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Nós, albaneses

Apesar de já ter sido mais usada, a palavra «albanização» continua a fazer o seu curso no vocabulário político ordinário. Originalmente, reportava-se a uma vinculação às características do Estado albanês nos tempos da República Popular, proclamada no final da Segunda Guerra Mundial e governada com pulso de ferro por Enver Hoxha e o seu Partido do Trabalho. O território da Albânia, outrora local de um trânsito, nem sempre pacífico mas ruidoso e constante de povos muito diversos, servira de base de apoio nos Balcãs aos fascistas italianos e depois aos nazis. Expulsos estes, passou, após curto período de conflito civil que levou os comunistas ao poder, a fechar-se completamente ao exterior. Uma situação ampliada a partir de 1948 com a rutura completa com a Jugoslávia, à qual se seguiria, em 1961, o corte de relações com a União Soviética, e depois, em 1978, o distanciamento da China. A «albanização» tomou então dois rostos complementares: exprimiu, por um lado, a dimensão de um «Estado-pária», fechado sobre si próprio e que procurou viver de forma autossuficiente, na ignorância das mudanças que ocorriam à sua volta; e por outro, em consequência desses limites e do caráter totalitário do regime, marcou também a instauração de uma política interna de rígida contenção do desenvolvimento económico, cultural e social e de efetivo limite dos direitos individuais. (mais…)

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    Os novos bárbaros

    A palavra «bárbaro» deriva, como é sabido, do grego βάρβαρος, significando «não grego». Era dessa forma que os antigos helenos classificavam os estrangeiros e todos os povos cuja língua não era a sua. Começou por ser uma alusão aos persas, cujo idioma de toada gutural entendiam como um estranho e indecifrável «bar-bar-bar». Por extensão, também os romanos foram por eles designados como bárbaros. Depois, já sob o Império Romano, a expressão passou a ser utilizada com a conotação de «não-romano» ou de «incivilizado», aplicada em primeiro lugar aos hunos, aos celtas e aos diferentes povos germânicos, cujo comportamento, reputado como brutal e cruel, era inexplicável e totalmente fora dos parâmetros da sua matriz cultural, parecendo bastante ameaçador. A palavra foi-se mantendo entretanto, ao longo dos séculos, no léxico ocidental. Apesar de contestável na sua dimensão etnocêntrica, o seu uso superou em algumas significações este limite, para se vincular negativamente à classificação de todos aqueles que se opunham, recorrendo à violência ou pela força da ignorância, ao que parecia serem as conquistas partilhadas da humanidade. Ajustado, sucessivamente, a todos os que se afastavam de um ideal de paz, de bem-estar, de saber, de liberdade, de igualdade, de proteção dos mais fracos, de supremacia do interesse da comunidade ou coletivo, de defesa do indivíduo frente ao pensamento único e a todas as modalidades de opressão, de desrespeito das minorias, dos excluídos, dos mais pobres e mais fracos. (mais…)

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      Depardieu já não mora ali

      Com aquele perfil de Napoleão Bonaparte aquilino, sorridente e bem nutrido, visivelmente menos dado a cavalgadas e a batalhas que o original, Gérard Depardieu, 64 anos, grande ator, realizador episódico e agora empresário de sucesso, oferecia-nos, até há pouco tempo, uma excelente representação visual do «verdadeiro francês». No ecrã, foi o Conde de Monte-Cristo. Foi D’Artagnan. Foi Porthos. Foi Mazarino. Foi Cyrano de Bérgerac. Foi Jean Valjean. Foi até o gaulês Obélix. E ficou para sempre, já do lado meridional dos Alpes, como o inesquecível Olmo Dalco, protagonista pobre do 1900, de Bertollucci. Durante anos viveu também como um homem de causas, tendo apoiado em 1987 a reeleição de François Mitterrand, que lhe aplicou na lapela o emblema da Legião de Honra.

