Acabo de assinar uma «petição» online com a qual não concordo inteiramente. Neste como noutros casos, porém, parece-me que uma certa noção de consenso, imprescindível para o impacto público de determinada posição, nos dispensa de transformar em questão de princípio aquilo que em dado momento é acessório. E por isso assinei esta «petição» destinada a exprimir a solidariedade dos signatários para com a greve geral de protesto do próximo dia 24 de Novembro. É muito mais importante o gesto colectivo de apoio do que questionar agora o significado de petição (a «petição» pede, solicita, e o texto proposto declara, manifesta). É também muito mais importante assinar do que colocar em causa que se proponha como forma de luta «fechar os livros no dia 24». Isso eu não faço, porque a noção de trabalho associada à leitura e ao estudo só em parte tem a ver com a gestão capitalista da actividade intelectual. E ler, estudar, é também uma forma de luta pela apropriação social do quotidiano. Prioritária até, na minha opinião. Sem horários, férias, feriados ou greves de braços caídos. Sem esquecer este aspecto, se quiserem assinar – em princípio, só se forem ou tiverem sido bolseiros, investigadores, professores e estudantes – podem ir aqui.
Não sou leitor habitual do Avante! Salvo quando o meu trabalho o requer, leio apenas artigos do jornal para os quais me chamam a atenção. Isto nada tem a ver com a concordância ou a discordância em relação à linha política partidária que veiculam. Todos os dias oiço ou leio posições políticas muito diferentes, das quais me aproximo ou discordo, por vezes radicalmente, e não é por isso que me recuso a lê-las ou a dar-lhes a atenção crítica que merecem. Quanto muito, se não me interessam desligo e passo ao lado. Democracia é acima de tudo combate e diálogo, falar e saber ouvir, argumentar e respeitar, ser arrojado mas procurar consensos. É escolha. Mas é também expor razões sem debitar juízos de valor de natureza casuística sobre as pessoas das quais discordamos, é não insinuar frases retiradas do contexto mas procurar compreendê-las de forma integrada, é mostrar paixão sem destilar constantemente o ódio. A negação de tudo isto, está nos livros, é própria do pensamento único, que aduba o terreno para a vertigem totalitária, começando por desqualificar toda a diferença que a sua lógica cheia de certezas seja incapaz de integrar. E é esta a atitude que o Avante! constantemente propaga.
Mas não é apenas por isso que não leio o jornal. Nem é sequer porque não tenho tempo para tudo ler, o que, infelizmente, até é verdade. É também porque gosto de textos arrebatadores que ali é impossível encontrar, é porque me aborrece mortalmente a linguagem previsível e repetitiva que o percorre de uma ponta à outra, é porque rejeito a inaptidão que demonstra para debater com a verdadeira diferença, é porque não gosto de omissões escolhidas a dedo, é porque me incomoda o tom agressivo, crispado e repetidamente insultuoso de quase todos os articulistas. Um tique leninista que tem o seu livro sagrado no opúsculo miserável sobre A Revolução Proletária e o Renegado Kaustky, uma autêntica cartilha sobre a arte de bem caluniar.
Um bom exemplo no qual todas estas características se encontram juntas pode ser dado pelo artigo «Duas sílabas apenas», de Jorge Cordeiro, no qual se retoma a tendência relativamente nova do PCP para elogiar a China contra aqueles que criticam a forma como ali o direito à expressão do pensamento livre e ao pluralismo político é brutalmente espezinhado. Para além da lengalenga sobre o «preconceito anticomunista» – equiparado na verborreia a qualquer forma de combate pelos direitos humanos, o que é logo bastante significativo –, veja-se a forma ali tomada pelo ataque pessoal (pessoal, sublinho, pois nada tem de crítica de ideias) a Ana Gomes e a Francisco Louçã. A defesa abstracta da política nacionalista – que a par do obreirismo é um dos actuais esteios ideológicos e orgânicos do partido –, conduz à afirmação do mais completo desdém pelo «federalismo» de Ana Gomes, «para quem o valor da soberania nacional é como água em deserto». Uma vende-pátrias, pois. Ao mesmo tempo, remói-se o suposto passado de Francisco Louçã, «para quem só o soletrar do par de sílabas daquele país lhe aviva irresolúveis problemas de consciência que acompanham o seu percurso político», seguindo-se uma tentativa de desqualificação pessoal. Isto tão-só e apenasa propósito da crítica que a eurodeputada socialista e o dirigente bloquista fizeram às escolhas políticas da China e à intervenção das suas opções económicas no contexto da actual crise mundial. Repare-se bem que o articulista, um importante membro de penúltima geração da Comissão Política do Comité Central, se refere precisamente a dois responsáveis dos únicos sectores (a mítica «Esquerda do PS» e o famigerado Bloco de Esquerda) com os quais o PCP poderia, por um passe que desta forma só poderá mesmo ser de mágica, ensaiar a construção de uma alternativa política para o país. A não ser que conte fazê-lo com os «amigos» do Partido Ecologista Os Verdes, os veneráveis e semiclandestinos senhores da «Intervenção Democrática» e uns quanto distraídos que aparecem sempre no horário de expediente.
