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Arrependidos

Arrependidos

No judaísmo e no cristianismo, o arrependimento é um acto central da virtude religiosa que consiste num sentimento de rejeição sincera, por parte do pecador, do seu comportamento pregresso, do qual resulta a intenção de um retorno à lei moral. Nesta direcção, o arrependido é um penitente, existindo uma relação de sinonímia entre ambas as palavras, ademais com raiz etimológica partilhada. «Repentudo» era ainda, no século XIII, uma palavra comum, híbrida, utilizada no português com idêntico sentido. As vidas dos santos encontram-se, aliás, repletas de relatos desse instante redentor no qual se abjura de um passado de transgressão em nome de um caminho novo, de rectidão e pena. Existem, no entanto, modelos distintos de arrependimento: desde aquele, sincero, que resulta de uma apreensão gradual da falta de justeza de uma atitude que é seguida da sua correcção, a um outro, meramente formal, que se segue à imposição, muitas das vezes condicionada pelo medo ou pela coacção, de uma atitude que não é sentida.

Os sistemas totalitários, consolidados por uma ideologia, de pendor laico ou não, que se vê transformada em «religião do poder», serviram-se sempre do arrependimento como processo para moldar a opinião pública ou isolar a dissidência. Foram diversos os intelectuais alemães que cumpriram o papel de arrependidos, o mesmo acontecendo em França durante a República de Vichy. Os Processos de Moscovo recorreram mesmo às declarações dos «arrependidos» como arma de arremesso lançada contra outras vítimas, transformando as suas palavras em libelos da acusação destinados a esmagar os «inimigos do socialismo». Na China pudemos ver, durante a Revolução Cultural, de que forma foi possível encenar, sem qualquer maquilhagem, o «arrependimento» público de um acusado, transformado publicamente num ser desprezável, cuja atitude de rejeição de si próprio visava confirmar a abjecção e a infâmia do próprio dissídio. De Cuba chegam ainda os ecos fantasmagóricos das declarações prestadas durante o julgamento do General Arnaldo Ochoa, o único guerrilheiro de origem proletária de Sierra Maestra, e depois das arengas avulsas, devidamente televisionadas, de outros penitentes. Por isso, não nos podem surpreender já – a nós que temos, felizmente, a possibilidade de consultar arquivos, de confrontar memórias, e que por isso mais dificilmente nos deixamos enganar – as imagens daquela pobre mulher iraniana, sentada ontem em frente das câmaras, afirmando para todo o mundo, penitente, que «os culpados somos nós, os manifestantes».

    Atualidade, Democracia, História

    Fim de uma era

    Kodachrome

    A decisão não surpreende, pois 70 por cento das receitas da Kodak chegam já da fotografia digital, mas o anúncio da descontinuação dos rolos de Kodachrome não deixa de marcar o fim de uma era. Tratou-se da primeira película de cor a chegar a um mercado alargado, aquela de que a maioria dos fotógrafos, principalmente os profissionais – tal como acontecerá anos depois com alguns realizadores de cinema –, se serviu a partir de 1935. Para trás fica agora um cruzamento único das vias da reprodutibilidade da cor com a popularização da ars photographica. E as palavras da velha canção de Paul Simon, evocando tons e olhares perdidos para sempre: «they give us those nice bright colors, / they give us the greens of summers / makes you think all the worlds a sunny day, oh yeah.» Paz à sua alma.

      Memória, Olhares

      Burka e dignidade

      Mulher de burka

      Poderia, por uma vez, concordar com Sarkozy. Também a mim a burka repugna: é feia, é horrível, «um símbolo de subserviência». Mas é-o igualmente de sobrevivência. Para muitas mulheres muçulmanas o único possível, o único razoável no seu espaço de pertença, factor de inclusão no casulo protector fora do qual nada possuem, para nada contam. E não existe um sistema métrico universal e absoluto para o conceito de dignidade. A burka não pode ser imposta e não deve ser proibida. Em Kabul ou Copenhaga.

