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Incoincidências

Não se trata de uma juíza qualquer. Ana Gabriela Freitas, do 2º Juízo do Tribunal Judicial de Felgueiras, que acaba de tecer considerações onde utiliza qualificativos de carácter abertamente racista aplicados aos ciganos – os quais alega serem inapelavelmente «marginais e traiçoeiros» – é a mesmíssima magistrada que em 2005 mandou Fátima Felgueiras, recém-fugida a prisão e julgamento, aguardar o curso da justiça em liberdade. Por apenas «alegadamente» haver estado refugiada no Brasil, sendo a sua conhecida fuga coisa «aparente». Sorte a da Dona Fátima por não pertencer a essa mesma etnia que a dra. Gabriela considera levar uma vida sistematicamente «pouco edificante».

[sobre o problema cigano, ver Errantes e extravagantes]

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    Vergonha global

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    O governo chinês prometeu aquilo que todos sabíamos que jamais iria cumprir. Os honoráveis Comités Olímpicos fingiram que acreditaram. Os governos democráticos fizeram de conta que não era com eles. Os partidos políticos não consideraram o assunto uma prioridade. A Amnistia Internacional e outras organizações não-governamentais têm sublinhado a constante violação dos direitos humanos na China, mas a sua voz raramente passa das páginas interiores, dos suplementos de faits-divers, das entrelinhas do teletexto.

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      We love Beijing

      Incomodam-me os activistas de uma causa só. Os que apenas observam o seu ângulo do mundo, o seu estrito móbil, a sua obsessão, distraindo-se de tudo o resto. «Save the whales» e que se lixe o próximo. Muitas organizações ecologistas partilham dessa atitude, e por isso, apesar da importância de alguns dos seus motivos, as olho quase sempre com desconfiança. Já passou muito tempo, bem sei, mas não esqueço como algumas delas se aproximaram, durante a República de Weimar, do nacional-socialismo. Ou como para muitas não existe política fora das questões ambientais. O movimento Greenpeace elogia agora o empenhamento das autoridades chinesas em fazer da sua capital um bilhete-postal, um cartão de visita, um primor: «O que é particularmente singular nestes Jogos Olímpicos é que vão deixar um legado ambiental importante na cidade de Pequim em áreas como os transportes, infra-estruturas, energias renováveis, gestão da água e resíduos.» Uma cidade histórica mas moderna, assombrosa, com amplas avenidas e muito clean. Desejável, mais verde e cheia de brisas favoráveis aos passantes. Bem limpa de ratos, de mendigos e de discrepantes.

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        O programa dos ínfimos

        O louco da aldeia representa sempre um duplo papel: funciona como divertimento daqueles que são incapazes de escapar às rígidas normas da vida comunitária e descodifica a realidade através de metáforas inusitadas e enigmáticas. Aquilo que diz raramente faz sentido, mas é sempre escutado. São esses os sinais da diferença que o tornam ao mesmo tempo relevante e rejeitado. Suspeito que em sociedades mais complexas ele possa perder a importância primordial, dada a proliferação de códigos e de vozes. Porém, quando vejo na televisão o programa A Liga dos Últimos, perco a certeza de que a sua função originária se tenha tornado descartável.

        A pretexto de uma ideia inicial curiosa – encontrar e mostrar a alma das piores equipas do futebol federado – passou a organizar-se ali uma espécie de vitrina nacional para pessoas dementes, bêbedos incorrigíveis, mulheres subjugadas, idosos senis e pobres diabos. Pessoas sem dinheiro, sem poder, sem instrução, de roupa disforme e dentes invariavelmente estragados, que, de tão contentes por defenderem o clube da sua terra e de por uma vez sem exemplo lhes ser dada voz, se deixam humilhar diante de todos. Uma iniciativa indigna que nos deveria encher a todos de pena e de tristeza. Mas que a estação «pública» passa sem remorso – e com a exibição de um ar de obsceno gozo da parte dos apresentadores – no horário nobre das sextas à noite.

