Em O Remorso do Homem Branco, de 1983, Pascal Bruckner combatia o masoquismo autoculpabilizador que após a Segunda Guerra Mundial tendeu a imputar à Europa e à América a responsabilidade por todos os males da História, opondo um Sul essencialmente radioso, habitado por belas pombas, a um Norte sempre agressivo, povoado de sanguinários chacais. Ali se propunha um encontro do Ocidente com o «Outro» que não dependesse da renegação da memória e dos seus valores. Em 2006, com O Complexo de Culpa no Ocidente, retomou o tema sob uma perspectiva um pouco diferente mas ainda mais controversa.
Agora a análise do sentimento de culpa é acompanhada pela prescrição de um tratamento. A tarefa proposta pelo autor francês consiste em «reconciliar a Europa com a História e os Estados Unidos com o mundo», ensinando à primeira «que não se ganham batalhas só com as armas do compromisso e do encantamento» e aos segundos «que não estão sozinhos na Terra». Tal implica a crítica de uma certa apatia política da Europa, sugerindo a possibilidade desta intervir sem complexos na transformação do mundo. Propõe-se assim «inverter a nossa relação com o passado», trocando o lamento pela convicção, a passividade pela força. Bruckner, um antigo «soixante-huitiard», apoiou em palavras e actos a eleição de Sarkozy: lendo este livro perigoso percebe-se melhor a sua traição.
Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor foi escrito durante o ano de 1991, numa altura em que o volume de estudos, de memórias e de reportagens sobre a Europa de Leste crescia muito rapidamente, com um crescente público de leitores à procura de um universo que lhe era desconhecido ou que fantasiara. Resultado da experiência pessoal, familiar e profissional da autora – Slavenka Drakulic é uma jornalista croata que antes e após o início da fragmentação da Jugoslávia teve a oportunidade rara de visitar diferentes países de ambos os lados da «Cortina de Ferro» – nele se descrevem aspectos de um quotidiano com muitas características partilhadas na generalidade dos países que viveram a experiência do «socialismo real», questionando-se ao mesmo tempo, a partir do interior, a afirmação de um modelo que se autodefinia como triunfante. Ao mesmo tempo, nos 19 ensaios aqui reunidos, fá-lo a partir de uma perspectiva feminista, singular e relevante quando se sabe que o feminismo era praticamente inexistente naquele universo, e que as vozes femininas eram ali geralmente subordinadas a um discurso colectivista que excluía a sua representação autónoma.
Drakulic assevera, a dado passo, que quem tenha crescido na Europa de Leste aprendeu desde muito novo que a política não é um conceito abstracto, mas antes uma força poderosa e omnipresente, «que influencia as pessoas na sua vida de todos os dias». Tal significa que a sua leitura dos quotidianos que relata os insere na ordem política imperante, jamais atribuindo uma grande importância à sua articulação com particularismos históricos ou culturais. Deve reconhecer-se, porém, que a sua perspectiva crítica, por vezes arrasadora, é temperada pela nostalgia de um igualitarismo, entretanto perdido, que suavizava o baixíssimo nível de vida da generalidade das populações. Fá-lo em particular no ensaio que relata o seu confronto com a miséria e o abandono com o qual, quando ali chegou pela primeira vez, veio a deparar nas ruas de Nova Iorque. Mas por outro lado, por detrás da uniformidade de comportamentos percebe-se perfeitamente, na sucessão das informações e dos testemunhos apresentados, que ocorreram cambiantes e mesmo distinções entre os diversos países comunistas e no interior da própria Jugoslávia, o que tempera uma tipificação excessiva dos métodos utilizados pelas autoridades e dos processos utilizados pelas populações para se lhes adaptarem ou os contrariarem. Quando se afirma que «foi no plano da vida quotidiana, mais do que no plano ideológico, que o comunismo realmente fracassou», insinua-se como foi principalmente uma acentuada dificuldade de relacionamento entre governantes e governados que precipitou o seu fim. Assim se escreve a uma dada altura: «se os políticos tivessem olhado, uma vez que fosse, para dentro dos nossos guarda-fatos, caves, armários e gavetas – sem ser para confiscar livros proibidos ou propaganda subversiva –, teriam visto o futuro que estava reservado aos seus magníficos planos».
Notável também é a forma poética utilizada por Drakulic no processo da escrita, transformando cada um dos capítulos deste livro numa espécie de vinheta que ilustra a condição do cidadão comum e retrata o seu quotidiano sob a realidade do comunismo. O sentido de humor evocado no título, bastante menos presente afinal do que seria de supor, é assegurado pela maneira acentuadamente sarcástica de descrever o passado e, por parte daqueles que lhe sobreviveram, por um uso irónico da memória. Um livro datado, sem dúvida, mas muito útil.
