Do arquivo dos meus blogues-antes-deste. Escrito em Outubro de 2005.
Há cerca de três décadas, quando as correntes «de raiva e esperança» dos sessentas haviam suavizado já o furor, foram muitos os que desistiram dos planos para mudar o mundo a troco da aceitação silenciosa das regras conviviais do neoliberalismo. Só uns quantos obstinados procuravam ainda resistir-lhe. Portugal vivia na altura o transe da sua doméstica metamorfose, mas mais além, do lado de cá do Dniepre como da outra banda do Atlântico, cresciam ou radicalizavam-se os movimentos, autoproclamados como vanguardas, que se propunham inverter os ventos através da acção directa das minorias esclarecidas e activas. Mostrando-se como exemplo ou servindo de rastilho para o que acreditavam poder ser um retorno da acção redentora «das massas». Integravam a arquitectura de um terrorismo – à época selectivo, e quase benigno quando comparado com o que hoje conhecemos – que os governantes procuravam conter. E se não conquistavam grandes adesões, convocavam alguma simpatia da parte daqueles a quem o sistema imposto pelos vencedores da ressaca «sessentista» parecia realmente odioso. (mais…)
Se tivermos em conta os contributos aparecidos nos últimos dois anos em redor da passagem do seu centenário, a República Portuguesa saída do 5 de Outubro de 1910 é agora um dos períodos da vida nacional mais inquiridos pelos historiadores. Esta circunstância não invalida porém – é esse aliás o principal interesse de toda a História viva –, a possibilidade de ocorrerem interpretações inovadoras, por vezes a contracorrente, que sistematicamente alertam para os limites de leituras estereotipadas e condicionadas por respostas previamente escolhidas. Aquilo que de marcadamente inovador contém A Separação do Estado e da Igreja, de Luís Salgado de Matos, é pois a sua capacidade, apoiada numa investigação pormenorizadíssima e numa argumentação liberta de apriorismos, para ler com outras lentes aquilo que já foi repetidamente abordado e sobre o qual tudo pareceria estar dito e escrito.
Simplificando propositadamente, pode dizer-se que o biénio revolucionário português de 1974-1975 representou um Fevereiro de 1917 sem o subsequente Outubro. A tese central deste livro de Raquel Varela – na origem a sua dissertação de doutoramento – sublinha que, se este esteve perto de chegar, tal não aconteceu, ao contrário do que é frequentemente propagado, em larga medida devido às escolhas e aos métodos adoptados na altura pelo Partido Comunista Português. Deixa ainda claro que o fim daquele período de rápida mudança e de grandes expectativas, e a subsequente passagem a um regime democrático-liberal, foram pacíficos e ocorreram com escassa resistência devido à posição e às acções do mesmo partido. Em consonância com esta ideia, procura mostrar, uma vez mais ao contrário das interpretações dominantes, que bem ao invés das intenções revolucionárias e golpistas que lhes têm sido atribuídas nos momentos decisivos os comunistas escolheram governar com o Partido Socialista, procurando contornar as clivagens e as circunstâncias que pudessem pôr em causa essa linha estratégica.
A História do PCP na Revolução dos Cravos inscreve-se no campo de investigação próprio da história do presente, o qual oferece inúmeras possibilidades de pesquisa mas escapa aos domínios relativamente assépticos e mais facilmente consensualizáveis no qual trabalham os historiadores que se dedicam a épocas mais recuadas. Relaciona-se com interesses e preocupações ainda próximos, cuja energia se não diluiu, e incorre por isso em análises inevitavelmente controversas, sujeitas a confrontações, o que acontece neste caso. A abordagem documental da política do PCP face ao desenvolvimento do processo revolucionário e às posições dos socialistas e do MFA é exaustiva e permite contornar muitas das eventuais objecções, mas os limites colocados à investigação das fontes, em particular os erguidos pelo próprio PCP, não sendo da responsabilidade da historiadora deixam sempre em aberto a possibilidade do enredo escolhido vir a precisar de alguma afinação. Poderá, por exemplo, revelar-se útil uma inquirição das iniciativas e das pulsões revolucionárias experimentadas pelos sectores do partido mais directamente envolvidos nos movimentos de massas. Não é este no entanto o ângulo de análise deste trabalho, assumidamente centrado na intervenção do núcleo dirigente reunido em volta de Álvaro Cunhal. Neste sentido, nenhum estudo futuro poderá contornar a investigação exaustiva que lhe serviu de fundamento e o valor da dose de informação que oferece.