      [Escrito um ano depois – Quando redigi este pequeno post procurava, sobretudo, reagir a ímpetos claramente xenófobos protagonizados pelo governo de Sarkozy, e ao mesmo tempo tentava compreender o lugar das mulheres muçulmanas que não têm alternativa que não seja a de se conformarem à norma imposta. Não deixam de me preocupar as mesmíssimas razões, mas hoje vejo o problema sob uma perspectiva diferente, talvez mais completa. A imposição da burka condiciona precisamente, em algumas circunstâncias, a sua proibição.]

        Apontamentos, Democracia

        Destinos corsários

        Antonio Muñoz Molina

        Sigo no Babelia outra crónica de Antonio Muñoz Molina – uma digressão semi-onírica sugerida pelos contrastes de luz e sombra registados por Caravaggio na Vocação de Mateus – e pergunto-me sobre quando voltarei a ler, num diário português, uma coluna semanal como «Ida y Vuelta». Uma coluna sobre tudo e sobre nada: quatro línguas de texto em serif tamanho 11, toda uma página sem anúncios de telemóveis ou hambúrgueres, que jamais captará multidões de leitores. Em quase toda a parte, e mais ainda em Portugal pelos índices rasteiros da leitura de jornais, luta-se por uma sobrevivência que só muitos leitores e bons anunciantes poderiam garantir. Não colunistas letrados, hirsutos e pouco aprazíveis, a quem é preciso pagar razoavelmente. Desta maneira, os escritos corsários dos quais falava Pasolini estão cada vez mais confinados às águas das pequenas enseadas, escondidos dos grandes transatlânticos por promontórios enganadores. Espalham-se pelas edições minúsculas de editores um tanto aventureiros, pelos desdobráveis baratos que servem de programa em eventos raros, por revistas que jamais dobram os seis números, pelos posts mais embalados dos blogues menos previsíveis e desqualificados no ranking do Technorati. É esse, afinal, o destino de todos corsários: correrem incontáveis perigos em nome das causas mais improváveis. Por isso permanecem necessários.

          Apontamentos

          As causas da causa

          A rua

          Um dos bloggers que visito diariamente, com o qual numerosas vezes concordo (e quando discordo é geralmente no pormenor), é João Tunes. Referiu-se ele ontem, num post do seu imperdível Água Lisa, a uma frase que eu deixara aqui a propósito dos círculos internos a quem o antiamericanismo primário conduz frequentes vezes a posições bastante criticáveis ou a claros erros políticos. No que respeita à situação no Irão, aprecio a viragem de 180 graus na posição dos comunistas portugueses – que não eram, aliás, os únicos aos quais me referia –, bem como o facto de, após uma semana de enormes protestos de rua e do constante alargamento da sua visibilidade mundial, e provavelmente depois de uma criteriosa pesquisa científica, terem decidido falar sobre o assunto criticando as autoridades iranianas.

            Apontamentos, Atualidade

            ABC das Palavras Obsoletas – 4

            A malta

            Malta

            A «malta» era a maralha. «Eh, malta, éfe-érre-á!», brada ainda por vezes, em dias de guarda, a equipagem estudantil. Amorável e cúmplice, era a maltinha, a maltosa. Na antiga gíria coimbrã aplicava-se à hoste, igualitária à força do companheirismo, dos machos trajados de negro com nódoas de vinho nos fundilhos das calças. Representava também a súcia de indivíduos de má fama, de índole não recomendada às pessoas de bem, vadiando e malandrando como modo de vida. Com maior nobreza, identificava trabalhadores que se deslocavam juntos de um lugar para outro, em demanda de trabalho. Na Casa de Malta, recordava Namora «um casebre meio derruído, sem dono», habitado por «gente erradia», que se podia ver da sua casa do Penedo. Quem a ocupava, escrevia o jovem médico, eram «vagabundos, quase sempre, malteses a cumprir um fado de nómadas que a desconfiança dos outros atiçava, que a miséria deles e dos outros parecia legitimar, ambulantes que mercadejavam adornos ingénuos, campónios de passagem para gloriosos eldorados.» Queria dizer, era «a malta», aquela malta. Em tempos sombrios a malta foi ainda a massa dos «nossos», que nada tinham a ver com «eles», os pousados vampiros: «o que faz falta é animar a malta», cantava o cantor apelando ao despertar dos excluídos. Mas essa malta, a maralha, parece estar desaparecida em combate. Ou anda um tanto desalentada.