Slavenka Drakulic, Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor. Tradução de Rui Pires Cabral. Pedra da Lua, 160 págs. ISBN: 978-989-8142-11-5. Versão revista de um texto publicado na LER No. 75
A guerra não é um grande momento para subtilezas e elegâncias, salvo para quem, numa confortável posição de segurança, dela se queira servir como de um tabuleiro de xadrez. Quando a vida e a morte se confrontam, quando o medo e a impiedade se olham de frente, é impossível pensar com ponderação e falar serenamente. Qualquer pessoa sabe disso, mas sabe-o melhor quem já esteve sob fogo em teatro de guerra. Nesses momentos a linha que separa coragem e cobardia, o júbilo e o lamento, frieza e descontrolo, torna-se invisível, e qualquer um, em poucos segundos, pode passar de cordeiro a lobo. Ou o contrário. Na guerra que vivi, pude ver homens religiosos dispararem sobre crianças (e vi depois essas crianças mortas), seres que me habituei a reconhecer como pacíficos a perderem totalmente a compostura e a chorarem como bebés. E o contrário também: pessoas em quem nem tinha reparado que, num repente, foram buscar forças e coragem a um lugar desconhecido. Nestas alturas, todos dizem o que lhe vem à cabeça, gritam ou ficam imobilizados, disparam à toa ou foge, fazem juras de ódio que podem tornar-se letais quando transportam ao ombro uma espingarda-metralhadora.
Mesmo longe desses lugares terríveis, olhando-os nos monitores coloridos das nossas televisões e dos nossos computadores, esse envolvimento emotivo assalta-nos o raciocínio, torna-nos cegos e impulsivos, sendo preciso algum sangue-frio para conseguir discorrer sem levantar a voz sobre aquilo que vemos. Tarefa quase impossível, como se pode ver pelos posts que lemos sobre a guerra terrível que ocorre em Gaza, com quase todos a escreverem frases com pontos de exclamação, tomando um e outro dos lados em confronto, guardando para melhores dias a possibilidade de se questionarem sobre tudo aquilo que podem ver. Claro que os completos consensos jamais serão possíveis e que sempre existirão pessoas para quem o mundo é apenas branco-alvo e preto-carvão: essas só gritam contra a guerra porque um dos lados da brutalidade nela leva a melhor, mas anseiam pelo dia da vingança, no qual agredirão o agressor. Hoje, numa viagem matinal pela blogosfera lusitana, encontrei até um texto que compara aos nazis os responsáveis palestinianos da Fatah que se opõem ao Hamas. Outro identifica «inequivocamente» a causa da Palestina com um sinal do avanço do «fundamentalismo islâmico». Outro ainda diz da violência israelita ser esta «pior que o Holocausto». E a maioria dos comentadores, mesmo alguns dos mais clarividentes e respeitados, vê apenas a agressão israelita, não referindo que os responsáveis do Hamas possuem como meta declarada, para a qual apontam sem concessões, a «destruição de Israel», e que foram eles a quebrar o cessar-fogo, contra a posição negociadora da Fatah. Como ignoram a existência de um amplo movimento israelita a favor da paz e de um grande número de objectores de consciência que, contra o expansionismo sionista, propõem uma abordagem do conflito que passe pela aproximação entre vizinhos historicamente destinados a entenderem-se.
Observamos por todo o lado manifestações cegas, claras deturpações e mesmo mentiras (o «subcomandante Marcos» chegou ao ponto de inventar uma declaração inexistente de Barack Obama sobre o seu apoio à invasão de Gaza). E reconhecemos posições que, de tão marcadas pela «ira da guerra», se mostram inúteis, contraditórias e perigosas. Não parece que devamos ir para a rua gritar indiscriminadamente «a favor do Hamas» ou «contra Israel», sendo apenas «pelos palestinianos» e «contra os judeus». Nem escolher obrigatoriamente a posição contrária, de aplauso de tudo aquilo que o governo israelita resolva fazer, incluindo o bombardeamento metódico de populações civis com as quais os «heróicos combatentes» do Hamas resolveram misturar-se. No levantamento de uma forte corrente da opinião pública internacional, partilhando a convicção de que a paz é possível – a paz, não apenas mais um cessar-fogo – e pressionando os governos para que tomem iniciativas sérias nesse sentido, residirá mais tarde ou mais cedo uma boa parte da solução.
De acordo com dados de um estudo da Intel/Harris Interactive divulgados na nova edição em linha do semanário Expresso, está nos 46% a percentagem de mulheres americanas que preferem a abstinência sexual a ficarem sem Internet durante duas semanas. Em idêntico sentido terá ido a resposta de 30% dos homens. Mais um problema para o SuperObama resolver.
São poucas, seis ou sete, ou nem isso, as pessoas com as quais, ao longo da vida, verdadeiramente me incompatibilizei. Embora, quando já nada poderia fazer para voltar atrás, tenha concluído que em relação a duas ou três delas talvez fosse desejável que isso não tivesse acontecido. E que teria sido bom se essas pessoas pudessem ter sido trocadas por outras com quem tive forçosamente de conviver, embora a grande contragosto. Curioso é que alguns desses casos pessoais de desavença levada até à rutura se ficaram a dever a uma mesma razão, talvez incompreensível para quem considere apenas acessória a prática política: a posição de rejeição do regime cubano que a partir de certa altura, e apesar de respeitar a mensagem de esperança e utopia que um dia ele oferecera, comecei a manifestar. Não me zanguei com esses ex-amigos – ou eles não se zangaram comigo – por algum de nós ter chamado um nome feio ao outro. Zangámo-nos, na época, por causa de Fidel.
