Entrei casualmente numa página do Observatório do Algarve, já com alguns meses, que contém uma notícia intitulada «Alte revê-se na “Aldeia Mais Portuguesa de Portugal”». Não sei de que forma a pessoa que falou sobre o documentário ali anunciado abordou o concurso organizado em 1938 pelo Secretariado da Propaganda Nacional do Estado Novo. Admito que o possa ter feito de uma forma correcta e contextualizada. Mas sabendo como grande parte das autarquias trata o seu passado, desconfio sempre de certas evocações locais. Demasiadas vezes, a demanda identitária, a «procura das raízes» que os seus responsáveis tentam levar a cabo, traduz-se na recuperação acrítica e anacrónica de eventos, figuras ou práticas desse passado. Apresentados como fragmentos puros da tradição, ou vectores patrimoniais, mais não são muitas das vezes, embora sob nova roupagem, do que uma forma de revivalismo ou de recuperação de valores que seria suposto a mudança histórica ter deixado para trás.
Não se trata aqui de negar uma parte da História – todo o passado merece ser olhado e compreendido – mas, no caso da «Aldeia Mais Portuguesa de Portugal», tem-se de facto assistido, tantos anos depois, ao branqueamento de um episódio marcante na reprodução dos ideais cívicos do Estado Novo. Foi António Ferro, o director do SPN, quem, referindo-se já em 1940 a Monsanto, a aldeia vencedora do concurso – e que por isso arrebatou um simbólico Galo de Prata –, falará da sua «imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa, que não inveja nem quer a riqueza de ninguém, selo da pátria espiritual que fomos e queremos ser». Povoada por um conjunto de almas que «vive contente a rezar, a dançar e a cantar, dando lições de optimismo às cidades fatigadas». Melhor retrato da configuração salazarista do «verdadeiro Portugal» não há.
A Angelus Novus está a relançar o meu livro O Poder da Imaginação – com o subtítulo «juventude, rebeldia e resistência nos anos 60» –, publicado originalmente em 2003. Se não o encontrar na sua livraria pode sempre encomendá-lo aqui. Se não estiver de todo interessado, saiba que também faz muito bem.
Existe uma «falha de memória» no que respeita à vida dos portugueses que retornaram à «Metrópole» – muitos deles pisando pela primeira vez solo europeu – nos anos quentes da descolonização. Uma falha de memória processada em duas direcções: de um lado, esse passado foi praticamente apagado pela maioria dos «portugueses de Portugal», envolvidos na culpa e no remorso da dominação colonial e desejosos de se penitenciarem exorcizando-a; do outro, os próprios ex-colonos foram silenciando o que tinham vivido, esperando talvez, por essa forma, obter uma mais rápida adaptação à sua nova vida europeia. A própria historiografia participou deste processo, aplicando-se a partir de dada altura em conhecer a realidade da guerra ou a emergência das novas nações, mas omitindo uma parte importante da vida «branca» que ficara para trás. Quanto aos ex-colonos, o seu emudecimento contribuiu, imperceptivelmente, para a construção de mitos e fábulas a propósito da experiência passada, sublinhando as boas recordações de uma «vida maravilhosa» que se perdera, mas geralmente abafando as más.
Nos últimos tempos, porém, um certo revivalismo colonial apoderou-se da edição nacional. É verdade que a visibilidade pública dessa romagem de saudade permanece contida, mas o número de publicações – álbuns de imagens ou musicais, livros de memórias, romances de temática colonial – denuncia a existência de um público interessado e, pelo menos na aparência, ainda vasto. Imagino muitas dessas pessoas, no resguardo da sua sala de estar, folheando noite afora estes livros com emoção, algumas lágrimas ocasionais, e, não poucas vezes, também um pouco de azedume. Uma destas obras, que acabo de comprar já em 2ª edição, é Angola, Terra Prometida, subintitulada «A vida que os portugueses deixaram», da autoria da jornalista freelancer Ana Sofia Fonseca e publicada pela Esfera dos Livros.
Sirvo-me do texto da contracapa para um panorama que me parece correcto: «Através de testemunhos de uma pesquisa exaustiva [a autora] leva-nos aos bairros de Luanda, ao mato e às praias. Ao dia-a-dia dos portugueses, aos seus usos e costumes. Em suma redesenha os contornos de uma vida que já só existe nas recordações de quem a viveu.» Entrevistas, cartas, diários, fotografias, jornais, cartazes, postais, servem então para trazer à vida os banhos de mar quente, a Cuca gelada, as lagostas, o cinema ao ar livre, «o cheiro a terra encarnada, os bailes, as grandes festas». E também as caçadas, os amores, o sexo, as velhas amizades, «os melhores anos da vida de muitos portugueses». A realidade e a imaginação de um mundo-outro que de facto existiu, embora assente sobre um colchão de espuma ou rodeado por uma campânula de vidro que desvanecia ou distorcia a restante paisagem, cego para os fumos de guerra que lhe deveriam toldar o horizonte.
