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Precisamos falar

Conversa

Em função dos resultados destas eleições – e da inconsistência de muitas escolhas, claramente camaleónicas, episódicas e volúveis –, não é preciso ser-se adivinho para prever quatro anos, ou provavelmente menos, de contorcionismo táctico, negociações complicadas e difíceis debates intestinos. Uma coisa é certa: encerrou o mais recente ciclo do poder absoluto. A discussão e e o confronto de ideias ganharam um novo sentido e são agora indispensáveis.

    Atualidade, Olhares

    De repente, os outros

    Musical Chairs

    De repente lembro-me dos outros. Daqueles que permaneceram na penumbra, verdadeiramente na penumbra, ao longo da campanha. Olhados como eleitores potenciais, a quem seduzir, mas quase sempre ignorados na materialidade das suas vidas, nas diferenças que consubstanciam, nas expectativas e anseios que são só seus. Nas mulheres destacadas por preencherem quotas, aparentando paridade onde existe desigualdade de facto. Nos jovens transformados em figurantes, protagonistas para fazerem ruído e simularem futuro. Nos desempregados que perdem voz à medida que se distanciam da vida activa e se deprimem, fora de comícios, manifestações e arruadas. Nos imigrantes diligentemente varridos para longe das câmaras embora participem do nosso destino comum. Nos idosos cujos rostos passam num instante quando a televisão persegue os candidatos. Nos gays, nas lésbicas, nos artistas, nos intelectuais, arregimentados para evocarem um «capital de modernidade» perante a opinião pública, mas excluídos ou confinados a recantos invisíveis nas propostas concebidas para serem lidas pelo cidadão comum e decifradas pelos legisladores. Lembro-me de todos estes, que são milhões, e pergunto-me sobre o que lhes oferece a política institucional, aquela que verdadeiramente decide e governa as nossas vidas. Aquela cujos actores, após a dança das cadeiras, reocupará hoje os seus lugares reservados.

      Atualidade, Olhares

      Um voto crítico mas convicto

      Bloco em Coimbra
      Imagem do comício do BE em Coimbra na noite de 21 de Setembro

      Ser politicamente independente e não ter militância partidária não significa ser contra os partidos e a política, ou permanecer indiferente perante os debates e os conflitos que nos cercam. Esta opção corresponde, no meu caso, a uma escolha que implica um posicionamento crítico construtivo e uma vivência tanto quanto possível empenhada da cidadania. Encaro por isso como um acto de coerência o apoio ao programa e às propostas do Bloco de Esquerda para estas eleições legislativas.

      Desde logo porque este propõe uma intervenção política «à esquerda», sem complexos, que não é puramente retórica e meramente desenvolvimentista, ou então exclusivamente protestativa e maximalista, como as avançadas pelos outros partidos frequentemente conotados com a esquerda. Não sacraliza um crescimento económico auto-satisfeito e sem norte, ao qual em última instância tudo é sacrificado, como não reivindica um ódio de classes e uma atitude teimosamente isolacionista fora do tempo.

      Depois, porque a generalidade das listas eleitorais do Bloco não obedece à lógica do aparelho ou da representação fundada na figura supostamente neutra e impoluta da «personalidade». Integra alguns dos seus quadros mais valiosos, dinâmicos e empenhados, como não poderia deixar de acontecer – entre os quais existem por vezes diferenças de pontos de vista, pois o pensamento único não mora aqui –, mas recorre basicamente a pessoas reconhecidas pelo seu vínculo às causas sociais e a experiências pessoais e profissionais de mérito reconhecido.

      Por último, porque o programa do Bloco de Esquerda propõe escolhas e sugere iniciativas públicas que apontam para a clara afirmação política de uma esquerda socialista, moderada na acção diária mas radical contra a injustiça e a desigualdade, que os adeptos da economia neoliberal e da intervenção meramente gestionária do Estado se têm esforçado para definir como irrealizável, adversária do desenvolvimento e socialmente desastrosa. Ao invés, uma viragem de políticas é possível e acredito ser esse o caminho para o qual apontarão, construtiva e combativamente, os futuros deputados eleitos pelo Bloco. Por isso apoio a sua eleição. Sem com este apoio desactivar a minha vigilância crítica. Antes pelo contrário, se querem saber.

