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Imprimatur no século 21

nós, vós, eles

«No seguimento de ameaças de represália que não podem deixar de ser consideradas», a Chiado Editora resolveu adiar indefinidamente o lançamento do livro A Última Madrugada do Islão, de André Ventura. Informa ao mesmo tempo que «decidiu solicitar, adicionalmente, dois pareceres sobre o eventual conteúdo ofensivo e controverso da obra em questão, respectivamente ao Sheikh David Munir, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, e ao Professor Mostafa Zekri, especialista em assuntos islâmicos, de forma a melhor compreender as ameaças recebidas e antecipar eventuais cenários problemáticos resultantes da publicação», adiantando que do resultado destes pareceres «dependerá a decisão definitiva» sobre a publicação do romance.

O livro «resulta de uma vasta investigação histórica e apresenta pontos que, não obstante originais e interessantes, se revelam particularmente polémicos», recriando o cenário em que morreu Yasser Arafat e dramatizando aspectos da vida de um jovem muçulmano em Paris. A editora entende que «os comentários recebidos em relação à obra em causa e a análise da história recente» a forçam a ser «prudente em relação às publicações que chegam ao mercado, tendo em conta a segurança do autor, editores e distribuidores do livro». Sentiu-se ameaçada, portanto. Mas evoca também condicionalismos relacionados com «a possibilidade de serem prejudicadas, como aconteceu no passado noutros países, as relações portuguesas com Estados e comunidades islâmicas, muito particularmente a Palestina».

Aceita-se pois, no país que viveu um pesado regime censório mas conseguiu aboli-lo há 35 anos, que se coíba a circulação de uma obra literária. E admite-se, de forma aparentemente normal, um recuo aos tempos inquisitoriais do imprimatur, agora já não de clérigos arrolados pela Inquisição mas de duas autoridades em assuntos islâmicos. O editor está no seu direito de ter medo das consequências materiais da publicação. Porém, colocado nestes termos, o assunto adquire uma gravidade que ultrapassa a intervenção da Chiado. Afinal, não falamos apenas de uma pequena contrariedade editorial, mas sim de uma grave cedência diante de pressões exteriores, capazes de impor em Portugal limitações à liberdade de criação, de circulação do livro e de opinião. Pressões com força suficiente para atearem a autocensura e o medo.

    Atualidade, Democracia

    Agarra que é comuna!

    Commie

    Depois do disparate, mais valia ficar calado por umas horas. Mas o homem não consegue, está-lhe na massa do sangue falar pelos cotovelos. Alberto João Jardim veio agora esclarecer aquilo que pretendia com a tal proposta absurda de proibição do comunismo por decreto. Diz que realmente «o ideal seria a Constituição Portuguesa não proibir ideologias», tendo defendido aquilo que defendeu apenas para evitar situações de privilégio. Ora, se o exercício inicial, comparando as duas grandes experiências totalitárias do século passado, ainda se entendia, se bem que em termos menos grosseiros e ignaros do que os propostos, já o mesmo se não aplica ao fascismo e ao comunismo enquanto «ideologias». Se, no plano dos princípios, o primeiro é essencialmente elitista e agressivo, o segundo é – nos fundamentos, não na lógica grotesca dos regimes e dos partidos que perverteram a sua raiz utópica – estruturalmente igualitário e fraterno. Uma banalidade de base da qual alguns comentadores certificados se esquecem. Da qual o político ilhéu não se apercebe. Mas que faz toda a diferença.

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      Duas balas para Natalia

      Natalia

      Agora foi a vez de Natalia Estemirova, encontrada morta, com dois tiros na cabeça, numa floresta da república de Inguchétia, após ter sido raptada quando saía de casa. Tinha sido uma das colaboradoras mais próximas de Anna Politkovskaia, assassinada em 2006, e trabalhava para a Memorial, uma das mais importantes organizações russas de defesa dos direitos humanos. Investigava de momento dossiers sensíveis sobre centenas de casos de rapto, tortura e assassínio praticados por tropas russas ou forças paramilitares. Era uma crítica insistente do actual presidente tchetcheno, Ramzan Kadirov, e da política do Kremlin para o Cáucaso. Entretanto a presidência russa já reagiu, tendo um porta-voz garantido que Medvedev ordenou uma investigação ao caso. Pois.

