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Cuidado com as causas fracturantes

Matraquilhos

Em solo nacional, três temas azedam facilmente qualquer debate, despertando impulsos primitivos que cegam cidadãos exemplares e assanham pessoas dadas à reflexão: comunismo, religião e futebol (já que o fado perdeu músculo). Os dois primeiros têm sido aqui recorrentemente invocados, mas de futebol não tenho falado. Chegou agora a vez de tocar no assunto, mesmo correndo o risco de despertar o hooligan escondido que habita dentro de um ou outro leitor.

A despesa com a compra de jogadores por parte das maiores equipas é, nas circunstâncias da vida do país e atendendo à dimensão financeira dos clubes, qualquer coisa de obsceno. Ainda assim, nos tempos mais recentes, Porto e Sporting têm mostrado um comportamento despesista aparentemente controlado: o primeiro, por causa dos sucessos desportivos e porque gasta menos com os jogadores que compra do que com aqueles que vende; o segundo, porque tem mantido uma política de aquisições relativamente moderada. Já o mesmo não se passa, todavia, com o Benfica, que todos os anos compra uma dúzia de futebolistas bastante caros, cedendo-os no ano seguinte por valores inferiores. Talvez seja preciso recordar aos mais distraídos que as receitas desportivas do «clube da águia», frequentemente fora da Liga dos Campeões, têm sido inferiores às dos outros dois, apesar de ter ainda o maior número de adeptos. Entretanto, só neste início de época já gastou mais de 23 milhões de Euros, prometendo outras compras para os próximos dias.

Nada disto incomodaria particularmente se não fossem duas situações objectivas. Desde logo o facto de o Benfica (como os outros, aliás) continuar a dever muito dinheiro ao fisco, e de a insolvência total ser algo de materialmente possível. Só que no dia em que isso estiver para acontecer, governo algum aceitará a falência técnica do clube, pois tal reduziria metade da população a um intolerável estado depressivo e fá-lo-ia perder as eleições seguintes. Serão então os cidadãos contribuintes, azuis, verdes, encarnados e de todas as cores, incluindo ainda todos aqueles que detestam futebol, a pagar facturas e hipotecas.

A segunda situação é, no fundo, uma constatação: governante algum se deu ao trabalho de, pelo menos, apelar publicamente ao comedimento dos gastos e à necessidade de se pagar o devido ao erário público. Não sei porquê, tenho a impressão de que o esquecimento tem alguma coisa a ver com a proximidade de uma ida a votos e de ser preciso, da parte de quem deseje ardentemente conquistar a maioria dos eleitores, um certo cuidado com as causas fracturantes.

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    Na era do professor desnorteado

    O educador

    Ao contrário daquilo que pode pensar quem esteja de fora, os problemas pedagógicos do ensino universitário não são agora em menor escala, nem mesmo, em alguns casos, substancialmente diferentes, daqueles que estão desde há muito identificados nos ensinos básico e secundário. Limito-me aqui a enumerar duas áreas particularmente críticas, embora raramente abordadas. A primeira tem a ver com profundas convulsões que têm afectado crescentemente a autoridade do professor e o relacionamento na sala de aula. A segunda relaciona-se, de um lado, com o confronto entre a forma tradicional de conceber os processos do conhecimento e os métodos de ensino, e, do outro, com as diferentes expectativas das mais recentes gerações de alunos, frequentemente associadas aos novos instrumentos de acesso à informação.

    Em «La era del profesor desorientado», um artigo surgido sábado passado no El País, anuncia-se uma situação que, afinal, está a cruzar todas as fronteiras da velha e ex-conservadora Europa: os professores enfrentam estudantes menos obedientes, aparentemente menos receptivos, mas que se movimentam muito bem em áreas que eles, educadores, conhecem mal ou não dominam de todo. Faz-se então uma pergunta: será preciso regressar à velha disciplina ou é antes preferível modernizar o ensino?

