Arquivo de Categorias: Atualidade

Déjà vu

O último e mais substancial daqueles que, no Syllabus da encíclica Quanta Cura (1864), o papa Pio IX considerou serem os oitenta «principais erros» do seu tempo, consistia em aceitar que «o Pontífice Romano tem de se reconciliar e acordar com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna». Condenava-se ali, sem contemplações, aquilo que na altura era associado à chamada «heresia do americanismo»: a defesa da liberdade de religião e da liberdade de pensamento, bem como o reconhecimento da separação da Igreja do Estado. Lê-se o relato da manifestação que decorreu hoje em Espanha, organizada pelo Arcebispado de Madrid, com perto de um milhão de pessoas a gritarem na rua «por la familia cristiana» e «contra el laicismo radical», e sobrevém uma enjoativa sensação de déjà vu. Mas também de receio e incerteza.

    Atualidade, História

    Prémio Pessoa

    Ainda que com atraso, não posso deixar de referir a merecida atribuição do Prémio Pessoa 2007 à historiadora Irene Flunser Pimentel. Para além desta distinção chamar a atenção de um público alargado para releituras não-assépticas de alguns temas da história portuguesa recente (as organizações femininas no Estado Novo, os judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, a PIDE e a censura, a propaganda da Mocidade Portuguesa Feminina, e, ao que se anuncia, também a vida de José Afonso), ela valoriza igualmente a requalificação da História como instrumento da cidadania. Permitindo ver de que forma se podem conjugar método e rigor com esse «dever de memória» que constitui, afinal, desde pelo menos Heródoto, a essência da própria actividade historiográfica. E mostrando como, neste campo, é possível – e também urgente – escrever ao mesmo tempo para dentro e para fora da academia. Sem que essa escolha implique necessariamente uma simplificação do discurso ou um abrandamento do seu grau de fundamentação. Os meus parabéns a Irene Pimentel.

      Atualidade, História, Memória

      Os melhores

      Desconfio sempre de toda a iniciativa que procure dizer-me quais são «os melhores» nisto ou naquilo. Sejam eles restaurantes, vinhos, livros, perfumes, futebolistas ou mesmo… blogues. Nada tenho contra os prémios – nunca pensei devolver os poucos que ganhei – e parece-me bem que se premeiem publicamente qualidades ou capacidades. Mas referir «os melhores» sem explicar o porquê da designação parece-me uma forma de contornar o carácter relativo que comporta sempre um qualificativo dessa natureza. E a situação piora quando um suposto critério de qualidade («o melhor») é determinado por um factor essencialmente quantitativo: o maior número de votos obtidos numa votação assente em critérios vagos e subjectivos de gosto ou simpatia (para além de não imune, por vezes, a uma «chapelada» garantida por amigos, companheiros e clientes). Como dizer que só porque ganhou as últimas eleições legislativas José Sócrates é «o melhor político português». Ou porque vendeu não sei quantas centenas de milhares de exemplares de cada um dos seus livros José Rodrigues dos Santos é «o melhor escritor lusitano». Ou porque Salazar foi votado «o maior português de sempre» tenha sido de facto «o maior». Absurdo, não é?

      Parece-me por isso de uma grande lucidez o comentário à sua própria vitória feito pelo autor do Bitaites, vencedor absoluto da interessante e repercutente iniciativa O Melhor Blog Português de 2007. Parabéns, dos sinceros, pela pedagógica honestidade. E pelo prémio também, naturalmente.

        Atualidade, Cibercultura, Etc.

        O aquário azul

        No grande ecrã de plasma da superfície comercial, o cenário era azul, as luzes azuis, os rostos azulados pela refracção. A voz azul era a do fado pirotécnico de Dulce Pontes. Os fatos pareciam também eles azuis, embora o efeito luminoso pudesse contribuir para matizar o cinza-escuro. Enquanto os líderes europeus assinavam o Tratado Reformador da União, os liderados circulavam distraídos, alheios às imagens da refundação de uma Europa sem chama. Em tonalidades apagadas de um azul de aquário.

