Por causa da taxa sobre a valorização das reservas das petrolíferas congeminada pelo Senhor Engenheiro Sócrates, anda este mundo e o outro às voltas com o destemido Robin dos Bosques, a linda Mariam, o infame Xerife de Nottingham, o gigante Little John, o rechonchudo Frei Tuck e o bilioso Príncipe João. Só o aprazível Will Scarlet e o azarado Ricardo Coração-de-Leão ainda não foram chamados à colação, mas provavelmente lá chegaremos. Não pretendo ser desmancha-prazeres nem transformar-me em demolidor dos grandes mitos da nossa infância, mas convém que se tenha em consideração, para que possam tomar-se decisões com todos os dados do problema em cima da mesa, que o príncipe dos ladrões poderá, afinal, ter sido a rainha da floresta.
Creio ter hoje, para português, uma estatura normal. Porém, o 1,78m que mantenho desde os 15 anos, agora quase banal, correspondia há poucas décadas a um padrão acima da média. No início dos anos 80 ainda era considerado um sujeito alto e recordo-me perfeitamente de andar na rua e de me distinguir pelo tamanho. Ou de comprar calças sem precisar de subir a bainha. Mas o panorama tem mudado muito. Os números não enganam: se em 2000 os portugueses continuavam a ser os mais baixos da Europa, com uma média de 1,72, a altura média dos espanhóis já só nos ultrapassava em 2 milímetros, a dos franceses em 3 e a dos suecos em 7. Apenas os holandeses se destacavam claramente dos outros habitantes da União Europeia com 1,84. A verdade é que entre 1904 e 2000 os portugueses cresceram em média 9 centímetros, com uma aceleração notável a partir dos anos 60 e do 25 de Abril, quando as condições de saúde, de higiene e de alimentação melhoraram rápida e substancialmente. Presumo que nestes últimos oito anos, apesar de tudo, a paisagem ainda tenha melhorado um pouco mais.
Isto a propósito do estudo europeu ProChildren, concluído em 2007 e cujos resultados vieram há dias publicados nos jornais. O Público de sábado passado destacava mesmo a matéria com chamada na capa e um dossiê nas páginas 2 e 3. Deixando de parte os dados sobre o peso que também eram referidos, cinjo-me aqueles que diziam respeito à altura e constato ali a afirmação algo espalhafatosa de que as crianças portuguesas são «as mais pequenas da Europa». Uma leitura atenta do artigo tempera, no entanto, uma frase tão peremptória e deprimente. Desde logo um dado essencial: o referido estudo apoiava-se em observações feitas em apenas 9 países, e destes apenas Portugal e a Espanha pertenciam ao espaço mediterrânico, no qual, historicamente, se concentram desde há séculos populações de menor estatura. Vejam-se agora os números, estabelecidos para crianças de 11 anos: 1,47 em Portugal e na Áustria, 1,48 em Espanha e na Islândia, 1,49 na Bélgica e na Noruega, 1,50 na Suécia e na Bélgica, destacando-se uma vez mais os gigantes holandeses com 1,54. Diante de tais dados, que apenas atestam o facilitismo de um certo modelo de jornalismo e o sentimento de auto-comiseração que ainda continua a dominar muitos de nós, resta perguntar se fica implícita algures a proposta subliminar de uma manipulação genética em larga escala. Já agora, podíamos aproveitar a mão e fazer-nos a todos loiros e de olhos azuis, como nos anúncios da televisão.
Ao mesmo tempo que na generalidade do território espanhol, como consequência do combate que vem sendo travado à volta da recuperação e da revisão da memória histórica, desaparecem os últimos vestígios da presença de nomes de franquistas e de falangistas na toponímia e na designação de instituições públicas, em Caldas de Reis, província de Pontevedra, Galiza, encontra-se exposta uma polémica estátua-fonte de Francisco Franco Bahamonde – muito clássica, aliás, se não for vista como exercício de pastiche –, que vomita água com a qual os passantes vão matando a sede. Esta não resultou de qualquer homenagem pública, mas antes de uma encomenda municipal para um festival de arte. Levanta, ainda assim, algumas questões interessantes: permitirá ela uma evocação do Caudillo por la Gracia de Dios ou antes a dos espanhóis que o seu regime fez garrotar? irritará os seus partidários e divertirá os seus inimigos? apoiará um momento de subversão da estética oficial do franquismo? produzirá um efeito de sublimação ou de banalização da história recente? ajudará a esquecer ou a lembrar? As respostas serão múltiplas e nem sempre unívocas. No estado actual de perda rápida da memória colectiva e de uma cada vez mais veloz mutabilidade da vida dos signos, tendo porém a olhá-la como algo que emerge como uma peça de mobiliário urbano, ademais efémera, pela qual a maioria dos cidadãos – «ni contentos, ni descontentos», como já o afirmaram alguns – passará sem prestar grande atenção. Como por um trivial recipiente para o lixo público.
