A aceleração do tempo ateia o esquecimento. Mesmo sem o desejarmos, acabamos então por dar como perdidos alguns dos rostos que foram ficando para trás, no lado mais frágil da nossa memória. Julgamo-los apagados quando pensamos que tudo aconteceu há tantos anos, com pessoas que acreditávamos serem já tão antigas, que só poderiam mesmo morar agora nesse Império do Nenhures do qual não existe retorno. Foi pois com espanto, e medo de me estar a confrontar com alguma fraqueza do entendimento, que num número recente da revista Manière de voir dedicado à «emancipação na história» dei de caras com os rostos e as vozes de dois homens que faziam as capas dos jornais quando eu ainda me interessava mais pela lenda do Joãozinho e do Feijoeiro Mágico do que pelos caminhos tortuosos da libertação dos povos. Afinal o vietnamita Vo Nguyên Giap, vencedor dos franceses em Dien Bien Phu (1954) e dos americanos na Ofensiva do Tet (1968), nasceu apenas em 1911, permanecendo vivo e aparentemente com opiniões. E Mohamed AhmedBen Bella, principal líder da luta pela independência da Argélia (1954-1962) e o primeiro presidente do país, nasceu só em 1918, continuando com a cabeça a laborar. Vou ter de confirmar se Emiliano Zapata foi mesmo abatido em Chinameca pelos disparos traiçoeiros do general Guajardo.
A Human Rights Watch acaba de afirmar – e prova-o através de um relatório de 123 páginas – que o regime cubano agravou a repressão sobre os dissidentes e apertou a vigilância policial desde que Fidel se retirou da gestão diária do poder e foi substituído pelo irmão Raúl. Um panorama que contraria claramente as expectativas iniciais e que é tanto mais inexplicável quanto a justificação fundamental para a repressão e a «censura revolucionária» – o embargo económico americano associado ao perigo de sabotagem – parecia há poucos meses aproximar-se de uma solução, ou pelo menos de uma viragem, com a nova política da administração Obama. O relatório «Um novo Castro, a mesma Cuba» denuncia ainda uma nova vaga de detenção de opositores ao regime, alguns deles em condições horríveis e alvo de tortura. Claro que os responsáveis cubanos e os indefectíveis amigos da ditadura castrista voltarão a acusar a Human Rights Watch – como o têm feito também, por exemplo, com a Amnistia Internacional – de constituir um «grupo mercenário pró-americano». Mas não provam que as alegações da HRW são falsas. Tudo na mesma, portanto. Isto é, pior.
Nem sempre concordei com algumas das metas, e sobretudo com muitos dos processos, que dominaram a luta estudantil desde os meados dos anos noventa, após o arranque aparatoso do movimento antipropinas em 1992-1994. Por essa altura, uma parte significativa dos dirigentes associativos empenhou-se numa fuga para a frente, subordinando os seus cadernos reivindicativos à exposição mediática, como se por si só esta legitimasse o seu esforço. Concentrados nos três minutos de fama dos telejornais, eles foram-se progressivamente concentrando numa lógica corporativa, esquecendo a grande maioria de estudantes que não se reviam no «aparelhismo» associativo, e outros sectores universitários, como os professores, geralmente encarados mais como «inimigos de classe» do que como possíveis aliados.
Observámos então actividades e «jornadas de luta» verdadeiramente patéticas, com escassas dezenas de estudantes encabeçados pelos seus «dirigentes» – sistematicamente rodeados dos microfones das rádios e das câmaras das televisões – a fecharem faculdades a cadeado, contra a completa indiferença, e até a animosidade, da larga maioria dos seus colegas, dos professores, dos funcionários e da opinião pública. Estive na época em reuniões horríveis, nas quais, com muitos outros professores abertos ao diálogo e sensíveis a grande parte das preocupações estudantis, fui tratado como um perigoso adversário, jamais como eventual aliado. Vi ao mesmo tempo como a grande maioria dos alunos, incluindo muitos dos mais participativos, observava com o maior desdém a atitude dos que diziam falar em seu nome. O resultado era já previsível e em breve seria confirmado: o recuo e a desmobilização da prática reivindicativa, a reacção defensiva das instituições universitárias, o desinteresse gradual dos cidadãos comuns e dos próprios média, condenando a luta estudantil ao apagamento.