Ana Sofia Fonseca – que se serve aqui, por vezes, de uma linguagem pitoresca e aparentemente démodé, contaminada sem dúvida pela fala das pessoas com as quais dialogou e o vocabulário dos documentos dos quais se serviu – chama-lhe um livro «de memórias, histórias e emoções». É-o, sem sombra de dúvida, como é também um livro nostálgico. Mas a nostalgia não é um mal em si, e, como acontece neste caso, serve muitas vezes não só para ajudar a encontrar rincões de vida que de outra forma se perderiam para sempre, como para observar, a partir do presente e com diferentes olhos, aquilo que, na altura, a premência do quotidiano ou a magia da «vida boa» impediram de perceber ou remeteram para um plano distante. Falo, naturalmente, da guerra colonial e da experiência diária dos outros angolanos. Geralmente os de pele menos clara, sem tempo e dinheiro para habitarem esse «cenário perfeito para uma vida feita de pequenos e inesquecíveis prazeres». Um cenário no qual, sem dúvida pela interferência de um esforço de imparcialidade da autora, ainda assim vão de vez em quando assomando.
Ana Sofia Fonseca, Angola, Terra Prometida. A vida que os portugueses deixaram. A Esfera dos Livros, 2009. 328 págs.
Anna Walentynowycz, Proletariuszka, a «Ana Proletária», era uma mulher de estatura muito baixa. Com 51 anos, estava a começar a ganhar algum peso, mas no gigantesco Estaleiro Naval Lenine continuavam a chamar-lhe também «Mala Anna», a «Pequena Anna». Sempre cheia de energia e de trato afável, toda a gente a conhecia e era um dos operários mais populares do estaleiro. Tinha trabalhado ali durante trinta anos e estava agora a cinco meses da reforma. Tendo ficado órfã durante a ocupação da Polónia pelos nazis, tornara-se então militante comunista. O seu projecto de vida tinha sido participar na construção do socialismo e o lugar onde começou a bater-se por essa tarefa foi o Estaleiro Naval Lenine.
Era uma operária exemplar, uma soldadora que por causa da baixa estatura era enviada muitas vezes para os recantos mais difíceis e estreitos da estrutura dos navios. Em 1951, aos 29 anos era membro da Brigada de Trabalho Rosa Luxemburgo e ganhou o prémio Herói do Trabalho. Segundo o discurso de louvor, no ano anterior tinha aumentado a sua produtividade laboral em 270% («um dos momentos de que mais me orgulho na minha vida», diria muito mais tarde). Após dezasseis anos a manejar o maçarico, Anna ascendeu a uma posição mais responsável, como operadora de grua. Somente um punhado de mulheres do estaleiro – que fabricava sobretudo cargueiros para exportar para a URSS – tinha as qualificações necessárias para manobrar uma maquinaria tão cara e potencialmente perigosa.
Em 1965 foi-lhe diagnosticado um cancro e deram-lhe poucos anos de vida, mas mais tarde, depois da radioterapia, os médicos descobriram que se tinham enganado e que afinal ela sempre estivera de perfeita saúde. Ao longo de todo aquele tempo mantivera-se sempre uma operária empenhada, «patriótica e leal ao comunismo». Era tão respeitada que os colegas de trabalho começaram a consultá-la cada vez mais com problemas pessoais. Ela tentava ajudá-los de forma prática, ou então limitava-se a ouvir as suas queixas com empatia. Começou a abrir os olhos aos poucos e a aperceber-se de como a sua «nova Polónia» estava bem longe do paraíso socialista pelo qual tanto trabalhara.
Os acontecimentos precipitaram-se em 1970, quando num grosseiro erro de timing, apenas uma quinzena antes do Natal o governo aumentou em 36% os preços de alimentos básicos como a carne, o pão, o leite e os ovos. Estalaram então motins em várias cidades polacas. O mais violento foi em Gdansk, onde a polícia disparou contra manifestantes desarmados no exterior do Estaleiro Naval Lenine. Morreram ali 44 operários. Ainda assim, Anna manteve-se longe dos problemas. Porém, tal como muitos dos seus compatriotas, começou a radicalizar-se à medida que se ia inteirando da vida quotidiana na «Polónia socialista». Referia-se sempre aos operários que tinham morrido em 1970 como «mártires» e tornou-se uma das pessoas que procuravam assegurar que houvesse sempre velas e flores nas suas campas. Descobriu entretanto um esquema de extorsão que envolvia uma fraude a larga escala, da qual beneficiavam pessoalmente os dirigentes do sindicato oficial do estaleiro, naturalmente controlado pelo Partido Comunista.
No 1º de Maio de 1978 deu então o primeiro passo que a iria colocar sob a mira dos apparatchicks do Partido como um problema potencial. Juntou-se a um grupo criado nesse dia, chamado Comité Fundador para os Sindicatos Livres da Costa Báltica. Em breve este comité receberia um nome mais fácil de decorar: Solidarnosc, ou Solidariedade. Começaram a publicar um jornal, O Trabalhador Costeiro, que na primeira página da sua edição inaugural declarava o seu principal e objectivo: «Somente os sindicatos independentes, que contam com o apoio dos trabalhadores que eles representam, têm uma oportunidade para desafiar o regime. Somente eles conseguem representar um poder com o qual as autoridades terão de lidar um dia numa base de igualdade.» Anna Walentynowycz foi um dos 65 activistas que assinaram a carta de direitos do jornal no dia da sua fundação.
Anna morreu hoje, aos 80 anos, no mesmo desastre de aviação que vitimou o presidente da Polónia e um grande número de dirigentes e quadros do país. Dirigiam-se todos para Smolensk, na Rússia, com o objectivo de participarem nas cerimónias fúnebres em memória das vítimas do massacre de Katyn, ocorrido em 1941 quando a polícia secreta estalinista, o NKVD, executou mais de 20 mil oficiais polacos capturados pelo Exército Vermelho. Dela poucos falarão, mas aqui fica a lembrança.
