase feitas sobre «o fim dos tempos» que eu não conseguia vislumbrar que coisa fossem, sobre uma «Salvação» que não percebia do que me iria afinal salvar e sobre o Espírito Santo, chamado de «Paráclito» sem que ninguém me explicasse que esta era a palavra grega para «consolador», enchiam-me de tédio. E, pior, nada tinham a ver com as letras das canções dos Rolling Stones, que acima de tudo adorava. (mais…)

                    Apontamentos, Atualidade, Memória, Opinião

                    Era uma vez (na caserna)

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                    Quando cumpri os três meses de recruta do serviço militar, apesar de o fazer contrariado habituei-me rapidamente a quase tudo o que tinha a ver com a disciplina e o esforço físico. No entanto, sofria bastante com as noites de caserna. Posso descrever o cenário do horror: 200 mancebos numa espécie de hangar povoado de beliches em ferro e que produzia um eco danado, 50% a ressonar, 20% a escrever cartas às namoradas e 30% a jogar ruidosamente infinitas partidas de king ou de sueca. À luz de velas, obrigatoriamente, já que depois das 22 horas a iluminação era limitada às lâmpadas de presença. Quem, como eu, não tinha sono, não tinha luz para matar o vício da leitura e era hipersensível ao cheiro a estearina queimada, passava horas seguidas de inferno na Terra. (mais…)

                      Apontamentos, Memória, Olhares

                      Os imigrantes

                      Nestes dias de trevas que atravessamos a custo, o instinto de defesa reduz inevitavelmente a nossa humanidade. Primo Levi descreveu o modo como, ao terceiro dia de presença em Auschwitz, a generalidade dos prisioneiros esquecera já a dignidade pessoal, o orgulho, os hábitos de higiene e os deveres mais elementares de solidariedade para com os semelhantes, concentrando-se apenas na brutalidade permanente da luta pela sobrevivência. Sem vivermos nesse estádio-limite, o recuo dos mecanismos de assistência pública e a instalação de um ambiente de feroz competição por um pequeno mas raro lugar ao sol, têm-nos aproximado perigosamente desse caminho. Ele é, aliás, visível até por um efeito de omissão: por estes dias, a luta pelo trabalho, a resistência à perda de direitos, a procura de vias de escape por parte da maioria da população, têm transformado centenas de milhar de imigrantes em seres invisíveis e mudos. E no entanto, ainda que mais desprotegidos, ainda que com menos vias de escape, esquecidos por quase todos, eles continuam entre nós, fazendo os trabalhos mais penosos, sendo explorados, humilhados e ofendidos como ninguém mais o é. Mas sem partidos, sindicatos, ativistas, manifestações, jornais ou televisões que lhes valham. Vivendo na sombra, em bairros periféricos, tantas vezes em casebres ou desvãos, no limite extremo do abandono e do medo.

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                        Pólvora seca

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                        Afinal para que serviu o PCP e o BE combinarem a divulgação simultânea (ressalvando aquele pequeno delay da responsabilidade do fuso açoreano) da apresentação de duas moções de censura ao governo depois de ter corrido, ao som de bandolins, bombos e castanholas tocados por tantas pessoas à procura de uma esperança, um certo júbilo por uma eventual «unidade da esquerda»? E para que serviu acompanhar as mesmas, neste momento, de ataques violentos e cerrados a um PS por tal via supostamente «encostado às cordas»? Neste cenário, a abstenção deste partido, agora proposta pelo seu irresoluto secretário-geral, seria e será inevitável. Mas como poderia deixar de o ser? No entanto, o inevitável não seria evitável com a apresentação de uma moção única que servisse mais para unir a oposição ao governo do que para demarcar fronteiras? E se a sua divulgação pública tivesse avançado num gesto de firmeza e de unidade, mas também de abertura e de humildade democrática? Vivemos um tempo muito mau, muito mau mesmo, para desperdiçar pólvora com tiros nos próprios pés.

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                          A montanha que virá

                          Vitória da Frente Popular em França
                          (1936)

                          Tal como comentou Mark Twain em 1897 no New York Journal, referindo-se às informações que então circularam sobre a sua própria morte, após ouvirmos as declarações de Jerónimo de Sousa e de Francisco Louçã neste início de tarde percebemos que as notícias desta manhã a propósito do nascimento de uma espécie prematura de coligação PCP-BE foram manifestamente exageradas. Como diria o Dr. Freitas, o meu velho professor de latim, evocando com exagerado ênfase, as mãos erguidas ao céu, a Sátira Décima de Juvenal, «Parturiunt montes, nascetur ridiculus mus». Vocês sabem: aquela frase recorrente sobre a montanha e o rato. Quanto à unidade na ação, ela é uma possibilidade e uma necessidade, sem dúvida, mas num quadro detalhado de objetivos e através de uma bem mais vasta conjugação de vontades à esquerda. Nunca decidida apenas na sombra das sedes. Para lá caminhamos, espera-se, velozmente mas sem saltar etapas. Quanto a entendimentos pontuais mais rápidos, venham eles.