      Entretanto engordou bastante, tornou-se empresário vinhateiro e hoteleiro de sucesso, investiu empenhadamente na bolsa, e, em 2007, passou-se para o outro lado da História, apoiando a eleição, e depois a frustrada reeleição, de Nicolas Sarkozy. Pelo meio foi-se tornando um Olmo bem-sucedido na vida, arrivista e colérico, e de tal forma podre de rico que foi um dos alvos da lei Hollande destinada a taxar poderosamente os franceses que juntam muito mais dinheiro do que aquele que conseguem contar. Por isso se mudou para a Bélgica, onde a intervenção fiscal do Estado é consabidamente mais branda. E agora acaba de, apenas em duas semanas, obter de Vladimir Putin a nacionalidade russa. Pode ser que, nas suas queixas de contribuinte, tenha até algumas justificadas razões de queixa. Mas da imagem futura de egoísta, vira-casacas e oportunista já não se livrará mais. E no nosso imaginário partilhado deixou para sempre de representar uma certa «França francesa», heróica, democrática e combativa. Dá pena mas a escolha foi dele.

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        O ódio

        Fragmento de uma das novelas-testemunho mais terríveis que alguma vez li: O Tchekista, de Vladimir Zazúbrin, editado pela Antígona com tradução de António Pescada. O livro, depois de cortado e emendado por imposições do censor, foi originalmente publicado em 1923. Acompanhado de um prefácio saído da pena de um tal Valerian Pravdúkhin, no qual se declarava que a obra «ajudará os verdadeiros revolucionários a cauterizarem definitivamente em si mesmo os “espinhos” herdados do passado histórico, para se tornarem intrépidos engenheiros da transformação inevitável do seu ser». Enquanto «os pequenos-burgueses se assustarão» inevitavelmente «diante deste desenho de traços carregados», pois «não foi para eles que a revolução abriu as suas amplas estradas verdes para os longes radiosos, para o oceano da sociedade sem classes». Zazúbrin, nasceu em Pensa, a sudeste de Moscovo, no ano de 1895, ajudou a preparar a revolução bolchevique, foi o primeiro presidente da União Siberiana de Escritores e, apesar dos elogios que no início da carreira literária o próprio Lenine lhe fizera como escritor «de um novo tipo», terminou fuzilado em 6 de Dezembro de 1938, no auge do Grande Terror estalinista.

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          Imaginem lá

          Lembro-me bem de todas as meias-noites da mudança de ano. Mesmo nos momentos difíceis, ou naqueles mais tristes, sem presságio de futuro ou com morte próxima, elas aconteceram em ambientes partilhados de bem-estar e de esperança. Até aquela, irrepetível, passada enregelado e à luz de uma vela, na casa clandestina, a comer fatias de um bolo-rei minorca misturadas com cerveja choca. Quando a televisão mudou os hábitos e, no tempo do regime velho, se passou a mostrar ao povo o réveillon dos ricos, de fato completo ou vestido de noite – exibindo alegria de circunstância entre cornetas de plástico, serpentinas, chapéus cónicos, pandeiretas e línguas de sogra –, havia ainda assim uns minutos para sair à rua e olhar os artifícios de fogo lá no alto, no céu. E para ouvir os cláxones dos carros, as pancadas nos tachos e nas panelas, os votos gritados de bom ano, os estampidos secos das rolhas, sob o clarão festivo da luz pública.

          Este ano, porém, e pela primeira vez, fui à varanda para dar de caras com um quase silêncio, a rua quase deserta, as janelas com as cortinas corridas, uns petardos pobres, isolados e sem graça alguma, a fazer de conta que assinalavam um momento especial. Engoli então a minha dose de passas com uma sensação de perda. Aquilo que estamos a viver faz-nos assim, mais tristes e semi-mudos, menos esperançosos, mais pobres e inevitavelmente inseguros, enquanto escutamos aqueles que escolhemos para organizarem a esperança de todos a prometerem-nos o pior. Se não para todo o sempre, dizem eles de olhos no chão, seguramente até ao fim das nossas vidas. E das vidas dos que vierem depois. Expiando, porque merecemos, o pecado de termos um dia confiado em que a cada trânsito do calendário se seguia um futuro. Um futuro melhor, mais feliz, imaginem lá. Imagine-se lá.

