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Companheiro Mario

Mario Vargas Llosa

Comecei a ler Mario Vargas Llosa sensivelmente pela mesma época em que comecei a ler Gabriel Garcia Márquez. No entanto, os nossos primeiros encontros não foram fáceis. A Cidade e os Cães e a Conversa na Catedral, com os quais me estreei, foram de uma leitura bem mais sofrida do que a do agora ultra-canónico Cem Anos de Solidão, de Márquez. O primeiro dos romances, para ser muito sincero, por causa de um homoerotismo latente que impressionava qualquer rapaz provinciano cheio de preconceitos como eu era, o segundo pelo grau de elaboração formal para a qual não estava preparado. Llosa e Márquez eram amigos nessa época e a vida e a ética política foram-nos depois distanciando, mas para mim a separação foi sendo construída, a partir dali, de uma outra forma. Enquanto os livros do peruano continuaram a surpreender-me pela versatilidade, os do colombiano passaram a saber-me sempre mais ou menos ao mesmo. Continuaram lado a lado nas estantes cá de casa – ainda lá estão, estou a vê-los daqui – mas fui-os colocando mentalmente em dois mundos cada vez mais opostos.

Devo dizer que da actividade política de Llosa como reformista «do centro» nunca me senti propriamente próximo, ainda que na longa noite da América Latina dos ditadores e das ditaduras esses qualificativos tenham adquirido sempre um sentido razoavelmente diverso daquele que, agora como na altura, lhes atribuímos aqui na Europa. Mas os seus ensaios e artigos de opinião desde há muito que o redimiram desses ímpetos liberais que podem sempre provocar, é também o meu caso, um certa alergia a muitos dos seus mais indefectíveis leitores e admiradores. Penso agora, convictamente, que parte substancial da grandeza de Vargas Llosa se encontra igualmente – a par do que vai compondo com a sua caixa de ferramentas de romancista – no constante trabalho no campo da não-ficção, indiciador de uma capacidade notável e permanente para dialogar criticamente com o mundo. Combatendo na vertical, e não poucas vezes com custos pessoais, pela liberdade do indivíduo e da palavra. Contra Pinochet ou Castro, Bush ou Bin Laden.

A Academia sueca atribuiu-lhe agora o Nobel da Literatura de 2010. Foi dito esta manhã que «pela sua cartografia das estruturas do poder e as suas imagens mordazes sobre a resistência, a revolta e a derrota individual». Entendo a declaração como um elogio associado a um Mario Vargas Llosa integral. Não apenas o grande romancista, mas também o defensor da fala livre e dos direitos humanos. Por isso, e pela primeira vez em bastantes anos, me senti feliz quando soube quem ganhara o prémio. Um prémio político? Espero bem que sim. Não só, mas também.

[Os 10 melhores links para entender Mario Vargas Llosa segundo El País.]

    Atualidade, Democracia, Olhares

    Romance negro

    roman noir
    Imagem: El País/Magnum/Peter Marlow

    A Babelia de ontem transporta consigo uma reportagem («El refugio de los lectores») sobre as transformações do mundo editorial espanhol em tempo de crise. Uma das tendências que se começa a destacar – a par da inevitável quebra nas vendas – é o regresso em força do roman noir. É verdade que este se encontra associado a edições baratas, em paperback, muitas vezes com direitos de autor já caducados e por isso mais acessíveis a editores e a leitores. Mas temo que possa também ser procurado como fonte de inspiração. Que, uma vez mais, a realidade se antecipe à ficção ou que esta lhe sirva de alimento. Que o efeito se propague e avance para oeste, entrando-nos em casa.

      Atualidade, Olhares

      Rir e não rir

      Funès e Bourvil

      Perdoem a confidência mas quero dizer-vos que adoro rir. E mais ainda de fazer rir os outros. «If I can get you to laugh with me, you like me better, which makes you more open to my ideas», afirmou numa entrevista o enorme John Cleese. Talvez por vezes não pareça, eu sei, porque também gosto muito da tristeza (bonjour, bonjour, minha amiga), mas acredito que o melhor riso é o que nos interrompe os dias, não o que faz de nós perpétuos sorridentes, animados e um tanto patetas. Gosto pois de umas gargalhadas, das boas (mesmo, mesmo, mesmo, mesmo boas) e principalmente daquelas que largamos sem lhes conhecer a razão. Rir-se, lá dizia o velho Bergson, é um acto de intuição, e que melhor prova desta ligação do que rir por rir, sem mais nem menos.

