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Sem blogues

Não sei quantas pessoas lerão por dia os blogues portugueses de opinião e ideias, mas aceitando que uma boa parte delas segue diariamente sete ou oito, o seu número ascenderá, sem dúvida, a muitos milhares. Dez mil? Vinte mil? Mais ainda? Julgo que ainda ninguém conseguiu fazer tal contabilidade, nem sequer no âmbito daquele padrão de inquérito sociológico que depois permitirá diversas extrapolações. Mas serão muitas pessoas, muitas mesmo, sempre bem mais do que aquelas que lêem alguns jornais de âmbito nacional. Na comparação com estes é ainda necessário ter em conta que aqueles que acompanham certos blogues os lêem na quase totalidade, enquanto os leitores de jornais se centram neste ou naquele texto.

Parece-me pois deslocada uma frase de Miguel Sousa Tavares, usada na crónica que saiu hoje no Expresso, segundo a qual «sinal dos tempos e do país em que nos estamos a tornar, a morte de Alexander Soljenitsine não ocupou mais do que um curto obituário, preenchido com banalidades, mesmo nos jornais ditos “de referência”». Se passasse uma vista de olhos pela blogosfera, o conhecido colunista e escritor de sucesso teria percebido como a vida e a obra de Soljenitsine nela foram destacados e até debatidos. A vaga de alusões, de leituras e de informações que emerge dos blogues, independentemente da sua dimensão e valia, é, aliás, indicador de uma atenção por temas de interesse mais ou menos público que passa por um universo de comunicação que Sousa Tavares, com toda a legitimidade e talvez algumas boas razões, insiste deliberadamente em ignorar. Problema seu, naturalmente.

    Apontamentos, Atualidade, Opinião

    Na morte de Soljenitsine

    Bem sei que cada um de nós se olha a si próprio de uma forma diferente daquela que os outros usam para vê-lo, mas «tenho para mim», como se diz na Beira profunda, que foram obras como os romances Um Dia na Vida de Ivan Denisovich (1962) e O Pavilhão dos Cancerosos (1968), ou ainda os grossos volumes-libelo do Arquipélago Gulag (1973-78), que independentemente do seu valor literário me fizeram evoluir politicamente e me transformaram numa pessoa talvez um pouco melhor. Por isso as tenho conservado na biblioteca à distância de um olhar. E também por isso sou incapaz de receber a notícia da morte de Alexander Soljenitsine sem a sentir de alguma forma como uma perda. Pessoal e colectiva.

    P.S.: Uma adenda ao excelente post do Luís Januário sobre Soljenitsine: o Arquipélago de Gulag (com este título) foi publicado em Portugal, em dois grossos volumes editados pela Bertrand. No ano, pouco propício para o efeito, de 1975 (o 2º tomo em 1977). Na altura foram apontados, obviamente, como mais uma «manobra da CIA». Tenho-os aqui, mas foram adquiridos mais tarde, quando já tinha percebido que afinal não fora a CIA a inventar todo o mal do mundo. E muito menos a criar a «Administração Geral dos Campos».

    P.S. (2): Veja-se também a posição de Carlos Brito, que levanta aspectos para mim até agora desconhecidos e que não podem ser omitidos. Embora me pareça que devam ser avaliados considerando as circunstâncias da vida de Soljenitsine e a intensa manipulação das suas palavras e acções que ocorreram em meados da década de 1970.

      Atualidade, História

      Adeus, Príncipe Valente

      O meu á-bê-cê foi o Diário de Notícias, mas lá em casa lia-se também A Bola, o Mundo Desportivo, a Vida Rural, e o portuense O Primeiro de Janeiro, que era o jornal favorito do meu avô e ao domingo incluía um divertido suplemento pelo qual eu esperava sempre com alguma impaciência. A memória que dele guardo é a de um caderno que trazia consigo preciosidades para um rapaz de província, como histórias policiais, charadas, quebra-cabeças, anedotas, curiosidades, e a imprescindível banda desenhada, onde sobressaíam Os Filhos do Capitão Grant, série concebida a partir da obra de Júlio Verne, e, mais para as raparigas que procuravam um universo de teenagers que Portugal ainda não conhecia, O Coração de Julieta. Mas o melhor de tudo eram os quadradinhos a cores de O Príncipe Valente, de Harold R. Foster, surgidos no jornal em 1959 (embora lançados em 1948 nas páginas d’O Mosquito), e que foram, provavelmente, os responsáveis primordiais pelo meu gosto pela história, ali revelada sedutora na dimensão mítica e romanesca de uma Idade Média de papel.