Porque não sonhei eu com um iPhone3G?A maneira mais expedita de responder à pergunta será dizer: porque é bastante caro. Ou então: porque me afligiu o grau de compulsão e de desejo induzido e reproduzido pelos média à volta do pequeno objecto de consumo fabricado pela Apple. Vi mesmo olhos brilhantes na apresentação pública: um homem de barba grisalha procurando esconder a excitação, uma rapariga com o aparelho na mão falando da concretização do seu «maior sonho», outra chorando de emoção enquanto estoirava as economias de um ano inteiro. A verdade, porém, é que comigo esses argumentos poderiam ainda não ser suficientes para justificar a recusa, uma vez que por vezes gasto somas um pouco imorais em acessórios electrónicos que me acompanham para todo o lado. A forma mais exacta e honesta de justificar o desinteresse será então dizer que tenho um telemóvel, um PDA e um iPod que, juntos ou combinados, superam de longe as melhores expectativas que pudessem ter sido criadas em relação às reais capacidades do novíssimo iPhone.
Sem dúvida que é mais útil – e somando os custos até poderá resultar mais económico – trazer no bolso um «tudo em um». Fino, leve e com um design realmente brilhante e sedutor. Ou mesmo sexy, como o considerará um geek ou aquele viciado em gadgets que a esta hora já andará à procura de uma capinha cor de abóbora para o seu aparelho. Mas quando vejo que a versão topo de gama deste novo brinquedo imaginado por Steve Jobs tem capacidade para uns limitados 16 gigas de informação multimédia, não possui câmara para videochamadas, oferece uma câmara fotográfica com uma resolução de apenas 2 megapixéis e sem flash, não deixa que troquemos a bateria, não traz rádio, nem teclado mecânico, nem um miniprocessador de texto decente, pergunto-me se valerá a pena gastar 600 euros apenas para ir atrás da publicidade da Optimus, da Vodafone e dos senhores da maçã. Para pairar na crista da onda, dar nas vistas em público ou encher de inveja os colegas de trabalho. Para mim, não vale: esperarei uns tempos até que a geringonça melhore bastante e desça de preço. Até lá, continuarei a torrar o pão com uma torradeira, enquanto telefono com um telemóvel 3,5G que custou metade do preço e deixa o iPhone a muitas milhas de distância.
A condenação do sequestro de Ingrid Betancourt e da utilização de reféns como princípio de acção política feita agora por Hugo Chávez e por Fidel Castro – muito tempo depois de o poderem ter declarado com outra força e outra legitimidade, e não apenas nesta altura, sob a pressão da opinião pública mundial -, ainda que suave, deixa sem argumentos os indefectíveis defensores do carácter «glorioso» da actividade das FARC. Assobiarão para o lado ou inventarão qualquer coisa, claro. Os mais teimosos agarrar-se-ão ainda mais ao seu mundo obsoleto e perigoso. Ao seu ideal de revolução lançada contra o «inimigo de classe» e necessariamente temperada, como diria o coronel Bill Kilgore (interpretado por Robert Duvall) em Apocalypse Now, «com um cheiro a pólvora pela manhã».
Em declarações ao Expresso, a ministra da Educação negou querer governar para as estatísticas. Recusando as críticas de facilitismo vindas de quase todo o lado, afirmou até que «o ensino é hoje mais exigente». Entretanto, confrontada na RTP1 com uma subida média de 3,2 valores, em apenas um ano, nas notas de Matemática dos Exames Nacionais do Secundário, e ao contrário daquilo que foi até publicamente reconhecido por muitos alunos, negou que os critérios de avalição tivessem sido menos rigorosos. Espera-se agora que declare ser o Sol que gira à volta da Terra e não o contrário, como deslealmente insistem em afirmar determinados professores. Custa muito ver a mentira descarada e a mais rasteira demagogia – aparentemente acompanhadas de delírios persecutórios e de alucinações – a entrarem-nos casa dentro sem pedirem licença. É um mau exemplo para as crianças.