      Versão «revista e aumentada» de um texto que apareceu há dias em Coimbra em Bloco!, o blogue da candidatura do Bloco de Esquerda às eleições legislativas pelo distrito de Coimbra.

        Atualidade, Opinião

        Saudades de Nikita

        Khrushchev

        O pícaro coronel Khadafi, pseudo-Nehru da aurora do século 21, tinha 15 minutos para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas. Falou durante 95 – Fidel Castro, recordista absoluto da especialidade, dispendeu 240 em 1960 –, disparando em todas as direcções, qualificando o Conselho de Segurança como terrorista, e chegando a lançar estrondosamente ao chão um exemplar em árabe do documento fundador da instituição que o acolhia. Jogando com o estatuto de inimputável e chantagista que lhe permite compor perfomances desta natureza sem que, no mínimo, alguém se erga do seu lugar e saia da sala ostensivamente, deixando-o a arengar para confrades e clientes. Ou proteste batendo com um sapato na respectiva bancada, como o fez certo dia o saudoso líder soviético Nikita Khrushchev, outro personagem razoavelmente burlesco que foi determinante no seu tempo. Mas esse ao menos tinha alguma piada e não fazia explodir aviões de passageiros no ar.

          Atualidade, Etc., Memória

          Uma nova servidão

          A colmeia

          «The government is to stop funding “pointless” university research, forcing academics to prove that their academic inquiry has some relevance to the real world, funding chiefs will announce today.

          Universities will have to show that their research influences the economy, public policy or society in order to secure the biggest research grants, the government’s funding body for higher education said.»

          De acordo com um artigo publicado hoje no Guardian, do qual retirei os dois parágrafos anteriores, os planos do governo britânico para o financiamento da investigação – e o custeamento das próprias universidades – deverão rapidamente excluir a pesquisa pura, considerada perdulária, supérflua e até risível. A outra, a «útil», aquela «que serve para alguma coisa», será, presume-se, superintendida por gestores, aplicados amanuenses, software avançadíssimo e laboriosos gabinetes de marketing. Arrumada num mundo perfeito, inspeccionado, sem desperdício.

          Ainda não se chegou tão longe por cá, mas sabendo-se como os burocratas domésticos aprendem depressa, e conhecendo-se alguns indicadores espalhados já por regulamentos conhecidos dos centros de investigação e das universidades, não surpreenderá ninguém se em breve habitarmos idêntica paisagem siberiana. E se, pouco tempo depois, alguém nos vier propor que a imaginação exibida em público passe a pagar imposto. Até que num dia não muito distante, se tudo correr bem aos polícias do conhecimento e nos formos conservando quietos, distraídos e veneradores, estudar pelo insano prazer de saber, ou adiantar ideias contrárias à «paz social» por serem absurdamente criativas, serão considerados crimes. Castigando-se os criminosos com trabalhos forçados em «projectos de conhecimento relevante». A ver se aprendem, esses inúteis.

            Atualidade, Olhares, Opinião

            O caso do pirómano egípcio

            Fahrenheit 451

            Por vezes é necessário tomar posições frontais contra a lógica da diplomacia dúctil e puramente defensiva. Como o fez Manuel Maria Carrilho, contra a vontade do ministro Luís Amado, no caso da prevista escolha do egípcio Farouk Hosni, o pirómano de livros «semitas», para secretário-geral da Unesco. Por esse e por outros actos é que felizmente acabou por ser eleita a búlgara Irina Bokova. Sem o voto português, pois Carrilho foi acabou por ser substituído nas votações por um funcionário do MNE. Como escreveu Pedro Correia, «o simples facto de essas instruções terem sido transmitidas ao nosso embaixador na Unesco (…) revela bem até que ponto chegou o temor reverencial do Ocidente».