NOTA – Parte substancial deste post foi escrita recorrendo a Revolução 1989. A Queda do Império Soviético, um livro do jornalista húngaro Victor Sebestyen editado em 2009 pela Presença.
Num dos prefácios o autor faz notar que «a medição do tempo é apenas um aspecto de um assunto muito mais vasto: o significado do tempo e a variedade das formas como é percebido e usado». Por isso esta história dos relógios é bastante mais que um relato detalhado da invenção e do aperfeiçoamento desses aparelhos mecânicos de medir os dias: representa também um esforço de compreensão da forma como estes rapidamente alteraram a vida colectiva e o modo dos humanos decifrarem o mundo. David S. Landes procurou, no fundo, fazer com os relógios aquilo que outros fizeram com a imprensa, mostrando como o seu uso fez detonar um conjunto de processos que excederam em muito os contornos da revolução tecnológica.
Publicada originalmente em 1983, A Revolução no Tempo foi revista em 1998 na sua edição em inglês, e foi esta que a Gradiva agora traduziu. Preservaram-se as três partes constitutivas da primeira edição – a que aborda a razão pela qual a invenção e o aperfeiçoamento do mecanismo ocorreu lugar na Europa, a que relata o modo como o relógio foi aperfeiçoado para ser cada vez mais portátil, fiável e duradouro, e a que descreve as vidas, os trabalhos e as conquistas dos que os foram produzindo – mas deu-se agora ênfase suplementar às profundas alterações técnicas das últimas duas décadas do século passado, em particular aquelas que disseram respeito à «revolução do quartzo» e ao uso do telemóvel, do computador, da rádio e da televisão como marcadores do tempo de todos os dias. Talvez seja sob este aspecto, porém, que esta obra acusa algumas falhas, uma vez que não discute o modo como a introdução destes novos processos de medição começou a apagar essa divisão do quotidiano em parcelas, em tempos fixos, que a utilização dos relógios mecânicos ainda supunha, substituindo-as por um «antes» e um «depois» cujo referente pode ser agora a chamada telefónica, o indicativo musical ou o programa de televisão.
Para além de um volume enciclopédico de informação sobre a história e a tecnologia dos relógios, produzida a partir de Galileu e da sua descoberta do isocronismo das oscilações do pêndulo, que só por si justificaria o interesse deste livro, destaca-se ainda o papel atribuído pelo autor ao facto da revolução produzida implicar uma metamorfose ética imposta pela possibilidade de rentabilizar os dias – detecta-se aqui uma articulação visível entre a nova forma de medir o tempo e uma ética calvinista do trabalho que teria escapado à análise de Max Weber – que se traduziu, para os europeus que rapidamente a adoptaram, num catalisador do crescimento económico e da sua afirmação planetária. Esta mudança ofereceu também à própria percepção da história um «cenário cronológico» anteriormente desconhecido, com implicações nos domínios da filosofia, da teologia, da literatura e até da política.
Poucos temas são tão delicados para a consciência histórica partilhada pelas esquerdas quanto o é Cuba e a sua experiência após o 1º de janeiro de 1959. Sublinho a palavra escolhida: «esquerdas» e não «esquerda», uma vez que para regressarmos ao ponto em que era possível, no mundo capitalista, uma proximidade de expectativas e de metas entre as correntes divergentes que se reclamavam do socialismo – e que se reivindicavam da esquerda como sua «casa comum» – será preciso recuarmos ao tempo em que, há mais meio século, naquela noite de São Valentim, os guerrilheiros barbudos da Sierra Maestra entraram em Havana para expulsar o ditador Batista e os seus patronos norte-americanos. Naquela altura, é bom relembrá-lo, a Revolución cubana, apesar da cuidadosa desconfiança inaugural das rígidas chefias da União Soviética e dos partidos comunistas que as seguiam, fazia o pleno da simpatia e das esperanças do que então se designava «a humanidade progressista».
Criava-se então uma «lenda de Cuba», grata desde logo a um grande número de intelectuais da esquerda ocidental, e que foi capaz de seduzir, como experiência onde era possível projectar todas as expectativas de igualdade, boa parte da juventude do mundo inteiro. A guerra de guerrilha que se seguiu ao acidentado desembarque do Granma e que conduzira em pouco tempo à derrota de um exército e de uma força aérea apoiados pelo governo dos Estados Unidos, parecia, vista de fora, algo de miraculoso. E o facto da pequena ilha açucareira, situada a apenas noventa milhas marítimas da Florida, se haver tornado o primeiro «Estado socialista» do hemisfério ocidental, não fez senão crescer essa admiração. Em The Fellow-Travellers. Intellectual Friends of Communism, David Caute observou que a revolução cubana se tornara à época «a Revolução», funcionando como um exemplo e um modelo, reforçado, sobretudo entre gerações que acabavam de despertar para a experiência política, pelo facto de parecer desenvolver-se «sem cedências», ultrapassando, assim escrevia Simone de Beauvoir, «as noções do possível e do impossível». E, aspeto não menos importante, sem copiar o figurino de qualquer dos sistemas de poder então conhecidos.
