Arquivo de Categorias: Olhares

Narcisos à força

Ao fim de três semanas a olhar o próprio rosto nos vídeos das aulas que tenho andado a gravar, comecei a detetar algumas alterações. Primeiro um preenchimento excessivo do espaço visível, resultante do quase inevitável acréscimo de peso, mas pouco depois algo pior. Passei a notar uma tensão, um congestionamento, mesmo um olhar que não conhecia em mim. Sabemos como em momentos de tensão isto pode acontecer. Falando da sua memória do limite dos limites, em ‘Se isto é um homem’ Primo Levi contou como ao fim de apenas dois dias em Auschwitz, vendo por acaso o seu rosto refletido numa vidraça, foi incapaz de se reconhecer.

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    Apontamentos, Atualidade, Olhares

    Males que vêm por bem

    É bem conhecida a forma como a atividade nas redes sociais tem tanto de positivo e de construtivo quanto de incómodo ou de prejudicial. Tende a reproduzir em meio virtual as relações sociais tradicionais, desenvolvidas em meio físico, adicionando-lhes uma forte capacidade para dar voz a quem habitualmente a não tem, permitindo que todos possam transmitir rapidamente o que pensam. Isto conduz a frequentes imprudências, dizendo-se o que talvez não devesse ser dito ou que poderia ter sido melhor ponderado. Este apontamento não toma esse sentido negativo, mas poderá tornar-se pouco simpático.

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      Pandemia e trauma

      Apenas passaram dez dias sobre a declaração do estado de emergência e a passagem da nossa vida quotidiana para um novo patamar de reserva e de cuidado. A maior e a mais generalizada preocupação é com a saúde física dos cidadãos e a capacidade coletiva para conter o mais possível a expansão da pandemia e os seus resultados nefastos. Com ela em mente, temos vindo a adaptar as nossas vidas à situação de confinamento doméstico, a novos processos de trabalho e a cuidados particulares no convívio diário com os outros.

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        Quatro anos que abalaram o mundo

        Quando recuo na memória da parte da história contemporânea que pude testemunhar, encontro quatro anos nos quais aconteceram situações excecionais, que em muito abalaram a perceção da realidade e o mundo daqueles que as viveram. Corresponderam a quatro momentos de viragem, onde novos factos, equilíbrios e até valores se impuseram, dando corpo a viragens que se confirmaram irreversíveis. Foram anos-catástrofe – decisivos, no sentido da palavra katastrophḗ no antigo grego – que fecharam uma etapa no trajeto da história recente, inaugurando outra, radicalmente nova. Suscitando de imediato, naqueles que os viveram, a impressão de haverem atravessado uma fronteira, entrando num mundo novo, estranho e inesperado.

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          Atualidade, Memória, Olhares, Opinião

          O vírus e nós

          Já em 1947 se falava em A Peste sobre o modo como a vivência coletiva de uma calamidade cujo controlo escapa, em boa medida, à capacidade de previsão e à autonomia da intervenção humana, acaba sempre por transformar todos aqueles que a experimentam. «Aprendemos sempre no meio dos flagelos», escreve Camus a dado passo do romance. Confirmando estas palavras, estes dias têm sido ilustrativos, mostrando como, perante o medo ou o perigo, o instinto de sobrevivência em muito facilita uma alteração dos hábitos que em circunstâncias normais seria recusada. Revela também a diferença entre quem assume sentimentos de humanidade e de solidariedade, aceitando a partilha do risco e da salvação, e quem se refugia num egoísmo ou numa ausência de cuidado para com os demais que nestas ocasiões ainda se torna mais chocante e deplorável. Há também quem facilmente caia em pânico e se entregue a iniciativas irracionais ou a teorias da conspiração, que em nada ajudam a vida comum. Para estes mais dificilmente haverá remédio, apesar, como Camus igualmente lembrou no romance, de dificilmente «a peste chegar e partir sem que o coração dos homens se altere».