              Atualidade, Democracia

              Com um ténue sorriso nos lábios

              Talk Talk

              Não posso senão concordar com o óbvio, transformado em evidência nestes últimos dias de campanha: se o revanchismo marca-PSD não ganhar as eleições por uns módicos milhares de votos, o cenário inevitável será o da vitória de um PS em queda, com uma subida bastante acentuada do Bloco de Esquerda e outra, menos resplandecente embora perceptível, do Partido Comunista. O passo seguinte deverá passar – pois alguém terá de ficar com as chaves da quinta e geri-la – pela materialização de uma aproximação à esquerda. Seja esta aproximação traduzida num «pacto de governo» ou em acordos pontuais no interior do espaço parlamentar. O segundo cenário é menos complexo e esboçá-lo é menos urgente, pois as soluções serão encontradas a médio prazo, caso a caso, num esforço de negociação que em alguns momentos regressará ao centro, podendo mesmo incluir sectores do PSD. Já um «pacto de governo» supõe uma decisão mais rápida mas também mais difícil.

              Em artigo publicado hoje no Público, o meu amigo e colega Elísio Estanque desenha muito bem o cenário provável e algumas das dificuldades colocadas na sua construção. Transcrevo-o parcialmente, em total concordância:

              «Entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).»

              Para depois continuar:

              «Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc.), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito mínimo para um governo estável e de esquerda.»

              Também me parece ser este o cenário possível e desejável dentro das actuais circunstâncias, ainda que duvide um pouco da viabilidade da sua materialização. Esta dúvida prende-se com um problema que EE apenas aflora mas que a mim parece dever merecer especial atenção. Se olharmos bem a projecção dessa possível paisagem, a maior expectativa de quem a deseja ou prepara não se limitará ao resultado do simples somatório dos votos depositados nas urnas e à consequente solução institucional, mas antes àquilo que de autenticamente novo essa aproximação trará à história democrática da nossa Terceira República, no contexto de um processo inevitável de reidentificação tanto do PS quanto do Bloco. Ora é a existência de vontade política para dinamizar esta viragem que não consigo ainda vislumbrar.

              Para o PS, tratar-se-á de uma alteração de políticas e de comportamentos nas mais diversas áreas, bem como uma partilha parcial de cargos e de poder, com o necessário recuo dos sectores mais empenhadamente autoritaristas e defensores de um «neoliberalismo moderado» como único sistema viável. Para o Bloco, será a perda gradual de uma cultura ainda essencialmente protestativa e abertamente fracturante, com o recuo, ou mesmo o apagamento, das franjas radicais e tardo-marxistas, minoritárias na contagem dos votos mas organicamente activas, que ainda o povoam. Isto não significa o desaparecimento das diferenças, mas obrigará a uma diluição das áreas de conflito, o que poderá provocar, numa e noutra de ambas as forças, alterações irreversíveis. Significará uma coabitação em «comunhão de adquiridos» que forçará novos equilíbrios e radicalizará, numa dinâmica centrífuga, determinados sectores da margem esquerda da actual vida política. Inventario apenas alguns, não carecendo de ser adivinho para o poder fazer: um recuo da ala mais à direita do aparelho e da clientela do PS, um upgrade da cultura política do Bloco em articulação com a prática de poder, o esvaziamento formal do fugaz «alegrismo», um incremento da «urbanização» da base social de apoio do governo, a radicalização e a recomposição da extrema-esquerda supervivente, a estabilização definitiva do PCP como partido de protesto antieuropeísta ou a sua improvável adaptação ao século 21.

              Por isso não vejo a possível ou inevitável aproximação entre PS e BE como um fim em si na construção de uma solução governativa estável e mais justa dentro do sistema democrático imperfeito no qual vivemos. Vejo-a antes como um momento – possível, repito, embora pouco provável – para conter e superar os excessos anti-socialistas da política governativa simbolizada pelo actual «socratismo» rosa-cinzento. Apenas como uma etapa, como um tempo de mudança, para algo que ainda não podemos vislumbrar mas virá depois. Talvez, como escreve EE, ela possa representar «um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portuguesa». Talvez. Uma fantasia boa que pode, ou poderia, tornar-se realidade. Daquelas das quais despertamos com um ténue sorriso nos lábios, antes de retornarmos à aspereza da vida de todos os dias. Mas bem sabemos como não existe uma «ciência do real» e tudo avança por processos repetidos de tentativa e erro.