O controlo de um Estado independente por homens e mulheres sem rugas ou complexos, belos e de porte informal, romântico, que utilizavam positivamente e sem limites palavras proscritas ou depreciadas em quase todas as partes – «revolução», «rebeldia», «anti-imperialismo», «igualdade», «coletivização» ou «alfabetização» – e atuavam centradas no presente, potenciou essa simpatia que tocou intelectuais e activistas, jovens ou maduros, tão diferentes como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Régis Debray, Susan Sontag ou Hans Magnus Enzensberger. O desembarque invasor pró-americano de 1961, na Praia Girón/Baía dos Porcos, o apoio político e militar prestado pelas novas autoridades cubanas a diversos movimentos de guerrilha espalhados pelo mundo, o empenho na alfabetização maciça da população da ilha, o esforço de colectivização da maior parte da propriedade fundiária, uma indiscutível ampliação dos serviços prestados aos trabalhadores nos domínios da saúde e da educação, fariam com que a auréola de exemplaridade do regime cubano não parasse de aumentar, sendo ampliada ainda com a atividade carismática de figuras desprovidas dos maneirismos e da linguagem estereotipada dos estadistas conhecidos, como eram a de Fidel, a de Camilo Cienfuegos, ou a do singular «Che» Guevara. Os textos de Régis Debray (Révolution dans la Révolution, 1967) e de K. S. Carol (Guérilleros au Pouvoir, de 1970), na sua época muito lidos e traduzidos em diversas línguas, contribuíram, e bastante, para ampliar esse processo de mitificação do significado e da missão daquela particular estirpe de «revolucionários em movimento».
Uma imagem poderosa da ilha de José Martí como, nas palavras de François Hourmant, um «cocktail de rum branco e de aparente euforia geral», ou como localização da utopia terrena possível, onde até o trabalho possuía uma dimensão festiva, fixava-se pois em numerosos ambientes, produzindo um «tropismo cubano» com um vigor tal que ainda hoje perdura na lembrança de bastantes pessoas da geração que recebeu o seu primeiro impacto, dando forma a algumas das suas actuais convicções, ou fazendo com que outras se continuem a mostrar incapazes de criticar abertamente as autoridades de Havana, ainda que muitas das iniciativas por estas tomadas nas últimas décadas já lhes não pareçam sedutoras ou sequer justificavéis. Como escreveu o ensaísta e crítico de arte cubano Iván de la Nuez em Fantasia Vermelha, para um certo número de pessoas «Cuba não é apenas Cuba, é qualquer coisa mais», funcionando como «um pretexto para criticar um mundo ordenado sob o signo do mercado, e, por extensão, os males do capitalismo», e mostrando ao mesmo tempo que aquilo que a maior parte dos cidadãos do planeta entende como democracia representativa é para algumas delas algo de dispensável. Para estas, a frase com a qual Sartre encerrou a sua visita a Cuba – «os cubanos devem triunfar ou perdemos tudo, até a esperança» – faz ainda todo o sentido. A esperança associada à nostalgia é, de facto, uma arma poderosa.
Rui Bebiano
Dois outros posts sobre o tema que fui escrevendo e permanecem razoavelmente actuais: A imensa tristeza (já de 2003) e Relógios cubanos (de 2009).
Não se trata de mais uma daquelas sinopses destinadas a difundir detalhes biográficos dos dirigentes do Terceiro Reich. Ferran Gallego, professor de história do fascismo na Universidade Autónoma de Barcelona, dirige-se aqui a quem já conhece os factos essenciais, procurando principalmente «compreender um movimento de época através da experiência pessoal que se cruza com o espaço público» e descortinar as motivações e os caminhos que levaram um certo de homens a materializar o compromisso activo de importantes sectores da sociedade alemã com o programa nacional-socialista. Enquanto experiência assente num poder absoluto de uma magnitude até então desconhecida, o nazismo é aqui apresentado como um caudal de energias que resulta da confluência de determinadas condições históricas com a acção decisiva de um conjunto de personalidades fortes próximas de Adolf Hitler.
Gallego ocupa-se de um grupo de destacados colaboradores do Führer constituído por combatentes da primeira hora, todos eles com um lugar proeminente na construção do Partido Nacional-Socialista, e de um outro, formado por homens mais jovens que se mostraram particularmente preparados para assumirem um papel activo na direcção do partido e do Estado. Do primeiro fizeram parte Anton Drexler, pioneiro do nazismo e porta-voz de um nacionalismo popular, Julius Streicher, anti-semita convicto instrumental na ascensão de Hitler, Gregor Strasser, representante da esquerda nazi e «estratega pragmático», Ernst Röhm, instrumental na organização das forças paramilitares das SA, Hermann Göering, o criador da Gestapo e chefe da Luftwaffe, um conservador vinculado aos grandes interesses económicos, Robert Ley, responsável máximo pelo controlo do trabalho operário, e Alfred Rosenberg, o teórico aristocrata que fez dos factores raciais o núcleo do projecto utópico nazi. Alguns destes, como Drexler, Strasser e Röhm, viriam a ser eliminados ou marginalizados para que o antigo cabo pudesse emergir como líder irrefutável. No segundo grupo incluem-se Joseph Goebbels, o nacionalista nihilista, esteta criador do mito de Hitler e ministro da Propaganda, Baldur von Schirach, o organizador da poderosa Juventude Hitleriana, Heinrich Himmler, líder das SS, administrador do Terror de Estado e responsável por «uma duplicidade de protecção e de repressão» que acostumou a sociedade à violência de massas, Alber Speer, o tecnocrata cínico e vaidoso do qual o historiador se serve para abordar a arquitectura no Terceiro Reich, e Martin Bormann, o burocrata eficaz que se transformou na «sombra do Führer».
