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Elvis’54

Elvis Presley

Elvis “The Pelvis” Aaron Presley gravou o seu primeiro álbum a 5 de Julho de 1954. Há precisamente cinquenta e oito anos. E o planeta não mais deixou de bambolear as ancas.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=w-ii6jpdOEk[/youtube]
    Apontamentos, Artes, Música

    A bela palavra

    Mantenho uma relação difícil com a palavra «camarada». Houve um tempo no qual a pronunciei vezes sem conta. Para mim significava então um destino, uma missão. Uma vontade de partilhar a redenção dos que a história havia empurrado para a humilhação e a pena. A certeza de que esse resgate chegaria. E por isso um sinal de futuro. Era essa a palavra bonita, «c’est un joli nom, tu sais», que Jean Ferrat, comunista e artista de variedades, proclamava em 1968. Aquela que combinava o sabor da cereja e o da romã com os perfumes do maio. Mas na mesma canção Ferrat rompia com o PCF e acusava os tanques russos: «Ce fut à cinq heures dans Prague/ Que le mois d’août s’obscurcit/ Camarade Camarade». Porque a palavra serviu também, no dobrar das décadas, para perseguir e delatar, para marcar um grau de pureza («amigo, companheiro, camarada»), para torturar e abater («porque desejas, canalha, matar o Camarada Estaline?»), deixando manchar o brilho matinal que estava na sua natureza. E, no entanto, sobreviveu. Porque nenhum mal foi capaz de expulsar a centelha que contém. A fraternidade que invoca, que espera, que procura. «Camarada» permanece uma palavra linda. Por isso necessária.

      Apontamentos, Música, Olhares

      Perfilados de Medo

      [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=OzwdYxxhwPc[/youtube]

      Sobre uma fotografia de sentido expressivo petrificante, tirada ontem durante a cerimónia oficial de abertura do Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura, e uma troca de comentários no Facebook a respeito da mesma (e apenas dela, não do evento), recupero uma canção de José Mário Branco com cerca de quarenta anos composta sobre um soneto de Alexandre O’Neill com mais de cinquenta.

      Perfilados de medo, agradecemos
      o medo que nos salva da loucura.
      Decisão e coragem valem menos
      e a vida sem viver é mais segura.

      Aventureiros já sem aventura,
      perfilados de medo combatemos
      irónicos fantasmas à procura
      do que não fomos, do que não seremos.

      Perfilados de medo, sem mais voz,
      o coração nos dentes oprimido,
      os loucos, os fantasmas somos nós.

      Rebanho pelo medo perseguido,
      já vivemos tão juntos e tão sós
      que da vida perdemos o sentido…

        Apontamentos, Música, Olhares, Poesia

        Amendoim

        Muitos portugueses jamais viveram assim pois nasceram e cresceram num tempo de ilusória abundância. Mas quase todos eram pobres, ou então, como se dizia, remediados. A pobreza não era uma situação, era uma condição; não era uma circunstância, mas um estigma. Quem nascesse pobre não tinha outro horizonte que não o da pobreza, se não tivesse a sorte de encontrar um bom padrinho ou de acertar no Totobola. Em aposta simples, pois a múltipla saía cara. Já remediados eram quase todos, seguindo um padrão de vida que no entanto seria hoje o da pobreza. Tinham dinheiro para o essencial, se poupassem muito e não fizessem o que não deviam. Evitar o mais possível os cafés, os cinemas, os passeios e as noitadas, não fazer férias longe de casa ou jogar cartas a dinheiro, eram deveres essenciais para permanecer remediado e não baixar de nível social. Nem mesmo as crianças escapavam ao regime: tinham brinquedos baratos de lata, pano ou madeira, que passavam de geração em geração, compravam rebuçados de meio tostão e na Páscoa tinham um saquinho de amêndoas que deviam partilhar com os irmãos. Num dia especial, conseguiam um cone de caramelo tingido a corante e embrulhado em papel vegetal. Quando cresciam um pouco e começavam a desinteressar-se dos doces, passavam à pevide ou ao amendoim torrado, companhia rotineira de uma laranjada bebida com moderação. Gelados, só os feitos pelas mães. Matraquilhos, só com os escudos contados. E eram filhos de funcionários públicos, de professores primários, de quadros técnicos, de polícias, até de militares de patente baixa. Não eram filhos de operários, camponeses ou empregados de comércio, pois esses nem com tais frivolidades podiam sonhar. Se tudo acontecer como previsto e a sagrada Europa quiser, será a esse tempo que sem as devidas distâncias tornaremos em breve.