      Publicado desde 1868 como jornal da burguesia liberal que se opunha ao lançamento do imposto sobre o consumo e havia participado no movimento da Janeirinha, quando o conheci o PJ era já um tanto conservador nos conteúdos e no grafismo, mas permanecia ainda muito popular. «O Janeiro» evidenciou porém, nos últimos anos, uma decadência visível, com alterações gráficas e de conteúdo que visaram provavelmente assegurar-lhe a sobrevivência mas que o foram descaracterizando e o afastaram do seu público original. A actual administração acaba de suspender a sua publicação, despedindo 32 jornalistas e prometendo «uma nova imagem» que não se sabe com quem vai ser construída (embora se saiba que os método utilizados não pressagiam nada de bom). Apenas podemos ficar certos de que jamais regressará o diário de referência que manteve durante gerações um público atento e fiel. Como aquele que vibrou semanalmente com as aventuras únicas do Príncipe Valente.

      Adenda a 04.Ago.2008: De acordo com o Expresso online, o novo O Primeiro de Janeiro está a ser redigido pelos jornalistas de O Norte Desportivo, caderno desportivo que integrava o centenário jornal portuense.» Rui Alas, o novo director do Janeiro e antigo director do Norte Desportivo, esclareceu que «apenas soube que iria ser responsável pelo novo projecto no passado sábado e que a equipa tomou domingo conhecimento disso».

        Atualidade, Memória

        O «nosso Magalhães»

        Já aqui ficou demonstrado, com o apoio de instrutivos links, como a originalidade da ideia do governo Sócrates de co-financiar a produção do Magalhães, um «computador português» de baixo custo destinado aos alunos do ensino básico, é em certa medida uma fraude. Trata-se de colocar uma vez mais o carro à frente dos bois, pois o governo não tem investido o suficiente no apoio prioritário à introdução dos conteúdos na rede e no desenvolvimento das capacidades informáticas dos professores – a maioria pouco mais continua a saber fazer que servir-se primariamente do Word ou do Powerpoint e utilizar de forma quase sempre passiva o browser –, fornecendo assim o martelo sem dar os pregos. Mas constitui também um gesto de mau gosto, espera-se que não de mau agouro, organizar uma homenagem em vida ao secretário de Estado (e ex-«deputado informata») José Magalhães.

          Atualidade, Devaneios

          Incoincidências

          Não se trata de uma juíza qualquer. Ana Gabriela Freitas, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Felgueiras, que acaba de tecer considerações onde utiliza qualificativos de carácter abertamente racista aplicados aos ciganos – os quais alega serem inapelavelmente «marginais e traiçoeiros» – é a mesmíssima magistrada que em 2005 mandou Fátima Felgueiras, recém-fugida a prisão e julgamento, aguardar o curso da justiça em liberdade. Por apenas «alegadamente» haver estado refugiada no Brasil, sendo a sua conhecida fuga coisa «aparente». Sorte a da Dona Fátima por não pertencer a essa mesma etnia que a dra. Gabriela considera levar uma vida sistematicamente «pouco edificante».

          [sobre o problema cigano, ver Errantes e extravagantes]

            Apontamentos, Atualidade, Democracia

            Vergonha global

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            O governo chinês prometeu aquilo que todos sabíamos que jamais iria cumprir. Os honoráveis Comités Olímpicos fingiram que acreditaram. Os governos democráticos fizeram de conta que não era com eles. Os partidos políticos não consideraram o assunto uma prioridade. A Amnistia Internacional e outras organizações não-governamentais têm sublinhado a constante violação dos direitos humanos na China, mas a sua voz raramente passa das páginas interiores, dos suplementos de faits-divers, das entrelinhas do teletexto.

              Atualidade, Democracia, Opinião

              We love Beijing

              Incomodam-me os activistas de uma causa só. Os que apenas observam o seu ângulo do mundo, o seu estrito móbil, a sua obsessão, distraindo-se de tudo o resto. «Save the whales» e que se lixe o próximo. Muitas organizações ecologistas partilham dessa atitude, e por isso, apesar da importância de alguns dos seus motivos, as olho quase sempre com desconfiança. Já passou muito tempo, bem sei, mas não esqueço como algumas delas se aproximaram, durante a República de Weimar, do nacional-socialismo. Ou como para muitas não existe política fora das questões ambientais. O movimento Greenpeace elogia agora o empenhamento das autoridades chinesas em fazer da sua capital um bilhete-postal, um cartão de visita, um primor: «O que é particularmente singular nestes Jogos Olímpicos é que vão deixar um legado ambiental importante na cidade de Pequim em áreas como os transportes, infra-estruturas, energias renováveis, gestão da água e resíduos.» Uma cidade histórica mas moderna, assombrosa, com amplas avenidas e muito clean. Desejável, mais verde e cheia de brisas favoráveis aos passantes. Bem limpa de ratos, de mendigos e de discrepantes.