O livro abre e encerra com a evocação dramatizada do discurso de Thomas Mann pronunciado em Berlim em 17 de Outubro de 1930, no qual, confrontado já com a ascensão fulgurante do nazismo, o escritor pedia um compromisso salvador entre a democracia liberal e a social-democracia. Uma proposta destinada ao fracasso no momento em que, como recorda Gallego, tinha ganho já enorme peso uma percepção estética do «poder da Comunidade» que iria destruir a República de Weimar e riscar do mapa o jogo partidário.
Pensei ter entrado na quinta dimensão. Li o título da nota noticiosa sobre o perdão concedido a Jesse James e por momentos julguei tratar-se da revisão do rico registo criminal do bem sucedido (com o gatilho) bandido do Missouri, abatido à má-fila por um traidor em Abril de 1882. Afinal tratava-se apenas do perdão de Sandra Bullock ao trastalhão do marido, homónimo do fora-da-lei, que se tem andado a divertir à grande, benza-o Deus, com uma tal de Michelle «Bombshell» McGee. Os mergulhos no passado têm-me distraído um pedaço das coisas importantes.
No início do ensaio «Um dois, esquerda ou direita – o meu país», de 1940, integrado na antologia Livros & Cigarros agora editada pela Antígona, George Orwell escreveu o seguinte:
«Ao contrário do que muita gente julga, o passado não era mais fértil em acontecimentos do que o presente. Se assim parece, é porque, ao recordarmos os tempos idos, amalgamamos coisas que sucederam com vários anos de intervalo, e porque são bem escassas as memórias que nos chegam genuinamente virgens. É em grande medida devido aos livros, filmes e reminiscências vindas a lume entretanto que prevalece agora a ideia de que a guerra de 1914-18 possuiu um carácter tremendo, épico, que falta à guerra actual.»
De facto, a memória que reconhecemos como construída é frequentes vezes mais forte, e aparentemente mais sólida, do que os vestígios materiais que nos chegam do passado. Aquilo que me atrai é ver como essa memória construída ganha força, se autonomiza, e produz em nós certezas e percepções de experiências que jamais vivemos. Para o historiador profissional essa é uma dificuldade: a imaginação tolda a consciência e inventa ilusões, obrigando a um esforço suplementar, muitas vezes inglório, de busca da objectividade possível. Já para o cidadão comum essa dificuldade deixa de o ser, tornando-se até um factor adicional de enriquecimento do imaginário. O ideal, no limite, será podermos cruzar as duas perspectivas e perceber que a História não é apenas «o que foi» mas de igual forma aquilo que outros nos disseram que foi e nós próprios fomos construindo e interiorizando, sujeitos a múltiplas influências e leituras, como representação.
«Mas caso tenhamos vivido durante essa guerra e sejamos capazes de separar as nossas memórias genuínas dos acréscimos posteriores, verificamos que não eram habitualmente os acontecimentos grandiosos que nos faziam vibrar. Não creio que a Batalha do Marne, por exemplo, se tenha revestido, para o público em geral, da natureza melodramática que mais tarde lhe foi conferida. Nem sequer me recordo de ouvir a expressão ‘Batalha do Marne’ até se terem passado vários anos.»
O trabalho de construção ficcionada do passado produz também esse efeito. Quanto mais nos distanciamos temporalmente dos acontecimentos, mais deles emergem os grandes momentos, os grandes movimentos, os campos magnéticos. Mas quanto mais os estudamos, quanto melhor lhes observamos os detalhes, os ampliamos, mais deles se destacam os pormenores irrepetíveis, da vida comum, de todos os dias. Sem filtros ou grandes explicações. A «verdade» está assim em todo o lado: no passado e nos sucessivos presentes que o foram remodelando. Está em toda a parte e ao mesmo tempo em parte alguma. Por isso jamais tem fim o trabalho do historiador e por isso a História é sempre parcialidade e incerteza. O que só enriquece o seu poder de questionamento e de atracção.
O conhecimento da História ajuda-nos a relativizar «verdades» absolutas, a entender a complexidade do que parece simples, a reconhecer que a perfeição possível resulta sempre da superação do transitório e da dispersão do inabalável. Ver e rever as sequências do passado faz-nos rejeitar as interpelações do mundo que trocam a análise objectiva, complexa, instável, pela afirmação peremptória de uma interpretação simples que parece irrevogável. É a recusa desta perspectiva fácil e maniqueísta que torna inaceitável que se some à denúncia das iniquidades contra os direitos humanos cometidas pelos americanos no centro de detenção de Guantánamo a compreensão pelos crimes cometidos em Cuba contra a liberdade de consciência e os direitos cívicos dos que a defendem. Que torna inadmissível que à exposição dos crimes consumados pelos responsáveis israelitas contra as pretensões legítimas dos palestinianos se junte a defesa irracional do anti-semitismo e a cumplicidade para com as manifestações de brutalidade do Islão radical. Que nos mostra como o único lugar para a firmeza e a irredutibilidade se deve circunscrever ao combate diário contra o elogio da incompreensão e a disseminação do ódio.