Aquilo que pode parece estranho a alguns, explica-se, no entanto, com uma relativa facilidade. Junto de uma grande parte das pessoas de quem fui ou sou próximo, pessoal ou politicamente próximo, a imagem do regime cubano, da sua realidade presente, e sobretudo do seu passado, permanecem ainda intocáveis. Mesmo junto daquelas que se viram desiludidas ou ficaram elucidadas com as experiências brutais do estalinismo e os trajetos falhados das últimas décadas do «socialismo real», Cuba permaneceu como o último dos santuários, associado a uma espécie de bem imanente que não deve nem pode ter um fim histórico e dar lugar a outra possibilidade. Ligada a uma experiência única, venerável mesmo quando se percebe, e há provas disso, que já não mobiliza e muito menos assombra.
Para compreendê-lo recuo no tempo que moldou a memória que partilhei, e ainda partilho, com essas pessoas. Quando os barbudos da Sierra Maestra tomaram o poder em Havana, já era vivo. Sabia ler, ou soletrar, o jornal que o meu avô me punha à frente todos os dias, e julgo que por causa desses momentos parte das minhas mais recônditas recordações políticas semligam à imagem daqueles homens e mulheres de porte jovem e desobediente, sublimes e diferentes para quem vivia num universo cor de cinza, ordeiro e aparentemente imutável. Anos depois, fui percebendo que aquelas imagens tinham participado de uma forma poderosa no modo como a minha personalidade foi sendo estruturada. Sei que algo de semelhante aconteceu com muita gente, mais ou menos da minha geração ou um pedaço mais velha, e um pouco por toda a parte: em Portugal, por toda a Europa, na América Latina ou até nos Estados Unidos. Falei disso com algumas, e ainda o faço de vez em quando, e li também alguma coisa sobre o assunto, como Cuba: Island of Dreams, um livro de Antoni Kapcia publicado em 2000, ou um óptimo estudo de Kepa Artaraz (de quem saiu, na Palgrave, Cuba and Western Intellectuals Since 1959).
Percebo, pois, que para muitos dos que vivem da fidelidade às causas e às convicções que os compuseram, e que pelas circunstâncias da vida não foram desenvolvendo uma capacidade de adaptação à novidade – o que não é necessariamente mau ou bom – reconhecer o falhanço e a desonra do caminho tomado pela Cuba «revolucionária» é qualquer coisa que custa a engolir. Mesmo quando se aceita que a condição de gratuitidade da saúde é importante, que a educação, apesar de não livre, é para todos – também o eram a saúde e a educação dirigida na generalidade dos países do leste europeu até à Queda do Muro de Berlim -, percebe-se, pois quem visite a ilha com os ouvidos abertos sabe que tal não chega para um número crescente de cubanos, que isso não basta para continuar a apontar Cuba como modelo. Ainda que possa bastar para uns quantos prosélitos continuarem a elogiar a caduca fortaleza que consideram um Eldorado e um modelo a seguir.
Custa sempre, de facto, descartar as marcas que pautaram os ideais de juventude, ou que nortearam toda uma vida, e foi isso que os tais dois ou três meus ex-amigos revelaram. Penso neles, nesses companheiros que perdi, furiosos com as minhas críticas à rigidez do regime de Havana, à repressão que instituiu, à violência que continua a exercer, após vai para seis décadas de vida, sobre os cidadãos que pensam por conta própria, nesta noite na qual se perfazem os 50 anos sobre a queda do ditador Batista e a bela vitória da revolução dos mal-fardados de verde-oliva. E tenho pena de que tenham parado os seus relógios algures num tempo que não volta. Num passado no qual, todavia, precisam dramaticamente confiar para continuarem a olhar-se ao espelho como gostam de se ver.
Não necessariamente menos discutíveis, mas certamente menos comuns na blogosfera que observa a realidade apenas com um dos olhos, são as palavras de Amoz Oz no artigo «Israel deve defender os seus cidadãos», divulgado hoje na edição do Público. Aqui ficam alguns extractos, à consideração dos passantes:
«O mundo árabe irá cerrar fileiras em torno das imagens atrozes que a Al-Jazira irá emitir de Gaza e o tribunal da opinião pública mundial apressar-se-á a acusar Israel de crimes de guerra. Este é o mesmo tribunal da opinião pública que se mantém insensível perante o bombardeamento sistemático das povoações de Israel.»
«Vai haver muita pressão sobre Israel pedindo-lhe contenção. Mas não vai haver nenhuma pressão semelhante sobre o Hamas, porque não existe ninguém para os pressionar e porque já não há praticamente nada que possa ser usado para os pressionar. Israel é um país; o Hamas é um gang.»
«Os cálculos do Hamas são simples, cínicos e pérfidos: se morrerem israelitas inocentes, isso é bom; se morrerem palestinianos inocentes, é ainda melhor. Israel deve agir sabiamente contra esta posição e não responder irreflectidamente, no calor da acção.»
Jimmy Walles, um dos fundadores e uma espécie de PDG da Wikipédia, acaba de lançar um apelo, perceptível de cada vez que se acede a uma das 265 versões localizadas da enciclopédia mais lida do mundo, solicitando um donativo voluntário destinado a pagar algum trabalho profissional e a melhorar a tecnologia que suporta esta ferramenta de conhecimento gratuita e aberto a todos (menos nos países que impõem um controlo rígido e alargado da informação, evidentemente). O simples facto deste apelo surgir coloca, diante de nós, a possibilidade de um dia, incapaz de fazer frente aos crescentes custos ou à concorrência de produtos análogos, eventualmente pagos mas de superior fiabilidade, este projecto magnífico poder fechar.