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            Olha, é Natal

            Porque já fiz o mesmo, estou à vontade para olhar agora como sintoma de uma qualquer doença, eventualmente infantil, o esforço de alguns, incréus ou intransigentes, para evitarem referir-se ao Natal como data primordial do nosso calendário. Escrevem então «natal» com minúscula, evitam desejá-lo «Bom» aos outros, preferindo falar de felizes «Festas», consideram a Consoada coisa para idosos semiadormecidos e a parafernália do presépio cristão como uma brincadeira de crianças, de ociosos ou de retardados. Para mim, um ateu graças a Deus convicto, o Natal, enquanto episódio simbólico fundador do cristianismo, conserva um lugar central na agenda da vida coletiva, na organização dos afetos partilhados, e, acima de tudo, na construção da identidade cultural desse Ocidente que escreveu a sua própria história e a sua tradição. Bem sei, como Roger Garaudy um dia escreveu, que ele, o Ocidente, «é um acidente», mas este deu-se, aconteceu, e agora estamos todos envolvidos nas suas peripécias e consequências. Por isso, é com pena e também com preocupação que vejo as nossas cidades e vilas quase sem as mágicas e habituais iluminações da época, as paredes exteriores das casas ainda mais nuas e frias, sem «Pais Natal» anafados e vemelhuscos a tentarem desesperadamente escalá-las, as lojas de prendas semivazias ou com produtos de saldo. E que encontro muitos milhares de compatriotas, tantos deles agora desempregados, sem o suplemento de esperança e de breve bem-estar que nesta altura lhes oferecia o magro mas quase sempre merecido e seguro… subsídio de Natal.

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              Les artistes

              Praticamente ninguém fala deles, embora não sejam invisíveis. A não ser quando falam deles próprios, em monólogo. Ou então para os seus. É fácil perceber o porquê desse silêncio e desse insulamento: a sua voz sem valor acrescentado, «inútil», é depreciada pelo discurso dominante, particularmente nestes tempos de «salve-se quem puder» que acompanham o naufrágio coletivo. É também ignorada por quem passa ao lado do universo infinito mas peculiar que habitam. Não «produzem valor», não são «competitivos», não lutam como lobos por um lugar ao sol, não têm como mola vital o desejo animal de sucesso e riqueza a qualquer preço. Não vivendo do ar, o reconhecimento de que precisam é principalmente o dos espetadores, o dos leitores, o do público que entra e sai. Porque, como cantava Ferré, Léo Ferré, «ce sont des gens d’ailleurs». Gente de outro lugar.

              São os que vivem da criação e das artes. Que apenas precisam de tempo e meios essenciais para escrever, para representar, tocar, montar espetáculos, pensar. Muitos sacrificaram «carreiras de sucesso», empregos estáveis, bem-estar material, até pequenas heranças, para habitarem, quase sempre com pouco dinheiro mas amor pelo que fazem, nesse universo que vive de e para a imaginação e a representação do mundo. Mas preferiram viver assim, sabendo que jamais seriam ricos, para fazerem aquilo de que gostavam. Viviam no entanto remediados pois, apesar de se alimentarem de trabalhos ocasionais e precários, sabiam que depois de um viria outro. Com tudo à sua volta a desabar, sem apoios para a sua arte, com menos público, ficaram agora mais sós e desamparados que nunca. Sem segurança material, reserva para a velhice, uma noção de futuro. Sujeitos a fazer qualquer coisa, menos aquilo que foi da sua escolha, para terem o pedaço de pão que lhes cabe. Num país para todos ainda mais triste e sem luz. Até que…

              Adenda: Já depois de escrito este post fui recuperar este.

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                Vargas Llosa e os livros