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          Errantes e extravagantes

          Tal como muitos outros gadje, mais ou menos instruídos e ciosos de exotismo, que até um passado recente recolheram, a ocidente, a tradição iluminista de deferência por quem nos chegava do Levante, partilhei um dia uma certa atracção pela figura, supostamente misteriosa e refractária, do cigano. O retrato de Carmen, a tabaqueira sedutora de Mérimée e de Bizet, como a silhueta da beldade dançante de flamenco, a «linda cigana», reproduzida nos maços de Gitanes que fumei aos milhares ou em quadros decorativos para as paredes da classe média da província, acompanhavam, a par do interesse menos comum por algumas das Rapsódias Húngaras de Liszt ou pela guitarra de Django Reinhardt tocando Les Yeux Noirs, a atracção quase atávica por esse universo paralelo que imaginava livre e feliz. E fazia esquecer o rasto de pobreza, fedor, lixo e desolação deixado pela maioria dos ciganos que conhecia.

          Talvez seja nessa romantização orientalista e partilhada da figura do cigano, ou da sua cultura própria – associada a uma absolutização dos valores da solidariedade para com os humilhados e os diferentes -, que reside a origem de um certo desinteresse de alguns dos defensores do Estado social pelos destinos das comunidades romani. Em Portugal, muito mais que em Espanha ou em França, onde uma presença e uma tradição cultural afirmativa empurraram as populações nómadas, ou recém-sedentarizadas, para outro patamar de visibilidade social, essa idealização e essa displicência conduziram a uma situação dramática. Saber, seguindo os dados publicados no Expresso, que, entre os cerca de 50 milhares de ciganos portugueses apenas existem 4 licenciados, e que 35.000 deles recebem o Rendimento Social de Inserção (o que não impede uma parte significativa de se dedicar à mendicidade), não pode deixar-nos apenas atónitos: deve deixar-nos também tristes pelo espectáculo de miséria humana que apenas os focos mediatizados de exclusão, de racismo ou de violência, e os relatórios da PSP e da GNR, tornam visível. E não nos venham dizer que é lá com eles e com a sua cultura extravagante, resistente e persistentemente «admirável». É preciso fazer mais, muito mais. De um modo fraterno mas também com firmeza. Ouvindo e falando.

          P.S. em 28.Jul.2008 – Se as afirmações de um dos fundadores da União Romani Portuguesa e do coordenador do gabinete de apoio às comunidades ciganas junto do Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural, transcritas hoje pelo Público, captam a essência das suas declarações ao jornal, estamos perante um bom exemplo de atitudes que mostram uma preferência por conhecer ou compreender a «admirável» diferença, ou mesmo por atribuir apenas a um dos lados a culpa da «guetização», em vez de promoverem condições para uma afirmação conjugada da integração, da afirmação identitária e da valorização desta minoria no âmbito da nossa vida colectiva.

            Atualidade, Opinião

            A ignição iraniana

            Se bem que a sua sombra assome ainda em algumas evocações, a Guerra Fria terminou com a liquidação da União Soviética. Não pode dizer-se, porém, que o mundo que lhe sucedeu seja mais seguro do que aquele que lhe serviu de cenário, e prova disso é que um dos espectros que alimentou – o de uma guerra nuclear causadora do Armagedão – continua presente. Tal como há trinta ou quarenta anos atrás, a fonte do perigo reside menos na capacidade do armamento do que nas mãos de quem dele se possa servir.

            A verdade é que as armas de destruição maciça incorporam um perigo potencial que advém, em primeiro lugar, do facto de a sua gestão ser de natureza humana e, nessa condição, de o seu uso jamais poder ser inteiramente previsível. Só que existem imprevisíveis menos imprevisíveis que outros, e colocar em idêntico plano a posse de armas nucleares pelos Estados Unidos e por Israel, ou mesmo pela China, com aquela que ocorre em países instáveis, como o Paquistão, ou que se encontra nas mãos de fanáticos como o são muitos dos dirigentes iranianos, tal como António Vilarigues deixa hoje implícito no Público, é pura demagogia.

