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O intelectual e o aparátchik

A intelectual

O Houaiss considera intelectual aquele «que vive predominantemente do intelecto», dedicado a actividades «que requerem um emprego intelectual considerável». Ou então o sujeito que mostra «gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes», por isso considerado «erudito, pensador, sábio». Este é também o significado atribuído à palavra pelo cidadão comum, aplicado em regra ao ser raro, de socialização difícil e elevado número de dioptrias. Que habita esse limbo separador das pessoas vulgares, a quem a leitura e o conhecimento que dela se desprende de pouco ou nada servem, dos deuses e semideuses que não precisam conhecer pois são já omniscientes.

Como meio mundo sabe, o termo surgiu no final do século XIX e foi divulgado a partir da intervenção de Émile Zola e de Anatole France na polémica em torno do caso Dreyfus. Associado a uma participação cívica que distinguia aquele a quem se aplicava, afastando-o do perfil do sábio confinado à sua torre de marfim. Para Maurice Blanchot, a condição intelectual aplicava-se «a uma parte de nós mesmos que não apenas nos desvia momentaneamente de nossa tarefa mas que nos conduz ao que se faz no mundo, para julgar e apreciar o que se faz». Não existiria, portanto, a figura do intelectual que era apenas um «sábio» em tempo integral: para se transformar num intelectual, o «indivíduo culto» precisava desdobrar-se, acumular funções diversas, deixar de lado os saberes particulares, para se dedicar em full-time ao trabalho da crítica e à luta por aspirações universalizantes. Interpretando o passado e o presente visando a construção ideal do futuro. Foi neste sentido que Antonio Gramsci, entendendo que «todos os homens são intelectuais» uma vez que pensam e reflectem sobre o mundo utilizando o seu próprio conhecimento, considerou que «nem todos desempenham, na sociedade, a função de intelectuais». Estes têm então uma missão a cumprir, dando corpo, como elementos orgânicos, não só ao movimento social mas a todo um trabalho cultural que a este deve encontrar-se associado.

Só que este papel apenas ganha destaque quando, através da sua intervenção reflexiva e do seu saber, o intelectual se mostre portador de uma certa «autoridade científica», sendo através da sua imagem social – alcançada através da projecção pública que obtém como político, professor, cronista, jornalista, escritor ou artista – que estabelece relações com a sociedade e assegura um estatuto ao mesmo tempo privilegiado e dinâmico. Edward Said fala, nesta direcção, do intelectual como «figura representativa». Alguém que representa um ponto de vista e que o faz de modo necessariamente público – falando, escrevendo, ensinado ou aparecendo na televisão – o que envolve inevitavelmente, e em simultâneo, «empenhamento e risco, arrojo e vulnerabilidade». Sempre em cena, portanto. E sempre na corda-bamba também. Desenvolvendo, como sugeriu Foucault, uma forma de «sacerdócio» que deriva tanto das suas posições sociais e políticas quanto da competência científica que mostra.

Um conjunto de factores explica, entretanto, o recuo, hoje visível, deste modelo de intelectual que busca, através dos seus actos públicos, uma aliança entre ética e política. Em primeiro lugar, o enfraquecimento das ideologias do progresso e a ascensão dos valores individualistas, desviando o intelectual de uma missão com um sentido claro que deveria dar voz aos interesses da comunidade. Em segundo lugar, a especialização dos saberes, condenando a uma gradual irrelevância social esse tipo de pessoas que sabia de tudo um pouco, que falava de tudo um pouco, sem jamais se vincular, como diz hoje o jargão, a «competências específicas». Em terceiro lugar, a intervenção dos média, que retirou público e diminuiu o palco no qual elas tinham lugar cativo, assim as afastando do indispensável protagonismo. Em quarto lugar, a disseminação da capacidade de intervenção dos cidadãos, reduzindo a necessidade de figuras-tulares capazes de funcionarem como porta-vozes ou catalisadores dos interesses (o aparecimento dos blogues reforçou, aliás, esta situação). E em quinto e último lugar, a perda de capital simbólico da figura do pensador independente, reconhecido pela sua dimensão moral e de rectidão, pela coragem da opinião única, por troca com o político de aparelho, frequentemente um pragmático de recorte dúctil, traduzido fisionomicamente no aparátchik que não diz o que pensa mas aquilo que o aparelho espera que ele diga. A desastrada carreira partidária de dois dos nossos últimos intelectuais e o achincalhamento a que têm sido submetidos por parte de alguns dos seus ainda ou ex-correligionários – refiro-me a José Pacheco Pereira e a Vasco Pulido Valente, não estando aqui em causa as suas opiniões, mas sim a sua atitude – ilustram bem esta incompatibilidade.