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            A praga dos «achistas»

            Contra os «achismos» não existem argumentos que valham. Eles não podem ser colocados à discussão, pois não se servem de dados objetivos ou de raciocínios lógicos. Resultam apenas de «teorias» criadas por alguém, unicamente com base nas suas próprias opiniões e intenções, sem qualquer tipo de fundamentação concreta ou de justificativa. São praticados por pessoas que desconhecem a natureza de determinados assuntos, mas que fazem questão de sobre eles produzirem supostas explicações, tendo em consideração apenas o que mais ou menos empiricamente «acham» a seu propósito. Têm a certeza absoluta do que não fazem a menor ideia. Recusando-se a obter informações fidedignas sobre o tema em causa – ou sequer a tomar como meras hipóteses aquilo que encaram como absolutas certezas – contribuem pesadamente para espalhar rumores, incertezas ou conteúdos falsos. Ou para bloquearem de todo qualquer debate a sério, uma vez que ninguém consegue conversar de forma decente com «achistas». Todavia, existem por todo o lado, alimentam-se em pastos comuns e as redes sociais têm feito com que se reproduzam como uma praga.

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              O adepto (com Eduardo Galeano)

              Nada que não fosse de esperar: a atitude estrábica de usar aquilo que de horrível está a acontecer em alguns estádios e ocorre em clubes de futebol num amargo ramerrão (este sim, «pseudo-intelectual») contra o futebol. Desporto do qual, como do ténis ou do hóquei no gelo, como de um quadro pós-impressionista ou de uma ópera de Wagner, como de uma pessoa ou de uma experiência, se pode gostar ou não, dele ter boas ou más recordações – Camus, que foi guarda-redes do Racing de Argel, dizia ter sido o futebol a ensinar-lhe a verdadeira dimensão da ética do dever – mas onde a maldade chega apenas por interposição de outros e bem perigosos interesses. Não por intervenção das regras do jogo ou da paixão desmesurada do adepto comum. Sobre este, aqui fica um texto de Eduardo Galeano, incluído no belo ‘Futebol ao Sol e à Sombra’.

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                Cidades, Democracia, Olhares, Opinião

                A Irlanda e os «hábitos»

                Uma pequena nota pessoal: como muita gente, tenho princípios, gostos, devaneios, projetos que me têm acompanhado ao longo da vida. E ela vai já suficientemente longa para lhes detetar alguma constância. Mas neles se incluí também a tentativa de ir acompanhando sempre a mudança, de a entender e de dialogar com ela. Por isso, me custa um pouco o convívio com gente – de diferentes gerações, alguma com um terço da minha idade – que se fixa num modelo, num vocabulário, numa ideologia, num gosto musical, num género de literatura, num tipo de arte, numa forma de vestir ou de se comportar, que repete ‘ad aeternum’ os que fixou por volta dos vinte anos, fugindo a sete pés de tudo aquilo que os possa perturbar. E se o mundo muda, o problema é do mundo.

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                  Atualidade, Democracia, Olhares, Opinião

                  Carros

                  Um divertido texto de Tony Judt publicado em O Chalet da Memória, de 2010. Onde se aprende muito sobre alguma das transformações sociais e culturais ocorridas na Europa durante o período que imediatamente antecede e sucede à Segunda Guerra Mundial. Tradução parcialmente apoiada na publicada pelas Edições 70.

                  Para a minha mãe, o meu pai era «obcecado» por carros. Para ela, a eterna fragilidade da nossa economia doméstica devia-se à tendência do marido para gastar com eles as nossas poupanças. Não posso avaliar se ela tinha ou não razão em relação a isso – é evidente que, deixada por conta própria, teria limitado a família a um carro pequeno por década, se tanto – mas mesmo aos olhos compreensivos de um filho que o admirava, o meu pai parecia de facto viver absorto com os seus carros; especialmente com os Citroën, a marca francesa cujos produtos idiossincráticos enfeitaram o pátio da frente da nossa casa durante a minha infância e adolescência. Tivemos uma ou outra ocasional aquisição inglesa, feita por impulso, da qual rapidamente nos arrependemos – um Austin A40 descapotável, um AC Ace desportivo -, além de um capricho que durou algum tempo com um DB Panhard, do qual falarei mais à frente; mas durante anos Joe Judt conduziu, consertou e falou sobre Citroëns.

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                    Cidades, Ensaio, História, Memória, Olhares

                    Os hackers e o Zorro

                    Uso com regularidade redes de computadores desde 1992, e a Internet desde 1995, e por isso vi surgir com curiosidade e até algum divertimento o fenómeno dos hackers e o seu mundo muito peculiar. Conheci mesmo alguns, embora todos de pequena dimensão e parcas ambições. Estes, como outros que entretanto se tornaram mundialmente conhecidos – foi o caso de Kevin Mitnick, que em 1979, com 16 anos, andava já a passear-se a partir de sua casa por redes de computadores do sistema de segurança norte-americano – faziam o que faziam sempre pelo puro prazer do jogo e do risco. O surgimento de hackers abertamente criminosos ou ao serviço de Estados autoritários e de grupos terroristas foi um pouco mais tardio, tornando-se muito visível e ganhando impacto global sobretudo a partir da viragem do milénio.

