Um estudo do Conselho da Europa concluiu que Portugal «tem um nível muito elevado de utilização de tecnologias da informação e comunicação na Justiça», estando por esse motivo «no topo do ranking europeu». É bom sabê-lo. E melhor ainda imaginar a inveja que diante de tal notícia sentirão esses infelizes cidadãos dos países com uma Justiça que se serve ainda de tecnologias semiobsoletas mas funciona de um modo geralmente célere e eficaz.
Acabo de descobrir que a Microsoft deixou de produzir e comercializar a Encarta, a primeira enciclopédia em versão unicamente electrónica. Entre 1993 e 2009, ela determinou um padrão de recolha, arquivamento e disponibilização popular dos saberes, servindo de modelo à transferência para o suporte digital de outras enciclopédias, como as consagradas Britannica e Universalis. Apesar do êxito que manteve por mais de uma década, a Encarta foi incapaz de resistir comercialmente ao efeito demolidor de uma «enciclopédia social», gratuita e colaborativa, como a Wikipedia. Esta conta hoje, e apenas na versão em inglês, com perto de 3 milhões de artigos, um número perfeitamente gigantesco quando comparado com os 42.000 artigos que podem ser encontrados na derradeira versão da Encarta. Não tem comparação com qualquer outra enciclopédia o ritmo de crescimento e o fluxo de consultas processados diariamente, minuto a minuto, pela Wikipedia, mas não deixa de ser preocupante que a fonte principal de conhecimento manipulada pela esmagadora maioria dos utilizadores da Internet seja um repositório sem autoria reconhecida e desprovido de processos de aferição da informação que recolhe e oferece. Sob a forma de nuvem, paira sobre as nossas cabeças um saber flutuante, por vezes equívoco e sujeito a constantes revisões, com a vida determinada pelo vento, cuja sombra pode ser tão estimulante quanto ameaçadora.
A pré-campanha eleitoral traz os independentes de regresso à boca de cena. Conhecedores da distância crescente que os tem vindo a separar do cidadão comum, os principais partidos procuraram resolver o problema tomando um caminho fácil e que não requer mudanças de rumo. Integraram então, nas listas de candidatos, elegíveis ou não, pessoas que não são militantes mas dispõem de prestígio político, profissional ou pessoal – para não falar de uma autoridade moral derivada justamente do seu descomprometimento em relação aos aparelhos partidários – capaz de gerar um «valor acrescentado» que pode tornar-se decisivo. A estratégia é democraticamente legítima, mas pode ser eticamente duvidosa, uma vez que muitas dessas «independências» correspondem ao rosto da cedência, ou mesmo do seguidismo, perante direcções políticas que assim maquilham a imagem pública sem cederem um milímetro na intimidade.
O historial desta «in-dependência» é longo e complexo. Os comunistas foram os primeiros a utilizá-la de forma sistemática, servindo-se frequentemente de compagnons de route, fellow-travellers, intelectuais «amigos» capazes de enunciarem uma política frentista que jamais questionou o seu papel de «vanguarda». Fazem-no ainda, como o pode comprovar, aqui no rectângulo, a intervenção dos «verdes» do PEV e de bem conhecidos militantes crónicos da «independência». Entretanto, todas as correntes passaram a recorrer ao subterfúgio, tendo dado particularmente nas vistas, nas semanas mais recentes, o Partido Socialista, assustado com os resultados das europeias e apostado em oferecer uma imagem pública de abertura – principalmente de abertura «à esquerda» – da qual sente absoluta necessidade. Estes «in-dependentes» surgem então, fundamentalmente, como nomes, rostos, corpos, carreiras, cuja presença visa um objectivo preciso, raramente enquanto factores de alargamento das propostas, das ideias, da capacidade reflexiva e até da representatividade. Por isso se mostram muitos deles mais papistas do que o papa, como é próprio de todos os que enxergam a luz da conversão ou tornam ao redil.