                Atualidade, Opinião

                Edith e Zé Manel

                Edith Piaf

                Na viragem para a década de 1970 tornou-se muito popular em França uma cantora que os jornais consideravam «a nova Piaf». Mireille Mathieu tinha de facto uma voz interessante, num registo gutural próximo daquele que caracterizara Edith Piaf, e quem a ouvisse cantar num vulgar rádio de pilhas em onda média, ou numa longínqua instalação sonora de festa de aldeia, facilmente confundia a sua voz com a da intérprete de Non, je ne regrette rien. Mas quando se prestava maior atenção à pessoa, à música e ao tom, as diferenças tornavam-se flagrantes. O aspecto de jovem perfeita, asseada e bem comportada, o conteúdo açucarado do seu repertório, e principalmente a ausência daquele pathos que caracterizava a minúscula Edith e a tornava um animal de palco, mostravam imediatamente as debilidades de Mireille. Por isso ninguém se espantou verdadeiramente quando ela desapareceu de cena. Lembrei-me desta distância entre a Piaf e a sua cópia após ler a notícia sobre a confirmação de José Manuel Durão Barroso no segundo mandato como presidente da Comissão Europeia. Confrontando a sua presença medíocre e o discurso apenas melífluo e de circunstância com os de Monsieur Europe, o socialista Jacques Delors, uma personalidade forte que chefiou a Comissão entre 1985 e 1995 e fez com que a voz europeia fosse ouvida e respeitada muito para além do perímetro de Bruxelas, vemos como foi rápida a passagem do original para a sua indigente cópia.

                  Atualidade, Olhares

                  Bandeira vermelha com banda sonora

                  Bandeira Vermelha

                  O Bloco fica-se e o PCP avança em «Um neo-reformismo de fachada socialista». Teoria de altíssima densidade, mes amis. Estão a ver as coisas agora um pouco melhor? Só falta falar – mas está quase tudo lá – da «cobardia que se encobre na bravata verbal», da embriaguez da «própria concepção do poder do verbo»,  de «sentimentos e ambições de classe», de «aliança objectiva com o capital», de «desligação das massas populares» ou de «perda de contacto com a classe operária». Apenas algumas das centenas de expressões de idêntico teor utilizadas por Álvaro Cunhal no recuado Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada Socialista, um livro de 1971, para tratar dos «esquerdalhos e outros bandalhos». Como se escreve no prefácio à 3ª edição, publicada já depois do 25 de Abril, «a luta ideológica e política contra o radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista não terminou com o derrubamento da ditadura (…), conserva plena actualidade». E dura, e dura, e dura.

                  [audio:http://aterceiranoite.org/sons/Samba De Uma Nota So.mp3]
                    Atualidade, Olhares

                    Margem de outra maneira

                    Edifício Foice e Martelo
                    Edifício Foice e Martelo, de Yakov Chernikhov (1933)

                    O Zé Neves publicou no 5 Dias um excelente post onde contesta algumas reacções ao clima cinzento e aprazível no qual decorreu o «frente-a-frente» televisivo – as aspas são minhas – entre Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa. Focaliza a sua crítica nas posições, diferentes entre si mas coincidentes no teor negativo da apreciação, enunciadas por Miguel Vale de Almeida, por Daniel Oliveira e por mim, entendendo que, ao partilharem um «sentimento anti-PCP», todas elas tendem a limitar bastante as vias do possível para arquitectar o futuro da esquerda em Portugal.

                    As posições de MVA e de DO parecem ter, nos comentários do ZN, uma natureza mais táctica e causal, e provavelmente terão, uma vez que resultam de preocupações mais imediatas, mas a crítica que me é feita levanta problemas a propósito dos caminhos da esquerda num presente projectado para além do momento eleitoral. Nesta direcção, ZN salienta que a defesa que faço da necessidade de um esclarecimento das divergências e das diferenças entre o Bloco de Esquerda e os comunistas expõe uma «pulsão anti-PCP» que pode indiciar também «uma pulsão anticomunista tout court». Apesar de comigo concordar sobre a necessidade «em romper radicalmente com o legado do marxismo-leninismo». Debater de uma forma aprofundada a justeza ou os sentidos que esta apreciação incorpora é tarefa impossível de concretizar nos cinco parágrafos deste post, e evoca problemas mais densos que tenho tocado aqui e ali, aos quais procurarei regressar noutra altura, mas não quero deixar de dizer alguma coisa sobre a forma como o ZN leu as minhas palavras.

