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Michael, Michael Palin.
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«In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?»
–William Blake, The Tyger
Awakened from her slumber
she knew something had gone–
a drowsy innocence,
a complacent naitivity…
suddenly, in rude simplicity,
gone.
Shut against the world,
thousands of deaths evade her eyes;
their blood her own
spilled by her own–
an indifference.
Their blood her own,
in thousands (neither more nor less)
suddenly, in rude simplicity,
gone–
And now,
some how,
a difference.
Um poema de Julie Craig

A notícia chegou e partiu como todas as outras, mas deixou um rasto de repulsa que merece ser partilhado. Saber pelos jornais que existe um número impressionante de famílias portuguesas que se estão a endividar pesadamente para comprarem aos filhos manuais escolares necessários para a sua integração – repare-se bem – no ensino escolar obrigatório, e que existem mesmo livrarias que criaram linhas de crédito para esse efeito, é algo que não pode ficar em claro e merece uma atenção muito séria das pessoas comuns. Não quero saber se existem outros «países avançados» que o fazem, ou se isto funciona como uma mola para a sacrossanta «modernização do ensino». Sei apenas que é uma situação imoral e caracterizada pela insensibilidade, a qual, num país marcado ainda por áreas de pobreza endémica e pela debilidade da classe média, deixa uma vez mais cair a responsabilidade social do Estado. E deveria envergonhar, envergonhar a sério, os responsáveis por um governo com o carimbo virtual de «socialista».

Não é argumento que integre uma qualquer teoria da conspiração. É sabido como, na lógica do «quanto pior, melhor» que presidiu quase sempre ao relacionamento entre as principais potências mundiais durante a Guerra Fria, a União Soviética se relacionou muito melhor com os republicanos americanos (Nixon ou Reagan, por exemplo) do que com os democratas (Kennedy ou Johnson). Uma posição mais maleável da parte do Ocidente teria sempre, como inevitável corolário, uma diminuição do papel de contrapeso que os soviéticos então detinham no mundo. E não havia necessidade. Mutatis mutandis, há qualquer coisa nisto que evoca a forma como o actual governo da Rússia afronta neste momento pré-eleitoral a América, beneficiando, de uma forma óbvia, aqueles que dentro desta defendem mais abertamente uma política de agressão e de intransigência. Os republicanos, pois claro.

«Se o inimigo deixa uma porta aberta, devemos precipitar-nos sobre ela», escreveu Sun Tzu. Como escreveu também: «Aquele que prepara a vitória sobre os seus inimigos triunfa antes que as ameaças destes se concretizem». Anotar analogias entre certas proposições de A Arte da Guerra e alguns dos princípios da boa gestão empresarial é coisa que entrou já no domínio da trivialidade. O que terá sido meio caminho para a sua inclusão, em listas de livros recomendados por certas revistas femininas, como a prenda ideal para o marido ou o namorado que se deseja homem de sucesso. Ainda assim, não deixa de me parecer um tanto extravagante a inserção deste título, numa loja da FNAC, na secção «Apoio a Gestores». Embora admita que sendo esta uma das leituras favoritas de Tony Soprano alguma razão assista a quem tomou a decisão.
Sei que tem sido recorrente a referência neste blogue a certos padrões de arrumação seguidos em muitas livrarias. Pode parecer um capricho. Mas a razão desta preocupação é bem simples: ela não me parece derivar apenas da insciência das pessoas que gerem as lojas ou da distracção de alguns dos seus empregados, mas antes resultar de uma transferência deliberada dos critérios da disposição dos títulos dos livros dos seus conteúdos para aquela que será a «imagem social» dos mesmos. Aliás, também já dei por livros deslocados da sua secção natural por força da concepção da capa.
Um episódio suplementar. Pelos inícios de 1976 estava à boleia numa das saídas do Porto, a caminho do sul, quando parou um carro de elevada cilindrada dirigido por um cavalheiro que se ofereceu para me levar e que durante a viagem se apresentou como «empresário da indústria do algodão». A revolução tinha chegado ao fim e, apesar da «democrática» boleia a desconhecidos ainda ter subsistido por mais alguns anos, pessoas como aquela podiam já dar largas ao ódio mortal por «esses comunas de m…» que tinham «dado cabo disto tudo». Foi esse o padrão de conversa que tive de aturar. No banco de trás do automóvel, um livro que o cidadão ia começar a ler e, segundo dizia, esperava pudesse ser para ele de grande utilidade: Como Iludir o Povo, de Lenine, numa edição da Centelha (da qual, por acaso, conservo um exemplar).