                Em novembro de 1972 li pela primeira vez Mario Vargas Llosa. Sei precisá-lo porque na altura tinha o hábito infalível de escrever a lápis o lugar e a data de compra de cada livro e é essa a data que se conserva no meu exemplar d’A Conversa na Catedral. O romance, contendo um jogo de vozes e de sombras no Peru do tempo da ditadura do general Manuel Odría, fora lançado em Lima apenas três anos antes. E digo apenas porque a distância temporal entre os livros publicados no estrangeiro e as edições portuguesas, quando as havia, era então, por via de regra, muito maior. Para mim, a data é importante também porque daí para a frente, com oscilações de gosto, li uma grande parte do que o escritor peruano foi produzindo: todos os seus dezoito romances, vários dos seus livros de ensaio, as crónicas semanais no El País sobre temas da atualidade, e até o discurso de aceitação do Nobel da Literatura, ganho em 2010. Nem sempre concordei (ou concordo) com as suas posições políticas, mas sempre o olhei como uma referência moral, um grande contador de histórias e um homem corajoso, capaz de enfrentar tanto alguns tiranos quanto a lógica redutora do politicamente correto. E não tenho problema algum em declarar que foi por causa dele, e do debate que levou ao fim da velha amizade com Gabriel Garcia Márquez, que me tornei menos benevolente para com algumas das posições públicas do autor de Cem Anos de Solidão. (mais…)

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                  Os anjos indiferentes

                  Por estes dias em que permanecer indiferente, calar-se bem calado e fazer de conta que não é connosco, desinteressar-se do drama comum que estamos a viver, da política consciente e sistemática de destruição de um princípio de solidariedade que levou mais de um século a erguer, da ausência de uma ideia de esperança e de futuro para os mais jovens, do destino dos que trabalharam durante décadas para agora viverem no temor da miséria, da fome de quem nunca a tinha sentido e de mais fome ainda para quem já sabia que coisa era viver com quase nada, representa, cada vez mais, um ato deliberado de colaboração com o crime. A História mostra-nos, vezes sem conta, como foi fácil virar a cara para o lado oposto e deixar, por inação, que o pior acontecesse. Por ignorância, cobardia ou estupidez. Ou oportunismo. Ou, pior, por isso tudo e ainda por se assumir a convicção de que existe algures uma figura providencial à espreita, capaz de pôr todas as coisas «no sítio» e de instaurar um tempo de tranquilidade que assistirá à recomposição da «ordem natural» da existência humana. Com os mais ágeis a viverem a sua vida boa e higiénica – laborando, orando, amando os pobrezinhos – e os outros, à distância, a pedirem pares de peúgas, camisolas com defeito, latas de atum ou sopa de grão. E, por isso, que não é pouco, a ficarem atentos, veneradores e obrigados. Quietos e apáticos no seu lugar de escravos. Ou então de auxiliares de quem manda, anjos decaídos de uma ordem que ultrapassa o humano porque emanada de entidades transcendentes. Como Deus – um deus castigador, é suposto – ou a mecânica sobrenatural dos mercados financeiros.

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                    É a ortografia, pá

                    A decisão do governo brasileiro no sentido de diferir por três anos a aplicação do último Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, faz-me voltar ao tema. Tal como escrevi noutros dois posts – reunidos num só – não me interessa entrar aqui (ou ali) em pequenas guerras e grandes exaltações a propósito do assunto. Tenho procurado tratá-lo de uma forma muito prática e, na verdade, a única coisa que neste caso uma vez ou outra me tem tirado do sério é o uso de falsos argumentos, ou de poses «caturras», na defesa das posições mais rigidamente imobilistas. Na realidade, se alguma coisa tinha entendido já, muitos anos antes da situação ser criada e da polémica surgir, foi que a língua é um grande barco transatlântico cuja essência, e razão de ser como veículo de comunicação, é tão rígida quanto móvel. Pelo que me toca, posso dizer que passei por quatro fases neste processo: a primeira de alguma desconfiança em relação à mudança, a segunda de observação daquilo que esta anunciava, a terceira de adoção crítica (condicionada em boa parte por imperativos profissionais), e a quarta de integração, compreendendo rapidamente, apesar de ter passado mais de meio século a escrever com regras diferentes, que algumas das novas normas até «naturalizam» mais os modos da fala e da escrita, embora outras, em menor quantidade, de facto os perturbem também. (mais…)

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                      Crime na estrada

                      Já conheci um mecânico de automóveis, por acaso ainda um meu parente, que desmontava, reparava e lubrificava motores, testando-os depois no meio do trânsito em hora de ponta e recorrendo com insistência ao uso da buzina, sem jamais ter possuído carta de condução. Agora pude ver mais longe na lógica do empreendedorismo sem barreiras e do crime consciencioso aplicado aos assuntos do asfalto: na LER deste mês, o fazedor de livros Vítor Silva Tavares (ele não gosta que lhe chamem editor e eu faço-lhe a vontade) conta ter trabalhado em Angola como «engenheiro» examinador dos candidatos a condutores encartados… sem sequer saber guiar.