2321 dias após ter sido capturada pelas FARC-EP – durante uma acção de campanha da sua candidatura presidencial ecologista em território que estas controlavam -, Ingrid Betancourt foi finalmente libertada. Numa acção da inteligência militar e não por iniciativa daquele movimento de guerrilha, especializado em sequestros e acções de intimidação, como se apressou erradamente a afirmar Evo Morales, o presidente da Bolívia: «es muestra clara de las FARC que libera a los detenidos». Aguardamos agora as reacções de todas as partes. Lá na Colômbia, mas por aqui também.
Uma notícia destas suscita um comentário como aquele que se segue, colhido dos comentários publicados pelo Portugal Diário. Vale pelo exotismo, mas também pela amostra do caldo de cultura alucinogénio do qual se alimenta.
É preciso dizer claramente que a forma como a generalidade dos dirigentes africanos presentes na cimeira da União Africana recebeu Robert Mugabe, com toda a afabilidade e sem referirem a ilegitimidade do título presidencial que resolveu ostentar, constitui uma vergonha que mancha a sua própria credibilidade. E é uma prova do enorme desprezo que têm pelas regras da legitimidade democrática que admitem apenas quando estas lhes servem para se manterem no poder. Uma vergonha que deve ser associada também à atitude das poucas forças políticas europeias que se recusam a condenar abertamente o tirano racista e cleptocrata e o actual regime zimbabweano. O PCP, infelizmente, tem sido uma delas.
Pietro Ingrao permanece aos 93 anos, «um homem brilhante, idealista e romântico». Assume, em entrevista ao suplemento Babelia realizada a propósito da tradução espanhola do autobiográfico Volevo la Luna, que o comunismo falhou, «que o assalto ao Palácio de Inverno fracassou». Mas não se rende. Ao seu modo poético de ser comunista, de se não rebaixar à repetição e ao estereótipo, de evocar a memória rejeitando o azedume, de conservar em tempos difíceis o optimismo revolucionário, é possível admirá-lo. Mesmo quando dele nos afastamos.
São de facto impressionantes, para um país como Portugal no qual jamais existiram movimentos feministas organizados, consistentes e com uma efectiva capacidade de intervenção, o número de participações e a dimensão do Congresso Feminista que começa amanhã, dia 26, em Lisboa, e se prolonga até ao dia 28. Este será plural, com toda a certeza. E dissonante, provavelmente, porque felizmente não existe um feminismo hegemónico. Esperemos também que represente um ponto de viragem, ao qual o poder político – que nem sequer se faz representar e vergonhosamente se furtou a apoiar o evento – deveria estar atento.
PS em 29/6/2008 – Ontem o secretário de Estado Jorge Lacão esteve presente na sessão de encerramento do Congresso. Mas a sua intervenção não estava inicialmente prevista. Depois de vista a dimensão do acontecimento…
Pertenço a uma das várias gerações que viveu a infância atormentada por dois demónios. Um era o bicho-papão, essa espécie de monstro barrigudo e de voz cava que se passeava pelos telhados e perseguia os meninos que não comiam a sopa toda. O outro era o polícia-mau, designação que sempre achei redundante antes de saber que coisa é uma redundância, uma vez que no meu universo visível não existiam polícias-bons. Por isso ainda hoje, apesar de todas as operações de cosmética, dos agentes bronzeados e com patilhas recortadas, das agentes perfumadas e com pequenas tatuagens – ou talvez um piercingzinho sabe-se lá onde -, de todo o simpático arsenal de «por-favores» e de «com-licenças» que as forças da ordem utilizam para com a maioria dos cidadãos, há uma sineta que vibra em mim sempre que contacto um polícia. Talvez seja o meu anjo da guarda libertário que não dorme e me sussurra que devo suspeitar de qualquer uniforme engomado ou de um cassetete à cintura. Por isso achei hoje um pouco suspeita a conversa de um polícia suíço que falava à televisão portuguesa do carácter très, très, très «pacato e ordeiro» dos emigrantes que andam pelas ruas de Genève e de Neuchâtel a gritarem vivas à selecção. Conhecendo alguns dos comportamentos de muitos dos nossos emigrados nos países de acolhimento, sobretudo na Europa, parecem-me elogios a mais e fazem-me evocar o medo atávico do polícia no qual, tal como eu, muitos deles foram criados. Que gritem todos os vivas e cantem A Portuguesa as vezes que quiserem, que toquem buzinas e se maquilhem a verde-vermelho, mas que depois, passado o Euro-2008, não regressem à vil obscuridade e à dimensão «pacata e ordeira» de quem não faz valer no quotidiano os seus direitos sociais e políticos. Um desejo que é uma quimera, bem sei. Mas não custa nada lembrar-nos de que podemos concebê-lo.