O antiamericanismo congénito, como o anticomunismo primário, padecem de uma sintomatologia análoga: ambos se mostram expeditos a ripostar ao adversário quando o reconhecem sem margem para erro, mas têm grande dificuldade em reagir quando entre «bons» e «maus» se interpõe um discurso autónomo e complexo, que escapa aos lugares-comuns e à lógica maniqueísta que alimenta a falta de lucidez. Assim vejo – concordando no essencial com aquilo que, ontem no Público, escreveu Rui Tavares – o escorregar estonteado da parte da esquerda que diz que sim à óbvia diferença de Barak Obama e diz que não a conceder-lhe o benefício da dúvida. Com todas as reservas que deveremos manter em relação aos compromissos do candidato democrata e à lógica do sistema político americano, não duvido que estamos perante algo de substancialmente novo. Que não pode ser lido com os óculos do costume.

O Movimento Mérito e Sociedade, esse que «não é de esquerda, direita ou centro» e se pretende constituir como «um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade», acaba de propor medidas para combater a actual vaga de criminalidade que um conhecido penalista julga «inconstitucionais» e «bárbaras». Entre outras sugestões fáceis e demagógicas – como a de definir mecanismos processuais onde a vítima tenha uma palavra a dizer sobre a pena a aplicar ao arguido –, considera que as armas de fogo «não devem ser tabu na nossa sociedade» e precisam ser usadas pela polícia com maior frequência. Presumo que a valorização do mérito individual dos agentes da PSP passe, pois, por exercícios regulares de tiros ao alvo com fogo real. E que o MMS possa entender estas propostas como essencialmente técnicas e desprovidas de qualquer carga política, capazes de estimularem aquele que considera ser «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses». Um tiro para o ar e outro no pé, para começar.

Também eu um dia admirei Louis Antoine de Saint-Just (1767-94). Da Grande Revolução, pouco sabia. Mas entendia, das revoluções modernas, o suficiente para me manter convicto de que elas só poderiam vingar enquanto permanecessem nas mãos dos obstinados e dos que não cedem à compaixão. Aqueles para quem os princípios e os objectivos que norteiam a acção se destinam a impedir todo o retrocesso que não favoreça um novo assalto às posições do inimigo. Para quem, quando se combate pelo poder, apenas existe a vitória total ou a mais peremptória derrota: «Esse homem deve reinar ou morrer», proclamou o filho do capitão de cavalaria de Niévre quando votou na Convenção a favor da execução de Luís XVI, pois aquilo que constitui uma República «é a destruição total do que se lhe opõe».
Além do mais, Saint-Just era jovem e eloquente, lendariamente belo e teatral, e um exaltado, o que só poderia reforçar a cintilação que exibiu, apenas em dois anos de vida pública, numa época pouco propícia à segurança, à moderação e à prevalência dos valores do passado. E prometia um mundo novo, no qual o poder pudesse ser exercido pelo povo, os magistrados fossem desprovidos de orgulho, os cidadãos vivessem sem vícios, a fraternidade prevalecesse nos relacionamentos, o culto da virtude fosse um princípio, a simplicidade dos modos e a austeridade de carácter pautassem a vida social. O caminho para tal utopia seria, na sua opinião, aberto pelo Terror. Pelo apagamento violento e sem piedade daqueles que a entravavam.
Combatido pelos sectores moderados e traído por muito dos seus, morreu aos vinte e seis anos, sem direito a julgamento, na guilhotina que ajudara a erguer. Tendo, ao que dizem, ou seguindo a lenda, sido o único do grupo preso na manhã de 10 do Termidor a avançar sereno, a passo firme e em completo silêncio, para o cadafalso que o esperava.
Afirma-se que Danton terá dito certa vez, a seu respeito, não gostar nada «daquele extravagante» que pretendia implantar em França «uma República de Esparta» quando era de «uma República da Cocanha» que os franceses precisavam. O «anjo da Revolução», ou «da morte», ainda sobreviveu praticamente três meses a Danton, mas o combate entre os que se batem, na evidência de um indeclinável pathos, por arquétipos que situam acima do indivíduo e no campo das paixões, e aqueles outros que longe de quaisquer perigos, apelando a um previsível e racional logos, apenas preferem navegar por calmos rios de vinho e de leite, sobreviveu-lhes. Continua a ser ciclicamente renovado, ciclicamente alimentado. Jamais se entenderão, uns e outros. Jamais desaparecerão também.

