Era um senhor com um tom voz que vinha do passado e gravatas de nó minúsculo. Capaz de comentar um jogo declarando sem um piscar de olhos, para um país com quase quarenta por cento de analfabetos, que «os garbosos mancebos da Briosa executam com elevado pundonor, e quiçá a maior distinção, um futebol deveras estereotipado.» A frase encontrei-a ontem, copiada a lápis numa agenda de 1965.
Tal como todas as formas de poder são transitórias também o são o sistema de valores e o conjunto de códigos estéticos que as suportam. A prevista «imortalidade» das estátuas – talvez menos a dos edifícios, sempre recuperáveis com outras funcionalidades – acabará por defrontar um futuro que a irá contestar. O seu derrube consagra então, simbolicamente, os tempos da mudança. A Alemanha e a Itália do pós-guerra, o Portugal revolucionário, a Angola e o Moçambique da descolonização, os países do Leste europeu do período pós-queda do Muro, o Iraque after-Saddam, constituem, com as suas construções descaracterizadas pelos novos regimes e as suas estátuas apeadas e atiradas para lixeiras ou para museus privados, exemplos desse processo que permanecem razoavelmente nítidos na nossa memória. Aspecto igualmente acessório destes momentos de inversão são as mudanças bruscas, por vezes espectaculares, na toponímia local ou nas designações de países, cidades e regiões.
Se a Web possui uma alma ela encontra-se aqui, uma vez que pouco mais nela existe que não possa existir sob um outro formato. Tudo o restante é previsível e apenas torna mais fácil o acesso ao que poderia ser obtido de outra forma: edições electrónicas de jornais e revistas, entediantes frontdoors institucionais e empresariais, repositórios mudos de textos e imagens, catálogos de produtos rapidamente obsoletos, lojas onde tudo se compra e onde tudo se vende. Os blogues podem morrer – e vão morrer – mas com eles desaparecerá um mapa singular e uma língua irrepetível. Deles se dirá um dia que «a liberdade também passou por aqui».
[Último de um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
Seguindo a iniciativa Thinking Blogger Awards, Pedro Correia, do Corta-Fitas, elegeu A Terceira Noite entre um dos cinco blogues que o fazem pensar. Agora é a minha vez, se bem que, provavelmente, tenha de insistir em blogues que outros já apontaram. (Bom) sinal de que não fazem pensar apenas a mim. Como têm mesmo de ser apenas cinco, aqueles que neste momento mais me provocam são…
O Água Lisa, de João Tunes – a mostrar como é possível ser-se ser militantemente de esquerda sem se ser estrábico (muitas orelhas a arderem)
O Ana de Amsterdam, da Ana (simplesmente) – vá-se lá perceber porque me tenho amarrado a este blogue (e até refere ainda menos livros que o Ípsilon)
O Legendas & Etcaetera, de Carlos Sousa Almeida – desconcertante e jamais conformista (apesar do fundo de página em tom brouillard)*
O Da Literatura, de Eduardo Pitta (ocasionalmente com João Paulo Sousa) – escrito sempre com atenção, sem emendas, como se fosse para o papel A Natureza do Mal, de Luís Januário e André Bonirre – um pouco anárquico, desalinhado e nada distraído (com saudades da voz desaparecida da Sofia do Mal)
* Entretanto, o L&E migrou e ganhou um aspecto renovado. Menos brouillard portanto. [3/6/2007]
1. Nos sistemas de poder centrados na lógica dos aparelhos, esta tende a projectar para lugares de responsabilidade não aqueles (e aquelas) que são os melhores, mas aquelas (e aqueles) que melhor se movimentam por entre as suas complicadas engrenagens. Em Portugal a situação tem piorado na medida exacta em que o currículo político, em termos de filiação a causas, a convicções ou a programas, deixou de ser critério de valorização. Promove-se principalmente quem se movimenta melhor dentro dos organismos partidários e possua uma pequena «competência» adequada às funções. Se possuir alguma visibilidade mediática, tanto melhor.
2. Não existindo partido de poder inocente, o PS é, sem dúvida, aquele que melhor dá corpo a esta realidade. Existem no Partido Socialista lugares de responsabilidade intermédia sistematicamente atribuídos a gente incapaz de fundamentar politicamente o seu «socialismo», ou mesmo a sua formação democrática, e que por isso mesmo, fora das mais ou menos hábeis proclamações retóricas, jamais os levam em grande consideração. Com a agravante de, dada a origem social e a formação de muitos dos seus quadros, ser este o partido com mais condições para – ao lado da honestidade e da dedicação de muitos dos seus militantes – albergar o pior arrivismo e a mais abjecta arrogância. Os de gente que sobe porque precisa mesmo subir e que se apanhou a mandar de um momento para o outro. Depois dá no que dá.