A independência, convém que se diga, pode no entanto conter muito de positivo. Ela não traduz, ou pelo menos não deve traduzir, apenas um regime de dispensa em relação à presença em maçadoras reuniões partidárias, ao pagamento sistemático das quotas, à sempre penosa distribuição de panfletos, à necessidade de beijar publicamente criancinhas incontinentes e matronas que exalam um certo odor a peixe, a ter de aguentar as tricas e as pancadinhas nas costas que ocorrem nos desvãos e antecâmaras das sedes partidárias. Muito ao contrário, ela pode ser algo de realmente difícil, que implica escolha, capacidade para remar a solo contra a corrente sempre que for preciso, não se envolver em cedências que podem trazer benesses mas implicam também a venda da consciência, saber requerer uma autonomia crítica que não significa desinteresse ou ausência de compromisso. Esta é a independência boa, verdadeiramente útil, com a qual os grandes partidos políticos só teriam a lucrar se com ela soubessem lidar.
No entanto, a independência da generalidade destes «in-dependentes» não tem essa cara. É certo que um independente companheiro de jornada não pode ser um cavalo de Tróia ou um franco-atirador: aproximando-se de um determinado partido, dando momentaneamente o rosto por ele, tem forçosamente de estabelecer pactos e, sobretudo em campanha eleitoral, acordos mínimos de lealdade e colaboração, não podendo desgastar as campanhas a partir de dentro. Se aceita colaborar «como independente», essa colaboração implica uma certa adesão programática, um mínimo de cumplicidade, empenho também, e bastante. Porém, deveria ainda, e obrigatoriamente, agregar diferença, questionando o questionável, apontando os erros que os militantes partidários se habituaram a desvalorizar ou não sabem ver, propondo caminhos possíveis, ainda que aparentemente «utópicos». Mostrando, afinal, sinais dessa diversidade, dessa abertura, que é suposto trazerem consigo. De outra forma, tornam-se cúmplices, involuntários ou não, de um logro. Mas é justamente este logro que me parece observar perante o espectáculo das razões que muitos «in-dependentes» têm invocado para justificarem a sua opção na batalha em curso. Desculpem que lhes diga.
Os argumentos da Chiado Editora são lícitos e substanciais, mas não me apercebi de que alguém tivesse falado propriamente de censura à maneira do Santo Ofício ou da velha Comissão da dita. Falou-se, isso sim, de autocensura, medo e capitulação, sejam quais forem os outros nomes que se pretenda dar à atitude escolhida. Não é o mesmo, mas é igualmente assinalável. A defesa da liberdade tem custos, naturalmente, e sempre houve quem os não desejasse pagar. Mas também quem se batesse por ela, pagando algumas vezes pelos seus actos.
Oskar Werner e Julie Christie em Fahrenheit 451 (1966)
Conversando com uma jornalista espanhola a propósito da edição de Ahora y Siempre (Now and Forever, um compilação de short stories publicada originalmente em 2007), Ray Bradbury, que aos 89 continua a escrever e a publicar, mostra-se o homem conservador que sempre foi. Particularmente quando lhe falam da actualidade e do futuro do livro. Aí irrita-se visivelmente, exalta-se mesmo, perde com facilidade a compostura. Perante a Internet, o autor de Fahrenheit 451, o romance distópico que hiperboliza o valor do livro, da sua imortalidade e da sua capacidade para transformar o mundo, subverte mesmo o seu antigo horror à destruição da palavra escrita pelo fogo: «Que queimem a rede em vez de queimarem livros!». Diante da revolução do e-book: «Isso não são livros. Os livros apenas têm dois cheiros: o do livro novo, que é bom, e o do livro usado, que ainda é melhor.» Face à possibilidade do fim das bibliotecas tal qual as conhecemos: «Não permitirem que acabem com elas, nem que tenha de me meter lá dentro para evitá-lo.» É pungente, sobretudo para quem partilha com Bradbury o amor profundo pelos livros em papel, pelas bibliotecas imensas e odoríferas, com os seus recantos únicos, obscuros e misteriosos, acompanhar tal defesa de um mundo transitório que, mais coisa, menos coisa, daqui por uma década não passará de território reservado a cientistas e iniciados. E, para a maioria das pessoas, de vestígio de um passado remoto que outras gentes edificaram.
