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E eu que sempre quis uma Gibson-Les Paul

Les Paul

Aos 94 anos, morreu ontem o músico Les Paul, inventor da guitarra eléctrica e também um dos seus mais importantes fabricantes. Sem a iniciativa que tomou em 1941, quando pela primeira vez juntou um amplificador a uma guitarra de madeira, o mundo não seria aquele que conhecemos nos últimos sessenta anos. Em Rock’n’Roll Jews, Michael Billig lembra como o tom estridente da guitarra eléctrica, produzido a um ritmo intenso, rápido e sincopado, capaz de efeitos acústicos inusitados, passou a soar «de uma forma completamente diferente de qualquer coisa que a anterior geração tivesse ouvido». Enquanto aqueles que tinham atravessado os anos difíceis da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial preferiam ainda a música amena e romântica dos crooners, que induzia estados melancólicos e de acalmia, da uma natureza basicamente conformista, muitos dos seus filhos, crescendo em tempos de maior segurança e de expansão económica, mas também de recusa de uma perspectiva auto-satisfeita do mundo que herdaram, escolheram a sonoridade inesperada e rude, associada a um novo hedonismo e a novos modos de vida, que o jazz pós-bebop e sobretudo o rock and roll passaram a oferecer. Recorrendo à invenção de Paul. Aquele senhor que ainda há poucos meses continuava a tocar regularmente no Iridium Jazz Club de Nova Iorque.

    Apontamentos, Artes, Música

    Coimbra-Z

    Coimbra Z

    Está a correr no Facebook «Que tipo de estudante de Coimbra és?», um inquérito a merecer uns minutos de atenção e que pode servir de case study. Mais do que pelo resultado final que cada um dos inquiridos obtenha, importa seguir o tom tardo-castiço e o valor micro-sociológico das perguntas e das opções de resposta oferecidas. Para memória futura, como diria o tal.

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      Atualidade, Memória

      Os sem-pistolas

      Guardas-nocturnos

      O recente caso da bandeira alvi-anil hasteada na varanda do município de Lisboa coincide com a divulgação de uma queixa da Associação Nacional de Guardas-Nocturnos por aqueles que não possuírem arma própria se verem forçados a trabalhar munidos apenas de uma simples lanterna. Imaginemos pois o problema que seria observar um desses senhores já com uma certa idade, mais barriga que perna, mais vulto que corpo, a enfrentar à mão-desarmada a sanha monárquica dos moços do Darth Vader. E se ele tivesse a reivindicada arma da ordem, o que faria? Dispararia para o ar lançando o pânico na madrugada da Rua do Arsenal e prejudicando a campanha eleitoral de António Costa? Ou atiraria sobre os próprios pés, para não experimentar problemas de maior?

      Seguindo a Wikipédia, o guarda-nocturno é «um profissional que exerce a actividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período nocturno, auxiliando as forças de segurança e os serviços de protecção civil.» A actividade é antiga, tendo assumido um maior destaque urbano ao longo do século XIX, quando as cidades cresceram a um ritmo novo e a quietude da noite abalou para lugares ermos ou bairros despovoados. Em Portugal já foram milhares, mas hoje rondarão os 500, quase sempre em idade avançada, mal-equipados, sem grande treino, e até, temo, sem um enquadramento jurídico adequado. Lamento pela ANGN, mas se nem um homem dos seus, capaz de soprar o apito regulamentar para espantar os mariolas, se protegia do orvalho da noite sob as arcadas da varanda camarária, para que quer agora que a PSP lhes distribua pistolas? Ainda se fossem canhões…

        Apontamentos, Atualidade

        Nova havaneza

        Havaneza

        Vale a pena percorrer o Wallpaper City Guide de Havana, da colecção editada pelo diário i (mas que pode ser vendido isoladamente). Ignora de maneira olímpica os guias de viagem para cidadãos da classe média alvoroçados pela perspectiva de uns quantos dias com a cor do exotismo, e, claro, deixa em paz os desdobráveis oferecidos pelas embaixadas de Cuba. Percorre assim ruas e praças imutáveis, hotéis para turistas estrangeiros e alguns bares aprazíveis, duas ou três lojas e uns quantos edifícios públicos, sem cedências ao estereótipo do charme, à costumeira romantização da decadência, ao elogio militante da pobreza honrada, a uma épica refrescada a ventoinhas de pá. Mas também sem fazer a injustiça de negar o esforço suado do havanês comum para oferecer ao visitante o que de melhor consegue obter. Para viver uma vida complicada com o sorriso possível e um gingar de ancas, olhando sempre mais para o que foi, ou para o imediato, do que para aquilo que há-de vir. Nisto, o guia Wallpaper não difere muito dos ecos que nos vai legando a literatura cubana contemporânea. Como uma boa parte dela, oscilando entre o ritmo da vida pessoal e um horizonte colectivo imperscrutável: «Havana é hoje uma daquelas quinceañeras envergonhadas, uma adolescente à beira de se tornar mulher e de se ver livre de um pai autoritário.» Fica o desenho de uma cidade ritmada por um presente para gastar sem demoras já que o futuro está lotado de possíveis.

