Arquivo de Categorias: Atualidade

Circuito fechado

vaudeville.jpg

O patético Fórum Novas Fronteiras, que reuniu no sábado uns quantos apaniguados e fellow-travellers do governo do PS para um elogio público e litúrgico das suas políticas, revelou-se ainda pior do que se esperava. O autoproclamado «espaço de diálogo, de avaliação e de discussão» não foi mais que um encontro de pré-campanha, conscienciosamente mediatizado e convenientemente desprovido de vozes dissonantes, e no qual José Sócrates nem sequer disfarçou o tom comicieiro – aliás, já não parece possuir outro – entrando no pavilhão em passo enérgico, a acenar às hostes entre palmas, vivas e ai-jesus. Só faltou mesmo a musiquinha de Vangelis. Inebriada pelo poder, fascinada pela lógica prática do realismo político, encerrada em sedes e gabinetes, e deixada sem rédea por uma oposição sem força ou credibilidade, esta gente não pára de ficcionar sobre as medidas administrativas que confunde com «êxitos». Esses que um país acabrunhado e sem desígnio não consegue enxergar, mas que ela «vê» muito, muitíssimo bem. Quem pensará que realmente mobiliza?

    Atualidade, Opinião

    O mulato O.

    mulato.jpg

    Utilizado no português, de acordo com o Houaiss, pelo menos desde 1557, o substantivo e adjectivo mulato aplica-se àquele «que é filho de pai branco e de mãe preta (ou vice-versa)», «que apresenta traços das raças negra e branca», ou que possui uma visível «cor parda, acastanhada». Omnipresente nos territórios colonizados pelos europeus, o tipo encontra-se hoje em expansão numa Europa crescentemente multiétnica e miscigenada. Mas a designação, historicamente recorrente no léxico da lusofonia, é hoje muito menos utilizada do que o era há vinte ou trinta anos atrás. Pelas razões mais diversas. Por um lado, a decadência do conceito de raça, actualmente trocado pelo de etnia, tem levado a que se evitem designações determinadas pelos traços físicos. Ao mesmo tempo, e apesar de valorizar a mestiçagem e a hibridez, a nova tradição pós-colonial tende frequentemente a escamotear o legado do colonizador, incluindo-se neste o seu contributo genético. Aliás, foi já nesta linha que, a partir dos tempos de definição do conceito de negritude e de constituição das correntes emancipalistas, uma parte das novas elites africanas começou a depreciar um pouco o lugar e o papel do mulato. A partir dos anos 50/60, a crítica do lusotropicalismo não deixou, também ela, de intervir neste processo.

    Entre nós, porém, o eclipse parcial da palavra ficou a dever-se ainda à influência global do discurso dominante dos media americanos. Nos quais o conceito de negro possui uma amplitude que os falantes nativos do português até há bem pouco tempo praticamente excluíam. Por isso, para a América, o mulato Barack Obama é um negro. E é a partir da afirmação desta condição que tem definido o seu trajecto político e poderá vir a construir a sua vitória eleitoral. O que não podemos senão compreender. Mas já me parece um sintoma de passividade perante a aculturação que os meios de comunicação europeus, e muito em especial os portugueses, se lhe refiram sistematicamente como «negro». O que fizemos nós afinal, e em tão pouco tempo, da memória partilhada desse passado de trocas que produziu o mulato?