Plastic People of the Universe Oh Yeah – How Nicely You Sleep [Egon Bondy’s Happy Hearts Club Banned, 1978] PLAY
A música pop era um perigo para o Estado. E os Plastic People of the Universe (1968-), a banda mais conhecida de todas, eram perigo elevado ao quadrado. Com os seus cabelos compridos, blusões de couro, calças de ganga, t-shirts tingidas à mão, não passavam, para as rígidas autoridades socialistas, de «gente preguiçosa que foge ao trabalho». Estas consideravam que a sua música não tinha a ver com arte, «ameaçando seriamente os valores morais da sociedade», e que as letras das suas canções eram «de uma vulgaridade impressionante e com um impacte anti-socialista e anti-social, glorificador do niilismo». Muitos checos consideravam, no entanto, que «se Husák e a o regime estavam contra os Plastic People, então era porque a banda fazia aquilo que estava certo».
Apesar de, junto com outros grupos checos, terem sido proibidos de actuar em lugares públicos, conseguiam sempre arranjar forma de tocar em casamentos e festas de aniversário, em «reuniões privadas», em jardins ou pracetas de subúrbio. Mas a polícia secreta, a Stání Bezpecnost, seguia-lhes os passos, ao mesmo tempo que a sua popularidade irritava cada vez mais as vozes neo-estalinistas do regime saído da derrota da Primavera de Praga. Numa noite de Março de 1976, perfazem-se agora 34 anos, os Plastic foram finalmente detidos, acusados de «alcoolismo, toxicodependência e comportamento anti-social», e condenados a entre um e três anos e meio de prisão. Cerca de dois meses depois do julgamento, Václav Hável e outros escritores, artistas, académicos e músicos, originalmente 243 pessoas, lançaram uma campanha pela libertação da banda e a chamar a atenção para as violações dos direitos humanos na Checoslováquia e nos restantes países do leste europeu. Foi esta a origem da Carta 77. Tinha começado a contagem decrescente para o fim do regime.
Depois dos aclamados Estalinegrado (1998) e A Queda de Berlim (2002), neste Dia D – A Batalha da Normandia, lançado já em 2009, Antony Beevor ocupa-se da frente ocidental da Segunda Guerra Mundial. Não se refere, porém, apenas ao desembarque aliado previsto pela Operação Overlord, pois acompanha também o rápido avanço das forças aliadas pelo interior da Normandia, as vicissitudes experimentadas na retaguarda pelo regime nazi – que passaram pelo atentado contra Hitler e pelas pesadas consequências que este teve na capacidade de resposta ao avanço aliado –, e depois o progresso rápido, pontuado por duros combates e um volume impressionante de vítimas, até Paris. Beevor retoma aqui, no seu estilo próprio, sempre atento à intervenção dinâmica do episódico e do comportamento individual no evoluir dos acontecimentos, a tradição da historiografia militar britânica, quase perdida no continente durante boa parte da segunda metade do século XX, que se apoia numa narrativa capaz de combinar o depoimento dos sobreviventes – sempre emotivo ou nostálgico – com a sequência dos factos e das decisões comprováveis, obtidos através de um trabalho minucioso de pesquisa dos arquivos. Neste caso, o Eisenhower Center de Nova Orleães, o Imperial War Museum de Londres, e ainda os centros de documentação de Leeds e de Caen, na própria Normandia, asseguraram material inédito de grande interesse documental.
Raramente a descrição surge neutra, vendo-se o leitor permanentemente impelido para situações nas quais o humor, a ironia, a raiva ou a cobardia, combinados de modo cinematográfico, mantêm a sua carga de autenticidade graças ao relato testemunhal. Nesta direcção, surge como particularmente notável o acesso a um retrato vívido de uma «barbarização da guerra» – que inclui uma certa visualização do sofrimento e da morte dos militares de ambos os lados e das populações apanhadas entre dois fogos – mostrando de que modo, ao contrário daquilo que outras obras sobre a Segunda Grande Guerra fizeram crer, os horrores vividos em território francês não ficaram muito atrás daqueles que tiveram lugar na Frente Leste.
Particularmente interessante também, sendo este de certa forma um factor de inovação trazido pelo historiador, é o papel atribuído à personalidade e às pequenas peculiaridades dos principais chefes militares – de Eisenhower e Patton a Montgomery, de Rommel a Von Rundstedt – e aos permanentes conflitos estratégicos e políticos que protagonizaram, como parte integrante na definição do caminho que as operações militares vieram a tomar e das vicissitudes pelas quais passaram. Na última parte do livro, é a libertação da capital que se configura no horizonte dos militares em movimento, e agora do leitor que o acompanha, emergindo num relato cuja intensidade, aqui associada a uma série de pequenos episódios invocados a partir da experiência individual, amplia as conhecidas imagens da euforia colectiva, da vingança e da apoteose vividas no dia da entrada triunfal em Paris.
O reverendo Ian Paisley, de 83 anos, anunciou ontem que vai deixar o lugar de deputado britânico, ocupado ao longo de quatro décadas, após as legislativas de Maio. Foi membro da Força de Voluntários do Ulster, o mais antigo grupo paramilitar protestante da Irlanda do Norte. Fundou também a Igreja Presbiteriana Livre do Ulster, em 1951, tendo criado o Partido Unionista Democrático duas décadas depois. Termina assim, ao que parece, a carreira política de um homem que, pelas suas posições irremissivelmente violentas e intransigentes a favor do orangismo mais extremo ajudou a inscrever o nacionalismo irlandês «católico» na consciência e na agenda da esquerda ocidental. Pelo menos comigo resultou, lá pelos idos de setenta.