                    Talvez valha a pena sublinhar entretanto que o facto de votar BE, e de apelar a que outros o façam, não implica vínculo algum que me leve a ocultar objecções a algumas das suas escolhas. Como não significa que as minhas posições sejam admissíveis no interior do próprio Bloco. Longe disso, eu sei. Não sou militante bloquista, mas um cidadão de esquerda sem partido, e não concebo uma independência militante de outra forma que não seja como uma posição, um posto de franco-atirador, que liberta quem os assume para uma capacidade crítica mais improvável em quem, participando de uma organização partidária, se vê geralmente forçado a conformar as suas posições públicas com as da sua facção. Por isso os meus pontos de vista não visam defender qualquer estratégia eleitoral opcional para o Bloco – para isso, como partido democrático, tem o BE os órgãos e as pessoas competentes –, mas procuram apenas, mais prosaicamente, lançar pistas para uma reapreciação do futuro da esquerda. De uma esquerda que está aquém e além de atitudes, estritamente conjunturais, vinculadas ao episódio eleitoral.

                    Tendo uma visão humanista, solidária e poética do comunismo, integradora de uma carga utópica vital sem dúvida démodée e assumidamente a-científica, sei que ela não se compadece com a perspectiva realista e instrumental que algum marxismo, e sobretudo o leninismo, impuseram e aplicam com base no modelo que em determinado momento do século passado se presumiu triunfante. Sou por isso, sem dúvida, opositor ao tipo de comunismo que o PCP, e também uma boa parte da fragmentada esquerda radical supervivente, persistem em incorporar, na sua matriz política, cultural e até vivencial, como caminhos pelos quais ainda passará o futuro da esquerda da qual se consideram a parte perfeita. Nessa matriz programática resiste o anacrónico desejo de um controlo integral da sociedade, de uma manipulação redentora do indivíduo como subordinado à ditadura do colectivo, de clarificação centralista do que é ou não socialmente aceitável, da metamorfose da divergência em dissídio pela via do rancor (o desusado «ódio de classe»), de simplificação de um universo cada vez mais complexo, que não é meramente retórica. E não estou com problemas de visão. Ao mesmo tempo – não me parece que esse aspecto seja de importância menor – existe uma cumplicidade em relação aos caminhos mais tortuosos e dramáticos da história da experiência do «socialismo de Estado» que não me parece aceitável, é injusta para a memória daqueles que destruiu (não falamos de mil, ou dez mil, e ainda que falássemos de dez…), e questiona de raiz o próprio conceito de democracia. Por isso jamais aceitaria – como o fariam muitos portugueses que votam e votarão BE – pactuar ao nível da governação do meu país com uma força política que ainda desculpabiliza, quando não elogia, as atrocidades sem fim do Gulag, que cala os atropelos brutais à democracia e aos direitos humanos na China, que justifica a repressão na mitificada Cuba, que tem da justiça, da liberdade, da ética, da guerra e da própria democracia uma noção instrumental que é maleável na exclusiva medida em que essa maleabilidade convenha tacticamente aos seus objectivos operacionais subordinados ainda a uma espécie de irredentismo histórico.

                    Isto não implica, porém, a recusa de colaboração com os comunistas do PCP no plano do combate diário por causas próximas. Ela é comprovadamente e recomprovadamente difícil, mas não impossível. Não impõe também, de modo algum, a negação da grande tradição solidária e memorável que a história do movimento comunista português e internacional nos tem doado. Mas essa inesquecível grandeza não é tão forte que nos leve a fechar os olhos e a admitir, agora e aqui, uma solução governativa feita daquela espúria miscelânea. Por isso me parece que o Bloco, que incorpora, mesmo ao nível da simpatia traduzida em votos, um grande número de apoiantes de uma esquerda socialista democrática – não diria o mesmo de todos os militantes e activistas bloquistas, mas essa será outra questão –, deve reconhecer e aceitar publicamente a sua diferença. Não sendo prioritário fazê-lo a todo o momento, num debate com Jerónimo de Sousa este aspecto não deveria ter sido completamente esquecido (embora se entenda perfeitamente a opção deste em não ir por aí). Pois não o fazer corresponde, como defendi, a menorizar um pouco os muitos eleitores que votam BE pois não querem votar PCP, e também aqueles, sem partido, que ainda hesitam sobre em quem votar à esquerda. E nenhum de nós admite que eles o façam pelos lindos olhos de alguém, pela cor da gravata ou pela ausência dela, ou como se jogassem no Euromilhões.

