Existe um website do Dr. Dragan Dabic. E também uma biografia. Um disfarce fora do comum, sem dúvida, que permitiu a Karadzic – para quem, na pele de Dabic, «por trás de cada homem capaz existe sempre outro homem capaz» – construir uma nova vida pública e quase fazer esquecer a primeira. Quase.
O regresso aos ecrãs da televisão do «caso Maddie», suscitado pelo arquivamento do inquérito que foi anunciado pela Procuradoria-Geral da República, trouxe também de volta às nossas casas um certo jornalismo de escoadouro – as cansativas reportagens realizadas em Inglaterra pela RTP1 constituem um deplorável exemplo – ocupado em provocar desconfianças, em suscitar animosidades, em exacerbar irrelevâncias e sobretudo em reanimar junto do espectador um interesse diluído pelo efeito de banalização que ele mesmo despoletou.
A captura de Radovan Karadzic, infelizmente tardia, leva-me a conceber o duro labor do cabeleireiro que trabalha para os calabouços do Tribunal Penal Internacional, com sede na Haia. O ex-general Ratko Mladic exigirá, espera-se, bem menos esforço daquele profissional.
Mudando de registo: esta gente não merece o respeito que o TPI lhe irá inevitavelmente garantir. Sarajevo e Srebrenica existiram, os seus executores também. Perdoar nestes casos é impossível, pois eles não perdoaram.
Um texto muito mas muito abrasivo de João Tunes. Num registo paródico engatado algures entre entre as correntes de aço de um realismo socialista às arrecuas e uma versão outlet do nosso mais suave e escorreito neo-realismo. Jamais saberei servir-me desta forma da lixa número 1.
«O único lado» ao qual o novo partido Movimento Mérito e Sociedade aceita pertencer «é ao lado da frente». Para lá chegarmos será necessária uma força, esta, a única realmente capaz de dirigir «a estratégia e a política de desenvolvimento» em condições de «resolver de forma sensata os aspectos negativos da nossa organização social, política e económica». Claro que o MMS não é de esquerda, direita ou centro, uma vez que «esses são conceitos que já não se aplicam a uma sociedade contemporânea», pois «tiveram o seu papel na história mas estão ultrapassados». No essencial, é preciso levar o mérito ao poder, pois o seu reconhecimento «constitui um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade». Este permitirá maximizar «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses», que afinal até dispõem da maior zona económica marítima da Europa como «princípio activo». Ora aqui estão a mensagem e o discurso mobilizador dos quais andávamos há tanto tempo à espera. Falta agora levá-los «a todas as famílias e a todas as casas». Passando à frente dos missionários da Bíblia, dos angariadores do Citibank e dos adeptos irredutíveis do SMS.
Couraçado Potemkine, de Sergei Eisenstein, foi, provavelmente, um dos filmes que mais vezes vi. Todas elas, salvo uma, na época em que «ir ver o Potemkine», em sessões privadas e com legendas invariavelmente em francês, representava, mais que um momento de amor pelo cinema, um pequeno gesto de ousadia (porventura mais imaginada do que real) e de aprendizagem de militância. Dele emergia, em cada uma daquelas salas escuras, apinhadas de jovens sentados no chão que se esforçavam por ignorar o ruído incomodativo do projector, a apreensão de um modelo de heroísmo revolucionário e daquele que poderia, em parte, ser um dia o seu próprio destino. E também o reconhecimento da génese de uma salvífica e exemplar Revolução (assim mesmo, com um R maiúsculo). A de Outubro, naturalmente.
Originalmente o filme deveria constituir apenas um de seis episódios de um projecto mais abrangente, o qual, todavia, jamais foi terminado. De acordo com Manuel Cintra Ferreira, «o que devia ser um amplo fresco do ano revolucionário de 1905 transformou-se ali na narrativa de um único acontecimento, e mesmo um dos menos significativos que, pela força das imagens novas criadas por Eisenstein, se tornou o símbolo da revolução, e uma sequência imaginada pelo realizador, o massacre na escadaria, o episódio central da narrativa.» Hoje mesmo, na colecção «Grandes Realizadores», o Público oferece a versão restaurada desta obra-prima de Eisenstein, realizada em 1925. Poderemos revê-la agora, essencialmente, como objecto plástico e como documento histórico. Não enquanto reconstituição de um episódio – que o não é, pois incorpora numerosas fantasias -, mas como peça importante na edificação da estrutura mítica do ideal comunista. E como módulo utilizado na fundamentação de uma experiência que cumpriu a sua missão histórica. Para alguns, todavia, as suas imagens permanecem como parte constitutiva do seu próprio crisol de convicções. Também por isso elas continuam presentes.