        Atualidade, Democracia

        A memória também se arrepia

        Parecerá talvez um pouco estranho, provavelmente absurdo, um post como este sem o vídeo ao qual se refere a acompanhá-lo. Afinal, existem na Internet centenas, provavelmente milhares, de pequenos vídeos artesanais gravados por estes dias nas ruas de Teerão. Mas vi há dois ou três dias um muito particular, do qual por lapso não guardei o link – e daí a sua ausência –, que quero evocar aqui.

        «Então é assim»: eu não sei quantos leitores deste blogue algumas vez participaram, sob ditadura, uma qualquer ditadura, naqueles momentos que antecedem uma manifestação de rua proibida, com todas as hipóteses de acabar mal e ser reprimida. Eu já, infelizmente e graças a Deus. Várias vezes, e de forma tão próxima, tão intensa, que após duas delas acabei o dia com os ossos na prisão. Da segunda vez, o episódio valeu-me mesmo uma guia de marcha para três anos de serviço militar obrigatório, quando deveria era estar a estudar, a ver cinema e a namorar. A situação que quero invocar é, no entanto, apenas uma circunstância, um fragmento desses momentos, cuja lembrança foi subitamente acordada.

        Recordar-se-ão aqueles que partilham dessa experiência de manifestante ilegal que corre riscos, dos momentos que antecedem o clímax do protesto e a repressão: de início apenas um estranho silêncio, depois um rumor seco, vozes esparsas e em surdina, as pessoas todas muito juntas, ombros com ombros seguindo nos passeios, os olhares a medir o terreno, tensão no ar, as figuras casuais dos óbvios polícias à paisana, o ruído dos passos que batem no chão, compassados, antes ainda de se começar a gritar, primeiro a duas, depois a três, a cinco, a dez vozes, e de repente em uníssono. Revisitei tudo isto, mesmo sem perceber uma palavra daquilo que as pessoas murmuravam, e depois gritavam, ao ver o tal vídeo de rua gravado em Teerão. E senti, juro, a memória a arrepiar-se. Deve ser da idade.

          Atualidade, Memória, Olhares

          Seis teses e um oxalá

          Speaker's Corner

          Após as eleições europeias, começou a circular entre alguns comentadores um estranho sentimento de estupefacção e medo. Pelo facto, matematicamente comprovado, de 21% dos votantes ter decidido apoiar as candidaturas de partidos que eles associam – não sei se por convicção, se por mero expediente retórico – a uma «extrema-esquerda» fora do tempo. Mas nem a surpresa faz muito sentido, diante da amplitude das marcas de descontentamento que ampliaram o voto de protesto, nem o pânico se justifica, uma vez que o inimigo é menos perigoso do que parece. Afinal, a Revolução Bolchevique 2.0 não está aí, ao virar da próxima esquina.

          1. Desde logo, apenas existe «extrema-esquerda» onde é possível dissentir de uma esquerda moderada mas efectiva. Ora, como a esquerda configurada no actual Partido Socialista, doutrinariamente confinada a vagas declarações de princípio para uso eleitoral, é essencialmente formal e apoiada num referencial histórico de dimensão sobretudo simbólica, julgo não ser possível extremar o inexistente.

          2. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português jamais caberão no mesmo saco. É verdade que o Bloco integra ainda pequenos vestígios de uma esquerda radical paralisada no tempo, mas o essencial da sua linha actual é até mais da natureza interpelante, como força de pressão destinada a criar condições para uma governação e uma mobilização social à esquerda.

          3. Já o PCP continua a ser, e não se vislumbra que possa mudar nos tempos mais chegados, um partido de certa forma ambíguo: com uma prática pública protestativa e de contrapoder, mas ao mesmo tempo, e apesar de teoricamente concebido como vanguarda imaginária da luta pelo poder de Estado, sem propostas concretas sobre o que fazer com ele.

