Arquivo de Categorias: Olhares

Vêm aí as praxes

Salgueiros, de Tiago Pereira

Segundo o Público, os organismos de veteranos que tutelam a praxe de oito academias – Évora, Porto, Aveiro, Minho, Beira Interior, Trás-os-Montes e Alto Douro, Leiria e Coimbra – vão reunir-se no início de Setembro «para defenderem as tradições académicas», isto é, as praxes, procurando criar um regulamento geral capaz «de separar muito bem o que é a praxe e o que não é». O objetivo último da iniciativa, declaram alguns dos que a preparam, é conter os abusos, impedindo «barbaridades» e estimulando «o respeito». De acordo com o responsável de um desses organismos, tal respeito será necessariamente «dos mais novos em relação aos mais velhos, mas também dos mais velhos em relação aos mais novos». As regras não colidirão com os vários códigos da praxe, destinando-se apenas a impedir os excessos e o enviesamento dos objetivos corporativos que visam essas práticas «tradicionais» e datadas. (mais…)

    Atualidade, Olhares, Opinião

    Nelson por ele mesmo

    No dia exato em que Nelson Rodrigues, do Recife e do Rio, deveria fazer 100 anos.

    «Hoje é muito difícil não ser canalha. Todas as pressões trabalham para o nosso aviltamento pessoal e coletivo.»

    «O homem não nasceu para ser grande. Um mínimo de grandeza já o desumaniza. Por exemplo: um ministro. Não é nada, dirão. Mas o facto de ser ministro já o empalha. É como se ele tivesse algodão por dentro, e não entranhas vivas.»

    «Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca.»

    «Toda a unanimidade é burra.» (mais…)

      Apontamentos, Biografias, Olhares, Recortes

      Quase chuva

      No ar a espiral empurra a brisa, leva-a
      quarenta léguas adentro do Mar Oceano.
      Perto, o silêncio simula a tranquilidade,
      o céu esconde-se, as árvores inquietam-se.
      Um vulto passa vadio, quase a adivinhar
      a chuva que vem como vapor de lavandaria.
      O Oldsmobile de 57 parece nascido ali
      e não ao longe, num subúrbio de Detroit.
      Na marginal deserta os rostos vacilam
      certos da presença ameaçadora dos cães.
      O horizonte ignora a tempestade, inábil,
      tão próxima quanto a sombra que a veste.

        Olhares, Poesia

        Subindo, temos

        Paul Celan aos 18

        Estacas com bandeiras
        recrutadas para dar as boas-
        -noites à esquerda
        do leme.

        cardumes de olhos, oceânicos
        por dentro, para sempre
        por sobre
        as baleias
        que nadam até ficar cegas,
        lançam para cima
        os seus últimos males,
        para o que, subindo, temos
        de sondar.

        Paul Celan – De A morte é uma flor. Poemas do espólio
        (Trad. de João Barrento)

          Olhares, Poesia

          As escolhas do Bloco

          Fotografia de Márta Szabó

          Há cerca de 14 meses, logo após o desastre eleitoral que o BE produziu e viveu nas legislativas de 2011, e em consonância com um debate público, alargado a não-militantes, que então parecia ir ter lugar, escrevi aqui quatro posts sob o título comum «O Bloco no seu labirinto». O tempo passou, a discussão parece ter-se escondido, e um conjunto de práticas então criticadas manteve-se aparentemente inalterável. Este texto retoma, resume e atualiza alguns dos argumentos ali avançados. Mas procura, pois agora só isso é urgente, olhar principalmente para o futuro.