          Atualidade, Cidades, Olhares

          Memo achado no bolso do fato-de-banho

          Цивья со свим мужем Шимоном владели большим участком земи в Рамат аШароне. Они завещали его городу и в их честь на части этого участка разбит парк.

          Iuri Bradáček

            Devaneios, Etc.

            Lisboa com bandeira azul

            Bandeira Azul

            Uma mancheia de varonis mancebos «ligados ao blogue 31 da Armada», imbuídos de um compreensível e ilimitado bem-querer pela santa monarquia – pois tal coragem, por certo apenas a varonis mancebos é pela Padroeira outorgada –, trepou heroicamente até à varanda do Paços do Concelho de Lisboa e, com lídimo pundonor, hasteou no mastro da mesma um rectângulo de pano azul e branco. De acordo com os amigos dos jovens trigésimo-primeiristas (mas o que são «pessoas ligadas ao blogue 31 da Armada»? será o 31 da Armada uma ONG? uma seita? um bando? uma comandita?), o feito foi obtido apesar do pesado rumor das botifarras e das armas aperradas alardeado por essa «forte vigilância policial» que, como todos sabemos, percorre «a noite profunda» das nossas vilas e cidades para aterrorizar as famílias no seu honrado descanso. E para impedir que desde o mais insigne dos palácios ao humilde tugúrio do trabalhador estas afixem nos limiares das portas, tal como intimamente desejam, lindos azulejos com o brando semblante do Senhor Dom Duarte. Tais beneméritos da Pátria, a quem faltou apenas aquela Dona Aldegundes que não falhou a Paiva Couceiro – «é avante portugueses/é avante não temer», cantarão entrementes –, apenas podem ter a nossa compreensão. Sempre agitam mais este querido e tonto mês de Agosto que os blogues regimentais. Deus os guarde assim.

              Atualidade, Devaneios, História

              «Tá láa!…»

              Raul Solnado

              Nunca apreciei muito o humor de Raul Solnado. Algumas das razões desta desafectação percebem-se vendo ou revendo no YouTube pedaços dos seus anos dourados. Solnado fez rir gerações para as quais a levíssima insinuação da «malandrice» constituía um sinal de transgressão, a momice representava um corte num tempo pontuado por rigorosas máscaras, e o abuso do trocadilho perturbava uma fala pública ainda demasiado rígida, o que não foi pouco. Mas esse não era já o padrão de humor requerido por alguns dos da minha geração, e daí o inevitável distanciamento. Afinal também não ríamos com Fernandel, Totò ou Mario Moreno, o «Cantinflas». Recordo, no entanto, muitas pessoas que escutavam pela enésima vez os 45 rotações em vinil com a «ida à guerra» ou «o bombeiro», e pela enésima vez riam com textos que já conheciam de cor. Ou que iam ao Maria Vitória ou ao Variedades de propósito para o ouvirem. A essas, e a muitas outras – por vezes fora do registo da comédia –, Raul, o artista popular, ofereceu inesquecíveis instantes de divertimento e de felicidade. Suficientes, independentemente do gosto de cada um, para que a sua partida tenha deixado a nossa vida colectiva um pouco mais pobre e sisuda.

                Apontamentos, Memória

                Volto já.

                Recarga

                Não, o blogger não perdeu a voz nem desapareceu em combate. Passa só por uns quantos dias de letargia, como sempre menos que os desejados, para recarregar as pilhas e poder retomar a marcha com um pouco mais de força de braços.

                  Apontamentos, Oficina

                  «Foot-ball praticado was very bonito. Splendid!»

