Arquivo de Categorias: Apontamentos

Falta de conhecimento e ausência de norte

Tenho uma convicção reforçada a cada dia: a de que as grandes conquistas políticas e sociais apenas são irreversíveis, e têm condições de antecipar outras que as irão ampliar, se não dependerem apenas de interesses e acordos conjunturais. Isto é, se forem articuladas com uma consciência coletiva, de ordem histórica e cultural, da sua necessidade e da sua justeza. A partir da Revolução Francesa, os princípios emancipatórios da igualdade perante a lei, do valor da liberdade individual, da fraternidade como elemento edificador do Estado-Providência, da justiça social e dos direitos humanos puderam vingar – apesar da linha irregular de avanços e recuos – porque estiveram presentes no combate de ideias e em grande número de obras literárias e artísticas. Foram estes que estruturam em boa parte do mundo as convicções, as expetativas, o gosto e a noção de humanidade pelos quais tantos se bateram ao longo de gerações, oferecendo coesão e fundamento subjetivo a essa luta.

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    As europeias «não servem para nada»?

    Esta campanha para o Parlamento Europeu não tem sido em Portugal muito diferente das anteriores, no que respeita a mostrar-se pouco mobilizadora. Em parte porque, dado o calendário eleitoral deste ano, serve como uma sondagem sobre as próximas legislativas. Mas sobretudo porque para a maioria dos eleitores, mesmo para muitos dos que não se irão abster, «não servem para nada». Não partilho desta ideia, até porque a prestação dos deputados europeus não tem a irrelevância que muitos eleitores lhe atribuem, e tem sido bastante diferenciada, seja no sentido do seu trabalho concreto, seja nas escolhas políticas. Reconheço, no entanto, que no essencial quase todas as vozes e partidos presentes têm subvalorizado os problemas colocados à própria Europa. Na forma de se gerir a si mesma e de resolver os seus conflitos, mas também no modo de se relacionar com o resto do mundo: com as grandes potências – os EUA, a Rússia e a China – que a desqualificam todos os dias, e com os Estados e os povos que nela ainda vêem o paraíso. Mais uma oportunidade perdida para sentir «a Europa connosco» e para discuti-la na relação com o mundo em que vivemos.

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      Deus e Marx

      Durante anos, de cada vez que na universidade iniciava a minha aula anual sobre o pensamento político e social de Karl Marx usava uma piada que me parecia ter algum sucesso: afirmava ir falar «daquele senhor de barbas muito parecido com Deus». Tinha na cabeça, é claro, a conhecida imagem da criação da Luz que Gustav Doré desenhou para a versão da Bíblia editada em 1843 que encheu de sagrado e de temor parte da minha infância. Só muito mais tarde lhe associei os acordes magníficos de Haydn que na oratória A Criação acompanham a exclamação «Und es war LICHT!», «E fez-se LUZ!». Suspeito, no entanto, que nem no sentido inverso posso agora repetir a brincadeira, pois quase ninguém possui uma imagem fixa de Deus e a Marx – mesmo com o auxílio da famosa fotografia de estúdio tirada em Londres no ano de 1875 por John Mayal – poucos identificariam se com ele chocassem numa viela escura. O jogo inicial tornou-se puro nonsense, mas melhores dias virão.

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        Dos ativismos cegos

        Os ativismos, de rua ou não, são indispensáveis para a transformação efetiva da realidade concreta e para o avanço das causas. Sem eles pouco muda, porque tudo é diferido. Sem eles, as maiorias fecham-se no comodismo e muitas pessoas apenas nas boas-intenções. Todavia, não são bons «em si». No plano da luta concreta, uma barricada, uma greve, um meeting, um desfile não valem pela forma que tomam, mas por quem envolvem, pelo modo como se organizam, pelos objetivos que definem, pela capacidade que têm para se articular com outras formas de organização e luta dos múltiplos movimentos sociais. Extasiar-se pelo movimento dos «coletes amarelos» em França, como já por aqui vi, só porque este invoca algumas reivindicações aparentemente justas, e ergue barricadas, queima caixotes do lixo, vira automóveis e parte vitrinas – até a Galeria Jeu de Paume, de grande simbolismo histórico e artístico, foi atacada -, esquecendo ao mesmo tempo que em larga medida integram setores de extrema-direita e definem alguns interesses obscuros, é atitude marcada por uma perigosa cegueira.