              Etc., Olhares

              O decreto do armário

              Tempos difíceis

              O Parlamento lituano aprovou ontem uma lei que proíbe qualquer referência pública a experiências ou ligações de natureza homossexual, bissexual e poligâmica. O objectivo invocado é promover «a saúde psicológica» e cuidar do «desenvolvimento físico, intelectual e moral dos menores». A Lituânia é, obviamente, o único país da região do Báltico no qual o catolicismo é a prática religiosa maioritária.

                Apontamentos, Etc.

                Visionários

                Passei hoje por um enorme outdoor da Juventude Socialista no qual ainda não tinha reparado. Nele surgiam destacadas três frases de campanha, mas como ia a conduzir apenas tive tempo de ler a última. Esta conclamava as multidões de jovens a lutarem decididamente «pelo direito ao TGV».  Uma meta política exaltante, acredito. Provavelmente, eu, adepto contumaz da velha Wells Fargo, é que não estarei a captar o alcance visionário da proposta, a centelha de rasgo que a gerou e transformou em bandeira.

                  Atualidade, Devaneios

                  Teerão também é aqui

                  Teerão

                  Nas eleições iranianas, juram os apoiantes de Moussavi e confirmam os observadores, ocorreu uma manipulação em larga escala dos votos e dos resultados destinada a assegurar a vitória de Ahmadinejad. A verdade é que, para além da luta eleitoral, se defrontam hoje no Irão dois modos incompatíveis de viver o Islão. Não dois ramos de uma mesma religião, mas duas formas de viver a vida da qual a religião é apenas uma parte. Uma que visa o unânime, a tirania do livro único, para a qual a modernidade, os direitos humanos ou a evidência social das mulheres constituem uma criação demoníaca que é preciso esmagar. A outra que é capaz de partilhar uma experiência humana contraditória e plural, mais próxima de uma ancestral cultura islâmica de liberdade que nos últimos tempos tem sido esquecida. Duas formas de estar no mundo que correspondem a dois modos de vida: o pulsar de um universo peculiar mas integrador de uma tradição partilhada, global, jovem, aberta à diferença, contra o ritmo cadenciado do ódio cego, da escalada da violência, do obscurantismo e da recusa da interacção com o diferente. Os que aceitam falar contra aqueles que escolhem obedecer. Não ter posição neste confronto, fazer de conta que não é connosco, ou, pior, tomar partido por Ahmadinejad só porque este se arvora em paladino do anti-americanismo, apenas revela cegueira e menosprezo pelos princípios básicos de uma ética democrática.

                  Adenda: Ontem mesmo a nossa «televisão de serviço público» falou da situação no Irão durante 30 segundos no preciso momento em que a BBC News passava imagens em directo dos confrontos em Teerão. Após uma reportagem de cerca de 18 minutos sobre as andanças mundanas daquele rapaz madeirense que joga à bola.

                    Atualidade, Opinião

                    Ponham os olhos nele

                    Sucesso

                    As televisões exultam com os 94 milhões pagos por um português que joga à bola. Sobem ao céu com o facto assombroso desse português que joga à bola ter sido observado em atitudes mais ou menos íntimas com a socialite Paris. Em Madrid, prestes a rebentarem de patriótico orgulho, os repórteres vagueiam pelas ruas procurando entrever nos olhares dos castelhanos uma chispa de inveja desse país que viu nascer um jogador de futebol capaz de valer 94 milhões e de se passear madrugada adentro com a delgada menina Hilton. Nas entrelinhas, nem um murmúrio de reprovação pela conjugação de obscenidades. Só o deslumbramento pacóvio pela cultura do dinheiro e pela vida doce e fútil de um homem de sucesso.

                      Apontamentos, Olhares

                      Um filme que já vimos

                      Sentido de voto

                      As eleições europeias são, numa certa medida, as mais importantes de todas. Não decidem quem nos vai governar a casa ou quem guardará durante quatro anos a chave da junta, mas como nelas o «voto útil» tem reduzido peso, expressam de forma mais completa que as legislativas ou as autárquicas a vontade de muitas pessoas comuns. Além disso, uma grande parte dos sectores mais despolitizados, que decidem muitos dos resultados, nesta altura deixa-se ficar em casa a ver a TVI, ou vai dar milho aos pombos e fazer o circuito dos centros comerciais. Sobressai então, um pouco mais, a opinião daqueles que a têm. Mesmo quando ela se traduz em votos dispersos, deixados em branco ou anulados com um risco de alto a baixo.