          Apontamentos, Democracia, Música

          Cascais’71

          Cascais 71

          Em novembro de 1971, o primeiro Festival de Jazz de Cascais («Newport na Europa») reuniu num programa excecional a nata da cena jazística mundial. Se for apreciador do género, para o confirmar basta que leia com atenção todas as linhas do cartaz acima reproduzido. No qual faltam aliás nomes também presentes mas que começavam apenas a carreira e por isso não eram destacados, como o contrabaixista Charlie Haden, a acompanhar então Ornette Coleman, e o pianista (na época apenas elétrico) Keith Jarrett, que tocava com um bastante irascível Miles Davis. Estive por lá, sim, comendo o pó de cimento de um pavilhão ainda em obras e bebendo cervejas estupidamente chocas. Mas, acima de tudo, encaixando momentos de beleza e exaltação cujos ecos continuam, garanto, a reverberar.

          Obrigado à A.S. por se ter lembrado de me avivar a memória quando deu de caras com isto.

            Etc., Memória, Música

            Syd (e os outros Floyd)

            Syd Barrett

            Tentando contrariar um injusto apagamento. A propósito da recente edição remasterizada da discografia dos Pink Floyd, revistas e suplementos alinham sínteses do trajeto de uma das bandas da música popular anglo-saxónica que mais venderam (e vendem), e que maior capacidade tiveram de conservar uma admiração que atravessa gerações. É fácil hoje encontrar homens de sessenta anos, trintões desgastados ou putos de doze que gostam dos Floyd, conhecem de memória uns quantos temas, e um dia tiveram, contra a vontade das mães, um poster deles numa parede do quarto. Em particular entre os que recordam a fase inaugurada com Dark Side of The Moon (1973), mais melódica e com maior impacto comercial, que é também a menos interessante. Os artigos da imprensa têm pois alinhado fotografias de Waters, Gilmour, Mason e Wright, não se esquecendo de evocar a dimensão dos megaconcertos e de contabilizar a magnitude das vendas. Só que tem sido praticamente ignorado o rico período criativo de 1964 a 1968, claramente menos previsível e dominado pela presença inovadora do guitarrista, vocalista e compositor Syd Barrett.

            Foram dele, de facto, os dois primeiros álbuns dos Floyd (The Piper At The Gates of Dawn e A Saucerful of Secrets), e foi ainda debaixo da influência psicadélica e ácida da sua música que foram compostos, já em 1969, os seguintes More e Ummagumma. Todavia, no ano anterior, enquanto a banda se tornava cada vez mais popular, a vida de estrada, o consumo de LSD e a propensão para a depressão tinham transtornado rapidamente o comportamento de Barrett, cada vez mais estranho e incapaz de comunicar com os companheiros e com o público que se juntava para os ouvir. Os restantes membros da banda decidiram então não levar mais Syd consigo para os concertos, substituindo-o por David Gilmour, principal responsável pela sonoridade açucarada de lead guitar que os Pink Floyd adotaram a partir dessa altura e que para as multidões se tornou aquela que reconhecem. Quanto a Syd, ainda editará em 1970 dois interessantes álbuns a solo (The Madcap Laughs e Barrett), afundando-se depois, apesar de pontualmente recordado por alguns dos sobreviventes da época, numa vida de apagamento, reclusão e doença. Morreu em Julho de 2006. Poucas semanas antes fora visto a deambular sozinho pelas ruas próximas da sua casa em Cambridge.

            [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=LNbcbh2JH_I[/youtube]
              Apontamentos, Biografias, Memória, Música