3. Ainda ninguém foi capaz de explicar como é que a senhora directora soube da «insultuosa» frase do professor afastado. Existem no edifício da DREN microfones nas paredes? Ou será que a única pessoa que estava com o mesmo professor, e que este declarou ontem ser «um grande amigo», ouve vozes e fala sozinha? A delação também pode ser um critério de promoção pessoal. Vem nos livros. É feio, mas eles não se importam. It’s part of the game.
Escrito depois [25/5]: A coluna de Vasco Pulido Valente no Público de hoje refere-se também ao assunto. Nela se incorpora uma informação, diferente daquela dada de viva voz pelo professor visado, e que aponta para a existência de múltiplas testemunhas. Num caso ou no outro, o papel do denunciante é o mesmo. E o do sistema que o aceita também.
Dotadas de traços figurativos mais explícitos, as estátuas são monumentos que possuem uma dimensão simbólica vigorosa, podendo facilmente funcionar como «lição». Aí, é o grande vulto (o rei, o chefe militar, o político, o intelectual), ou então o operário em luta, o soldado desconhecido, a mulher heróica, a agregar um conjunto de sentidos propostos sob a forma de mensagens a reter.
Os imperadores romanos e os monarcas absolutos utilizaram o processo, mas foi o romantismo, ao valorizar o papel histórico da nação e do indivíduo, a criar as condições para um recurso sistemático a essa estratégia. Estimulando a criação dos museus e dos memoriais urbanos, tornou igualmente possível a recuperação da dimensão exemplar de determinados momentos do passado, colocando a nostalgia ao serviço da política.
Os regimes totalitários do século passado levaram muito longe esse esforço, utilizando o monumento na tentativa de propagar as metas e as imaginárias conquistas dos seus programas políticos, de traçar o perfil físico e comportamental do «homem novo», de reescrever de cima para baixo a própria história. As artes monumentais fascista e socialista definiram a sua centralidade pedagógica, tornando-a uma prioridade da iniciativa política.
Ainda o espectro do fundamentalismo antitabagista, pois um dado novo faz-me regressar ao tema. De acordo com um estudo divulgado hoje pela Comissão Europeia(*) e noticiado em publico.pt, 9 em cada 10 portugueses apoiam a proibição de fumar em espaços públicos fechados, com uma clara maioria (cerca de 91%) a defender que a interdição abranja restaurantes e bares, e um pouco menos (88%) a exigir que ela seja alargada a aeroportos, estações de metro e lojas. Muito acima da média europeia, segundo parece. O curioso é que o mesmo inquérito revela que os fumadores portugueses — um em cada quatro inquiridos (24%, quando na União a média é 32%) — são daqueles que mais fumam, já que a esmagadora maioria (97%) fá-lo todos os dias, e 38% fumam mesmo mais do que um maço de cigarros por dia (a média comunitária é de 26%). Conclusão lógica: ou uma grande parte dos portugueses prefere fumar em lavabos, vãos de escada, separadores das autoestradas, áreas arborizadas e jaulas do Zoológico, ou alguém andou a gozar os tarefeiros da TNS Euroteste. Não sei porquê, inclino-me mais para a segunda hipótese.
(*) Inquérito feito a 1.006 portugueses, num total de 28.584 cidadãos europeus.
Uma bela ideia a do El País: a de intimar intelectuais originários de certas cidades, no contexto da campanha para as eleições autárquicas que se encontra a decorrer em Espanha, a declararem que coisas fariam eles se por impossível hipótese fossem eleitos alcaides. Não se trata de pedir que emitam propostas «razoáveis», mas sim de permitir que assumam a dimensão programática do seu próprio devaneio. Eis três fragmentos do testemunho da escritora Josefina Aldecoa (preservados num castelhano que sempre nos soa convenientemente estranho e um pouco mágico):
«Si yo fuera alcaldesa de Santander, cerraria sus entradas y obligaria a entrar desde el mar. La Isla de Mouro seria nuestra frontera. Los barcos llegarían llenos de gente y un edicto marcaría que navegaran de noche, cuando su belleza te impacta para siempre y te sobrecoge.
Mi despacho (…) lo instalaría en el Marítimo, rodeada de cartógrafos y navegantes que deseñarían nuevas rutas oceánicas entre Santander y los puertos más lejanos; rutas comerciales y exóticas al estilo veneciano que llenarían de visitantes la ciudad.