Raquel Varela, A História do PCP na Revolução dos Cravos. Bertrand Editora. 400 págs. Publicado na LER de Junho de 2011.
Conta Pierre Kalfon, um dos seus mais isentos biógrafos (poucos entre muitos), que numa tarde de Abril de 1964, durante uma breve passagem por Paris – a caminho da União Soviética em missão diplomática da então jovem revolução cubana – Ernesto Guevara almoçou numa pizzaria da Boulevard Saint-Michel. Passeou depois por meia hora pelas imediações do Collège de France e da Sorbonne, que muito antes conhecera de leituras e de filmes. Relatará o próprio «Che» que de repente, na Rue des Écoles, um sujeito reparou no seu inconfundível aspeto – barba rala e desalinhada, a boina preta estrelada e o dólman de caqui verde-oliva – comentando para a pessoa que o acompanhava: «Vê bem a lata daquele tipo ali, a imitar o Che Guevara!» Desde muito cedo a figura do argentino viu-se de facto colada ao ícone que excedia já o seu corpo físico, definindo-se muito para além do lugar datado e material que a História lhe reservou.
De início, e durante bastantes anos, ela ganhou vida no espectro das crenças insurretas que interpretavam as possibilidades de erguer um mundo melhor, mais igualitário e mais justo. Conquistado no entanto, se preciso fosse, a tiro de bazuca e de metralhadora. Esse é o vulto que alguns dos nossos contemporâneos, com sentido de missão ou necessidade de ratificação tribal, ainda transportam consigo, como vestígio de uma real ou imaginada insolência, em medalhas, autocolantes e t-shirts. Quase sem de tal se aperceberem, rompem porém as configurações da rebeldia e do desespero, associando-as a algo de mais amplo que integra o conjunto de sinais dos quais se servem habitualmente os imaginários de fuga. Aproximando-se do logótipo dos velhos cigarros Camel, do mapa irregular de uma ilha das Caraíbas gravado na publicidade colorida de uma marca de rum, das capas tentadoras dos livros de Bruce Chatwin ou de Paul Theroux. Para os quais olhamos sem grandes conjeturas, projetando a ideia da viagem, da partida, associada a uma vaga e errática noção de liberdade.
Primo Levi é figura nuclear da literatura testemunhal do Holocausto. Nasceu em 1919 em Turim e parece ter-se suicidado em 1987 na mesma cidade. Participou na resistência contra a ocupação nazi e a República de Saló, acabando por ser preso por milícias fascistas e, depois de descoberta a sua ascendência judia, ser enviado para o campo de extermínio de Auschwitz. Sobreviveu apenas por uma conjugação de acasos, um deles a condição de engenheiro químico que o tornou momentaneamente útil para os seus carcereiros. Foi com base nessa experiência-limite pessoal, e como expressão de um sentido «dever de memória», que Levi escreveu o primeiro livro, Se Isto é um Homem, com uma edição inicial de 1947 da qual – numa época em que grande parte dos potenciais leitores preferia não encarar relatos desta natureza – se venderam apenas 1.500 exemplares. Só em 1958 a editora Einaudi publicaria uma edição revista e com tiragem condigna. É desta obra – uma discrição objetiva, serena, contida, estranhamente desprovida de amargura, do brutal dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça a cada minuto por não esquecer a sua humanidade – que se transcreve um fragmento. (mais…)
Desapareceu este sábado em Boston, aos 88, a antiga dissidente soviética Elena Bonner (1923-2011), viúva do físico nuclear e dissidente soviético Andrei Sakharov. Durante os anos cinzentos de Brejnev, muitos se habituaram a vê-la sempre ao lado de Andrei na denúncia comum da corrida ao armamento, da manutenção dos campos do Gulag, da perseguição dos dissidentes. Dado o prestígio internacional do marido, que o protegia um pouco dos excessos da repressão, foi muitas vezes Elena quem mais directamente sofreu com os ataques do KGB motivados pela atitude partilhada de enfrentamento do regime. As autoridades, a sua polícia e os seus porta-vozes gostavam de destacar as suas origens judaicas para acusá-la de estar a serviço de potências estrangeiras e de ter desviado Shakarov – Prémio Estaline de 1954, Prémio Lenine de 1956 e antigo membro da Academia das Ciências da União Soviética – «do bom caminho».
