Arquivo de Categorias: Apontamentos

Não, não será a mesma coisa

Quando no dia 6 coloquei a cruz no boletim, votei no partido político do qual me vejo mais próximo, mas, tal como muitos milhares de eleitores, subscrevi também a «Geringonça», no que isto significa de adesão a uma solução razoável capaz de construir consensos à esquerda, de assegurar alguma estabilidade política e de manter a direita acantonada. Se tomei o gesto como a assinatura de um contrato, deverão, no entanto, ter-me escapado as letras miúdas, pois nada parecia levar a que o resultado final do processo fosse aquele agora anunciado.

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    Apontamentos, Atualidade, Etc., Opinião

    Gaguez, racismo e preconceito

    Já durante a campanha eleitoral, mas sobretudo após a eleição da Joacine Katar Moreira, deputada do Livre, tenho deparado, nas redes sociais e também em jornais, com os comentários e as opiniões mais negativos, em tonalidades várias de estupidez, de ignorância e até de agressividade. Mesmo quando proclamam que o não são, e que estão «apenas a fazer um reparo». Alguns deles provindos até de pessoas por quem tinha – este espaço serve também para reconsiderar certas impressões – alguma consideração política e/ou pessoal. Tudo a propósito da gaguez da Joacine Moreira, sendo, no entanto, óbvio que esta é apenas um pretexto para a exibição de preconceitos vários.

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      Apontamentos, Democracia, Opinião

      «Apenas a verdade…»

      Poderia ficar calado sobre este assunto? Sim, claro que poderia. E virá aquilo que vou escrever ajudar a resolver alguma coisa? É claro que não, nada. Implicará o parágrafo abaixo um assacar de «culpas» seja a quem for? Também não, a realidade é o que é, nada mais. Move-me apenas o contrariar da camuflagem da verdade e da reescrita da história que está a ser feita. Talvez seja uma mania de historiador. O assunto: o apoio do Bloco de Esquerda e do PCP ao governo do PS que agora cessa funções. Porque aquilo que aconteceu não foi bem o que está a ser contado como aquilo que aconteceu. Em parte por iniciativa de António Costa, na fase mais agreste da campanha eleitoral, mas também por pessoas que acompanharam mecanicamente as suas palavras. Não falo de cor, ou por uma impressão, mas atendendo a factos e a informações pessoais que me deixam contrariar essa reescrita.

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        Apontamentos, Atualidade, Opinião

        Sempre muitos, a vida toda

        Seremos nós capazes de ser coerentes a vida toda, ou pelo menos desde muito cedo? Sim e não. É verdade que, estruturalmente, existem traços de nós, aos oitenta, que já construíamos aos oito. Mas ninguém é coerente o tempo todo, por muito que procure dar essa ideia. Como parece acontecer em autobiografias ou biografias encomendadas, por exemplo. Os livros que alimentaram o culto da personalidade dos ditadores tentaram fazê-lo também, embora com o sucesso que se sabe. Na Coreia do Norte o percurso e caráter dos líderes estavam escritos antes até de estes serem concebidos. É também isso que se faz em certos trabalhos académicos, apostados em demonstrar a coerência do autor, da sua vida e da sua obra, bem como a da forma como este as «planeou». Até Marx e Lenine, ao contrário do que já foi escrito, se foram fazendo e contradizendo. E Jesus (Cristo, não confundamos), de igual modo. Ninguém é «isto» ou «aquilo», «assim» ou «assado», a vida toda e para todo o sempre. E mesmo após morrer se pode ir descobrindo que «não era bem o que parecia». Somos é poços de contradições, essa é que é essa. Embora nem todos/as valhamos a mesma coisa.