                      Atualidade, História, Opinião

                      Jaume los tiene

                      Tricolor

                      Jaume d’Urgell identifica-se no Twitter como «um madrileno nascido em Barcelona, preocupado com o bem comum, a cultura, os Direitos Humanos, a razão crítica e a comunicação». É militante republicano, e foi nessa qualidade que em 14 de Maio de 2006 escalou a fachada de um edifício oficial situado na Gran Vía de Madrid substituindo a bandeira nacional espanhola, de matriz monárquica e ainda conotada com o franquismo, pela tricolor. Jaume não escondeu a cara e deixou-se identificar, tal como assumiu a responsabilidade do seu acto e não aceitou pagar a multa de 4.000 euros decidida por um tribunal, optando por cumprir três meses e meio de prisão efectiva. Agir de outra forma «seria dar-lhes razão», declarou. Mantém em seu nome uma página pessoal e um blogue – La bitácora de Jaume – dedicado à causa republicana. Um bom exemplo de coerência e bravura que nada tem a ver com as brincadeiras azuladas a que temos assistido por aqui. Toda a história no Público espanhol.

                        Apontamentos, Atualidade

                        RTP-Memória

                        Admito que hoje, ao seguir na televisão a conversa entre Jerónimo de Sousa e José Sócrates, senti pena do primeiro. Muito cansado, sem chama, quase deferente, mastigando as palavras, incapaz sequer de repetir o discurso oficial, monocórdico mas combativo, do seu próprio partido. E lembrei-me muito da voz e da presença de Álvaro Cunhal. Sócrates tratou «o Jerónimo» como se este fosse um delegado sindical de um lar para a terceira idade a quem se deva sempre uma certa dose de condescendência. Cunhal jamais admitiria que alguém o tratasse daquela forma e a ninguém passaria pela cabeça fazê-lo. Foi mau para todos e triste de ver.

                          Apontamentos, Atualidade

                          Os nós de Nolte

                          Israel, Palestina

                          De quando em vez, sem o desejarmos, somos injustos até para pessoas que não conhecemos. Uma das injustiças que tenho feito a algumas consiste em considerá-las mortas quando afinal se conservam entre nós e no uso das suas faculdades. Ainda há pouco, numa conversa, «matei» Claude Lévi-Strauss, afinal vivo e activo com 101 anos. Passou-se agora a mesma coisa com Ernst Nolte, o controverso historiador alemão conhecido, principalmente nos anos oitenta, pela polémica interpretação do nazismo como uma reacção inevitável, e de certa forma compreensível, aceitável até, à ascensão do comunismo. Sugeria mesmo o «assassinato por razões de raça», perpetrado por Hitler, como uma resposta ao «assassinato por razões de classe» projectado universalmente pelos bolcheviques. A altercação pública a propósito do tema que manteve então com François Furet apenas fez com que essa explicação ganhasse uma maior visibilidade.

                          Pois Nolte – que eu já «enterrara» e afinal não passou ainda dos 86 – volta agora à arena, em Die Dritte Radikale Widerstandsbewegung: Der Islamismus, já de 2009, com uma teoria nova e não menos controversa. Procura desta vez explicar a irrupção do islamismo radical como algo de «justificável», de «compreensível», surgido como expressão da resistência à presença e à envergadura do Estado de Israel. Num raciocínio marcado por um antisemitismo redivivo à medida do nosso tempo, chega ao ponto de considerar como «percursor corajoso do combate palestiniano» a Mohammed Amin a-Husseini, o mufti de Jerusalém que em 1942, aos gritos de «Matem-nos a todos!», apelou em Berlim a uma jihad contra os judeus, apoiando a «solução final» proposta pelos nazis e colaborando mesmo na organização de uma divisão das Waffen-SS composta por muçulmanos bósnios. O islamismo será então, para Nolte, uma «ideologia muçulmana defensiva» face a um Israel colonial e imperialista. Interessante, como resultado do seu raciocínio tortuoso, é a aproximação do nazismo ao islamismo como movimentos político-culturais legítimos irmanados pela sua oposição a um «mal maior». Veremos agora que eco terá esta leitura entre aqueles que condenam Israel sem olharem à complexidade dos trajectos históricos e à realidade objectiva que moldaram e moldam a sua existência. Que eco terá dentro do universo islâmico também. Ahmadinejad aplaudirá com toda a certeza.

