Arquivo de Categorias: Olhares

O simples, o complicado e o complexo

Começo por um episódio ocorrido há poucos dias durante um debate televisivo. A dada altura, um dos participantes afirmou: «Isto [um aspeto do tema em debate] pode ser visto como branco, azul, vermelho, amarelo, verde ou preto». Comentário do pivô: «Portanto, pode ser branco ou preto». A réplica do comentador: «Essa é uma ideia simplista». E de novo o pivô: «Devemos dar ideias simplistas às pessoas». O episódio pode parecer inventado, mas não foi: o diálogo (mais vírgula, menos vírgula) decorreu desta forma. Infelizmente, mostra uma tendência, que não nasceu hoje, mas tem vindo a acentuar-se, segundo a qual tudo deve ser reduzido, «para que as pessoas entendam», ao menor denominador comum. (mais…)

    Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

    Maio de 68, «revolução-ficção»

    Em Maio de 68 explicado àqueles que o não viveram, o documentarista Patrick Rotman afirmou ser este «um objeto histórico encerrado, que devemos olhar e analisar como tal». Muito pelo contrário, é possível e mesmo indispensável encarar o «Maio francês» como um dos momentos que conferem sentido aos últimos cinquenta anos da história mundial, permanecendo aberto a interpretações e a efeitos que lhe atribuem uma dimensão singular e permitem considerá-lo, pelo menos por enquanto, como memorável.

    O ano de 1968 foi o mais turbulento do pós-guerra, carregado de acontecimentos inesperados, violentos, exaltantes ou trágicos: a ofensiva do Tet no Vietname, o auge do movimento pacifista contra o apoio dos EUA a Saigão, a explosão por todo o lado da contestação estudantil, a afirmação do Movimento de Libertação das Mulheres e do fenómeno da contracultura, a Primavera de Praga, as barricadas de Paris, o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, os protestos de Chicago contra o racismo, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o massacre de 200 estudantes na cidade do México. Neste contexto, o que ocorreu em França poderia ser um episódio sonoro, é certo, mas curto e de limitado impacto; já o não será, todavia, se o olharmos como sinal de um tempo e prenúncio de algumas transformações. (mais…)

      Atualidade, Democracia, História, Memória, Olhares

      Quatro meses do meu ano de 68

      Moscovo 2011: exposição de fotografias de Josef Koudelka sobre a invasão da Checoslováquia em Agosto de 1968

      Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural. (mais…)

        Acontecimentos, Apontamentos, História, Memória, Olhares

        Paris-68, Coimbra-69 e depois

        Completa-se este mês meio século sobre a revolta de Maio de 68 em França. Sensivelmente pela mesma altura, no próximo ano decorrerá o cinquentenário da crise académica de 69 vivida em Coimbra. São temas dos quais, como professor de história contemporânea, costumo falar em aulas e seminários, e por isso estou habituado à confusão recorrente – compreensível entre quem pouco ouviu falar dos dois momentos, ou deles retém apenas vagas e imprecisas ideias –, estabelecida entre um tal «Maio de 69» e uma certa «Crise de 68». De uma coisa tenho a certeza: esta confusão alimenta-se da ideia de que uma (a crise) e o outro (o movimento) se encontram estreitamente interligados. Tenho más notícias para quem partilha desse mito ou se ocupa a alimentá-lo: não é de todo verdadeiro que essa ligação tenha acontecido. Existe um equívoco a propósito da influência imediata do Maio de 68 em Portugal. (mais…)

          Coimbra, História, Memória, Olhares

          Uma dupla questão de moral

          Poderia abordar este assunto de outra forma, mas dada a polémica na qual acabei por me ver envolvido, terá de ser assim. No dia 3 de Março, na sequência das notícias sobre o convite feito a Pedro Passos Coelho pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, no sentido de o ex-primeiro-ministro passar a ensinar ali como professor catedrático convidado, deixei no meu mural do Facebook uma curta nota. Transcrevo-a na íntegra:

          «Nada tenho contra a possibilidade de um ex-governante lecionar numa universidade. Independentemente das suas escolhas políticas. Nada tenho contra o acesso especial à carreira universitária, inclusive em lugares do topo, a pessoas de reconhecido mérito, cuja experiência e obra, ainda que desenvolvidas noutros lugares que não a sala de aula, possam acrescentar algo em termos de conhecimento ou de real prestígio para a escola. Ora é aqui que bate ponto no caso agora em apreço: sem formação, mérito ou reconhecimento não faz sentido, a não ser por nepotismo, o convite dirigido pelo ISCSP a Passos Coelho. É uma desonra para uma escola pública, e uma afronta para quem, no sistema universitário, tanto dá ao longo da vida subindo custosamente a pulso, ou nem sequer o consegue fazer devido ao rigoroso limite de vagas.» (mais…)

            Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

            As batalhas da história e o «presentismo»

            Ocultar ou desfigurar o passado para moldar o presente é uma velha prática que dispõe hoje de novas armas. Henrique IV de França ordenou no Édito de Nantes que os episódios das Guerras de Religião opondo católicos e protestantes fossem «apagados e adormecidos como coisa não acontecida», assim procurando rasurar um passado incómodo. O relato da Guerra Civil divulgado na Espanha de Franco impunha a representação de um confronto entre «bons espanhóis» e «perversos republicanos», separando os que mereciam a glória dos que deveriam ser esquecidos. O Kremlin faz agora por apagar a feroz repressão do tempo de Estaline, convertendo este em herói de um destino imperial da Rússia que Putin deseja recuperar. O trabalho de moldagem do passado pode até nem requerer essa intervenção direta do Estado: nas democracias contemporâneas as estratégias são mais insidiosas, sendo muitas vezes os próprios meios de comunicação social privados a disseminar formas parciais ou enganadoras de passado. (mais…)

              Atualidade, História, Memória, Olhares

              Entre o passado e o futuro

              De «La Chinoise» (J.-L. Godard)

              Uma destas noites sonhei que voltara ao passado, mas que o fizera de um modo calculista. Fora lá roubar, para usar nestes dias sombrios de inverno, aquilo que ele tinha de melhor. Não a juventude necessariamente insensata ou a energia desmedida, que recordo sem grande nostalgia e para as quais, à medida que as fui perdendo, fui achando alternativas. Também não fui lá buscar as memórias, mesmo as melhores, pois sei que elas têm sempre a forma de fábulas que embelezamos. Afinal, nesse passado fui tão feliz e tão infeliz quanto o sou hoje, ainda que em escalas e por motivos diversos. Naquele «sonho adormecido» – usando o termo cunhado pelo filósofo Ernst Bloch – fui recuperar outra coisa, que permanece perpétua, transcendendo o curto tempo de vida que sempre nos cabe. Falo da absoluta crença na possibilidade de construir um mundo melhor, e também da vontade de transformar a realidade, sabendo que nelas se misturam, em partes desiguais, a imaginação da utopia e a imersão nessa dose de realidade que sempre a confronta. (mais…)

                Heterodoxias, História, Olhares, Opinião

                As humanidades e o pensamento crítico

                Fotografia de Miroslaw Hobora

                As humanidades (a literatura, a história, a filosofia, as artes, a teoria musical, entre outras), e também, ainda que em escala só ligeiramente menor, as ciências sociais (como a sociologia, a psicologia, a antropologia, a ciência política ou o direito), fazem parte daquele território de saberes e de modos de reconhecer o mundo que tem vindo a ser crescentemente desvalorizado nas sociedades assentes no poder do dinheiro e no fetiche da produtividade. Longe vai o tempo do prestígio e da influência política do «homem de letras» – quando quase apenas homens as possuíam – e da intervenção dos intelectuais. (mais…)

                  Democracia, Ensaio, Olhares, Opinião

                  A esperança contra a indiferença

                  Fotografia de Sándor-Zsolt Fazekas

                  A História não se repete. Foram há muito superadas as teorias de Danilewski e de Spengler que a julgavam apoiada em rígidos e inevitáveis ciclos civilizacionais, e mesmo a mais moderada ideia de Arnold Toynbee, para quem a obrigatória repetição dependeria um pouco mais do fator humano, está hoje descartada. Aquilo que se rejeita nessas doutrinas não é, no entanto, a possibilidade de determinadas situações da vida das sociedades se poderem assemelhar, mas a noção de tal acontecer de forma regular e implacável. Como se estas fossem regidas por um destino, por um fado, que as determina. (mais…)