Em 1938, na época da mais intensa repressão, Elena vira o pai ser fuzilado e a mãe condenada a oito anos de trabalhos forçados. Ainda assim aderiu ao Partido Comunista, abandonando-o apenas em 1968, quando da invasão soviética da Checoslováquia. Durante a década de 1970 participou em protestos contra as detenções em massa de outros dissidentes, tornando-se numa fonte vital de informações sobre o destino dos detidos e exilados. Viria a receber em Oslo o Nobel da Paz de 1975 concedido ao marido, após Sakharov ter sido proibido de viajar para o estrangeiro. Confinado este, em 1980, à cidade Gorki, a actual Nizhny Novgorod, por protestar contra a invasão soviética ao Afeganistão, Elena tornou-se então no seu único vínculo com o exterior, até que em 1984 foi também ela condenada a cinco anos de exílio interno em Gorki por ter «divulgado sistematicamente informações caluniosas sobre a União Soviética». Depois do fim da URSS, Bonner participou de importantes organizações de defesa dos direitos humanos, tornando-se numa ardente opositora de Vladimir Putin. Até ontem de manhã.
Chegou a vez de Jorge, Jorge Semprún (1923-2011). A Wikipédia regista-o como «escritor, intelectual, político e guionista cinematográfico». Foi tudo isso, sem dúvida, mas para várias gerações de antifascistas e de democratas europeus foi principalmente o exilado da Guerra Civil, o resistente torturado transformado no prisioneiro 44.904 do campo nazi de Buchenwald, o dirigente comunista dedicado, expulso do Partido em 1964 por divergências políticas com Dolores Ibarruri e Santiago Carrillo, e o activo e independente ministro da Cultura de Felipe González. Como escreve o El País no seu obituário, «construiu a sua obra literária com os fragmentos da sua própria memória e nela reside, por isso, a recordação dos factos e dos sentimentos de uma vida marcada a fogo por todas as barbáries modernas.» De si próprio disse Semprún em Adiós, luz de veranos…, parafraseando Baudelaire,«tenho mais recordações do que se tivesse mil anos». Há três dias, na última colaboração que enviou para o diário madrileno onde escrevia habitualmente, recordou a última viagem a Buchenwald, realizada havia pouco mais de um mês, já em precárias condições de saúde e sabendo por isso ser a derradeira: «Ahí, en un antiguo campo de concentración nazi convertido en prisión estalinista, es donde debemos celebrar la Europa democrática. Contra todas las amnesias.»
Half a league, half a league, / Half a league onward, All in the valley of Death / Rode the six hundred. “Forward, the Light Brigade! / “Charge for the guns!” he said: Into the valley of Death / Rode the six hundred.