          4. A esmagadora maioria dos votantes do BE jamais aceitará uma partilha de poder ou mesmo uma coligação eleitoral com os comunistas. A mesma coisa se passa, em sentido inverso, com uma grande parte dos eleitores do PCP e com a generalidade dos seus militantes. Para além de uma eventual confluência de princípios, existem experiências, culturas políticas e até marcas geracionais que os colocam em planetas diferentes.

          5. Falar hoje de «extrema-esquerda» não é de falar de partidos como estes, com programas e estruturas dirigentes estáveis, com compromissos públicos, com ligações internacionais conhecidas, com uma integração mínima no sistema democrático parlamentar, com fundamentos ideológicos minimamente reconhecíveis. É antes falar das margens, algo anárquicas e bastante móveis, que agora se reconfiguram fora deles, ao sabor de causas e movimentos nos quais podem exprimir a sua radicalidade.

          6. Se existem então razões para que o sistema e os seus defensores possam exprimir sentimentos de medo, elas não se encontram em partidos como os citados, que veiculam pontos de vista e interesses reconhecidos. Encontram-se antes na própria incapacidade dos grupos vocacionados para a gestão do sistema – a começar, no caso em apreço, pelo PS – que se deixam desvitalizar politicamente e se mostram incapazes de agregar os agentes mais dinâmicos e uma cidadania activa, trocados por exércitos de gestores mais ou menos competentes, mas conformistas e sem rasgo.

          Dito isto, insisto em que a preocupação dos aparentemente apavorados comentadores visa objectivos errados. Seria mais interessante se ela pudesse voltar-se para a compreensão dos bloqueios do poder. Oxalá alguns deles o possam entender rapidamente.

            Atualidade, Opinião

            Comunismo hoje

            On the idea of Communism

            Organizado pelo Birkbeck Institute for the Humanities, da Universidade de Londres, decorreu em Março passado o colóquio On the idea of Communism. A identidade dos participantes anunciados – Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Gianno Vattimo, Terry Eagleton, entre outros – apontava para um encontro inédito entre superstars do pensamento contemporâneo interessadas no comunismo não tanto como núcleo programático mas como território da utopia e da experiência da mudança. E fazia também prever debates ardentes. A verdade, porém, é que os ecos foram chegando muito ténues e pouco existe na Internet sobre o acontecimento. Acaba no entanto de sair, no número de Julho-Agosto da revista Philosophie Magazine, uma reportagem crítica do evento, «Communista Social Club», da autoria de Jan Sowa, um jovem intelectual militante da esquerda radical polaca.

            Sowa apoia-se particularmente nas intervenções de Badiou, Žižek, Rancière e Negri para afirmar que o conjunto não trouxe nada de novo em relação ao que se sabia já do pensamento de cada um dos autores presentes – o que não seria nada de inesperado, pois as fracturas não se produzem em intervenções de trinta minutos voltadas para um público militante de investigadores e estudantes –, estranhando igualmente o facto delas se apresentarem como monólogos, algo cerradas em raciocínios e apriorismos balizados, dos quais ninguém se parece ter esforçado muito por sair. O essencial da sua crítica centra-se porém em algo de muito concreto. Condicionado pela sua própria experiência de filho do «socialismo real», Sowa anota que «a maior insuficiência deste colóquio foi a ausência de uma análise aprofundada do comunismo enquanto regime que existiu realmente». Como se nada de verdadeiramente importante se tivesse passado, diz, entre a revolução de Outubro de 1917 e o triunfo do capitalismo neoliberal nos anos oitenta. Tem sido este, realmente, um dos limites da intervenção da esquerda anticapitalista não subsidiária do esclerosado modelo leninista-estalinista: um excessivo pragmatismo e uma dificuldade em repensar-se a partir de uma abordagem crítica do seu próprio lastro histórico, projectando novas possibilidades através de um processo psicanalítico de diálogo com as origens, as experiências e principalmente os erros.