É quando uma hipótese destas se afigura no horizonte que aqueles de nós que vociferamos contra o abuso da Wikipédia como fonte de informação muitas vezes pouco rigorosa, ou mesmo incorrecta, utilizada por um grande número de pessoas como sucedâneo de leituras mais consistentes, completas e razoavelmente imparciais, sentimos como seria quase impossível viver sem ela com a mesma qualidade de vida. É à Wikipédia, de facto, que tantos de nós recorremos, em momentos de pressa, no trabalho ou no lazer, para recuperar aquela informação que nos ajuda quando a memória falha ou a ignorância se mostra. Já dei por mim a usar até a versão para telemóvel, durante uma aula, para relembrar uma data, o título de um livro, o nome de uma cidade ou de um autor, que entretanto me escaparam. Deixando a informação que dou sob reserva, é verdade, mas poucas foram as vezes que precisei depois corrigi-la. Já não sei, de facto, como viveria agora, na pressa dos dias, sem esta maravilhosa engenhoca. Um sentimento que julgo partilhar, aliás, com muitos milhões de pessoas. Por isso talvez devamos ficar atentos aos embaraços de Mr. Walles, o nosso «Pai Natal», 24 sobre 24 horas, em todos os dias do ano.
A entrevista dada pela bloguer cubana Yoani Sánchez, do blogue resistente Generación Y, a Patrícia Silva Alves, jornalista da revista Visão, merece um post inteiro. Mas não será por preguiça que nele me limito a citar, sem mais palavras, algumas das declarações de Yoani.
«Em Cuba, até respirar é um acto político. O Governo, a ideologia e os líderes da revolução estão presentes em qualquer decisão: desde os quilos de arroz que se comem por mês, definidos pelo racionamento, até onde passar férias. Costumo usar uma frase de uma banda rock, muito popular em Cuba, para me definir: ‘Eu não gosto de política, mas ela gosta de mim.’»
«Quando comecei a ler as primeiras novelas sobre a ditadura – estou a falar de obras como O Outono do Patriarca, de Gabriel García Márquez – percebi que havia muitos pontos de contacto entre as personagens e a minha vida.»
«Dos meus 20 colegas de turma só cinco ficaram em Cuba. Os outros emigraram. Mas não penso que fossem esses os seus planos.»
«Desde que entrei no aeroporto [após uma curta estadia na Suíça] – a maneira como te olham os militares de Havana, a maneira como te orientam para onde ir… Penso que essa impressão de controlo me marcou muito, porque vinha de um lugar onde o cidadão tem mais liberdade e, sobretudo, onde é mais respeitado.»
«Recebo muitas manifestações de solidariedade na rua. Isso é, para mim, o termómetro principal de quantas pessoas me lêem em Cuba.»
«Quando comecei o blogue, era um grito solitário. Era um exorcismo pessoal para expulsar muitos demónios: o demónio da apatia, da dor moral, do medo. Mas, aos poucos, esses demónios encontraram-se com os demónios dos outros. E isso fez do blogue uma praça pública onde há de tudo: gritos, insultos, discussões.»
«Cada pessoa que lê umas linhas do meu blogue constrói mais um milímetro do meu escudo protector. Isso não quer dizer que fique impune. Mas agora combate-se Yoani Sánchez na sombra. Com outros métodos. Fazem campanhas de difamação para isolar-me; pressionam os meus familiares e amigos. Esse tipo de coisas mais subtis, mas que também se sentem. Não é preciso estar atrás das grades para uma pessoa se sentir prisioneira.»
«A Cuba que imagino deve ter, pelo menos, um adjectivo: plural. (…) Não me imagino numa Cuba com todos os problemas resolvidos – que nunca a teremos assim – mas numa Cuba onde os cidadãos tenham a possibilidade de apontar as soluções em que acreditam.»
Na página da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique deparo com um artigo que me parece pouco sério, assinado por Alain Gresh, editor do jornal, com o título «Gaza: ‘choque e pavor’». Trata-se, a meu ver, de um exemplo de impudor cheio de boa intenções alardeado por certos analistas – mapeados entre a esquerda mais ortodoxa e aquela que se autoproclama crítica mas é incapaz de reapreciar dinamicamente o seu sistema de crenças – sempre que falam da eternizada crise do Oriente Médio. O autor parte de uma situação assustadora, sobretudo para os civis que não podem escapar-lhe, que se prende com os actuais bombardeamentos israelitas lançados sobre a faixa de Gaza. Pretende aqui, como tantos outros textos o procuram fazer, denunciar a sua brutalidade e protestar contra o seu prolongamento, o que me parece ser uma causa boa e necessária. Os militaristas israelitas não podem sentir-se livres para promoverem uma escalada sem fim e com danos intoleráveis. Mas Gresh fá-lo recorrendo a um conjunto de omissões e de insinuações que não podem servir quem pretenda proceder a uma abordagem equitativa e justa do problema, a qual passa por tudo menos pela consideração das «duas partes» – como se neste conflito seja possível separá-las com toda a clareza sem opções intermédias – enquanto antagonistas de uma luta unívoca entre o bem e o mal.