      Já o não fazia há muito, admito, mas aconteceu agora como vídeo do ministro suíço das finanças que circula à velocidade da luz pelo You Tube. Quase não percebi nada daquilo que o senhor dizia e os meus rudimentos de alemão não são suficientes para me esclarecer, mas a piada está toda aí: o próprio governante, soube-o entretanto, achou o discurso que algum acessor lhe havia colocado à frente tão non-sense que esqueceu o protocolo e não foi capaz de conter o riso. E riu, riu muito, descontroladamente, fazendo-nos rir com ele. Resultou comigo, como resultou com muitas outras pessoas. No caso em apreço, nem me interessa saber aquilo que o homem disse, nem quem é ou o que representa: aquele instante, tão raro nos espaços da política geralmente circunspecta e pardacenta, foi um momento especial, quase de catarse, que valeu por si e por isso foi extraordinário.

      Parece-me pois completamente obtusa e sem ponta de piada a versão que circula por aí, supostamente «legendada em português» por um blogue de direita, que põe na boca do senhor suíço um qualquer arrazoado depreciativo sobre o Portugal de hoje e os seus governantes, tentando mostrar como estamos tão baixo, tão baixo, tão baixo, tão baixo no respeito das nações que até um pobre burocrata suíço se ri de nós. Para além de não ter graça alguma e de agregar uma série de clichés em tom de autocomiseração sobre a nossa vida social e política, redunda numa intervenção claramente reaccionária, vagamente messiânica e trauliteira, insinuando com bastante clareza a necessidade de «acabar com a brincadeira» para que nos ganhem respeito. E não é por ser «contra o Sócrates» que perde essa qualidade. Acham que é para rir?

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        Por vezes nascem na rua

        a rua

        Encontro na edição em linha do Diário de Notícias um título em destaque: «Portugal vai ter de subir impostos e congelar salários». Para além da frase em si, daquilo que faz prever, do cenário negro para a maioria dos portugueses que ela desenha, incomoda o sentido impositivo da expressão «ter de». Ou talvez já não incomode tanto assim, uma vez que ela se tem banalizado. Os actos de gestão, as linhas de política, as metas que se configuram para a vida colectiva, não são consideradas escolhas, mas sim inevitabilidades. Uma opinião pública débil, tradicionalmente conformista ou indiferente – de certo modo um atavismo que carregamos, raramente interrompido –, cria as condições para que os «profissionais da eficácia» que gerem a política e a economia possam apresentar as suas propostas e os seus programas como vias de sentido único. Os sinais vêm de trás – veja-se como nas universidades o «Processo de Bolonha», assim com P maiúsculo, foi acelerado e imposto porque supostamente «tinha de» avançar rápido e não podia ser questionado, e veja-se como a generalidade dos seus responsáveis o aceitou ordeira e obedientemente – mas têm-se vindo a agravar. Muitas vezes, é preciso que se diga, com a complacência, com a desgraçada cumplicidade, dos meios de comunicação, desde o pequeno jornal regional à televisão do Estado. Proclama-se e faz-se ecoar a ideia peregrina de que tudo «tem de ser»: as coisas são como são, nada há a fazer, mudar é impossível. Manda quem pode e obedece quem deve. É o fado implacável, o destino que marca a hora. «É a vida». A intervenção da consciência crítica e a capacidade de pensar a alternativa, de relativizar as circunstâncias, de escolher com bravura a nova estrada a percorrer, ficam assim convenientemente adormecidas. Para sossego de quem mais ordena e prefere não ser contrariado, prefere que não lhe mexam nos papéis nem lhe mudem os chinelos do lugar habitual. Salva-nos apenas a consciência de que as viragens históricas são sempre feitas de impulsos e de imponderáveis. Mais cedo ou mais tarde elas formam-se e irrompem sem pedir licença. «Têm de» irromper. Não por estarem escritas nas estrelas ou obedecerem a uma narrativa que explica a sua certeza, mas porque se transformam numa necessidade. E por vezes nascem na rua, de maneira nómada e imprevisível.