            Mas isto não significa que o colóquio de Londres se tenha transformado num pântano de vaidades académicas e de vontades dispersas a laborarem, cada uma delas, nas suas utopias pessoais. No final foram avançadas duas conclusões positivas que permaneceram transversais às intervenções de todos os participantes: «primo, o capitalismo não se encontra desprovido de uma alternativa, e secondo, o projecto comunista não é utópico no sentido negativo do termo, isto é, impossível». Porém, e contrariamente à leitura corrente de Marx, a sua afirmação não resulta de uma inevitabilidade histórica, mas sim de uma escolha que as sociedades podem e devem fazer em toda a liberdade. Será este o princípio, fundamental para uma conciliação da vida democrática com a afirmação cíclica de políticas de ruptura, sobre o qual a esquerda deverá continuar o seu trabalho. Combinando uma arqueologia descomplexada com a intervenção diária no processo de edificação de um mundo possivelmente melhor e mais solidário.

              Atualidade, História, Olhares

              Agora Xinjiang

              Em Xinjiang

              Os acontecimentos de Xinjiang, a região chinesa de maioria muçulmana, são insuportáveis. Já nem importa reconhecer se foram exactamente 154 os mortos, 828 os feridos e largas centenas os detidos pelos militares (assim o dizem as próprias autoridades chinesas), ou bem mais as centenas de mortos e os milhares de feridos e presos (segundo as notícias que chegam, ou chegavam, via Twitter). Se os exemplos do passado servem para alguma coisa, as contas certas penderão mais para a segunda das versões. Não importa também, neste momento, começar por averiguar da justeza de uma causa da qual a maioria de nós nem sequer tinha ouvido falar. Absolutamente prioritário é antes denunciar, sem hesitações, a repressão brutal de manifestações pacíficas e a completa ausência de vergonha de um regime para o qual o princípio da força e da intolerância se revela sempre indispensável à menor contrariedade, transigindo depois em todos os restantes.

                Atualidade, Democracia

                Peregrinação

                Não queria acreditar nas informações que me tinham chegado, pensei que fosse uma brincadeira de gosto sofrível, mas acabo de confirmar em directo através da Rádio Marca: os embaixadores de Portugal e do Vaticano estão ambos no estádio madrileno de Santiago Bernabéu, o primeiro de impecável gravata azul e o segundo de alvíssimo cabeção, para receberem Cristiano Ronaldo. São insondáveis os destinos da Pátria e os caminhos do Senhor.

                  Atualidade, Devaneios

                  Tegucigalpa-Caracas-Havana e volta

                  Honduras

                  Sigo em directo imagens da repressão do exército hondurenho sobre os manifestantes que pretendem receber no aeroporto de Tegucigalpa o presidente eleito, Manuel Zelaya, de regresso ao país depois de há uma semana atrás ter sido derrubado por um golpe de Estado. De repente, voltam a nossas casas imagens de aberta violência militar sobre populações desarmadas, que não víamos na América latina desde os anos 80. Acompanho pela Internet uma transmissão da TeleSur, a rede de televisão multi-estatal latino-americana com sede na Venezuela, que destaca a coragem dos manifestantes e a legitimidade democrática de Zelaya. Mas sigo também a Cubavisión, que a partir de Havana noticia e comenta há longas horas aquilo que se está a passar, recorrendo a «analistas políticos» que não referiram uma única vez o facto de o presidente deposto pelos golpistas ter sido referendado em eleições democráticas. A registar.

                    Atualidade, Olhares

                    WW e o 4 de Julho

                    Walt Whitman

                    Mesmo à medida das mentes acossadas da casta dirigente da Coreia do Norte, a escolha deste 4 de Julho para lançar mais sete mísseis balísticos sobre o Mar do Japão. Aliás, já em 2006 haviam feito a mesma coisa. O aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos América – documento fundador do mundo contemporâneo que em 1776 preludiou a Revolução Francesa e questionou o domínio colonial dos europeus – pareceu-lhes uma óptima data para demonstrarem com fogo-de-artifício as saudades que têm da Guerra Fria. Só que no mesmíssimo dia, embora em 1855, Walt Whitman publicou a primeira edição de Leaves of Grass, impressa na Rome Brothers. Bem vistas as coisas, talvez esta data possa não agastar menos os norte-coreanos. E também os seus comparsas de outras latitudes.

