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Uma infeliz tourada

A posição do PCP sobre as touradas, juntando-se à direita para aprovar a descida do IVA das corridas para 6% terá as suas legítimas razões. O PCP tem sempre as suas legítimas razões, muito bem explicadas a quem delas discorda, fazendo-o quase sempre num tom defensivo e moralista perante a discordância, como se quem não as aceita ou entende, mesmo estando na área da esquerda e do socialismo, seja cego perante a luz da evidência ou cometa o pecado mortal do «anticomunismo». Quando as suas razões não são política ou eticamente explicáveis de um modo fácil, serve-se com frequência da demagogia, da manipulação da informação e, muitas vezes, de um recorrente legalismo, incompreensível num partido que, na essência, se propõe promover por todos os meios, incluindo os mais ousados, uma sociedade melhor e mais justa.

Neste caso, como em casos recentes de declarada concessão a posições conservadoras – ainda há pouco aconteceu, por exemplo, com a rejeição da eutanásia -, parece tudo bastante simples. Trata-se aqui de uma concessão eleitoralista a setores sociais retrógrados que se inserem no seu potencial eleitorado, em particular nos distritos do Alentejo e do Ribatejo, e da influência cultural do seu nacionalismo nuclear, tendente, desde há longos anos, a recuperar certas tradições como fator identitário, «patriótico», do país e dos portugueses. O resto do que possa afirmar sobre o tema – ou do que possam dizer alguns dos seus, procurando justificar o inaceitável enquanto outros preferem discordar em silêncio, já que a expressão pública de divergências permanece tabu – será apenas um exercício de retórica. Fica mais este registo para memória futura. Sou dos que o lamentam, pois não sou anticomunista.

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    Maledicência e democracia

    A depreciação gratuita e indiscriminada das pessoas que ocupam cargos políticos apenas por isso, muito comum nas redes sociais, é uma arma do populismo e arrasta consigo o fascismo. É fácil praticá-la, pois são muitos os governantes, deputados ou autarcas que em algum momento – por vezes, de forma sistemática – demonstraram desleixo, incompetência ou completa ausência de qualidades. Para além do envolvimento em situações de corrupção, abuso de poder ou práticas de autoritarismo. Podemos pegar em vinte, cem, duzentos casos, nos quais é fácil reconhecer essa situação, e depois generalizamos, proclamando que «eles», os políticos, «são todos iguais». Pode também usar-se um gesto, uma frase, uma escolha errada ou mais discutível de um deles, e depois aplicá-los a toda a sua atividade ou ao partido a que pertence. É essa a estratégia daqueles que, acima de tudo, procuram denegrir a democracia para melhor a combaterem, defendo como alternativa «salvadores» supostamente impolutos e caídos do céu.

    Escondem-se desta forma as pessoas realmente convictas, honestas e dedicadas que ao longo dos anos ocupam inúmeros cargos políticos, afirmando-se, quanto muito, que são exceções. Na maioria das vezes, isto é mentira. Estou à vontade para o dizer porque conheço ou conheci pessoalmente centenas de uns e de outros – ministros, deputados, autarcas – e sei que a larga maioria deles merece reconhecimento pelo seu trabalho. Mesmo que saibamos que ao seu lado circulam escroques e oportunistas. Mesmo que de modo algum concordemos com as suas escolhas. Quase sempre assim acontece, aliás, no meu caso de cidadão hipercrítico. A democracia é imperfeita e multiforme, pode e deve melhorar muito, mas o seu completo oposto é apenas a arbitrariedade e a ditadura do mais forte, sem contraditório, sem escrutínio público. Neste tempo que cruzamos é também a afirmação do maior demagogo.

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      Um arruaceiro no Planalto?