                      Isto confirma o absurdo das interpretações de sectores próximos da direcção actual do PS, que, em estado pós-traumático, se centram agora na vertigem da bipolarização e insistem na ideia peregrina segundo a qual escolher opções «menores», ou que jamais serão governo, é «fazer o jogo da direita». Essas pessoas sabem muito bem que, se não ocorrer um cataclismo social neste momento imprevisível, tanto o Bloco de Esquerda como o Partido Comunista atingiram o maior score possível, e, em conjunto, jamais superarão os 25 ou 26 por cento dos votos, servindo-se desta previsão para minimizarem a escolha do grande número de pessoas que votou nesses partidos sem necessariamente se reverem neles e reconhecendo aquilo que os separa. Mas isso significa reduzir a democracia a uma espécie de teste americano com duas opções, sendo a «esquerda» da qual falam aquela que sabemos: uma área de gestão realista, desvitalizada e soporífera, filha unigénita da decrépita «terceira via», que reduz a política ao circo mediático, à genica pré-formatada das jotas e à capacidade de desempenho dos comissários políticos. De «esquerda», de «esquerda», sobra então um passado legitimador, a cor da bandeira, o «punhinho fechado», e umas quantas frases ocasionais usadas em campanha.

                      Muito pelo contrário, se o alargamento do espectro político pode implicar dificuldades futuras – leia-se, dificuldades em produzir e manter maiorias absolutas – enriquece também a diversidade democrática e contribui para o empenho na coisa pública de um maior número de pessoas. As dificuldades resolvem-se com aproximações, com acordos, com verdadeiro debate, com algumas cedências de todos, e não com a constante submissão a uma força hegemónica mais bem colocada para ser poder ad infinitum e impor, sem dar ouvidos aos outros, as leis que bem lhe apetecer rabiscar. Afinal, um filme que já vimos. Um filme mau, por sinal.

                        Atualidade, Opinião

                        Reencontro

                        Robert Creeley

                        Reencontrei por um acaso, nas rápidas arrumações do duplo feriado, Home, um disco soberbo que me acompanhou durante parte do inverno de 1980/81. Uma música que na altura me aproximou, e muito, da poesia de Robert Creeley (1926-2005). Os músicos são do melhor: a voz de Sheila Jordan, mais Steve Kuhn, David Liebman, Steve Swallow, Lyle Mays e Bob Moses. Um acaso feliz, o regresso a um certo passado. Aqui, a Some Echoes.

                        Some echoes,
                        little pieces,
                        falling, a dust,

                        sunlight, by
                        the window, in
                        the eyes.  Your

                        hair as
                        you brush
                        it, the light

                        behind
                        the eyes,
                        what is left of it.

                        [audio:http://aterceiranoite.org/sons/some echoes.mp3]

                          Memória, Música, Olhares

                          A leste e ainda mais a leste

                          Berlim-Leste

                          Da responsabilidade de Jean-François Soulet, um especialista em história comparada do mundo comunista, a História da Europa de Leste da Segunda Guerra Mundial aos nossos dias desenha uma síntese do trajecto da metade oriental do «velho continente» desde a invasão da Polónia pelos nazis até à adesão dos países de toda a região à União Europeia. Divide-se em três partes repartidas numa sequência temporal: na primeira delas, «a passagem ao comunismo», o autor ocupa-se principalmente da estratégia da União Soviética para aqueles territórios durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial; na segunda, «o tempo do comunismo», descreve o processo de «sovietização» de toda a região, posto em prática com o apoio dos partidos comunistas locais, mas também alguns dos movimentos de revolta e dos actos de dissidência que contestaram essa influência; na terceira parte, «a derrocada do comunismo», parte da avalancha de contestação e queda, pós-1989, dos regimes ali implantados, para seguir os processos de democratização dos diferentes Estados, mas refere-se também aos demónios acordados pelo recuo da influência ideológica comunista e às situações, por vezes críticas e trágicas, entretanto vividas. Como escreveu João Tunes no blogue Água Lisa, «ler este livro completa-nos enquanto europeus», como cidadãos «de uma Europa feita de muitos povos, muitos dramas e traumas.» É uma boa síntese, que disfarça uma quase escandalosa lacuna temática na edição local de obras sobre a nossa história recente. [Trad. de Manuel Ruas. Teorema, 382 págs.]