                    Atualidade, História, Olhares, Opinião

                    Agradecer basta

                    Fotografia de Anna Ivanina

                    É justo e de bom-tom agradecer algo que nos dão ou um serviço que nos prestam, por mais insignificante que este seja. Pode ser uma convenção, mas não o é apenas: representa sempre um gesto de cortesia e de civilidade que sela uma espécie de pacto de entreajuda entre pessoas que se entendem e respeitam. E é também o reconhecimento do esforço do outro. Sempre o fiz e continuo a fazer, mas o inverso – agradecerem-me por aquilo que ofereço a alguém – tem vindo ultimamente a ocorrer cada vez menos vezes, em especial com interlocutores que detêm uma conceção utilitarista da vida social ou têm dos outros uma imagem instrumental. (mais…)

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                      1917: o céu, o inferno e a esperança

                      Cartaz de Aleksandr Rodchenko

                      Devido à passagem do seu centenário, a Revolução de 1917 – a de Fevereiro, que derrubou a autocracia czarista e implantou um regime democrático incapaz de solucionar os graves problemas e conflitos que atravessavam a Rússia, e principalmente a de Outubro, que abriu caminho, através da intervenção dos bolcheviques, para a primeira grande experiência socialista da História –, está a ser objeto de uma atenção particular. Acontece por todo o lado, dada a repercussão histórica do acontecimento, das alterações políticas que determinou, e das hipóteses que projetou e continua a projetar. Aqui também, naturalmente.

                      Uma grande parte dos artigos de jornal, dos textos de opinião, das comunicações académicas, dos suplementos de revistas, das intervenções em sessões de evocação, observa-a, porém, a partir de posições extremas. Sejam aquelas marcadas por uma rejeição absoluta, de pendor fortemente anticomunista e, de caminho, voltadas contra toda a esquerda – veja-se o que aconteceu em Portugal com as insólitas acusações de «bolchevismo» lançadas a propósito da constituição da atual maioria parlamentar –, ou inversamente, numa posição puramente celebratória e muitas vezes nostálgica das experiências do antigo «socialismo real», cantando panegíricos e omitindo erros colossais. Retomando até leituras ultrapassadas, sem um esforço crítico de análise ou atenção à investigação histórica recente. (mais…)

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                        Medo e liberdade

                        Amigos sinceros, combatentes, por vezes com provas dadas de militância em causas e momentos decisivos, algumas vezes em horas bem difíceis, quando foi preciso correr riscos e suportar as consequências da escolha, apesar de não aceitaram as proclamações daquele lado da esquerda que não se exime de defender «ditaduras justas», calam-se ou recuam demasiadas vezes na afirmação das suas posições. Por medo de consequências pessoais se o não fizerem. Por medo, repito. Não de serem presos ou silenciados, obviamente, pois vivemos em democracia, mas de serem incomodados, isolados ou, pior, confundidos com a direita, pois uma das estratégias dessa gente, com décadas de triste tradição, consiste precisamente em classificar tudo o que divirja dos seus dogmas de ser «objetivamente de direita». O que lhes peço é que persistam, que não temam, que não se verguem ao medo e ao silêncio. Que falem de forma tranquila mas assertiva, substantiva, sólida – mas também emotiva, quando for preciso – em nome da sua consciência, de uma justiça justa e do bem essencial da liberdade. Ser de esquerda também é, ou essencialmente é, isto.

                        Publicado originalmente no Facebook

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                          Empirismo e conhecimento

                          Quem se dedica profissionalmente a temas de história ou de ciência política que se ocupam do mundo contemporâneo sabe que tem, frequentes vezes, de escutar pessoas que acreditam, pelo facto de terem vivido determinado tempo, ou lido dois ou três livros sobre o tema, saber mais deles que aquelas que os estudam durante anos e conhecem trabalhos atualizados. É a lógica oca da «universidade da vida». Costumo contar este episódio: certa vez, depois de ter terminado a minha intervenção numa conferência sobre o movimento estudantil nos anos 60/70, veio ter comigo uma pessoa do público que me disse mais ou menos isto «gostei muito da sua intervenção, mas olhe, nada do que disse é verdade, porque eu estive lá e sei que não foi assim». A minha reação foi convidá-la para um café e explicar-lhe onde tinha ido buscar a dose de verdade documentada com a qual se confrontava a sua longínqua memória. No final deu-me razão e pediu desculpa. Disse-lhe que não tinha nada de pedir desculpa, pois não tinha a obrigação de saber aquilo que eu sabia por esforço próprio e dever de ofício.