      A votação que decorre este domingo no Brasil representa um ponto de não retorno. Seja qual for o seu resultado, existe um país amado e admirado a partir de muitos lugares do mundo – de Portugal também – como campo de liberdade e de pluralismo, como paisagem da felicidade possível, como território de humanidade e de futuro, que está a morrer. Que já quase morreu. A maioria dos brasileiros e das brasileiras com suficiente informação e capacidade crítica sabe disso muito bem: a semente do ódio e da desconfiança frutificou e demorará muito tempo até ser possível restaurar laços de confiança na democracia, na governação referendada, e principalmente no outro que mora mesmo ao lado. Aquele que se julgava basicamente igual – mesmo quando colocado em diferente lugar social -, neste momento passou a ser suspeito, ou mesmo culpado, por uma inultrapassável diferença.

      Até que tudo isto passe, e demorará a passar, o Brasil permanecerá povoado por duas espécies de pessoas, separadas pela sensibilidade, pela raiva, pelo ódio, pela incompreensão, pela desconfiança. Visto de fora – e muitos brasileiros ainda não se terão apercebido disso – caso vença a extrema-direita mais boçal e violenta, sem outro projeto que não o da vingança, e o oportunista ignaro e inútil se torne principal locatário do Palácio do Planalto, como poderá acontecer, será visto no mundo, por muitos anos, como um Estado-pária, sem credibilidade e respeito. Uma «república das bananas» na qual ninguém, salvo parceiros de idêntico calibre, jamais aceitará confiar. O mal está feito, a divisão estabelecida, e demorará bastante a superar. Esperemos que o resultado deste domingo traduza, na vitória da democracia, a esperança de que tal acontecerá com a rapidez possível. Para bem da larga maioria dos brasileiros e das brasileiras, que muito o merecem.

      [Publicado originalmente no Facebook]

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        Que falem os mudos

        Toda a gente conhece o poema, erradamente atribuído a Brecht, que começa com o verso «primeiro levaram os comunistas». Já li versões, também elas assacadas ao «pobre BB», principiando com um «primeiro levaram os negros». Todavia, a versão mais conhecida – «Primeiro levaram os judeus, // mas não falei, por não ser judeu. // Depois, perseguiram os comunistas, // Nada disse então, por não ser comunista. (…)» – foi publicada em 1933 e é da autoria de Martin Niemöller, o pastor luterano alemão antinazi que um dia interpelou pessoalmente Hitler e por isso pagou elevado preço.

        Existe ainda uma versão do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, erradamente atribuída a Vladimir Maiakovski: «Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. // E não dizemos nada.» Mas não importa a versão, uma vez que se trata, em qualquer dos casos, de um poema de combate, destinado a ser partilhado e a erguer-se contra o silêncio dos que tudo deixam passar porque não é nada com eles, dos que fecham os olhos porque pode ser que passe ao lado, até que um dia, como escreveu o poeta de Niterói, porque não dissemos nada, «já não podemos dizer nada».

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          A indiferença e a sua companheira cobardia

          Em O Estrangeiro, Meursault manifesta uma total indiferença em relação àqueles com quem convive e ao mundo que o cerca. Leva uma vida de apatia, em estado de permanente entorpecimento, reagindo apenas, muito espaçadamente, a estímulos imediatos. Liga-se aos outros apenas na medida em que estes lhe agradam ou servem os seus interesses, logo os abandonando quando nessa medida deixam de ser úteis. Para ele, a vida é uma sucessão de episódios sem outro sentido que não seja a de serem o cenário da sua existência sombria. Camus, o autor, foi rigorosamente o oposto, solar, sempre comprometido, atento aos outros e capaz da suprema bravura de contrariar os factos quando estes questionaram a perspetiva ética que foi a sua forma de humanidade.

          Todos conhecemos pessoas parecidas com o pobre Meursault. Talvez menos extremas na sua indiferença, mas igualmente capazes de se desinteressar por tudo aquilo que não tenha a ver com a pulsão egocêntrica que vão gerindo. Ainda que disfarcem essa insensibilidade com algumas palavras de ocasião. São os (ou as) que lamentam, que discordam, que formalmente tomam esta ou aquela posição em relação aos males da sociedade e do mundo, mas que emudecem logo que tal exija esforço, compromisso e risco. São os (e as) cobardes, que disfarçam a sua cobardia, afinal uma outra forma de indiferença, usando máscaras de cartão ou fazendo-se passar por atentos aos outros apenas na esfera do privado, com palavras inúteis proferidas em surdina.