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          Uma infeliz tourada

          A posição do PCP sobre as touradas, juntando-se à direita para aprovar a descida do IVA das corridas para 6% terá as suas legítimas razões. O PCP tem sempre as suas legítimas razões, muito bem explicadas a quem delas discorda, fazendo-o quase sempre num tom defensivo e moralista perante a discordância, como se quem não as aceita ou entende, mesmo estando na área da esquerda e do socialismo, seja cego perante a luz da evidência ou cometa o pecado mortal do «anticomunismo». Quando as suas razões não são política ou eticamente explicáveis de um modo fácil, serve-se com frequência da demagogia, da manipulação da informação e, muitas vezes, de um recorrente legalismo, incompreensível num partido que, na essência, se propõe promover por todos os meios, incluindo os mais ousados, uma sociedade melhor e mais justa.

          Neste caso, como em casos recentes de declarada concessão a posições conservadoras – ainda há pouco aconteceu, por exemplo, com a rejeição da eutanásia -, parece tudo bastante simples. Trata-se aqui de uma concessão eleitoralista a setores sociais retrógrados que se inserem no seu potencial eleitorado, em particular nos distritos do Alentejo e do Ribatejo, e da influência cultural do seu nacionalismo nuclear, tendente, desde há longos anos, a recuperar certas tradições como fator identitário, «patriótico», do país e dos portugueses. O resto do que possa afirmar sobre o tema – ou do que possam dizer alguns dos seus, procurando justificar o inaceitável enquanto outros preferem discordar em silêncio, já que a expressão pública de divergências permanece tabu – será apenas um exercício de retórica. Fica mais este registo para memória futura. Sou dos que o lamentam, pois não sou anticomunista.

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            Contra a vulgaridade

            A par do avanço da ignorância determinado pelo culto do imediato e da desvalorização do conhecimento acumulado, ao qual é sobreposta a mera capacidade de gestão material, a disseminação da vulgaridade é um dos mais graves perigos que as democracias atualmente enfrentam. Permite que qualquer pessoa, mesmo a menos preparada e fiável, se torne popular e chegue ao poder, desde que seja capaz, a par das alianças de conveniência, de se projetar a nível mediático na pele do cidadão comum, «vulgar», no qual os outros vulgares, que constituem uma porção significativa dos eleitorados, se revêem como a um seu igual. Logo como alguém através do qual, da vulgaridade que com essa figura partilham, se sentem representados. Pode esta perceção conduzir-nos a uma atitude social elitista ou mesmo isolacionista? Pode. Mas está nas mãos de quem de tal tenha consciência lutar contra esta tendência. Participando de um combate político e cultural persistente que integre uma dimensão formativa, que eleve, que emancipe, e não que siga a fácil adequação, muitas vezes de natureza demagógica e eleitoralista, ao menor denominador comum.

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              Maledicência e democracia

              A depreciação gratuita e indiscriminada das pessoas que ocupam cargos políticos apenas por isso, muito comum nas redes sociais, é uma arma do populismo e arrasta consigo o fascismo. É fácil praticá-la, pois são muitos os governantes, deputados ou autarcas que em algum momento – por vezes, de forma sistemática – demonstraram desleixo, incompetência ou completa ausência de qualidades. Para além do envolvimento em situações de corrupção, abuso de poder ou práticas de autoritarismo. Podemos pegar em vinte, cem, duzentos casos, nos quais é fácil reconhecer essa situação, e depois generalizamos, proclamando que «eles», os políticos, «são todos iguais». Pode também usar-se um gesto, uma frase, uma escolha errada ou mais discutível de um deles, e depois aplicá-los a toda a sua atividade ou ao partido a que pertence. É essa a estratégia daqueles que, acima de tudo, procuram denegrir a democracia para melhor a combaterem, defendo como alternativa «salvadores» supostamente impolutos e caídos do céu.

