Arquivo de Categorias: Apontamentos

Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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    Memória enganadora

    Quem conhece os mecanismos da memória individual sabe que ela é frequentemente enganadora. Não só porque falha, apaga ou confunde, mas também, e até talvez sobretudo, porque mistura em uma apenas vivências de diferentes tempos, ou porque cria «recordações», respondendo na verdade a interesses do presente ou municiando a autoestima. Cada vez encontro mais pessoas da minha geração, cujo percurso em certos casos conheço razoavelmente, a inventar ou a adaptar marcas de um passado que viveu de um modo que, tenho a certeza, não foi rigorosamente aquele que descreve. E muitas vezes não mentem de propósito, apenas confundem, acreditando genuinamente contar ou recuperar a verdade. Não deixo, no entanto, de quando lhes escuto certas descrições – vivências, influências, convicções vindas de um outro tempo – pensar em como aquilo não foi bem assim ou «não pode ser verdade». Também já incorri na mesma confusão, naturalmente, embora a minha formação e a sensibilidade de historiador ajude em muitos momentos a evitá-la.

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      O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

      Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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        Os comentários, o macro e o micro

        Escrevo textos de intervenção pública desde o início de 1969, e por isso habituei-me desde há muito aos múltiplos ecos produzidos por muitos dos que os lêem. Começaram por ser os da censura, traduzidos em cortes e em mais uma linha de relatório de algum subinspetor, mas foram também, sobretudo após o 25 de Abril, aqueles que chegaram através do correio do leitor ou então por contacto pessoal, normalmente os melhores porta esta via. De início mais espaçados, e em regra com uma marca de urbanidade, mesmo quando traduziam um desacordo parcial ou total, mas após a chegada da Internet, e sobretudo das redes sociais, passaram a ocorrer numa torrente sem fim e, como se sabe, por vezes de forma no mínimo de forma impensada e avessa ao diálogo.

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          4 notas (e mais uma) sobre as presidenciais

          1 – Neste domingo de fevereiro menos chuvoso do que se previa, uma ampla maioria de votos expressos entendeu que não queria um presidente eleito com base no ressentimento, no medo e em fantasmas autoritários. A vitória de António José Seguro não representa um milagre nem significa uma redenção do país, é certo, mas é um não claro ao messianismo político e à ideia de que Portugal precisa, para viver melhor, de homens fortes e de dedos autoritários apontados, em vez de continuar o seu percurso como democracia adulta e equilibrada.

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            No rebanho pelo medo perseguido

            Admito que tenho pouco ou nenhum respeito por quem, diante de situações extremadas, dramáticas para a sociedade em que vive, possuindo voz prefere calar-se e nem por um segundo verbalizar a sua opinião. Pior ainda quando hoje é tão fácil fazê-lo. Se confrontarmos essas pessoas em privado, até podem afirmar que a sua escolha é esta ou aquela, eventualmente próxima da nossa, mas fazê-lo de forma pública é algo que está claramente abaixo do seu receio atávico de tomar posições. Como cantou José Mário Branco em «Perfilados pelo Medo», de 1971, para elas «decisão e coragem valem menos / e a vida sem viver é mais segura», lá seguindo em cuidadoso silêncio no meio do seu «rebanho pelo medo perseguido».

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              De social-democracia pouco, quase nada, nada

              Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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                A abstenção como grave erro político

                Na eleição do próximo domingo, mais do que eleger uma pessoa essencialmente decente, tranquila e progressista como PR, importa que o candidato da extrema-direita não tenha mais de 30%. Tudo o que for acima disso, mesmo não se traduzindo em eleição, representa um enorme reforço daquele setor, bem como da sua capacidade para se preparar para governar, passando a disseminar com maior à-vontade o ódio, a mentira e a demagogia. Por este motivo, autoproclamar-se antifascista e decidir abster-se – apenas para não votar ao lado de pessoas, algumas sem dúvida detestáveis, da direita democrática – não se trata apenas um gesto de cegueira, é também um grave erro político. Mesmo sabendo que umas quantas pessoas jamais o farão, é muito importante mobilizar quem pudermos para não cair neste logro e para não deixar de votar.

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                  Ponto da situação

                  Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.