                    FOR YOU O DEMOCRACY

                    Come, I will make the continent indissoluble,
                    I will make the most splendid race the sun ever shone upon,
                    I will make divine magnetic lands,
                    With the love of comrades,
                    With the life-long love of comrades.

                    I will plant companionship thick as trees along all the rivers of America, and along the
                    shores of the great lakes, and all over the prairies,
                    I will make inseparable cities with their arms about each other’s necks,
                    By the love of comrades,
                    By the manly love of comrades.

                    For you these from me, O Democracy, to serve you ma femme!
                    For you, for you I am trilling these songs.

                    Walt Whitman – Leaves of Grass

                      Atualidade, Memória, Poesia

                      Chapeau!

                      Toreador

                      Não é que considere um gesto aprumado e de fino recorte dialéctico o fragmento da simbologia taurina – associada frequentes vezes à codificação mediterrânica da honra e vergonha – que levou à demissão do ministro Manuel Pinho. Mas parece-me mais aceitável uma atitude repentista de sincera irritação, com razão ou sem ela – «por qué no te callas?» –, do que o espectáculo diário da hipocrisia do salamaleque.

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                        Despromoção

                        Franco e Salazar

                        Francisco Franco y Bahamonde, antigo «caudillo de España por la gracia de Dios», acaba de ser publicamente despojado, pelo Ayuntamiento de Madrid, dos títulos e mercês de alcaide honorífico, filho adoptivo, medalha de ouro e medalha de honra da cidade. Após, há algum tempo, a Universidade de Santiago de Compostela lhe ter invalidado, «por falta de méritos», o doutoramento honoris causa. Com muitas pessoas a favor e umas quantas contra. Por aqui, o ajuste de contas com o corpo físico e simbólico da ditadura tem sido tratado quase sempre de uma forma menos frontal. Abstraindo os pontuais assomos iconoclastas dos meses do PREC, a solução adoptada passou quase sempre pelo emudecimento dos apectos práticos do passado do regime, pela ligeireza das atitudes incriminatórias, pelo elidir da dimensão do mal, pelo arejamento das responsabilidades dos seus protagonistas. Daí à presente esteticização do ditador local, do tempo que ensombrou e dos valores que soube impor, foi um passo apenas.

                          Atualidade, História, Memória

                          O regresso de Costa

                          Afonso Costa

                          Cerca de cem anos depois, a figura, a acção e o pensamento (se assim lhe podemos chamar) de Afonso Costa (1871-1937) – com Salazar, Cunhal e Soares, um dos quatro grandes políticos que protagonizaram o nosso século XX – continuam a levantar poeira e alguns engulhos. Na recém-publicada colectânea Portugal – Ensaios de História e de Política, Vasco Pulido Valente dá-nos um texto verrinoso, polémico, mas ao mesmo tempo bastante estimulante, sobre o prócere do nosso jacobinismo tardio. Num post titulado «Psicografia do Dr. Afonso Costa», agora é a vez de Nuno Resende pegar num velho artigo de Carlos Malheiro Dias e retomar a retórica anticostista, desenvolvida durante décadas por católicos ressentidos, monárquicos levemente coléricos e salazaristas da primeira geração. É capaz de merecer a pena, quando se aproxima o inevitável fragor associado ao centenário da República, que às comemorações oficiais e oficiosas possa também ficar ligada alguma controvérsia. Será bem mais útil e interessante.

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                            Avante!

                            Seguindo o rastro deixado num post de Daniel Oliveira e noutro de José Simões, lá fui em romaria ao tal artigo do «Avante!» que dá a volta ao mundo para tentar não falar do Irão.