O L’Osservatore Romano coloca Oscar Wilde nos pináculos da lua, considerando-o «uma das personalidades do século XIX que com mais lucidez analisou o mundo moderno nos seus aspectos perturbadores mas também nos seus aspectos mais positivos». Aproximar-se-á o fim dos tempos? Tratar-se-á de um primeiro passo no caminho da beatificação? Ambas as coisas? [Ideia roubada ao Pedro Vieira]
Completamente de acordo com a leitura de João Tunes a propósito dos blogues em tandem criados para apoiarem, na pré-campanha eleitoral em curso, o PS ou o PSD. Muito de agitprop à volta da agenda das direcções partidárias, muito de panegírico e autojustificação, encómios e louvações, alguma traulitada personalizada também, aqui e acolá. Mas muito pouco, quase nada, de reflexão crítica substantiva, de esforço prospectivo, de polifonia, de debate, de sugestões no sentido de revisitar, para não repetir, os cenários do bloqueio político que temos vindo a percorrer. Sei que à esquerda e à direita desses espaços de opinião, o panorama não é mais animador, mas como falamos de alguma da «massa crítica» publicamente associada às únicas duas correntes susceptíveis de definirem os próximos quadros de governação, e de um esforço aplicado dentro de um território de comunicação onde é suposto aceitar-se maior ousadia, a situação afigura-se algo grave. E tremendamente enfadonha também, já agora.
Estava à espera disto, embora tenha demorado tempo de mais a acontecer: já circulam pela rede mensagens anunciando que Michael Jackson afinal não morreu. Terá sido tudo uma encenação por causa das dívidas, presumindo-se que a esta hora pratique moonwalk numa ilha ignota do Pacífico. Corre também, retomando com toda a força uma teoria da conspiração já com alguns anos, que os americanos afinal não foram à Lua. Apenas encenaram em Hollywood a operação de alunagem para fazerem batota no jogo da Guerra Fria. Podemos pois dar asas à imaginação e inventar a certeza que quisermos, seguros de encontrar sempre partidários intransigentes e capazes de se esforçarem pela causa. A mim, por exemplo, ninguém tira da cabeça que o PS perdeu as eleições europeias de propósito, só para que a sua direcção pudesse aparecer como injustiçada e impoluta salvadora da Pátria, composta por gente compassiva e confiável, de uma «esquerda moderna» merecedora de segunda oportunidade. Quem me acompanha na crença?
Johnny Depp será José Doroteo Arango, Pancho Villa, no próximo filme de Emir Kusturica, que tem como título provisório Seven Friends of Pancho Villa and a Woman With Six Fingers e começará a ser rodado em 2010. Terá a companhia preciosa da mexicana Salma Hayek. Promete, claro. Mas já em 2003 Antonio Banderas foi Villa em Starring Pancho Villa As Himself, um documentário sobre a forma como D.W. Griffith e Harry Aitken compraram ao próprio Villa os direitos exclusivos sobre as imagens das batalhas da revolução mexicana, permitindo-lhes montar em 1914 The Life of General Villa, o primeiro filme de acção de Hollywood. A dimensão densamente cénica e cinematográfica das acções e da própria presença física de Villa pode ser avaliada numa descrição deixada por John Reed em México Insurrecto. Aqui fica ela: (mais…)
Em solo nacional, três temas azedam facilmente qualquer debate, despertando impulsos primitivos que cegam cidadãos exemplares e assanham pessoas dadas à reflexão: comunismo, religião e futebol (já que o fado perdeu músculo). Os dois primeiros têm sido aqui recorrentemente invocados, mas de futebol não tenho falado. Chegou agora a vez de tocar no assunto, mesmo correndo o risco de despertar o hooligan escondido que habita dentro de um ou outro leitor.