Começa por ignorar completamente a provocação do Hamas que antecedeu o ataque de Israel, traduzida no lançamento, a 20 de Dezembro, de dezenas de rockets sobre as cidades judaicas de Ashdad e Ashkelon (fala apenas da sua ténue reposta após o início dos bombardeamentos israelitas). Continua tentando provar a «legitimidade democrática» do governo islamita do Hamas quando este tomou o poder de uma forma descricionária após uma guerra de extermínio contra os militantes da Fatah que conduziu à fuga de Gaza de dezenas de milhar de refugiados palestinianos. Esquece que, como até o próprio Hamas reconhece, cerca de 250 dos mais de 300 mortos nos ataques da aviação israelita pertencem às milícias do movimento (o que não isenta de crítica esses ataques, mas indica o seu sentido primordial). Ignora a repelente estratégia dos islamitas no sentido de disseminarem quartéis e rampas para o lançamento de rockets no centro de áreas habitacionais que lhes servem de escudo humano. E, por fim, faz praticamente tábua rasa dos direitos históricos dos israelitas à presença na região, que não podem, nem devem, sobrepor-se aos dos palestinianos, mas precisam ser conformados com eles. Não seria preciso tanto para julgar um artigo como parcial e, realmente, pouco honesto.
Amos Oz tem falado repetidamente de uma inevitabilidade que ele próprio já não verá, e muitos de nós não terão também tempo de ver, que é esta, bem simples: irmãos de sangue e vizinhos, palestinianos e judeus, custe o que custar, estão condenados a entenderem-se, a colaborarem, a miscisgenarem-se até. Ainda que contra a vontade de quem, lá como aqui deste lado da Europa, sofre de miopia e se empenha teimosamente em atear rastilhos para alimentar a sua leitura maniqueia do mundo. Ao contrário deles, prefiro valorizar o sinal de aproximação entre dois universos expresso nesse instinto de proximidade, desenhado por Le Clézio em Estrela Errante, que foi possível desenvolver entre Esther, a judia que fugira aos nazis e chegava a Israel à procura de reconstruir a sua vida, e Nejma, a palestiniana que ao mesmo tempo deixava o país em colunas de refugiados, rumo ao exílio. Leio: «A água, a terra e o céu mistura-se. Há uma brisa que se espalha e oculta imperceptivelmente o horizonte. (…) Tudo está calmo no molhe.» Um dia, contra os cães raivosos, também as pessoas partilharão o destino comum dos elementos. Até que esse dia chegue, porém, convirá que não façamos por adiá-lo alinhando cegamente num dos lados do partido do ódio.
O concurso sobre «o maior russo de sempre», organizado pela televisão estatal da Rússia, revela alguns pormenores nos quais vale a pena reparar. As personalidades mais votadas foram, em primeiro, Alexandre Nevsky (o príncipe de Novgorod que no século XIII dirigiu a resistência dos russos diante dos cavaleiros teutónicos, conseguindo conservar o predomínio da fé ortodoxa, teve 11,7% dos votos), em segundo Piotr Stolipin (primeiro-ministro da Rússia a partir de 1906, assassinado em 1911, responsável por reformas económicas que procuraram estimular o mercado rural e pelo acentuar da repressão sobre as forças políticas anti-czaristas, juntou 11,6% dos votantes), e em terceiro lugar, com 11,5%, José Estaline, que dispensa apresentações (e serviu de modelo ao Alexandre Nevsky filmado por Eisenstein). Lenine ficou-se pelo sexto lugar, logo após o poeta Pushkin e o czar Pedro I, o Grande, e antes mesmo de Dostoievski e do generalíssimo Suvorov. A primeira mulher a aparecer na lista – ou melhor, a única referendável – é, como seria de esperar, Catarina, a Grande.
Tal como já aqui escrevi quando do concurso que considerou António de Oliveira Salazar «o maior português de sempre», este tipo de certame é irrelevante enquanto «sondagem de opinião» e, a ter acontecido na Rússia algo de semelhante ao que ocorreu em Portugal – o que, admito, não posso agora provar -, a «eleição» poderá ter sido condicionada por um certo número de activistas que se desdobraram em iniciativas de apoio às diversas personalidades, perante uma larga maioria de cidadãos que olhava o episódio como mero divertimento. Não deixa, porém, de ser um sintoma sobre a existência de um caldo de cultura no qual a autoridade discricionária do Estado e o nacionalismo mais agressivo emergem com factores positivos, indicadores de uma «grandeza» que se acredita perdida mas regenerável (Medvedev e Putin não foram concorrentes, vale a pena lembrar). O episódio não terá a dimensão que os meios de comunicação, sempre desejosos de estrondo, sugerem, mas não deixa de ser um factor presente no terreno. Lá como cá, sempre um pouco preocupante.