    Traduzo o parágrafo inicial do artigo do diário espanhol: «Uns acreditam que o problema reside no facto dos professores do século XX tentarem educar a jovens do século XXI em escolas do século XIX, e por isso as coisas não funcionam. Outros, que foram perdidos valores básicos da educação, sobretudo a disciplina e o esforço. Na realidade, trata-se de duas maneiras distintas de enfrentar um mesmo facto: que os docentes não conhecem, não encontram ou não lhes oferecem as ferramentas necessárias para ensinar a novas gerações de jovens, as quais não respondem da mesma forma que as anteriores à educação escolar.» Um caso sério, diante do qual a pior solução – que infelizmente tem vingado em muitos casos –, consiste em meter a cabeça na areia, ignorando a situação real de mudança de paradigma que atravessamos, e marinando na ficção de que um dia as coisas «melhorarão» por si (isto é, voltarão ao antigo modelo). Ou então decairão inapelavelmente. Em ambos os casos, atirando a toalha ao chão.

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      Margem de certa maneira

      Margem
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      Pego no 18 de Brumário de Luís Bonaparte e regresso ao momento em que Marx procurou estigmatizar os partidários do futuro imperador: «Lado a lado com elegantes arruinados, de meios de fortuna duvidosos, aventureiros e bastardos, devassos da burguesia, encontravam-se vagabundos, soldados desmobilizados, ex-presidiários, antigos foragidos das galés, saltimbancos, chantagistas, desclassificados, carteiristas, trapaceiros, jogadores, gigolôs, donos de bordéis, carregadores, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, amola-tesouras, mendigos, em suma, toda uma massa confusa, decomposta e flutuante, a que os franceses apelidam de boémia.» Não se poderia condenar com maior clareza todos aqueles que, recusando a marcha a passo cadenciado, preferiam viver fora dos caminhos convencionais.

      Os tipos citados eram considerados mais ou menos próximos do lumpenproletariat, marginais tanto em relação à forma como Marx concebia os grupos capazes de uma posição historicamente revolucionária – por isso o estalinismo fez deles aquilo que se sabe –, como em relação ao dispositivo da ordem burguesa dominante. Actualmente, porém, as maneiras de ser e de pensar que foram qualificadas pelo filósofo alemão como confusas, flutuantes, decompostas, ou simplesmente aventureiras, são partilhadas por um conjunto alargado de marginalidades, transformaram-se algumas vezes em sociabilidades nómadas e instáveis mas com uma legitimidade própria, alternativa à dominante. Enquanto fontes de perturbação para o funcionamento previsível do sistema, podem afirmar-se como trincheiras de liberdade, territórios de resistência ao trabalho de normalização e controlo imposto pelo Estado e pela suprema ordem neoliberal.

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        Para não se dizer que não falei do H1N1

        Obama_H1N1

        Tenho dificuldade em fazer previsões sobre as consequências do surto pandémico de gripe A que se prevê irrompa em Portugal logo que o tempo comece a arrefecer e as andorinhas que restarem partam de novo para África. Por simples ignorância. Os especialistas dizem que no «pior dos piores» cenários morrerão 8700 pessoas em Portugal, mas logo acrescentam que o cenário «deve ser encarado sem dramatismos». Afinal, parece que a gripe comum todos os anos mata quase duas mil almas, e ninguém, salvo alguns hipocondríacos, vive atormentado com isso. Limito-me pois a olhar para as previsões e a tomar o sumo de laranja que recomendava a minha avó, com a vaga sensação de que, fazendo parte de um grupo de risco, deverei ter particular cuidado em evitar correntes de ar e frio no pescoço.

        Existe, no entanto, um lado do problema que é preocupante. A comunicação social agarra como sempre o filão da desgraça e todos os dias efabula cenários apocalípticos de devastação e crise: ruas desertas, fábricas paradas, escolas sem aulas, comércio fechado, estádios vazios, as traineiras em terra e os aviões também. Nas ruas, os escassos transeuntes circularão de máscara e luvas, e o paracetamol valerá mais que petróleo. Os cidadãos passarão em casa o seu tempo de quarentena, partilhando boatos por e-mail, dormindo em camas separadas, trocando os beijos por adeuzinhos, recusando até participar no funeral dos parentes mais chegados. Os cenários propostos têm a ilimitada imaginação por limite. E fazem-no com uma tal intensidade, de maneira tão pessimista e repetitiva, que, chegada a hora, quando alguns cuidados forem necessários, já poucas pessoas darão grande valor às notícias e toda a gente circulará pelas ruas de manga curta e cabeça ao sol, tossindo para cima dos outros. A vaga de alarmismo por antecipação que estamos a viver pode dar maus resultados.