Claro que o facto de eu não gostar de ler o Avante!, e de não recomendar a outros que o leiam, não significa que aquilo que escrevo neste blogue e que refira de algum modo o PCP não seja imediatamente objecto de escrutínio e, como não poderia deixar de ser pois essa é «a escola», de pequenas campanhas difamatórias por parte de alguns dos seus leitores mais fiéis e mais nervosos. O mesmo acontecerá eventualmente com este post. A verdade é que até posso escrever 324 que falem do tempo que tem feito na ilha de Páscoa, do campeonato de críquete no Paquistão, da descoberta de um filme inédito com o Buster Keaton e dos chilreios dos passarinhos, mas se ao tricentésimo vigésimo quinto escrever a palavra PCP toca algures uma sirene de aviso e os bombeiros-incendiários de serviço descem pelo varão para se meterem no carro e saírem a alta velocidade pelas ruas mal iluminadas da blogosfera. Vida difícil a deles. Mas foram eles quem a escolheu.
Uma nota no Facebook chamou-me a atenção para um artigo de Viriato Soromenho Marques publicado no Diário de Notícias da última Terça-Feira. Este retomou ali a conhecida opinião de Thomas Hobbes acerca do papel do medo como factor capital para a instauração da ordem pública e do bom governo. De caminho, distanciou-se de uma opinião do filósofo José Gil a propósito do lugar do mesmo medo no actual alastramento, pelas ruas, moradias e locais de trabalho, de um clima de intimidação imposto pela fragmentação do social. No essencial, Soromenho Marques pretende dizer que esta situação não é um mal em si, podendo até, muito pelo contrário, funcionar como instrumento para a construção de um bem maior. Usando as suas próprias palavras: «O medo combate a desmesura, estimula a inteligência, promove o raciocínio estratégico, incentiva a disciplina, ajuda-nos a conhecer os nossos limites, e a respeitar os limites dos outros.» Sob diferentes rostos, esta posição tem fundamentado todas as formas de exercício discricionário da autoridade, justificando-as em nome de um arbítrio imposto por «o homem ser o lobo do homem» e necessitar de trela para não despedaçar o seu semelhante.
Este género de opinião deriva de uma filosofia social, de uma consideração do humano e até de uma uma concepção de vida na cidade que contém uma dimensão particularmente deprimente e perigosa. Ela implica a aceitação absoluta da desigualdade, já que o medo se apoia sempre numa relação de poder que subordina, sem remissão, o amedrontado a quem o amedronta. Supõe uma maldade intrínseca à essência do humano que bloqueia a construção de uma ideia de justiça que não seja a justiça do carcereiro. E ataca uma das bases fundamentais da democracia que é a expressão de uma opinião informada, fundamentalmente livre e não sujeita a coacções de toda a ordem. Regresso, para usar idênticas armas, às palavras de Jean-Jacques Rousseau, a velha bête noire de Hobbes no campo da filosofia política, retiradas do seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens, escrito em 1754 para a Academia de Dijon:
«Eu teria escolhido aquela [República] na qual os particulares, contentando-se em dar sanção às leis e em decidir pessoalmente, com o testemunho dos chefes, os mais importantes negócios públicos, estabelecessem tribunais respeitados, distinguissem cuidadosamente os seus diversos departamentos, elegessem todos os anos os mais capazes e os mais íntegros dentre os seus concidadãos para administrar a justiça e governar o Estado, e na qual, sendo a virtude dos magistrados testemunho da sabedoria do povo, uns e outros se honrassem mutuamente. De sorte que, se jamais funestos mal entendidos viessem perturbar a concórdia pública, até tempos de cegueira e de erros fossem marcados por testemunhos de moderação, de estima recíproca e de comum respeito às leis, presságios e garantias de reconciliação sincera e perpétua.»
Eis a essência desejável da democracia, seja ela representativa ou participativa, que o artigo sinistro de Soromenho Marques revela desprezar em absoluto, ao propor uma harmonia assente não no justo consenso e na dádiva mas sim na pura coerção. Talvez este exprima uma tendência que emerge do lado mais sombrio da História e que de vez em quando sai do caixão e regressa para nos atormentar, criando a ficção de que a paz dos escravos alicerça o melhor dos mundos, uma vez que nos afasta do território tumultuoso, «decaído», onde se constrói com dor a emancipação, a liberdade e o bem-estar. Talvez este seja um sinal de perigo ao qual devamos prestar atenção.
O último número, o de Novembro, da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique, globalmente excelente como sempre – destaca-se desta vez um dossiê sobre a recusa da «ordem insustentável» na qual somos forçados a sobreviver –, contém um artigo lamentável assinado por Ignacio Ramonet. Não se trata de uma raridade na intervenção do autor, pois desde há muito que Ramonet vem, repetidamente, mesclando posições justas de crítica e de combate no campo da esquerda com profissões de fé contra ideias e experiências que perturbam o núcleo idiossincrático no qual fixou a sua concepção do que é ou não é esquerda. Ou, mais abrangentemente, do que é ou não é democrático, de acordo com a noção de democracia que o seu conceito de esquerda recolhe. Não esqueço, por exemplo, a série de conferências que proferiu (estive pelo menos em duas), de artigos e livros que escreveu (alguns deles foram editados em Portugal), dedicados, há cerca de uma década atrás, ao combate contra alguns dos inúmeros «malefícios da Internet» que depois foram instrumentais no levantamento de novas formas de sociabilidade e de determinados movimentos sociais.