Jean Ferrat – Potemkine
PS – Sobre a Revolução de Outubro vejam-se aqui alguns textos publicados neste blogue. Todos eles pertencem a uma série que ainda não se encontra concluída.
Por causa da taxa sobre a valorização das reservas das petrolíferas congeminada pelo Senhor Engenheiro Sócrates, anda este mundo e o outro às voltas com o destemido Robin dos Bosques, a linda Mariam, o infame Xerife de Nottingham, o gigante Little John, o rechonchudo Frei Tuck e o bilioso Príncipe João. Só o aprazível Will Scarlet e o azarado Ricardo Coração-de-Leão ainda não foram chamados à colação, mas provavelmente lá chegaremos. Não pretendo ser desmancha-prazeres nem transformar-me em demolidor dos grandes mitos da nossa infância, mas convém que se tenha em consideração, para que possam tomar-se decisões com todos os dados do problema em cima da mesa, que o príncipe dos ladrões poderá, afinal, ter sido a rainha da floresta.
Creio ter hoje, para português, uma estatura normal. Porém, o 1,78m que mantenho desde os 15 anos, agora quase banal, correspondia há poucas décadas a um padrão acima da média. No início dos anos 80 ainda era considerado um sujeito alto e recordo-me perfeitamente de andar na rua e de me distinguir pelo tamanho. Ou de comprar calças sem precisar de subir a bainha. Mas o panorama tem mudado muito. Os números não enganam: se em 2000 os portugueses continuavam a ser os mais baixos da Europa, com uma média de 1,72, a altura média dos espanhóis já só nos ultrapassava em 2 milímetros, a dos franceses em 3 e a dos suecos em 7. Apenas os holandeses se destacavam claramente dos outros habitantes da União Europeia com 1,84. A verdade é que entre 1904 e 2000 os portugueses cresceram em média 9 centímetros, com uma aceleração notável a partir dos anos 60 e do 25 de Abril, quando as condições de saúde, de higiene e de alimentação melhoraram rápida e substancialmente. Presumo que nestes últimos oito anos, apesar de tudo, a paisagem ainda tenha melhorado um pouco mais.
Isto a propósito do estudo europeu ProChildren, concluído em 2007 e cujos resultados vieram há dias publicados nos jornais. O Público de sábado passado destacava mesmo a matéria com chamada na capa e um dossiê nas páginas 2 e 3. Deixando de parte os dados sobre o peso que também eram referidos, cinjo-me aqueles que diziam respeito à altura e constato ali a afirmação algo espalhafatosa de que as crianças portuguesas são «as mais pequenas da Europa». Uma leitura atenta do artigo tempera, no entanto, uma frase tão peremptória e deprimente. Desde logo um dado essencial: o referido estudo apoiava-se em observações feitas em apenas 9 países, e destes apenas Portugal e a Espanha pertenciam ao espaço mediterrânico, no qual, historicamente, se concentram desde há séculos populações de menor estatura. Vejam-se agora os números, estabelecidos para crianças de 11 anos: 1,47 em Portugal e na Áustria, 1,48 em Espanha e na Islândia, 1,49 na Bélgica e na Noruega, 1,50 na Suécia e na Bélgica, destacando-se uma vez mais os gigantes holandeses com 1,54. Diante de tais dados, que apenas atestam o facilitismo de um certo modelo de jornalismo e o sentimento de auto-comiseração que ainda continua a dominar muitos de nós, resta perguntar se fica implícita algures a proposta subliminar de uma manipulação genética em larga escala. Já agora, podíamos aproveitar a mão e fazer-nos a todos loiros e de olhos azuis, como nos anúncios da televisão.
Ao mesmo tempo que na generalidade do território espanhol, como consequência do combate que vem sendo travado à volta da recuperação e da revisão da memória histórica, desaparecem os últimos vestígios da presença de nomes de franquistas e de falangistas na toponímia e na designação de instituições públicas, em Caldas de Reis, província de Pontevedra, Galiza, encontra-se exposta uma polémica estátua-fonte de Francisco Franco Bahamonde – muito clássica, aliás, se não for vista como exercício de pastiche –, que vomita água com a qual os passantes vão matando a sede. Esta não resultou de qualquer homenagem pública, mas antes de uma encomenda municipal para um festival de arte. Levanta, ainda assim, algumas questões interessantes: permitirá ela uma evocação do Caudillo por la Gracia de Dios ou antes a dos espanhóis que o seu regime fez garrotar? irritará os seus partidários e divertirá os seus inimigos? apoiará um momento de subversão da estética oficial do franquismo? produzirá um efeito de sublimação ou de banalização da história recente? ajudará a esquecer ou a lembrar? As respostas serão múltiplas e nem sempre unívocas. No estado actual de perda rápida da memória colectiva e de uma cada vez mais veloz mutabilidade da vida dos signos, tendo porém a olhá-la como algo que emerge como uma peça de mobiliário urbano, ademais efémera, pela qual a maioria dos cidadãos – «ni contentos, ni descontentos», como já o afirmaram alguns – passará sem prestar grande atenção. Como por um trivial recipiente para o lixo público.