                            Atualidade, História, Olhares

                            O original e o genérico

                            Bucha e Estica

                            O tom cordato do qual se serviram Francisco Louçã e Jerónimo de Sousa no aborrecido pseudo-debate televisivo desta noite pode funcionar objectivamente como um embuste lançado sobre um sector do eleitorado, situado à esquerda e em clara ruptura com o PS, que de forma genuína hesita sobre em quem votar. Jerónimo surpreendeu um pouco mais, dadas as arremetidas anti-bloquistas antes adoptadas pelo PCP, uma vez que Louçã apenas manteve o habitual registo, sistematicamente assumido pelo Bloco, de contornar jovialmente este tipo de confronto. Ambos deram tacitamente a entender que as divergências serão pouco relevantes. Mas não são: os dois partidos têm agendas muito diferentes, uma cultura política hoje bem distinta, divergem bastante em áreas como as finanças ou as questões internacionais, e projectam expectativas separadas no que diz respeito a uma eventual participação em soluções de governo. Os cidadãos que desejarem conhecer quais as discordâncias têm por isso todo o direito a ser esclarecidos. Até para que Bloco e PCP não abonem as razões de quem anda por aí a sugerir que o medicamento é o mesmo e só as embalagens dão uma ideia do contrário.

                            [Uma descrição mais detalhada da pacífica conversa é feita neste post de Pedro Correia.]

                              Atualidade, Opinião

                              Acto de contrição

                              Delicado

                              De acordo com as palavras do engenheiro Sócrates em variante soft da entrevista de hoje à RTP, «talvez não tivesse havido da nossa parte a suficiente delicadeza na nossa relação com os professores». Demonstrar arrependimento, convenhamos, é sempre uma atitude meritória. Principalmente em campanha. E fazer o pino também. Ficamos à espera.

                              P.S. – Já depois deste post escrito, a ministra da Educação não fez o pino, mas rastejou, admitindo agora, já com o Juízo Final em andamento, «que existiram problemas de comunicação entre Governo e professores nos últimos quatro anos». É por estas e por outras idênticas que tantas pessoas honestas cospem para o chão e se benzem quando tal espécie de gente lhes passa por perto.

                                Apontamentos, Atualidade

                                O erro

                                O erro

                                Existe um erro básico na apreciação que o PS e alguns dos seus apoiantes fazem do actual papel do Bloco de Esquerda. Consiste ele em meterem no mesmo saco o Bloco e o PCP, quando, de facto, apesar das franjas radicais e proto-marxistas que ainda resistem no BE, este tem vindo a afirmar-se cada vez mais como uma força-charneira. Enquanto partido política, cultural e sociologicamente localizado entre um «socialismo» de direita, assumidamente defensor de uma lógica gestionária, clientelar e desenvolvimentista de tipo neoliberal, e um «comunismo» de museu, activo mas sitiado, cada vez mais radicalizado e quase incapaz de dialogar com quem não siga a sua verdade histórica e fale a sua língua de madeira.

                                Mais tarde ou mais cedo, PS e Bloco estarão condenados a entender-se como solução governativa de um tipo novo. Não quero com isto dizer que seja essa a solução na qual me revejo (aliás, aquela que Daniel Oliveira volta a defender na crónica publicada este sábado no Expresso). Continuo a pensar que é útil e até necessária a existência de uma força radical representativa, capaz de assumir com algum impacto uma presença de reivindicação e denúncia sem a qual a democracia pode derivar para uma lógica de gabinete ou para o autoritarismo. E que essa força já não pode ser o BE. Mas sei que a governação não se faz apenas da proclamação de princípios abstractos com os quais eu possa eventualmente simpatizar: faz-se de conciliações e de iniciativa. De algum realismo também. E será por aí que passará a aproximação da qual falo. Daí que os violentos ataques ao Bloco lançados pelos socialistas (e por alguns dos «independentes» que os apoiam) só possam voltar-se contra os próprios. Como? Simples (ou «simplex»): concorrendo para fornecer a muitos cidadãos a percepção de que tal solução de alternativa e diferença apenas poderá ser projectada se ocorrer uma votação bastante significativa no Bloco. Não sei se, para o poderem compreender, têm passado o suficiente pelo outro lado da realidade.