Desta vez Ramonet atira-se, em «Os dois Mario Vargas Llosa», ao mais recente «escrevedor» laureado com o Nobel da Literatura. Começa por confirmar enfaticamente a sua valia como escritor, reconhecendo-o como «extraordinário na capacidade de misturar as técnicas de romance social, histórico e realista, ou mesmo do romance policial», tendo-o, aliás, mostrado «brilhantemente». Mas logo de seguida, e é esse o objectivo central do artigo, volta-se contra o que considera ser a deriva de direita do escritor. Está, naturalmente, no uso do seu mais do que legítimo direito à crítica. Aliás, partilho de algumas das suas perplexidades em relação a determinadas posições tomadas no passado, no plano político, por Vargas Llosa. Mas o jornalista vai muito para além da discordância, insinuando mesmo questões de carácter cuja invocação, para além de incorrecta, é até profundamente injusta. Ouçamo-lo: (mais…)
O serviço público dos correios fez-me chegar esta semana três livros que encaixam, cada um à sua maneira, no grupo das obras que podem interromper o opressivo discurso realista a propósito do que merece verdadeiramente a nossa atenção. Qualquer um deles nos ajuda a identificar no trânsito de outros tempos, recorrendo a vozes e a lugares distantes, formas de mágoa, de desilusão mas também de alguma esperança. Estados de espírito não contabilizáveis em termos de utilidade, que nos aproximam muito mais do humano do que os malabarismos especulativos para justificar a crise do sistema e as incomodativas arengas que asseguram nada podermos fazer para a derrotar, salvo esperar, tal como acontecia com as pragas medievais, que faça as suas vítimas e passe o mais rápido possível. Fecho pois a porta da rua, ligo o candeeiro, acendo um cigarro e mergulho nos papéis.
O primeiro livro é A Tomb for Boris Davidovich, do jugoslavo Danilo Kiš. Sim, jugoslavo, pois morreu em 1989 e, como descendente de sérvios, croatas, montenegrinos, húngaros e judeus, não fora Tito e os seus partizans e teria uma vida muito diferente. Kiš publicou em 1976 este conjunto de sete contos – convocado por Harold Bloom para The Western Canon – que são biografias ficcionadas de pessoas que existiram, confrontadas a dada altura do seu passado com a degenerescência do regime socialista e a impiedade do seu sinistro aparelho repressivo. A particularidade destes contos reside numa característica dos protagonistas: todos eles se distinguiram das pessoas comuns por terem acreditado um dia no ideal comunista e no mundo novo que este parecia poder produzir sob condições «reais». Porém, todos também viveram para testar a brutalidade de um sistema capaz de engolir muitos dos que confiaram nos seus fundamentos, que lhe dedicaram parte das suas vidas e que o ajudaram a erguer. Com todas estas histórias se aprende, no entanto, que a injustiça coabita sempre com a confiança no que trará o dia seguinte.
O segundo é Café Europa. Life after communism, da croata Slavenka Drakulić, lançado em 1996. Ao contrário do que pode ser encontrado no também seu Como Sobrevivemos ao Comunismo Sem Perder o Sentido de Humor(já aqui comentado), neste livro fala-se do universo renovado, cravado de vícios antigos mas também de grandes expectativas e de enormes logros, que resultou das transformações ocorridas no leste europeu nos anos que se seguiram imediatamente à Queda do Muro e ao colapso do comunismo institucional. Fala-se principalmente do vácuo deixado pela derrocada do poder socialista nos sistemas de crenças e nas expectativas da generalidade das pessoas, comuns e incomuns. Forçadas todas elas, de um momento para o outro, a esquecerem a ficcionalização da utopia com a qual tinham convivido ao longo de décadas, e obrigadas a trocá-la pela convivência difícil com o deserto do real. Detecta-se todavia um halo de confiança, traduzido numa certa convicção de que a integração na casa europeia comum abriria um caminho novo para a felicidade possível. Como se sabe, a história parece estar a correr mal, mas os sinais de esperança tendem sempre a persistir.
O terceiro livro, a única novidade, é The Memory Chalet, de Tony Judt, a cuja voz regresso uma outra vez. Este sim, é mesmo o derradeiro livro do historiador, escrito já num estado de enorme debilidade motivada pela doença que o foi diminuindo e acabou por levar. O anterior Um tratado sobre os nossos actuais descontentamentos foi redigido, aliás, já nesta situação. No entanto o processo utilizado foi aqui prodigiosamente único. Noite fora, totalmente imobilizado na cama, Judt passou a empregar o tempo com evocações e devaneios, através dos quais a sua prodigiosa memória foi ocupando, divisão a divisão, o «chalé suíço», como lhe chamou, no qual este livro se foi transformando. De manhã ditava as suas evocações, algumas delas publicadas ainda na New York Review of Books.Trata-se pois de um conjunto de 25 «ensaios ditados», provavelmente um género novo, através dos quais Judt nos foi falando da juventude em Londres, do ano de 1968 e dos grandes projectos da sua geração («uma geração revolucionária que falhou a revolução»), de viagens através da Europa e da América, de cheiros, de sabores, de comboios, chegadas e partidas. E sobretudo de pessoas no tempo, presas sempre, umas às outras, através desse «fio da História» que nunca desistiu de perseguir.
