Arquivo de Categorias: Devaneios

Estrada fora, sem papéis

Driving

Cristina A., 48, com cadastro, tem todas as condições para colher a simpatia de muitas pessoas. Foi julgada e condenada em Coimbra por ter sido apanhada ao volante sem carta de condução, o que declarou fazer «há 20 e tal anos» sem sequer ter passado num exame de Código da Estrada («o que me faz confusão são as perguntas ranhosas», lamentou-se ela aos jornalistas). Admitindo que já foi apanhada oito vezes em situação idêntica, disse que apreendeu a conduzir no mato, «mas graças a Deus nunca tive um acidente». Isto apesar de já ter «batido os 200 quilómetros à hora». A sua maior ambição – como a de tantos de nós, aliás – é conduzir um camião. Quem não invejará um pouco, se não a vida, o descaramento de Cristina por acelerar assim, estrada fora, sem papéis?

    Apontamentos, Devaneios

    Os sapatos e a queda

    Tisza Cipo

    Uma das causas do descontentamento popular que fez ruir as experiências europeias do «socialismo real» teve provavelmente a ver com os ditames da indústria nacionalizada do calçado e com os escassos modelos impostos aos cidadãos. Afinal quem não desejaria alterar o estado das coisas?

    Na imagem, uns sapatos Tisza Cipő fabricados em Martfű, na Hungria. Uma marca extremamente popular até aos anos oitenta, pois era a única disponível no mercado.

      Devaneios, Memória, Olhares

      O Milagre de S. Cristiano

      Cristiano Ronaldo providenciou há dias um milagre que não foi devidamente divulgado fora da Região Autónoma da Madeira. Uma britânica com mais de 80 anos perdera-se do grupo em que seguia quando participava num passeio turístico junto à levada do Caminho dos Balcões, no Ribeiro Frio. A tentativa de resgate foi rapidamente lançada, mas não estava a resultar. A noite aproximava-se e o temor de que ela pudesse ser fatal para a turista começava a crescer. O desânimo instalava-se já quando, subitamente, se ouviu de uma ravina uma voz que bradava: «Cristiano Ronaldo! Cristiano Ronaldo! Cristiano Ronaldo!». Era mesmo a senhora que estava perdida, assim reencontrada. Não conhecendo uma única palavra de português, servia-se do nome do jogador de futebol para procurar salvação.

      Provavelmente ainda voltaremos a ouvir falar deste caso, quando um dia se tratar da canonização do futebolista madeirense. Sim, que Aurélio Agostinho, o bispo de Hipona, também tivera a reputação de levar uma vida de devassidão e intemperança, com muita espetada em pau de louro e fímbria de manto pelo meio, antes de reconhecer que a sua missão terrena era outra: a de transportar o mais comum dos mortais até à Cidade de Deus. E acabaria canonizado.

        Apontamentos, Devaneios

        Bergman e uns goles de Becherovka

        Plastic People of the Universe

        Ingmar Bergman ficava deprimido de cada vez que tinha de rever um dos seus filmes. Lembro-me de ter visto dois ou três deles no Kino Mladost e de ter sentido a mesma coisa. Foi na época em que faltava às aulas na universidade para ir ao cinema com a Ludjmila. Ou então para ficar com o Ján Jaros e o Miroslav a ouvir discos dos Plastic People of the Universe, enquanto fumávamos cigarros Vadek (é uma pena já não se fabricarem mais) e bebíamos shots de Becherovka uns atrás dos outros. Bons tempos, apesar de tudo. Bergman incluído.

        Iuri Bradáček

          Devaneios, Ficção, Memória

          Memo achado no bolso do fato-de-banho

          Цивья со свим мужем Шимоном владели большим участком земи в Рамат аШароне. Они завещали его городу и в их честь на части этого участка разбит парк.

          Iuri Bradáček

            Devaneios, Etc.

            Lisboa com bandeira azul

            Bandeira Azul

            Uma mancheia de varonis mancebos «ligados ao blogue 31 da Armada», imbuídos de um compreensível e ilimitado bem-querer pela santa monarquia – pois tal coragem, por certo apenas a varonis mancebos é pela Padroeira outorgada –, trepou heroicamente até à varanda do Paços do Concelho de Lisboa e, com lídimo pundonor, hasteou no mastro da mesma um rectângulo de pano azul e branco. De acordo com os amigos dos jovens trigésimo-primeiristas (mas o que são «pessoas ligadas ao blogue 31 da Armada»? será o 31 da Armada uma ONG? uma seita? um bando? uma comandita?), o feito foi obtido apesar do pesado rumor das botifarras e das armas aperradas alardeado por essa «forte vigilância policial» que, como todos sabemos, percorre «a noite profunda» das nossas vilas e cidades para aterrorizar as famílias no seu honrado descanso. E para impedir que desde o mais insigne dos palácios ao humilde tugúrio do trabalhador estas afixem nos limiares das portas, tal como intimamente desejam, lindos azulejos com o brando semblante do Senhor Dom Duarte. Tais beneméritos da Pátria, a quem faltou apenas aquela Dona Aldegundes que não falhou a Paiva Couceiro – «é avante portugueses/é avante não temer», cantarão entrementes –, apenas podem ter a nossa compreensão. Sempre agitam mais este querido e tonto mês de Agosto que os blogues regimentais. Deus os guarde assim.

              Atualidade, Devaneios, História

              Mas não se está mesmo a ver?