              Lembrando Kurt

              Kurt Sanderling

              Sei que não saiu nas primeiras páginas nem se falou nos telejornais da morte a 18 de setembro, um dia antes de completar os 99, do maestro Kurt Sanderling (1912-2011). Alemão, nascido em Arys, hoje uma cidade polaca, judeu filho de judeus, fugiu dos nazis em 1936 e viveu cerca de trinta anos na União Soviética, onde após um estágio profissional em Novosibirsk, na Sibéria, veio a dirigir a Orquestra Sinfónica da Rádio Moscovo e a Filarmónica de Leninegrado. De regresso à Alemanha no início dos anos sessenta, foi maestro principal na Sinfónica de Berlim (a arquirrival da ocidental Filarmónica, de Karajan) e na Dresden Staatskapelle, mudando-se depois para Londres onde durante muitos anos dirigiu a Orchestra Philarmonia. Trabalhou também, mais episodicamente, nos Estados Unidos, no Japão, em Espanha e noutros países europeus, abandonando a profissão apenas aos 90 anos. Do património sonoro que nos deixou, um destaque para grandes interpretações de Beethoven, Brahms, Schumann, Mahler, Bruckner, Sibelius e Chostakovitch, tendo aliás sido amigo e confidente deste. Foi justamente graças a Sanderling que aprendi a gostar dos dois últimos, os grandes compositores do século XX que me ajudaram a olhar o Grande Norte e a Rússia soviética de uma maneira talvez menos incompleta. Terá sem dúvida sido por isso – e porque guardo ainda algumas gravações históricas – que a curta notícia do seu passamento não me passou despercebida. Nem me foi indiferente.

              Vídeo: 3º Andamento da Sinfonia No. 5 de Jean Sibelius. Com a Orquestra Sinfónica de Berlim em 1976.

              [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=fmEc8KL59FI[/youtube]
                Apontamentos, Artes, Biografias, Música

                Marcas geracionais

                Essa do «disco que marca uma geração» tem que se lhe diga. Como o próprio conceito de geração, que pode ser útil quando se olha o tempo de uma certa distância mas tem o inconveniente de fabricar generalizações, diluindo experiências singulares, caminhos que foram ínvios, vozes que fizeram o seu percurso em ziguezague. As referências que identificam a geração são, pois, flutuantes e de significado muito relativo, tendo só valor de referência. E muitas vezes a referência de uma geração representa algo de muito diferente para a seguinte. Um bom exemplo disto foi dado agora pela  evocação planetária, de forte teor nostálgico, do concerto ao vivo que resultou do reencontro de Paul Simon e Art Garfunkel no Central Park de Nova Iorque, ocorrido em 19 setembro de 1981. Lembro-me bem, muito bem mesmo, desse concerto, que vi pela televisão como tantos milhões de pessoas, para além das 500.000 que o viveram no local, e do enorme enfado que na altura me provocou. Nessa tarde a anoitecer, ouvindo versões um tanto espaventosas e já com um brilho algo artificial das canções sentimentais ou rebeldes que amara quinze anos antes – como «Mrs. Robinson», «America», «The Sounds of Silence» ou «50 Ways To Leave Your Lover» – percebi que a página de Simon and Garfunkel tinha sido voltada e que estava agora perante dois simpáticos vestígios dos bons velhos sixties. Que era melhor continuar a olhar à volta em vez de ficar paralisado a imaginar-me «Still Crazy After All These Years».

                S & G quinze anos antes, em 1966, quando interpretavam «I am a Rock» com outra energia:

                [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ealhxti03pk[/youtube]
                  Apontamentos, Memória, Música, Olhares

                  Vapor

                  [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=qmJdCpEPIWs[/youtube]

                  Reconheço poucas experiências percorridas pelas quais sinta efetiva nostalgia. Aborrece-me andar às voltas e reviravoltas com o meu próprio passado, tentando reaver o irrecuperável, reencontrar a memória dos que se dissolveram ou transformaram noutras pessoas. Uso-o apenas como depósito ou armário de bibelôs, aos quais faço visitas espaçadas e esquivas. Apesar de ter mais tempo de vida vivida do que aquele que pressinto pela frente, não me apetece repetir-lhe os passos. Acontece-me muito mais, isso sim, deixar-me seduzir por épocas que não conheci, por espaços que não habitei, atravessados por causas nas quais gostaria de ter acreditado e pelas quais teria até (é fácil dizê-lo agora) sido capaz de dar a vida. Regresso então a catedrais de arquitetura desconhecida e a pessoas que nunca vi mas julgo conhecer.

                  Existem, no entanto, exceções que procuro conservar. Uma das mais caras tem a ver com a memória persistente dos velhos comboios a vapor, nos quais, levado pelos adultos, ainda cheguei a viajar. Entre fumos e faúlhas, longos e obsidiantes silvos, intermináveis chiadeiras das engrenagens, cestos de vime com farnéis odoríferos, homens de chapéu e jaqueta espreitando das janelas da 3ª classe, matronas em traje dominical, longas e sonolentas esperas para o reabastecimento. Eram máquinas demasiado barulhentas que queimavam, sujavam, pintalgavam, poluíam, oscilando sobre carris estreitos e oleosos. Das quais sinto agora a falta porque me pareciam bonitas e inspiradoras. Porque me transportavam em inevitável devaneio, e ainda o fazem em reflexos, até um Faroeste infinito e a mil aventuras nas estepes da Ásia central.