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          Há festa em Pyongyang

          Vigilância

          Kim Jong-Un, de 28 anos, filho mais novo de Kim Jong-Il, o «Querido Líder» e «Génio dos Génios», supremo chefe da República Popular Democrática da Coreia do Norte, e neto de Kim Il-Sung, o «Grande Líder» e «Presidente Eterno», fundador da dinastia, foi esta madrugada promovido a general. Apenas algumas horas antes da reunião extraordinária de dirigentes do partido que decorre hoje em Pyongyang e, ao que parece, irá consagrar a designação do sucessor oficial do actual presidente da Comissão Nacional de Defesa e secretário-geral do Partido dos Trabalhadores da Coreia. A ideia é dar ao jovem Jong-Un um pouco mais de autoridade para que o unanimismo funcione sem mácula e a designação da sucessão mais facilmente possa ser apresentada como natural e indiscutível. Afinal, o que mais pode pesar num regime autoritário e despótico do que a ameaça dos galões militares, das botas ferradas e dos mísseis de longo alcance Taepodong? Para completar o aparato, a irmã do presidente, Kim Kyung-Hui, casada com Jang Song Taek, actual número dois do regime, foi também promovida a general. Aguarda-se por isso que na acanhada mas digna banca gerida pelos «camaradas e companheiros de luta» norte-coreanos no Espaço Internacional da próxima Festa do Avante! seja possível já adquirir estampas e pins da nova liderança, bem como algumas reflexões em papel de arroz do recém-promovido general. Os coleccionadores de kitsch retro pós-soviético e de preciosidades bibliográficas em português macarrónico aguardam ansiosamente. Já o povo norte-coreano, que tem de carregar diariamente com este triste espectáculo de nepotismo e tirania, é pouco provável que sinta um genuíno entusiasmo pelos acontecimentos em curso.

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            Pimenta nessa língua

            pimenta

            Os pais não falavam de sexo com os seus filhos. «Naquele tempo», como se dizia nas parábolas, tudo era envolvido em véus e meias-tintas. Embora essa ausência acordasse em muitos deles uma irrefreável vontade de se chegarem à prateleira mais alta para surripiarem A Nossa Vida Sexual, de Fritz Kahn, escondida por detrás do volume do Novo Testamento e do Livro de Pantagruel da Dona Berta Rosa-Limpo. Aos estudantes do secundário estava também vedado o acesso normal a tudo do qual pudesse assomar uma sexualidade exterior à obscura vida de alcova consagrada pelo sacramento do matrimónio. O que inibia muitos de lerem nas aulas de português um certo Canto dos Lusíadas, forçando-os a fazê-lo fora delas ao mesmo tempo que iam imaginando coisas. E, claro, não se deviam, não se podiam, escrever ou pronunciar palavrões. «Pimenta nessa língua» era a ameaça mais suave para quem o fizesse. Mas qualquer criança da escola primária conhecia, ainda que de forma enviesada, mediada por algum colega mais vivaço e solícito para quem os termos já não tinham segredo algum, o significado vernáculo de caralho, cona ou broche.

            Pois agora são o Diário de Notícias ou a RTP a indignar-se por um dicionário abreviado da língua portuguesa utilizado em escolas do ensino básico conter «palavrões» como os acima mencionados. No pressuposto de que jamais deveriam ser conhecidos por menores, independentemente destes os pronunciarem por hábito e com o maior à-vontade. Pessoalmente nunca gostei do abuso do palavrão, que sempre me soou a indigência vocabular ou à expressão de uma vontade infantil de chocar as audiências (vejam-se os tiques retóricos de certos bloggers mais agressivos). Uso-o muito moderadamente, em ocasiões raras e só por necessidade, embora quando me magoo na esquina de uma cadeira não me sirva propriamente de um modesto «fornique-se!». Mas o espanto projectado a partir da simples existência do tal dicionário e a sugestão implícita da sua proibição formal parecem-me resultado de um moralismo estúpido, anacrónico e, agora mais do que nunca, completamente inútil. Ele sim maldoso por apelar à ignorância. A propósito: o corrector ortográfico Flip, versão 8, que estou a utilizar neste momento, não sublinhou automaticamente a vermelho as palavras grossas que atrás escrevi. Será que se destina apenas a maiores de 18 anos?