(…) Me responsabilizaría de regalar un cuadro de Eduardon Sanz a cada santanderino que viviera fuera, para que tuviera un trozo de mar y no lo olvidara nunca.»
Margaret Thatcher gabava-se de dormir apenas quatro horas por noite. Charles Dickens só conseguia adormecer se o seu corpo estivesse precisamente no centro do colchão, pelo que executava demoradas medições para descobrir o sítio exacto onde se deveria deitar. Marylin Monroe precisava, como é sabido, de muitos comprimidos para fechar os olhos. E, de acordo com a lenda, Ióssif Vissarionovitch Djugashvili velava no seu gabinete pelo destino dos povos, enquanto todo o Kremlin dormia. A maior concentração de insones, porém, encontra-se aqui mesmo: de acordo com estudos recentes, afirmou na televisão a neurologista Teresa Paiva, o povo que menos dorme em todo o mundo é o português. O que explicará, entre outros traços comportamentais, uma crescente tendência para a soturnidade e a depressão. Afinal, sejamos justos, o culpado não é apenas o governo.
Informa o Diário Digital que um padre algarvio anunciou este domingo, na Igreja da Praia da Luz, «a realização de uma oração nacional pela menina britânica desaparecida há 17 dias.» De acordo com a mesma fonte, a Congregação das Irmãs Carmelitas, organizadora da iniciativa, terá entretanto enviado «um e-mail a todas as paróquias do País para se juntarem ao momento de prece.» Percebemos já que a cidadania britânica implica, neste país, formas de discriminação positiva no que respeita à agilidade observada pelos mecanismos de polícia e à atenção prestada pela comunicação social. Fica agora a saber-se que também a Igreja católica portuguesa decidiu abrir uma singular linha directa para tratar o assunto.
Adenda [21/5]: Todos os dias ocorre mais um lamentável episódio nesta infeliz história. Hoje foi a vez de «um minuto de silêncio e reflexão pela menina inglesa». As televisões mostram-no, em toda a silenciosa plenitude, nas filas formadas junto às caixas registadoras dos hipermercados algarvios. Não podemos saber para que servirá tal «reflexão», mas os familiares das muitas centenas de crianças portuguesas desaparecidas deverão tê-la sentido como uma afronta.
O historiador da arte austríaco Alois Riegl considerava o monumento uma obra criada pela mão humana com a finalidade de conservar presente, na consciência das gerações atuais e futuras, a lembrança de determinada acção ou de uma existência passada que se deseja conservar como modelo. Este objectivo enfrentou sempre condicionalismos vários. Desde logo, sendo obra de arte pública, o monumento é construído necessariamente por quem detém a autoridade política ou por um grupo que, mesmo não se encontrando no centro do poder, tem capacidade para impor determinadas formas de reconhecimento do passado. Afinal são quase sempre os vencedores e os fortes os responsáveis pelos monumentos que conhecemos, pois são eles quem detém capacidade para os erguer, para os preservar e, acima de tudo, para fazer repercutir um significado que lhes é colado. Os chamados «anti-monumentos», destinados a contrariar os que possuem uma origem oficial, e por este motivo dotados de uma intenção subversiva, assumem um papel não-consensual e geralmente efémero. Porém, nem por isso menos importante.
Acabei de ler Álvaro Cunhal e a dissidência da terceira via, de Raimundo Narciso, editado pela Ambar. O livro apresenta-se como narrativa pormenorizada de um episódio da trajectória pós-Abril do Partido Comunista Português. Começo por aquilo que nele me parece menos positivo. Retive, logo desde as primeiras páginas, a sensação de que este relato talvez merecesse ter sido publicado há mais tempo, contribuindo dessa forma para ampliar o combate político do qual o seu autor foi um dos protagonistas. Cerca de vinte anos depois dos acontecimentos aqui referidos, poderia também ser agora a altura para propor uma leitura interpretativa e historicamente contextualizada dos acontecimentos, o que aqui não foi feito. Além disso, perpassam por todo o volume vestígios de uma certa «língua de madeira», que nos fala ainda a partir de dentro do léxico comunista. E, como se sabe, o distanciamento crítico passa sempre pelo uso de uma linguagem diversa daquela utilizada no universo do objecto estudado. De qualquer forma, Raimundo Narciso incorpora no seu discurso um forte sentido da ironia, o qual tempera bastante a aridez.