                          Publicado originalmente no Facebook

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                            Hipocrisia e oportunismo

                            Não sendo mais-que-perfeito, tenho uma a atitude social que considero positiva. De início, provavelmente por atavismo. Depois por educação, escolha política e motivos de natureza ética. Consiste em tratar os outros sempre da mesma forma, independentemente da sua condição social ou lugar profissional. Tratar o rico e o pobre, o presidente da junta e o varredor, o general e o soldado, homens e mulheres, de modo idêntico, sempre o mais democrática possível. Procurando, salvo quando o interlocutor não age da mesma forma, fazê-lo de maneira afável e respeitosa. (mais…)

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                              Coimbra e os álbuns de retratos

                              Frozen Coimbra. Fotografia de Riki

                              Nos últimos anos costumo ver, sobretudo nas redes sociais, onde este estado de espírito mais facilmente se revela, a expressão precoce, por parte de muitos alunos da Universidade de Coimbra que frequentam o último ano da sua licenciatura, de declarações inflamadas sobre a «saudade» que já sentem da cidade e da vida que nela real ou ficticiamente levaram. Fazendo-o ainda que aqui contem prosseguir os estudos de pós-graduação. Estão a viver o seu «tempo» – hoje tão curto, por comparação com o dos antigos cursos de quatro ou cinco anos –, e já têm saudade dele. O que é, de certo modo, um contra-senso: agem como se a sua vida se encontrasse em suspenso, pois ainda não é o que será, mas já não é o que foi. Alguns arrastam este estado de espírito ao longo de todo o último ano letivo. (mais…)

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                                O veneno do tabloidismo

                                Fotografia de Jaroslav A. Polák

                                Parafraseio de forma muito livre a tantas vezes citada frase com a qual abre o Manifesto Comunista, publicado por Marx e Engels em Fevereiro de 1848: um espectro ronda o mundo da informação, esse é o espectro do tabloidismo. Por toda a parte os jornais mimetizam o modelo de publicação, surgido em meados do século passado, que visava conquistar novos públicos privilegiando o espetacular, o fácil, o fútil, o breve, o colorido e ilustrado, fundado no escândalo, no sexo, na violência e na dor dos outros. E quanto mais, melhor, pois supostamente mais vende. Mas se a tendência existe há largas décadas, ela permaneceu durante algum tempo confinada a certas margens, ou a públicos específicos. Isto fazia com que existissem publicações diferentes para diferentes pessoas, cada uma com voz própria e vocacionada para comunidades de leitores que partilhavam distintos interesses, escolhas, linguagens ou expectativas. (mais…)

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                                  O incêndio e a calamidade como arma

                                  Fotografia de Bruno Silva

                                  Hesitei um pouco ao escolher o tema desta crónica. Não porque não valha a pena falar ainda do grande e terrível incêndio que há cerca de uma semana devastou parte significativa dos concelhos de Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos, e tanta destruição e morte trouxe àquela região. Mas porque a forma como este tem sido tratado leva a considerações sobre escolhas e comportamentos dos quais me agrada pouco falar. Porém, como é hábito dizer-se, o que tem de ser tem muita força. (mais…)

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                                    Quanto vale o localismo

                                    Ao contrário do que declara o ditado, não existem males que vêm por bem. Uma coisa má não pode ser trocada por outra boa, pois são experiências diferentes que cada um guarda consigo em lugares também diversos da memória e da experiência. Mas, sim, é banal mas verdadeiro: é muitas vezes no meio do pior que emerge o que conseguimos mostrar de melhor, de mais generoso e de mais intensamente humano. (mais…)

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