                  Vídeo: Last Train Home (Railway Version), com o Pat Metheny Group.

                    Devaneios, Memória, Música, Olhares

                    Viver depressa, muito depressa

                    James Dean

                    A propósito da morte prematura de Amy Winehouse, um despacho da Agência France-Press veio falar-nos de um certo «clube 27». O dos «grandes mitos musicais do século passado» que morreram com esta idade, quando supostamente tanto havia ainda a esperar das suas vidas e do seu trabalho criativo. O despacho lembra alguns, os mais conhecidos: Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Kurt Cobain. É fatal, numa situação destas, evocar a deixa do actor John Derek em Knock on Any Door (O Crime Não Compensa), realizado em 1949 por Nicholas Ray: «Live fast, die young and leave a good-looking corpse». Pouco tempo depois Ray dirigiria James Dean em Rebel Without a Cause (Fúria de Viver, de 1955), onde paira a permanente vertigem da morte prematura, aparentemente sem sentido, e da linha ténue que a separa da vida. Como se cumprisse um destino, Dean morreria pouco tempo depois, aos 24, ao volante do carro com o qual contava participar numa corrida em Salinas. Em qualquer caso, um elo parece unir o trajecto de um conjunto de pessoas que desapareceram naquela altura da vida em que todos ainda nos cremos imortais, circulando sem olhar para o lado no limite do possível e sobre o fio da navalha. A daquelas ou de tantas outras, mais ou menos anónimas, que todos os dias aparecem pelos piores motivos nas páginas dos jornais. Não valerá a pena proclamar princípios de moral comum a propósito das «vidas perdidas» e dos exageros – de álcool, droga, noitadas, sexo, velocidade – daqueles que pagaram por eles o mais alto dos preços. Talvez acreditassem que viver era apenas aquilo, que mais nada valia realmente a pena. Como também não me parece que devam ser transformados em modelo apenas por recusarem os valores da moderação ou da mediania. Podemos talvez conjecturar, com alguma crueza e mórbido egoísmo, sobre como seriam hoje Morrison ou Janis aos 68, o que restaria do seu legado acumulado ao fim de todos estes anos, e se para nós – não para os seus pais, os seus amigos, que sofreram a perda – não terá sido preferível que as coisas se tenham passado daquela triste maneira.

                      Cinema, Música, Olhares

                      A música, o silêncio

                      silence

                      Benjamin, ele de novo, lembrou a distância, ou mesmo o conflito, que ocorre entre a obra de arte criada manualmente, envolta nessa aura que associou a um fulgor etéreo, imaterial, advindo da sua existência única, e aquela outra, vulgarizada, afastada da dimensão do sagrado porque sujeita a um processo de «reprodutibilidade técnica», de multiplicação mecânica, como aquela projectada, no seu tempo, principalmente pelo cinema e pela fotografia. O recuo da dimensão ritualizada da obra de arte, ou, se se preferir, a reconsideração do próprio conceito de aura, não possuíam contudo, para o filósofo, uma dimensão necessariamente negativa, como expressão de uma qualquer decadência, definindo antes a entrada num universo de tipo novo, mais preenchido e ruidoso, no qual se vai perdendo esse instante singular em que a obra de arte emerge do silêncio e apenas dialoga com o interlocutor privilegiado. Este jogo de oposições e proximidades entre o silêncio criador, acessível a uns quantos, e um ruído que aproxima a criação das pessoas comuns, põe-se de uma forma particularmente aguda no contexto actual de multiplicação da música gravada escutada em estado de solidão.
                      (mais…)

                        Música, Olhares

                        70 (Don’t Look Back)