A proposta requer coragem: «Terras de ninguém, espaços de anonimato, interioridade comum… eis as armas de uma política nocturna cujo objectivo é sempre o mesmo: atacar a realidade. Atacar a realidade para poder respirar.» É pois a realidade o princípio e o destino desta colectânea de ensaios de Santiago López-Petit. Subjugada a um capitalismo sem freios, que hoje nada deixa de fora, que tudo envolve, é nela que se encontra a chave para a compreensão de um mundo opressivo que urge superar. Quatro conceitos primordiais guiam o trabalho do autor. O primeiro reconhece o «Estado-guerra»: após o 11 de Setembro, a política global passou a ser determinada pelo combate, pela via do bombardeamento ou da «legislação furtiva», contra um inimigo que o Estado escolheu. O segundo conceito refere um «fascismo pós-moderno» construído sobre o reconhecimento público da diferença para melhor poder neutralizá-la. O terceiro fala do poder «como poder terapêutico», assente num contrato que apenas nos permite viver a vida que nos é concedida. O quarto conceito coloca-nos perante uma nova questão social: o «mal-estar» que esta situação intensamente tirânica suscita, forçando «um gesto radical de rejeição» que não é já «o gesto moderno que depois da destruição anunciava e preparava um novo começo». Este livro de filosofia política invoca pois um dever: mobilizar, a partir do próprio real e não contra ele, o combate diário contra a opressão instalada e o capitalismo. [Santiago López-Petit, A Mobilização Global. Seguido de O Estado-Guerra e outros textos. Deriva. Trad. e comentários de Rui Pereira. 248 págs. Nota publicada na LER.]
De acordo com o director da Sala de Imprensa da Santa Sé e porta-voz do Vaticano, o teólogo, presbítero e padre jesuíta Federico Lombardi, a Igreja católica é mais vítima do que culpada da «praga dos abusos sexuais», a qual avisadamente vê como «uma das pragas do mundo actual». Os motivos do flagelo parecem-lhe óbvios: a presente «crise da família», a desordem trazida pelo turismo e o comércio sexual facilitado «pela Internet e pelas novas formas de comunicação.» Eis de novo a reacção típica da hierarquia da Igreja católica, que a propósito do tema confunde causas e instrumentos. Insiste em ignorar, em termos públicos, uma ligação mais do que óbvia entre a autoridade da função sacerdotal e da própria Igreja junto de numerosas pessoas e comunidades, a intensa repressão sexual que esta insiste em pregar e impor como norma de conduta, e os abusos recorrentes, que na esmagadora maioria dos casos permanecerão aliás no mais completo silêncio, devido ao pudor ou ao receio dos envolvidos. Na Irlanda, para não ir muito longe, conhecem-se números aterradores sobre a proliferação deste tipo de situações, ocorrida de forma transversal e vertical no conjunto da instituição e das suas ramificações, mas o volume de denúncias públicas é ainda bastante moderado. Para não falarmos daquilo que inevitavelmente aconteceu nos mais variados recantos do mapa ao longo de séculos de coacções e silêncios. Nessa longa era de paz e de sossego sem Internet ou outras formas livres de comunicação que perturbassem, com conversas bastante inoportunas e indecorosas sugestões, o casto descanso, por vezes aromatizado com suor e sémen, das celas, das camaratas e das sacristias.
Domingo. Hoje de manhã, ao deambular por entre escaparates repletos de DVD enquanto tentava fintar as crianças que corriam destrambelhadas à procura de filmes da Ovelha Xoné, dei de caras com um episódio do passado. Com um incidente que não esquecera mas estava claramente adormecido no fundo mais fundo da minha memória RAM. A razão da lembrança foi ter deparado com uma versão remasterizada de uma «película» estreada em 1968, The Green Berets (Os Boinas Verdes), com John Wayne no esplendor da sua compleição de trangalhadanças reaccionário a actuar também como realizador. Trata-se do primeiro filme americano sobre a Guerra do Vietname, rodado no auge da intervenção militar de Washington na Ásia do Sudoeste, e que assume uma posição claramente anticomunista e pró-Saigão. Tendo em consideração a política externa americana da época, a dimensão simbólica ocupada pelo conflito vietnamita, o perfil particularmente odioso de Wayne e o sentido ideológico do filme, é fácil de ver que este fez levantar protestos em muitos lugares do planeta, chegando mesmo a registar-se casos de violência e de boicote a salas de cinema que se atreveram a passá-lo.
Em Junho ou Julho de 1969, quando o filme passou em Portugal, eu vivia em Tomar, onde me preparava para concluir o ensino secundário. Recordo-me de ser Verão porque fui, na minha inocência política daqueles anos – que provavelmente se mantém bem conservada – ver o filme, como se de um simples filme de aventuras se tratasse, a um cinema ao ar livre que funcionava mesmo no centro da cidade, no parque que faz, ou fazia, paredes-meias com o Estádio Municipal. Lembro-me apenas de o filme ter começado, e, pouco minutos depois, do ruído de pés a bater no chão de cimento e de gritos a impedirem as famílias pacatas e ordeiras de continuarem a seguir as proezas do Coronel Mike Kirby e dos seus subordinados. De repente um brado em crescendo: «Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial! Abaixo a Guerra Colonial!» Afinal uma grande parte dos espectadores – alguns deles, presumo, estudantes de Coimbra que já tinham abandonado a cidade por ser altura de férias e a luta estudantil estar interrompida – eram manifestantes anticolonialistas que aproveitaram o filme para gritarem contra outra guerra, a sua Guerra, que detestavam e queriam ver terminada. Claro que depois de alguma hesitação também gritei. E quando chegaram meia dúzia de polícias para terminarem com a sessão corri também pelas ruas mais próximas tentado escapar das bastonadas. Foi a minha primeira manifestação anticolonial. Thank You, Mr. Wayne! R.I.P.