Por tudo isto me parece inapropriado, para não dizer bastante caricato, a crescente invocação da figura do ministro Augusto Santos Silva, que tenho visto mencionada em publicações periódicas e em blogues, como a de um (ou a «do») «intelectual do PS». É que não basta ser-se professor catedrático, terem-se dado aulas numa universidade, editado alguns livros e artigos, escrito artigos de opinião nos jornais e citado Pierre Bourdieu para se ser considerado um intelectual. À maneira zoliana, bem entendido. É preciso, isso sim, assumir-se um perfil moral e de independência, de militância e de ousadia, de coragem e de capacidade de análise, que não combina com um discurso público previsível, sem capacidade de mobilização, subserviente em relação às estratégias mais imediatas e comezinhas do poder. Se a pessoa em causa fosse de facto um «intelectual do PS», utilizaria o seu lugar privilegiado para ajudar a superar o tacticismo cego, para mobilizar o seu próprio partido e a sociedade em favor de uma percepção crítica e de uma dinâmica mais acentuadamente política da actividade de governação. Não se mostrando apenas como uma espécie de cônsul provisório dos aparátchiki.

    Atualidade, Opinião

    Consoada em Israel, Natal em Gaza

    Gaza

    Tem sempre algo de cegueira a atribuição do exclusivo da culpa aos políticos e aos militares israelitas, esquecendo que a violência se tem desenvolvido num contexto de guerra onde não são simples, e muito menos transparentes, as orientações estratégicas e os processos de actuação. Como se o combate fosse apenas entre judeus inequivocamente «maus», medidos todos pela mesma bitola, merecendo continuar a penar, errando de terra em terra até ao fim dos tempos, e os árabes, acantonados nos estados despóticos da região ou nos territórios autónomos, adeptos da causa palestiniana e «bons» por natureza. Como se a solução política e histórica do conflito israelo-palestiniano não passasse por um entendimento obrigatório, ainda que distante e com toda a certeza difícil de obter, entre os moderados que, de um e do outro dos lados, não apelam liminarmente ao extermínio do «inimigo». O anti-semitismo tem muitas caras e uma delas passa pelo menosprezo do sistema democrático que rege o Estado de Israel desde a sua fundação diante de uma dimensão, supostamente «popular», mais «democrática», das correntes próximas do radicalismo religioso – pois o velho «socialismo islâmico» está morto e enterrado – que praticam a suprema honra de combaterem de armas na mão, ou de bombas à cintura, o amaldiçoado judeu e os seus aliados ocidentais. Mas as coisas, felizmente, não são redutíveis a análises monoculares que colocam o fígado acima da inteligência.

    Por isso tem pouco de honesta a leitura do mortífero ataque de hoje lançado pelos israelitas sobre a faixa de Gaza – controlada com punho de ferro pelo Hamas após expulsão da Fatah, é bom que se não esqueça – omitindo ao mesmo tempo, declaradamente, que esta ocorreu após o bombardeamento de diversas cidades israelitas por parte do mesmo grupo radical, causando também um elevado número de vítimas. Tratou-se de um acto de represálias, evidentemente. Condenável sem dúvida, como foi condenável o bombardeamento sobre civis lançado pelo Hamas. Mas natural em estado de guerra, que é aquele que se vive na região. A solução, nestas circunstâncias, como já Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, contra muitos dos seus, haviam percebido, encontra-se pois numa demanda efectiva da paz. E não na justificação da «bondade» natural de um dos lados em guerra em prejuízo da «maldade» absoluta do outro.