          Apontamentos, Olhares

          A opinião e os burros

          Publicadas em jornais, blogues ou redes sociais, as crónicas de opinião – tenham a forma de curtos artigos ou de breves notas – são sempre escritas de forma rápida e circunstancial, ao sabor dos acontecimentos ou dos acasos, bem como das impressões por estes causadas nos seus autores. Isto confere-lhes inevitavelmente uma forte margem de transitoriedade, incerteza e imprecisão. São também muitas vezes experimentais, sem tempo para amadurecimento e revisão. No entanto, quem as escreve sabe como são acusadas de tudo: de parcialidade, incompletude ou ligeireza, sendo ainda habitual que os seus autores vejam o que exprimem interpretado muitas vezes de forma abusiva, confundindo-se a parte com o todo e tomando-se como definitivo aquilo que jamais o pretendeu ser.

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            Apontamentos, Olhares, Opinião

            Um revolucionário e a sua consciência

            «Sinto muita vezes que sufoco no interior de um magnífico deserto», escreveu Victor Serge (1890-1947) a partir do exílio no México. Serge, bolchevique internacionalista desde a primeira hora, vivia essa impressão na dupla condição de opositor a Estaline e também ao comodismo dominante na comunidade de exilados que se lhe opunham. Num apontamento de 1943 falava da «cobardia dos intelectuais» – ele, toda a vida um intelectual – e do maior interesse de muitos destes pelas questões teóricas, pelo puro diletantismo, em detrimento do combate diário. Considerava a política como «feita essencialmente de pessoas, não de análises», propondo até ao fim uma atitude de compromisso e iniciativa radicada na melhor tradição bolchevique. Aquela que Estaline destruiu três vezes: primeiro pelo golpismo interno, depois pela violência e pelo medo, por fim pela desmobilização de boa parte dos que se lhe haviam oposto e Serge considerava «desertores». Para ele, todavia, a desistência era impensável, ainda que a sua vida de revolucionário passasse agora pelo «deserto» que referiu, «magnífico» porque feito, contra todas as adversidades e fugas, de convicção e empenho.

            Na fotografia: Victor Serge, o poeta dadaísta Benjamin Péret, a pintora surrealista Remedios Varo e André Breton, que Serge considerava o típico diletante (França, 1941)
            A partir da recente edição crítica de «Notebooks: 1936-1947», de Victor Serge, e de uma nota de leitura de Alex Press
              Apontamentos, Democracia, Etc., História

              Inventores de passados

              Isto de ter memória, e também alguma biografia, transporta consigo momentos contraditórios. No que me toca, e sem qualquer pulsão nostálgica, a maioria é o que foi. Coisas que se aprenderam e viveram, exaltações e angústias, dores e amores, conhecimento e esquecimento, experiência do mundo e dos que o foram povoando. E datas, muitas datas. Mas de um passado que é meu, não de um inventado à medida. De vez em quando, todavia, reparo em pessoas que criam um novinho em folha. Que se dizem, por exemplo, «antifascistas com provas dadas», quando antes de Abril eram conformistas, filhos de papai ou andavam ainda na primária, por exemplo. De vez em quando aparecem-me pela frente, sem se darem conta que vivi aquilo que de facto não viveram. E que sei fazer contas. (Mas relaxem, pois jamais escreverei um livro de memórias.)

                Apontamentos, Olhares

                Falta de conhecimento e ausência de norte

                Tenho uma convicção reforçada a cada dia: a de que as grandes conquistas políticas e sociais apenas são irreversíveis, e têm condições de antecipar outras que as irão ampliar, se não dependerem apenas de interesses e acordos conjunturais. Isto é, se forem articuladas com uma consciência coletiva, de ordem histórica e cultural, da sua necessidade e da sua justeza. A partir da Revolução Francesa, os princípios emancipatórios da igualdade perante a lei, do valor da liberdade individual, da fraternidade como elemento edificador do Estado-Providência, da justiça social e dos direitos humanos puderam vingar – apesar da linha irregular de avanços e recuos – porque estiveram presentes no combate de ideias e em grande número de obras literárias e artísticas. Foram estes que estruturam em boa parte do mundo as convicções, as expetativas, o gosto e a noção de humanidade pelos quais tantos se bateram ao longo de gerações, oferecendo coesão e fundamento subjetivo a essa luta.