          Imagem: Camus espreita em mural de Vhils, Paris.
          [Publicado originalmente no Facebook]

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            A indiferença, o deserto e o futuro

            Desde que em 1982 comecei a ensinar na universidade, a cada Julho costumo fazer um balanço da forma como correram as aulas. Até há pouco, e mesmo sendo juiz em causa própria, considero que ele foi sempre globalmente positivo. Sem falsa modéstia, e retirando uma ou outra situação pontual menos boa, inevitável numa experiência que envolveu meia centena de disciplinas e seminários, cerca de setenta orientações de pós-graduação e ao redor de vinte mil alunos e alunas, acredito que o esforço e a entrega valeram sempre a pena. A memória que tenho da larguíssima maioria das aulas e dos alunos, mesmo de muitos dos menos empenhados, foi quase sempre a de envolvimento, curiosidade e aproveitamento médio, bom ou excelente. Ao ponto, tantos anos depois, de permanecer na memória de largas centenas deles, que continuam a transmitir-me constantes e até afetuosos testemunhos de que o esforço compensou. (mais…)

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              Futebol, desgosto e impunidade

              Sempre gostei de futebol, mas jamais da «clubite», que se compraz mais com as derrotas do adversário que com as vitórias próprias, ou do fanatismo, que tudo transforma em território de incompreensão e ódio. Bill Shankly, treinador do Liverpool entre 1959 e 1974, afirmou certa vez que «o futebol não é uma questão de vida ou de morte, mas algo bem mais importante do que isso», e eu concordo com ele. É, ou pode ser, uma paixão ou um interesse que dá algum sal à vida, como muitas outras pequenas coisas. Foi o que aprendi em criança, enquanto esfolava os joelhos e os sapatos na «Rua da Manha», a pequena calçada escondida do olhar vigilante das mães, onde, por vezes com bola de trapo ou papel atado com um cordel, jogávamos pelo prazer simples de o fazer. A frase de Camus sobre o futebol como escola de vontade e de fraternidade faz todo o sentido quando recordo aqueles jogos semiclandestinos de muda aos cinco e acaba aos dez. (mais…)

                Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                O simples, o complicado e o complexo

                Começo por um episódio ocorrido há poucos dias durante um debate televisivo. A dada altura, um dos participantes afirmou: «Isto [um aspeto do tema em debate] pode ser visto como branco, azul, vermelho, amarelo, verde ou preto». Comentário do pivô: «Portanto, pode ser branco ou preto». A réplica do comentador: «Essa é uma ideia simplista». E de novo o pivô: «Devemos dar ideias simplistas às pessoas». O episódio pode parecer inventado, mas não foi: o diálogo (mais vírgula, menos vírgula) decorreu desta forma. Infelizmente, mostra uma tendência, que não nasceu hoje, mas tem vindo a acentuar-se, segundo a qual tudo deve ser reduzido, «para que as pessoas entendam», ao menor denominador comum. (mais…)

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                  Maio de 68, «revolução-ficção»

                  Em Maio de 68 explicado àqueles que o não viveram, o documentarista Patrick Rotman afirmou ser este «um objeto histórico encerrado, que devemos olhar e analisar como tal». Muito pelo contrário, é possível e mesmo indispensável encarar o «Maio francês» como um dos momentos que conferem sentido aos últimos cinquenta anos da história mundial, permanecendo aberto a interpretações e a efeitos que lhe atribuem uma dimensão singular e permitem considerá-lo, pelo menos por enquanto, como memorável.