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          Imprimatur no século 21

          nós, vós, eles

          «No seguimento de ameaças de represália que não podem deixar de ser consideradas», a Chiado Editora resolveu adiar indefinidamente o lançamento do livro A Última Madrugada do Islão, de André Ventura. Informa ao mesmo tempo que «decidiu solicitar, adicionalmente, dois pareceres sobre o eventual conteúdo ofensivo e controverso da obra em questão, respectivamente ao Sheikh David Munir, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, e ao Professor Mostafa Zekri, especialista em assuntos islâmicos, de forma a melhor compreender as ameaças recebidas e antecipar eventuais cenários problemáticos resultantes da publicação», adiantando que do resultado destes pareceres «dependerá a decisão definitiva» sobre a publicação do romance.

          O livro «resulta de uma vasta investigação histórica e apresenta pontos que, não obstante originais e interessantes, se revelam particularmente polémicos», recriando o cenário em que morreu Yasser Arafat e dramatizando aspectos da vida de um jovem muçulmano em Paris. A editora entende que «os comentários recebidos em relação à obra em causa e a análise da história recente» a forçam a ser «prudente em relação às publicações que chegam ao mercado, tendo em conta a segurança do autor, editores e distribuidores do livro». Sentiu-se ameaçada, portanto. Mas evoca também condicionalismos relacionados com «a possibilidade de serem prejudicadas, como aconteceu no passado noutros países, as relações portuguesas com Estados e comunidades islâmicas, muito particularmente a Palestina».

          Aceita-se pois, no país que viveu um pesado regime censório mas conseguiu aboli-lo há 35 anos, que se coíba a circulação de uma obra literária. E admite-se, de forma aparentemente normal, um recuo aos tempos inquisitoriais do imprimatur, agora já não de clérigos arrolados pela Inquisição mas de duas autoridades em assuntos islâmicos. O editor está no seu direito de ter medo das consequências materiais da publicação. Porém, colocado nestes termos, o assunto adquire uma gravidade que ultrapassa a intervenção da Chiado. Afinal, não falamos apenas de uma pequena contrariedade editorial, mas sim de uma grave cedência diante de pressões exteriores, capazes de impor em Portugal limitações à liberdade de criação, de circulação do livro e de opinião. Pressões com força suficiente para atearem a autocensura e o medo.

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            Agarra que é comuna!

            Commie

            Depois do disparate, mais valia ficar calado por umas horas. Mas o homem não consegue, está-lhe na massa do sangue falar pelos cotovelos. Alberto João Jardim veio agora esclarecer aquilo que pretendia com a tal proposta absurda de proibição do comunismo por decreto. Diz que realmente «o ideal seria a Constituição Portuguesa não proibir ideologias», tendo defendido aquilo que defendeu apenas para evitar situações de privilégio. Ora, se o exercício inicial, comparando as duas grandes experiências totalitárias do século passado, ainda se entendia, se bem que em termos menos grosseiros e ignaros do que os propostos, já o mesmo se não aplica ao fascismo e ao comunismo enquanto «ideologias». Se, no plano dos princípios, o primeiro é essencialmente elitista e agressivo, o segundo é – nos fundamentos, não na lógica grotesca dos regimes e dos partidos que perverteram a sua raiz utópica – estruturalmente igualitário e fraterno. Uma banalidade de base da qual alguns comentadores certificados se esquecem. Da qual o político ilhéu não se apercebe. Mas que faz toda a diferença.