Vejo pois com interesse e expectativa a vaga de luta estudantil que parece reemergir do silêncio. Preocupada agora, pelo menos aparentemente, com causas que transcendem a dimensão estritamente casuística e corporativa e comportam um impacto social mais geral, como sejam a crítica do sub-financiamento das universidades e a progressiva exclusão dos alunos com menos recursos materiais. De facto, apenas as preocupações e as palavras de ordem que têm em conta os problemas colectivos podem retirar a luta estudantil do gueto para o qual se deixou empurrar, devolvendo-lhe o estatuto de movimento social forte e respeitado. Os estudantes em luta, nas escolas ou na rua, sempre foram um sinal de futuro, de ousadia, de esperança. Mesmo quando as suas razões e modus operandi pareceram, ou foram, discutíveis. Em momentos como o actual, quando a maioria das nossas instituições universitárias se preocupa sobretudo com a sua própria sobrevivência e os governos se habituaram a impor políticas economicistas sem grande resistência das autoridades académicas, a sua iniciativa é crucial. Olhemos então, de novo, para eles.
Da malha urbana destacam-se as vias, os espaços de passagem, e não tanto os edifícios, que fixam e constrangem. Estes são apenas abrigos, indispensáveis a todos os nómadas, dos quais será sempre possível escapar. Áreas inteiras feitas de corredores e de passagens, de luz e de sombras, de silêncios colossais entrecruzados de estrépitos, como nos jogos de computador. De arquitecturas em camadas num tempo suspenso, que impelem ao movimento como nas obscuras cidades de Schuiten e Peeters. Ruas labirínticas e entrecruzadas, vastas praças-circulares, avenidas infinitas que sobem até às nuvens, mergulhando depois em vales sombrios e pacíficos, rios e canais que são sobretudo linhas de vaivém. Bairros por explorar, sem mapas compreensíveis, com placas toponímicas indecifráveis, pontes enigmáticas, escadas vertiginosas que conduzem a precipícios, desvãos absolutamente inúteis e enganadores. Onde é mais fácil perder-se que encontrar.
[Publicado em Janeiro de 2006 no desaparecido blogue A Estrada]
Pode estar mesmo ali, a dois passos da berma. Na vastidão nocturna da estação erma e suburbana. Por detrás dos rostos cerrados, olhos vítreos, língua escondida, maxilares tensos, que passam por nós, sonâmbulos, logo pela manhã.
Durante muito tempo o El País resistiu a dar o mínimo passo que pudesse aproximar o jornal do nível ético dos tablóides. Mas a crise da imprensa em papel forçou o diário madrileno a rever esse princípio orientador, criando-se assim as condições para que a poesia do quotidiano passasse a ter lugar nas suas páginas de anúncios classificados.
A canção My Funny Valentine, de Rodgers e Hart, estreada no filme musical Babes in Arms, de 1937, transformou-se num standard do qual existem agora mais de 1.300 versões. Gosto muito de pelo menos 100 das centenas que conheço. Três delas, em crescendo dramático, neste final de tarde.
Tal como tem acontecido com a tentativa de reexame do Holocausto, decorrem processos de revisionismo histórico da experiência do Gulag que tendem a reduzir o seu papel na edificação da sociedade soviética ou a requalificá-la como opção politicamente válida. Emergem em parte da historiografia e do actual sistema educativo do Estado russo, determinados a justificar perante as novas gerações o uso da violência na construção de uma política centralista e imperial «eficaz». Em The Future of Nostalgia, Svetlana Boym fala de incentivos a uma «megalomania da imaginação» que na Rússia actual se tem servido das dificuldades diárias vividas pelas pessoas comuns para estimular uma revisão heróica e gratificante do passado. Mas estas releituras provêem também dos sectores políticos, próximos ainda da matriz leninista, que conservam uma atracção reverente pelo antigo «país do futuro radioso». Há cerca de uma década, o debate público em torno do controverso Livro Negro do Comunismo terá contribuído para estimular esta via branqueadora e justificativa da violência de Estado.