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                  Apontamentos, Democracia, Olhares, Opinião

                  As europeias «não servem para nada»?

                  Esta campanha para o Parlamento Europeu não tem sido em Portugal muito diferente das anteriores, no que respeita a mostrar-se pouco mobilizadora. Em parte porque, dado o calendário eleitoral deste ano, serve como uma sondagem sobre as próximas legislativas. Mas sobretudo porque para a maioria dos eleitores, mesmo para muitos dos que não se irão abster, «não servem para nada». Não partilho desta ideia, até porque a prestação dos deputados europeus não tem a irrelevância que muitos eleitores lhe atribuem, e tem sido bastante diferenciada, seja no sentido do seu trabalho concreto, seja nas escolhas políticas. Reconheço, no entanto, que no essencial quase todas as vozes e partidos presentes têm subvalorizado os problemas colocados à própria Europa. Na forma de se gerir a si mesma e de resolver os seus conflitos, mas também no modo de se relacionar com o resto do mundo: com as grandes potências – os EUA, a Rússia e a China – que a desqualificam todos os dias, e com os Estados e os povos que nela ainda vêem o paraíso. Mais uma oportunidade perdida para sentir «a Europa connosco» e para discuti-la na relação com o mundo em que vivemos.

                    Apontamentos, Opinião

                    Deus e Marx

                    Durante anos, de cada vez que na universidade iniciava a minha aula anual sobre o pensamento político e social de Karl Marx usava uma piada que me parecia ter algum sucesso: afirmava ir falar «daquele senhor de barbas muito parecido com Deus». Tinha na cabeça, é claro, a conhecida imagem da criação da Luz que Gustav Doré desenhou para a versão da Bíblia editada em 1843 que encheu de sagrado e de temor parte da minha infância. Só muito mais tarde lhe associei os acordes magníficos de Haydn que na oratória A Criação acompanham a exclamação «Und es war LICHT!», «E fez-se LUZ!». Suspeito, no entanto, que nem no sentido inverso posso agora repetir a brincadeira, pois quase ninguém possui uma imagem fixa de Deus e a Marx – mesmo com o auxílio da famosa fotografia de estúdio tirada em Londres no ano de 1875 por John Mayal – poucos identificariam se com ele chocassem numa viela escura. O jogo inicial tornou-se puro nonsense, mas melhores dias virão.

                      Apontamentos, Devaneios, Olhares

                      Dos ativismos cegos

                      Os ativismos, de rua ou não, são indispensáveis para a transformação efetiva da realidade concreta e para o avanço das causas. Sem eles pouco muda, porque tudo é diferido. Sem eles, as maiorias fecham-se no comodismo e muitas pessoas apenas nas boas-intenções. Todavia, não são bons «em si». No plano da luta concreta, uma barricada, uma greve, um meeting, um desfile não valem pela forma que tomam, mas por quem envolvem, pelo modo como se organizam, pelos objetivos que definem, pela capacidade que têm para se articular com outras formas de organização e luta dos múltiplos movimentos sociais. Extasiar-se pelo movimento dos «coletes amarelos» em França, como já por aqui vi, só porque este invoca algumas reivindicações aparentemente justas, e ergue barricadas, queima caixotes do lixo, vira automóveis e parte vitrinas – até a Galeria Jeu de Paume, de grande simbolismo histórico e artístico, foi atacada -, esquecendo ao mesmo tempo que em larga medida integram setores de extrema-direita e definem alguns interesses obscuros, é atitude marcada por uma perigosa cegueira.

                        Apontamentos, Atualidade, Democracia

                        Uma infeliz tourada

                        A posição do PCP sobre as touradas, juntando-se à direita para aprovar a descida do IVA das corridas para 6% terá as suas legítimas razões. O PCP tem sempre as suas legítimas razões, muito bem explicadas a quem delas discorda, fazendo-o quase sempre num tom defensivo e moralista perante a discordância, como se quem não as aceita ou entende, mesmo estando na área da esquerda e do socialismo, seja cego perante a luz da evidência ou cometa o pecado mortal do «anticomunismo». Quando as suas razões não são política ou eticamente explicáveis de um modo fácil, serve-se com frequência da demagogia, da manipulação da informação e, muitas vezes, de um recorrente legalismo, incompreensível num partido que, na essência, se propõe promover por todos os meios, incluindo os mais ousados, uma sociedade melhor e mais justa.