          Atualidade, Olhares

          Of course, Mr. Mugabe

          Como seria de esperar, a defesa de Mugabe diante das suaves críticas sobre a situação dos direitos humanos no seu país que teve de ouvir durante a cimeira UE-África centrou-se na recordação do papel histórico das antigas lutas de libertação do jugo colonial – parece que elas justificam a longa licença sabática da democracia em África – e na «arrogância» ou no «complexo de superioridade» dos governantes europeus brancos que fizeram essas críticas. Aguarda-se que os defensores locais das atrocidades consideradas «compreensíveis», ou mesmo «justificáveis» (ainda que eventualmente «lamentáveis»), em nome da emancipação de um sempre luciferino «Norte» e dos direitos perpetuamente legítimos do «Outro» – seja ele qual for, desde que seja de facto «Outro» –, façam agora ouvir a habitual lengalenga.

            Atualidade

            O Irmão Líder e os kamikazes

            Posso andar distraído, mas não tenho encontrado comentários sobre os inenarráveis anúncios pagos que o presidente líbio tem feito publicar em jornais portugueses. Anúncios de página inteira, nos quais surgem frases – obviamente imunes ao livro de estilos – como «a análise intelectual é o código dos acontecimentos…» (as reticências fazem parte), «Kadhafy fala todas as portas são válidas para o conhecimento», «o perigo das armas metralhadoras contra os seres humanos baseia-se no uso exagerado na morte colectiva» ou «pela piedade há necessidade de apoiar o meu apelo para anular as armas metralhadoras exceptuando outras armas convencionais», entre muitas outras de idêntico recorte literário. Remetendo todo este arrazoado para a consulta do site www.algathafi.org, da suposta responsabilidade do «irmão líder» que foi recebido ontem aos gritos de «viva a revolução popular!». O mesmo que deu hoje, pasmem-se a orbe e as gentes, um seminário organizado pelo Centro de História da Universidade de Lisboa e subordinado ao tema Problemas da Sociedade Contemporânea, onde recordou sabiamente que «meia dúzia de pessoas decidem o futuro do mundo e depois uns reagem com palavras, outros com explosivos e outros com kamikazes». Para memória futura rezam as crónicas que foi «largamente aplaudido à chegada e à saída».

              Atualidade

              Um bombom para o tirano

              Quando, a propósito da vinda de Robert Mugabe à Cimeira União Europeia-África, o Secretário de Estado dos Assuntos Europeus afirma que «confontar tiranos é melhor do que não falar com eles», parece esquecer lições da História que, de tão fundamentais que são, nem será necessário evocá-las. Numa tirada propositadamente ambígua, típica do nosso melhor «diplomatês», pretende fazer-nos acreditar que uma palavrinha meiga pode sempre abrandar o déspota e levá-lo a mudar de atitude. A chamá-lo à razão. Mas será conveniente esperarmos sentados pelos resultados da benévola iniciativa. Já o povo do Zimbabwe, esse, segundo relatam as agências noticiosas, precisa mexer-se todos os dias para sobreviver à crise económica e às arbitrariedades do seu governo.

                Atualidade

                Abuso

                Admito sem problemas que Sócrates receba o fanfarrão Hugo Chávez e lhe dê uma palmada nas costas. Afinal temos muitos compatriotas amedrontados na Venezuela e o gás natural que tem chegado da Nigéria poderá não ser da melhor qualidade. Já me parece patético, e também algo abusivo, que cerca de duas centenas de portugueses ligados principalmente à União de Resistentes Antifascistas Portugueses, à Associação de Amizade Portugal-Cuba, a um certo Comité de Solidariedade com a Venezuela, a alguns sectores da CGTP e por supuesto ao PCP, dêem as boas-vindas ao «revolucionário bolivariano» com palmas, vivas e, imagine-se, canções de José Afonso.

                  Atualidade, Opinião

                  La mala educación

                  Creio que a melhor e mais curta sinopse do desaguisado público ocorrido em Santiago do Chile, durante a 17ª Cimeira Ibero-Americana, entre a la majestad arrogante de Don Juan Carlos Alfonso Víctor María de Borbón y Borbón-Dos Sicilias e el compañero parlapatão Señor Hugo Rafael Chávez Frías, foi feita feita pelo Lutz Brückelmann no Quase em Português: «um tipo a responder mal-educado a um tipo mal-educado». Se chamar mal-educado ao coronel, cantor e putativo presidente vitalício corresponde apenas a uma constatação, fazê-lo em relação a um Bourbon de múltiplos e recuados costados, e ademais casado com uma Sophía Margaríta Viktoría Frideríki Glíxbourgk, ou Glucksburgo, da Grécia e Dinamarca, não é para todos.