Alfred Tennyson, 1885
Comecei ontem Crimea: The Last Crusade, o último livro de Orlando Figes, que comprei em versão e-book para poupar espaço na estante e descansar algum músculo, pois sempre são mais 600 páginas. Leio-o pelo prazer de saber mais sobre um acontecimento que conheci cedo, através de descrições em «livros de quadradinhos», e me atraiu logo por situá-lo então num território vagamente epopeico de acção e aventura, com episódios como a Carga da Brigada Ligeira, durante a batalha de Balaclava, o cerco de Sebastopol ou a acção humanitária de Florence Nightingale. Mas leio-o também por poder seguir de novo um historiador que tem o dom raro e invejável de combinar o rigor e a profundidade da pesquisa com uma capacidade narrativa absolutamente magnética. (mais…)
Em 1941, Mircea Eliade, o professor e escritor reconhecido como um dos fundadores da história moderna dos mitos e das religiões, foi nomeado adido cultural e de imprensa junto da embaixada da Roménia em Lisboa. Por aqui se manteve até 1944, vivendo por isso em Portugal um dos períodos mais agitados da história europeia do século passado, incluindo-se nesta agitação a vivida então no seu conturbado país, cujo governo por essa altura colaborava activamente com a Alemanha de Hitler. Nesta «terra incógnita» para o romeno comum, vem encontrar um «oásis de tranquilidade», e uma acalmia na sua própria vida, que rapidamente associa à lógica de funcionamento do Estado Novo, ao padrão de vida que este impõe à sociedade portuguesa e à figura tutelar, aos seus olhos providente e benevolamente paternal, de Oliveira Salazar. (mais…)
É cada vez maior o número de trabalhos sobre a história recente – a nossa e a dos outros – que recorrem ao depoimento oral como fonte absolutamente decisiva. A tendência não é nova, uma vez que se tornou patente já em meados do século XX quando a irrupção prática e metodológica da abordagem histórica do presente forçou a uma revisão do pressuposto, ainda dominante entre as duas primeiras gerações da Escola dos Annales, segundo o qual um corte com o passado seria garantia essencial para se chegar a um conhecimento seguro do passado. Esta legitimação da oralidade não foi, de início, nada consensual entre a comunidade dos historiadores, para quem os testemunhos, materializados em entrevistas necessariamente mediadas pelo investigador, eram por vezes considerados fantasiosos e tomados como factor negativo de «subjectivação do passado». Jogando um papel decisivo neste processo, os primeiros estudos sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto cedo mostraram que, ao contrário, esse instrumento representa uma forma de recuperação do vivido que nenhum outro documento, seja ele um diário, um relatório, um livro ou uma imagem, está em condições de colocar à disposição dos investigadores e dos leitores. (mais…)
O governo soviético da década de 1920 foi o primeiro da História a deter um poder de tal forma pleno e colossal que lhe permitiu conceber de raiz redes de grandes bairros e até cidades inteiras, determinando rigorosamente o número, a dimensão e o desenho dos edifícios e das ruas, bem como a taxa de ocupação em cada área ou estrutura. Podia também escolher sem constrangimentos onde construir, como projectar o crescimento, como articular os novos espaços dentro de um equilíbrio idealizado entre a cidade e o campo, chegando a conceber e tipificar o aspecto, a exacta localização e mesmo o pormenorizado funcionamento das fábricas, dos escritórios, das escolas, dos hospitais, dos armazéns e dos edifícios destinados à habitação. O planeamento urbano num Estado todo ele planificado – que foi aquilo em que a Rússia soviética se transformou a partir de 1928 com a entrada em funcionamento do 1º plano quinquenal – não era uma ocupação menor; tratava-se, de facto, de organizar em larga escala e a partir da base, num esforço de design macro-comunitário, todo um universo que se pretendia radicalmente novo e profundamente dinâmico. Diante de tal projecto, como não compreender o entusiasmo dos quadros políticos, engenheiros, arquitectos, economistas ou geógrafos a quem foi atribuída essa tarefa gigantesca? (mais…)