Entre nós, muito mais relevantes do que o caso recente da jovem deputada do PCP que declarou não ter ideias sobre o assunto, ou das afirmações de militantes que dizem ou escrevem aquilo que o instinto gregário e a ignorância determinam, são as declarações de pessoas com reais responsabilidades políticas que se esforçam por limpar da memória ou por desculpabilizar os horrores praticados no sistema concentracionário do «socialismo real». O texto de opinião de António Vilarigues que saiu no Público de 30 de Outubro serve de indicador. Ele contesta os números excessivos apresentados por muitos historiadores para contabilizarem as vítimas do Gulag, o que merece alguma atenção. Mas toca o inaceitável quando se permite comparar o número das pessoas «reprimidas» na antiga União Soviética (as significativas aspas são da sua responsabilidade) com o volume de detidos de delito comum actualmente nas prisões americanas, comparando aquilo que não pode ser comparado e criminalizando quem foi deportado e perseguido apenas por motivos políticos ou étnicos.
Não tenho prazer algum em escrever tantos posts em tão pouco tempo sobre as leituras do Gulag e o trambolhão dos «países socialistas» em 1989. São temas que me interessam desde há muito tempo enquanto cidadão e homem de esquerda, mas também como historiador profissional e professor de história contemporânea. Momentos há, todavia, em que me apetece falar antes de outros assuntos, porventura mais agradáveis e seguramente menos pesados. Só que as Brigadas Brejnev desafiam, põem-se a jeito, e não é possível deixar sem resposta as acusações de «revisionismo» lançadas pelos seus milicianos sobre todos aqueles que não partilham da versão oficial da ortodoxia radical «comunista» a propósito do fim da União Soviética e que procuram compreender a natureza imobilista, agressiva e repressiva dos regimes que esta tutelava. Já não se trata sequer de contrapor factos e argumentos, mas sim deparar com o puro logro, e, no plano político, de nos confrontarmos com uma manipulação assumida ou a mais patética ignorância. Com esta gente, responsável doméstica por uma das mais trôpegas facetas actuais do revisionismo histórico, a acusar os outros precisamente da doença em fase terminal da qual enferma. É preciso ter lata. Ou viver num mundo paralelo. [vejam-se a propósito este post de Joana Lopes e este de João Tunes, assim como os links para os quais remetem]
Soube em segunda mão, por uma entrevista a Elie Wiesel, que Mauriac afirmou algures constituir a literatura uma ponte entre a infância e a morte. Não sei se se pode dizer isto assim, como um absoluto, mas gosto da ideia porque ela aproxima a leitura e a escrita da vida em estado puro. E reduz a pouco o valor que esta possa ter quando passa sem elas.
A Câmara de Mantes-la-Jolie, nos arredores de Paris, considera que pendurar roupa à janela é «poluição estética» e deve ser proibido. A multa aplicada aos prevaricadores é de 38 euros. Parece que são mesmo alguns dos moradores de classe média da arrumada e linda Mantes que se encarregam de denunciar os seus vizinhos, chegando a remeter fotografias das farpelas delinquentes para as autoridades. O «higienismo paisagista» deixado à solta conduz a alarvidades desta natureza. Esperemos que a Junta de Freguesia de Alfama não se ponha com ideias e deixe as cuecas e os sutiãs do povo na paz das manhãs solarengas.
Aproveitando a boleia dos 20 anos sobre a Queda do Muro, circula por alguns blogues e sítios de esquerda um debate sobre o que é ou como pode ser-se (ainda ou necessariamente) comunista hoje. Falo de textos substantivos, de autorias diversas, e não obviamente das boutades das caixas de comentários, nas quais geralmente (embora nem sempre, admito) se pensa mais com as pontas dos dedos, o instinto gregário e a intervenção das feromonas do que com a cabeça. As posições são descoincidentes e invocam argumentos nos quais a objectividade das análises é sempre temperada pelo impulso – que não descarto, antes pelo contrário – de um certo padrão de wishful thinking. Pois de que outra forma poderia ser? Como pensar a utopia, é dela que se trata, de outro modo que não seja com a intervenção da flama, do desejo e da capacidade para projectar a possibilidade do improvável ? Da minha parte, mais defensivamente, limitei-me num texto anterior a lembrar que o comunismo de hoje e do futuro não se constrói com cartilhas e contra quem não pensa exactissimamente como nós. Para isso temos os comunistas 1.0, imperturbáveis honeckers que se mantêm fora destes debates porque vivem cheios de certezas, zangados contra quem as não tem, de pedras nos bolsos e os olhos ofuscados pelo brilho do retrovisor.