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                            O verão invencível

                            Albert Camus

                            «Au milieu de l’hiver, j’ai découvert en moi un invincible été.» «Em pleno inverno, descobri em mim um verão invencível.» Uma das frases sublinhadas de Albert Camus – retirada do ensaio Retour à Tipasa, composto em 1952 – que transporto sempre comigo num recanto seguro. Regresso a ela, como a um tónico, de cada vez que me vejo à beira da rendição. E tudo readquire um sentido pleno, luminoso, combatente.

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                              O incrível Mitt

                              Na New Yorker desta semana, o jornalista Nicholas Lemann conta num artigo biográfico intitulado «Transaction Man» a inacreditável história do primeiro encontro de um importante mórmon de Salt Lake City, Douglas Anderson, partidário dos democratas,  com Mitt Romney, o candidato republicano às presidenciais norte-americanas. Corria o ano de 1968 e Anderson acabara de entrar na Universidade de Stanford. Romney chegara a Stanford cerca de três anos antes, depois de ter viajado por França no seu trabalho como jovem missionário mórmon. Andava Anderson a passear pelo campus quando um estudante mais velho, que ele conhecia mal, lhe dirigiu uma pergunta: «És mórmon?». Anderson respondeu que sim. «E conheces Mitt Romney?». Não, não conhecia. «Mitt Romney é a pessoa mais excecional que alguma vez conheci!». E afastou-se. Pouco tempo depois Anderson descobriu que o desconhecido era o próprio Mitt.

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                                A hora (Cavaco’92)

                                A necessidade de neste domingo não falhar um compromisso, levou-me a ir à Internet para ter a absoluta certeza de que o fim do «horário de verão» não era já neste por estes dias. Fiquei então a saber que a ideia de reprogramar o dia foi lançada em 1784 por Benjamin Franklin, com o objetivo de diminuir o número de horas de escuridão e assim promover a poupança em cera para velas. No entanto o primeiro país a adotá-la oficialmente foi a Alemanha, e só em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, como medida para economizar carvão. Em Portugal, entre 1992 e 1996, quando Cavaco Silva foi primeiro-ministro, a mudança ocorreu de forma ainda mais profunda e a nossa hora foi fixada para ser sempre, ao segundo, idêntica à alemã.

                                O objetivo da sumidade economista que presidia à iniciativa era mudar artificialmente de meridiano de modo a «facilitar as comunicações, os negócios e os transportes internacionais». Sucederam no entanto demasiadas queixas pelo facto da vida real ter ficado desfasada em relação à rota do Sol. No inverno, as pessoas saíam de casa pelas 9 horas da manhã, ainda o astro-rei despontava no horizonte. Já no pico do verão, o céu escurecia por completo apenas depois da meia-noite. Os casos de stress subiram em flecha e as crianças adormeciam durante as aulas. Além disso, provou-se que a poupança de energia que se ganhava ao final do dia se perdia depois com o aumento dos gastos matinais, pois os trabalhadores iniciavam o dia de luzes acesas e depois esqueciam-se de as apagar. Em 1996, com António Guterres, o disparate cavaquista foi corrigido e a hora voltou a adaptar-se aos hábitos e aos horários das pessoas.

                                Adenda – Ah, e não, não foi nesta passagem de sábado para domingo. Será um tanto mais adiante. A 29 de outubro, pelas 2 horas da madrugada, os relógios deverão ser atrasados em uma hora. Felizmente continuaremos desfasados de Berlim.

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                                  Contra os loucos no poder

                                  Chegámos a um tal ponto na gestão dos negócios públicos e da vida social impostos aos portugueses pelo atual governo, que a contradição principal já nem é a que opõe esquerda e direita, defensores do socialismo e adeptos do capitalismo, burguesia e proletariado, pobres e ricos, novos e velhos, urbanos e rurais, partidários do papel do Estado social ou da primazia da economia de mercado. É, dramaticamente, aquela que separa as pessoas mais ou menos avisadas, de trajetos profissionais erguidos a pulso e escolhas políticas diversas, de uma associação de loucos e de desvairados, gente impreparada e arrivista, sem formação pessoal, humana e muito menos política. Gente de pesadelo que por um conjunto de circunstâncias fortuitas se encontra à frente dos destinos de um país, de uma democracia e de um povo, que se esforça todos os dias por empurrar para esse abismo do qual jamais haverá retorno. Um cenário excecional que requer, e com a maior urgência, medidas também excecionais. O protesto de rua é por isso absolutamente crucial neste processo.

                                  «Que se lixe a troika! Queremos as nossas vidas!»
                                  Manifestações em todo o país neste sábado, dia 15.

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