    Estranho ainda é falar-se – como o fizeram, uma vez mais, diversos jornalistas e alguns bloggers – da malévola exacerbação do conflito, por parte dos israelitas, «em plena época de Natal». Como se não estivéssemos a falar de um universo cultural essencialmente composto de árabes e de judeus que pouca importância atribuem ao menino nas suas palhinhas. Uma lapalissada que parece necessário repetir como uma mantra, pois todos os anos é esquecida. Quem desencadeou a violência quis, obviamente, provocar os falcões do exército israelita, que toda a gente sabe terem dedo fácil no gatilho e reagirem seguindo a lógica do «dispara primeiro e pergunta depois». E quis ainda desafiar o ocidente, de matriz cristã, que tende hoje a fomentar uma solução de conciliação – e, provavelmente, mais tenderá ainda a promovê-la com o início da intervenção política de Barack Obama – com uma declaração formal e bastante ruidosa de princípios e de intenções. Por isso escolheu uma vez mais esta época do ano, supostamente pacífica, na qual se ouve melhor o estrépito da metralha. Uma vez mais também, houve por estes lados quem mordesse rapidamente o isco.

      Atualidade, Olhares, Opinião

      O obsceno dedo médio

      O dedo médio

      De acordo com a revista Exame Informática, um tal Centro de Estudos da Toshiba considera que durante este ano terão sido vendidos em Portugal cerca de um milhão de computadores portáteis. O mesmo organismo estima que existam neste momento à roda de 2 milhões de portáteis em funcionamento nas casas e nas empresas portuguesas. Tratando-se de um país de cerca de 11 milhões de habitantes, o número é de facto impressionante, ainda que não tanto quanto o dos telemóveis, que ronda já os 15 milhões. Mas se neste caso a quantidade anunciada é perfeitamente plausível, dado o número de aparelhos inactivos ou obsoletos que permanecem registados, no que respeita aos computadores o anúncio tem a ver com uma vaga recente. A minha profissão situa-me numa área de actividade na qual a integração do computador no quotidiano das pessoas é das mais elevadas, mas ainda assim não me parece que a percentagem de infoincluídos – inserindo-se nestes aqueles que ainda usam computadores antigos, lentos e com sistemas operativos rançosos – seja sequer comparável à avançada pelo estudo da Toshiba. Por esse motivo, arrisco dizer que ela mais parece uma manobra para que o público passe a aliar à compra do portátil a mesma imagem que em tempos foi associada aos telemóveis: quem não possui um verá bastante diminuído o seu grau de prestígio e a sua capacidade de integração na sociedade de mercado, e quem puder afagar o touchpad com o obsceno dedo médio sentir-se-á um conquistador.

        Atualidade, Cibercultura, Olhares

        Á-bê-cê

        António

        O facto desses países viverem subordinados a regimes despóticos, autoritários ou populistas não justifica que se silenciem os dados conhecidos: depois de Cuba e da Venezuela, a Bolívia é o terceiro país da América Latina a proclamar a erradicação do analfabetismo (e o próximo a juntar-se ao clube deverá ser o Paraguai). Poderão os que o proclamaram não ter em conta a dimensão e a fácil reincidência do «analfabetismo funcional», poderão cantar uma vitória à maneira de Kruchtchev quando decretou o triunfo definitivo do «comunismo integral», mas seja como for trata-se de uma meta positiva que foi alcançada. Sob este aspecto, demonstrando que determinados objectivos se alcançam com pouco dinheiro pois dependem essencialmente da vontade política de quem governa e da mobilização dos cidadãos, deram uma bofetada na cara dos cordatos governantes democráticos que se limitam a empurrar os menos preparados para fora dos seus projectos de desenvolvimento. Com direito a pensão de sobrevivência, naturalmente.