      Atualidade, Memória, Olhares

      Parole

      words.jpg

      O Público de hoje fornece as conclusões de um exercício. Dois especialistas em análise computacional do texto pegaram em 68 intervenções públicas de José Sócrates e descobriram as 200 palavras mais recorrentes nesse conjunto. Dispuseram-nas de seguida numa «nuvem de palavras» – dessas que muitos blogues utilizam para destacarem as principais tags utilizadas – que mostra com clareza os resultados obtidos. As palavras mais relevantes são previsíveis e próprias do «politiquês técnico»: «Portugal», «Europa», «governo», «política», «economia», «ano», «orçamento», «país», «desenvolvimento», «investimento». Segue-se um conjunto de palavras cuja representação gráfica vai diminuindo, até se chegar à escala liliputiana de vocábulos menores como «saúde», «pobreza», «pessoas», «professores» ou «história». Tendo pretensões científicas, claro que o estudo não aborda o não-dito (ou o quase indizível). Mas é importante procurá-lo: estão ausentes deste top 200 palavras como «cultura», «ensino», «educação», «desemprego», «mulheres», «lusofonia», «democracia», «solidariedade» ou «igualdade». E «socialismo», naturalmente.

      Ver também aqui (sugestão de Paulo Querido)

        Atualidade

        Era Fidel

        vivafidel.jpg

        Não me parece que a saída de cena de Fidel Castro «vire a página» do quer que seja. Só se podem virar páginas de livros abertos e o castrismo é, desde há longos anos, um livro fechado e arrumado na secção de história das estantes. Sobrevivendo, fora de Cuba, apenas como mito. Ora, como todos sabemos, os mitos são fabricados a partir de figuras e de episódios retirados do real, mas muito rapidamente se distanciam deste.

          Atualidade

          Da banalidade do perdão

          Pedir perdão servirá de alguma coisa? Rebobinar o filme da história e reconhecer que os do nosso sangue erraram, ou agiram de uma forma medonha, só aos ignorantes e aos hipócritas pacificará as consciências. As crianças aborígenes das «gerações roubadas» jamais reaverão a infância que a natureza lhes havia destinado. Mas pede-se-lhes desculpa e pronto. E ponto. Como se pediu já, vezes sem conta, aos descendentes dos índios americanos contagiados e massacrados, dos judeus errantes reduzidos a cinzas ao longo de séculos, dos escravos que sobreviveram à medonha viagem transatlântica. Um dia pedi-la-emos também aos netos dos africanos que não morreram exaustos junto às margens das praias peninsulares. E, tolhidos pelo arrependimento, continuaremos distraídos perante o trabalho macabro que nunca pára. Lá longe, entre remotas gentes ou fora da nossa vista.

            Apontamentos, Atualidade

            A leste do faroeste

            obama.jpg

            Uma certeza podemos ter se, tal como se espera, os democratas ganharem desta vez a Casa Branca: desaparecerão dos nossos visores aquelas imagens regulares, invariavelmente grotescas, de um cow-boy, de botas texanas com apliques e pernas levemente arqueadas, que salta do Air Force One como se de um cavalo de rodeo se tratasse.

              Apontamentos, Atualidade

              Engarrafamento aéreo em Havana

              habana.jpg

              Por estes lados a notícia não teve destaque, mas vale a pena referi-la. Durante uma sessão na Universidade de Ciências Informáticas, em Havana, destinada a preparar as «eleições» para a Assembleia Nacional cubana solicitando dos estudantes o «voto unido», Ricardo Alarcón, membro do Bureau Político do Partido Comunista, viu-se confrontado com perguntas inusitadas e incómodas por parte dos estudantes. Porque não se explica ao povo em que consistem determinados projectos e planos de âmbito nacional? Porque pode um ministro manter-se 20 anos num cargo ainda que a sua gestão tenha fracassado visivelmente? Porque se proíbe aos cubanos a abertura de contas de e-mail no Yahoo ou no Google? Porque não podem viajar para o estrangeiros ou hospedarem-se em hotéis nacionais? A atrapalhação de Alarcón foi de tal ordem que a esta última pergunta respondeu considerando que «se todos os 6.000 milhões de habitantes do mundo pudessem viajar para onde quisessem, o engarrafamento aéreo no planeta seria enorme». Mais do que o carácter patético desta resposta, e simples enunciação das perguntas anuncia conflitos latentes que já não é possível esconder.