Diversos movimentos cívicos católicos querem um referendo sobre o casamento homossexual. Aceitá-lo seria como ter deixado referendar a pena de morte, a instauração da República, o 25 de Abril, a independência das ex-colónias ou a igualdade política e jurídica das mulheres. O resultado estaria viciado à partida por concepções atávicas e mecanismos de controlo das consciências postos em acção pelos sectores mais conservadores da sociedade. Nestas alturas há que reconhecer alguma razão às palavras de Afonso Costa quando apontava os «indivíduos que não conhecem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma» como carneiros contra os quais o progresso das ideias – «a República» dizia ele – se deve inevitavelmente levantar. A democracia não se referenda, mes amis, e não é, nem pode ser, a vozearia ululante das multidões. É para o impedir que há eleições, sabiam?
Admito que possa ser um sujeito um pouco sensível – e certas vezes irascível, já agora – mas escutar Nicolas Sarkozy a perorar com um ar grave sobre a liberdade dos povos e o derrube dos muros que os separam junto à Porta de Brandeburgo é coisa que me provoca urticária. Aliás a Porta de Brandeburgo, com a sua quadriga rebocando a deusa da Vitória, é já de si um cenário que incomoda um pouco. Transporta consigo maus presságios. Deviam implodi-la de uma vez por todas e fazer ali uma coisa catita. Um Luna Parque ou assim.
Nos últimos anos, as tentativas de embelezamento desse «mundo a leste» que desabou em 1989 e de mitigação da memória e das consequências do sistema extremamente repressivo que nele germinou, têm atravessado fronteiras. Em Portugal, porém, essas tentativas têm tomado uma forma inusitadamente organizada e sistemática. A causa de tal originalidade é relativamente fácil de decifrar: aqui não se cingem à iniciativa de círculos diminutos e sectários de ativistas, mas contam com o suporte de um partido comunista militante que conserva peso social e detém um lastro histórico respeitável, reconhecido mesmo por pessoas que não partilham o seu ideário e não têm os seus objetivos.
Trata-se de um partido resistente a uma renovação ideológica que é observada como repulsiva traição a valores considerados intocáveis. De um partido que nunca reconheceu as consequências práticas e teóricas do movimento de desestalinização vivido ao longo das últimas décadas por quase todas as organizações homólogas, e que vive condicionado por uma animosidade atávica, inscrita na matriz leninista, contra uma «democracia burguesa» reputada como expressão de um mundo inferior. Comporta-se ao mesmo tempo como bastião tardio da «ordem socialista» que Gorbatchev e os seus cúmplices «capitulacionistas» se encarregaram de dissolver, e tem vindo – de uma forma cada vez mais veemente nos últimos tempos – a promover o reconhecimento, por vezes a defesa, de experiências e de princípios que o próprio PCUS pôs em causa há mais de cinquenta anos, logo após a morte de Estaline. É assim que a Queda do Muro, ao invés de se transformar num fator de reflexão, deground zeropara projetar a busca de alternativas, se transforma num ato de pura perfídia que pôs termo a um universo conceptualmente perfeito, enquanto os crimes do estalinismo internacional passaram a ser olhados como irrelevâncias ou a ser evocados, quanto muito, como «erros» menores e inteiramente justificáveis.
Partindo desta posição, muitos comunistas (do PCP, mas também fora dele) têm observado e comentado, quase sempre de forma crispada e depreciativa, por vezes com alguma violência, os argumentos de quem entende que os horrores do sistema repressivo e concentracionário imposto sobre o mapa do «socialismo real», tal como a punição brutal da dissidência e a gestão do sistema do Gulag e dos seus sucedâneos, não devem ser atenuados e muito menos silenciados. Aqui a palavra-chave é «anticomunismo». Quem critica frontalmente as certezas da direção do partido ou questiona uma certa «mitografia do comunismo» é então acusado de «anticomunista», quem insiste em apontar o falhanço do modelo burocrático e totalitário e em afirmar que foi horror o horror do Gulag é taxado de «anticomunista», quem questiona valores, princípios éticos e perspetivas políticas de uma esquerda autoritarista porque os considera perigosos, sugerindo que podem existir alternativas democráticas combativas, é qualificado sem apelo como impenitente «anticomunista».