A Coca-Cola fez ontem 125 anos de existência nas bocas do mundo. Até chegar a «água suja do imperialismo» ou ao poderoso diurético um dia recomendado numa entrevista intimista de Lula, o caminho foi longo. Começou cedo, a 8 de Maio de 1886. Com a designação altamente suspeita de «Pemberton’s French Wine Coca», foi inicialmente anunciada como uma bebida para intelectuais, revigorante do cérebro e tónica para os nervos fragilizados. Mas rapidamente arrancou para uma história de sucesso, cujos contornos mais pitorescos podem ser conhecidos no fascinante Made in America, de Bill Bryson (da Bertrand). Por aqui, a efeméride é evocada num colorido relato apresentado por Maria Filomena Mónica em «Trinta anos que mudaram Portugal. 1961-1991», texto incluído na sua colectânea Cenas da Vida Portuguesa, publicada há uma dúzia de anos pela Quetzal. Sabendo que a sua completa fiabilidade histórica requeria uma identificação da fonte que não encontrei, não resisto, ainda assim, a reproduzir o episódio relatado pela popular socióloga. Aqui vai: (mais…)
Segundo o seu autor, este livro é o testemunho de um fracasso. Mas será melhor não o tomarmos demasiado a sério. Acontece apenas que Anatomia de um instante foi concebido como um romance e acabou por não o poder ser. Javier Cercas percebeu-o de imediato quando começou a recolher dados sobre o acontecimento que resolvera ficcionar e se viu confrontado com um volume surpreendente de informação. Percebendo que nessas condições seria um enorme desperdício abordar o tema na perspectiva da pura construção romanesca, decidiu reorientá-lo para o campo do ensaio. E assim apareceu esta aliciante história do dia 23 de Fevereiro de 1981, quando, como parte de uma conjura militar contra a «transição democrática», um destacamento da Guardia Civil espanhola, comandado pelo teatral tenente-coronel Tejero Molina, ocupou pelas armas o Congresso dos Deputados. Sequestrando-os a todos, bem como ao executivo, que ali se encontrava presente para a tomada de posse de Leopoldo Calvo Sotelo, o sucessor de Adolfo Suárez na presidência do governo. Gravado pelas câmaras da TVE, propagado de imediato pelos telejornais do mundo inteiro, o drama impôs-se por si mesmo, revelando, na intervenção dos actores principais, as dificuldades e os paradoxos com os quais convivia na altura a jovem democracia espanhola. (mais…)
Três investigadores noruegueses juntaram-se para organizar este volume sobre o historial duradouro e violento do anti-semitismo. Como ponto de partida, consideraram ser uma definição simplista ligá-lo ao ódio aos judeus só por estes o serem, atribuindo-lhe um sentido bem mais amplo: tomam-no como expressão de rancor em relação aos judeus, sem dúvida, mas mais fundada no imaginário das características que lhes são atribuídas do que no seu lugar social concreto. Dito de outro modo, o anti-semitismo é, para os autores da obra, um processo de transformação dos judeus reais em «judeus» imaginários, conduzindo à sua demonização e à defesa de medidas repressoras ou punitivas contra a sua presença, onde quer que esta se faça sentir. Avançam pois, de certa maneira, com uma argumentação análoga à usada entre nós por António José Saraiva quando qualificou a Inquisição portuguesa como uma «fábrica de judeus», descobrindo-os, inventando-os, onde eles de facto não existiam. Toda esta História, exaustiva na detecção de sucessivos exemplos da afirmação de ideias e de práticas de natureza anti-semita, segue este princípio: à caracterização do «judeu» têm sido demasiadas vezes associadas particularidades inteiramente ficcionadas que mascaram ou moldam a realidade.
A obra segue ao detalhe quatro momentos na cronologia do anti-semitismo: o anti-judaísmo com motivações religiosas, forjado pelo cristianismo, que pode ser encontrado desde a Idade Média até ao período das Luzes; o anti-semitismo moderno que se desenvolve nos finais do século XIX com base em supostas bases científicas, conduzindo no limite ao Holocausto; o anti-semitismo pós-Auschwitz associado a teorias negacionistas que visam reinterpretar o destino dos judeus durante a Segunda Guerra Mundial; e, finalmente, um anti-sionismo contemporâneo, supostamente «de esquerda», fundado na condenação sem direito de resposta do «objectivo judeu» do Estado de Israel. Em Jesus da Nazaré, recentemente publicado, Bento XVI ilibou «o povo judeu no seu conjunto» da morte premeditada de Cristo, uma atitude que tem uma óbvia intenção política: a anulação do princípio fundador do anti-semitismo que é a sua abjecção, ao longo de séculos, por parte do cristianismo. A necessidade sentida pelo papa de se pronunciar publicamente sobre o tema realça a subsistência deste ódio orientado na nossa vida colectiva e, consequentemente, o interesse deste livro.
Uma advertência sobre a tradução: mesmo sem cotejar o texto com o original norueguês, percebe-se a imprecisão de muitas frases e termos, estorvando a clareza das ideias e atenuando um pouco o prazer da leitura.
[Trond Berg Eriksen, Hakon Harket e Einhart Lorenz, História do Anti-Semitismo. Edições 70. Trad. de João António Correia de Sousa Araújo. 694 págs. Publicado na revista LER de Abril de 2011.]