                Atualidade, Democracia, Olhares

                O programa dos ínfimos

                O louco da aldeia representa sempre um duplo papel: funciona como divertimento daqueles que são incapazes de escapar às rígidas normas da vida comunitária e descodifica a realidade através de metáforas inusitadas e enigmáticas. Aquilo que diz raramente faz sentido, mas é sempre escutado. São esses os sinais da diferença que o tornam ao mesmo tempo relevante e rejeitado. Suspeito que em sociedades mais complexas ele possa perder a importância primordial, dada a proliferação de códigos e de vozes. Porém, quando vejo na televisão o programa A Liga dos Últimos, perco a certeza de que a sua função originária se tenha tornado descartável.

                A pretexto de uma ideia inicial curiosa – encontrar e mostrar a alma das piores equipas do futebol federado – passou a organizar-se ali uma espécie de vitrina nacional para pessoas dementes, bêbedos incorrigíveis, mulheres subjugadas, idosos senis e pobres diabos. Pessoas sem dinheiro, sem poder, sem instrução, de roupa disforme e dentes invariavelmente estragados, que, de tão contentes por defenderem o clube da sua terra e de por uma vez sem exemplo lhes ser dada voz, se deixam humilhar diante de todos. Uma iniciativa indigna que nos deveria encher a todos de pena e de tristeza. Mas que a estação «pública» passa sem remorso – e com a exibição de um ar de obsceno gozo da parte dos apresentadores – no horário nobre das sextas à noite.

                  Atualidade, Olhares, Opinião

                  Errantes e extravagantes

                  Tal como muitos outros gadje, mais ou menos instruídos e ciosos de exotismo, que até um passado recente recolheram, a ocidente, a tradição iluminista de deferência por quem nos chegava do Levante, partilhei um dia uma certa atracção pela figura, supostamente misteriosa e refractária, do cigano. O retrato de Carmen, a tabaqueira sedutora de Mérimée e de Bizet, como a silhueta da beldade dançante de flamenco, a «linda cigana», reproduzida nos maços de Gitanes que fumei aos milhares ou em quadros decorativos para as paredes da classe média da província, acompanhavam, a par do interesse menos comum por algumas das Rapsódias Húngaras de Liszt ou pela guitarra de Django Reinhardt tocando Les Yeux Noirs, a atracção quase atávica por esse universo paralelo que imaginava livre e feliz. E fazia esquecer o rasto de pobreza, fedor, lixo e desolação deixado pela maioria dos ciganos que conhecia.

                  Talvez seja nessa romantização orientalista e partilhada da figura do cigano, ou da sua cultura própria – associada a uma absolutização dos valores da solidariedade para com os humilhados e os diferentes -, que reside a origem de um certo desinteresse de alguns dos defensores do Estado social pelos destinos das comunidades romani. Em Portugal, muito mais que em Espanha ou em França, onde uma presença e uma tradição cultural afirmativa empurraram as populações nómadas, ou recém-sedentarizadas, para outro patamar de visibilidade social, essa idealização e essa displicência conduziram a uma situação dramática. Saber, seguindo os dados publicados no Expresso, que, entre os cerca de 50 milhares de ciganos portugueses apenas existem 4 licenciados, e que 35.000 deles recebem o Rendimento Social de Inserção (o que não impede uma parte significativa de se dedicar à mendicidade), não pode deixar-nos apenas atónitos: deve deixar-nos também tristes pelo espectáculo de miséria humana que apenas os focos mediatizados de exclusão, de racismo ou de violência, e os relatórios da PSP e da GNR, tornam visível. E não nos venham dizer que é lá com eles e com a sua cultura extravagante, resistente e persistentemente «admirável». É preciso fazer mais, muito mais. De um modo fraterno mas também com firmeza. Ouvindo e falando.