O livro, sublinhe-se, é um testemunho notável, que permite reconhecer alguns dos meandros de um período importante da história interna dos comunistas portugueses. Uma história que, como sempre aconteceu, o aparelho do PCP se continua a esforçar por tornar opaca, repleta de silêncios e de silenciamentos, e de meias-verdades das quais será sempre prudente desconfiar um pouco e que a ninguém beneficiam. Ao longo destas duas centenas de páginas, que se lêem muito rapidamente, como quem lê uma boa reportagem, o leitor penetra num ambiente reconhecidamente «pesado», por vezes de cortar à faca, repleto de instantes de tensão e de desconfiança, vindos do interior de uma organização política que experimentava uma visível dificuldade em aceitar as regras de funcionamento dos partidos democráticos, e na qual a figura de Álvaro Cunhal se destacava ainda como árbitro e tutor, a um tempo inteligente e inflexível. A baixa intensidade de um efectivo debate político interno, essa apenas surpreenderá quem não conhecer a história dos partidos comunistas e a pesada herança leninista-estalinista do «centralismo democrático».
Dirão alguns que esta é apenas uma versão da história e que o seu autor, apesar da profusão de dados e de documentos que revela, estará, afinal, a contar as coisas à sua maneira. É verdade que todos os relatos de acontecimentos vividos pronunciados na primeira pessoa contêm algo de subjectivo e de parcial. Mas, neste caso, os críticos têm bom remédio: que contem então a sua própria versão e confrontem aquela que agora é tornada pública. Todos nós ganharíamos, pois ficaríamos assim a conhecer, de modo mais completo e mais complexo, um momento importante para a história da esquerda em Portugal. Nada acontecerá, muito provavelmente: o PCP já ultrapassou há muito a batalha da qual nos fala agora Raimundo Narciso e limitar-se-á a depreciá-la, enquanto parte dos seus actores vivem hoje outras vidas ou já cá não estão para contarem também como foi.
Adenda: Algumas úteis notas sobre este livro e as suas circunstâncias, escritas por João Tunes, podem ser encontradas aqui.
A blogosfera pode também ser um território selvagem, não isento de logros e de perigos. Uma floresta que apenas ecoa a complexidade da vida que a antecede e permanecerá depois dela se eclipsar para sempre. Em breve, porém, os blogues desaparecerão e serão substituídos por um qualquer outro utensílio que já se encontra algures a ser preparado. Que passará necessariamente pela simplificação e pela massificação de novíssimas e surpreendentes tecnologias. Mas nesta selva ou naquela que vier – como acontecia com Tarzan no seu mundo problemático – serão ainda os humanos, e não bestas, andróides ou forças obscuras, a controlarem os acontecimentos.
[De um conjunto de doze posts usados durante uma conversa sobre blogues que teve lugar na livraria Almedina-Estádio, Coimbra]
A discussão sobre o «fenómeno de Fátima» permanecerá para sempre inacabada. Parece que tudo já foi dito a propósito das circunstâncias nas quais emergiu, do significado teológico da sua mensagem, do comércio organizado à sua volta, da fé ou da superstição de quem ali ocorre em peregrinações salvíficas ou a pagamento de promessas. O padre Mário de Oliveira tem abordado o assunto com seriedade mas também alguns tiques de prosélito do contra. Fina d’Armada ou Moisés Espírito Santo, no passado, foram muito mais longe na especulação e no delírio «científico». E nesta altura parece difícil falar do assunto sem repetir argumentos e banalidades. Deixo, por isso, apenas dois apontamentos.
Um de indignação, em relação à forma como a maioria das televisões e dos jornais têm tratado o «prodígio», referindo-se aos acontecimentos de 1917 como «aparições» que abordam como a um indiscutível facto histórico. A RTP1, em horário nobre e com o nosso dinheiro, passa mesmo The Miracle of Our Lady of Fatima (1952), de John Brahm, «baseado em factos reais» e que confunde os camponeses portugueses com balcânicos campesinos e os nossos galhardos republicanos com perigosos comunistas, arqui-inimigos bigodudos e ajuramentados da Santa Fé e das inocentes criancinhas.
Um segundo apontamento sobre as pessoas que vi nas reportagens e que fui encontrando por estes dias ao ritmo da condução. Homens de boina xadrez, mulheres de lenço, muitos jovens também, às centenas, aos milhares, a comerem farnéis de broa e chouriço à beira das estradas nacionais (sim, que as auto-estradas, velozes e assépticas, não são para eles). Sentados à sombra de velhas camionetas, de destoante e assertoado colete reflector, parecem saídos do país dual, a preto e branco e marcado ainda por um catolicismo velho e tridentino, de há quarenta anos atrás. E nós que nos imaginávamos já a mais do que metade do caminho entre Marrocos e a Finlândia!