            Adenda: Não sei se não será relevante o facto de o dicionário ser da responsabilidade de uma editora do Porto. Diariamente confrontada com o meio envolvente.

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              Os juros e a evolução da espécie

              juros

              Passei hoje três quartos de hora num banco à espera de ser atendido. Como cometi a imprudência de não levar nada para ler, pois acreditava ingenuamente que tudo seria rápido, tentei despistar o tédio respondendo a mails com recurso ao meu fiel iPhone. Com a consciência de estar a passar, junto dos circunspectos companheiros de infortúnio, por mais outro maluquinho do SMS. Cansado de dedilhar, levantei-me e cada vez mais impaciente comecei a andar de um lado para o outro lendo um a um todos os cartazes com anúncios de produtos financeiros. Desses que prometem a felicidade suprema desde que a paguemos em prestações mensais com taxas «indexadas à Euribor». Dei então com um anúncio especial, destinado «aos jovens». Prometia uma linha de crédito para pagar viagens, bilhetes para concertos, roupa (o cartaz chamava-lhe «moda»), gadgets electrónicos e, pasmem-se os e as mais inocentes, «experiências». «VALE TUDO!», proclamava o reclame em enormes caracteres. Endividar-se aos 18 anos e continuar nesse mesmo estado aos 68 deverá, entretanto, produzir alterações sensíveis no comportamento humano e no relacionamento intergrupal. Pode ser que a expressão «VALE TUDO!», aplicada pelas instituições credoras à grande massa de endividados, siga então essa evolução. Escravizando-os, por exemplo, já que não caberão todos nas prisões. E forçando-os a trabalhar como «cobradores do fraque». Isto se o sistema não estourar antes, claro, regredindo a espécie a esse estado natural de «guerra de todos contra todos» desenhado por Hobbes no Leviathan. O que justificaria, com toda a certeza, a suspensão imediata dos pagamentos de juros.

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                Camarada

                maquisards

                Gosto da palavra camarada. Muito. E por isso me perturba vê-la abusada, banalizada. Como sílaba de um mantra. Como amparo desabrido de liturgias vãs. De futuros baços e autobloqueados. Já serviu a iniquidade, a opressão, a força bruta, a ordem exacta dos lugares sombrios. Já serviu o Mal. Mas também a solidariedade, a compaixão, a revolta e a esperança. Principalmente a esperança. Gosto de a ouvir na rua que é onde ela deve permanecer. Não em templates de comunicados de imprensa, orações de circunstância, missivas impessoais ou ordens de serviço. Gosto dela sem maiúscula. Rara e clandestina. Murmurada ou manifesta. Na rua, de onde jamais deveria ter saído.

                Camarade [I]
                TOCAR

                Camarade [II]
                TOCAR

                  Apontamentos, Olhares

                  «Pseudo-intelectuais»

                  Lelouch, Godard e Truffaut em Maio de 1968

                  Não começou ontem o hábito de usar o qualificativo de «pseudo-intelectual» como maneira de desconsiderar alguém. Mas o costume vulgarizou-se nos últimos tempos, associado à depreciação pública do próprio conceito de intelectual. Numa sociedade na qual o nível de escolarização média e superior cresceu consideravelmente, mas onde o saber técnico é continuamente privilegiado em relação à cultura de base humanística, detecta-se um conflito entre aquilo que resta do antigo prestígio dos intelectuais – combatentes com voz por um saber engagé – e a atitude de um grande número de pessoas que ainda recolhe um eco desse prestígio mas é incapaz de o compreender. Por este motivo, tem alastrado um enorme equívoco capaz de levar a que alguém que ainda transporte consigo algumas das marcas desse antigo intelectual se transforme facilmente num «pseudo-intelectual», num ser caprichoso, especialista em pomposas futilidades. Ou seja, por definição, quem esgrime publicamente por ideias, quem cria e se esforça por fazer ecoar aquilo que criou, passou a ser para muitas pessoas de cultura mediana e standard um «falso intelectual». Com manias de sê-lo sem a percepção de que o será apenas para si e para uns quantos próximos. Se tanto.