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              Duas balas para Natalia

              Natalia

              Agora foi a vez de Natalia Estemirova, encontrada morta, com dois tiros na cabeça, numa floresta da república de Inguchétia, após ter sido raptada quando saía de casa. Tinha sido uma das colaboradoras mais próximas de Anna Politkovskaia, assassinada em 2006, e trabalhava para a Memorial, uma das mais importantes organizações russas de defesa dos direitos humanos. Investigava de momento dossiers sensíveis sobre centenas de casos de rapto, tortura e assassínio praticados por tropas russas ou forças paramilitares. Era uma crítica insistente do actual presidente tchetcheno, Ramzan Kadirov, e da política do Kremlin para o Cáucaso. Entretanto a presidência russa já reagiu, tendo um porta-voz garantido que Medvedev ordenou uma investigação ao caso. Pois.

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                A memória também se arrepia

                Parecerá talvez um pouco estranho, provavelmente absurdo, um post como este sem o vídeo ao qual se refere a acompanhá-lo. Afinal, existem na Internet centenas, provavelmente milhares, de pequenos vídeos artesanais gravados por estes dias nas ruas de Teerão. Mas vi há dois ou três dias um muito particular, do qual por lapso não guardei o link – e daí a sua ausência –, que quero evocar aqui.

                «Então é assim»: eu não sei quantos leitores deste blogue algumas vez participaram, sob ditadura, uma qualquer ditadura, naqueles momentos que antecedem uma manifestação de rua proibida, com todas as hipóteses de acabar mal e ser reprimida. Eu já, infelizmente e graças a Deus. Várias vezes, e de forma tão próxima, tão intensa, que após duas delas acabei o dia com os ossos na prisão. Da segunda vez, o episódio valeu-me mesmo uma guia de marcha para três anos de serviço militar obrigatório, quando deveria era estar a estudar, a ver cinema e a namorar. A situação que quero invocar é, no entanto, apenas uma circunstância, um fragmento desses momentos, cuja lembrança foi subitamente acordada.

                Recordar-se-ão aqueles que partilham dessa experiência de manifestante ilegal que corre riscos, dos momentos que antecedem o clímax do protesto e a repressão: de início apenas um estranho silêncio, depois um rumor seco, vozes esparsas e em surdina, as pessoas todas muito juntas, ombros com ombros seguindo nos passeios, os olhares a medir o terreno, tensão no ar, as figuras casuais dos óbvios polícias à paisana, o ruído dos passos que batem no chão, compassados, antes ainda de se começar a gritar, primeiro a duas, depois a três, a cinco, a dez vozes, e de repente em uníssono. Revisitei tudo isto, mesmo sem perceber uma palavra daquilo que as pessoas murmuravam, e depois gritavam, ao ver o tal vídeo de rua gravado em Teerão. E senti, juro, a memória a arrepiar-se. Deve ser da idade.

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                  Seis teses e um oxalá

                  Speaker's Corner

                  Após as eleições europeias, começou a circular entre alguns comentadores um estranho sentimento de estupefacção e medo. Pelo facto, matematicamente comprovado, de 21% dos votantes ter decidido apoiar as candidaturas de partidos que eles associam – não sei se por convicção, se por mero expediente retórico – a uma «extrema-esquerda» fora do tempo. Mas nem a surpresa faz muito sentido, diante da amplitude das marcas de descontentamento que ampliaram o voto de protesto, nem o pânico se justifica, uma vez que o inimigo é menos perigoso do que parece. Afinal, a Revolução Bolchevique 2.0 não está aí, ao virar da próxima esquina.

                  1. Desde logo, apenas existe «extrema-esquerda» onde é possível dissentir de uma esquerda moderada mas efectiva. Ora, como a esquerda configurada no actual Partido Socialista, doutrinariamente confinada a vagas declarações de princípio para uso eleitoral, é essencialmente formal e apoiada num referencial histórico de dimensão sobretudo simbólica, julgo não ser possível extremar o inexistente.

                  2. Bloco de Esquerda e Partido Comunista Português jamais caberão no mesmo saco. É verdade que o Bloco integra ainda pequenos vestígios de uma esquerda radical paralisada no tempo, mas o essencial da sua linha actual é até mais da natureza interpelante, como força de pressão destinada a criar condições para uma governação e uma mobilização social à esquerda.

                  3. Já o PCP continua a ser, e não se vislumbra que possa mudar nos tempos mais chegados, um partido de certa forma ambíguo: com uma prática pública protestativa e de contrapoder, mas ao mesmo tempo, e apesar de teoricamente concebido como vanguarda imaginária da luta pelo poder de Estado, sem propostas concretas sobre o que fazer com ele.