            Para relativizar o perigo iraniano, assevera mesmo AV que algumas dessas armas se encontram igualmente nas mãos deu um Estado, Israel, «que se reclama de origem divina». Como se a identidade cultural e religiosa do Estado hebraico – não falo, naturalmente, dos grupos de extremistas judaicos que também o habitam – possa ser comparável à do Irão, onde o recuo civilizacional imposto por uma leitura literal do Corão se tem traduzido numa presença no poder de sectores que associam a prática política à dimensão, primordialmente religiosa e penitencial, da vida terrena. Todos sabemos como os falcões americanos ou israelitas não são propriamente meninos de coro, mas a verdade é que eles movem-se no interior de regimes democráticos, sob um razoável controlo da opinião pública e da comunidade internacional: torná-los piores que os iranianos é puro dislate. AV recupera também, pela enésima vez, os exemplos abomináveis de Hiroshima e de Nagasaki, mas qualquer pessoa sensata concordará que evocá-los como molas percutoras da actual política internacional americana é tão anacrónico como servir-se do Pacto Gernano-Soviético de 1939 para atacar a linha política dos actuais partidos comunistas.

            Em Persepolis, a perturbante banda desenhada autobiográfica entretanto transformada em filme de animação, Marjane Satrapi fala-nos desse universo no qual a razão de Estado e os direitos das pessoas comuns (ali principalmente os das mulheres) se encontram submetidos à voracidade dos impulsos motivados por uma moral redentora cuja essência está para além do humano. O slideshow que aqui se apresenta permite-nos também revisitar parte desse universo tão próximo. É nas mãos de gente que admite, estimula ou legitima a violência extrema que este «normaliza» que pode estar, ou que pode vir a estar, a capacidade de manipulação de armamento nuclear. Colocar esta situação ao mesmo nível, ou a um nível menos ruinoso, daquele que pode ser associado a outros países que o utilizam hoje «apenas» como instrumento de dissuasão ou de chantagem – ou, pior, conferir-lhe uma dimensão emancipatória (embora não seja esta, sublinho, a posição de AV) –, só não é uma atitude de cegueira porque se funda numa linha política cujo suporte ético transforma sistematicamente em amigo, ou pelo menos em aliado, o inimigo do inimigo. Ainda que este possa encarnar o Mal na sua formulação mais absoluta e manifesta. Que importa isso perante a possibilidade de dar um bom puxão de orelhas aos bastardos do Império?

            Clique nos botões para mover o slideshow.
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              Atualidade, Opinião

              Disfarce quase perfeito

              Existe um website do Dr. Dragan Dabic. E também uma biografia. Um disfarce fora do comum, sem dúvida, que permitiu a Karadzic – para quem, na pele de Dabic, «por trás de cada homem capaz existe sempre outro homem capaz» – construir uma nova vida pública e quase fazer esquecer a primeira. Quase.

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                A espectacularização do banal

                O regresso aos ecrãs da televisão do «caso Maddie», suscitado pelo arquivamento do inquérito que foi anunciado pela Procuradoria-Geral da República, trouxe também de volta às nossas casas um certo jornalismo de escoadouro – as cansativas reportagens realizadas em Inglaterra pela RTP1 constituem um deplorável exemplo – ocupado em provocar desconfianças, em suscitar animosidades, em exacerbar irrelevâncias e sobretudo em reanimar junto do espectador um interesse diluído pelo efeito de banalização que ele mesmo despoletou.

                  Apontamentos, Atualidade

                  Mais vale tarde

                  A captura de Radovan Karadzic, infelizmente tardia, leva-me a conceber o duro labor do cabeleireiro que trabalha para os calabouços do Tribunal Penal Internacional, com sede na Haia. O ex-general Ratko Mladic exigirá, espera-se, bem menos esforço daquele profissional.