Um dos mitos popularizados que envolve a Segunda Guerra Mundial põe frente a frente, como numa versão hollywoodesca da História, uma aliança de «bons» e outra de «maus». O escritor e produtor de séries para a BBC Laurence Rees reconhece ser esta uma forma reconfortante mas bastante redutora de olhar para o passado, mostrando em Segunda Guerra Mundial: À Porta Fechada, com recurso a um aparato documental retirado dos arquivos e de testemunhos de participantes directos nos acontecimentos, que é urgente abandoná-la. Na verdade, entre a assinatura do acordo Molotov-Ribbentrop – o infame pacto germano-soviético de não-agressão e de divisão de despojos assinado em Moscovo em Agosto de 1939 – e o período subsequente à Conferência de Ialta, os líderes das potências responsáveis pela derrota militar de Hitler – Estaline, Churchill, Roosevelt – não pararam de levar a cabo actos de um cinismo, crueza e falta de sentido de justiça que deveriam bastar para retirar-lhes de vez o halo que ainda possam conservar de heróis abnegados e impolutos.
Esta obra perturbante trata de passar em revista e de nos colocar mesmo à frente dos olhos uma teia complexa de manobras de bastidores, de apagamentos suficientemente dolorosos e de brutais iniquidades que tiveram os povos da Europa Central e Oriental, e principalmente a desgraçada nação polaca, como vítimas de matanças e deportações em larga escala, dos quais os três tiveram conhecimento mas que jamais se esforçaram por evitar. Quando não as promoveram. Deste banho de sangue é no entanto a figura do ditador soviético, o decantado «Paizinho dos Povos», que emerge como particularmente sórdida: pelas ruas reduzidas a pó de Varsóvia ou de Berlim, como nos acontecimentos da floresta de Katyn, as demonstrações que patrocinou de completo desprezo pela vida humana de civis e de combatentes mantiveram-se ao nível da sua ambição imperial. [Laurence Rees, Segunda Guerra Mundial: À Porta Fechada. Estaline, os Nazis e o Ocidente. Dom Quixote. Trad. de Manuel Marques. 504 págs. Versão de uma nota publicada na LER.]
Muitos são já os que não sabem quem foiMarcelino Camacho, desaparecido hoje aos 92 anos. Por nada de especial: os anos vão passando e vão pesando, a saúde fraqueja, e a dada altura não é fácil permanecer na primeira linha do combate e ter a atenção dos meios de comunicação, para os quais os velhos são tantas vezes trapos que não atraem audiências. Além disso, ser sindicalista não constitui uma «profissão de sucesso»: os sindicalistas não aparecem nas páginas da ¡Hola!. No entanto, quem acompanhou o seu percurso sabe do papel interveniente que teve em momentos tão dramáticos e decisivos da História de Espanha como a Guerra Civil (batendo-se, naturalmente, nas fileiras republicanas), a resistência clandestina ao franquismo ou a construção de um movimento sindical combativo e autónomo. Foi militante do Partido Comunista de Espanha desde 1935, e jamais deixou de o ser, tendo-se aliás oposto, em 1991, à dissolução do PCE na Izquierda Unida. Mas foi ao mesmo tempo um dos principais impulsionadores das Comissiones Obreras, a poderosa organização sindical que manteve sempre uma atitude modelar, de combate mas politicamente bastante aberta, unitária sem ser unitarista, de cuja prática se excluía o centralismo e onde o sectarismo não foi a regra mas sim a excepção. Durante décadas, foram «as CCOO de Marcelino Camacho» e estava tudo dito. Ficou-nos um exemplo e os exemplos não são para esquecer.
No filme A Vida dos Outros, de Florian Henckel von Donnersmarck, a frase é de Bruno Hempf, o ficcionado ministro da Cultura da RDA, e destina-se a servir o elogio público de Georg Dreyman, um escritor que ele crê, apesar das suspeitas da Stasi, ser fiel ao regime: «Como disse um grande filósofo marxista cujo nome neste momento me escapa, os escritores são os engenheiros das almas.» O «esquecimento» pretendia ser irónico, uma vez que essa frase foi repetidamente atribuída a José Estaline, que aliás a teria aplicado para se referir aos intelectuais no seu conjunto. Nela, a perversão encontra-se num entendimento puramente instrumental do papel do escritor ou do artista, apenas toleráveis enquanto intelectuais se aplicados sem hesitações numa «causa do socialismo» orientada por quem se arrogava dirigi-la num sentido unívoco e historicamente irrevogável. Materializado na União Soviética de forma crescentemente inflexível a partir de Junho de 1925, quando se adoptou uma resolução «Sobre a política do Partido no domínio da literatura artística» assinada por Nikolai Bukharine, o princípio passou posteriormente a ser aplicado na generalidade dos Estados do chamado «socialismo real». Aí determinando privilégios e exclusões, o direito à voz ou a obrigação do silêncio, por vezes a linha entre a vida e a morte.