          Atualidade, Democracia

          Odor em tempo de guerra

          Garbage

          Os problemas de tesouraria das instituições universitárias – ou, mais concretamente, a gradual desresponsabilização do Estado em relação aos custos de manutenção do ensino superior público –  têm forçado todas elas a prodígios de engenharia financeira e a alguns cortes dramáticos. Como sintoma de que o alerta vermelho se encontra activado, até 5 de Janeiro a Universidade do Minho irá mesmo desligar a corrente eléctrica e reduzir ao mínimo a segurança e a limpeza em diversas instalações. Mas determinadas medidas são de deixar qualquer cidadão com a impressão de que existe qualquer coisa de errado na definição daquilo que deve ou não ser prioritariamente cortado. De acordo com o Público, o Instituto Politécnico de Portalegre decidiu, por exemplo, diminuir o número de banhos dos estudantes que vivem nas residências universitárias. Suspeito que aquilo que assim se poupar acabará por ser dispendido em desodorizante ambiental ou com custos de saúde, e tenho a impressão de que este tipo de medida apenas costuma ocorrer em tempo de guerra ou de catástrofe natural, mas a gestão do IPP lá avaliará as suas prioridades.

            Atualidade, Etc.

            A guerra do fogo

            «Rebelião»

            Para Frantz Fanon, os «condenados da Terra» não se insurgem apenas contra a miséria e a fome, mas também contra a contínua humilhação a que são submetidos. A sua lição não foi no entanto assimilada por aqueles a quem, no que ainda há pouco tempo era o território do Estado-Providência, competia assegurar a moderação dos desequilíbrios sociais e a integração daqueles que eram empurrados para a exclusão. Então, quando a ira coletiva sobrevém, os obstáculos a desmantelar pelos revoltados não podem ser escolhidos de forma racional. Quando fala das condições de emergência nas sociedades contemporâneas de uma nova forma de guerra civil, Hans Magnus Enzensberger relembra trechos de uma destruição que se revela exprimindo «a raiva pelas coisas intactas, o ódio a tudo aquilo que funciona.» Pelo caminho dessa rebelião em estado puro, geralmente praticada em horda, tudo é reduzido a escombros: o mobiliário das salas de aulas é destruído, os pneus são furados, os automóveis incendiados, os sinais de trânsito inutilizados, os jardins ficam cheios de fezes e de urina, os telefones de emergência são inutilizados com alicates, as vidraças das pequenas lojas são partidas à pedrada, os quiosques são assaltados, grafitti cobrem as paredes com frases que se amontoam e se anulam umas às outras. É verdade que, muito provavelmente, a maioria não quer a destruição, mas, como nota ainda Enzensberger, «a maioria é muda, ninguém lhe presta atenção, sempre que tem oportunidade vira as costas à luta e foge». Refugia-se então nos seus lares, por detrás dos monitores onde se reproduz, a uma distância segura, o tumulto que ficou na rua. E esfrega as mãos de contentamento, imaginando que lhe escapou. (mais…)