                  Bobby Robson

                  Na noite passada, a Sky News apresentou um programa sobre a vida e a obra de Sir Robert William Robson. Omitiu, no entanto, a sua passagem por Portugal, onde entre 1992 e 1996 treinou o Sporting e depois o FC Porto. E referiu José Mourinho apenas para dizer que este conheceu Bobby Robson no Barcelona, o que aliás não é verdade: foi em Lisboa que se encontraram e foi em Alvalade que começaram a colaborar. A atitude da Sky é, para nós, particularmente injusta. Desde logo porque aqueles foram anos intensos da vida de Robson, que este relembraria depois inúmeras vezes, ligados também, em especial ao serviço do Porto, a êxitos desportivos importantes. Depois porque a sua forma de trabalhar, a sua personalidade forte e a sua bonomia, associados a um portinglês inconfundível e espectacular, o transformaram num dos estrangeiros mais populares no nosso país, o que ficou agora bem patente na forma como inúmeras pessoas – até Sousa Cintra, que o despediu do Sporting mas entretanto reconheceu o erro – o evocaram de forma inequivocamente comovida e carinhosa. E também porque Bobby Robson foi um treinador e um profissional de futebol raríssimo por estes lados: daqueles que via no desporto do qual gostava e ao qual dedicou a vida inteira, como não se tem cansado de recordar quem o conheceu de perto, uma fonte de prazer e uma forma positiva de passar a correr por este mundo, não um problema constante para o fígado. No fim de contas, Sir Bob, o treinador que costumava esquecer-se dos nomes dos seus próprios jogadores, jamais deixou de ser um gentleman abroad. Por um acaso em comissão de serviço no universo pouco cavalheiresco do futebol.

                    Apontamentos, Memória, Olhares

                    Acaso perto da rua Gondova

                    Livros

                    Costumava comprar folhas de papel mata-borrão para o consulado numa pequena papelaria que existia por detrás do Faculdade de Filosofia da Universidade Comenius, junto à rua Gondova. Foi aí que, numa certa manhã, encontrei estranhamente esquecido, dado ter sido obra muito procurada por professores e alunos do Instituto Superior de Acústica em meados dos anos oitenta, um exemplar de Anonymi Leutsoviensis Tractatus de Musica, a tese de Zsuzsa Czagány parcialmente redigida em Munique. Completamente inexplicável ficou, para mim, o facto de esta conter ainda, na página 3, uma longa e apaixonada dedicatória da autora a Mark Spitz, o antigo campeão olímpico de natação.

                    Iuri Bradáček

                      Ficção

                      Appuntamenti

                      Italian Girl

                      «Notas avulsas do périplo italiano de um Casanova eslovaco e metódico»

                      Alissa, Alessia, Adriana, Arianna, Amelia, Amalia, Anastasia, Ariana, Anna, Antonia, Alessandra, Aurora, Ambra, Alea, Alina, Annica, Anina, Bella, Bianca, Beatrice, Brigitta, Carina, Chiara, Cinzia, Concetta, Claudia, Celeste, Caterina, Clementina, Costanza, Corina, Daniela, Debora, Dalila, Dilara, Delia, Dania, Diana, Davida, Daria, Desdemona, Deodora, Doriana, Donatella, Dina, Dalia, Desideria, Eleonora, Elena, Elisa, Erica, Enrica, Emilia, Emma, Emanuela, Flavia, Fabia, Fabiana, Fabiola, Fiona, Fiorina, Fiorella, Filomena, Francesca, Federica, Gianna, Gina, Gioia, Giorgia, Giada, Gaia, Gabriella, Gloria, Giovanna, Ilaria, Ilenia, Iliana, Ilina, Irina, Isaura, Isabella, Jessica, Laura, Lara, Larissa, Leona, Leandra, Lea, Lina, Liana, Liara, Luana, Luciana, Luna, Linda, Livia, Liliana, Lorena, Loriana, Lucia, Leana, Letizia, Moana, Martina, Marina, Marilena, Mariella, Maria, Michela, Melania, Morena, Massima, Maura, Maurizia, Noemi, Naemi, Naomi, Nadia, Nadina, Nuria, Nina, Ornella, Oriana, Paola, Patrizia, Raffaella, Romina, Romana, Rachelle, Rebecca, Rossella, Rosa, Rosina, Rosanna, Renata, Sabrina, Sabina, Sarina, Samira, Sandra, Simona, Susanna, Silvia, Silvana, Sonia, Serena, Selena, Selina, Syria, Senta, Severina, Silveria, Stella, Stefania, Tullia, Tiziana, Tatiana, Tania, Tina, Valeria, Viviana, Vanessa, Valentina, Viola, Violetta, Vincenza, Vittoria, Ylenia, Zara, Zarina, Zaida