Porque não sonhei eu com um iPhone3G?A maneira mais expedita de responder à pergunta será dizer: porque é bastante caro. Ou então: porque me afligiu o grau de compulsão e de desejo induzido e reproduzido pelos média à volta do pequeno objecto de consumo fabricado pela Apple. Vi mesmo olhos brilhantes na apresentação pública: um homem de barba grisalha procurando esconder a excitação, uma rapariga com o aparelho na mão falando da concretização do seu «maior sonho», outra chorando de emoção enquanto estoirava as economias de um ano inteiro. A verdade, porém, é que comigo esses argumentos poderiam ainda não ser suficientes para justificar a recusa, uma vez que por vezes gasto somas um pouco imorais em acessórios electrónicos que me acompanham para todo o lado. A forma mais exacta e honesta de justificar o desinteresse será então dizer que tenho um telemóvel, um PDA e um iPod que, juntos ou combinados, superam de longe as melhores expectativas que pudessem ter sido criadas em relação às reais capacidades do novíssimo iPhone.
Sem dúvida que é mais útil – e somando os custos até poderá resultar mais económico – trazer no bolso um «tudo em um». Fino, leve e com um design realmente brilhante e sedutor. Ou mesmo sexy, como o considerará um geek ou aquele viciado em gadgets que a esta hora já andará à procura de uma capinha cor de abóbora para o seu aparelho. Mas quando vejo que a versão topo de gama deste novo brinquedo imaginado por Steve Jobs tem capacidade para uns limitados 16 gigas de informação multimédia, não possui câmara para videochamadas, oferece uma câmara fotográfica com uma resolução de apenas 2 megapixéis e sem flash, não deixa que troquemos a bateria, não traz rádio, nem teclado mecânico, nem um miniprocessador de texto decente, pergunto-me se valerá a pena gastar 600 euros apenas para ir atrás da publicidade da Optimus, da Vodafone e dos senhores da maçã. Para pairar na crista da onda, dar nas vistas em público ou encher de inveja os colegas de trabalho. Para mim, não vale: esperarei uns tempos até que a geringonça melhore bastante e desça de preço. Até lá, continuarei a torrar o pão com uma torradeira, enquanto telefono com um telemóvel 3,5G que custou metade do preço e deixa o iPhone a muitas milhas de distância.
A condenação do sequestro de Ingrid Betancourt e da utilização de reféns como princípio de acção política feita agora por Hugo Chávez e por Fidel Castro – muito tempo depois de o poderem ter declarado com outra força e outra legitimidade, e não apenas nesta altura, sob a pressão da opinião pública mundial -, ainda que suave, deixa sem argumentos os indefectíveis defensores do carácter «glorioso» da actividade das FARC. Assobiarão para o lado ou inventarão qualquer coisa, claro. Os mais teimosos agarrar-se-ão ainda mais ao seu mundo obsoleto e perigoso. Ao seu ideal de revolução lançada contra o «inimigo de classe» e necessariamente temperada, como diria o coronel Bill Kilgore (interpretado por Robert Duvall) em Apocalypse Now, «com um cheiro a pólvora pela manhã».
Em declarações ao Expresso, a ministra da Educação negou querer governar para as estatísticas. Recusando as críticas de facilitismo vindas de quase todo o lado, afirmou até que «o ensino é hoje mais exigente». Entretanto, confrontada na RTP1 com uma subida média de 3,2 valores, em apenas um ano, nas notas de Matemática dos Exames Nacionais do Secundário, e ao contrário daquilo que foi até publicamente reconhecido por muitos alunos, negou que os critérios de avalição tivessem sido menos rigorosos. Espera-se agora que declare ser o Sol que gira à volta da Terra e não o contrário, como deslealmente insistem em afirmar determinados professores. Custa muito ver a mentira descarada e a mais rasteira demagogia – aparentemente acompanhadas de delírios persecutórios e de alucinações – a entrarem-nos casa dentro sem pedirem licença. É um mau exemplo para as crianças.