A perversão é antiga e integra-se modelarmente na velha tradição dos comunistas russos, anterior à própria Revolução de Outubro – ela está presente, por exemplo, na cisão consciente e brutal com os mencheviques ou na rutura sem apelo com os socialistas-revolucionários –, que foi depois tomada em mãos por outros partidos-irmãos. Basta lembrar os epítetos lançados sobre centenas de milhares de militantes revolucionários perseguidos e abatidos durante as purgas estalinistas, indiciados todos, consoante a etapa da repressão, como «contrarrevolucionários», «fascistas», «provocadores», «capitulacionistas», «agentes da Gestapo», «espiões ao serviço do imperialismo», «lacaios do capital», e, frequentes vezes, «trotskistas», o que no jargão em vigor no Kremlin e no edifício moscovita da polícia política situado na Lubianka passou a significar, no mínimo, criminosos destinados à prisão ou mesmo ao pelotão de fuzilamento. Pode, aliás, estabelecer-se uma analogia moderada com o epíteto de «comunista» atribuído pelo Estado Novo a todo aquele que destoasse da ordem que este procurava impor, a quem discordasse ainda que só pontualmente do governo de Salazar, manipulando e diabolizando a palavra, num quadro que foi agravado com a propaganda da Guerra Fria.
Ambas as escolhas foram e são, para além de potencialmente injustas, completamente incorretas e inapropriadas, voltando-se até contra quem as utilizou e continua a utilizar, uma vez que alienam quem pode, pelo menos em determinados contextos, tornar-se um aliado. Tratam-se, na realidade, de expressões ao serviço de «teorias da conspiração» destinadas a identificar «culpados» para dificuldades e incompreensões que, num quadro democrático, poderiam e deveriam ter sido debatidas ou partilhadas, mas que aqui servem, como referiu Lucien Boia emPour l’histoire de l’imaginaire, de processos destinados à «redução da história e da política a um só princípio, fundado na crença de que a história avança e a política se faz à custa de conspirações sucessivas». Os conspiradores são seres apresentados como possuidores de uma inteligência degenerada, como génios malignos que é necessário desacreditar e destruir. Esta atitude diabolizante é, aliás, uma das essências de todos os sistemas totalitários e das ideologias que os servem, e o anti-«anticomunismo» dos comunistas ortodoxos serve-se recorrentemente deste processo.
É verdade que enquanto movimento político e social, e também como atitude individual, o anticomunismo – aqui sem aspas – existe, possuindo um percurso histórico longo e complexo, como o mostra um recente estudo de Miguel Real incluído na obra coletivaDança dos Demónios. Intolerância em Portugal(Temas e Debates/Círculo de Leitores), mas a generalização constitui um erro de tiro. Porquê? Desde logo porque contestar o dogma ou contrariar a cegueira não significa propor a destruição de quem o faz.
É este um erro flagrante. Para começar porque é inequívoco o direito do PCP à existência como partido democrático e, mais do que isso, é incontornável a relevância do seu papel como parte do passado, do presente e do futuro da nossa vida coletiva. Só que este papel necessário apenas pode ser cumprido de forma plena se nele ocorrer um processo de abertura antisectária à diferença no interior da esquerda anticapitalista, tendo em conta que esta abertura passará inevitavelmente pelo questionamento, doloroso, mas imprescindível, dos dogmas que foram prendendo o partido ao lado negro de um passado que insiste em invocar. Quando tal verdadeiramente ocorrer, quando a experiência da antiga União Soviética deixar de ser mitificada e a maioria dos comunistas aceitar os valores da liberdade individual como matriz constitutiva, ficará claro que o epíteto de «anticomunista» se aplicará apenas àqueles que recusam o direito de opinião e de intervenção aos que se batem contra a ordem capitalista indagando a possibilidade de uma alternativa.
Por isso a experiência histórica do «socialismo real», porque globalmente negativa, principalmente na materialização da sua vertente acentuadamente imobilista, intolerante e repressiva, deve ser olhada de frente, analisada, dessacralizada, criticada sem quaisquer complexos. Seguindo um processo revelado imperativo por três diferentes razões: por uma questão de justiça para com as suas inumeráveis vítimas; para que se perceba que a experiência não pode ser repetida; e para que fique claro que os projetos de mudança devem ter em consideração a defesa básica – a única que pode promover realmente uma atualização do conceito de comunismo – dos direitos humanos e das liberdades individuais, indispensáveis para um desenvolvimento harmonioso de todas as sociedades e para o aproveitamento da capacidade criadora dos seus cidadãos.