                  4. A esmagadora maioria dos votantes do BE jamais aceitará uma partilha de poder ou mesmo uma coligação eleitoral com os comunistas. A mesma coisa se passa, em sentido inverso, com uma grande parte dos eleitores do PCP e com a generalidade dos seus militantes. Para além de uma eventual confluência de princípios, existem experiências, culturas políticas e até marcas geracionais que os colocam em planetas diferentes.

                  5. Falar hoje de «extrema-esquerda» não é de falar de partidos como estes, com programas e estruturas dirigentes estáveis, com compromissos públicos, com ligações internacionais conhecidas, com uma integração mínima no sistema democrático parlamentar, com fundamentos ideológicos minimamente reconhecíveis. É antes falar das margens, algo anárquicas e bastante móveis, que agora se reconfiguram fora deles, ao sabor de causas e movimentos nos quais podem exprimir a sua radicalidade.

                  6. Se existem então razões para que o sistema e os seus defensores possam exprimir sentimentos de medo, elas não se encontram em partidos como os citados, que veiculam pontos de vista e interesses reconhecidos. Encontram-se antes na própria incapacidade dos grupos vocacionados para a gestão do sistema – a começar, no caso em apreço, pelo PS – que se deixam desvitalizar politicamente e se mostram incapazes de agregar os agentes mais dinâmicos e uma cidadania activa, trocados por exércitos de gestores mais ou menos competentes, mas conformistas e sem rasgo.

                  Dito isto, insisto em que a preocupação dos aparentemente apavorados comentadores visa objectivos errados. Seria mais interessante se ela pudesse voltar-se para a compreensão dos bloqueios do poder. Oxalá alguns deles o possam entender rapidamente.

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                    Comunismo hoje

                    On the idea of Communism

                    Organizado pelo Birkbeck Institute for the Humanities, da Universidade de Londres, decorreu em Março passado o colóquio On the idea of Communism. A identidade dos participantes anunciados – Alain Badiou, Slavoj Žižek, Michael Hardt, Toni Negri, Jacques Rancière, Gianno Vattimo, Terry Eagleton, entre outros – apontava para um encontro inédito entre superstars do pensamento contemporâneo interessadas no comunismo não tanto como núcleo programático mas como território da utopia e da experiência da mudança. E fazia também prever debates ardentes. A verdade, porém, é que os ecos foram chegando muito ténues e pouco existe na Internet sobre o acontecimento. Acaba no entanto de sair, no número de Julho-Agosto da revista Philosophie Magazine, uma reportagem crítica do evento, «Communista Social Club», da autoria de Jan Sowa, um jovem intelectual militante da esquerda radical polaca.

                    Sowa apoia-se particularmente nas intervenções de Badiou, Žižek, Rancière e Negri para afirmar que o conjunto não trouxe nada de novo em relação ao que se sabia já do pensamento de cada um dos autores presentes – o que não seria nada de inesperado, pois as fracturas não se produzem em intervenções de trinta minutos voltadas para um público militante de investigadores e estudantes –, estranhando igualmente o facto delas se apresentarem como monólogos, algo cerradas em raciocínios e apriorismos balizados, dos quais ninguém se parece ter esforçado muito por sair. O essencial da sua crítica centra-se porém em algo de muito concreto. Condicionado pela sua própria experiência de filho do «socialismo real», Sowa anota que «a maior insuficiência deste colóquio foi a ausência de uma análise aprofundada do comunismo enquanto regime que existiu realmente». Como se nada de verdadeiramente importante se tivesse passado, diz, entre a revolução de Outubro de 1917 e o triunfo do capitalismo neoliberal nos anos oitenta. Tem sido este, realmente, um dos limites da intervenção da esquerda anticapitalista não subsidiária do esclerosado modelo leninista-estalinista: um excessivo pragmatismo e uma dificuldade em repensar-se a partir de uma abordagem crítica do seu próprio lastro histórico, projectando novas possibilidades através de um processo psicanalítico de diálogo com as origens, as experiências e principalmente os erros.