                            Adenda: No Público de hoje, António Vilarigues escreve sobre irregularidades eleitorais em Portugal. Após adiantar alguns dados, conclui: «curiosamente, sobre estes acontecimentos nada li, nada ouvi, nada vi na comunicação social.» Um texto «oportuno», sem dúvida. Para bom entendedor…

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                              Arrependidos

                              Arrependidos

                              No judaísmo e no cristianismo, o arrependimento é um acto central da virtude religiosa que consiste num sentimento de rejeição sincera, por parte do pecador, do seu comportamento pregresso, do qual resulta a intenção de um retorno à lei moral. Nesta direcção, o arrependido é um penitente, existindo uma relação de sinonímia entre ambas as palavras, ademais com raiz etimológica partilhada. «Repentudo» era ainda, no século XIII, uma palavra comum, híbrida, utilizada no português com idêntico sentido. As vidas dos santos encontram-se, aliás, repletas de relatos desse instante redentor no qual se abjura de um passado de transgressão em nome de um caminho novo, de rectidão e pena. Existem, no entanto, modelos distintos de arrependimento: desde aquele, sincero, que resulta de uma apreensão gradual da falta de justeza de uma atitude que é seguida da sua correcção, a um outro, meramente formal, que se segue à imposição, muitas das vezes condicionada pelo medo ou pela coacção, de uma atitude que não é sentida.

                              Os sistemas totalitários, consolidados por uma ideologia, de pendor laico ou não, que se vê transformada em «religião do poder», serviram-se sempre do arrependimento como processo para moldar a opinião pública ou isolar a dissidência. Foram diversos os intelectuais alemães que cumpriram o papel de arrependidos, o mesmo acontecendo em França durante a República de Vichy. Os Processos de Moscovo recorreram mesmo às declarações dos «arrependidos» como arma de arremesso lançada contra outras vítimas, transformando as suas palavras em libelos da acusação destinados a esmagar os «inimigos do socialismo». Na China pudemos ver, durante a Revolução Cultural, de que forma foi possível encenar, sem qualquer maquilhagem, o «arrependimento» público de um acusado, transformado publicamente num ser desprezável, cuja atitude de rejeição de si próprio visava confirmar a abjecção e a infâmia do próprio dissídio. De Cuba chegam ainda os ecos fantasmagóricos das declarações prestadas durante o julgamento do General Arnaldo Ochoa, o único guerrilheiro de origem proletária de Sierra Maestra, e depois das arengas avulsas, devidamente televisionadas, de outros penitentes. Por isso, não nos podem surpreender já – a nós que temos, felizmente, a possibilidade de consultar arquivos, de confrontar memórias, e que por isso mais dificilmente nos deixamos enganar – as imagens daquela pobre mulher iraniana, sentada ontem em frente das câmaras, afirmando para todo o mundo, penitente, que «os culpados somos nós, os manifestantes».

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                                As causas da causa

                                A rua

                                Um dos bloggers que visito diariamente, com o qual numerosas vezes concordo (e quando discordo é geralmente no pormenor), é João Tunes. Referiu-se ele ontem, num post do seu imperdível Água Lisa, a uma frase que eu deixara aqui a propósito dos círculos internos a quem o antiamericanismo primário conduz frequentes vezes a posições bastante criticáveis ou a claros erros políticos. No que respeita à situação no Irão, aprecio a viragem de 180 graus na posição dos comunistas portugueses – que não eram, aliás, os únicos aos quais me referia –, bem como o facto de, após uma semana de enormes protestos de rua e do constante alargamento da sua visibilidade mundial, e provavelmente depois de uma criteriosa pesquisa científica, terem decidido falar sobre o assunto criticando as autoridades iranianas.

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                                  Visionários

                                  Passei hoje por um enorme outdoor da Juventude Socialista no qual ainda não tinha reparado. Nele surgiam destacadas três frases de campanha, mas como ia a conduzir apenas tive tempo de ler a última. Esta conclamava as multidões de jovens a lutarem decididamente «pelo direito ao TGV».  Uma meta política exaltante, acredito. Provavelmente, eu, adepto contumaz da velha Wells Fargo, é que não estarei a captar o alcance visionário da proposta, a centelha de rasgo que a gerou e transformou em bandeira.

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