                    Apontamentos, Atualidade

                    E-Dazibao

                    Logo a seguir aos Estados Unidos, a China é o 2º Estado do mundo com um maior número de utilizadores da Internet (90,7 milhões no final de 2006). Ao mesmo tempo que florescem blogues e BBS (os nossos velhos electronic bulletin boards), toda a rede é alvo de uma apertada vigilância política. Este sistema pode dar algumas ideias aos poderes que noutras partes do mundo pretendem limitar o acesso inteiramente livre à rede, mas, de acordo com alguns sinólogos ocidentais mais optimistas, a explosão dos acessos poderá também alimentar um rastilho capaz de estimular a mudança dentro da sociedade chinesa e do próprio regime. Um pouco como ocorreu, na antiga União Soviética, com a informação paralela proporcionada pela imprensa samizdat. Sobre este assunto pode ler-se, no Eurozine, um excelente artigo do checo Martin Hala.

                      Atualidade, Cibercultura

                      Inimigos da rede

                      Por causa das medidas tomadas pelo governo ditatorial da Birmânia no sentido de cortar as comunicações com o exterior, o suplemento Digital (do Público) desta semana incluiu um artigo sobre «Quando os governos preferem que o seu país fique offline». Particularmente elucidativa é uma caixa na qual se inventariam os processos utilizados em dez dos Estados cujos governos são colocados entre os piores inimigos do uso livre da Internet.

                      Na base desta lista negra, encontram-se o Panamá (as centrais telefónicas conseguiram ali que o governo impedisse o acesso à tecnologia VoiP utilizada pelo Skype) e os Estados Unidos (onde o Ministério da Defesa bloqueou o acesso, nos cinco milhões de computadores dos seus serviços, a sites como o YouTube, o Hi5, o Myspace, a MTV ou o Pandora, entre outros). Subindo na escala da actividade censória, surgem países islâmicos como a Arábia Saudita, o Irão, a Síria e o Egipto. Nos dois primeiros, são invocados principalmente os conteúdos «imorais» ou «inaceitáveis», ao passo que nos outros dois são as posições políticas dissidentes as principais atingidas.

                      Por último, entramos no universo do «socialismo real» supervivente, onde, para além dos conteúdos, é o próprio acesso que é severamente limitado ou totalmente impedido. A Coreia do Norte é o caso mais conhecido, pois ali só alguns altos dignitários do regime possuem acesso à rede mundial. Vem depois a China e a Bielorrússia, onde são banidos os conteúdos contendo quaisquer comentários, mesmo os estritamente privados, que possam ser desfavoráveis aos regimes vigentes. Na China, quando os acessos são estabelecidos a partir de empresas, o bloqueio pode surgir disfarçado aparecendo no ecrã uma mensagem a avisar da existência de «problemas técnicos». Para o final fica o caso de Cuba, o 2º país do mundo no qual maior número de restrições são colocadas ao uso livre da Internet e que é por vezes apontado como «modelar» no que respeita ao exercício das «verdadeiras liberdades»:

                      «Apenas dois por cento da população tem acesso à Internet. E os que têm são cuidadosamente vigiados para perceber se se embrenham em actividades «contra-revolucionárias». Não há ligações privadas à Net. Os cubanos têm de se deslocar a pontos de acesso públicos, como cibercafés, universidades ou «clubes de computadores» para poderem ver o seu e-mail. Estes locais têm software instalado que faz disparar o alarme na polícia de cada vez que palavras-chave «subversivas» são escritas. De igual modo, todos os cubanos classificados pelo Estado como dissidentes ou jornalistas independentes têm imensas dificuldades em aceder à rede.»

                      A propósito, leia-se isto.