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                    O perigo da irredutibilidade

                    Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

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                      Contra a desmobilização e a teimosia

                      Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.

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                        Corredores, Antecâmaras e WhatsApp

                        Quem realmente tem um conhecimento razoável e alargado da história – não apenas aquele que se cinge aos momentos mais sonantes, às batalhas, aos tratados, às decisões de conselhos e assembleias – sabe que a maior parte dos avanços, sejam os do trajeto da humanidade ou os da vida das instituições, mesmo das mais democráticas, são preparados ou condicionados em encontros de corredor, em reuniões de antecâmara, em telefonemas noturnos, quiçá em bilhetinhos ou, de hoje em dia, mensagens de mail e WhatsApp. Sem estes momentos e vias informais, que não são a céu aberto e o cidadão comum jamais conhecerá, o conflito seria a norma e provavelmente viveríamos no caos.

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                          Presidenciais: agora é centro-esquerda

                          Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.

                          •⁠ ⁠Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;

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                            Inacreditável ou talvez não

                            A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.

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                              O lugar do voto útil

                              No nosso regime constitucional, em eleições como as presidenciais o voto útil não é em si um mal ou um crime – como alguns setores por ele inevitavelmente prejudicados insistem em apregoar -, uma vez que nelas se escolhe mais uma personalidade agregadora do que um projeto político específico de natureza partidária, este sim, necessariamente diferenciado e diferenciador. Mais ainda num tempo de forte bipolarização da sociedade, de profundo terramoto no equilíbrio mundial, e de elevado risco para a democracia, como o que estamos a atravessar. Não o entender – mesmo que isso não signifique praticá-lo, direito que a cada um felizmente assiste – possui a marca, queira-se ou não, goste-se ou não, da cegueira ou do sectarismo, no mínimo da ingenuidade política.

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                                As estratégias da demagogia

                                As estratégias da demagogia têm por objetivo instigar, provocar e mobilizar a emoção do público, evitando estimular o seu raciocínio. O uso de apelos à paixão, em detrimento da razão, pode ser identificado em dois processos: a hipérbole e a simplificação. A hipérbole sobrevaloriza uma dada situação, atribuindo-lhe características de uma gravidade extrema (ou então euforicamente positiva). Já a simplificação reduz uma situação complexa a um único fator causal, apresentado como a única explicação que se afirma fazer sentido e como a única solução apresentada como possível. Ambas são instrumentos de logro e de servidão.

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                                  Catarina, Jorge e as divergências

                                  O debate televisivo de ontem entre Catarina Martins, candidata do Bloco de Esquerda, e Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, foi cordial e equilibrado, permitindo observar duas coisas fundamentais. A primeira é a de que é muito mais aquilo que aproxima o seu campo político – não diria o mesmo em relação ao PCP, bastante mais fechado e inamovível – do que aquilo que o separa. Tanto em termos de escolhas, quanto de sensibilidades e até de base cultural. A segunda é que existem, apesar disso, discordâncias que não são de somenos importância, principalmente tendo em conta os objetivos de uma campanha presidencial.

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                                    «Memória inventada» e civilidade

                                    Uma das consequências de ter uma vida razoavelmente longa e de (pelo menos por enquanto) conseguir reter alguma memória dela, consiste em ser capaz de identificar de maneira fácil os anacronismos. Claro que, em pessoas como eu, esta capacidade é apurado pela formação de historiador e, mais ainda, pela personalidade «picuinhas» que tenho desde que me conheço. Por isso me perturba um tanto quando encontro pessoas mais ou menos da minha idade que referem como memória sua, dada como certa, situações, realidades, práticas ou gostos que eu sei não serem exatamente daquele tempo e não poderem ter vivido. Vou dizer-lhes isso? Claro que não, ou raramente, até porque sei que, muitas das vezes, essa confusão resulta da chamada «memória inventada», ou «cumulativa», aquela que junta episódios vividos ou informações adquiridas em diferentes momentos e os combina num só. Trata-se de uma confusão natural e eu próprio, apesar da mania do rigor, já o fiz inadvertidamente. Mas confesso que me perturba escutar alguém a afirmar, a pés juntos, ter vivido experiências que sei de facto impossíveis, tendo eu a obrigação, por dever de civilidade e para que se não zangue comigo, de ficar calado.

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