                  Sem entrar no debate, já com décadas, sobre o hipotético fim dos intelectuais ou a indesmentível reformulação do seu lugar social, interessa aqui rememorar algumas banalidades fundadoras da sua condição resvaladiça. O Dicionário Houaiss destrata a palavra reduzindo-a à condição precária do adjectivo, aplicando-a apenas àquele «que vive predominantemente do intelecto» – e se opõe, portanto, a quem viva da actividade manual – ou então ao que demonstra «gosto e interesse pronunciados pelas coisas da cultura, da literatura, das artes». Exclui pois, ou pelo menos ignora, o sentido histórico e substantivo, que contribuiu para reforçar o prestígio original do intelectual, associando-o à experiência da cidadania, atribuindo-lhe um lugar central na agitação das ideias ou na legitimação das causas, assegurando um papel fulcral na vida cultural, não como simples espaço de devaneio e divertimento mas como território para a afirmação de um dever e de uma necessidade, fundamentais para a existência e o progresso das sociedades complexas.

                  Deste ponto de vista, André Malraux terá sido um protótipo do intelectual em estado bruto: escritor, resistente, aventureiro, teórico da arte, iniciador das «maisons de la culture» e inventor do primeiro Ministério da Cultura. Sartre foi-o também, como modelo do intelectual empenhado, defendendo que o escritor não é neutro frente à realidade histórica e social: «O escritor empenhado sabe que palavra é acção, sabe que desvendar é mudar e que não se pode desvendar senão fazendo por mudar». Para o filósofo existencialista, e durante algum tempo proto-marxista, no contexto da sociedade capitalista será aliás impossível manter o sonho da imparcialidade diante da condição humana. Na sua opinião, «a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele». O escritor pensa, fala, escreve então assumindo essa experiência como resultado de uma necessidade, de um impulso sem o qual não pode ser verdadeiramente escritor. E o intelectual é-o como expressão de um destino socialmente partilhado, indispensável para a mudança do mundo.

                  O uso indiscriminado da noção de «pseudo-intelectual» advém pois do recuo desta ideia. Não tanto de uma abordagem objectiva da relação justa ou injusta de alguém com uma criação projectada no social ou com o combate público por certas ideias. Nos últimos tempos, o abuso do qualificativo – e a blogosfera é particularmente rica neste particular – tem correspondido pois, quase sempre, mais a uma desvalorização do pensamento livre e livremente comunicado do que a uma crítica, que até poderia ser justa, aplicada directamente a quem, «pseudo», «falso», exponha ideias que são apenas um simulacro de reflexão, conhecimento, ousadia e convicção.

                    Olhares, Opinião

                    Requiem marítimo

                    Sagres

                    Como a larga maioria dos portugueses, pouco andei de barco ou em meios de locomoção afins. Mesmo os trajectos africanos foram percorridos de avião. Recordo-me de umas quantas remadelas em lagos artificiais ou modestos riachos, de duas viagens de cacilheiro e de uma travessia do estreito de Gibraltar. Também andei algumas vezes de «gaivota». Ou melhor, pedalei com força para deslocar o veículo. Muito mais do que isso só a bordo do Kon-Tiki de Thor Heyerdahl, do Calypso de Jacques Cousteau, do Relâmpago do Corsário Negro e no paquete onde se desenrolou aquele enredo «anarquista» – que valeu uma proibição em diversos países – de Monkey Business, o filme dos Irmãos Marx. Para além, claro, de ter ido por diversas vezes ao fundo com o Titanic. Isto é, apenas andei embarcado em imaginação. Mas sei o suficiente de História e de caminhos marítimos para perceber que o navio-escola Sagres tem funcionado como definitivo avatar da nossa autorepresentação enquanto «navegantes». Por isso a proibição de atracar em Macau dada ao veleiro pelo governo chinês é particularmente humilhante. E por isso não é aceitável que as autoridades portuguesas se limitem a achar o facto mais ou menos normal. Sem um lamento, um protesto, um epitáfio. Restam-nos assim os ferry-boats fretados. E, a mim, realizar a adiada travessia do Atlântico entre Portimão e o Funchal. A bordo do indomável Volcán de Tijarafe.