              Antes que surjam as inevitáveis vozes que tentarão mostrar este episódio como prova da vitalidade democrática do regime castrista. Com um obrigado a João Tunes.

                Apontamentos, Atualidade

                O passado é agora

                churchill.jpg

                Um pequeno post d’A Origem das Espécies chama a atenção para um apontamento saído no El País. Nele se refere um inquérito a 3.000 cidadãos, efectuado em Inglaterra pela cadeia de televisão UKTV Gold, o qual revelou estarem 23% deles convencidíssimos que Winston Churchill é um personagem de ficção e que nunca foi primeiro-ministro, enquanto 58% acreditam sem quaisquer problemas que Sherlock Holmes existiu de facto. 47% dos inquiridos considerou também que Ricardo Coração-de-Leão apenas existiu nos livros. Julgo que nenhuma pergunta se referia à existência – real ou imaginada – de Robin Hood e do Xerife de Nottingham. A reinvenção acelerada do passado é realmente um fenómeno deslumbrante. Como o é também a manipulação do passado na criação do presente.

                  Atualidade, História, Memória

                  Higiene oral

                  cuspir1.jpg

                  Se tivesse a certeza de que o Senhor Director-Geral me leria, escrever-lhe-ia uma carta registada e com aviso de recepção. Nela apresentaria os meus melhores cumprimentos e mais três queixosos parágrafos.

                  Protestaria no primeiro contra a inacção das autoridades diante do persistente hábito lusitano, digno de uma extra-europeia viela de casbah, de cuspir para o chão. Bem sei que os escarradores já não constam do inventário das repartições e que as novas gerações parecem salivar menos, mas consideraria inadmissíveis as imundas excepções com as quais nos cruzamos ainda com razoável frequência. Escreveria outro parágrafo sugerindo a criação de cursos de formação destinados a ensinar, àquelas pessoas que falam exalando nuvens de salpicos bocais, a forma de superarem esse asqueroso hábito. No último parágrafo, apresentaria uma queixa contra a falta de legislação capaz de controlar a prática rotineira – persistente até entre numerosos letrados – de folhear livros e jornais destinados ao público recorrendo à dose equilibrada de saliva que depositam laboriosamente no dedo médio de uma das mãos.

                  Terminaria a carta com os meus cordiais votos (atrasados, embora sinceros) de um óptimo 2008. Inseriria a folha num envelope que, por fim, fecharia recorrendo à minha humedecida língua. E passaria depois pela estação de correios mais próxima.

                    Apontamentos, Atualidade

                    Xeque aos reis

                    republica.jpg

                    Como a maioria dos portugueses com os ouvidos abertos, tenho andado um tanto empanturrado com as evocações do Regicídio. Escreve-se muito, por vezes demais e de um modo empolado ou redundante, para o interesse que o tema poderá despertar hoje no cidadão comum. Percebe-se a razão: monárquicos carentes de oxigénio, chefes de redacção à procura de assunto e circunspectos académicos com reduzido público confluem numa evocação que torna mais visíveis as suas crenças, que responde às suas necessidades ou que projecta o seu trabalho. E aproveitam-na enquanto podem.