Os Jogos de Pequim fecharam e, antes ainda dos balanços, é hora de repousar das emoções. A cerimónia de abertura trouxe um instante de frescura a contrastar com os últimos discursos dos engravatados e hirtos «poupas altas»(*): a entrada no relvado do gigantesco Ninho de Pássaro de Boris Johnson, o mayor conservador de Londres – conservador, repare-se – que se apresentou descontraído, de fato amarrotado e casaco sem os dois primeiros botões apertados(**), para receber com um gesto nada protocolar a bandeira olímpica que a sua cidade sustentará até 2012. Entretanto, na capital britânica, uma multidão preparada mas informal contrastava com as rígidas coreografias que qualquer cidadão atento terá notado terem sido mantidas, mesmo durante as provas, nas bancadas e nas ruas preenchidas com sempre risonhos e embandeirados chineses, que muitas vezes pareciam saber exactamente em que momento iam ser focalizados pelas câmaras. As democracias não são capazes de alardear tal perfeição nas exibições de capacidade de organização e mando, e essa é uma qualidade sua que devemos preservar.
(*) Como eram conhecidos, por parte significativa da população da antiga República Democrática Alemã – e até por agentes menores da STASI -, os altos dignitários do Partido e do Estado. Existia, em diversos edifícios oficiais, um serviço de cabeleireiro destinado a conservar a «rigidez de Estado» das cabeleiras dos dirigentes, ou, se possível, a disfarçar-lhes calvícies precoces. A petite histoire por vezes é muito útil.
(**) JCE ter-se-á revolvido no túmulo.

Terei sido dos primeiros a atirar uma pedra a Marco Fortes, o nosso lançador de peso que, após ter sido eliminado da sua prova olímpica com uma marca muito inferior a outras que já havia obtido, nos falou de como de manhã «está bem é na caminha». Ouvi a frase bem cedo – bem mais tarde em Pequim, como é sabido – enquanto seguia de carro, e pouco depois escrevia um post servindo-me dela. Porque me parecia a cereja no topo do estranho bolo cozinhado com todo um conjunto de desculpas esfarrapadas das quais se serviram diversos atletas portugueses. A frase propagou-se por diversas vias e, por causa dela, Marco viu-se expulso da comitiva, forçado a regressar a Portugal e crucificado por meio mundo.
Só depois disso ouvi entrevistas de Marco Fortes, anteriores e posteriores ao momento da tirada. Li algumas notícias e vi reportagens, percebendo que Marco é uma pessoa de origem humilde, a quem o atletismo tem servido como espaço de valorização social, e que utiliza com frequência o humor e a ironia como forma estar no seu mundo. Aquilo que disse, parece-me agora claro, pode ter sido uma forma de se desculpar, mas foi também uma forma de ironizar consigo próprio. Foi um pouco infeliz? Foi-o, sem dúvida, como o próprio atleta reconheceu pedindo que lhe perdoassem a gaffe. Mas quem nunca pronunciou uma frase infeliz? Peço desculpa a Marco Fortes pela leviandade. Há já três dias que apaguei o referido post e mesmo assim fiquei com alguns remorsos.