Em Gainsbourg – Vida Heróica, de Joann Sfar, a ponta incandescente do cigarro e o fumo que dela se liberta têm uma dupla utilidade. Objecto omnipresente e grande vício, evocadores do jovem pintor-pianista Lucien, uma noite transfigurado por Juliette Gréco – pelo menos no filme, e talvez assim tenha acontecido também fora do cinema – em Serge, o compositor de canções, o artista de variedades, o futuro agent provocateur enrugado e decadente. Mas ao mesmo tempo, num tempo em que nos impõem que os maus, os ameaçadores, aqueles que pugnam pela desordem, são sistematicamente associados ao acto compulsivo de fumar, serve para subverter os códigos dos enredos higienicamente correctos. Logo no genérico, concebido como uma longa tira de banda desenhada, o fumo do cigarro é o ar que se respira e a água que se bebe: todos fumam, constantemente, perdidamente… menos um pelotão de nazis que atravessa a Paris ocupada sem qualquer concessão ao hábito.
É fácil gostar do filme, mas não só por se gostar da poesia pop que escapa das canções de Gainsbourg. Da música inesperada, sempre uns tantos passos à frente, do respirar da palavra dúctil e só aparentemente repentina que corria paralela às tendências dominantes da chanson française do tempo, praticadas pelo crooner Aznavour ou por um militante Brassens. Gostei também deste filme por aquilo que se percebe desde o início mas que o realizador entendeu dever recordar, no final dos 130 minutos, ao espectador mais distraído: de SG disse não serem «as verdades dele» que o interessaram, «mas sim as suas mentiras». Neste sentido, não se trata de uma biografia clássica que apenas recapitula uma história conhecida, nem de uma hagiografia que transforma o biografado num ente predestinado. Procura-se antes o processo que levou a personagem a tomar conta do homem.
A «vida heróica» de Serge que nos conta Sfar agarra o heroísmo pelo lado que me parece certo: todos os heróis humanos são, fora dos momentos em que exercem a sua singular profissão, no dia-a-dia das discussões domésticas e das contas por pagar, uns tipos insuportáveis, a quem só os excessos, de perversidade ou de nobreza, de paixão ou de raiva, associados a um sentido de justiça cujo código são eles próprios que escrevem, conferem a dimensão de extravagância e de bravura. Por isso, por não ser um Gaisnbourg canonizável, mas na realidade um anti-herói com muito de atormentado e alguma coisa de oportunista, tão singular e excessivo como tantas pessoas comuns que nunca saíram em capas de revista, é que esta «vida de artista» em formato animado nos pode seduzir. Humanizando com muita dignidade a própria decadência do biografado, contando com algum pudor a sua encenação do excesso. A desmesura da música como modo de vida, de sexo com divas apetecíveis e de cigarros Gitanes que se acendiam uns nos outros. Um belo filme francês, deixem que vos diga.
Adenda – O trabalho de legendagem é por vezes mau. Não sei se por dificuldades com alguma das duas línguas se por mero descuido. Um exemplo: transformar «Je t’aime / moi non plus» em «Eu amo-te / eu também não» não lembra ao diabo.
Este é um post-catástrofe. Números divulgados apontam para que cerca de 20 por cento da população portuguesa sofra de uma doença «que se caracteriza por tristeza mais marcada ou prolongada, perda de interesse por actividades habitualmente sentidas como agradáveis e perda de energia ou cansaço fácil». Isto é, de depressão. Estes dados reportam-se a estimativas que por sua vez se fundam nos casos já diagnosticados. Na realidade, os números tenderão a subir quando puderem ser consideradas as situações de fronteira, que colocam quem com elas convive numa posição de grande vulnerabilidade, ou os casos não declarados, mascarados através de atitudes erráticas que resistem à melancolia recorrendo a uma «fuga para a frente». Mas trata-se aqui de um vigor à beira das lágrimas, perto de se transformar, ao primeiro pretexto, no seu contrário. Ou de testar os seus próprios limites.
Em Janeiro, o mais tardar em Fevereiro, quando o bolo-rei estiver comido e já não houver bacalhau para meter no microondas, quando os cintos começarem verdadeiramente a apertar, o panorama será agravado, concorrendo depressão e recessão na propagação da infelicidade. Desta nascerá o desespero e a prostração, mas também, acreditem, a ira. Diminuirá então a produtividade e crescerá o desprezo por uma ordem injusta, propagando o anseio de uma mudança radical. Cidadãos comuns transformar-se-ão em hooligans ou em maximalistas para poderem sobreviver. E não será apenas à noite, a coberto da escuridão. Se virem bem os diligentes responsáveis pelas agências de rating, bem como os agentes económicos e os dirigentes políticos que se lhes submetem sem resistência, despeito e desordem são factores pouco favoráveis ao crescimento económico e à paz social que supostamente o deverá sustentar, e dos quais tanto cuidam. Não é preciso ser-se adivinho ou profeta para perceber isto. Não sei se dentro deste caldo de cultura crescerá a semente da violência se o ovo da serpente, ou se ambos, mas nada de bom se anuncia. Pensem nisto por um minuto.
Bem pior do que o dualismo em filosofia, que apenas toca quem a ele mais ou menos racionalmente adere, é o dualismo em matéria de política, uma vez que afecta, ou pode vir a afectar, comunidades inteiras, países completos ou regiões tomadas de uma ponta até à outra. Traçar linhas rectas a meio do mapa da realidade é possível, ou pode ser útil, em situações extremas e num tempo curto – no momento da batalha, por exemplo, é muito difícil tentar convencer as partes de que o mundo é belo e não vale uma salva de morteiros –, mas jamais será, na maioria dos casos e no longo prazo, uma solução boa, justa ou inteligente.