                        Neste caso, como em casos recentes de declarada concessão a posições conservadoras – ainda há pouco aconteceu, por exemplo, com a rejeição da eutanásia -, parece tudo bastante simples. Trata-se aqui de uma concessão eleitoralista a setores sociais retrógrados que se inserem no seu potencial eleitorado, em particular nos distritos do Alentejo e do Ribatejo, e da influência cultural do seu nacionalismo nuclear, tendente, desde há longos anos, a recuperar certas tradições como fator identitário, «patriótico», do país e dos portugueses. O resto do que possa afirmar sobre o tema – ou do que possam dizer alguns dos seus, procurando justificar o inaceitável enquanto outros preferem discordar em silêncio, já que a expressão pública de divergências permanece tabu – será apenas um exercício de retórica. Fica mais este registo para memória futura. Sou dos que o lamentam, pois não sou anticomunista.

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                          Contra a vulgaridade

                          A par do avanço da ignorância determinado pelo culto do imediato e da desvalorização do conhecimento acumulado, ao qual é sobreposta a mera capacidade de gestão material, a disseminação da vulgaridade é um dos mais graves perigos que as democracias atualmente enfrentam. Permite que qualquer pessoa, mesmo a menos preparada e fiável, se torne popular e chegue ao poder, desde que seja capaz, a par das alianças de conveniência, de se projetar a nível mediático na pele do cidadão comum, «vulgar», no qual os outros vulgares, que constituem uma porção significativa dos eleitorados, se revêem como a um seu igual. Logo como alguém através do qual, da vulgaridade que com essa figura partilham, se sentem representados. Pode esta perceção conduzir-nos a uma atitude social elitista ou mesmo isolacionista? Pode. Mas está nas mãos de quem de tal tenha consciência lutar contra esta tendência. Participando de um combate político e cultural persistente que integre uma dimensão formativa, que eleve, que emancipe, e não que siga a fácil adequação, muitas vezes de natureza demagógica e eleitoralista, ao menor denominador comum.

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                            Maledicência e democracia

                            A depreciação gratuita e indiscriminada das pessoas que ocupam cargos políticos apenas por isso, muito comum nas redes sociais, é uma arma do populismo e arrasta consigo o fascismo. É fácil praticá-la, pois são muitos os governantes, deputados ou autarcas que em algum momento – por vezes, de forma sistemática – demonstraram desleixo, incompetência ou completa ausência de qualidades. Para além do envolvimento em situações de corrupção, abuso de poder ou práticas de autoritarismo. Podemos pegar em vinte, cem, duzentos casos, nos quais é fácil reconhecer essa situação, e depois generalizamos, proclamando que «eles», os políticos, «são todos iguais». Pode também usar-se um gesto, uma frase, uma escolha errada ou mais discutível de um deles, e depois aplicá-los a toda a sua atividade ou ao partido a que pertence. É essa a estratégia daqueles que, acima de tudo, procuram denegrir a democracia para melhor a combaterem, defendo como alternativa «salvadores» supostamente impolutos e caídos do céu.

                            Escondem-se desta forma as pessoas realmente convictas, honestas e dedicadas que ao longo dos anos ocupam inúmeros cargos políticos, afirmando-se, quanto muito, que são exceções. Na maioria das vezes, isto é mentira. Estou à vontade para o dizer porque conheço ou conheci pessoalmente centenas de uns e de outros – ministros, deputados, autarcas – e sei que a larga maioria deles merece reconhecimento pelo seu trabalho. Mesmo que saibamos que ao seu lado circulam escroques e oportunistas. Mesmo que de modo algum concordemos com as suas escolhas. Quase sempre assim acontece, aliás, no meu caso de cidadão hipercrítico. A democracia é imperfeita e multiforme, pode e deve melhorar muito, mas o seu completo oposto é apenas a arbitrariedade e a ditadura do mais forte, sem contraditório, sem escrutínio público. Neste tempo que cruzamos é também a afirmação do maior demagogo.