                    A sua forma de agir, dinamizada pela curiosidade, pelo conhecimento e pela compulsão, tende cada vez mais a ser colocada ao serviço do crime e de formas de poder e de contra-poder que os utilizam em proveito dos seus interesses, causando com frequência prejuízos enormes a governos, a instituições e mesmo a simples cidadãos. Todavia, aqui como na lenda do bom ladrão, que «rouba aos ricos para dar aos pobres», existem também hackers que se servem do seu saber e a sua curiosidade de um modo que pode ser usado nos combates pela justiça e pela verdade. Assim aconteceu, por exemplo, com os casos de Julian Assange, Edward Snowden ou agora talvez Rui Pinto. Não os vejo como grandes e maravilhosos heróis mascarados ou de chapéu emplumado, como o Zorro ou Robin dos Bosques, mas as suas iniciativas podem e devem ser usadas na agilização da luta contra o crime organizado e os regimes autoritários.

                    Fotografia: Maria Feck / Expresso
                      Apontamentos, Cibercultura, Olhares

                      Vidas infelizes

                      Mantém-se um costume antigo, quando se fala da vida de certos artistas ou escritores, de embelezar o triste e o deplorável. Vemos marcas dos seus trajetos, comuns às de tanta outra gente, por onde passa o abandono, a infelicidade, a pobreza, a miséria, a doença, a depressão, como pagamento de um destino que lhes concede a admiração temporária ou póstuma. Nesses momentos, os traços que em outras pessoas são marca de rejeição, codificam uma maldição que as torna admiradas dos comuns e lhes assegura lugar num anel superior.

                      Nasceu sem dúvida nos ambientes do mundo romântico, essa admiração desenfreada pela grandeza da infelicidade como destino dos eleitos que habitam mansardas e morrem cedo. Periodicamente reencontramo-la em documentários, palestras ou suplementos literários, onde, por algum tempo, geralmente pouco, as vidas infelizes e solitárias são colocadas à admiração do vulgo. É, porém, a sua idealização que conta, não as pessoas reais fora desse foco momentâneo. Por isso me custa sempre ver essas tristes hagiografias.

                      Pintura: O Pobre Poeta, de Carl Spitzweg, 1839

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                        Da atualidade de Camus

                        Nos 60 anos da morte de Albert Camus.

                        O escritor húngaro Imre Kartész, antigo deportado de Auschwitz-Birkenau, resumiu numa frase curta a afeição imediata e duradoura por Albert Camus: «Amei imediatamente a sua liberdade, mas também a sua insolência». A par do impacto da voz literária, as marcas de independência e de insubmissão do autor de Os Justos têm sido determinantes para manter um poder de atração, uma irradiação de heroísmo e resistência, que têm cruzado diferentes épocas e circunstâncias. Eclipsadas as grandes narrativas do tempo histórico, muitos dos que foram perdendo as certezas acolheram com agrado aquela que foi, como escreveu nas memórias Maria Casarès, o amor de muitos anos, «a sua paixão pela justiça e pela verdade». A dilatação desta influência tem sido, no entanto, diretamente proporcional às incompreensões mantidas dentro do território político ao qual pertenceu. (mais…)

                          Biografias, Democracia, Ensaio, Leituras, Olhares

                          Loucos Anos 20? Quais Loucos Anos 20?

                          De repente, não sei precisar em que momento, começaram a chegar-me às turmas de história contemporânea na universidade estudantes que traziam na cabeça uma grande léria sobre os «loucos anos 20». Como se a vida de toda uma década do século passado tivesse sido moldada à imagem da fruída pelo grupo diletante de Scott Fitzgerald e Zelda Sayre. Como um reverso elitista, saído da paisagem parisiense e da Riviera, do que aconteceu a milhões de humanos depois do crash bolsista de 1929. Passando para segundo ou terceiro plano aquilo que foi nesses anos a brutal exploração, as duríssimas condições do trabalho, as perseguições de natureza étnica e política e a explosão dos fascismos. Por vezes, para tentar diluir o que trazem na cabeça sobre o brilho ofuscante da vida experimentada apenas por um pequeno setor da população privilegiada de certas capitais, e para abrir espaço a uma mistura de conhecimento com consciência crítica, leio e comento este parágrafo de «A Era dos Extremos», de Eric Hobsbawm:

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                            Artes, História, Memória, Olhares

                            O peso negativo do conformismo

                            Não existem causas fáceis porque não existem verdadeiras causas que não exibam bandeiras. Quer isto dizer que quando tomamos uma posição pública afirmativa que não seja de âmbito meramente individual e antes diga respeito ao coletivo, estamos a interferir com situações estabelecidas e a dar a conhecer uma proposta ou uma ideia, perturbando sempre quem delas discorda. O conceito de causa, aplicado, não a um efeito, mas a um conjunto de interesses partilhados pelos quais alguém se bate, impõe sempre esse envolvimento de natureza conflitual, sendo por seu intermédio que as sociedades passam de um estádio a outro e se afirmam na conquista de direitos mais amplos e de uma vida melhor, ainda que episodicamente possam também, como se sabe, viver alguns recuos.

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                              Democracia, Olhares, Opinião

                              O Zé Mário e a «volta a isto»

                              Com a morte do José Mário Branco (1942-2019), para além do artista e do homem que desaparece, é uma das figuras fundadoras e matriciais da «esquerda da esquerda» que parte também. Para a minha geração, e para o pequeno núcleo da utopia de onde venho, uma voz singular e uma personalidade inesquecível que todos/as teremos para sempre na cabeça e no coração. O Zé Mário não foi só o melhor de todos os da canção de resistência e intervenção – como cantor, como músico, como compositor, como letrista, como arranjador, como produtor, tudo por junto -, foi e é também um sinal vivo e sonoro de que, sim, é possível ser-se coerente e solidário a vida inteira. Acreditando todos os dias que é preciso dar «a volta a isto».

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                                Sobre a tirania de parecer feliz

                                Na mesa ao lado quatro raparigas discutiam de uma forma exaltada, trocando acusações e insultos. A discussão era feia, quase no limite da violência física, e parecia piorar a cada instante. Todavia, algo dava uma tonalidade caricata ao episódio: de cinco em cinco minutos uma delas levantava-se, erguia o smartphone e tirava uma selfie ao grupo. A cada um desses momentos correspondia a suspensão da gritaria e a exibição de súbitos sorrisos de felicidade, de inesperadas expressões de simpatia, de gestos destinados a provar no futuro uma amizade sólida e um momento de serenidade. Situações destas fazem parte do nosso quotidiano, habitado por uma omnipresente vontade de aparentar alegria e felicidade, mesmo quando estas são forçadas e teatrais.

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                                  Notas e impressões (sobre as eleições)

                                  Os resultados das eleições não foram surpreendentes. O PS ganhou como se esperava, ainda que sem a maioria absoluta que pretendia; o PSD teve uma descida menor do que aquela que se aguardava, em boa parte graças ao eleitorado fiel e aos ataques personalizados ao PS conduzidos nas últimas semanas; o Bloco de Esquerda manteve a sua importância central, se bem que sem a subida com a qual se contava; o PCP continua a descer, embora não tanto quanto se previa (já os «Verdes», esses evaporaram-se); o CDS caiu até ao limite, embora dentro do previsto; o PAN continua a subir num processo de apropriação de causas que não domina. E depois há os «pequenos partidos», aos quais a presença no Parlamento poderá permitir crescer.

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                                    Opinião pública e peso da responsabilidade

                                    O título desta crónica parafraseia o de um livro, O Peso da Responsabilidade, do historiador britânico Tony Judt, publicado em 1998 e traduzido no ano passado pelas Edições 70. Nele se reuniram ensaios de Judt sobre três franceses do século XX – Léon Blum, Albert Camus e Raymond Aron – com percursos e focos diversos, mas que coincidiram na grande influência que exerceram sobre o seu tempo e na forma exigente como interpretaram a responsabilidade particular do intelectual público. Tomada esta num duplo sentido: de um lado, o de quem observa o mundo com permanente atenção e de um modo razoável, liberto dos pesados filtros impostos pelas categorias ideológicas, pelos modismos ou pelos lugares-comuns; do outro, o do sujeito que, agindo e comunicando em função das suas convicções, obtidas através da reflexão e da crítica, as assume de uma forma aberta perante os outros, ainda que tal o possa forçar a colocar-se contra as posições dominantes no seu próprio campo, sendo, por isso, por vezes acusado de apostasia ou traição.

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                                      Democracia, Ensaio, Olhares