                        Bob Dylan

                        Vamos lá a uma cena um bocado retro. O ano era 1968, com toda a certeza. Do mês não me recordo bem, mas sei que tinha faltado às aulas para ir à matinée. Como já estava um bocado de calor, podemos supor que era Maio. Soa bem contar que isto aconteceu, e provavelmente aconteceu, no final de uma tarde de Maio. De 68. Um casal de namorados, que se tinha sentado umas filas à frente, não aguentara as desafinações de Bob Dylan em Don’t Look Back e fora-se embora a resmungar em surdina. O projeccionista escondia-se no seu cubículo, protegido pelo foco de luz. O arrumador desaparecera. E enquanto em Paris se erguiam barricadas e se marchava pelas ruas aos gritos – «Ce-n’est-q’un-début-continuons-le-combat!» –, fiquei absolutamente só, espectador único na sala escura de um cinema de província malcheiroso e desconfortável, a imaginar mundos possíveis. No Verão, estava decidido, iria estoirar as economias a comprar uma guitarra e uma harmónica. E mudaria de vida. Eu tinha quinze anos e Robert Allen Zimmerman, o rapaz do ecrã, raios o partam, deus o abençoe, faz hoje 70.

                        [youtube]http://www.youtube.com/watch?v=VY4HtQ-XJQE[/youtube]
                          Memória, Música, Olhares

                          Amanhã vai ser outro dia

                          São quase três da manhã a 13º Celsius, o prédio está em silêncio e da minha varanda não se vê ninguém. Aqueço a sensação de que ninguém me lê, ninguém me escuta, posso escrever aquilo que me apetecer na direcção de Saturno. Faço então as contas à contradição na qual me vejo embrulhado. Num momento em que me sentia amaciar, tendendo, quanto mais não fosse por recomendação dos licenciados, para a moderação da vida burguesa, eis que a realidade não deixa. Neste país de democracia suspensa e futuro encostado à parede, estou condenado, como tantos outros mortais – sabe-se lá o que pode a imaginação fazer à pobre realidade –, a radicalizar-me de novo. Temo pelos perigos desta radicalidade nova, construída sem projecto de futuro, sem caminho à vista e voz audível na qual seja possível confiar. No horizonte dos que resistem não se encontram agora cidades maravilhosas, lideres inspiradores, miragens de futuros perfeitos e inevitáveis. Talvez reste apenas a possibilidade longínqua de um recomeço, de um estado de esperança capaz de partir outra vez do quilómetro zero a caminho de uma Nova Califórnia. Irá doer e demorará, sem dúvida, correr-se-ão os tais riscos, mas há-de partir porque o mundo não vai acabar aqui. E não será por serem agora três da manhã, por não se ouvir sequer o motor de um carro rasgando a chuva ou o latido distante de um rafeiro, que acredito menos nisso.

                            Atualidade, Devaneios, Música, Olhares

                            Música e R E V O L U Ç Ã O

                            volume

                            Uma amiga criou no Facebook um grupo aberto chamado (Banda Sonora para) Uma R E V O L U Ç Ã O – assim mesmo, com espaço, para deixar a palavra respirar melhor – e inscreveu-me como membro. Ao contrário de Julius «Groucho» Henry, o meu Marx favorito, não tenho problemas em que me inscrevam como sócio de um grupo que me queira como tal, e por isso deixei-me ficar. Ocorreu ao final da tarde deste domingo, e poucos minutos depois a respectiva página continha dezenas de clips de canções de alguma forma conotadas com formas de intervenção cívica mediadas pela música popular. Poucas horas passadas, eram já centenas, com uma aparente tendência para o crescimento exponencial. Misturam-se os estilos, as línguas, as intenções, os slogans, os recados poéticos, pedaços de agitprop chegados de diferentes tempos, tudo unido pela ideia-fixa de que «a cantiga é uma arma». Combinam-se também os participantes, pessoas muito diferentes, de distintas gerações, percursos discordantes ou mesmo divergentes, perfis que por vezes parecem afastá-las. Mas é por isso mesmo, por causa desta diversidade, aproximada apenas por esse enorme sombreiro maternal que se chama (ainda) Esquerda, que não deixa de impressionar a coincidência de sensibilidades, de gostos e de memórias. Mesmo sem se simpatizar com a unidade à força – pessoalmente prefiro a ideia de proximidade na acção, que aceita e valoriza a diferença – dá para perceber de que forma, afinal, tantas vezes zangados dentro do seu próprio casulo sectário, tantos/as partilharam e continuam a partilhar devaneios semelhantes, indignações contíguas, um património musical, talvez uma noção imaterial de R E V O L U Ç Ã O, a ele unida, construída colectivamente como uma necessidade.  Se isto leva a alguma coisa, isso não sei. É assim e tenho a impressão que ainda bem.