              Atualidade, Democracia, Opinião

              No horizonte

              Horizonte

              Independentemente do apreço que me merece o seu primeiro mentor – no meio de outras boas razões, não esqueço, desculpem lá a pirosice, que ainda ouvi a Voz da Liberdade num rádio de pilhas e cantarolei E alegre se fez triste enquanto seguia de comboio para uma breve clandestinidade – declaro à cabeça que não aprecio particularmente o dialecto «alegrista». Ele conserva parte do reservatório temático do antigo ideário republicano e um «sentimentalismo de esquerda» que assenta mais na declaração mais ou menos nostálgica de princípios vagos do que num programa para a acção. Também me incomoda um pouco um discurso algo moralista que declara, e certas vezes alardeia, uma heráldica de valores cujo sentido a larga maioria dos cidadãos com menos de quarenta anos tem dificuldade em decifrar e, sobretudo, em utilizar. E, no entanto, tendo a olhar com simpatia o eventual aparecimento de uma força que, não oferecendo ao «alegrismo» um lugar central mas incorporando a lógica de anti-aparelhismo e de humanização da governação que lhe permitiu um tão flagrante apoio nas últimas eleições presidenciais, nos possa libertar do círculo vicioso dos símbolos repetidos. E que nos limpe, nem que seja apenas por algum tempo higiénico, da mancha de prepotência, sem desígnio ou vitalidade política, de um «blairismo» de fim-de-festa que o PS de José Sócrates tem continuado a destilar como uma peste. Basta essa vaga expectativa para justificar alguma atenção ao que parece mover-se no horizonte.

                Atualidade, Opinião

                Profes

                Atenas

                Alguns jornais dizem a verdade mas não dizem toda a verdade. Uma parte da verdade é esta: «Professores universitários formaram uma cadeia humana em torno do edifício da Universidade de Atenas.» O complemento desta verdade parcial é o seguinte: aqueles professores, pelas imagens televisivas quase todos com mais ou bem mais de cinquenta anos – pois não é apenas o corpo docente do ensino superior português que está a ficar preocupantemente envelhecido –, formaram o cordão para defenderem a sua escola. De quê? Da pilhagem e da destruição, imposta por alguns bandos que debaixo da capa de impunidade criada pela actual situação insurreccional se preparavam para assaltar, e provavelmente vandalizar, as instalações da Universidade. O seu trabalho e o lugar da sua da actividade diária estavam em causa, e alguns, particularmente perturbados pela emoção, declararam aos jornalistas que por aquela missão não se importariam de dar a vida. Um exagero, claro, mas nestes momentos conservar a calma e procurar uma retórica de convencimento nem sempre é fácil.

                  Atualidade, Democracia, Olhares

                  Visão cubana

                  Cubana

                  O último número da Visão/História tem como tema «Cuba – 50 anos de Revolução». Trata-se de um conjunto de artigos, testemunhos e cronografias que conduzirá alguns leitores a uma revisitação da memória da tomada do poder pelos rebeldes da Sierra Maestra e dos anos inaugurais da sua experiência de poder. Para a maioria deles, porém, não produzirá esse efeito: servirá sobretudo de utensílio para se entender um pouco melhor uma das experiências colectivas mais importantes, controversas e perenes do último meio século.

                  A revista tem algumas falhas, evidentemente. Desde logo a inexistência de um texto apologético do regime. E não seria difícil encontrar quem o escrevesse de boa vontade. Dado o magnetismo que a experiência cubana ainda conserva, ele deixaria perceber/ler uma perspectiva mais fideísta. Já o artigo sobre o Che é um tanto insípido, quase omitindo o seu lado autoritário, a importante dimensão carismática e o ascetismo insubmisso dos últimos tempos. E ficam por tratar as suas crescentes divergências com Fidel, que o regime de Havana faz por apagar. No entanto, em parte foram elas que levaram Ernesto Guevara a deixar Cuba a caminho do seu mandato internacionalista. O testemunho do ex-embaixador Alfredo Duarte Costa – lamentável no modo como enfatiza o trato cortês de El Comandante, que conheceu em privado, como sinal de que as críticas de que este tem sido alvo «pouco ou nada têm a ver com a realidade» –, nega até essa incompatibilização, dando como prova a sua carta formal de despedida e o testemunho-mantra da «viúva oficial». Para se perceberem melhor os limites desta «argumentação», bastará a leitura da biografia do Che escrita por Pierre Kalfon. Negativo é ainda o facto da repressão sistemática sobre a dissidência interna ser mencionada de forma demasiado suave.

