Duas calamidades

Regresso ao debate sobre a saída deste beco escuro e infeto ao qual estamos confinados desde que a política de austeridade tutelada do exterior se tornou a pedra de toque do governo da República, servindo à medida os propósitos dos setores que de há muito pretendiam destruir o Estado social, limitar os direitos dos trabalhadores e reduzir as liberdades. Dando-lhes, pela primeira vez, força e coragem suficientes para levarem a cabo o ímpeto revanchista que, em cobarde silêncio, foram alimentando ao longo das últimas décadas. Esta é a primeira das duas calamidades à qual estamos sujeitos: ser governados por quem tem da coisa pública uma perspetiva puramente instrumental, transpondo a salvaguarda do interesse coletivo, ou do bem comum, em favor da assumida defesa do interesse dos que fazem da desigualdade o fundamento da vida social. Por sua vez, tratando-se de uma ação levada a cabo em nome de uma imposição apresentada como imperativa e irrecusável – materializada no caráter prioritário do pagamento, a todo o custo e a toda a velocidade, da dívida soberana –, tal política é-nos apresentada da pior maneira: como exercício arbitrário de uma autoridade insensível aos direitos das pessoas comuns, aos fundamentos da democracia e até ao quadro mais essencial da independência do país. (mais…)