O Houaiss considera intelectual aquele «que vive predominantemente do intelecto», dedicado a actividades «que requerem um emprego intelectual considerável». Ou então o sujeito que mostra «gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes», por isso considerado «erudito, pensador, sábio». Este é também o significado atribuído à palavra pelo cidadão comum, aplicado em regra ao ser raro, de socialização difícil e elevado número de dioptrias. Que habita esse limbo separador das pessoas vulgares, a quem a leitura e o conhecimento que dela se desprende de pouco ou nada servem, dos deuses e semideuses que não precisam conhecer pois são já omniscientes.
Como meio mundo sabe, o termo surgiu no final do século XIX e foi divulgado a partir da intervenção de Émile Zola e de Anatole France na polémica em torno do caso Dreyfus. Associado a uma participação cívica que distinguia aquele a quem se aplicava, afastando-o do perfil do sábio confinado à sua torre de marfim. Para Maurice Blanchot, a condição intelectual aplicava-se «a uma parte de nós mesmos que não apenas nos desvia momentaneamente de nossa tarefa mas que nos conduz ao que se faz no mundo, para julgar e apreciar o que se faz». Não existiria, portanto, a figura do intelectual que era apenas um «sábio» em tempo integral: para se transformar num intelectual, o «indivíduo culto» precisava desdobrar-se, acumular funções diversas, deixar de lado os saberes particulares, para se dedicar em full-time ao trabalho da crítica e à luta por aspirações universalizantes. Interpretando o passado e o presente visando a construção ideal do futuro. Foi neste sentido que Antonio Gramsci, entendendo que «todos os homens são intelectuais» uma vez que pensam e reflectem sobre o mundo utilizando o seu próprio conhecimento, considerou que «nem todos desempenham, na sociedade, a função de intelectuais». Estes têm então uma missão a cumprir, dando corpo, como elementos orgânicos, não só ao movimento social mas a todo um trabalho cultural que a este deve encontrar-se associado.
Só que este papel apenas ganha destaque quando, através da sua intervenção reflexiva e do seu saber, o intelectual se mostre portador de uma certa «autoridade científica», sendo através da sua imagem social – alcançada através da projecção pública que obtém como político, professor, cronista, jornalista, escritor ou artista – que estabelece relações com a sociedade e assegura um estatuto ao mesmo tempo privilegiado e dinâmico. Edward Said fala, nesta direcção, do intelectual como «figura representativa». Alguém que representa um ponto de vista e que o faz de modo necessariamente público – falando, escrevendo, ensinado ou aparecendo na televisão – o que envolve inevitavelmente, e em simultâneo, «empenhamento e risco, arrojo e vulnerabilidade». Sempre em cena, portanto. E sempre na corda-bamba também. Desenvolvendo, como sugeriu Foucault, uma forma de «sacerdócio» que deriva tanto das suas posições sociais e políticas quanto da competência científica que mostra.
Um conjunto de factores explica, entretanto, o recuo, hoje visível, deste modelo de intelectual que busca, através dos seus actos públicos, uma aliança entre ética e política. Em primeiro lugar, o enfraquecimento das ideologias do progresso e a ascensão dos valores individualistas, desviando o intelectual de uma missão com um sentido claro que deveria dar voz aos interesses da comunidade. Em segundo lugar, a especialização dos saberes, condenando a uma gradual irrelevância social esse tipo de pessoas que sabia de tudo um pouco, que falava de tudo um pouco, sem jamais se vincular, como diz hoje o jargão, a «competências específicas». Em terceiro lugar, a intervenção dos média, que retirou público e diminuiu o palco no qual elas tinham lugar cativo, assim as afastando do indispensável protagonismo. Em quarto lugar, a disseminação da capacidade de intervenção dos cidadãos, reduzindo a necessidade de figuras-tulares capazes de funcionarem como porta-vozes ou catalisadores dos interesses (o aparecimento dos blogues reforçou, aliás, esta situação). E em quinto e último lugar, a perda de capital simbólico da figura do pensador independente, reconhecido pela sua dimensão moral e de rectidão, pela coragem da opinião única, por troca com o político de aparelho, frequentemente um pragmático de recorte dúctil, traduzido fisionomicamente no aparátchik que não diz o que pensa mas aquilo que o aparelho espera que ele diga. A desastrada carreira partidária de dois dos nossos últimos intelectuais e o achincalhamento a que têm sido submetidos por parte de alguns dos seus ainda ou ex-correligionários – refiro-me a José Pacheco Pereira e a Vasco Pulido Valente, não estando aqui em causa as suas opiniões, mas sim a sua atitude – ilustram bem esta incompatibilidade.
Por tudo isto me parece inapropriado, para não dizer bastante caricato, a crescente invocação da figura do ministro Augusto Santos Silva, que tenho visto mencionada em publicações periódicas e em blogues, como a de um (ou a «do») «intelectual do PS». É que não basta ser-se professor catedrático, terem-se dado aulas numa universidade, editado alguns livros e artigos, escrito artigos de opinião nos jornais e citado Pierre Bourdieu para se ser considerado um intelectual. À maneira zoliana, bem entendido. É preciso, isso sim, assumir-se um perfil moral e de independência, de militância e de ousadia, de coragem e de capacidade de análise, que não combina com um discurso público previsível, sem capacidade de mobilização, subserviente em relação às estratégias mais imediatas e comezinhas do poder. Se a pessoa em causa fosse de facto um «intelectual do PS», utilizaria o seu lugar privilegiado para ajudar a superar o tacticismo cego, para mobilizar o seu próprio partido e a sociedade em favor de uma percepção crítica e de uma dinâmica mais acentuadamente política da actividade de governação. Não se mostrando apenas como uma espécie de cônsul provisório dos aparátchiki.