Uma vez em Zolkiew
Clara Kramer era uma menina judia que vivia com a família na cidade polaca de Zolkiew, situada hoje no distrito ucraniano de Lviv, ou Lvov. Como milhões de polacos, ela e a família sentiram na pele o impacto do Pacto Molotov-Ribbentrop de 1939, do qual resultou, quase de imediato, a ocupação da cidade pelos soviéticos. No seu livro de memórias (*) recorda as humilhações impostas aos polacos e a rápida «sovietização» da região, logo acompanhada da prisão e da deportação daqueles considerados indesejáveis pelas novas autoridades. Desde as minorias étnicas e religiosas às pessoas com algum destaque social que não fossem declaradamente comunistas. Só que em 21 de Julho de 1942 os nazis conquistaram a cidade e desencadearam o massacre e a deportação sistemática dos milhares de judeus que tinham continuado, apesar de tudo, a habitar a cidade. Quase todos irão perecer mas a família de Clara conseguiu esconder-se num bunker que escavara à mão sob a casa do Senhor Beck, um alemão, declaradamente anti-semita, que afinal os irá proteger permitindo a sua sobrevivência. A partir do bunker seguirão o horror que se espalhou então pela cidade, lutando todos os dias para lhe escapar. Em 24 de Julho de 1944, a fuga das tropas de Hitler e a entrada na cidade dos soldados do Exército Vermelho, do qual existia antes uma tão má experiência, foi naquela situação olhada com imensa alegria e como uma libertação salvadora. Clara podia agora «olhar para as nuvens que flutuavam no céu azul, uma visão que julgara nunca mais voltar a ter». Afinal, existia um mal ainda maior, mais cruel e definitivo, do que aquele que, um dia, julgara ser o pior dos males.
Cabul now!
Podemos agora ensaiar uma comparação. A presença americana no Afeganistão contém em si um grande número de males para a esmagadora maioria da população do país. Não se trata apenas do uso regular da violência brutal sobre sectores da população ou da incompreensão das especificidades do país, traduzida, ela também, em atitudes típicas de um exército de ocupação. Trata-se igualmente do seu apoio a um regime intensamente corrupto, cujo objectivo mais claro é conservar o poder pelo poder, sem um programa de desenvolvimento real do país, desinteressado da vida real das populações, dos seus direitos mais elementares, e transigindo frequentemente com a repressão sistemática das pessoas comuns, sobretudo das mulheres. É natural, por isso, que exista descontentamento e, mais do que isso, que se desenvolva a ideia de mudança como um imperativo. Só que, neste preciso momento, a defesa pura e simples da retirada imediata das tropas americanas tem como corolário a automática tomada do poder pelos talibãs. Que já se encontram de novo, como é sabido, às portas das principais cidades. Será a opressão americana, associada ao poder discricionário, tantas vezes injusto, da Aliança do Norte, rigorosamente equivalente à tirania brutal e desapiedada do poder talibã? E será aceitável que o necessário fim da guerra tenha como moeda de troca a autoridade assassina dos papagueadores de versículos? Não é possível que para alguém com sentido da realidade e de justiça – e só por causa de um ódio visceral ao inimigo americano, ou só por causa dos direitos dos povos «a assumirem o seu próprio destino» – se torne aceitável o retorno imediato à mais profunda barbárie, a um poder instituído pela lei da chibata e da forca. Barak Obama não é o mullah Omar.
Nestes assuntos, manter uma visão estritamente dual, esquecendo que até na gestão do mal existe uma gradação, pode tornar-se uma forma de cegueira e de cumplicidade com o crime. Aliás, aplicando esta perspectiva a momentos decisivos da história contemporânea, episódios indispensáveis para a vida dos povos e o triunfo sobre a opressão teriam sido impossíveis. Como aconteceu, por exemplo, com o desembarque dos Aliados na Normandia e o bombardeamento sistemático das cidades alemãs controladas ainda pela Wehrmacht e pelos destacamentos das SS. Para não ir mais longe.
(*) Clara Kramer (2010). Clara. A menina que sobreviveu ao Holocausto. Alfragide: Asa. Trad. de Elsa T. S. Vieira. 336 págs.
Segundo uma notícia que saiu hoje no Público, em breve as agências funerárias poderão gerir «actividades conexas» àquelas que tradicionalmente exerciam, tais como a «gestão, exploração e conservação dos cemitérios». Uma actividade que até agora era entendida como um serviço eminentemente público, dirigida em regra pela administração local, passa a ter «permissão de gestão e de exploração privada». Sabendo nós que – tal como acontece com as casas de pasto, os bares de alterne e as farmácias – este é um ramo no qual não existe quebra de procura, e onde a política de preços é bastante livre e nada meiga, é fácil calcular o conjunto de interesses que a sua entrega à iniciativa privada irá despertar. Um passo mais no recuo do Estado social nas suas competências, mas agora numa original dimensão post-mortem. Podemos desde já antever planos de crédito que unirão gerações inteiras de profissionais da morte e de simples cidadãos endividados até à quinta geração de descendentes. Sempre com a negra possibilidade do despejo a pairar-lhes sobre a sepultura. Sem descanso até à eternidade.