                  Estes reparos não são suficientes para anular o interesse da publicação. Para além de um reconhecimento útil de dilemas actuais, nela se ouve ainda, em diversos momentos, o eco da enorme e quase consensual simpatia com a qual, nos inícios da década de 1960, uma grande parte de elite intelectual e da juventude portuguesa da classe média olhava a revolução, empolgante e única, protagonizada pelos barbudos. No testemunho que prestou à revista, Nuno Teotónio Pereira evoca o modo como correram as coisas em 1963, no Congresso da União Internacional dos Arquitectos que teve lugar em Havana e ao qual assistiu. Não escondendo o entusiasmo que então se sentia no ar e que partilhou, recorda: «Regressei a Portugal sem fazer a barba. Até hoje.»

                    Atualidade, História, Memória

                    Carta 08

                    China

                    Entre nós corresponderia apenas ao exercício de um direito. Mas trata-se de uma petição lançada por mais de trezentos proeminentes cidadãos chineses, e na China – esse paraíso do capitalismo selvagem e da desigualdade que vive silenciado pelas estruturas repressivas do «socialismo de Estado» – é considerada pelas autoridades como criminosa. O que mais tarde ou mais cedo deixará de acontecer: assim a Carta 08 – que aqui se reproduz – encontre uma receptividade pública  idêntica àquela que teve a Carta 77 na velha Checoslováquia.

                      Atualidade, Democracia

                      O exemplo

                      Parlamento

                      A pergunta já circula por aí. E só os nomes e as funções vão variando consoante os lugares. Se «eles» podem picar o ponto e dar de frosques sem qualquer problema, porque não o podem fazer também o Sr. Cipriano da portaria e a D. Ermelinda das fotocópias?

                        Atualidade, Etc.

                        A.A.B.

                        Os obituários nem sempre lembram apenas pessoas que se foram embora sem avisar. Evocam também aquelas que foram partindo sem que o percebêssemos, vergadas e silenciadas, sempre demasiado cedo, ao peso dos anos, da saúde e do esquecimento. Até chegarem a uma ausência em vida que antecipou a anunciada morte. Então revemo-nos revendo-as, temendo e tremendo, e calando-o até para nós próprios, pelo nosso futuro.

                          Apontamentos, Atualidade

                          Por acaso

                          O fim do Pacto
                          «Revolucionários profissionais» segundo o Que Fazer? (1902), de V. I. Lenine: Gustav Husák (76 anos, ex-desempregado, funcionário do Partido Comunista da Checoslováquia), Todor Jivkov (78 anos, operário tipógrafo, funcionário do Partido Comunista Búlgaro), Erich Honecker (77 anos, operário da construção civil, funcionário do Partido Comunista Alemão), Mikhail Gorbachev (58 anos, licenciado em economia, funcionário do Partido Comunista da União Soviética), Nicolae Ceausescu (71 anos, operário sapateiro, funcionário do Partido Comunista Romeno), Wojciech Jaruzelski (66 anos, camponês, militar, funcionário do Partido Comunista Polaco) e Janos Kádár (77 anos, operário tipógrafo, funcionário do Partido Comunista Húngaro).

                          Existem acasos curiosos. Lia no Expresso um artigo de José Pedro Castanheira sobre a eleição do novo Comité Central do Partido Comunista Português e a sua composição. Ali se referia que, dos seus actuais 158 membros, 100 são funcionários do partido, 6 são funcionários da JCP, e, dos restantes, a maioria tem ocupações como sindicalista a tempo inteiro, deputado ou autarca, mas antes de o serem foram também funcionários do PCP. Pouco depois, ao procurar uma matéria na Internet, dei de caras com a fotografia acima reproduzida, tirada em Bucareste a 7 de Julho de 1989, cerca de quatro meses antes da Queda do Muro de Berlim, durante a derradeira reunião dos chefes dos partidos e dos estados do Pacto de Varsóvia após a qual se tornaram irreversíveis «a destruição da URSS e as derrotas do socialismo no Leste da Europa» (in Teses do XVIII Congresso). E não pude deixar de reparar na composição social do grupo. Só o leitor poderá dizer se faz ou não algum sentido esboçar uma analogia entre os dois momentos.