Tem sempre algo de cegueira a atribuição do exclusivo da culpa aos políticos e aos militares israelitas, esquecendo que a violência se tem desenvolvido num contexto de guerra onde não são simples, e muito menos transparentes, as orientações estratégicas e os processos de actuação. Como se o combate fosse apenas entre judeus inequivocamente «maus», medidos todos pela mesma bitola, merecendo continuar a penar, errando de terra em terra até ao fim dos tempos, e os árabes, acantonados nos estados despóticos da região ou nos territórios autónomos, adeptos da causa palestiniana e «bons» por natureza. Como se a solução política e histórica do conflito israelo-palestiniano não passasse por um entendimento obrigatório, ainda que distante e com toda a certeza difícil de obter, entre os moderados que, de um e do outro dos lados, não apelam liminarmente ao extermínio do «inimigo». O anti-semitismo tem muitas caras e uma delas passa pelo menosprezo do sistema democrático que rege o Estado de Israel desde a sua fundação diante de uma dimensão, supostamente «popular», mais «democrática», das correntes próximas do radicalismo religioso – pois o velho «socialismo islâmico» está morto e enterrado – que praticam a suprema honra de combaterem de armas na mão, ou de bombas à cintura, o amaldiçoado judeu e os seus aliados ocidentais. Mas as coisas, felizmente, não são redutíveis a análises monoculares que colocam o fígado acima da inteligência.
Por isso tem pouco de honesta a leitura do mortífero ataque de hoje lançado pelos israelitas sobre a faixa de Gaza – controlada com punho de ferro pelo Hamas após expulsão da Fatah, é bom que se não esqueça – omitindo ao mesmo tempo, declaradamente, que esta ocorreu após o bombardeamento de diversas cidades israelitas por parte do mesmo grupo radical, causando também um elevado número de vítimas. Tratou-se de um acto de represálias, evidentemente. Condenável sem dúvida, como foi condenável o bombardeamento sobre civis lançado pelo Hamas. Mas natural em estado de guerra, que é aquele que se vive na região. A solução, nestas circunstâncias, como já Yasser Arafat e Yitzhak Rabin, contra muitos dos seus, haviam percebido, encontra-se pois numa demanda efectiva da paz. E não na justificação da «bondade» natural de um dos lados em guerra em prejuízo da «maldade» absoluta do outro.
Estranho ainda é falar-se – como o fizeram, uma vez mais, diversos jornalistas e alguns bloggers – da malévola exacerbação do conflito, por parte dos israelitas, «em plena época de Natal». Como se não estivéssemos a falar de um universo cultural essencialmente composto de árabes e de judeus que pouca importância atribuem ao menino nas suas palhinhas. Uma lapalissada que parece necessário repetir como uma mantra, pois todos os anos é esquecida. Quem desencadeou a violência quis, obviamente, provocar os falcões do exército israelita, que toda a gente sabe terem dedo fácil no gatilho e reagirem seguindo a lógica do «dispara primeiro e pergunta depois». E quis ainda desafiar o ocidente, de matriz cristã, que tende hoje a fomentar uma solução de conciliação – e, provavelmente, mais tenderá ainda a promovê-la com o início da intervenção política de Barack Obama – com uma declaração formal e bastante ruidosa de princípios e de intenções. Por isso escolheu uma vez mais esta época do ano, supostamente pacífica, na qual se ouve melhor o estrépito da metralha. Uma vez mais também, houve por estes lados quem mordesse rapidamente o isco.
De acordo com a revista Exame Informática, um tal Centro de Estudos da Toshiba considera que durante este ano terão sido vendidos em Portugal cerca de um milhão de computadores portáteis. O mesmo organismo estima que existam neste momento à roda de 2 milhões de portáteis em funcionamento nas casas e nas empresas portuguesas. Tratando-se de um país de cerca de 11 milhões de habitantes, o número é de facto impressionante, ainda que não tanto quanto o dos telemóveis, que ronda já os 15 milhões. Mas se neste caso a quantidade anunciada é perfeitamente plausível, dado o número de aparelhos inactivos ou obsoletos que permanecem registados, no que respeita aos computadores o anúncio tem a ver com uma vaga recente. A minha profissão situa-me numa área de actividade na qual a integração do computador no quotidiano das pessoas é das mais elevadas, mas ainda assim não me parece que a percentagem de infoincluídos – inserindo-se nestes aqueles que ainda usam computadores antigos, lentos e com sistemas operativos rançosos – seja sequer comparável à avançada pelo estudo da Toshiba. Por esse motivo, arrisco dizer que ela mais parece uma manobra para que o público passe a aliar à compra do portátil a mesma imagem que em tempos foi associada aos telemóveis: quem não possui um verá bastante diminuído o seu grau de prestígio e a sua capacidade de integração na sociedade de mercado, e quem puder afagar o touchpad com o obsceno dedo médio sentir-se-á um conquistador.