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                              Que falem os mudos

                              Toda a gente conhece o poema, erradamente atribuído a Brecht, que começa com o verso «primeiro levaram os comunistas». Já li versões, também elas assacadas ao «pobre BB», principiando com um «primeiro levaram os negros». Todavia, a versão mais conhecida – «Primeiro levaram os judeus, // mas não falei, por não ser judeu. // Depois, perseguiram os comunistas, // Nada disse então, por não ser comunista. (…)» – foi publicada em 1933 e é da autoria de Martin Niemöller, o pastor luterano alemão antinazi que um dia interpelou pessoalmente Hitler e por isso pagou elevado preço.

                              Existe ainda uma versão do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, erradamente atribuída a Vladimir Maiakovski: «Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. // E não dizemos nada.» Mas não importa a versão, uma vez que se trata, em qualquer dos casos, de um poema de combate, destinado a ser partilhado e a erguer-se contra o silêncio dos que tudo deixam passar porque não é nada com eles, dos que fecham os olhos porque pode ser que passe ao lado, até que um dia, como escreveu o poeta de Niterói, porque não dissemos nada, «já não podemos dizer nada».

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                                Charles et moi

                                Agora já posso escrever isto. O segundo disco de 45 rpm em vinil que comprei foi Love Me Do, dos Beatles, mas o primeiro foi Et Pourtant, de Charles Aznavour. Desde a pré-adolescência, a vida toda, sem abandonar os outros gostos, para mim «o» cantor dos amores démodés, perdidos, impossíveis, finitos, implacáveis, que foram tantas vezes aqueles que efabulei ou talvez tenha vivido. Ao longo de décadas, confesso, fui estranhamente pensando no que aconteceria no dia em que Charles morresse, como sentiria uma espécie de orfandade de alguém que não conheci, mas me ajudou tantas vezes a viver a vida. E fui construindo uma playlist improvável, destinada a esse momento, que trouxe sempre no bolso. Chegou a vez de a pôr a tocar só para mim.
                                [Publicado originalmente no Facebook]

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                                  Quatro meses do meu ano de 68

                                  Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural. (mais…)

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                                    8 de Março: mulheres e feminismos

                                    A ideia da criação do Dia Internacional da Mulher surgiu na viragem do século XIX para o seguinte, no contexto das lutas das mulheres por melhores condições de vida e trabalho, e pelo direito de voto. Em agosto de 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas que decorreu em Copenhague, Clara Zetkin propôs a instituição de uma celebração anual das lutas pelos direitos das trabalhadoras. Em 1921, numa reunião que teve lugar em Moscovo, a data de 8 de Março foi finalmente fixada por iniciativa da revolucionária bolchevique Alexandra Kollontai.  Em 1975 a ONU adotou a mesma data, hoje celebrada em quase todo o mundo. Porém, mesmo entre os que hoje reconhecem a sua importância existem atitudes equívocas. Destaco três:

                                    A primeira, a mais visível, consiste em transformar a data principalmente numa ocasião para o comércio, colocando muitos homens, na qualidade de consumidores, a despender dinheiro para oferecer prendas que representam muitas vezes a figuração simbólica da própria subalternidade das «homenageadas». Nada contra a oferta de flores, de roupa ou de tratamentos de beleza, obviamente, mas esta pode ser feita em qualquer altura e nada tem a ver com a luta pública das mulheres pelos seus direitos, antes configurando, como meras «homenagens às senhoras», uma essencialização do «eterno feminino», conferindo à «mulher» um papel passivo e ornamental que perpetua os fatores de discriminação e desigualdade. (mais…)

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