                  O ano de 1968 foi o mais turbulento do pós-guerra, carregado de acontecimentos inesperados, violentos, exaltantes ou trágicos: a ofensiva do Tet no Vietname, o auge do movimento pacifista contra o apoio dos EUA a Saigão, a explosão por todo o lado da contestação estudantil, a afirmação do Movimento de Libertação das Mulheres e do fenómeno da contracultura, a Primavera de Praga, as barricadas de Paris, o assassinato de Martin Luther King e de Robert Kennedy, os protestos de Chicago contra o racismo, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, o massacre de 200 estudantes na cidade do México. Neste contexto, o que ocorreu em França poderia ser um episódio sonoro, é certo, mas curto e de limitado impacto; já o não será, todavia, se o olharmos como sinal de um tempo e prenúncio de algumas transformações. (mais…)

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                    Quatro meses do meu ano de 68

                    Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural. (mais…)

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                      Paris-68, Coimbra-69 e depois

                      Completa-se este mês meio século sobre a revolta de Maio de 68 em França. Sensivelmente pela mesma altura, no próximo ano decorrerá o cinquentenário da crise académica de 69 vivida em Coimbra. São temas dos quais, como professor de história contemporânea, costumo falar em aulas e seminários, e por isso estou habituado à confusão recorrente – compreensível entre quem pouco ouviu falar dos dois momentos, ou deles retém apenas vagas e imprecisas ideias –, estabelecida entre um tal «Maio de 69» e uma certa «Crise de 68». De uma coisa tenho a certeza: esta confusão alimenta-se da ideia de que uma (a crise) e o outro (o movimento) se encontram estreitamente interligados. Tenho más notícias para quem partilha desse mito ou se ocupa a alimentá-lo: não é de todo verdadeiro que essa ligação tenha acontecido. Existe um equívoco a propósito da influência imediata do Maio de 68 em Portugal. (mais…)

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                        Uma dupla questão de moral

                        Poderia abordar este assunto de outra forma, mas dada a polémica na qual acabei por me ver envolvido, terá de ser assim. No dia 3 de Março, na sequência das notícias sobre o convite feito a Pedro Passos Coelho pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa, no sentido de o ex-primeiro-ministro passar a ensinar ali como professor catedrático convidado, deixei no meu mural do Facebook uma curta nota. Transcrevo-a na íntegra:

                        «Nada tenho contra a possibilidade de um ex-governante lecionar numa universidade. Independentemente das suas escolhas políticas. Nada tenho contra o acesso especial à carreira universitária, inclusive em lugares do topo, a pessoas de reconhecido mérito, cuja experiência e obra, ainda que desenvolvidas noutros lugares que não a sala de aula, possam acrescentar algo em termos de conhecimento ou de real prestígio para a escola. Ora é aqui que bate ponto no caso agora em apreço: sem formação, mérito ou reconhecimento não faz sentido, a não ser por nepotismo, o convite dirigido pelo ISCSP a Passos Coelho. É uma desonra para uma escola pública, e uma afronta para quem, no sistema universitário, tanto dá ao longo da vida subindo custosamente a pulso, ou nem sequer o consegue fazer devido ao rigoroso limite de vagas.» (mais…)

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                          As batalhas da história e o «presentismo»

                          Ocultar ou desfigurar o passado para moldar o presente é uma velha prática que dispõe hoje de novas armas. Henrique IV de França ordenou no Édito de Nantes que os episódios das Guerras de Religião opondo católicos e protestantes fossem «apagados e adormecidos como coisa não acontecida», assim procurando rasurar um passado incómodo. O relato da Guerra Civil divulgado na Espanha de Franco impunha a representação de um confronto entre «bons espanhóis» e «perversos republicanos», separando os que mereciam a glória dos que deveriam ser esquecidos. O Kremlin faz agora por apagar a feroz repressão do tempo de Estaline, convertendo este em herói de um destino imperial da Rússia que Putin deseja recuperar. O trabalho de moldagem do passado pode até nem requerer essa intervenção direta do Estado: nas democracias contemporâneas as estratégias são mais insidiosas, sendo muitas vezes os próprios meios de comunicação social privados a disseminar formas parciais ou enganadoras de passado. (mais…)

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                            Entre o passado e o futuro