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                        Pobreza e caridade

                        Sábado. Dia das compras da semana. No hipermercado deparo com brigadas do Banco Alimentar Contra a Fome. Estranhamente, por comparação com outros anos, muito menos pessoas param, aceitam os sacos vazios para encher de alimentos para quem precisa, oferecem o que podem com um sorriso de compreensão. Não sei se será consequência do agravamento das condições de vida da classe média, de onde provinha a maioria dos doadores, se será resultado das infelizes declarações da presidente do Banco, ou se advirá de ambas as coisas. Por um acaso, quando no final da manhã entrei num quiosque, dei de caras com este texto, incluído na reimpressão em fac-simile de um Livro de Leitura da 1ª Classe editado em 1957. Também a mim, como a Isabel Jonet, com quem neste particular concordo, dói a possibilidade da miséria e da fome em Portugal poderem chegar ao nível do que acontece atualmente na Grécia. Mas não me doerá menos ver o meu país a regredir até ao passado infame e desditoso que este texto apresentava como natural.

                        Adenda

                          Apontamentos, Democracia, Memória

                          O pecado de Jonet

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                          A polémica em redor das lamentáveis declarações de Isabel Jonet sobre a naturalidade da fome e da pobreza está a ir pelo lado errado. Não me parece que a pessoa em causa seja a pura incarnação da maldade e do filisteísmo, como alguns sugerem, ou que a dádiva pela dádiva seja um mal em si, pois sou dos que entendem, creio que avisadamente, que mais vale comer um pão oferecido do que morrer à fome. O que julgo dever ser criticado foi a defesa política que fez, na linha de um certo catolicismo conservador e de direita, de um regresso à condição de pobreza. Como se esta fosse uma inevitabilidade sem outra causa que não a ordem natural das coisas. Nesta leitura, sim, revi com um calafrio as «senhoras» da minha infância, que nas iniciativas das Conferências de São Vicente de Paulo pregavam a tal caridadezinha sem beliscarem a ordem social injusta que determinava a sua necessidade. O pecado de Isabel Jonet foi sair do seu trabalho – e até sou dos que costumam ajudar o Banco Alimentar Contra a Fome, a que preside – e pôr-se a pregar em defesa de uma certa ideia de sociedade. Está no direito de o fazer, mas deve arcar com as consequências da sua escolha. Arrastando consigo o infelizmente necessário BACF.

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                            A lei seca da bolacha Maria

                            De acordo com um artigo saído hoje no Público, a Direção-Geral de Saúde vai recomendar às escolas que os alunos deixem de ter à vista gulodices imundas como pastéis de nata, queques, bolos de arroz, croissants ou bolachas Maria. Apesar de não saírem dos bares, elas saem dos expositores, que ficam então reservados para os alimentos ditos «mais saudáveis», como sandes com verdura, leite branco, iogurtes sem edulcorantes, água ou fruta. Segundo a mesma peça, há também alguma comida fora da categoria dos doces que passará à condição de pecaminosa, como os malvados croquetes, os perigosos pastéis de bacalhau e as peçonhentas sandes de chouriço ou mortadela. O estranho, porém, é que os alunos-junkies poderão continuar a comê-las desde que as peçam, mais ou menos à socapa, ao dealer de serviço ao bar. Ninguém informado e no seu perfeito juízo nega que existam produtos alimentares que não devam ser oferecidos em doses exageradas a crianças e jovens sem discernimento suficiente para saberem o que é bom ou mau para a sua saúde, mas também é verdade que grande parte desses hábitos é adquirida em casa e que existe um limite razoável para separar o veneno daquilo que não passa de um pequeno pecado. Tenho grandes recordações de infância que incluíam orgias de portuguesíssima bolacha Maria (com muita manteiga ou tiras de marmelada) e os fantásticos pastéis de bacalhau feitos pela minha mãe. Custa-me imaginar gerações futuras que do seu tempo de escola lembrem sobretudo bebedeiras de leite branco e bacanais de pão integral com alface.