                              Atualidade, Música, Olhares

                              As musas também morrem

                              Freewheelin'

                              Aos 67, Suze Rotolo morreu ontem em Nova Iorque. Copio e colo a partir do Irish Times: «A long-haired 19-year-old strolling down a snow-covered Greenwich Village street on the arm of a 21-year-old folk singer whose words and music would shortly be affecting the world view of a generation.» A namoradinha de Dylan que o acompanha na capa do segundo álbum The Freewheelin’Bob Dylan, de 1963. O de Blowin’ in the Wind e de A Hard Rain’s a-Gonna Fall. Era Suze uma simples figurante, uma groupie ou coisa assim? Longe disso: «During their time together, Rotolo became much more than a passive muse. Thoroughly familiar with the left-wing Greenwich Village scene and already active in the civil rights movement, she acted as a cultural guide to Dylan. He had arrived in New York a few months earlier from rural Minnesota with a head full of Jack Kerouac, Woody Guthrie and Robert Johnson. She introduced him to the work of Paul Cezanne and Wassily Kandinsky, Bertolt Brecht and Antonin Artaud, Paul Verlaine and Arthur Rimbaud. Together they went to see Picasso’s Guernica and François Truffaut’s Shoot the Pianist. After she told him the story of a 14-year-old African American boy who had been brutally murdered in Mississippi in 1955, he wrote The Ballad of Emmett Till, one of his early broadsides against injustice.» As musas afinal também morrem.

                                Apontamentos, Memória, Música

                                Da casa do sol nascente

                                95 em cada 100 cidadãos que alguma vez aprenderam, ou tentaram aprender, a tocar guitarra, passaram pelo dedilhar quase imóvel de The House of the Rising Sun. O tema gravado pela primeira vez em 1933, por Clarence e Gwen Foster, que Eric Burdon and The Animals popularizaram em 64 (já que em 61 a gravação de Dylan fora um valente fiasco). No que me toca, de tal maneira me dediquei ao treino que a canção «animal» se me tornou um bocado irrespirável. Pois acabo de receber da fonte, com um pedido de divulgação, uma nova versão dos velhos acordes. A banda hispano-franco-argentina Mégaphone ou la Mort a levar-nos de volta à velha casa do sol nascente.

                                Frequentadores habituais d’A Terceira Noite têm-se queixado de falta de música. Com toda a razão. Fica pois a promessa de melhoras. Mas entretanto não se esqueçam de ir ao menu e de clicarem em VÍDEO.

                                  Etc., Música

                                  Isto quer dizer alguma coisa

                                  Deolinda

                                  Provavelmente estará tudo dito sobre «Parva que sou», dos Deolinda. Pró, contra e assim-assim. Eu sou pró porque há muita coisa contra a qual é preciso estar. Quem já não é, ou jamais foi, capaz de pensar as dinâmicas do protesto, ou de se indignar com o que vai mal e proclamá-lo sem rodeios, inventa argumentos para desqualificar a canção. Diz que «Parva que sou» tem uma estrutura pobre, simples, sem arranjos elaborados, por exemplo. Ah, pois tem, claro que tem, mas é aí que está em parte a origem da sua pujança e da exaltação que tem despertado. A arte pode ser complexa e ter uma dimensão subversora, como toda a gente sabe, mas em democracia uma canção de intervenção, que é aquilo que esta é, tem necessariamente de ser assim simples, límpida, «dizendo coisas» preto no branco como as diz um panfleto. Não pode ser murmurada. Precisa ser directa para agitar. Diz-se também, por exemplo, que é demagógica quando declara que «para ser escravo é preciso estudar». Como se isto traduzisse um apelo ao menosprezo do valor social do ensino. Só quem já não tem pinga de capacidade para perceber os caminhos da insegurança, ou vive fechado no seu mundinho tutelado, é incapaz de entender aquilo de mau que passa pela cabeça de quem entra nas universidades com o futuro já adiado sine die e o trabalho precário ou o desemprego no horizonte. Não estive no Coliseu do Porto e só ouvi «Parva que sou» através do YouTube. Mas há muito que não pressentia por cá uma cumplicidade tão grande entre a palavra cantada, o público que a envolve, e o mundo agitado e injusto que os aguarda lá fora. De certeza que isto quer dizer alguma coisa.

                                    Atualidade, Música, Olhares