Um artigo de opinião que saiu no Público, assinado por Pedro Vaz Patto, desenvolve mais uns quantos parágrafos em apoio da grande cruzada da direita católica contra a legitimação das uniões entre pessoas do mesmo sexo. Não vale a pena perder muito tempo com o essencial da argumentação, uma vez que esta apenas retoma os conhecidos clichés a propósito da impossibilidade, em tais uniões, de se consumar uma preconceituosa «função social do casamento» assente na actividade reprodutora do par. Este raciocínio primário já o ouvimos alto e em bom som pelo menos desde os idos de 1982, dando então lugar à memorável altercação de Natália Correia(*) com o deputado centrista João Morgado.
Mas aquilo que é particularmente grave neste artigo é que o seu autor avança numa direcção menos usual e que é inadmissível na boca de um jurista. Acontece «apenas» que ele deixa implícita, na forma ligeira como se refere ao assunto, a menoridade social e jurídica daquilo a que chama o «casamento de casais estéreis». Na sua cabeça claramente confinado a uns desventurados que devem ser olhados como pessoas incompletas. E deixa obviamente de parte a possibilidade da existência – sabe-se hoje cada vez mais presente na nossa vida colectiva – de uns quantos depravados que não têm filhos por lhes ser impossível educarem de forma estável uma criança ou simplesmente por opção de vida. A desumanidade destas pessoas de credo na boca é apenas brutal.
(*) Lateralmente mas a propósito: que jeito nos dariam hoje uns quantos deputados menos pusilânimes, assim da têmpera da Dona Natália!

Entre 2000 e 2007 fugiram das cadeias portuguesas 502 reclusos. Nada de grave, parece, uma vez que de acordo com a Direcção-Geral dos Serviços Prisionais existe uma «taxa de recaptura» (sic) de 90,6 por cento. Calculo que as verbas e as energias despendidas na referida recaptura, e na demanda dos outros 9,4 por cento dos evadidos, devam ser um tanto superiores àquelas que seriam gastas na melhoria das piores prisões e no reforço da sua segurança. Mas perdia-se por certo uma boa oportunidade para efectuar no terreno treino de corrida e exercícios de fogo real.
De acordo com a edição electrónica do Expresso «um grupo de dança, que devia representar os 56 grupos étnicos da China, era afinal composto apenas por crianças da etnia Han.» Este é já o terceiro «momento» reconhecido como forjado na abertura dos Jogos Olímpicos. «Suponho que eles [as autoridades] pensaram que os miúdos eram mais naturais e simpáticos», notou Yuan Zhifeng, o director delegado do Grupo Artístico Infantil Galaxy, que actuou na cerimónia.