                  P.S. em 28.Jul.2008 – Se as afirmações de um dos fundadores da União Romani Portuguesa e do coordenador do gabinete de apoio às comunidades ciganas junto do Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural, transcritas hoje pelo Público, captam a essência das suas declarações ao jornal, estamos perante um bom exemplo de atitudes que mostram uma preferência por conhecer ou compreender a «admirável» diferença, ou mesmo por atribuir apenas a um dos lados a culpa da «guetização», em vez de promoverem condições para uma afirmação conjugada da integração, da afirmação identitária e da valorização desta minoria no âmbito da nossa vida colectiva.

                    Atualidade, Opinião

                    A ignição iraniana

                    Se bem que a sua sombra assome ainda em algumas evocações, a Guerra Fria terminou com a liquidação da União Soviética. Não pode dizer-se, porém, que o mundo que lhe sucedeu seja mais seguro do que aquele que lhe serviu de cenário, e prova disso é que um dos espectros que alimentou – o de uma guerra nuclear causadora do Armagedão – continua presente. Tal como há trinta ou quarenta anos atrás, a fonte do perigo reside menos na capacidade do armamento do que nas mãos de quem dele se possa servir.

                    A verdade é que as armas de destruição maciça incorporam um perigo potencial que advém, em primeiro lugar, do facto de a sua gestão ser de natureza humana e, nessa condição, de o seu uso jamais poder ser inteiramente previsível. Só que existem imprevisíveis menos imprevisíveis que outros, e colocar em idêntico plano a posse de armas nucleares pelos Estados Unidos e por Israel, ou mesmo pela China, com aquela que ocorre em países instáveis, como o Paquistão, ou que se encontra nas mãos de fanáticos como o são muitos dos dirigentes iranianos, tal como António Vilarigues deixa hoje implícito no Público, é pura demagogia.

                    Para relativizar o perigo iraniano, assevera mesmo AV que algumas dessas armas se encontram igualmente nas mãos deu um Estado, Israel, «que se reclama de origem divina». Como se a identidade cultural e religiosa do Estado hebraico – não falo, naturalmente, dos grupos de extremistas judaicos que também o habitam – possa ser comparável à do Irão, onde o recuo civilizacional imposto por uma leitura literal do Corão se tem traduzido numa presença no poder de sectores que associam a prática política à dimensão, primordialmente religiosa e penitencial, da vida terrena. Todos sabemos como os falcões americanos ou israelitas não são propriamente meninos de coro, mas a verdade é que eles movem-se no interior de regimes democráticos, sob um razoável controlo da opinião pública e da comunidade internacional: torná-los piores que os iranianos é puro dislate. AV recupera também, pela enésima vez, os exemplos abomináveis de Hiroshima e de Nagasaki, mas qualquer pessoa sensata concordará que evocá-los como molas percutoras da actual política internacional americana é tão anacrónico como servir-se do Pacto Gernano-Soviético de 1939 para atacar a linha política dos actuais partidos comunistas.

                    Em Persepolis, a perturbante banda desenhada autobiográfica entretanto transformada em filme de animação, Marjane Satrapi fala-nos desse universo no qual a razão de Estado e os direitos das pessoas comuns (ali principalmente os das mulheres) se encontram submetidos à voracidade dos impulsos motivados por uma moral redentora cuja essência está para além do humano. O slideshow que aqui se apresenta permite-nos também revisitar parte desse universo tão próximo. É nas mãos de gente que admite, estimula ou legitima a violência extrema que este «normaliza» que pode estar, ou que pode vir a estar, a capacidade de manipulação de armamento nuclear. Colocar esta situação ao mesmo nível, ou a um nível menos ruinoso, daquele que pode ser associado a outros países que o utilizam hoje «apenas» como instrumento de dissuasão ou de chantagem – ou, pior, conferir-lhe uma dimensão emancipatória (embora não seja esta, sublinho, a posição de AV) –, só não é uma atitude de cegueira porque se funda numa linha política cujo suporte ético transforma sistematicamente em amigo, ou pelo menos em aliado, o inimigo do inimigo. Ainda que este possa encarnar o Mal na sua formulação mais absoluta e manifesta. Que importa isso perante a possibilidade de dar um bom puxão de orelhas aos bastardos do Império?

                    Clique nos botões para mover o slideshow.
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                      Atualidade, Opinião

                      Disfarce quase perfeito

                      Existe um website do Dr. Dragan Dabic. E também uma biografia. Um disfarce fora do comum, sem dúvida, que permitiu a Karadzic – para quem, na pele de Dabic, «por trás de cada homem capaz existe sempre outro homem capaz» – construir uma nova vida pública e quase fazer esquecer a primeira. Quase.