                    Devido à profissão que tenho, caber-me-ia supostamente alinhar no cortejo. Mas é justamente essa condição que me obriga a falar pouco daquilo que conheço mal. Do tema sei, porém, o suficiente para perceber que tem falhado, ou faltado, a presença de uma perspectiva essencial para a compreensão do assassinato do rei Carlos e do príncipe Luís, dois cidadãos que nem sequer eram tiranos brutais ou empedernidos reaccionários. Uma leitura que permita reconhecer com algum detalhe o microclima cultural, marcado por um radicalismo profundamente laicista e antimonárquico, e completamente fechado a concessões, dentro do qual se formaram as convicções de homens como esses que, sem temerem pela própria vida, consumaram o acto sobre o qual passam agora cem anos. O que pensavam, que livros liam, em que lugares se reuniam, sobre o que falavam, que códigos compunham, naquele início de século, as convicções profundas de homens como Buiça, Costa, Aquilino e tantos outros? Porque eles não foram apenas republicanos extremistas e exaltados, ou pobres franco-atiradores de pendor anarquista, mas sim visionários maximalistas – como tantos outros na Europa do seu tempo –, que as circunstâncias da vida haviam transformado em adeptos da utopia de um mundo melhor que previa o inevitável fim dos reis e príncipes, símbolos físicos de um poder que entendiam promover a iniquidade. É fácil condená-los sem apelo ou transformá-los em mártires, como tem sido feito por estes dias, mas dará algum trabalho compreender a dimensão intensa, ainda que efémera, das suas certezas.

                      Atualidade, História

                      De novo e de novo a língua

                      falalatina.jpg

                      A revista Manière de Voir dedica o último número (Fevereiro-Março) ao que chama «a batalha das línguas». Trata-se desse confronto em crescendo, vivido neste momento à escala planetária, que associa a cartografia dos falares a uma ordem política e económica que se sobrepõe à liberdade das escolhas individuais. Em «Une idée en marche, la latinité», Philippe Rossillon, actual secretário-geral da União Latina, fornece mesmo um exemplo dramático desta realidade, na qual a exclusão em relação a uma língua pode até conduzir ao mais extremo desespero: em Itália foram já registados muitos casos de depressões nervosas, e até de suicídios, ocorridos com alunos cujos acasos da vida escolar os haviam forçado à aprendizagem do francês em detrimento do inglês, afastando-os aparentemente de uma vida profissional com boas expectativas.

                      Nesse artigo, Rossillon sublinha a necessidade de elaborar um padrão de resposta a este estado de coisas, assegurando a força de outras opções. O seu ponto de vista, favorável a um retorno do protagonismo das línguas novilatinas, merece a atenção desde logo porque exclui, o que me parece do mais elementar bom senso, qualquer hipótese de revanche do francês (hoje a língua materna de «apenas» 77 milhões de pessoas, contra, por exemplo, os 358 milhões do espanhol e os 170 milhões do português). Depois porque propõe um esforço conjunto das línguas de matriz latina fundado numa tomada de consciência de um perigo partilhado – a larga maioria dos seus falantes podem ver-se forçados, em breve, a comunicarem entre si em… inglês – e na necessidade destas se orientarem, um pouco como o fazem já os países escandinavos, para uma reciprocidade nos domínios linguístico e cultural indispensável para a sua sobrevivência neste território de batalha. E, por fim, porque entende que o seu papel neste combate implica uma mobilidade, uma modernização e um esforço de aproximação capazes de fundarem uma verdadeira alternativa à fluidez pragmática do inglês. Língua que conta com 322 milhões de native speakers mas é falada, em larga medida devido à posição hegemónica da cultura americana e à sua adaptação à inovação tecnológica, por pelo menos 530 milhões de seres humanos.

                      Adenda: ler também este post de Joana Lopes

                        Apontamentos, Atualidade, Olhares

                        Eles já chegaram

                        russians.jpg

                        Vêm aí os Russos! (The Russians Are Coming, The Russians Are Coming, realizado por Norman Jewison e estreado em 1966) foi um dos produtos fílmicos da Guerra Fria mais divulgados no mundo ocidental há cerca de quarenta anos atrás. Em registo de paródia, ele partia da presunção, então espalhada no ocidente, de um carácter insuportavelmente maléfico de qualquer cidadão soviético vivo e das acções do governo que lhes orientava os passos. Ainda que, no filme, o pavor dos habitantes do Massachusetts que inesperadamente viram chegar os marinheiros russos fosse desproporcionado em relação às suas intenções não-agressivas. Tenho a impressão de voltar a sentir alguns dos fumos desse tempo de medos quando vejo, oiço e leio algumas das notícias sobre os exercícios militares navais que, neste momento, a marinha de guerra russa realiza nas águas do Mediterrâneo e do Atlântico.