                      Atualidade, Devaneios, Olhares

                      «Intelectuais moderados» e almofadas coloridas

                      almofadas

                      Islão. Passado, presente e futuro, de Hans Küng, é um livro magnífico. Mas deixa no leitor uma certa sensação de ambivalência. O teólogo mal querido da Cúria Romana fala da forma como, no mundo ocidental, após o fim da Guerra Fria se procurou por vezes trocar o comunismo pelo islamismo como representação do mal. Neste âmbito, o desenvolvimento de processos de compreensão do Islão e de laços de entendimento deste com o cristianismo e com o judaísmo parece-lhe imprescindível para evitar um anunciado «choque de civilizações». Produz por isso uma síntese de dimensões históricas e sistemáticas que oferece uma perspectiva ampla e multidimensional do Islão, estimulando uma resposta perante o rastilho de incompreensão e violência que tem vindo a ser ateado. Fá-lo com sabedoria, em nome de um efectivo diálogo inter-religioso que defende desde há meio século. O seu esforço de aproximação acaba, no entanto, por cair numa armadilha, ao alimentar a quimera, comum entre muitos ocidentais, que se traduz em ver nos «intelectuais moderados» do Islão a chave para um compromisso. Na realidade, testemunhos constantes têm revelado a enorme debilidade do lugar desse tipo de pessoas no interior do universo islâmico.

                      Um excelente contributo para o esclarecimento deste enredo é-nos oferecido no número de Agosto da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique. O artigo «Os intelectuais árabes, entre Estados e fundamentalismo», da autoria de Hicham Ben Abdallah El Alaoui, incorpora um notável rastreio da situação e das expectativas de muitos dos intelectuais árabes na sua relação com o mundo actual e com a procura de um futuro mais justo e mais democrático para os Estados autoritários que têm o Islão como religião oficial. Ben Abdallah anota um conjunto de circunstâncias e de perspectivas para as quais vale a pena olhar.

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                        Atualidade, Olhares, Opinião

                        Quixotes

                        Quixote, Welles

                        Para Saul Bellow existiam dois tipos de pessoas: os beers e os becomers. Numa tradução razoavelmente livre, «os que são» e «os que hão-de ser». Os primeiros esforçam-se por não mudar, chega-lhes a vida que têm, confiam num destino previsível, num lugar certo e seguro para viver de forma habitual. Os outros não se conformam com o mundo tal qual ele é, preferindo a incerteza, o nomadismo – vivencial, não necessariamente geográfico – e, de vez em quando, uma certa dose de aventura. O nosso tempo é francamente dominado pelos cautelosos beers, enquanto os inconstantes becomers são empurrados para as margens, confinados a um trajecto que passa ao lado de um padrão de prestígio que deliberadamente ignoram. Claro que estes jamais compuseram maiorias, pois um mundo dirigido por becomers seria, na realidade, um mundo alucinante.

                        Em certas épocas, em algumas circunstâncias, em momentos precisos, o seu papel foi no entanto apreciado e até citado como exemplo. Sem a intervenção que protagonizaram, «os que são» ter-se-iam encarregado de coactar a criação e a iniciativa, padronizando o código genético de gerações de autómatos. Os iluministas, os românticos, os modernistas e os indisciplinados dos anos cinquenta e sessenta do século vinte procuraram contrariá-los. Durante algum tempo ergueram como dominante o modelo dos que perseguem uma vida feita de demandas, de equívocos e de interrogações. Uma vida de Quixotes, como a do herói anti-heróico para quem a presença no mundo se fundava na busca desse outro, viageiro e inconstante, que muitos de nós queremos ser. Na ignorância desses beers que, não por acaso, fazem do quixotismo uma opção depreciada, uma experiência na fronteira do inútil e do patético. Preferem o sabor do realismo e um tempo regulado, sem audácias ou perigos.