O facto desses países viverem subordinados a regimes despóticos, autoritários ou populistas não justifica que se silenciem os dados conhecidos: depois de Cuba e da Venezuela, a Bolívia é o terceiro país da América Latina a proclamar a erradicação do analfabetismo (e o próximo a juntar-se ao clube deverá ser o Paraguai). Poderão os que o proclamaram não ter em conta a dimensão e a fácil reincidência do «analfabetismo funcional», poderão cantar uma vitória à maneira de Kruchtchev quando decretou o triunfo definitivo do «comunismo integral», mas seja como for trata-se de uma meta positiva que foi alcançada. Sob este aspecto, demonstrando que determinados objectivos se alcançam com pouco dinheiro pois dependem essencialmente da vontade política de quem governa e da mobilização dos cidadãos, deram uma bofetada na cara dos cordatos governantes democráticos que se limitam a empurrar os menos preparados para fora dos seus projectos de desenvolvimento. Com direito a pensão de sobrevivência, naturalmente.
Os problemas de tesouraria das instituições universitárias – ou, mais concretamente, a gradual desresponsabilização do Estado em relação aos custos de manutenção do ensino superior público – têm forçado todas elas a prodígios de engenharia financeira e a alguns cortes dramáticos. Como sintoma de que o alerta vermelho se encontra activado, até 5 de Janeiro a Universidade do Minho irá mesmo desligar a corrente eléctrica e reduzir ao mínimo a segurança e a limpeza em diversas instalações. Mas determinadas medidas são de deixar qualquer cidadão com a impressão de que existe qualquer coisa de errado na definição daquilo que deve ou não ser prioritariamente cortado. De acordo com o Público, o Instituto Politécnico de Portalegre decidiu, por exemplo, diminuir o número de banhos dos estudantes que vivem nas residências universitárias. Suspeito que aquilo que assim se poupar acabará por ser dispendido em desodorizante ambiental ou com custos de saúde, e tenho a impressão de que este tipo de medida apenas costuma ocorrer em tempo de guerra ou de catástrofe natural, mas a gestão do IPP lá avaliará as suas prioridades.
Para Frantz Fanon, os «condenados da Terra» não se insurgem apenas contra a miséria e a fome, mas também contra a contínua humilhação a que são submetidos. A sua lição não foi no entanto assimilada por aqueles a quem, no que ainda há pouco tempo era o território do Estado-Providência, competia assegurar a moderação dos desequilíbrios sociais e a integração daqueles que eram empurrados para a exclusão. Então, quando a ira coletiva sobrevém, os obstáculos a desmantelar pelos revoltados não podem ser escolhidos de forma racional. Quando fala das condições de emergência nas sociedades contemporâneas de uma nova forma de guerra civil, Hans Magnus Enzensberger relembra trechos de uma destruição que se revela exprimindo «a raiva pelas coisas intactas, o ódio a tudo aquilo que funciona.» Pelo caminho dessa rebelião em estado puro, geralmente praticada em horda, tudo é reduzido a escombros: o mobiliário das salas de aulas é destruído, os pneus são furados, os automóveis incendiados, os sinais de trânsito inutilizados, os jardins ficam cheios de fezes e de urina, os telefones de emergência são inutilizados com alicates, as vidraças das pequenas lojas são partidas à pedrada, os quiosques são assaltados, grafitti cobrem as paredes com frases que se amontoam e se anulam umas às outras. É verdade que, muito provavelmente, a maioria não quer a destruição, mas, como nota ainda Enzensberger, «a maioria é muda, ninguém lhe presta atenção, sempre que tem oportunidade vira as costas à luta e foge». Refugia-se então nos seus lares, por detrás dos monitores onde se reproduz, a uma distância segura, o tumulto que ficou na rua. E esfrega as mãos de contentamento, imaginando que lhe escapou. (mais…)
Independentemente do apreço que me merece o seu primeiro mentor – no meio de outras boas razões, não esqueço, desculpem lá a pirosice, que ainda ouvi a Voz da Liberdade num rádio de pilhas e cantarolei E alegre se fez triste enquanto seguia de comboio para uma breve clandestinidade – declaro à cabeça que não aprecio particularmente o dialecto «alegrista». Ele conserva parte do reservatório temático do antigo ideário republicano e um «sentimentalismo de esquerda» que assenta mais na declaração mais ou menos nostálgica de princípios vagos do que num programa para a acção. Também me incomoda um pouco um discurso algo moralista que declara, e certas vezes alardeia, uma heráldica de valores cujo sentido a larga maioria dos cidadãos com menos de quarenta anos tem dificuldade em decifrar e, sobretudo, em utilizar. E, no entanto, tendo a olhar com simpatia o eventual aparecimento de uma força que, não oferecendo ao «alegrismo» um lugar central mas incorporando a lógica de anti-aparelhismo e de humanização da governação que lhe permitiu um tão flagrante apoio nas últimas eleições presidenciais, nos possa libertar do círculo vicioso dos símbolos repetidos. E que nos limpe, nem que seja apenas por algum tempo higiénico, da mancha de prepotência, sem desígnio ou vitalidade política, de um «blairismo» de fim-de-festa que o PS de José Sócrates tem continuado a destilar como uma peste. Basta essa vaga expectativa para justificar alguma atenção ao que parece mover-se no horizonte.