                          Atualidade, História, Memória

                          Habash

                          Poucos repararam na morte recente de George Habash. Mas foi ele o fundador e, ao longo de décadas, o dirigente máximo da Frente Popular para a Libertação da Palestina, a facção radical – para a época, naturalmente – que ao longo da década de 1970 materializou, dentro da OLP, uma oposição relativamente leal à direcção moderada de Yasser Arafat. Manteve-se, durante anos, como o rosto visível de uma linha de inspiração marxista que chegou a deter uma razoável capacidade de manobra no mundo árabe. E também algum capital de simpatia entre a esquerda e a extrema-esquerda do Ocidente (incluindo-se nesta parte da portuguesa). Em 1967, quando Habash fundou a FPLP, o «socialismo árabe», tendencialmente laico, vector de um pan-arabismo preocupado com a injustiça social, parecia ainda ser uma alternativa próxima e possível. E o «radicalismo» da FPLP não o excluía. Por muito que possa custar hoje admiti-lo, a falência dessa versão arabizada e cheia de cambiantes da utopia socialista abriu caminho, como recordou Samir Kassir, à afirmação dos grupos religiosos intransigentes que dominam actualmente boa parte do Islão. E que asseguraram já uma regressão cultural e social iniludível. Provavelmente as democracias ocidentais deveriam ter considerado de uma forma menos timorata e agressiva o programa político desse «socialismo».

                            Atualidade, História

                            Por exemplo

                            schmidtcoki.jpg

                            O ex-chanceler social-democrata alemão Helmut Schmidt, de 89 anos, e a sua mulher Loki, de 88, foram ambos processados por autoridades policiais de Hamburgo após terem sido denunciados por uma organização de vigilância e pressão de não-fumadores – sim, parece que na Alemanha já há disto – que os acusa de terem fumado durante um acto público num teatro da cidade. De acordo com o El País, Schmidt foi operado por duas vezes devido a problemas cardíacos mas fuma sem parar cigarros mentolados e gaba-se mesmo de o fazer como um acto de desobediência civil e expressão da sua própria liberdade («eu só não fumo na igreja», declarou há dias). Loki Schmidt é um pouco mais diplomática e objectiva: «os médicos aconselham-nos a não deixar de fumar pois isso provocaria uma situação de stress para o nosso corpo».

                              Atualidade, Olhares

                              Coimbra pelo direito à cultura

                              coimbra1.jpg

                              Esta semana foi divulgado publicamente um documento assinado por um amplo grupo de cidadãos de Coimbra com responsabilidades e com actividade na área de cultura, destinado – esgotadas que parecem estar todas as possibilidades de um diálogo construtivo e razoável com os responsáveis autárquicos – a chamar a atenção para o estado trágico e calamitoso em que se encontra a política cultural municipal. Nada melhor, para se entender o sentido do documento, do que segui-lo de perto: «Coimbra é hoje uma cidade amarfanhada do ponto de vista cultural, que só não se tornou absolutamente insignificante a nível nacional graças à actividade que, no limiar da sobrevivência, os poucos agentes culturais que ainda restam conseguem ir desenvolvendo. A Câmara Municipal já não se limita a não apoiar devidamente a actividade cultural que aqui é feita; assume-se, pelo contrário, como um elemento dificultador e tendencialmente destruidor do potencial de criação artística que a cidade possui e que é uma das suas principais mais-valias.»