2321 dias após ter sido capturada pelas FARC-EP – durante uma acção de campanha da sua candidatura presidencial ecologista em território que estas controlavam -, Ingrid Betancourt foi finalmente libertada. Numa acção da inteligência militar e não por iniciativa daquele movimento de guerrilha, especializado em sequestros e acções de intimidação, como se apressou erradamente a afirmar Evo Morales, o presidente da Bolívia: «es muestra clara de las FARC que libera a los detenidos». Aguardamos agora as reacções de todas as partes. Lá na Colômbia, mas por aqui também.
Uma notícia destas suscita um comentário como aquele que se segue, colhido dos comentários publicados pelo Portugal Diário. Vale pelo exotismo, mas também pela amostra do caldo de cultura alucinogénio do qual se alimenta.
É preciso dizer claramente que a forma como a generalidade dos dirigentes africanos presentes na cimeira da União Africana recebeu Robert Mugabe, com toda a afabilidade e sem referirem a ilegitimidade do título presidencial que resolveu ostentar, constitui uma vergonha que mancha a sua própria credibilidade. E é uma prova do enorme desprezo que têm pelas regras da legitimidade democrática que admitem apenas quando estas lhes servem para se manterem no poder. Uma vergonha que deve ser associada também à atitude das poucas forças políticas europeias que se recusam a condenar abertamente o tirano racista e cleptocrata e o actual regime zimbabweano. O PCP, infelizmente, tem sido uma delas.
Pietro Ingrao permanece aos 93 anos, «um homem brilhante, idealista e romântico». Assume, em entrevista ao suplemento Babelia realizada a propósito da tradução espanhola do autobiográfico Volevo la Luna, que o comunismo falhou, «que o assalto ao Palácio de Inverno fracassou». Mas não se rende. Ao seu modo poético de ser comunista, de se não rebaixar à repetição e ao estereótipo, de evocar a memória rejeitando o azedume, de conservar em tempos difíceis o optimismo revolucionário, é possível admirá-lo. Mesmo quando dele nos afastamos.
São de facto impressionantes, para um país como Portugal no qual jamais existiram movimentos feministas organizados, consistentes e com uma efectiva capacidade de intervenção, o número de participações e a dimensão do Congresso Feminista que começa amanhã, dia 26, em Lisboa, e se prolonga até ao dia 28. Este será plural, com toda a certeza. E dissonante, provavelmente, porque felizmente não existe um feminismo hegemónico. Esperemos também que represente um ponto de viragem, ao qual o poder político – que nem sequer se faz representar e vergonhosamente se furtou a apoiar o evento – deveria estar atento.
PS em 29/6/2008 – Ontem o secretário de Estado Jorge Lacão esteve presente na sessão de encerramento do Congresso. Mas a sua intervenção não estava inicialmente prevista. Depois de vista a dimensão do acontecimento…
Pertenço a uma das várias gerações que viveu a infância atormentada por dois demónios. Um era o bicho-papão, essa espécie de monstro barrigudo e de voz cava que se passeava pelos telhados e perseguia os meninos que não comiam a sopa toda. O outro era o polícia-mau, designação que sempre achei redundante antes de saber que coisa é uma redundância, uma vez que no meu universo visível não existiam polícias-bons. Por isso ainda hoje, apesar de todas as operações de cosmética, dos agentes bronzeados e com patilhas recortadas, das agentes perfumadas e com pequenas tatuagens – ou talvez um piercingzinho sabe-se lá onde -, de todo o simpático arsenal de «por-favores» e de «com-licenças» que as forças da ordem utilizam para com a maioria dos cidadãos, há uma sineta que vibra em mim sempre que contacto um polícia. Talvez seja o meu anjo da guarda libertário que não dorme e me sussurra que devo suspeitar de qualquer uniforme engomado ou de um cassetete à cintura. Por isso achei hoje um pouco suspeita a conversa de um polícia suíço que falava à televisão portuguesa do carácter très, très, très «pacato e ordeiro» dos emigrantes que andam pelas ruas de Genève e de Neuchâtel a gritarem vivas à selecção. Conhecendo alguns dos comportamentos de muitos dos nossos emigrados nos países de acolhimento, sobretudo na Europa, parecem-me elogios a mais e fazem-me evocar o medo atávico do polícia no qual, tal como eu, muitos deles foram criados. Que gritem todos os vivas e cantem A Portuguesa as vezes que quiserem, que toquem buzinas e se maquilhem a verde-vermelho, mas que depois, passado o Euro-2008, não regressem à vil obscuridade e à dimensão «pacata e ordeira» de quem não faz valer no quotidiano os seus direitos sociais e políticos. Um desejo que é uma quimera, bem sei. Mas não custa nada lembrar-nos de que podemos concebê-lo.