              Escondem-se desta forma as pessoas realmente convictas, honestas e dedicadas que ao longo dos anos ocupam inúmeros cargos políticos, afirmando-se, quanto muito, que são exceções. Na maioria das vezes, isto é mentira. Estou à vontade para o dizer porque conheço ou conheci pessoalmente centenas de uns e de outros – ministros, deputados, autarcas – e sei que a larga maioria deles merece reconhecimento pelo seu trabalho. Mesmo que saibamos que ao seu lado circulam escroques e oportunistas. Mesmo que de modo algum concordemos com as suas escolhas. Quase sempre assim acontece, aliás, no meu caso de cidadão hipercrítico. A democracia é imperfeita e multiforme, pode e deve melhorar muito, mas o seu completo oposto é apenas a arbitrariedade e a ditadura do mais forte, sem contraditório, sem escrutínio público. Neste tempo que cruzamos é também a afirmação do maior demagogo.

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                Que falem os mudos

                Toda a gente conhece o poema, erradamente atribuído a Brecht, que começa com o verso «primeiro levaram os comunistas». Já li versões, também elas assacadas ao «pobre BB», principiando com um «primeiro levaram os negros». Todavia, a versão mais conhecida – «Primeiro levaram os judeus, // mas não falei, por não ser judeu. // Depois, perseguiram os comunistas, // Nada disse então, por não ser comunista. (…)» – foi publicada em 1933 e é da autoria de Martin Niemöller, o pastor luterano alemão antinazi que um dia interpelou pessoalmente Hitler e por isso pagou elevado preço.

                Existe ainda uma versão do poeta brasileiro Eduardo Alves da Costa, erradamente atribuída a Vladimir Maiakovski: «Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor do nosso jardim. // E não dizemos nada.» Mas não importa a versão, uma vez que se trata, em qualquer dos casos, de um poema de combate, destinado a ser partilhado e a erguer-se contra o silêncio dos que tudo deixam passar porque não é nada com eles, dos que fecham os olhos porque pode ser que passe ao lado, até que um dia, como escreveu o poeta de Niterói, porque não dissemos nada, «já não podemos dizer nada».

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                  Charles et moi

                  Agora já posso escrever isto. O segundo disco de 45 rpm em vinil que comprei foi Love Me Do, dos Beatles, mas o primeiro foi Et Pourtant, de Charles Aznavour. Desde a pré-adolescência, a vida toda, sem abandonar os outros gostos, para mim «o» cantor dos amores démodés, perdidos, impossíveis, finitos, implacáveis, que foram tantas vezes aqueles que efabulei ou talvez tenha vivido. Ao longo de décadas, confesso, fui estranhamente pensando no que aconteceria no dia em que Charles morresse, como sentiria uma espécie de orfandade de alguém que não conheci, mas me ajudou tantas vezes a viver a vida. E fui construindo uma playlist improvável, destinada a esse momento, que trouxe sempre no bolso. Chegou a vez de a pôr a tocar só para mim.
                  [Publicado originalmente no Facebook]

                    Apontamentos, Artes, Memória, Música

                    Quatro meses do meu ano de 68

                    Em 1968 o mundo inteiro aparentava mover-se mais depressa, ainda mais depressa. Tudo parecia estar a acontecer em Paris, em Praga, em Berlim, nos Estados Unidos, Brasil e México, envolvendo a União Soviética, Cuba, a China, o Vietname, na verdade o mundo inteiro. Combates de rua com a polícia antimotim, guerrilhas urbanas e rurais, surgimento e auge da contracultura, revoluções sucessivas nas artes, no romance, na filosofia, no cinema, na música, acompanhando a rápida expansão da indústria cultural. (mais…)

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                      8 de Março: mulheres e feminismos

                      A ideia da criação do Dia Internacional da Mulher surgiu na viragem do século XIX para o seguinte, no contexto das lutas das mulheres por melhores condições de vida e trabalho, e pelo direito de voto. Em agosto de 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas que decorreu em Copenhague, Clara Zetkin propôs a instituição de uma celebração anual das lutas pelos direitos das trabalhadoras. Em 1921, numa reunião que teve lugar em Moscovo, a data de 8 de Março foi finalmente fixada por iniciativa da revolucionária bolchevique Alexandra Kollontai.  Em 1975 a ONU adotou a mesma data, hoje celebrada em quase todo o mundo. Porém, mesmo entre os que hoje reconhecem a sua importância existem atitudes equívocas. Destaco três:

                      A primeira, a mais visível, consiste em transformar a data principalmente numa ocasião para o comércio, colocando muitos homens, na qualidade de consumidores, a despender dinheiro para oferecer prendas que representam muitas vezes a figuração simbólica da própria subalternidade das «homenageadas». Nada contra a oferta de flores, de roupa ou de tratamentos de beleza, obviamente, mas esta pode ser feita em qualquer altura e nada tem a ver com a luta pública das mulheres pelos seus direitos, antes configurando, como meras «homenagens às senhoras», uma essencialização do «eterno feminino», conferindo à «mulher» um papel passivo e ornamental que perpetua os fatores de discriminação e desigualdade. (mais…)

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                        Medo e liberdade

                        Amigos sinceros, combatentes, por vezes com provas dadas de militância em causas e momentos decisivos, algumas vezes em horas bem difíceis, quando foi preciso correr riscos e suportar as consequências da escolha, apesar de não aceitaram as proclamações daquele lado da esquerda que não se exime de defender «ditaduras justas», calam-se ou recuam demasiadas vezes na afirmação das suas posições. Por medo de consequências pessoais se o não fizerem. Por medo, repito. Não de serem presos ou silenciados, obviamente, pois vivemos em democracia, mas de serem incomodados, isolados ou, pior, confundidos com a direita, pois uma das estratégias dessa gente, com décadas de triste tradição, consiste precisamente em classificar tudo o que divirja dos seus dogmas de ser «objetivamente de direita». O que lhes peço é que persistam, que não temam, que não se verguem ao medo e ao silêncio. Que falem de forma tranquila mas assertiva, substantiva, sólida – mas também emotiva, quando for preciso – em nome da sua consciência, de uma justiça justa e do bem essencial da liberdade. Ser de esquerda também é, ou essencialmente é, isto.

                        Publicado originalmente no Facebook

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                          Empirismo e conhecimento

                          Quem se dedica profissionalmente a temas de história ou de ciência política que se ocupam do mundo contemporâneo sabe que tem, frequentes vezes, de escutar pessoas que acreditam, pelo facto de terem vivido determinado tempo, ou lido dois ou três livros sobre o tema, saber mais deles que aquelas que os estudam durante anos e conhecem trabalhos atualizados. É a lógica oca da «universidade da vida». Costumo contar este episódio: certa vez, depois de ter terminado a minha intervenção numa conferência sobre o movimento estudantil nos anos 60/70, veio ter comigo uma pessoa do público que me disse mais ou menos isto «gostei muito da sua intervenção, mas olhe, nada do que disse é verdade, porque eu estive lá e sei que não foi assim». A minha reação foi convidá-la para um café e explicar-lhe onde tinha ido buscar a dose de verdade documentada com a qual se confrontava a sua longínqua memória. No final deu-me razão e pediu desculpa. Disse-lhe que não tinha nada de pedir desculpa, pois não tinha a obrigação de saber aquilo que eu sabia por esforço próprio e dever de ofício.

                          Publicado originalmente no Facebook

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                            Hipocrisia e oportunismo

                            Não sendo mais-que-perfeito, tenho uma a atitude social que considero positiva. De início, provavelmente por atavismo. Depois por educação, escolha política e motivos de natureza ética. Consiste em tratar os outros sempre da mesma forma, independentemente da sua condição social ou lugar profissional. Tratar o rico e o pobre, o presidente da junta e o varredor, o general e o soldado, homens e mulheres, de modo idêntico, sempre o mais democrática possível. Procurando, salvo quando o interlocutor não age da mesma forma, fazê-lo de maneira afável e respeitosa. (mais…)

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                              Coimbra e os álbuns de retratos

                              Nos últimos anos costumo ver, sobretudo nas redes sociais, onde este estado de espírito mais facilmente se revela, a expressão precoce, por parte de muitos alunos da Universidade de Coimbra que frequentam o último ano da sua licenciatura, de declarações inflamadas sobre a «saudade» que já sentem da cidade e da vida que nela real ou ficticiamente levaram. Fazendo-o ainda que aqui contem prosseguir os estudos de pós-graduação. Estão a viver o seu «tempo» – hoje tão curto, por comparação com o dos antigos cursos de quatro ou cinco anos –, e já têm saudade dele. O que é, de certo modo, um contra-senso: agem como se a sua vida se encontrasse em suspenso, pois ainda não é o que será, mas já não é o que foi. Alguns arrastam este estado de espírito ao longo de todo o último ano letivo. (mais…)

