Uma «guerra de necessidade»

Talibans

O problema é antigo e não persiste apenas, agrava-se. Por muito que possamos continuar suspeitar dos contornos e dos objectivos da mediação americana do mundo, e principalmente das suas iniciativas militares «preventivas» – embora só os estrábicos possam insistir, como num mantra, em que, sob esse ou outros aspectos, «Obama é pior que Bush» –, não é possível defender o abandono puro e simples do Afeganistão sem que a esse abandono deixe de corresponder um perigoso agravamento dos desequilíbrios regionais e o retorno em força do regime despótico e medieval dos talibãs. Diz o presidente dos EUA, a propósito da intervenção militar em terras afegãs, que «esta não é uma guerra de escolha, é uma guerra de necessidade». Seremos bastante tontos se, pelo menos, não aceitarmos discutir este argumento.

    Atualidade, Democracia, Opinião

    O fim de um tempo?

    American Dream

    A Reader’s Digest encaminha-se para um processo de falência. A confirmar-se, esta representará para muitas pessoas, como aconteceria com o fecho da Coca-Cola ou o desaparecimento de Hollywood, o fim de uma era. Parte importante da percepção internacional da América, e até do modo como muitos americanos se vêem ainda hoje a si próprios, foram construídos tendo como suporte os artigos, crónicas, «piadas de caserna» e «episódios da vida real» condensados, a partir de 1922, na revista que tinha com lema «America in your pocket». As Selecções do Reader’s Digest serviram de instrumento da Guerra Fria e, provavelmente por isso, durante décadas circularam em Portugal sem problemas, primeiro na versão brasileira, iniciada em 1942, e a partir de 1971 em edição nacional. Em conjunto com A Bola e a Crónica Feminina, a revista Selecções chegou a ser um dos títulos com maior tiragem, com lugar certo em muitas casas portuguesas. Tem ainda uma tiragem mundial de 100 milhões de exemplares – é publicada em 19 línguas e em 48 diferentes versões –, mas entretanto deixou de interessar às famílias da classe média, que foram o seu público original, e é hoje uma publicação visivelmente anacrónica. Porque o mundo mudou muito, a América também e, apesar de alguns retoques de cosmética, as Selecções não mudaram quase nada.

      Atualidade, Etc., Memória

      Se nos calarmos por um momento

      Espelho partido

      Vivemos tempos difíceis para a rebeldia – sim, bem sei que a palavra vegeta démodée fora dos anúncios de marcas de refrigerantes –, sitiada por vozes insistindo em que «as coisas são como são». A audácia, lançada a contracorrente, que se desvia do imediato, é cada vez mais apontada como irrealista e suicidária. O impulso utópico é proscrito ou caricaturado. O rebelde – do latim rebellis, aquele «que começa a guerra», que recusa obedecer e se insurge – é depreciado, olhado como um vestígio do passado, herdeiro de uma subespécie hominídea que perfez o seu caminho mas se perdeu algures na cadeia da evolução. Bakunine e Nietzsche, Sade e Rimbaud, Camus e Beauvoir, mesmo Ghandi ou o Che, mortos, devem permanecer nas paredes, mas apenas como quadros de uma exposição. Os vivos, como Cohn-Bendit, Mandela ou o subcomandante Marcos, passam por troféus, quase inofensivos agora apesar da atitude desafiadora que um dia exibiram.

      Aceita-se apenas – melhor, define-se como arquétipo de uma «rebeldia mansa», domada, sem perigo para a ordem imperante – o pequeno gesto que excede por instantes os limites do conformismo, simulando uma força inexistente. Como exemplo, uma revista de actualidades entrevistava há alguns dias uma jovem actriz e destacava o seu «passado rebelde», quando nos anos 80, para alvoroço da pequena cidade de província onde crescera, «andava pela rua de saia e sapatos de ténis». Políticos profissionais recorrem a idêntica estratégia, procurando legitimar uma imagem de «personalidade forte» quando destacam a irrequietude de banalíssimos episódios biográficos do seu passado mais remoto. Entretanto, alguma esquerda invoca ainda uma «rebeldia teórica», condicionada pelo apego à ideologia envelhecida que a moldou ou a um modelo falido de sociedade. De acordo com esta perspectiva disforme, rebelde não será então o homem ou a mulher que luta pela liberdade individual, pelo direito à diferença, por uma sociedade desbloqueada, mas sim o polícia que zela sem descanso pela suprema «ordem revolucionária».