A despesa com a compra de jogadores por parte das maiores equipas é, nas circunstâncias da vida do país e atendendo à dimensão financeira dos clubes, qualquer coisa de obsceno. Ainda assim, nos tempos mais recentes, Porto e Sporting têm mostrado um comportamento despesista aparentemente controlado: o primeiro, por causa dos sucessos desportivos e porque gasta menos com os jogadores que compra do que com aqueles que vende; o segundo, porque tem mantido uma política de aquisições relativamente moderada. Já o mesmo não se passa, todavia, com o Benfica, que todos os anos compra uma dúzia de futebolistas bastante caros, cedendo-os no ano seguinte por valores inferiores. Talvez seja preciso recordar aos mais distraídos que as receitas desportivas do «clube da águia», frequentemente fora da Liga dos Campeões, têm sido inferiores às dos outros dois, apesar de ter ainda o maior número de adeptos. Entretanto, só neste início de época já gastou mais de 23 milhões de Euros, prometendo outras compras para os próximos dias.
Nada disto incomodaria particularmente se não fossem duas situações objectivas. Desde logo o facto de o Benfica (como os outros, aliás) continuar a dever muito dinheiro ao fisco, e de a insolvência total ser algo de materialmente possível. Só que no dia em que isso estiver para acontecer, governo algum aceitará a falência técnica do clube, pois tal reduziria metade da população a um intolerável estado depressivo e fá-lo-ia perder as eleições seguintes. Serão então os cidadãos contribuintes, azuis, verdes, encarnados e de todas as cores, incluindo ainda todos aqueles que detestam futebol, a pagar facturas e hipotecas.
A segunda situação é, no fundo, uma constatação: governante algum se deu ao trabalho de, pelo menos, apelar publicamente ao comedimento dos gastos e à necessidade de se pagar o devido ao erário público. Não sei porquê, tenho a impressão de que o esquecimento tem alguma coisa a ver com a proximidade de uma ida a votos e de ser preciso, da parte de quem deseje ardentemente conquistar a maioria dos eleitores, um certo cuidado com as causas fracturantes.
Ao contrário daquilo que pode pensar quem esteja de fora, os problemas pedagógicos do ensino universitário não são agora em menor escala, nem mesmo, em alguns casos, substancialmente diferentes, daqueles que estão desde há muito identificados nos ensinos básico e secundário. Limito-me aqui a enumerar duas áreas particularmente críticas, embora raramente abordadas. A primeira tem a ver com profundas convulsões que têm afectado crescentemente a autoridade do professor e o relacionamento na sala de aula. A segunda relaciona-se, de um lado, com o confronto entre a forma tradicional de conceber os processos do conhecimento e os métodos de ensino, e, do outro, com as diferentes expectativas das mais recentes gerações de alunos, frequentemente associadas aos novos instrumentos de acesso à informação.
Em «La era del profesor desorientado», um artigo surgido sábado passado no El País, anuncia-se uma situação que, afinal, está a cruzar todas as fronteiras da velha e ex-conservadora Europa: os professores enfrentam estudantes menos obedientes, aparentemente menos receptivos, mas que se movimentam muito bem em áreas que eles, educadores, conhecem mal ou não dominam de todo. Faz-se então uma pergunta: será preciso regressar à velha disciplina ou é antes preferível modernizar o ensino?