                              Quem vive em Coimbra ou conhece bem a cidade tal qual ela é hoje, e tem uma noção actualizada e democrática do que pode e de qual deve ser o lugar dos executivos municipais na dinamização e na modernização cultural, sabe bem do que se fala quando se desenha um panorama funesto daquilo que a este nível ali (aqui) se tem vindo a passar. O que é tanto mais grave quanto se sabe que a «cidade dos estudantes» é principalmente habitada por quadros de formação universitária, bem como por uma classe média e por uma população juvenil bastante numerosas, que possuem expectativas culturais, de uma natureza urbana e crescentemente globalizada, totalmente incompatíveis com a dimensão popularucha e kitsch que neste domínio a gestão camarária tem assumido. Voltada quase exclusivamente para um público semi-rural, adepto de um certo «folclorismo» passadista e minoritário já em termos demográficos, a Câmara de Coimbra nem sequer parece aperceber-se da forma como essa atitude cria um mal-estar que prejudica a sua própria imagem. No presente e para o futuro. É importante – e urgente – contrariar este estado de coisas.

                              Este manifesto público de preocupação e protesto pode ser lido na íntegra no blogue Amigos da Cultura. Onde é possível também saber quem o subscreveu e juntar-lhe novas assinaturas. E acompanhar o debate agora aberto.

                                Atualidade, Coimbra, Olhares

                                Revolução de veludo

                                Uma das conclusões pode surpreender-nos. A outra não.

                                «Os professores são os profissionais em quem os portugueses mais confiam e também aqueles a quem confiariam mais poder no país, segundo uma sondagem mundial efectuada pela Gallup para o Fórum Económico Mundial. Os professores merecem a confiança de 42 por cento dos portugueses, muito acima dos 24 por cento que confiam nos líderes militares e da polícia, dos 20 por cento que dão a sua confiança aos jornalistas e dos 18 por cento que acreditam nos líderes religiosos. Os políticos são os que menos têm a confiança dos portugueses, com apenas 7 por cento a dizerem que confiam nesta classe.»
                                Público, 25/1/2008 [os sublinhados são meus]

                                  Atualidade, Recortes

                                  O tabu do incenso

                                  incenso

                                  Na sequência do oportuno reparo de João Tunes sobre alguns problemas ambientais que deveriam preocupar seriamente o nosso zeloso e apostólico Director-Geral da Saúde – e também os mais corajosos e consequentes dos deputados da nação –, uma chamada de atenção para a actividade nefasta do incenso. Essa agressiva substância aromática, supostamente purificadora, que tantos católicos praticantes ou simples turistas são forçados a respirar passivamente nas mais diversas ocasiões litúrgicas e que o insuspeito Catholic News considera manifestamente perigosa para a higiene pública ou, pelo menos, para a saúde dos fiéis. Mais detalhes aqui.

                                    Atualidade, Etc.

                                    «Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena»

                                    «Para mim, todos os justos, bem como todos os heróis, só em França se produziam na perfeição, como os espargos». A asserção de Eça terá sido produzida por volta de 1887, mas oitenta anos e várias gerações depois era ainda a partir das coordenadas da França, e em língua francesa, que muitos portugueses de leituras – dos que se não ajustavam ao «doce viver habitualmente» apetecido pelo eminente saloio do Vimieiro – olhavam o mundo e as suas mutações. É provável até que eu próprio pertença à última geração que aprendeu a dizer táble muito antes de saber pronunciar têible, mas cá me fui adaptando, embora de vez em quando possa deixar fugir le pied pour le chausson. Um pouco como aconteceu com o «Ministro do deserto» e esse repentino jamais que os jornais – onde proliferam licenciados em jornalismo que «não fazem a mínima» sobre quem foi Émile Zola ou Jean-Paul Sartre – verteram sem problema algum para jamé. Apesar de não ser de aceitar a condescendência das chefias de redacção com tal coup de pied no dicionário, temos de admitir que o episódio não passa de um pequeníssimo sintoma do trambolhão da língua e da cultura francesas que se tornou irreversível a partir dos anos 80. E não há Sarkozy, com elas ou sem elas, que lhe possa dar a volta. Quel dommage!

                                      Atualidade, Memória