                        Apontamentos, Atualidade

                        A espectacularização do banal

                        O regresso aos ecrãs da televisão do «caso Maddie», suscitado pelo arquivamento do inquérito que foi anunciado pela Procuradoria-Geral da República, trouxe também de volta às nossas casas um certo jornalismo de escoadouro – as cansativas reportagens realizadas em Inglaterra pela RTP1 constituem um deplorável exemplo – ocupado em provocar desconfianças, em suscitar animosidades, em exacerbar irrelevâncias e sobretudo em reanimar junto do espectador um interesse diluído pelo efeito de banalização que ele mesmo despoletou.

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                          Mais vale tarde

                          A captura de Radovan Karadzic, infelizmente tardia, leva-me a conceber o duro labor do cabeleireiro que trabalha para os calabouços do Tribunal Penal Internacional, com sede na Haia. O ex-general Ratko Mladic exigirá, espera-se, bem menos esforço daquele profissional.

                          Mudando de registo: esta gente não merece o respeito que o TPI lhe irá inevitavelmente garantir. Sarajevo e Srebrenica existiram, os seus executores também. Perdoar nestes casos é impossível, pois eles não perdoaram.

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                            Depois de Alcácer-Quibir

                            «O único lado» ao qual o novo partido Movimento Mérito e Sociedade aceita pertencer «é ao lado da frente». Para lá chegarmos será necessária uma força, esta, a única realmente capaz de dirigir «a estratégia e a política de desenvolvimento» em condições de «resolver de forma sensata os aspectos negativos da nossa organização social, política e económica». Claro que o MMS não é de esquerda, direita ou centro, uma vez que «esses são conceitos que já não se aplicam a uma sociedade contemporânea», pois «tiveram o seu papel na história mas estão ultrapassados». No essencial, é preciso levar o mérito ao poder, pois o seu reconhecimento «constitui um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade». Este permitirá maximizar «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses», que afinal até dispõem da maior zona económica marítima da Europa como «princípio activo». Ora aqui estão a mensagem e o discurso mobilizador dos quais andávamos há tanto tempo à espera. Falta agora levá-los «a todas as famílias e a todas as casas». Passando à frente dos missionários da Bíblia, dos angariadores do Citibank e dos adeptos irredutíveis do SMS.

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                              Potemkine

                              Couraçado Potemkine, de Sergei Eisenstein, foi, provavelmente, um dos filmes que mais vezes vi. Todas elas, salvo uma, na época em que «ir ver o Potemkine», em sessões privadas e com legendas invariavelmente em francês, representava, mais que um momento de amor pelo cinema, um pequeno gesto de ousadia (porventura mais imaginada do que real) e de aprendizagem de militância. Dele emergia, em cada uma daquelas salas escuras, apinhadas de jovens sentados no chão que se esforçavam por ignorar o ruído incomodativo do projector, a apreensão de um modelo de heroísmo revolucionário e daquele que poderia, em parte, ser um dia o seu próprio destino. E também o reconhecimento da génese de uma salvífica e exemplar Revolução (assim mesmo, com um R maiúsculo). A de Outubro, naturalmente.

                              Originalmente o filme deveria constituir apenas um de seis episódios de um projecto mais abrangente, o qual, todavia, jamais foi terminado. De acordo com Manuel Cintra Ferreira, «o que devia ser um amplo fresco do ano revolucionário de 1905 transformou-se ali na narrativa de um único acontecimento, e mesmo um dos menos significativos que, pela força das imagens novas criadas por Eisenstein, se tornou o símbolo da revolução, e uma sequência imaginada pelo realizador, o massacre na escadaria, o episódio central da narrativa.» Hoje mesmo, na colecção «Grandes Realizadores», o Público oferece a versão restaurada desta obra-prima de Eisenstein, realizada em 1925. Poderemos revê-la agora, essencialmente, como objecto plástico e como documento histórico. Não enquanto reconstituição de um episódio – que o não é, pois incorpora numerosas fantasias -, mas como peça importante na edificação da estrutura mítica do ideal comunista. E como módulo utilizado na fundamentação de uma experiência que cumpriu a sua missão histórica. Para alguns, todavia, as suas imagens permanecem como parte constitutiva do seu próprio crisol de convicções. Também por isso elas continuam presentes.

                              Jean Ferrat – Potemkine

                              PS – Sobre a Revolução de Outubro vejam-se aqui alguns textos publicados neste blogue. Todos eles pertencem a uma série que ainda não se encontra concluída.

                                Atualidade, Memória