                    Mas isto não significa que o colóquio de Londres se tenha transformado num pântano de vaidades académicas e de vontades dispersas a laborarem, cada uma delas, nas suas utopias pessoais. No final foram avançadas duas conclusões positivas que permaneceram transversais às intervenções de todos os participantes: «primo, o capitalismo não se encontra desprovido de uma alternativa, e secondo, o projecto comunista não é utópico no sentido negativo do termo, isto é, impossível». Porém, e contrariamente à leitura corrente de Marx, a sua afirmação não resulta de uma inevitabilidade histórica, mas sim de uma escolha que as sociedades podem e devem fazer em toda a liberdade. Será este o princípio, fundamental para uma conciliação da vida democrática com a afirmação cíclica de políticas de ruptura, sobre o qual a esquerda deverá continuar o seu trabalho. Combinando uma arqueologia descomplexada com a intervenção diária no processo de edificação de um mundo possivelmente melhor e mais solidário.

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                      Agora Xinjiang

                      Em Xinjiang

                      Os acontecimentos de Xinjiang, a região chinesa de maioria muçulmana, são insuportáveis. Já nem importa reconhecer se foram exactamente 154 os mortos, 828 os feridos e largas centenas os detidos pelos militares (assim o dizem as próprias autoridades chinesas), ou bem mais as centenas de mortos e os milhares de feridos e presos (segundo as notícias que chegam, ou chegavam, via Twitter). Se os exemplos do passado servem para alguma coisa, as contas certas penderão mais para a segunda das versões. Não importa também, neste momento, começar por averiguar da justeza de uma causa da qual a maioria de nós nem sequer tinha ouvido falar. Absolutamente prioritário é antes denunciar, sem hesitações, a repressão brutal de manifestações pacíficas e a completa ausência de vergonha de um regime para o qual o princípio da força e da intolerância se revela sempre indispensável à menor contrariedade, transigindo depois em todos os restantes.

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                        Peregrinação

                        Não queria acreditar nas informações que me tinham chegado, pensei que fosse uma brincadeira de gosto sofrível, mas acabo de confirmar em directo através da Rádio Marca: os embaixadores de Portugal e do Vaticano estão ambos no estádio madrileno de Santiago Bernabéu, o primeiro de impecável gravata azul e o segundo de alvíssimo cabeção, para receberem Cristiano Ronaldo. São insondáveis os destinos da Pátria e os caminhos do Senhor.

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                          Tegucigalpa-Caracas-Havana e volta

                          Honduras

                          Sigo em directo imagens da repressão do exército hondurenho sobre os manifestantes que pretendem receber no aeroporto de Tegucigalpa o presidente eleito, Manuel Zelaya, de regresso ao país depois de há uma semana atrás ter sido derrubado por um golpe de Estado. De repente, voltam a nossas casas imagens de aberta violência militar sobre populações desarmadas, que não víamos na América latina desde os anos 80. Acompanho pela Internet uma transmissão da TeleSur, a rede de televisão multi-estatal latino-americana com sede na Venezuela, que destaca a coragem dos manifestantes e a legitimidade democrática de Zelaya. Mas sigo também a Cubavisión, que a partir de Havana noticia e comenta há longas horas aquilo que se está a passar, recorrendo a «analistas políticos» que não referiram uma única vez o facto de o presidente deposto pelos golpistas ter sido referendado em eleições democráticas. A registar.

                            Atualidade, Olhares

                            WW e o 4 de Julho

                            Walt Whitman

                            Mesmo à medida das mentes acossadas da casta dirigente da Coreia do Norte, a escolha deste 4 de Julho para lançar mais sete mísseis balísticos sobre o Mar do Japão. Aliás, já em 2006 haviam feito a mesma coisa. O aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos América – documento fundador do mundo contemporâneo que em 1776 preludiou a Revolução Francesa e questionou o domínio colonial dos europeus – pareceu-lhes uma óptima data para demonstrarem com fogo-de-artifício as saudades que têm da Guerra Fria. Só que no mesmíssimo dia, embora em 1855, Walt Whitman publicou a primeira edição de Leaves of Grass, impressa na Rome Brothers. Bem vistas as coisas, talvez esta data possa não agastar menos os norte-coreanos. E também os seus comparsas de outras latitudes.