      Contrariamente, em A Política do Rebelde, Michel Onfray exalta a figura singular do rebelde, do verdadeiro rebelde, esse cujo génio sempre algo colérico o conduz, no encontro do seu percurso pessoal com a história humana, a um irreprimível desejo de confronto, a um impulso projectado para a superação dos limites. Com ele, sempre uma mesma recusa: a da ordem estabelecida, seja ela social ou cultural, percebida como uma ameaça e um obstáculo a ultrapassar. «Tudo aquilo que olhamos é falso», escrevia Tzara no Manifesto Dada de 1918. E em 1929, o brasileiro Oswald de Andrade constatava: «a falsa cultura, a falsa arte, a falsa moral, a falsa religião, tudo desaparecerá, mastigado por nós com a maior ferocidade». Sempre a recusa de uma gestão do presente «tal qual ele é» e a defesa da possibilidade do impossível.

      Para além da negação cruel do cenário imposto pela ditadura do real, o rebelde observa o futuro com lentes de aumentar, por entre corredores espelhados que projectam um efeito caleidoscópico. Exagera e distorce a perspectiva, claro, mas nos assuntos que se relacionam com a administração do real vivido e do real possível não existem meias-tintas: ou se é avisado, atinado, «realista», ou se é excessivo, ao mesmo tempo apolíneo e donisíaco, uma vez que Apolo e Dioniso, os dois deuses superiores da mais importante epifania délfica, parecendo opor-se, afinal se completavam. Ou se gere o mundo apenas à vista, mergulhado na banalidade e, mais cedo ou mais tarde, no desespero, ou se projecta o salto em frente, superando, por vezes na dimensão de um pathos incidental, a enganadora sombra. As «pessoas extraordinárias» – de Thomas Paine a Billie Holiday – das quais falava Eric Hobsbawm na conhecida obra homónima, pertencem a este segundo tipo. São aquelas que convivem com o ar do tempo, com o fragor mediático, mas não se limitam a servi-lo, reconhecendo corajosamente a existência de um eco maior, receptivo à transformação e à busca da felicidade, que pode ouvir-se no horizonte. Se nos calarmos todos por um momento, e prestarmos atenção, conseguiremos ouvi-lo. É bom fazê-lo de vez em quando, sobretudo agora que nos oferecem programas sem alternativa, buscando governar à vista, confinar à maneira de Haussmann, as nossas vidas.

        Democracia, Olhares, Opinião

        E eu que sempre quis uma Gibson-Les Paul

        Les Paul

        Aos 94 anos, morreu ontem o músico Les Paul, inventor da guitarra eléctrica e também um dos seus mais importantes fabricantes. Sem a iniciativa que tomou em 1941, quando pela primeira vez juntou um amplificador a uma guitarra de madeira, o mundo não seria aquele que conhecemos nos últimos sessenta anos. Em Rock’n’Roll Jews, Michael Billig lembra como o tom estridente da guitarra eléctrica, produzido a um ritmo intenso, rápido e sincopado, capaz de efeitos acústicos inusitados, passou a soar «de uma forma completamente diferente de qualquer coisa que a anterior geração tivesse ouvido». Enquanto aqueles que tinham atravessado os anos difíceis da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial preferiam ainda a música amena e romântica dos crooners, que induzia estados melancólicos e de acalmia, da uma natureza basicamente conformista, muitos dos seus filhos, crescendo em tempos de maior segurança e de expansão económica, mas também de recusa de uma perspectiva auto-satisfeita do mundo que herdaram, escolheram a sonoridade inesperada e rude, associada a um novo hedonismo e a novos modos de vida, que o jazz pós-bebop e sobretudo o rock and roll passaram a oferecer. Recorrendo à invenção de Paul. Aquele senhor que ainda há poucos meses continuava a tocar regularmente no Iridium Jazz Club de Nova Iorque.

          Apontamentos, Artes, Música

          Coimbra-Z

          Coimbra Z

          Está a correr no Facebook «Que tipo de estudante de Coimbra és?», um inquérito a merecer uns minutos de atenção e que pode servir de case study. Mais do que pelo resultado final que cada um dos inquiridos obtenha, importa seguir o tom tardo-castiço e o valor micro-sociológico das perguntas e das opções de resposta oferecidas. Para memória futura, como diria o tal.