          Não me parece, ao contrário do que por aí se diz e escreve, que as dificuldades do Bloco de Esquerda, a clarificação das dúvidas sobre os caminhos que pisa, o esclarecimento público dos seus objetivos, passem necessariamente por mudanças profundas no núcleo dirigente. As escolhas, claro, são feitas por pessoas: elas têm rosto, traduzem percursos, sugerem as expectativas e as qualidades de quem as toma. Mas não parece existirem clivagens que imponham a troca de dirigentes com rodagem e com energia para cumprirem o seu trabalho político, por outros que, numa mera operação de cosmética, apenas poderão oferecer, como numa mudança de logótipo, uma imagem pública diferente. O alargamento e a renovação dos organismos de direção, a expansão da sua representatividade e colegialidade, o combate ao sectarismo que ainda se deteta, a ampliação dos militantes com formação qualificada, integram uma solução; já deitar fora ideias, experiência, dedicação, não tem necessariamente de fazer parte dela. A solução deve encontrar-se noutro lado. (mais…)

            Atualidade, Olhares, Opinião

            Les feuilles mortes


            | Yves Montand em Parigi è sempre Parigi (1951), de Luciano Emmer

            Elegia e Recordação da Canção Francesa
            por Jaime Gil de Biedma

            C’est une chanson
            que nous ressemble.
            J. Kosma e J. Prévert: Les feuilles mortes

            Lembrai-vos: a Europa estava em ruínas.
            Todo um mundo de imagens me resta desse tempo
            descoloridas, a ferir-me os olhos
            com os escombros dos bombardeamentos.
            Em Espanha, a gente apertava-se nos cinemas
            e não existia aquecimento.

            Era a paz – depois de tanto sangue –
            que chegava andrajosa, como a conhecemos
            os espanhóis durante cinco anos.
            E todo um continente empobrecido,
            carcomido de história e de mercado negro,
            de repente foi-nos mais familiar. (mais…)

              Olhares, Poesia

              A espionagem que veio do frio

              Berlim
              Berlim. Fotografia de brain d. bug

              Uma das formas de desrespeito pelos direitos dos outros – e também de aviltamento da condição humana – passa pelo uso seletivo, contra alguém ou contra grupos, de insinuações, meias-verdades ou completas mentiras. Pode ser que quem o faça consiga os seus intentos imediatos, mas não ganha com isso, com toda a certeza, a consideração de quem se apercebe de tais estratagemas. Eis uma «lei universal» que a todos se aplica: não é possível respeitar quem, para obter vitórias fáceis e rápidas, ou para depreciar publicamente alguém, recorra à mentira ou à manipulação das palavras. Fazê-lo é, entre outras coisas, sinónimo de falta de transparência e de caráter. As duas ou três pessoas com quem nesta vida me incompatibilizei, justificaram a minha atitude justamente pelo uso reprovável da manipulação, da mentira, da depreciação de outros. Distorcendo as suas palavras ou fazendo eco, sabendo o que faziam, de calúnias produzidas por terceiros. Produzindo pravda, «verdade revolucionária», em vez de verdade. (mais…)

                Apontamentos, Atualidade, Olhares, Opinião

                Revolução

                Para Antonio Muñoz Molina algumas das maiores revoluções da sua vida aconteceram aos outros. Em lugares onde não estava, como Lisboa, Berlim ou o Cairo. Uma experiência frustrante que pode ser partilhada. Não estar ali, naquele momento, no lugar onde tudo aconteceu. Quando a História toma o freio nos dentes e por instantes as grandes expectativas, outrora adiadas para futuros incertos, ganham forma em vidas que não são as nossas, em cidades que jamais habitámos, em línguas que não nos pertencem. Delas chegam-nos então as imagens rápidas, televisionadas, das correrias pelas ruas, dos cartazes que se agitam, dos gases irrespiráveis, das mots d’ordre na ordem do dia. Nessas alturas reconhecemos na ira dos outros, no rasgo que dela chispa, um impulso simpático que partilhamos, necessário para que as nossas vidas possa, também elas, incluir uma dimensão de esperança. Se é verdade, como escreveu Ralph Waldo Emerson, o filósofo e poeta americano de Oitocentos, que cada revolução começa por ser uma ideia na nossa própria cabeça, então vislumbrá-la nesses horizontes distantes ecoa em nós, através dos outros, noutras vozes e noutras praças, a consciência da sua possibilidade. Tudo acontece rapidamente e a festa acaba demasiado depressa, mas ficam as marcas, os despojos, insinuando que um dia pode voltar a acontecer. Algures, talvez aqui, talvez connosco.