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                                Quanto vale o localismo

                                Ao contrário do que declara o ditado, não existem males que vêm por bem. Uma coisa má não pode ser trocada por outra boa, pois são experiências diferentes que cada um guarda consigo em lugares também diversos da memória e da experiência. Mas, sim, é banal mas verdadeiro: é muitas vezes no meio do pior que emerge o que conseguimos mostrar de melhor, de mais generoso e de mais intensamente humano. (mais…)

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                                  Nós

                                  Nós é um romance distópico, da autoria do escritor russo Yevgeny Zamyatin (1884-1937), lançado em 1924 quando a revolução bolchevique vivia ainda a fase, que se seguiu de imediato ao termo da guerra civil entre vermelhos, brancos e verdes, em que a criatividade literária, artística e científica era estimulada pelo governo revolucionário. Mas a obra de Zamyatin – exilado em 1905 pelo czarismo, e mais tarde por Estaline, que a pedido de Gorky o deixou partir em 1931 para Paris, onde morreria na maior miséria – preludia já, com grande antecedência, distopias críticas dos sistemas assentes no pensamento único, na repressão de toda a divergência e na extensão do autoridade do Estado absolutamente a todas as esferas da vida, como o foram o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1938), e 1984, de George Orwell (1949). Em Nós ficciona-se, de facto, uma sociedade na qual todos vigiam todos, ao ponto de não restar espaço para a liberdade individual e para qualquer forma de crítica ou divergência. O «eu» desaparece então, esmagado pelo coletivo.

                                  Não quero fazer comparações excessivas. Vivemos felizmente numa sociedade democrática, onde, apesar da desigualdade no acesso à informação e ao poder, ninguém coage formalmente alguém a pensar ou a agir como os outros. Mas muitos meios de comunicação social têm vindo a disseminar sinais de um suposto unanimismo que evoca aquele universo opressivo. Num só dia escutei centenas de vezes, na comunicação social, referências a um «nós» que identificava os portugueses, todos eles, com os crentes de uma religião, os adeptos de um clube de futebol ou mesmo aqueles que gostam de uma canção ligeira. É claro que tais conjeturas não passam de generalizações abusivas. Mas são sinais da instalação de uma espécie de norma, tendente a desqualificar quem não pensa igual, não reza igual ou não gosta da mesma coisa, que tem vindo a ganhar curso. O comportamento de algumas pessoas, consciente ou inadvertidamente defensoras da norma, visível em particular nas redes sociais, atesta-o. O totalitarismo, hoje, não se funda necessariamente em regimes de um só partido, apoiados na persuasão ideológica, na censura e na polícia, nem em sistemas sociais que reagem caninamente às imposições dos mercados financeiros: a disseminação mediática da norma também o acalenta. Cuidado com isso.

                                  Ilustração de Clifford Harper

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                                    Erros e invenções

                                    Intervenho publicamente no campo da opinião desde há muito, com uns quantos textos ainda objeto de cortes sérios ou liminarmente proibidos por uma censura nada compreensiva, e por isso também há muitos anos aprendi que é de todo impossível controlar a forma irregular como, quem saia do seu recanto pessoal e decida escrever para os outros, pode ver lidas e interpretadas as palavras que utiliza. Não me refiro a meras opiniões – essas, sempre legítimas, quanto mais plurais e propagadas, tanto melhor – mas sim, insisto, às leituras e interpretações. Em muitos casos, trata-se de frases retiradas do contexto, ou mesmo deturpadas, que proclamam termos dito aquilo que jamais dissemos. Ainda pior, palavras abusivas que bastantes vezes colocam na nossa boca justamente o contrário do que pretendemos dizer. Ou então que resultam de uma leitura apenas parcial do que foi escrito. É um risco que corre quem escreve, mesmo quando se esforça na clareza, vinculado ao velho princípio segundo o qual quem anda à chuva acaba molhado. Não sendo por isso, todavia, que no inverno se tranca em casa. (mais…)

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