Os grandes leitores reconhecem a mania de comprar livros no exacto dia do seu lançamento. Não pelo capricho banal de bibliófilo, cioso sempre das suas primeiras edições, ou por se não ter algo de realmente urgente para fazer: sabem perfeitamente que é antes por tanto quererem olhá-los, tocar-lhes, enfim lê-los, que não resistem a esperar mais algum tempo e se põem a caminho da loja mais próxima. Partilhando durante muito tempo desta compulsão, circunstâncias várias fizeram com que a fosse perdendo. Recuperei-a há poucos meses. Às nove exactas horas de uma manhã de Janeiro passado, tinha já a palpitar entre os dedos, em formato de e-book, um livro recém-saído de Eric Hobsbawm, acabado de comprar na loja online da Amazon.
How to Change the World: Tales of Marx and Marxism, editado pela Little, do Brown Book Group, é basicamente uma grande compilação, de quase 500 páginas, contendo artigos escritos entre 1956 e 2009 pelo grande historiador britânico de 93 anos. O volume passa por distintos momentos do percurso político e filosófico do autor, ocupando-se também de fases diferentes do trajecto e do impacto mundial da obra de Karl Marx. Trata ainda, sem complexos, a fase de recuo desta influência que Hobsbawm julga ter começado em 1983. A data-charneira foi escolhida pelo seu peso simbólico: evocava-se nesse ano, quase em silêncio e sem quaisquer pompas, o centenário da morte do alemão. O que parece realmente único é o facto deste regresso a Marx ter sido produzido no contexto de uma realidade tecnológica e de processos de troca impraticáveis e mesmo impensáveis no tempo do filósofo de Trier, ou sequer durante os anos centrais da vida, da pesquisa e da reflexão de Hobsbawm.
A compra e a leitura de e-books proporcionam este paradoxo: viajar num segundo entre dimensões radicalmente diferentes do processo de construção, de circulação e de apreensão da obra escrita, reposicionando ao mesmo tempo o seu próprio conteúdo.
Não acredito na absolutização da ideia mil vezes proclamada como grandiosa de «escrever para a gaveta». Mesmo o escritor não publicado – ou aquele que sabe ter escassas ou nulas hipóteses de vir a sê-lo – escreve sempre para outro alguém. Será, se para mais ninguém for, para a/o amante, para um amigo cúmplice ou para o leitor ideal que um dia cairá do céu. Em contrapartida, não têm conta os escritores condicionados pela censura ou pelo medo do julgamento público impiedoso que escreveram a maior parte da obra, se não toda ela, sem a perspectiva de que esta pudesse vir a ser editada. Em «Amar Dostoievski», um artigo de Susan Sontag integrado na compilação póstuma Ao Mesmo Tempo, evoca-se o caso peculiar de Leonid Tsípkin (1926-1982).
Este médico russo de origem judaica viu a família ser repetidamente atingida pela repressão estalinista, e a ele próprio debaixo de constante suspeita, tendo por isso resolvido escrever apenas para os mais chegados. Recusando-se até, com medo de problemas insolúveis com o KGB, a deixar que os seus originais circulassem clandestinamente. Da sua perseverança contida diz a dado passo Sontag: «Escrever sem esperança ou perspectiva de ser publicado – que reserva de fé na literatura isso não implica?». Acabaria no entanto por aceder a publicar no estrangeiro Verão em Baden-Baden, romance construído em volta de um episódio da vida de Fiódor Dostoievski. A 13 de Março de 1982, um semanário nova-iorquino começou a publicá-lo sob a forma de folhetim. A 15 de Março, uma segunda-feira, Tsípkin foi despedido do instituto médico moscovita onde trabalhara a maior parte da vida. A 20 de Março sentiu-se mal quando estava em casa a traduzir um artigo; deitou-se, chamou pela mulher e morreu. Mas durante sete dias foi «autor publicado».
Queridisimos intelectuales (del placer y el dolor) é um documentário que obviamente não vi, estreado ontem no Festival de Cinema de Málaga no qual certamente não estive. Dele retenho, por isso, apenas os ténues ecos, frases soltas, que chegam com as leituras em roda livre das três da madrugada. Eles contam que o filme cola intervenções avulsas, aparentemente incoerentes, de intelectuais espanhóis contemporâneos. Guardo duas. A primeira é de Carlos Moya, não o ex-tenista de sucesso mas o sociólogo emérito, que declara ter sido o haxixe, durante os anos sessenta, «a quinta coluna do Islão» no Ocidente. Fica a boutade, para reflexão eventual e memória futura da mesma. A segunda intervenção que retenho é a de Santiago Carrillo, e nela o velho resistente, o antigo secretário-geral do PCE, afirma que durante a Guerra Civil espanhola teve lugar «uma explosão de liberdade sexual».