                  Mudando de registo: esta gente não merece o respeito que o TPI lhe irá inevitavelmente garantir. Sarajevo e Srebrenica existiram, os seus executores também. Perdoar nestes casos é impossível, pois eles não perdoaram.

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                    Depois de Alcácer-Quibir

                    «O único lado» ao qual o novo partido Movimento Mérito e Sociedade aceita pertencer «é ao lado da frente». Para lá chegarmos será necessária uma força, esta, a única realmente capaz de dirigir «a estratégia e a política de desenvolvimento» em condições de «resolver de forma sensata os aspectos negativos da nossa organização social, política e económica». Claro que o MMS não é de esquerda, direita ou centro, uma vez que «esses são conceitos que já não se aplicam a uma sociedade contemporânea», pois «tiveram o seu papel na história mas estão ultrapassados». No essencial, é preciso levar o mérito ao poder, pois o seu reconhecimento «constitui um fantástico indutor de desenvolvimento equilibrado e sustentado de uma sociedade». Este permitirá maximizar «o espírito de conquista e desembaraço dos portugueses», que afinal até dispõem da maior zona económica marítima da Europa como «princípio activo». Ora aqui estão a mensagem e o discurso mobilizador dos quais andávamos há tanto tempo à espera. Falta agora levá-los «a todas as famílias e a todas as casas». Passando à frente dos missionários da Bíblia, dos angariadores do Citibank e dos adeptos irredutíveis do SMS.

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                      Potemkine

                      Couraçado Potemkine, de Sergei Eisenstein, foi, provavelmente, um dos filmes que mais vezes vi. Todas elas, salvo uma, na época em que «ir ver o Potemkine», em sessões privadas e com legendas invariavelmente em francês, representava, mais que um momento de amor pelo cinema, um pequeno gesto de ousadia (porventura mais imaginada do que real) e de aprendizagem de militância. Dele emergia, em cada uma daquelas salas escuras, apinhadas de jovens sentados no chão que se esforçavam por ignorar o ruído incomodativo do projector, a apreensão de um modelo de heroísmo revolucionário e daquele que poderia, em parte, ser um dia o seu próprio destino. E também o reconhecimento da génese de uma salvífica e exemplar Revolução (assim mesmo, com um R maiúsculo). A de Outubro, naturalmente.

                      Originalmente o filme deveria constituir apenas um de seis episódios de um projecto mais abrangente, o qual, todavia, jamais foi terminado. De acordo com Manuel Cintra Ferreira, «o que devia ser um amplo fresco do ano revolucionário de 1905 transformou-se ali na narrativa de um único acontecimento, e mesmo um dos menos significativos que, pela força das imagens novas criadas por Eisenstein, se tornou o símbolo da revolução, e uma sequência imaginada pelo realizador, o massacre na escadaria, o episódio central da narrativa.» Hoje mesmo, na colecção «Grandes Realizadores», o Público oferece a versão restaurada desta obra-prima de Eisenstein, realizada em 1925. Poderemos revê-la agora, essencialmente, como objecto plástico e como documento histórico. Não enquanto reconstituição de um episódio – que o não é, pois incorpora numerosas fantasias -, mas como peça importante na edificação da estrutura mítica do ideal comunista. E como módulo utilizado na fundamentação de uma experiência que cumpriu a sua missão histórica. Para alguns, todavia, as suas imagens permanecem como parte constitutiva do seu próprio crisol de convicções. Também por isso elas continuam presentes.

                      Jean Ferrat – Potemkine

                      PS – Sobre a Revolução de Outubro vejam-se aqui alguns textos publicados neste blogue. Todos eles pertencem a uma série que ainda não se encontra concluída.