                          Atualidade, Olhares

                          As mãos da opressão

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                          Sabemos alguma coisa sobre como podem as vítimas de um dia converter-se nos algozes do dia seguinte. Mas sabemos pouco, muito pouco, sobre como as mãos da opressão se podem transformar, num instante, ou em menos de um instante, nas das vítimas de uma outra opressão. Nada é fácil e tudo é complexo, como toda a gente sabe. Bem, quase toda.

                          Um obrigado à IC pela partilha. O título do post cita uma velha canção de LF.

                            Fotografia, História, Olhares

                            Pãozinho sem sal

                            pão

                            Procurando uma vez mais diferençar-se de Marrocos – desde a pré-época das «matrículas europeias» dos automóveis que nos deu para isto –, Portugal é a partir de hoje «o primeiro país do mundo ocidental a ter uma lei que impõe limites ao teor de sal no pão». De acordo com um diploma aprovado na Assembleia da República com os votos favoráveis de todas as bancadas (à excepção de votos contra do CDS-PP, um do PSD e uma abstenção), produzir e vender pão com mais de 14 gramas de sal por quilo passa a ser punido com coimas até cinco mil euros, se o prevaricador for uma empresa, ou 3.500, se for «pessoa singular». De fora ficam apenas os pães com «nomes protegidos», como a broa de Avintes ou o pão de Favaios. A lei é de tal forma precursora que, como disse ao Público o Prof. Jorge Polónia, da Faculdade de Medicina do Porto, só agora «os norte-americanos estão a debater a possibilidade de introduzir limites do teor de sal por via legislativa». «Estamos a servir de exemplo», orgulha-se também Luís Martins, cardiologista e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Hipertensão.

                            Nada tenho contra o trabalho mais do que louvável que trata de prevenir as doenças cardiovasculares e o cancro do estômago num país onde se abusa tantas vezes do sal. Mas um país com uma identidade gastronómica, perdoe-se o jargão, que passa justamente pelo uso de um certo tipo de temperos em quantidades bem medidas. Pão com sal não é o mesmo que pãozinho sem sal, como lembra a cultura popular. Tal como o pão da nossa infância não é já esse produto insosso e plástico, moldado na espessura e contido nos sais, que se vende por aí. Como muamba de galinha não é muamba de galinha sem uma boa dose de jindungo, abóbora, cebola e alho. Se, no estado indiano do Rajastão, fosse proibido o abuso culinário da noz-moscada e do açafrão, substituídos por um qualquer «aroma», o crime social não seria maior.

                            Uma vez mais, os fundamentalistas dos corpos normalizados, da saúde a todo o custo, atacam com a proibição, um expediente fácil para substituir as campanhas sistemáticas e imaginativas de prevenção. Uma medida antidemocrática que impede o cidadão de optar, de livre vontade, entre o tipo de alimentação e de condimento que quer ou não comer (ingerir, dirão «eles»), que deve ou não meter da mão para a boca. Assumindo, ao mesmo tempo, a responsabilidade da escolha. Eu, por exemplo, convivo hoje com um problema gástrico derivado da leitura compulsiva, associada a um uso incontido, dessa obra-prima da nossa literatura que é a Cozinha Tradicional Portuguesa. E não é por isso que deixo de assumir as minhas responsabilidades nos excessos, ilibando de qualquer culpa a Dona Maria de Lurdes Modesto. De livre vontade gozei o que gozei, para o mal e para o bem, com o grande «prazer da mesa» lusitana que esta gente moralista, reguladora e intrusa pretende que esqueçamos.

                              Atualidade, Olhares, Opinião

                              Recordando Tony Judt

                              Tony Judt

                              Afectado desde 2008 pelo mal de Gehrig, uma doença neurodegenerativa incurável que enfrentou com a maior coragem, Tony Judt morreu hoje aos 62 anos. Foi um dos grandes historiadores da contemporaneidade. É, e permanecerá, um dos meus favoritos, cuja leitura tenho recomendado repetidamente em aulas e intervenções como ferramenta de conhecimento e exemplo do modo como a interpretação do passado nos pode ajudar a armar a cidadania. Se tivesse de o associar forçosamente a um campo do saber, classificá-lo-ia como historiador das ideias e dos intelectuais, habitante desse território da História, hoje relativamente pouco povoado mas essencial, que estuda de forma sistemática a expressão, a preservação e a mudança dos modos de representar o mundo no domínio do pensamento individual e das convicções partilhadas.