Esta «liberdade sexual» nas diversas frentes de combate deve ser relativizada mas foi real. Ela serviu à propaganda do franquismo, aliás, para mostrar a «imoralidade» dos republicanos, apresentados por vezes como vivendo em permanência entre Sodoma e Gomorra. Veja-se, como exemplo, a descrição dos republicanos «bolcheviques e jacobinos» traçada no conhecido filme de propaganda L’assedio del’Alcazar, rodado em 1940 por Augusto Genina. Sem querer ser simplista, julgo no entanto poder dizer, em abono da frase de Carrillo, que uma moral sexual mais rígida, fundada na condenação de ligações múltiplas, descomprometidas e fora do casamento, foi sinal, apenas sentido a partir dos anos quarenta, de uma regressão do franquismo em relação a práticas anteriores, historicamente comprováveis, que admitiam realmente uma menor rigidez no campo da sexualidade. Algo de semelhante se passou aliás em Portugal, com o recuo imposto durante o salazarismo de uma vivência social, sob este aspecto razoavelmente aberta, que havia sido posta em prática em determinados ambientes durante a Primeira República.
Por outro lado, e esta é uma constante intemporal, a guerra intensa, e a guerra civil é uma guerra de elevadíssima intensidade, funciona sempre – como sabe quem alguma vez a viveu e os livros nos contam vezes infinitas – como um poderoso afrodisíaco. Debaixo da sua influência, os «factos da vida» acontecem então por si, mais naturalmente, por vezes violentamente, quase sempre com urgência. E nem entre os franquistas ela esteve ausente, como o comprovam diferentes testemunhos. Por isso a frase de Carrillo só pode admirar quem ande um tanto distraído ou esteja, com falta de tempo, à procura de um título para uma breve nota de reportagem. Provavelmente foi isto que aconteceu. Com êxito, pois foi ela que me chamou a atenção durante a leitura-relâmpago desta noite.
Ontem, 6 de Março, o Partido Comunista Português fez 90 anos. Pode dizer-se, e nem poderia ser de outro modo, que este PCP pouco tem a ver com o de 1921. Claro que não tem, como pouco tem a ver com o de 1959, o de 1975 ou mesmo o de 1991. O país e o mundo foram mudando, o comunismo também, e os comunistas a mesma coisa, ainda que possam mudar mais vagarosamente. No entanto, para além das linhas organizativas e de orientação táctica pelas quais passam as diferenças, por vezes profundas, que o tempo faz sobressair, existe um sinal de continuidade que não tem a ver apenas com a cor do estandarte: desde o início, o PCP sempre afirmou na sociedade portuguesa uma atitude de resistência às desigualdades do capitalismo e fez ouvir a sua voz em defesa dos direitos mais essenciais dos trabalhadores. Sempre da melhor maneira? Com certeza que não, e os comunistas mais honestos, informados e lúcidos – ou mesmo os inflexíveis e coléricos num momento de pausa – serão com toda a certeza os primeiros a reconhecê-lo. Mas para quem não tenha memória, ou não conheça a História, é importante relembrar que foram muitos os homens e as mulheres que dedicaram a vida aos interesses dos outros e o fizeram, ou ainda o fazem, debaixo da bandeira vermelha da foice e do martelo.
Esta é uma realidade indesmentível, que divergência alguma, ou crítica alguma, está em condições de contradizer. O PCP é um partido histórico, que conquistou a pulso, geração após geração, o direito a existir e a ser ouvido, e que, independentemente das posições políticas questionáveis, erradas ou mesmo inconsequentes que possa muitas vezes defender, continua a merecer a consideração dos democratas. Merece-a enquanto permanecer como partido que aceita as regras básicas da democracia representativa – para cuja fundação teve aliás um papel decisivo – ainda que, entre os comunistas portugueses, ou nas suas margens, exista quem de facto a despreze na essência, aspirando a uma outra, supostamente mais pura, «socialista» ou «popular», na qual a diferença de opinião esteja condicionada pela autoridade de quem se arroga, sem direito a contraditório, a falar em nome de todos. (mais…)