                            Uma destas noites sonhei que voltara ao passado, mas que o fizera de um modo calculista. Fora lá roubar, para usar nestes dias sombrios de inverno, aquilo que ele tinha de melhor. Não a juventude necessariamente insensata ou a energia desmedida, que recordo sem grande nostalgia e para as quais, à medida que as fui perdendo, fui achando alternativas. Também não fui lá buscar as memórias, mesmo as melhores, pois sei que elas têm sempre a forma de fábulas que embelezamos. Afinal, nesse passado fui tão feliz e tão infeliz quanto o sou hoje, ainda que em escalas e por motivos diversos. Naquele «sonho adormecido» – usando o termo cunhado pelo filósofo Ernst Bloch – fui recuperar outra coisa, que permanece perpétua, transcendendo o curto tempo de vida que sempre nos cabe. Falo da absoluta crença na possibilidade de construir um mundo melhor, e também da vontade de transformar a realidade, sabendo que nelas se misturam, em partes desiguais, a imaginação da utopia e a imersão nessa dose de realidade que sempre a confronta. (mais…)

                              Heterodoxias, História, Olhares, Opinião

                              As humanidades e o pensamento crítico

                              As humanidades (a literatura, a história, a filosofia, as artes, a teoria musical, entre outras), e também, ainda que em escala só ligeiramente menor, as ciências sociais (como a sociologia, a psicologia, a antropologia, a ciência política ou o direito), fazem parte daquele território de saberes e de modos de reconhecer o mundo que tem vindo a ser crescentemente desvalorizado nas sociedades assentes no poder do dinheiro e no fetiche da produtividade. Longe vai o tempo do prestígio e da influência política do «homem de letras» – quando quase apenas homens as possuíam – e da intervenção dos intelectuais. (mais…)

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                                A esperança contra a indiferença

                                A História não se repete. Foram há muito superadas as teorias de Danilewski e de Spengler que a julgavam apoiada em rígidos e inevitáveis ciclos civilizacionais, e mesmo a mais moderada ideia de Arnold Toynbee, para quem a obrigatória repetição dependeria um pouco mais do fator humano, está hoje descartada. Aquilo que se rejeita nessas doutrinas não é, no entanto, a possibilidade de determinadas situações da vida das sociedades se poderem assemelhar, mas a noção de tal acontecer de forma regular e implacável. Como se estas fossem regidas por um destino, por um fado, que as determina. (mais…)

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                                  Agradecer basta

                                  É justo e de bom-tom agradecer algo que nos dão ou um serviço que nos prestam, por mais insignificante que este seja. Pode ser uma convenção, mas não o é apenas: representa sempre um gesto de cortesia e de civilidade que sela uma espécie de pacto de entreajuda entre pessoas que se entendem e respeitam. E é também o reconhecimento do esforço do outro. Sempre o fiz e continuo a fazer, mas o inverso – agradecerem-me por aquilo que ofereço a alguém – tem vindo ultimamente a ocorrer cada vez menos vezes, em especial com interlocutores que detêm uma conceção utilitarista da vida social ou têm dos outros uma imagem instrumental. (mais…)

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                                    1917: o céu, o inferno e a esperança


                                    Devido à passagem do seu centenário, a Revolução de 1917 – a de Fevereiro, que derrubou a autocracia czarista e implantou um regime democrático incapaz de solucionar os graves problemas e conflitos que atravessavam a Rússia, e principalmente a de Outubro, que abriu caminho, através da intervenção dos bolcheviques, para a primeira grande experiência socialista da História –, está a ser objeto de uma atenção particular. Acontece por todo o lado, dada a repercussão histórica do acontecimento, das alterações políticas que determinou, e das hipóteses que projetou e continua a projetar. Aqui também, naturalmente.

                                    Uma grande parte dos artigos de jornal, dos textos de opinião, das comunicações académicas, dos suplementos de revistas, das intervenções em sessões de evocação, observa-a, porém, a partir de posições extremas. Sejam aquelas marcadas por uma rejeição absoluta, de pendor fortemente anticomunista e, de caminho, voltadas contra toda a esquerda – veja-se o que aconteceu em Portugal com as insólitas acusações de «bolchevismo» lançadas a propósito da constituição da atual maioria parlamentar –, ou inversamente, numa posição puramente celebratória e muitas vezes nostálgica das experiências do antigo «socialismo real», cantando panegíricos e omitindo erros colossais. Retomando até leituras ultrapassadas, sem um esforço crítico de análise ou atenção à investigação histórica recente. (mais…)

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