Escrevia Kipling, citado por Bruce Chatwin, que «se virmos bem as coisas, não existem senão duas espécies de homens, aqueles que ficam em casa e os outros.» A invenção do turismo de massas e das férias pagas, seguida da revolução dos transportes e das comunicações, atenuou essa separação entre os que partem e os que preferem a imobilidade ou não conseguem afastá-la do seu horizonte. A partir da década de 1960, com o progresso das condições de vida de parte expressiva da população dos países industrializados, e com o aparecimento de um mercado de destinos turísticos, grupos cada vez mais numerosos de pessoas passaram a deslocar-se periodicamente para longe do seu lugar de residência, procurando outros cenários para uma vida que desejavam inabitual.
Já não se tratava apenas de soldados, de pregadores, de homens de negócios, ou de estudantes, saltimbancos e trabalhadores sazonais, que circulavam por força da sua ocupação. De repente, hotéis de preço médio e pensões de província deixaram de ser maioritariamente procurados por caixeiros-viajantes, professores deslocados ou pares ilícitos. Os parques de campismo e os albergues de juventude multiplicaram-se, proliferaram motéis e aparthotéis, as estações de caminho de ferro e as bombas de gasolina ganharam uma nova animação. Por toda a parte um novo viandante em busca de emoções ou em luta contra o tédio, que segue os guias e os desdobráveis e parece encontrar no seu trajecto uma forma de repouso ou de esquecimento das rotinas.
Gradualmente, a viagem como estado de permanente partida e como afirmação de uma recusa, da qual falava Rimbaud, foi-se perdendo, substituída por circuitos nos quais todos sabem já aquilo que os espera e que irão fazer, sempre em condições de conforto e de segurança. E até a escalada dos Himalaias ou o mergulho de profundidade no Índico se tornaram programáveis e susceptíveis de serem executados sem grande esforço, quase ao colo dos guias, até ao local no qual a melhor fotogenia e o efeito de maravilhamento se juntam na perfeição de um cenário previsível de turismo de «aventura».
Os próprios povos nómadas estão em vias de perder o seu lugar, uma vez que lhes estão a ser retiradas as rotas e os lugares tradicionais de repouso e de subsistência, ocupados pelas novas vias de partida e de chegada que rodeiam as cidades, por serviços de apoio aos habitantes sedentários que se deslocam de um lado para o outro, por empreendimentos turísticos que nunca bastam para as hordas de entediados cidadãos em busca de alguma coisa que não aquela que conhecem da vida de todos os dias. Mesmo a escrita daqueles que nos foram revelando a viagem como experiência estética e sensorial, capaz ao mesmo tempo de lhes permitir tresmalharem-se das suas circunstâncias, como a de V.S. Naipaul, de Paul Theroux ou do próprio Chatwin – ou ainda, recuando no tempo, a de Nerval, Flaubert, Isabelle Eberhardt e Blaise Cendrars, entre tantos outros -, foi gradualmente transformada num exercício de arqueologia, ou no mapear de mundos inconcebíveis para os novos viajantes providos de iPhone3G, sapatilhas Nike Air e jipes topo de gama, imunes a répteis, a insectos e a temperaturas extremas.
Por aqui, poucos se interessam já pela rudeza dos cenários que eles nos desenharam, bem diferentes daqueles que mostram os folhetos das agências, os roteiros que acompanham as revistas, os livros e os documentários dessa nova espécie de jornalistas «radicais», bem vestidos e de pele tratada, pagos para construírem sucessivos cenários de desejo. Ideais para aqueles que, contrariando Kipling, vão de viagem com a casa às costas ou integram no seu quotidiano uma evocação branda e domesticada, sem fulgor ou estranheza, dos lugares e dos rostos que chegam de outras latitudes. Cada vez existe menos espaço para um nomadismo que não seja de bolso e é provável que nada possamos fazer para o evitar. E também nada nos garante que o fim desse mundo seja um mal: provavelmente será mais aborrecido, mas talvez seja também menos desigual.
Muito recomendável, na altura do campeonato em que vamos, este artigo lúcido de Martine Bulard sobre a China (em francês). Obviamente, e como sempre, nem tudo é branco-branco versus preto-preto. Outro texto de grande utilidade da mesma autora, desta vez em português, pode ser encontrado aqui.