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            Atualidade, Memória

            Os sem-pistolas

            Guardas-nocturnos

            O recente caso da bandeira alvi-anil hasteada na varanda do município de Lisboa coincide com a divulgação de uma queixa da Associação Nacional de Guardas-Nocturnos por aqueles que não possuírem arma própria se verem forçados a trabalhar munidos apenas de uma simples lanterna. Imaginemos pois o problema que seria observar um desses senhores já com uma certa idade, mais barriga que perna, mais vulto que corpo, a enfrentar à mão-desarmada a sanha monárquica dos moços do Darth Vader. E se ele tivesse a reivindicada arma da ordem, o que faria? Dispararia para o ar lançando o pânico na madrugada da Rua do Arsenal e prejudicando a campanha eleitoral de António Costa? Ou atiraria sobre os próprios pés, para não experimentar problemas de maior?

            Seguindo a Wikipédia, o guarda-nocturno é «um profissional que exerce a actividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período nocturno, auxiliando as forças de segurança e os serviços de protecção civil.» A actividade é antiga, tendo assumido um maior destaque urbano ao longo do século XIX, quando as cidades cresceram a um ritmo novo e a quietude da noite abalou para lugares ermos ou bairros despovoados. Em Portugal já foram milhares, mas hoje rondarão os 500, quase sempre em idade avançada, mal-equipados, sem grande treino, e até, temo, sem um enquadramento jurídico adequado. Lamento pela ANGN, mas se nem um homem dos seus, capaz de soprar o apito regulamentar para espantar os mariolas, se protegia do orvalho da noite sob as arcadas da varanda camarária, para que quer agora que a PSP lhes distribua pistolas? Ainda se fossem canhões…

              Apontamentos, Atualidade

              Nova havaneza

              Havaneza

              Vale a pena percorrer o Wallpaper City Guide de Havana, da colecção editada pelo diário i (mas que pode ser vendido isoladamente). Ignora de maneira olímpica os guias de viagem para cidadãos da classe média alvoroçados pela perspectiva de uns quantos dias com a cor do exotismo, e, claro, deixa em paz os desdobráveis oferecidos pelas embaixadas de Cuba. Percorre assim ruas e praças imutáveis, hotéis para turistas estrangeiros e alguns bares aprazíveis, duas ou três lojas e uns quantos edifícios públicos, sem cedências ao estereótipo do charme, à costumeira romantização da decadência, ao elogio militante da pobreza honrada, a uma épica refrescada a ventoinhas de pá. Mas também sem fazer a injustiça de negar o esforço suado do havanês comum para oferecer ao visitante o que de melhor consegue obter. Para viver uma vida complicada com o sorriso possível e um gingar de ancas, olhando sempre mais para o que foi, ou para o imediato, do que para aquilo que há-de vir. Nisto, o guia Wallpaper não difere muito dos ecos que nos vai legando a literatura cubana contemporânea. Como uma boa parte dela, oscilando entre o ritmo da vida pessoal e um horizonte colectivo imperscrutável: «Havana é hoje uma daquelas quinceañeras envergonhadas, uma adolescente à beira de se tornar mulher e de se ver livre de um pai autoritário.» Fica o desenho de uma cidade ritmada por um presente para gastar sem demoras já que o futuro está lotado de possíveis.

                Atualidade, Cidades, Olhares

                Memo achado no bolso do fato-de-banho

                Цивья со свим мужем Шимоном владели большим участком земи в Рамат аШароне. Они завещали его городу и в их честь на части этого участка разбит парк.

                Iuri Bradáček

                  Devaneios, Etc.

                  Lisboa com bandeira azul

                  Bandeira Azul

                  Uma mancheia de varonis mancebos «ligados ao blogue 31 da Armada», imbuídos de um compreensível e ilimitado bem-querer pela santa monarquia – pois tal coragem, por certo apenas a varonis mancebos é pela Padroeira outorgada –, trepou heroicamente até à varanda do Paços do Concelho de Lisboa e, com lídimo pundonor, hasteou no mastro da mesma um rectângulo de pano azul e branco. De acordo com os amigos dos jovens trigésimo-primeiristas (mas o que são «pessoas ligadas ao blogue 31 da Armada»? será o 31 da Armada uma ONG? uma seita? um bando? uma comandita?), o feito foi obtido apesar do pesado rumor das botifarras e das armas aperradas alardeado por essa «forte vigilância policial» que, como todos sabemos, percorre «a noite profunda» das nossas vilas e cidades para aterrorizar as famílias no seu honrado descanso. E para impedir que desde o mais insigne dos palácios ao humilde tugúrio do trabalhador estas afixem nos limiares das portas, tal como intimamente desejam, lindos azulejos com o brando semblante do Senhor Dom Duarte. Tais beneméritos da Pátria, a quem faltou apenas aquela Dona Aldegundes que não falhou a Paiva Couceiro – «é avante portugueses/é avante não temer», cantarão entrementes –, apenas podem ter a nossa compreensão. Sempre agitam mais este querido e tonto mês de Agosto que os blogues regimentais. Deus os guarde assim.