                  Atualidade, Devaneios, Olhares

                  Os artistas, nós todos

                  Talking. Fotografia de Sébastien Tabuteaud

                  O cerco imposto pela «política do real», aquela que apenas atende aos dados objetivos, ao deve e ao haver, às necessidades materiais mais elementares, a metas quantitativas, é, entre os partidos da democracia, protagonizado agora pela quase totalidade do espetro político. À direita porque essa é a atitude natural, esquecidos que foram, levados pelo tempo, os impulsos do velho personalismo a propósito da «comunidade de pessoas», depois adotados pela defunta democracia cristã. À esquerda porque se desistiu de pensar uma política do impossível – indispensável para projetar a mudança – em favor do pragmatismo que apenas olha para o ritmo das refeições. Passo pelas palavras do Padre Manuel Antunes, publicadas em 1979 no seu notável Repensar Portugal, e revejo a premente necessidade de voltarmos a procurar naqueles que pensam de forma imprevisível – em confronto com as necessidades humanas, mesmo as mais íntimas e imateriais – o caminho da esperança e do futuro.

                  Que espécie de sociedade desejamos? Que espécie de sociedade deseja o povo português? Ouso interpretar. De resto é essa uma das funções, se não a principal função do intelectual na cidade. Para além, claro, da missão de defender o seu próprio ideal e as suas pró­prias opiniões, mesmo quando esse ideal e essas opi­niões não vão ao sabor dos senhores da hora. O intelectual não deve ter medo de ser ou parecer diferente dos outros, de querer escapar ao nivelamento univer­sal em que, por via de regra, esses mesmos senhores pretendem rasoirar os que, de uma certa forma, lhes estão sujeitos. Por isso, como avança Oskar Morgenstern, os governos fazem mal em só prestarem atenção aos dados sociais, económicos e técnicos dos mundos que administram. Deviam também consultar os artistas pela sua «extraordinária presciência» do que se passa ou vai passar na profundidade desses mesmos mundos.

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                    Bibliocrime

                    Existe quem defenda que roubar livros não é crime, uma vez que os bens culturais devem dispor de trânsito livre, universal e gratuito. Ressalvando os casos em que o ladrão tem em vista a raridade bibliográfica que pode seguramente valer uma boa maquia, trata-se de um produto do qual realmente só se apropria sem passar pela caixa registadora quem é um real connaisseur ou dele precisa mesmo. Rouba-se então pelo gosto, para alguns pela necessidade, de ler. Ou então pela compulsão bibliófaga. Rimbaud roubava livros, e Genet, como não podia deixar de ser, também o fazia. Sei de cidadãos, alguns de perfil público, que em dado momento das suas vidas, por aperto financeiro ou gosto do risco, se dedicaram com tenacidade e bom proveito a essa pequena mas nobre arte. Que fiquem descansados em relação aos efeitos casualmente perniciosos da minha memória, pois não sou delator. Além disso, e para ser sincero, não estou em condições de poder garantir não ter eu próprio sucumbido no passado à cobiça, deixando-me envolver – devido provavelmente às más companhias – no emocionante submundo da transgressão associada ao consumo de produtos brochados ou encadernados. (mais…)

                      Apontamentos, Olhares

                      Futebol e desencontros

                      Como no amor, aconteceram, na história da literatura, das artes ou da filosofia, desencontros que poderiam ter sido belos encontros. Possíveis que se revelaram impossíveis. Karl Marx e Charles Darwin tiveram uma reunião prevista, marcada por um amigo comum, mas esta acabaria por não acontecer. Soljenitsine e Nabokov falharam por muito pouco uma prometida conversa. E nos anos quarenta Orwell marcou um encontro com Camus em Saint-Germain-des-Prés, mas como este se atrasou um pouco, aborreceu-se e foi-se embora. Conhecendo o percurso de ambos, as causas que partilharam, as marcas que deixaram, aquele poderia ter sido o princípio de um belo entendimento. (mais…)