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                        A rainha da floresta

                        Por causa da taxa sobre a valorização das reservas das petrolíferas congeminada pelo Senhor Engenheiro Sócrates, anda este mundo e o outro às voltas com o destemido Robin dos Bosques, a linda Mariam, o infame Xerife de Nottingham, o gigante Little John, o rechonchudo Frei Tuck e o bilioso Príncipe João. Só o aprazível Will Scarlet e o azarado Ricardo Coração-de-Leão ainda não foram chamados à colação, mas provavelmente lá chegaremos. Não pretendo ser desmancha-prazeres nem transformar-me em demolidor dos grandes mitos da nossa infância, mas convém que se tenha em consideração, para que possam tomar-se decisões com todos os dados do problema em cima da mesa, que o príncipe dos ladrões poderá, afinal, ter sido a rainha da floresta.

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                          Um dia seremos todos loiros

                          Creio ter hoje, para português, uma estatura normal. Porém, o 1,78m que mantenho desde os 15 anos, agora quase banal, correspondia há poucas décadas a um padrão acima da média. No início dos anos 80 ainda era considerado um sujeito alto e recordo-me perfeitamente de andar na rua e de me distinguir pelo tamanho. Ou de comprar calças sem precisar de subir a bainha. Mas o panorama tem mudado muito. Os números não enganam: se em 2000 os portugueses continuavam a ser os mais baixos da Europa, com uma média de 1,72, a altura média dos espanhóis já só nos ultrapassava em 2 milímetros, a dos franceses em 3 e a dos suecos em 7. Apenas os holandeses se destacavam claramente dos outros habitantes da União Europeia com 1,84. A verdade é que entre 1904 e 2000 os portugueses cresceram em média 9 centímetros, com uma aceleração notável a partir dos anos 60 e do 25 de Abril, quando as condições de saúde, de higiene e de alimentação melhoraram rápida e substancialmente. Presumo que nestes últimos oito anos, apesar de tudo, a paisagem ainda tenha melhorado um pouco mais.

                          Isto a propósito do estudo europeu ProChildren, concluído em 2007 e cujos resultados vieram há dias publicados nos jornais. O Público de sábado passado destacava mesmo a matéria com chamada na capa e um dossiê nas páginas 2 e 3. Deixando de parte os dados sobre o peso que também eram referidos, cinjo-me aqueles que diziam respeito à altura e constato ali a afirmação algo espalhafatosa de que as crianças portuguesas são «as mais pequenas da Europa». Uma leitura atenta do artigo tempera, no entanto, uma frase tão peremptória e deprimente. Desde logo um dado essencial: o referido estudo apoiava-se em observações feitas em apenas 9 países, e destes apenas Portugal e a Espanha pertenciam ao espaço mediterrânico, no qual, historicamente, se concentram desde há séculos populações de menor estatura. Vejam-se agora os números, estabelecidos para crianças de 11 anos: 1,47 em Portugal e na Áustria, 1,48 em Espanha e na Islândia, 1,49 na Bélgica e na Noruega, 1,50 na Suécia e na Bélgica, destacando-se uma vez mais os gigantes holandeses com 1,54. Diante de tais dados, que apenas atestam o facilitismo de um certo modelo de jornalismo e o sentimento de auto-comiseração que ainda continua a dominar muitos de nós, resta perguntar se fica implícita algures a proposta subliminar de uma manipulação genética em larga escala. Já agora, podíamos aproveitar a mão e fazer-nos a todos loiros e de olhos azuis, como nos anúncios da televisão.

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                            Uma fonte, nada mais?