A gaffe cometida por Cavaco ao referir-se ao 10 de Junho como «dia da Raça» não é mais do que isso: uma gaffe. Podemos entender, e provavelmente bem, que ela provém do lado mais obscuro da consciência atavicamente conformista desse português-padrão – capaz de conviver em paz com os valores e as palavras de ordem do antigo regime – que Cavaco foi na sua juventude. Podemos considerá-la, talvez igualmente bem, o resultado de um momento de descontracção, ou de irritação, no qual o PR baixou um pouco as guardas do cuidado político. Tratou-se de uma gaffe, de facto, caricata com todas as gaffes e que pode servir de motivo para alguma chacota. Agora falar gravemente do assunto e «pedir esclarecimentos» sobre o fundamento político de uma gaffe, como o fizeram o PCP e o Bloco de Esquerda, é algo da ordem do ridículo. Pior só mesmo o júbilo de alguma direita, que levou igualmente a sério as palavras disparatadas do presidente.
Por muitas conjecturas que se possam fazer a propósito dos processos de mobilização ou acerca da polémica em torno das palavras de ordem (calcule-se lá por causa de quem eclodiu ela…), uma manifestação com esta que hoje juntou em Lisboa bem mais de 200.000 pessoas, na rua contra a proposta de revisão do Código do Trabalho, é um poderoso sinal de protesto e deveria representar um alerta para o governo. Por muito menos que isto se estatelou o primeiro-minstro Cavaco no seu segundo mandato. Estão à espera de quê os nossos socialistas de gabinete para saírem dos casulos climatizados e experimentarem um pouco de realidade?
Seria um trabalho demorado, fastidioso e provavelmente inglório tentar decifrar junto de muitos militantes do PCP as razões pelas quais a restante esquerda rejeita colaborar com eles ou então o faz com as maiores cautelas. São anos e anos, muitas décadas, quase um século, de afastamentos, de incompreensões e de combates pela hegemonia. E repare-se que não me estou a referir à rejeição de uma esquerda mais um menos radical por parte do partido, mas sim ao seu contrário: a recusa por parte da autoproclamada «esquerda da esquerda» ou da «esquerda democrática» em chamar a si pessoas, comunistas, que, tanto pelo seu passado quanto por algumas das causas que incorporam, até seria natural que aproximassem de alguns dos seus objectivos. As dificuldades aumentam, aliás, quando começamos a descer o nível geracional das partes envolvidas: salvo raras e caquécticas excepções, os comunistas mais velhos são pessoas a quem a vida foi ensinando a combinar as convicções mais ou menos inflexíveis que detêm com algum sentido prático no relacionamento com os seus hipotéticos compagnons de route. Mas quando descemos um pouco no tal declive geracional, a prática resvala quase sempre para a impossibilidade total do diálogo político e de uma aproximação no terreno. Basta seguir-se, no limite, o discurso de alguns blogues da autoria de jovens comunistas onde se sucedem textos povoados de chavões longevos e de inamovíveis declarações de princípios, de proclamações de ódio a quem possa contestar as suas convicções, explicadas muitas das vezes com base num indigente arsenal dogmático confinado a citações de Lenine.