                            FOR YOU O DEMOCRACY

                            Come, I will make the continent indissoluble,
                            I will make the most splendid race the sun ever shone upon,
                            I will make divine magnetic lands,
                            With the love of comrades,
                            With the life-long love of comrades.

                            I will plant companionship thick as trees along all the rivers of America, and along the
                            shores of the great lakes, and all over the prairies,
                            I will make inseparable cities with their arms about each other’s necks,
                            By the love of comrades,
                            By the manly love of comrades.

                            For you these from me, O Democracy, to serve you ma femme!
                            For you, for you I am trilling these songs.

                            Walt Whitman – Leaves of Grass

                              Atualidade, Memória, Poesia

                              Chapeau!

                              Toreador

                              Não é que considere um gesto aprumado e de fino recorte dialéctico o fragmento da simbologia taurina – associada frequentes vezes à codificação mediterrânica da honra e vergonha – que levou à demissão do ministro Manuel Pinho. Mas parece-me mais aceitável uma atitude repentista de sincera irritação, com razão ou sem ela – «por qué no te callas?» –, do que o espectáculo diário da hipocrisia do salamaleque.

                                Apontamentos, Atualidade

                                Despromoção

                                Franco e Salazar

                                Francisco Franco y Bahamonde, antigo «caudillo de España por la gracia de Dios», acaba de ser publicamente despojado, pelo Ayuntamiento de Madrid, dos títulos e mercês de alcaide honorífico, filho adoptivo, medalha de ouro e medalha de honra da cidade. Após, há algum tempo, a Universidade de Santiago de Compostela lhe ter invalidado, «por falta de méritos», o doutoramento honoris causa. Com muitas pessoas a favor e umas quantas contra. Por aqui, o ajuste de contas com o corpo físico e simbólico da ditadura tem sido tratado quase sempre de uma forma menos frontal. Abstraindo os pontuais assomos iconoclastas dos meses do PREC, a solução adoptada passou quase sempre pelo emudecimento dos apectos práticos do passado do regime, pela ligeireza das atitudes incriminatórias, pelo elidir da dimensão do mal, pelo arejamento das responsabilidades dos seus protagonistas. Daí à presente esteticização do ditador local, do tempo que ensombrou e dos valores que soube impor, foi um passo apenas.

                                  Atualidade, História, Memória

                                  O regresso de Costa

                                  Afonso Costa

                                  Cerca de cem anos depois, a figura, a acção e o pensamento (se assim lhe podemos chamar) de Afonso Costa (1871-1937) – com Salazar, Cunhal e Soares, um dos quatro grandes políticos que protagonizaram o nosso século XX – continuam a levantar poeira e alguns engulhos. Na recém-publicada colectânea Portugal – Ensaios de História e de Política, Vasco Pulido Valente dá-nos um texto verrinoso, polémico, mas ao mesmo tempo bastante estimulante, sobre o prócere do nosso jacobinismo tardio. Num post titulado «Psicografia do Dr. Afonso Costa», agora é a vez de Nuno Resende pegar num velho artigo de Carlos Malheiro Dias e retomar a retórica anticostista, desenvolvida durante décadas por católicos ressentidos, monárquicos levemente coléricos e salazaristas da primeira geração. É capaz de merecer a pena, quando se aproxima o inevitável fragor associado ao centenário da República, que às comemorações oficiais e oficiosas possa também ficar ligada alguma controvérsia. Será bem mais útil e interessante.

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                                    Avante!

                                    Seguindo o rastro deixado num post de Daniel Oliveira e noutro de José Simões, lá fui em romaria ao tal artigo do «Avante!» que dá a volta ao mundo para tentar não falar do Irão.

                                    Adenda: No Público de hoje, António Vilarigues escreve sobre irregularidades eleitorais em Portugal. Após adiantar alguns dados, conclui: «curiosamente, sobre estes acontecimentos nada li, nada ouvi, nada vi na comunicação social.» Um texto «oportuno», sem dúvida. Para bom entendedor…

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