                          Adenda –  Não, não se trata de desvalorizar a inevitabilidade de funcionários desta natureza. Em democracia ou em ditadura, eles existem para cumprir profisionalmente determinadas tarefas. Mas sim de chamar a atenção para o estilo de «ligação à vida», comendo e respirando sempre o mesmo ar, que desenvolvem pessoas com vinte, trinta, cinquenta anos de casa como funcionários partidários ou sindicais. E o que isso provoca em partidos ou sindicatos nos quais a maioria esmagadora dos dirigentes se encontra nessa situação. Os da fotografia acabaram como se sabe.

                            Atualidade, História, Memória

                            O meu post fútil do mês

                            José Sócrates

                            Só quem é cego ou não diferencia um par de atacadores de um laço de usar ao pescoço não reparará na forma moderna e cuidada de José Sócrates se ataviar. E, já agora, de se calçar e de cortar o cabelo (sim, que aquele corte dispensa o pente no bolso de trás das calças). No panorama masculino da política portuguesa ele representa, sem qualquer dúvida, um caso insólito. Para além de penoso, seria bastante enfadonho enumerar aqui as figuras públicas masculinas de porte sem gosto, antiquado ou mesmo grotesco, muitas delas até bem mais novas que o primeiro-ministro, que desfeiam os nossos dias. Aliás, a tendência geral integra-se numa tradição antiga, historicamente ancorada na estética burguesa oitocentista, pós-calvinista e pós-revolucionária, que considera serem apenas as mulheres a terem o direito à cor e ao bom aspecto. «Os homens não se querem bonitos», diz o adágio português, acentuando uma tendência que na Península Ibérica se cruzou ainda com uma sobriedade estimulada pela legislação anti-sumptuária do século XVIII. Para os cavalheiros reserva-se então a sobriedade escura, cinzenta, agora apenas dourada por um nó de gravata «à Windsor», ou, vá lá, um corte de cabelo à Santana Lopes. Suspeito mesmo que algum político caseiro apanhado a ler a Esquire ou a Men’s Health (para não falar da Arena), ou a quem se descubra a estranha mania de usar cremes hidratantes e regeneradores, possa ver definitivamente comprometida a carreira. O pessoal das «jotas» sabe-o muito bem.

                            Por isso não me espanta que o diário espanhol El Mundo tenha considerado Sócrates, mais os seus trajes Armani e os seus sapatos Prada, como dando corpo, e provavelmente também alguma alma, ao 6º homem-figura pública «mais elegante do mundo». O galardão, que colocou Karl Lagerfeld em primeiro, Roger Federer em segundo, Barack Obama em terceiro e Brad Pitt em quarto lugar, apenas contém uma inexplicável nódoa: Carlos de Inglaterra encontra-se, apesar do seu look enfatuado e, peço perdão, algo asinino, classificado em 8º lugar (ok, mas sempre usa uma roupinha «à Príncipe de Gales»). Para quem todos os dias tem de suportar governantes mal vestidos, deputados com gravatas horríveis, sindicalistas com bigodes inestéticos ou desportistas com penteados de pesadelo, a imagem visual de Sócrates até poderia constituir um lenitivo. Isto se o nosso primeiro se visse menos e falasse num outro tom, evidentemente. Não se pode ter tudo. Visualmente falando, claro.

                              Atualidade, Etc., Olhares

                              Delação

                              Também me parece isto que fizeram a Sofia Loureiro dos Santos – pessoa que por acaso que nem conheço pessoalmente – um acto repugnante que não pode passar em branco. Não importa se estou ou não de acordo com  ela na «questão dos professores» (e provavelmente até nem estarei): trata-se de um caso de preservação da liberdade de opinião e do direito de cada um à privacidade e ao bom nome. Exemplos de delação e enxovalho público desta natureza – agora também na blogosfera – têm infelizmente um lastro histórico bastante longo e tenebroso que me dispenso agora de mencionar.