                            Atualidade, História

                            No coração da raça

                            Mcgyver

                            Neste post limitei-me a pegar num texto sem autoria declarada que me chegou às mãos e a dar-lhe pequenos retoques cosméticos. Aliás, alguns blogues mencionaram o assunto há meses atrás. Mas vale a pena retomá-lo em pleno «Dia da Raça».

                            Um site norte-americano fez uma lista das 10 palavras estrangeiras que mais falta fazem à língua inglesa. The 10 Coolest Foreign Words The English Language Needs são lideradas pela palavra portuguesa «desenrascanço», aquela que, de acordo com os autores do site, mais falta faz no vocabulário inglês. Depois de percorrermos duas páginas com explicações sobre nove palavras de um valor muito prático correntes noutras línguas, chegamos aquela colocada em primeiro lugar. A falta da cedilha não importa para se perceber que estamos a falar do «desenrascanço», conceito supostamente emblemático da nossa cultura. Um uso, experiência ou qualidade da qual, aliás, adoramos vangloriar-nos. Entre nós ou diante dos outros.

                            «Desenrascanço» é  pois «a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem um plano prévio e sem meios», revelando ao mesmo tempo muito sobre a cultura local. E continua o site: «enquanto a maioria de nós [norte-americanos] cresceu sob o lema dos escuteiros “sempre preparados”, os portugueses fazem exactamente o contrário». Desta forma, «conseguir um improviso de última hora que, não se sabe bem como, até funciona, é o que eles [portugueses] consideram como uma das suas mais valiosas aptidões». Adianta-se ainda ser a palavra tão importante que «até a ensinam na universidade e nas forças armadas», acreditando-se que tal capacidade tem sido a chave «da sua sobrevivência durante séculos»,  tendo igualmente representado um dos fundamentos da aventura colonial. «Que se lixe a preparação, eles têm o desenrascanço», conclui o artigo, que sugere uma expressão em inglês capaz de se aproximar minimamente do sentido tomado pela palavra portuguesa: «To pull a MacGyver».

                              Apontamentos, Olhares, Recortes

                              O Ocidente não é um acidente

                              A ponte

                              Tal como proclama o título do original francês, o objectivo confesso do livro é «explicar o Ocidente a toda a gente». Roger-Pol Droit faz a defesa, estorvada pela influência das teses de um relativismo radical que muitos ocidentais têm assumido como um processo de autoflagelação apoiado na denúncia dos horrores cometidos – que o filósofo, aliás, não nega -, de um locus cultural capaz de valorizar uma tradição histórica não só legítima, mas também dotada de uma identidade própria, em condições de assumir virtualidades dinâmicas situadas a uma escala planetária e aqui tomadas como imprescindíveis. O Ocidente não surge pois, neste pequeno volume de um assumido didactismo, associado, como aconteceu no passado, apenas a uma área geográfica, a uma religião, ou a uma civilização, mas antes como uma ideia aberta a todos, de pendor universal, que valoriza de forma compósita e única os princípios da igualdade e da liberdade, a razão crítica, e a capacidade para a inovação. Despojada de uma percepção etnocêntrica e agressiva, uma das convicções de que o acusam – segundo as palavras de Droit, «a pretensão de deter uma verdade válida para toda a humanidade e em condições de criar uma felicidade generalizada» – pode ser reconvertida em ponto de partida para a sua remissão como território de uma vida decente, melhor e partilhada. Por tudo isto, vale a pena recomendar O que é o Ocidente? aos que se deixam facilmente conduzir por leituras unívocas. [Roger-Pol Droit, O que é o Ocidente? Trad. de Inês Dias. Gradiva, 80 págs.]

                                História, Olhares