                              Em Portugal foram traduzidos dois livros de Judt, ambos por iniciativa das Edições 70: Pós-Guerra. História da Europa desde 1945 (Postwar. A History of Europe Since 1945, de 2005) e O Século XX Esquecido. Lugares e Memórias (Reappraisals. Reflections on the Forgotten Twentieth Century, de 2008). Se o primeiro é um relato exaustivo e monumental das transformações operadas no Velho Continente, e na sua relação com o resto do mundo, desde o final da Segunda Guerra Mundial até à actualidade, o segundo integra uma colectânea de escritos – inicialmente editados em publicações como a New York Review of Books – que projecta um esforço pessoal de regresso a formas de pensamento e de activismo social que têm sido esquecidas, desarmando o presente para um debate público substantivo e empurrando para o esquecimento temas tão centrais no trajecto humano como os desafios do mal, as sequelas da Guerra Fria ou a memória do marxismo. Estão por traduzir – e aqui fica a sugestão – outros três livros essenciais para compreender a intervenção do historiador inglês: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956 (1992), The Burden of Responsability. Blum, Camus, Aron and the French Twentieth Century (1998), e Ill Fares the Land, de 2010, este, já na impossibilidade de escrever, ditado por Judt, e que funciona como uma espécie de testamento político. Construído, como sempre, sob a perspectiva de quem observa o mundo como um continuum em perpétuo movimento, no qual passado, presente e futuro participam de um mesmo corpo.

                              Em O Século XX Esquecido, Judt escreveu: «o que o passado pode realmente ajudar-nos a compreender é a complexidade das perguntas». Uma sugestão que nos ajudará a retirar a História dessa teia de pseudo-certezas que apenas tem contribuído para lhe diminuir o interesse público, transformando-a tantas vezes nesse território rançoso no qual repousa um passado que serve apenas para contemplar ou para comemorar. História viva, como Judt nos ajudou a perceber, é obrigatoriamente, e sempre, questionamento a partir do presente. Num movimento de vaivém que é, justamente, aquele que a devolve à vida.

                              Ler aqui o obituário do New York Times

                                História, Memória, Olhares

                                Indiferença

                                mãos cubanas

                                Há três dias parei para beber um café e desentorpecer as pernas numa estação de serviço da A2. No restaurante, um pouco acima de um cartaz que anunciava ao preço de 9,55 Euros um prato de macarrão com pedaços de bacon provavelmente atingidos por uma granada de fragmentação, um enorme monitor de LCD espalhava a imagem e a voz de Raul Castro. De farda completa e boné militar, dirigia-se ao cordato parlamento instalado em Havana para anunciar que o seu governo jamais perdoará aos «inimigos da pátria». Assim designa o regime cubano todos aqueles que perturbem a «ordem revolucionária», sejam eles carteiristas reincidentes ou vendedores ocasionais de doces caseiros, blogueiros autónomos ou gays que digam que o são, intelectuais que defendam a liberdade de expressão ou gusanos com dentes de ouro e simpatizantes dos republicanos. Todos iguais, todos «bandidos» que instigam à desordem. Com a voz mais ameaçadora que consegue emitir, o Castro mais novo mostra como se governa em regimes de partido único: ameaçando as pessoas comuns com a voz mais ameaçadora que se consegue emitir, usando os mecanismos da propaganda sem concorrência, mostrando que não pode haver lugar para as razões de quem pensa de forma diferente da única «justa». Mas ninguém levantou os olhos para o ouvir Castro, ali na estação de serviço. Um grupo de turistas chineses ria de alguma coisa. Uma família portuguesa engolia sandes de mortadela enquanto conversava aos gritos. Duas raparigas passavam de mão dada e com headphones nos ouvidos. No aquário, os peixes continuaram em silêncio. Eu bebi o meu café e segui viagem, a pensar em como em Cuba até a indiferença deve doer.

                                  Apontamentos, Olhares, Opinião