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                              Dar a cara

                              Não gosto de esconder a cara ou de trocar de nome para não ser reconhecido. Quando esta atitude se torna um hábito, associo-a sempre ao medo, ou então à perfídia, a formas ínvias de pensar ou de falar sem assumir a responsabilidade do que se pensa ou se diz. Já usei um nom de guerre, conspirativo, e com ele procurava camuflar a minha identidade. Aconteceu antes da democracia, quando fiz parte de uma organização política clandestina que combatia o fascismo e o colonialismo. Servi-me depois, episodicamente, de um pseudónimo literário, com o qual publiquei alguma poesia e dois ou três contos. Fiz ainda pequenas investidas em blogues, servindo-me ali de nomes inventados, mas mais como ensaios de heteronímia que como processos para dizer escondido o que supostamente, seria incapaz de pronunciar às claras. E usei ainda um ou outro nickname na Internet, sempre associado nos registos ao apelido e ao sobrenome inscritos no Cartão de Cidadão. Repugna-me o anonimato sem um motivo sólido que o justifique, as máscaras ou os óculos que escondem a expressão, as vozes que se alteram para camuflar o seu proprietário, os anoraques que tapam o rosto, o cabelo e os olhos, dando a quem deles se serve uma sensação de impunidade. A coragem é ainda uma atitude socialmente apreciada, e isso deveriam saber os adeptos ou companheiros de viagem dos grupos que, sob um regime injusto, mas que não segue os métodos das ditaduras, apenas se manifestam na sombra, ou escrevem sem dar o nome, sem assumir as razões e as consequências das suas escolhas. Ao dar o nome e a cara, darão um rosto mais humano e um sentido ético mais acentuado à sua luta, às suas razões, e ficarão mais próximos daqueles em cujo nome tomam a palavra. Elevando a sua causa perante o cidadão comum e elevando-se a si próprios também.

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                                A piedade dos outros

                                Fotograma de ‘Alceste à bicyclette’.
                                Filme de Philippe Le Guay (2012)

                                «Há um cego que prefere sair à noite, entre a uma e as quatro da madrugada, com um amigo também cego. Porque está seguro de não encontrar ninguém nas ruas. Se vão de encontro a um candeeiro da iluminação pública podem rir-se à vontade. E riem. Durante o dia há a piedade dos outros que os impede de rir.» (Albert Camus, Carnets I, ed. 1962)

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                                  Falar com os becos

                                  Paul Celan com Nani e Claus Demus
                                  Londres,1955

                                  Falar com os becos sem saída
                                  ali defronte,
                                  da sua
                                  expatriada
                                  significação –:

                                  mastigar
                                  este pão, com
                                  dentes de escrita.

                                  Paul Celan – de A parte da neve
                                  (Trad. de João Barrento e Y. K. Centeno)

                                    Apontamentos, Poesia

                                    Deus lhe perdoe

                                    Viajo no tempo e tento concentrar-me na época em que deixei a Igreja católica apostólica romana. Até à altura em que as dúvidas apareceram, tinha sido um fiel convicto, praticante, tão seguro da minha crença e dos seus dogmas que cheguei uma vez a zangar-me com os meus pais por estes se afirmarem católicos e não frequentarem a Santa Missa. Aos 14, porém, comecei a sentir-me desconfortável e rapidamente encontrei duas razões para me afastar dos rituais, primeiro, e depois da fé. A primeira razão teve a ver com a recusa de uma retórica oca, repetitiva e indecifrável que nada me segredava: as prédicas aborrecidas que se limitavam a frase feitas sobre «o fim dos tempos» que eu não conseguia vislumbrar que coisa fossem, sobre uma «Salvação» que não percebia do que me iria afinal salvar e sobre o Espírito Santo, chamado de «Paráclito» sem que ninguém me explicasse que esta era a palavra grega para «consolador», enchiam-me de tédio. E, pior, nada tinham a ver com as letras das canções dos Rolling Stones, que acima de tudo adorava. (mais…)

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