                            Ao mesmo tempo que na generalidade do território espanhol, como consequência do combate que vem sendo travado à volta da recuperação e da revisão da memória histórica, desaparecem os últimos vestígios da presença de nomes de franquistas e de falangistas na toponímia e na designação de instituições públicas, em Caldas de Reis, província de Pontevedra, Galiza, encontra-se exposta uma polémica estátua-fonte de Francisco Franco Bahamonde – muito clássica, aliás, se não for vista como exercício de pastiche –, que vomita água com a qual os passantes vão matando a sede. Esta não resultou de qualquer homenagem pública, mas antes de uma encomenda municipal para um festival de arte. Levanta, ainda assim, algumas questões interessantes: permitirá ela uma evocação do Caudillo por la Gracia de Dios ou antes a dos espanhóis que o seu regime fez garrotar? irritará os seus partidários e divertirá os seus inimigos? apoiará um momento de subversão da estética oficial do franquismo? produzirá um efeito de sublimação ou de banalização da história recente? ajudará a esquecer ou a lembrar? As respostas serão múltiplas e nem sempre unívocas. No estado actual de perda rápida da memória colectiva e de uma cada vez mais veloz mutabilidade da vida dos signos, tendo porém a olhá-la como algo que emerge como uma peça de mobiliário urbano, ademais efémera, pela qual a maioria dos cidadãos – «ni contentos, ni descontentos», como já o afirmaram alguns – passará sem prestar grande atenção. Como por um trivial recipiente para o lixo público.

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                              Da fábrica dos sonhos

                              Porque não sonhei eu com um iPhone3G? A maneira mais expedita de responder à pergunta será dizer: porque é bastante caro. Ou então: porque me afligiu o grau de compulsão e de desejo induzido e reproduzido pelos média à volta do pequeno objecto de consumo fabricado pela Apple. Vi mesmo olhos brilhantes na apresentação pública: um homem de barba grisalha procurando esconder a excitação, uma rapariga com o aparelho na mão falando da concretização do seu «maior sonho», outra chorando de emoção enquanto estoirava as economias de um ano inteiro. A verdade, porém, é que comigo esses argumentos poderiam ainda não ser suficientes para justificar a recusa, uma vez que por vezes gasto somas um pouco imorais em acessórios electrónicos que me acompanham para todo o lado. A forma mais exacta e honesta de justificar o desinteresse será então dizer que tenho um telemóvel, um PDA e um iPod que, juntos ou combinados, superam de longe as melhores expectativas que pudessem ter sido criadas em relação às reais capacidades do novíssimo iPhone.

                              Sem dúvida que é mais útil – e somando os custos até poderá resultar mais económico – trazer no bolso um «tudo em um». Fino, leve e com um design realmente brilhante e sedutor. Ou mesmo sexy, como o considerará um geek ou aquele viciado em gadgets que a esta hora já andará à procura de uma capinha cor de abóbora para o seu aparelho. Mas quando vejo que a versão topo de gama deste novo brinquedo imaginado por Steve Jobs tem capacidade para uns limitados 16 gigas de informação multimédia, não possui câmara para videochamadas, oferece uma câmara fotográfica com uma resolução de apenas 2 megapixéis e sem flash, não deixa que troquemos a bateria, não traz rádio, nem teclado mecânico, nem um miniprocessador de texto decente, pergunto-me se valerá a pena gastar 600 euros apenas para ir atrás da publicidade da Optimus, da Vodafone e dos senhores da maçã. Para pairar na crista da onda, dar nas vistas em público ou encher de inveja os colegas de trabalho. Para mim, não vale: esperarei uns tempos até que a geringonça melhore bastante e desça de preço. Até lá, continuarei a torrar o pão com uma torradeira, enquanto telefono com um telemóvel 3,5G que custou metade do preço e deixa o iPhone a muitas milhas de distância.

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                                Um cheiro a pólvora

                                A condenação do sequestro de Ingrid Betancourt e da utilização de reféns como princípio de acção política feita agora por Hugo Chávez e por Fidel Castro – muito tempo depois de o poderem ter declarado com outra força e outra legitimidade, e não apenas nesta altura, sob a pressão da opinião pública mundial -, ainda que suave, deixa sem argumentos os indefectíveis defensores do carácter «glorioso» da actividade das FARC. Assobiarão para o lado ou inventarão qualquer coisa, claro. Os mais teimosos agarrar-se-ão ainda mais ao seu mundo obsoleto e perigoso. Ao seu ideal de revolução lançada contra o «inimigo de classe» e necessariamente temperada, como diria o coronel Bill Kilgore (interpretado por Robert Duvall) em Apocalypse Now, «com um cheiro a pólvora pela manhã».

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