Um bom exemplo desta incapacidade de adequação e de diálogo pode, porém, ser encontrado em pessoas cuja experiência poderia significar outra ponderação da realidade. Num texto completamente rancoroso ao qual cheguei através de um post publicado por João Tunes, uma jornalista responsável pelo Avante online aplica-se a abordar o comício «unitário» do Teatro da Trindade – abaixo mencionado, como se terá percebido, sem qualquer entusiasmo da minha parte – referindo-se a uma «esquerda alegre», ou a uma «esquerda em festa», como qualificativos destinados a menorizar sectores com os quais os comunistas deveriam procurar conviver, e que, no seu todo, até representam hoje um universo eleitoral provavelmente mais alargado que o do próprio PCP. Eles recordam-me epítetos rigorosamente iguais, velhos de quarenta anos, utilizados no passado para designar os esquerdistas, ou os «esquerdalhos», que ensaiavam vias próprias de combate à ordem estabelecida. Na austeridade do espírito de seita que os seus cultores mantêm, na sisudez da uma atitude rigorista perante a política e perante a vida que procuram afirmar, na fé simplista e sofredora do seu credo escatológico, são incapazes de perceber uma coisa tão simples como o lugar central da dimensão festiva (e não apenas o «da Festa do Avante!») na mobilização para a vida colectiva e para a política das novas gerações e dos agora decisivos sectores intermédios da sociedade. E continuam a considerá-lo um atestado de menoridade política ou de degradação ideológica. Não querem saber de uma das principais (ou das poucas, consoante a perspectiva) lições do Maio de 68, que continua a entrar-lhes por um ouvido e a sair-lhes pelo outro, deixando de permeio apenas a incompreensão e a animosidade. Não é coisa da qual devamos rir-nos, aqui deste lado um pouco menos sectário e um pouco mais «festivo» da vida.
Uma das mais impressionantes descrições do horror da guerra, da total combustão provocada pelas bombas de enorme potência, da devastação para além do imaginável, foi produzida por Sebald na História Natural da Destruição, ao descrever Hamburgo reduzida, em Julho de 1943, a escombros, fantasmas errantes e cadáveres feitos em papa. E no entanto o escritor alemão referia-se a uma devastação silenciada, olhada durante décadas como justificável por ter acontecido do lado dos vencidos. Não tanto os nazis, que esses puderam sempre suicidar-se ou mudar de identidade, mas todos aqueles, pessoas mais ou menos comuns, que viram desmoronar-se o prometido «Reich de Mil Anos» e deveriam expiar até ao fim, na humilhação, no silêncio e na carne, a cumplicidade, involuntária ou não, com um horror considerado maior pelos vencedores.
Não me surpreende, pois, o emudecimento daqueles que calam hoje os crimes resultantes das bombas largadas nos últimos vinte anos sobre todo esse território, vasto e arenoso, que vai de Gaza até Cabul. Aqueles que mais de perto têm experimentado o seu impacto não estão do lado dos vencedores, pouco sabem do que representou Auschwitz, e jamais ouviram falar do Gulag ou mesmo de Guantánamo. Pouco sabem até das «fronteiras bíblicas» que lhes são atribuídas. Ou da liberdade da qual falam em seu nome. Não escolhem nem sabem que podem escolher, apenas vivem. E o horror que conhecem, e o ruído dos voos rasantes dos F-16 dos quais nos falam os títulos da manhã, apenas lhes importam na medida em que lhes interrompem os hábitos de sobrevivência. Vistos daqui do nosso conforto, ou lá de cima desde os cockpits, são apenas pontos negros que se movem e que olhamos com a mesma dose de piedade que experimentamos ao olharmos as moscas de verão liquidadas com um jacto de spray. O horror dos outros não existe quando o não vemos ou desviamos o olhar.
Publicado originalmente, por convite, no Corta-Fitas
Pelos ecos que vão chegando, o comício-festa com bilhete de entrada que reuniu no pequeno Teatro da Trindade bloquistas, ex-pintasilguistas (que las hay, las hay), renovadores comunistas, Helena Roseta e Manuel Alegre, supostamente para «comemorar Abril e Maio» numa noite de Junho, não excedeu as expectativas: uma invocação do futuro na evocação do passado. A paisagem fotográfica que nos é revelada pelos jornais em papel e em linha acompanha-a: é incontornavelmente triste e soturna. Assim não vamos lá.