Suicidado aos 18 anos, em 1770, na cama da sua mansarda em Holborn, um dos mais mal-afamados bairros da Londres da época, o poeta Thomas Chatterton transformou-se rapidamente no arquétipo do herói romântico. Milhares de anémicos jovens viram-se ao espelho, por mais de um século, como Chattertons em potência, tão geniais quanto incompreendidos. Pois agora Jürgen Heizmann, um académico alemão que ensina na Universidade de Montréal, vem confirmar aquilo que a verdade alternativa desde há algum tempo vinha murmurando: que os poemas do jovem Thomas foram sistematicamente decalcados de manuscritos antigos (um falsário pois) e que a morte prematura não se deveu a suicídio, mas sim a um tratamento mal aplicado contra uma doença venérea. A ser verdade, não passa de mais um caso em que a doce fantasia excedeu largamente a crueza dos factos. Fiquemo-nos pois pela lenda e atiremos a realidade pela janela.
Acaba de chegar às livrarias a tradução portuguesa de Prisioneiro de Estado (ed. Casa das Letras), o diário secreto de Zhao Ziyang, antigo primeiro-ministro chinês e secretário-geral do PCC entre 1987 e 1989, forçado a retirar-se e viver em prisão domiciliária os últimos anos da sua vida por ter demonstrado uma atitude de compreensão perante as reivindicações estudantis e os protestos de Tienanmen. «Um olhar íntimo sobre um dos regimes mais compactos do mundo», escreve-se na badana. Resultado de 30 horas de gravação clandestina – guardadas em cassetes de baixa qualidade escondidas entre os brinquedos dos netos – mostram a permanente luta de facções, de interesses e de vaidades que se esconde por detrás do aparente monolitismo do regime. Roderick MacFarquhar, o prefaciador, recorda que na China de hoje, Zhao, morto em 2005, «é uma pessoa que não existe», mas quando um dia os chineses puderem ler estas páginas e perceber o seu lugar na história do país conhecerão o perfil tolerante e o esforço renovador deste comunista tranquilo que gostava de rir, de comer e de ouvir os outros.
O historiador e ensaísta cubano Rafael Rojas publicou no México, onde vive e trabalha por não poder retornar à sua ilha, Tumbas Sin Sosiego, um livro sobre a experiência da relação revolução-dissidência entre os intelectuais cubanos do exílio. Aí escreve a dada altura que a religiosidade política da ideia cubana de Revolução «não radica tanto na escatologia do marxismo-leninismo quanto na mitologia do nacionalismo revolucionário», o qual possui, como se sabe, um grande lastro histórico em toda a América Latina. É em parte por esta razão que todo o dissidente é equiparado a um traidor, traindo não propriamente a classe operária, que aliás mal existe em Cuba, mas sim «a Pátria». É por isso, inevitavelmente, um «mercenário» a soldo do inimigo externo, cujo «crime» – divergir e expressar a sua divergência, pedir uma ordem política que aceite a expressão de alternativas – é da ordem do delito comum, um a vez que atenta contra a unidade que presumivelmente garante a independência face ao inimigo imperialista.
Este é um dos grandes paradoxos do regime cubano: sustenta, desde 1959, um combate sem tréguas contra os Estados Unidos da América – contra aquilo que eles representavam nos primeiros tempos da Revolução, e depois contra o injusto e desnecessário bloqueio que têm mantido – mas precisa desse combate para justificar a repressão contra os «desordeiros sabotadores». Assim se compreende que as autoridades castristas tenham agora deixado morrer Orlando Zapata Tamayo, um canalizador de origem humilde, membro da organização de defesa dos direitos civis Directório Democrático, preso em 2003 quando foi apanhado numa vaga repressiva contra a oposição em que dezenas de pessoas foram acusadas de «conspirar com os Estados Unidos para derrubar o regime», sendo então quase todas condenadas a penas pesadíssimas, que chegaram aos 28 anos de prisão. A sua morte é «lamentável», como o próprio Raúl Castro acaba de reconhecer para estrangeiro ver, mas para a clique gerontocrática que governa a ilha ela é compreensível e, de certa forma, necessária. No final do excelente artigo disponível online («2009: El año en que se desvaneció el raulismo»), é ainda Rafael Rojas quem recorda:
«Esses anciãos sempre viveram em guerra, real ou imaginária, e as suas mentes acomodaram-se à lógica do confronto. Como guerreiros que são, compreenderam que quaisquer reformas, ainda que limitadas e controláveis, serão a porta de entrada para uma mudança maior que não querem viver. Qualquer decisão que tomem em política interna ou externa, nos próximos anos, reger-se-á por esse cálculo biológico: o tempo que lhes resta de vida deve ser invertido na perpetuação do sistema político, não na sua transformação, problema que diz respeito apenas aos jovens. É a isso que chamam “vitória”: morrer sem mudar.»
O mais difícil de entender é a existência, esparsa mas visível, fora de Cuba, de alguns rebentos serôdios seduzidos por uma Sierra Maestra de fantasia. Que medem a sua têmpera revolucionária em função da fidelidade a um modelo histórico que permanece «firme», inalterado, e que não foi democraticamente referendado em mais de meio século de regime. Que bradam sem hesitações «Patria o Muerte. Venceremos!». Para defenderem a sua quimérica e envelhecida Revolución, aceitam, justificam e fazem eco de todas as afirmações do governo de Havana contra os supostos traidores. Cuja prova de traição é facílima de identificar: não acreditam na perfectibilidade do regime, consideram a hipótese de o submeter à lógica «burguesa» e «reaccionária» do voto, e, calcule-se a suprema insolência, esforçam-se, com risco da sua liberdade, do seu emprego e até da própria vida, por declará-lo publicamente.