O drama dos 33 trabalhadores da mina de ouro e cobre de San José, no deserto de Atacama, não pode esgotar-se no seu final feliz. Porque se encontra ligado às sempre difíceis condições de trabalho de uma das mais antigas ocupações operárias. Uma profissão cravada de enormes riscos, tremendamente insalubre, com duras cadências e geralmente muito mal paga, mas por isso mesmo marcada por um companheirismo profundo entre a generalidade dos que nela passam a maior parte da vida e dela fazem o seu ganha-pão. Aliás, o movimento operário sempre teve entre os mineiros uma das suas alas mais combativas, radicais e solidárias e não foi por acaso que uma das mais tocantes imagens que ontem passaram em algumas televisões foi a de dois mineiros australianos, homens maduros que já viveram um drama análogo ao dos chilenos e, durante um directo, foram incapazes de conter os soluços de comoção diante das experiências vividas pelos seus camaradas do outro lado do Pacífico.
Vale a pena, por isso, lembrar neste momento de alegria a situação catastrófica dos mineiros chineses, com índices de sinistralidade e de mortalidade – associados a condições de trabalho e salariais miseráveis – verdadeiramente inconcebíveis. Estudos recentes apontam para cerca de 1.000 (mil, não é engano) mortos por ano, correspondendo a 80% do número de fatalidades ocorridas em todo o mundo quando a produção mineira da China é apenas de 35% da global. Em 2006, e de acordo com os números oficiais, o número de mortos foi mesmo de 7.500. Um acidente praticamente em cada 7 dias, a maior parte sem referência nos meios de comunicação e nenhum deles com um décimo da atenção mediática dada ao acidente de San José. Será de recordar estes dados aos responsáveis do partido político português que calam os crimes diários praticados na China contra os trabalhadores mas se preocupam tanto com a atribuição do Nobel da Paz ao activista dos direitos humanos Liu Xiaobo. É que uma sua posição de denúncia, a ser feita na devida altura e sem rodeios, seria por certo um gesto internacionalista capaz de «contribuir para a afirmação dos valores da paz, da solidariedade e da amizade entre os povos». Passe a expressão que de há muito trataram de tornar inócua.
No mundo antigo, organizado à volta das relações de parentesco e dos laços dinásticos, as afinidades electivas, as amizades, eram excepcionais, aparecendo muitas vezes, justamente por isso, como subversivas. O cristianismo tentará eclipsar este tipo de ligação ao colocar como modelo a relação individual com Deus. Por isso também, as comunidades monásticas afastaram a amizade das regras do seu quotidiano: as ligações privadas representavam uma ameaça para a coesão do grupo e para a fé. Os humanistas, porém, retomaram-nas, construindo a primeira rede pan-europeia assente na fidelidade pessoal e numa aproximação de valores e de sensibilidades, que mantinham recorrendo principalmente à correspondência privada. Já a Revolução Francesa emancipou o valor da aproximação pessoal ao colocar a fraternidade como uma das suas divisas nucleares. A cultura da amizade de grupo chegaria décadas mais tarde, associada em parte à extensão do sistema escolar e ao serviço militar obrigatório e universal, criadores de espaços e de tempos de aproximação. Terá atingido o seu zénite nos anos sessenta, permanecendo como um vestígio ainda atraente por volta de 1989, quando arranca a série televisiva Seinfeld. A coesão do grupo dependia aí, em primeiro lugar, das cumplicidades assentes no relacionamento diário, directo e pessoal, entre aqueles que o compunham.
Não sei se existe ou não uma linha de continuidade, nesta narrativa flash da amizade, com o universo dos «amigos» que todos os dias fazemos entre os mais de 520 milhões de habitantes – a larga maioria composta por mulheres, vá lá o Diabo explicar o porquê – que povoam o mundo-rede do Facebook. Parece que a média por pessoa é de 130 afectuosos companheiros e amorosas parceiras, o que só por si nos remete para esse conceito de «salto qualitativo» utilizado nos catecismos do materialismo dialéctico para significar uma alteração efectiva do estado das coisas. Significará esta multiplicação de «amigos» o futuro da amizade? Por mim, admito que a maioria dos quase 500 que tenho me aparece como um vulto. Simpático muitas vezes, sobretudo quando salta da penumbra e lhe oiço a voz, mas um vulto. Isto se excluir a quantidade de voyeurs e exibicionistas que passa no horizonte, muitos deles mais empenhados em multiplicar audiências do que em agregar empatias. Mas há mesmo, por ali, pessoas que não conhecemos em pele e osso e de quem, até prova em contrário determinada pelo feitio, o penteado ou o mau hálito, gostamos ou acreditamos que gostamos. Com elas, e com algumas das outras, vamos cruzando gostos e cumplicidades, defendendo causas de outro modo perdidas, trocando informações úteis e frases calorosas que só ali nos saem do tinteiro. Será isto «amizade»? Ou apenas, nesta sociedade atomizada, com as referências vindo e partindo em perpétuo movimento, «uma tentativa de encontrar um sentimento de pertença a um colectivo», como escreve a socióloga Stéphane Hugon? Assistimos ali à construção de relações de proximidade que partem do colectivo para o indivíduo e não o contrário? Pode ser esta a chave para entender a mudança? Se for assim, não será mau de todo. Basta adaptarmo-nos. E ir aproveitando os restos do mundo arcaico feito de afectos conquistados com a epiderme. Afinal Jerry Seinfeld, George Costanza, Elaine Benes e Cosmo Kramer não se conheceram no Facebook.
[Vem um bom dossier sobre este tema no número de Outubro da revista francesa Books.]