                                Atualidade, Democracia

                                Direito ao tumulto

                                À volta da «questão dos professores» todos os argumentos possíveis têm sido adiantados, tornando-se difícil dizer qualquer coisa que não tenha já sido dita e redita. Aliás [bocejo], isto mesmo já foi por mim aqui publicado e republicado. Associadas a essa repetição, a maioria das posições que encontramos na blogosfera têm tomado partido, de forma quase sempre unívoca e até um tanto agressiva, por uma das partes. Reforma boa contra imobilismo mau, professores malandros versus ministra boazinha, bruxa má contra santos inocentes, e por aí afora. Por isso, talvez valha a pena insistir que nada do que se prende com o assunto é simples e redutível a uma caricatura da intifada.

                                Todos sabemos que existem professores, provavelmente muitos e geralmente com a complacência dos sindicatos, que sendo «em princípio a favor de uma avaliação» se recusam a admitir uma que os distinga de facto de acordo com o trabalho executado, a preparação científica e os resultados obtidos. Daí a caricata contraproposta da Fenprof pretendendo colocar no primeiro e decisivo patamar do processo de qualificação dos docentes a auto-avaliação. Mas todos sabemos também que o Ministério, e principalmente alguns dos organismos que o representam no terreno – das direcções regionais a certos conselhos executivos mais fiéis -, têm modelado a sua actuação crispada pela imposição de normas burocráticas que mais têm a ver com a redução de despesas e a apresentação artificial de resultados que saiam bem na fotografia das estatísticas do que com a eficácia e a justiça do sistema de ensino que tutelam.

                                O pior serviço que se pode fazer na tentativa de solucionar o impasse em que estamos, promovendo uma verdadeira mudança nos padrões de funcionamento do ensino em Portugal, é pois generalizar discursos sobre a maldade ou a bondade dos professores ou do governo. Como se não existissem professores que pensam pela sua cabeça e têm sentido de justiça. Como se o governo fosse completamente insensível à opinião e à experiência daqueles que governa. Mas mau também, já agora, é divulgar, como acontece num artigo de Fernanda Câncio, a ideia de que só porque eleito e apoiado numa maioria parlamentar, absoluta ou não, este governo, ou qualquer governo, possa avançar toda a sorte de medidas insensatas, apresentadas como «reforma», sem o protesto, tumultuoso se necessário, sonoro sempre, dos cidadãos directamente afectados. A democracia não se esgota nas eleições – embora não as possa ignorar, evidentemente – e eu pensava que esse era um dado adquirido por todos os democratas. Mas, claro, no fogo da luta todos nós fazemos e dizemos coisas insensatas.

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                                  Palavras perigosas

                                  Palavras

                                  O secretário-geral falou de «dimensão totalitária» ao pronunciar-se contra a lei dos partidos que impõe o voto secreto. Um conhecido militante, bloguista e comentador profissional de blogues, acusa-me algures de defender o totalitarismo ao depreciar não sei onde o significado do congresso comunista. As políticas autoritárias e autistas de Sócrates, essas todos os dias são chamadas de «fascizantes». Parece que no número 3 da Soeiro Pereira Gomes e na sua rede de sucursais ocorre neste momento um problema com as palavras. Ou não?

                                  No livro sobre Eichman, Hannah Arendt falou de uma «banalização do mal» para se referir à entrada do anti-semitismo no discurso do Estado e na esfera do público, produzindo as condições para uma normalização do Holocausto. O uso inapropriado de palavras que se referem a circunstâncias históricas e a tempos nos quais o humano e o monstruoso conviveram, desvirtuando a clareza do seu significado e atribuindo-lhes sentidos indeterminados e brumosos, pode sempre produzir um efeito análogo, trivializando o sinal de perigo que transportam nas entranhas. Podem ser ditas por ignorância ou má-fé, mas o efeito será o mesmo.

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