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                                  O caroço da JS

                                  O paradigma

                                  Um dos aspectos que mais impressiona na indicação da moça Carolina como «mandatária para a juventude» da campanha do PS é o sereno assentimento da Juventude Socialista perante escolha de tal densidade. Ou a invisibilidade pública de uma posição crítica que de algum responsável da JS tenha emanado. Esta organização, que em tempos terá funcionado, pelo menos formalmente, como «consciência crítica» do partido em relação aos seus adultos patronos, tal como acontecia com a JSD e até com a JC – mas não com a JCP, pois aí a juventude da idade foi e é temperada pela fidelidade aos «imutáveis» princípios –, parece ter perdido completamente a capacidade para definir uma voz própria e introduzir dinâmicas de reflexão. Justamente aquilo que a tornava razoavelmente respeitada fora do aparelho partidário. Hoje toda aquela precocemente responsável gente se concentra no seu papel de actores da propaganda e de rosto um pouco menos rugoso de um «modelo de modernidade» que a direcção do partido lhe destina. Afirmar por entre um chorrilho de tolices e de banalidades, como o fez a Carolina, que mais vale fazer batota do que perder, não lhes parece já constituir uma inqualificável ignomínia ética, uma distorção completa dos ideais socialistas mais elementares. Sobretudo porque, como calculam, o rosto público da jovem conquistará votos, votos significam poder, e o resto é conversa. Uma lógica muito natural, na qual só não alinham esses empedernidos radicais que dão demasiado valor aos princípios.

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                                    Conversa adiada

                                    Revolution

                                    Tão concentrada tem sida a atenção lançada neste período pré-eleitoral sobre as querelas mais ou menos individualizadas entre PS e PSD, e sobre a campanha dos socialistas pelo «voto útil» e contra essa «esquerda radical» que «serve a direita», que permanece por fazer um outro tipo de confronto, essencial para que a escolha de muitas pessoas faça sentido. Refiro-me à necessidade de se mostrar com toda a clareza que votar no Bloco de Esquerda ou no Partido Comunista Português não pode resultar de uma escolha fortuita ou sectária.

                                    O PCP percebeu-o mais cedo, radicalizando o discurso – consequente com as características da tendência obreirista que domina o partido – e atacando, em público ou no contacto directo, a actividade «pequeno-burguesa», para si falsamente «de esquerda», do Bloco. Já este continua a esquivar-se a este tipo de combate, confinando-se sempre a posições defensivas ou mesmo ao sepulcral silêncio de cada vez que o problema se põe. Existem, naturalmente, divergências profundas – de programa, de organização, de substância política, de atitude ética e mesmo de percursos pessoais – que tornam impossível, e até incompreensível para a generalidade das pessoas, qualquer aproximação formal entre uns e outros. Mas existe também uma real incompatibilidade de propostas que é preciso observar.

                                    Os comunistas têm mostrado qual a sua escolha, extremando as palavras de ordem (falam agora de «Ruptura e mudança», uma vez mais sem apresentarem alternativa de poder por falta de condições «objectivas e subjectivas»), enquanto o Bloco opta por se mostrar um pouco mais construtivo, com assomos apenas pontuais de radicalismo. A alternativa dos eleitores passa assim, na larga franja de cerca de 20% do eleitorado onde se trava esta luta, por uma escolha tão simples quanto esta: preferem uma força que se assuma como trincheira, juntado forças para «a luta» pelos seus improváveis «amanhãs que cantam», ou optam pela construção de uma base política capaz de obrigar a uma inflexão a cegueira do «socialismo gestionário» no poder? Por mim, a escolha está feita, mas acredito que ela seja ainda pouco clara para um grande número de pessoas. Por isso, e para que não se vote apenas no «contra», ou por uma questão de simpatia por Jerónimo ou por Louçã, este debate deveria também ter lugar. Embora eu desconfie que seja melhor esperarmos sentados por ele.

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