                    Atualidade, Devaneios, História

                    «Tá láa!…»

                    Raul Solnado

                    Nunca apreciei muito o humor de Raul Solnado. Algumas das razões desta desafectação percebem-se vendo ou revendo no YouTube pedaços dos seus anos dourados. Solnado fez rir gerações para as quais a levíssima insinuação da «malandrice» constituía um sinal de transgressão, a momice representava um corte num tempo pontuado por rigorosas máscaras, e o abuso do trocadilho perturbava uma fala pública ainda demasiado rígida, o que não foi pouco. Mas esse não era já o padrão de humor requerido por alguns dos da minha geração, e daí o inevitável distanciamento. Afinal também não ríamos com Fernandel, Totò ou Mario Moreno, o «Cantinflas». Recordo, no entanto, muitas pessoas que escutavam pela enésima vez os 45 rotações em vinil com a «ida à guerra» ou «o bombeiro», e pela enésima vez riam com textos que já conheciam de cor. Ou que iam ao Maria Vitória ou ao Variedades de propósito para o ouvirem. A essas, e a muitas outras – por vezes fora do registo da comédia –, Raul, o artista popular, ofereceu inesquecíveis instantes de divertimento e de felicidade. Suficientes, independentemente do gosto de cada um, para que a sua partida tenha deixado a nossa vida colectiva um pouco mais pobre e sisuda.

                      Apontamentos, Memória

                      Volto já.

                      Recarga

                      Não, o blogger não perdeu a voz nem desapareceu em combate. Passa só por uns quantos dias de letargia, como sempre menos que os desejados, para recarregar as pilhas e poder retomar a marcha com um pouco mais de força de braços.

                        Apontamentos, Oficina

                        «Foot-ball praticado was very bonito. Splendid!»

                        Bobby Robson

                        Na noite passada, a Sky News apresentou um programa sobre a vida e a obra de Sir Robert William Robson. Omitiu, no entanto, a sua passagem por Portugal, onde entre 1992 e 1996 treinou o Sporting e depois o FC Porto. E referiu José Mourinho apenas para dizer que este conheceu Bobby Robson no Barcelona, o que aliás não é verdade: foi em Lisboa que se encontraram e foi em Alvalade que começaram a colaborar. A atitude da Sky é, para nós, particularmente injusta. Desde logo porque aqueles foram anos intensos da vida de Robson, que este relembraria depois inúmeras vezes, ligados também, em especial ao serviço do Porto, a êxitos desportivos importantes. Depois porque a sua forma de trabalhar, a sua personalidade forte e a sua bonomia, associados a um portinglês inconfundível e espectacular, o transformaram num dos estrangeiros mais populares no nosso país, o que ficou agora bem patente na forma como inúmeras pessoas – até Sousa Cintra, que o despediu do Sporting mas entretanto reconheceu o erro – o evocaram de forma inequivocamente comovida e carinhosa. E também porque Bobby Robson foi um treinador e um profissional de futebol raríssimo por estes lados: daqueles que via no desporto do qual gostava e ao qual dedicou a vida inteira, como não se tem cansado de recordar quem o conheceu de perto, uma fonte de prazer e uma forma positiva de passar a correr por este mundo, não um problema constante para o fígado. No fim de contas, Sir Bob, o treinador que costumava esquecer-se dos nomes dos seus próprios jogadores, jamais deixou de ser um gentleman abroad. Por um acaso em comissão de serviço no universo pouco cavalheiresco do futebol.

                          Apontamentos, Memória, Olhares

                          Acaso perto da rua Gondova

                          Livros

                          Costumava comprar folhas de papel mata-borrão para o consulado numa pequena papelaria que existia por detrás do Faculdade de Filosofia da Universidade Comenius, junto à rua Gondova. Foi aí que, numa certa manhã, encontrei estranhamente esquecido, dado ter sido obra muito procurada por professores e alunos do Instituto Superior de Acústica em meados dos anos oitenta, um exemplar de Anonymi Leutsoviensis Tractatus de Musica, a tese de Zsuzsa Czagány parcialmente redigida em Munique. Completamente inexplicável ficou, para mim, o facto de esta conter ainda, na página 3, uma longa e apaixonada dedicatória da autora a Mark Spitz, o antigo campeão olímpico de natação.

                          Iuri Bradáček

                            Ficção