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                        Plano de fuga

                        Não define a ausência
                        o conhecimento da terra,
                        a proximidade dos lírios, das
                        estradas sem destino.
                        Não conhecem roteiros a
                        sabedoria do sol e o silvo
                        dos insectos sem asas e cegos
                        que procuram água.
                        Não existe poesia sem
                        conhecimento, saber sem sal,
                        na vida diária feita de passos e
                        de réstias e de perdas.
                        Não sabem os trilhos dos mapas
                        perdidos inventados
                        ou da existência de um norte
                        frio, férreo, inamovível.
                        Não produzem os passos linhas
                        e nós de navegação
                        para que possamos desenhar
                        um ótimo plano de fuga.

                          Olhares, Poesia

                          Girassol

                          Nem bancos de lama,
                          nem água negra e lodosa
                          cheia de pinhas de amieiro e folhas corroídas.

                          Nem salsa-brava no inverno
                          canelas e pulsos velhos e esbranquiçados,
                          com a sua sibilância, o seu tremor.

                          Nem mesmo o verde vivo de uma sombra veranil
                          densa com borboletas
                          e cogumelos bojudos como uma sela de couro.

                          Não. Mas antes, na quietude de um canto,
                          agarrado ao seu muro ponteado a seixos,
                          pesado, pendendo para a terra, todo boca e olhos,

                          O girassol, num sonho cor de umbra.

                          Seamus Heaney – fragmento de Trabalho de Campo
                          (Trad. de Rui Carvalho Homem)

                            Olhares, Poesia

                            Ecos

                            T. S. Eliot

                            O tempo presente e o tempo passado
                            Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
                            E o tempo futuro contido no tempo passado.
                            Se todo o tempo é eternamente presente
                            Todo o tempo é irredimível.
                            O que podia ter sido é uma abstracção
                            Permanecendo possibilidade perpétua
                            Apenas num mundo de especulação.
                            O que podia ter sido e o que foi
                            Tendem para um só fim, que é sempre presente.
                            Ecoam passos na memória
                            Ao longo do corredor que não seguimos
                            Em direção à porta que nunca abrimos
                            Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
                            Assim, no teu espírito.
                                                            Mas para quê
                            Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
                            Não sei.
                                                     Outros ecos
                            Habitam o jardim. Vamos segui-los?

                            T. S. Eliot – Fragmento de Burnt Norton (Trad. Maria Amélia Neto)

                              Olhares, Poesia

                              Passado sem futuro

                              Os invernos poderiam ter sido menos rigorosos, menos tristes as viagens de comboio, menos previsíveis os desfiles do Maio. Teríamos crescido a cruzar pacificamente as cidades dos irmãos Vesnine, a viver com os quadros de Altman, os poemas de Tsvetaeva e de Akhmatova, os compassos menos previsíveis de Chostakovitch. Aragon não teria cantado o cavalo metálico sob as chaminés poluentes de Magnetogorsk. Barbusse teria permanecido um desconhecido para os nossos avós. Eisenstein teria filmado grandes planos de gargalhadas e de mãos usadas em carícias. Ter-se-ia fundido menos bronze para robustecer as estátuas. Não teriam ressoado gritos nocturnos pelos corredores da Lubianka. Teria corrido menos gelo pelas almas e ter-se-ia notado mais ruído pelas ruas. E provavelmente o socialismo seria hoje uma expressão de humanidade tão calorosa e natural quanto o amor, a felicidade ou a compaixão. A desigualdade e a opressão, essas seriam palavras raras, apenas reconhecíveis em velhos romances e compêndios de História antiga. De facto, o futuro atrasou-se um pouco. Mas prometeu que virá.

                                Heterodoxias, Memória, Olhares