Traduzo o parágrafo inicial do artigo do diário espanhol: «Uns acreditam que o problema reside no facto dos professores do século XX tentarem educar a jovens do século XXI em escolas do século XIX, e por isso as coisas não funcionam. Outros, que foram perdidos valores básicos da educação, sobretudo a disciplina e o esforço. Na realidade, trata-se de duas maneiras distintas de enfrentar um mesmo facto: que os docentes não conhecem, não encontram ou não lhes oferecem as ferramentas necessárias para ensinar a novas gerações de jovens, as quais não respondem da mesma forma que as anteriores à educação escolar.» Um caso sério, diante do qual a pior solução – que infelizmente tem vingado em muitos casos –, consiste em meter a cabeça na areia, ignorando a situação real de mudança de paradigma que atravessamos, e marinando na ficção de que um dia as coisas «melhorarão» por si (isto é, voltarão ao antigo modelo). Ou então decairão inapelavelmente. Em ambos os casos, atirando a toalha ao chão.
Sei onde estava há exactamente quarenta anos. A noite era mais fria do que esta, apesar de já ser Julho e determinados mitos urbanos afirmarem agora que os verões eram sempre insuportavelmente quentes. A televisão, uma Blaupunkt a preto e branco (ou seria uma Nordmende?), crepitava de vez em quando, ameaçando desistir. Preparávamo-nos – já só eu e o meu pai teimávamos num serão que se previa longo – para seguir, um tanto cépticos mas bastante excitados, as últimas manobras de alunagem da Apollo 11. Dali a horas, entrava-nos na sala um eco chegado do outro mundo: «That’s one small step for man, one giant leap for mankind». Na estação de Cabo Canaveral urrava-se, pulava-se, celebrava-se. Nós dois permanecemos calados, pensando, zonzos de sono, incrédulos, não passar tudo de um sonho. Fomos deitar-nos sem trocar uma palavra.
Pego no 18 de Brumário de Luís Bonaparte e regresso ao momento em que Marx procurou estigmatizar os partidários do futuro imperador: «Lado a lado com elegantes arruinados, de meios de fortuna duvidosos, aventureiros e bastardos, devassos da burguesia, encontravam-se vagabundos, soldados desmobilizados, ex-presidiários, antigos foragidos das galés, saltimbancos, chantagistas, desclassificados, carteiristas, trapaceiros, jogadores, gigolôs, donos de bordéis, carregadores, escrevinhadores, tocadores de realejo, trapeiros, amola-tesouras, mendigos, em suma, toda uma massa confusa, decomposta e flutuante, a que os franceses apelidam de boémia.» Não se poderia condenar com maior clareza todos aqueles que, recusando a marcha a passo cadenciado, preferiam viver fora dos caminhos convencionais.
Os tipos citados eram considerados mais ou menos próximos do lumpenproletariat, marginais tanto em relação à forma como Marx concebia os grupos capazes de uma posição historicamente revolucionária – por isso o estalinismo fez deles aquilo que se sabe –, como em relação ao dispositivo da ordem burguesa dominante. Actualmente, porém, as maneiras de ser e de pensar que foram qualificadas pelo filósofo alemão como confusas, flutuantes, decompostas, ou simplesmente aventureiras, são partilhadas por um conjunto alargado de marginalidades, transformaram-se algumas vezes em sociabilidades nómadas e instáveis mas com uma legitimidade própria, alternativa à dominante. Enquanto fontes de perturbação para o funcionamento previsível do sistema, podem afirmar-se como trincheiras de liberdade, territórios de resistência ao trabalho de normalização e controlo imposto pelo Estado e pela suprema ordem neoliberal.
Tenho dificuldade em fazer previsões sobre as consequências do surto pandémico de gripe A que se prevê irrompa em Portugal logo que o tempo comece a arrefecer e as andorinhas que restarem partam de novo para África. Por simples ignorância. Os especialistas dizem que no «pior dos piores» cenários morrerão 8700 pessoas em Portugal, mas logo acrescentam que o cenário «deve ser encarado sem dramatismos». Afinal, parece que a gripe comum todos os anos mata quase duas mil almas, e ninguém, salvo alguns hipocondríacos, vive atormentado com isso. Limito-me pois a olhar para as previsões e a tomar o sumo de laranja que recomendava a minha avó, com a vaga sensação de que, fazendo parte de um grupo de risco, deverei ter particular cuidado em evitar correntes de ar e frio no pescoço.