                        Atualidade, Cibercultura, Recortes

                        Sinal dos tempos (pergunta 2)

                        O Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas tem toda a razão. A possibilidade de fusão do BCP e do BPI é um assunto privado que interessa a quem o promove apenas como negócio, mas que omite, pelo menos em termos públicos, os aspectos menos bonitos e mais complexos da possível operação. Não deixa de ser um sinal dos tempos que nem uma palavra tenha sido dita – e os repórteres também nada perguntaram – a propósito da sorte de boa parte das dezenas de milhar de trabalhadores que servem as duas instituições bancárias e que, a confirmar-se a operação, irão inevitavelmente para o desemprego. O governo não terá nada a ver com isto?

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                          Sinal dos tempos (pergunta 1)

                          Habitualmente distribuídos entre tias e avozinhas – com o devido respeito, como dizia a outra, por aquelas que efectivamente o são –, cargos públicos como a presidência da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa ou a provedoria da Casa Pia de Lisboa excluem geralmente os homens. Marca, ou nódoa, de um atavismo cultural que continua a considerar as mulheres como particularmente sensíveis para determinados cargos ligados ao exercício da prodigalidade cristã, e os homens (se ressalvarmos o Padre Melícias) como uns brutos «muito homens» que não têm vocação para tais mariquices. Ou tratar-se-á da política de quotas sob a forma de farsa?

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                            Um caso à beira-serra

                            Ao falar do comportamento dos dois senhores agentes da PSP que entraram armados em bufos dentro da sede sindical na Covilhã, Ângelo Correia, na televisão, colocou, em forma de boutade, o dedo na ferida: «No tempo do Dr. Mário Soares como primeiro-ministro isto nunca aconteceria.» Quando a cultura da liberdade passa a ser apenas uma florzinha rubra na lapela no dia vinte e cinco do quatro, e todos os atropelos se desculpam em nome da eficácia ou da autoridade do Estado, coisas destas acontecem. E eu até nem sou soarista. Nem ele, o Dr. Ângelo.

                            Adenda: «O ministro da Administração Interna considera que, com base no relatório preliminar divulgado hoje pelo inspector-geral da Administração Interna sobre a visita da PSP às instalações do Sindicato dos Professores da Região Centro (SPRC) na Covilhã, segundo o qual a polícia não cometeu qualquer infracção, que ‘não há lugar à instrução de processo de inquérito ou processo disciplinar’.» [Público online]
                            Tudo bem, portanto. E assim fica aquela gente a saber que pode agir impunemente. Que o poder político a protege e compreende. Afinal, atemorizar cidadãos não é, só por isso, crime previsto no código penal. Como o bicho-papão, o polícia mau faz parte do nosso imaginário colectivo e é conveniente que nele permaneça.

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                              Discurso do método

                              Afinal o Vaticano ainda não deferiu a canonização dos três pequenos pastores da Cova da Iria. Só a diferiu. Parece que falta uma evidência confirmada em laboratório. Para a Santa Sé, diz o sibilante cardeal Dom José Saraiva Martins, natural de Gagos de Jarmelo e prefeito da excelentíssima Congregação das Causas dos Santos, são sempre necessárias «provas científicas do milagre».

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                                A Birmânia não é aqui

                                Este post foi originalmente publicado há seis dias. Pela actualidade que mantém, é de novo chamado à primeira linha. Com algumas pequenas alterações.

                                O desinteresse dos principais partidos da esquerda portuguesa pelas frentes do combate democrático que vão sendo sucessivamente abertas pelo mundo surge-nos como uma triste constante. Exceptuando-se, naturalmente, as «solidariedades» ocasionais escolhidas caso a caso. Mesmo quando os sinais evidentes da repressão e da revolta, ou os primeiros indícios de novos genocídios, nos entram em imagens brutais pelas casas adentro. Para o PCP e para o Bloco de Esquerda, o drama birmanês permanece distante, quase como se nada tivesse a ver connosco, como se não justificasse um estremecimento de emoção, uma palavra de protesto, uma clara reprovação. Que importa afinal o ruído que chega da rua distante quando mantemos o nariz mergulhado no prato da sopa e nas tristes agendas eleitorais? A despolitização da política e o sectarismo, cara e coroa da mesma moeda, castram e desumanizam a experiência da cidadania, questionando o próprio conceito de democracia de quem os pratica.

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