                      Iuri Bradáček

                        Ficção, Olhares

                        O sol e a peneira

                        Nómadas

                        O desejo de devir, escreve o sociólogo do quotidiano Michel Maffesoli no seu notável Du nomadisme, «penetra, conscientemente ou não, as diferentes atitudes sociais, e convida a uma vagabundagem cuja esfera é ilimitada». Inclusive ao nível das convicções e dos programas. Um dos dramas centrais da política contemporânea mainstream liga-se à tentativa dos seus representantes de derrotarem essa torrente, procurando atirá-la para o território desértico da crença voluntarista e da inocência utópica. Empurrando as sociedades para um tempo morto, confiado a uma gestão do possível concebida à vista e exclusivamente para o curto prazo. Ignorando as vagas que não podem dirigir para se fixarem nos escolhos que são capazes de deslocar.

                          Apontamentos, Olhares

                          Jogo de espelhos

                          Espelhos

                          Logo após ter escrito o post «In-dependências», recebi uns quantos mails perguntando explicitamente a quem me referia, e ainda um ou outro declarando taxativamente que eu visava o Senhor X ou Madame Y. Alguns desses ecos interpretavam o artigo como uma defesa empenhada da figura do independente, ao mesmo tempo que outros sugeriam que eu procurara justamente o contrário. Reli então o que escrevera e concluí que pouco mais havia a dizer.

                          Posso, no entanto, sublinhar o essencial: o texto não critica o princípio da intervenção política na condição de independente (*), e muito menos se refere objectivamente, e em termos pessoais, a A ou a B. Evoca apenas alguns dos fundamentos éticos da independência política, que me parece deverem ser transparentes e não falaciosos. Que acredito deverem somar diversidade, não repetir o repetido. E não reflectirem, por parte de quem os assume, por vezes em tom de comédia, um sentimento de superioridade moral estéril e até algo obsceno.

                          Se alguém não entendeu ou interpretou de outra forma aquilo que escrevi, tal só pode ter acontecido por duas razões: por falta de clareza da minha parte (melhor não sei fazer), ou por um desejo fortemente subjectivo de ler aquilo que lá não está (mas aqui o problema já me transcende). Salvo ocorra algum terramoto, ou Cristo desça de novo à Terra – na condição de independente, claro – não conto voltar ao assunto nos próximos tempos, pois não me parece que ele justifique o esforço nem quero entediar quem por aqui passa habitualmente. Por muito que exista quem possa considerar excitante observar o reflexo da própria imagem e efabular sobre a forma como os outros a observam.

                          (*) A partir da década de 1980, eu próprio participei em diversas campanhas, como candidato ou apoiante, na qualidade de independente. E foi nesta que dei agora o meu apoio público às listas do Bloco de Esquerda para o distrito e o concelho de Coimbra. Sem que me passe pela cabeça mimar um «bloquista» da linha dura (que los hay) ou repetir com enlevo frases dos dirigentes do BE. Sem sentir o dever de alienar a minha energia crítica.

                            Olhares, Opinião

                            ¡Carácoles!

                            Madrid

                            De acordo com dados do Barómetro de Opinión Hispano-Luso de 2009 divulgados ontem em Espanha, mais de 30% dos espanhóis e quase 40% dos portugueses apoiariam uma federação de ambos os países, se bem que um em cada três dos nossos vizinhos reconheça que a questão lhes é indiferente. Estes números foram obtidos a partir de uma sondagem feita telefonicamente a 513 espanhóis e a 363 portugueses maiores de 16 anos. Valem pouco, naturalmente, dada a dimensão da amostragem. E qualquer português percebe empiricamente que o número de adeptos de uma união ibérica é pouco mais que residual, existindo até uma cultura «anti-espanholista» atávica muito forte, particularmente entre as pessoas com mais de 40 anos.

                            O Barómetro adianta, entretanto, outras conclusões que vale a pena conhecer, sendo uma delas particularmente significativa (e, provavelmente, bastante mais realista): apesar de 84% dos portugueses ter visitado Espanha pelo menos uma vez na vida – e destes, um terço o ter feito entre duas e cinco vezes –, só pouco mais de metade dos espanhóis esteve alguma vez no nosso país, a larga maioria por uma única vez. Podem conhecer-se detalhes do inquérito no Público espanhol e também no El País. Mas em ambos os casos o mais interessante acaba mesmo por ser o tom de muito dos comentários, alguns de bom nível. Destaco uma hipótese-proposição de valor indiscutível, retirada de um deles: «Os habéis imaginado la selección de futbol que tendríamos? Adelante con la unión!!!».

                              Atualidade, Olhares