Acaba de sair em Espanha uma colectânea de cartas dirigidas a Estaline pelos escritores Mikhail Bulgakov (1891-1940) e Evgueni Zamiatine (1884-1937). Resultando de investigações feitas nos arquivos da Lubianka, a sede moscovita do KGB, após o fim da URSS, elas trazem de volta o terror puro de quem vivia diariamente entre o silêncio imposto e a possibilidade da prisão ou do fuzilamento, o destino definitivo de tantos outros. Falam pois da morte em vida. As vítimas omitem aqui a pobreza, o frio, as privações que lhe foram destinadas pelo facto de não serem autores alinhados com a política e a estética do regime, e apelam tão-somente a que lhes seja concedida a possibilidade de sobreviverem como autores e como pessoas. Zamiatine conseguiria ir morrer em Paris. O autor de Margarida e o Mestre viveu até ao fim silenciado e na miséria.
Nós, a mais conhecida obra de Zamiatine, precursora do Admirável Mundo Novo (1930) de Huxley e de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1948) de Orwell – concluída em 1921 mas cuja primeira edição em russo só pôde sair perto de sessenta anos mais tarde –, abre assim:
«Limito-me a transcrever textualmente o que hoje mesmo veio publicado na Gazeta do Estado:
Dentro de cento e vinte dias ficará completo o Integral. Aproxima-se a hora insigne, histórica, em que o primeiro Integral se levantará no espaço cósmico. Há mil anos, os nossos heróicos antepassados submeteram todo o globo terrestre ao domínio do Estado Único. Hoje assistiremos a um feito ainda mais glorioso: a integração, por meio do Integral, feito de vidro, eléctrico, ígneo, da eterna igualização de tudo o que existe. Ficarão sujeitos ao benéfico jugo da razão todos os seres desconhecidos, os habitantes doutros planetas que porventura vivam ainda no estado selvagem de liberdade. Se acaso não percebem que nós lhes levamos a felicidade matemática e exacta. É nosso dever forçá-los a serem felizes. Mas, antes de puxarmos das armas, tentaremos recorrer à palavra.
Em nome do Benfeitor, todos os números do Estado Único ficam notificados do seguinte:
Todos os que se sentirem capacitados deverão compor tratados, poemas, odes e outras composições sobre a beleza e a grandeza do Estado Único.
Eles constituirão o primeiro carregamento do Integral.
E viva o Estado Único. Vivam os números. Viva o Benfeitor!
Escrevo estas coisas e sinto o meu rosto a arder. Sim… há que levar a cabo a integração, proceder à grandiosa e infinita igualização de tudo o que existe. Sim, há que distender a curva selvagem, reduzi-la a uma tangente… a uma assímptota… a uma linha recta! E isso porque a linha do Estado Único é uma linha recta. A grande, a divinal. A exacta, a sábia linha recta – a mais sábia de todas as linhas!»
Trad. a partir do inglês por Manuel João Gomes (Edições Antígona, 1990)
A memória pesa, mesmo quando ela é a memória da mentira e da calúnia. Como aquela, ecoada desde há anos, que refere um George Orwell «traidor», «bufo», cujo delito – a suposta denúncia ao governo britânico de 38 compagnons de route comunistas – foi forjado pelos neo-estalinistas, seus acusadores públicos, na tentativa de desacreditar um dos intelectuais europeus que, no campo da esquerda, mais cedo e de forma pública divergiu das posições do Kremlin e do seu sistema de terrorismo de Estado. Mais de setenta anos depois, esta gente continua a replicar o modelo insidioso e bárbaro, utilizado nos anos trinta durante os Processos de Moscovo, que manipula, descontextualiza ou fabrica informação com vista a denegrir o acusado e a abatê-lo sem piedade.
A verdade, porém, conta-se em poucas palavras. Celia Kirwan, funcionária do Foreign Office trabalhista e cunhada de Arthur Koestler, o autor de O Zero e o Infinito (Darkness at Noon, de 1940), organizou em 1949 em Inglaterra um ciclo de conferências sobre o estalinismo e dirigiu-se a Orwell – na altura internado num sanatório e a dez meses apenas da morte – pedindo-lhe alguns nomes de pessoas que poderiam participar. Este respondeu-lhe com uma lista de figuras que lhe parecia não valer a pena convidar, pois dadas as suas relações com os soviéticos, e a possibilidade de alguns deles serem até agentes seus, jamais aceitariam. Foi esta relação – divulgada em 1982 na biografia do escritor britânico da autoria de Bernard Crick – que os caluniadores passaram a considerar «prova de delação». A perseguição a Orwell, essa vem muito de trás, pelo menos desde os anos da Guerra Civil de Espanha e da escrita de Homage to Catalonia (1938), quando a sua crítica do comunismo soviético e a denúncia militante do terror estalinista começaram, sob influência de algumas das alegações dos anarquistas e dos trotskistas, a ganhar forma. A derradeira gota de água seria a distopia projectada em Mil Novecentos e Oitenta e Quatro (1949). Este caso da lista apenas serviu de pretexto para desenterrar um velho ódio.
| Leituras diferentes aqui e aqui.
| Uma abordagem parcial mas útil das posições políticas de Orwell aqui.