É por defendê-lo como especto essencial da vida democrática que muitos homens e muitas mulheres, que não são de direita ou «apologista do capitalismo», se dão ao trabalho – para os dogmáticos, quase criminoso – de exumar cadáveres injustamente esquecidos. Para que a memória da sua luta e do seu trajeto seja limpa de uma vez por todas. Para que se não esqueçam, e para que se não repitam, as injustiças que perverteram o princípio da utopia anticapitalista, cometidas em nome de um projeto igualitário que é, que foi, essencialmente justo ou necessário. Para que o ideal comunista – sinal vital de esperança e de compaixão para com os outros, mas também uma molda do combate pela liberdade – jamais pereça. Foi a comunista Rosa Luxemburgo quem escreveu que a verdade é revolucionária e deve ser sempre exposta, mesmo quando possa ser melindrosa. Negá-lo, isso sim, significará então ser-se contrarrevolucionário e anticomunista.
Enquanto aguardamos pela tradução do diário secreto do antigo primeiro-ministro chinês Zao Zyiang – afastado em 1989 em consequência da posição moderada que assumiu durante o episódio de Tien An Men –, Chu En-Lai. O Último Revolucionário Perfeitoabre caminho para um conhecimento mais completo dos intrincados meandros pelos quais têm passado, na história recente da China, os equilíbrios e os desequilíbrios do poder. Mas não se trata de uma biografia no formato clássico, uma vez que o biografado raramente é olhado na complexidade da vida pessoal ou dos fundamentos que determinaram a sua acção pública, sendo visto apenas na medida, e nos actos, em que o seu trajecto se cruzou, sempre numa relação proximidade e de dependência com o de Mao Tsé-Tung, com a luta pelo poder na China comunista. A esta característica não é alheio o facto do autor, Gao Wenqian, ter sido ao longo da década de 1980 o biógrafo oficial de Chu junto do Gabinete Central de Investigação e Documentação do Partido Comunista Chinês. O método aplicado pela historiografia oficial num regime como o chinês exclui, de facto, uma abordagem individualizada do trajecto intelectual e vivencial do biografado, confinado obrigatoriamente à projecção aceitável da sua imagem pública. O material utilizado cerceou também a possibilidade de uma outra observação, uma vez que o livro foi escrito quase exclusivamente a partir da documentação que Gao reuniu e das entrevistas que fez enquanto trabalhou naquele gabinete, antes ainda de emigrar em 1993 para os Estados Unidos.
A figura de Chu conserva um lugar especial no percurso da China contemporânea. Ao contrário da quase totalidade dos principais líderes do passado do PCC, que passaram por momentos de rápida ascensão e de abrupta queda, sobreviveu às depurações e manteve uma posição de contínuo destaque, apenas comparável à do próprio Mao. O que pode parecer estranho, sabendo-se, e Gao enfatiza este aspecto, como a relação entre ambos foi sempre difícil, e de que modo Mao – que concebia Chu como alguém que um dia poderia cumprir um papel idêntico àquele que Kruchtchev desempenhara na condenação post-mortem de Estaline – sempre desprezou os seus modos afáveis, tão diferentes dos seus, tendo esperado durante anos pelo momento exacto para o fazer cair, como o fez com o antigo presidente Li Chao-Chi no início da Revolução Cultural ou com o marechal Lin Piao. A explicação deste casamento de conveniência encontra-a Wenqian em três características de Chu que o tornaram incontornável: a sua capacidade para sobreviver aos conflitos através de um diplomático calculismo, o tom de moderação pública associado a um inusitado vigor aplicado à gestão do partido e do governo que lhe granjeou a fama de insubstituível, e a profunda convicção de comunista que manteve sempre e lhe forneceu, na actividade partidária como nas tarefas de primeiro-ministro, uma imagem de rectidão e um enorme prestígio público. Nos derradeiros dias, quando entrava na sala de operações da qual sabia que não sairia vivo ou capaz – pois Mao havia-o metodicamente impedido de receber a tempo o tratamento adequado –, as últimas palavras que pronunciou foram: «Sou leal ao Partido Comunista, leal ao povo!»
Gao Wenqian, Chu En-Lai. O Último Revolucionário Perfeito – Uma Biografia. Tradução de Ana Barradas. Pedra da Lua, 328 págs. [Publicado na LER de Outubro]