              It's a mad, mad, mad, mad world

              Estava à espera disto, embora tenha demorado tempo de mais a acontecer: já circulam pela rede mensagens anunciando que Michael Jackson afinal não morreu. Terá sido tudo uma encenação por causa das dívidas, presumindo-se que a esta hora pratique moonwalk numa ilha ignota do Pacífico. Corre também, retomando com toda a força uma teoria da conspiração já com alguns anos, que os americanos afinal não foram à Lua. Apenas encenaram em Hollywood a operação de alunagem para fazerem batota no jogo da Guerra Fria. Podemos pois dar asas à imaginação e inventar a certeza que quisermos, seguros de encontrar sempre partidários intransigentes e capazes de se esforçarem pela causa. A mim, por exemplo, ninguém tira da cabeça que o PS perdeu as eleições europeias de propósito, só para que a sua direcção pudesse aparecer como injustiçada e impoluta salvadora da Pátria, composta por gente compassiva e confiável, de uma «esquerda moderna» merecedora de segunda oportunidade. Quem me acompanha na crença?

                Atualidade, Devaneios

                Para não se dizer que não falei do H1N1

                Obama_H1N1

                Tenho dificuldade em fazer previsões sobre as consequências do surto pandémico de gripe A que se prevê irrompa em Portugal logo que o tempo comece a arrefecer e as andorinhas que restarem partam de novo para África. Por simples ignorância. Os especialistas dizem que no «pior dos piores» cenários morrerão 8700 pessoas em Portugal, mas logo acrescentam que o cenário «deve ser encarado sem dramatismos». Afinal, parece que a gripe comum todos os anos mata quase duas mil almas, e ninguém, salvo alguns hipocondríacos, vive atormentado com isso. Limito-me pois a olhar para as previsões e a tomar o sumo de laranja que recomendava a minha avó, com a vaga sensação de que, fazendo parte de um grupo de risco, deverei ter particular cuidado em evitar correntes de ar e frio no pescoço.

                Existe, no entanto, um lado do problema que é preocupante. A comunicação social agarra como sempre o filão da desgraça e todos os dias efabula cenários apocalípticos de devastação e crise: ruas desertas, fábricas paradas, escolas sem aulas, comércio fechado, estádios vazios, as traineiras em terra e os aviões também. Nas ruas, os escassos transeuntes circularão de máscara e luvas, e o paracetamol valerá mais que petróleo. Os cidadãos passarão em casa o seu tempo de quarentena, partilhando boatos por e-mail, dormindo em camas separadas, trocando os beijos por adeuzinhos, recusando até participar no funeral dos parentes mais chegados. Os cenários propostos têm a ilimitada imaginação por limite. E fazem-no com uma tal intensidade, de maneira tão pessimista e repetitiva, que, chegada a hora, quando alguns cuidados forem necessários, já poucas pessoas darão grande valor às notícias e toda a gente circulará pelas ruas de manga curta e cabeça ao sol, tossindo para cima dos outros. A vaga de alarmismo por antecipação que estamos a viver pode dar maus resultados.

                  Atualidade, Devaneios, Olhares

                  Orgulho sem preconceito

                  A ministra da Educação diz que o país deve encher-se de orgulho com os resultados dos exames de Português e de Matemática do 9º ano de escolaridade. Justamente aqueles que muitíssimos alunos, numerosos professores e outros cidadãos atentos consideraram excessivamente fáceis. Convém pois moderar o enchimento, de modo a evitar que alguma coisa rebente.

                    Apontamentos, Devaneios

                    Peregrinação

                    Não queria acreditar nas informações que me tinham chegado, pensei que fosse uma brincadeira de gosto sofrível, mas acabo de confirmar em directo através da Rádio Marca: os embaixadores de Portugal e do Vaticano estão ambos no estádio madrileno de Santiago Bernabéu, o primeiro de impecável gravata azul e o segundo de alvíssimo cabeção, para receberem Cristiano Ronaldo. São insondáveis os destinos da Pátria e os caminhos do Senhor.

                      Atualidade, Devaneios

                      Prazeres de Pyongyang

                      Mesmo sem a companhia de tremoços, amendoins ou berbigão, a levemente espumosa Taedonggang faz as delícias de Pyongyang. O povo – aparentemente apenas homens, as mulheres apenas servem ou registam – nem se importa de se sentar simetricamente e de fato completo, numa espécie de enfermaria de centro de saúde onde é proibido afixar cartazes, para fruir a diurética cervejola. Kim Jong-Il aprova.

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                        Avante!

                        Seguindo o rastro deixado num post de Daniel Oliveira e noutro de José Simões, lá fui em romaria ao tal artigo do «Avante!» que dá a volta ao mundo para tentar não falar do Irão.

                        Adenda: No Público de hoje, António Vilarigues escreve sobre irregularidades eleitorais em Portugal. Após adiantar alguns dados, conclui: «curiosamente, sobre estes acontecimentos nada li, nada ouvi, nada vi na comunicação social.» Um texto «oportuno», sem dúvida. Para bom entendedor…

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                          Visionários

                          Passei hoje por um enorme outdoor da Juventude Socialista no qual ainda não tinha reparado. Nele surgiam destacadas três frases de campanha, mas como ia a conduzir apenas tive tempo de ler a última. Esta conclamava as multidões de jovens a lutarem decididamente «pelo direito ao TGV».  Uma meta política exaltante, acredito. Provavelmente, eu, adepto contumaz da velha Wells Fargo, é que não estarei a captar o alcance visionário da proposta, a centelha de rasgo que a gerou e transformou em bandeira.

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