Existe, no entanto, um lado do problema que é preocupante. A comunicação social agarra como sempre o filão da desgraça e todos os dias efabula cenários apocalípticos de devastação e crise: ruas desertas, fábricas paradas, escolas sem aulas, comércio fechado, estádios vazios, as traineiras em terra e os aviões também. Nas ruas, os escassos transeuntes circularão de máscara e luvas, e o paracetamol valerá mais que petróleo. Os cidadãos passarão em casa o seu tempo de quarentena, partilhando boatos por e-mail, dormindo em camas separadas, trocando os beijos por adeuzinhos, recusando até participar no funeral dos parentes mais chegados. Os cenários propostos têm a ilimitada imaginação por limite. E fazem-no com uma tal intensidade, de maneira tão pessimista e repetitiva, que, chegada a hora, quando alguns cuidados forem necessários, já poucas pessoas darão grande valor às notícias e toda a gente circulará pelas ruas de manga curta e cabeça ao sol, tossindo para cima dos outros. A vaga de alarmismo por antecipação que estamos a viver pode dar maus resultados.
«Um debate sobre os significados da revolução de Outubro deve ser aberto, descomprometido e informado, não a afirmação de um credo». É já possível ler no blogue da editora Angelus Novus a segunda e última parte da entrevista que me foi feita a propósito do lançamento do livro Outubro. A primeira parte pode ser seguida numa outra página do mesmo blogue. Aqui fica também o 2º clip de promoção.
«No seguimento de ameaças de represália que não podem deixar de ser consideradas», a Chiado Editora resolveu adiar indefinidamente o lançamento do livro A Última Madrugada do Islão, de André Ventura. Informa ao mesmo tempo que «decidiu solicitar, adicionalmente, dois pareceres sobre o eventual conteúdo ofensivo e controverso da obra em questão, respectivamente ao Sheikh David Munir, líder da Comunidade Islâmica de Lisboa, e ao Professor Mostafa Zekri, especialista em assuntos islâmicos, de forma a melhor compreender as ameaças recebidas e antecipar eventuais cenários problemáticos resultantes da publicação», adiantando que do resultado destes pareceres «dependerá a decisão definitiva» sobre a publicação do romance.
O livro «resulta de uma vasta investigação histórica e apresenta pontos que, não obstante originais e interessantes, se revelam particularmente polémicos», recriando o cenário em que morreu Yasser Arafat e dramatizando aspectos da vida de um jovem muçulmano em Paris. A editora entende que «os comentários recebidos em relação à obra em causa e a análise da história recente» a forçam a ser «prudente em relação às publicações que chegam ao mercado, tendo em conta a segurança do autor, editores e distribuidores do livro». Sentiu-se ameaçada, portanto. Mas evoca também condicionalismos relacionados com «a possibilidade de serem prejudicadas, como aconteceu no passado noutros países, as relações portuguesas com Estados e comunidades islâmicas, muito particularmente a Palestina».
Aceita-se pois, no país que viveu um pesado regime censório mas conseguiu aboli-lo há 35 anos, que se coíba a circulação de uma obra literária. E admite-se, de forma aparentemente normal, um recuo aos tempos inquisitoriais do imprimatur, agora já não de clérigos arrolados pela Inquisição mas de duas autoridades em assuntos islâmicos. O editor está no seu direito de ter medo das consequências materiais da publicação. Porém, colocado nestes termos, o assunto adquire uma gravidade que ultrapassa a intervenção da Chiado. Afinal, não falamos apenas de uma pequena contrariedade editorial, mas sim de uma grave cedência diante de pressões exteriores, capazes de impor em Portugal limitações à liberdade de criação, de circulação do livro e de opinião. Pressões com força suficiente para atearem a autocensura e o medo.