Eu cá não tenho inveja alguma de Michael «billion dollar baby» Phelps. O que pode parecer uma atitude um pouco estúpida, pois deveria cobiçar-lhe a juventude, a ausência de dores nas cruzes, o número de flexões que consegue fazer, a destreza na água, as medalhas, a fama e o dinheiro. Mas aquela cabeça marcada pelo prognatismo, as pernas assim curtas e sapudas, a propulsão de animal aquático, os músculos de Exterminador, o grito vitorioso à odobenídeo (odobenus rosmarus) de morsa satisfeita, remetem-no para uma espécie diferente, vinda do Waterworld e apenas semi-humana, à qual não desejo pertencer. Talvez seja essa, aliás, a causa profunda da admiração por Phelps manifestada por George W. Bush. Deve ser isso.
P.S. – Este post partiu da leitura de um artigo sobre o carácter anómalo de algumas das características físicas de Phelps e a sua relação com a capacidade atlética fora do comum do nadador (mais dados aqui). E pretendeu ironizar um pouco em volta do processo mediático de construção do novo mito. Mas admito que a referência a uma determinada patologia possa ser interpretada de forma diferente. Peço desculpa aos leitores que eventualmente se sintam incomodados. Mas mantenho o texto por este incluir já alguns comentários, por entretanto ter sido citado e sobretudo por saber que muitos outros o não entenderam dessa forma.
Ainda em relação à manipulação política dos Jogos pelo governo chinês, são um tanto chocantes as sucessivas revelações sobre o embuste tecnológico praticado na cerimónia de abertura. A cosmética visual seria legítima no campo da encenação do espectáculo televisivo, naturalmente, mas já o não foi procurar enganar o mundo inteiro, omitindo a informação e fornecendo depois desculpas esfarrapadas. Verdadeiramente indesculpável foi, porém, a ocultação de Yang Peiyi, a menina cantora «patinho feio», e a sua troca pelo «anjo sorridente» Lin Miaoke, apenas porque a primeira não tinha um aspecto conveniente e a organização sentiu que deveria «projectar a imagem certa e pensar no que era melhor para a nação». Da forma como tudo foi feito não se tratou apenas de dobragem – que se pratica em toda a parte –, mas de fraude e de rejeição de alguém, «por acaso» uma criança. A verdade é que pouco adiantará o sentimento de repugnância que este gesto tem merecido, pois, como bem explicou à BBC o dissidente Xiao Qiang, as autoridades chinesas «nem sequer têm noção da falta de ética que isto demonstra». A manipulação e a duplicidade estão-lhes na massa do sangue.

De férias e por isso com um horário menos pendular, não vi a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim. Mas chegam-me de todo o lado notícias e impressões sobre a dimensão magnífica e aparatosa do acontecimento. Acredito que sim, que assim foi. O governo chinês investiu muito neste momento e detém, como todos sabemos, condições e instrumentos para fazer um trabalho bem feito, varrendo as queixas sobre vozes silenciadas, populações deslocadas, trabalho semi-escravo e direitos humanos espezinhados. Obviamente questões menores diante da «grandeza» do momento, da «capacidade de afirmação» da maquinaria chinesa, da concentração imposta dos meios existentes e da conjugação de interesses de dimensão planetária que suporta o evento.
Salvaguardando a diferença imposta pelas tecnologias hoje disponíveis, recordo-me bem, apesar da sombra deixada pelo boicote de 65 países, do espanto do mundo diante da gigantesca coreografia que em 1980 abriu os Jogos de Moscovo. E, via YouTube, já assisti também a cerimónias de enorme «grandeza» e «capacidade de afirmação» em estádios da Coreia do Norte. Em todas essas «grandiosas» manifestações, e apesar da diferença formal que as separa, sempre a mão de uma organização sem falhas, orientada para a consumação da vontade una e a exibição interna e externa dos Estados «dos trabalhadores». Uma capacidade que os Estados democráticos jamais conseguiram igualar, uma vez que não dispõem, felizmente, das mesmas condições para treinarem e para imporem o unânime e o irrefutável.
No Público, Inês de Medeiros esqueceu por momentos estes problemas e concentrou-se na disposição cinematográfica concebida em Pequim por Zhang Yimou, o talentoso realizador que trocou as incertezas da ex-condição de rebelde por um cartão de militante do PCC e pela confiança das autoridades. Já Ruben de Carvalho exultou com a forma como, através do espectáculo de projecção global posto em marcha, a China «procurou transmitir valores de inteligência, do valor do saber, da comunicação e do entendimento entre os homens». Fazendo questão de frisar, com indisfarçável satisfação, que «falharam completamente as “previsões” que, por um lado, anunciavam uma liturgia totalitária e, por outro, uma expressão de agressivo nacionalismo». Chama-se a isto ampliar o «barulho das luzes».