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Uma biografia necessária

ignorance is strength

O número de Dezembro do ano passado do Magazine Littéraire trazia consigo um dossiê evocativo dos sessenta anos transcorridos sobre a morte de George Orwell, identificando-o como «escritor e profeta político». Mas se o primeiro epíteto é irrefutável – após curta experiência como polícia colonial, Eric A. Blair viveu, de facto, apenas da escrita –, já o segundo deve ser vigorosamente questionado. Se quem escolheu o qualificativo tivesse lido a magnífica biografia política de Orwell escrita pelo historiador John Newsinger, publicada uma década antes e agora saída em edição portuguesa da Antígona, não teria sido tão impreciso. Um exame detalhado e sistemático das atitudes cívicas e das obras do escritor retira-lhes a dimensão profética e, bem pelo contrário, mostra-as sempre adequadas aos debates do tempo, influenciadas pelas sucessivas conjunturas e interagindo com elas, mesmo quando se viram envolvidas nos sinais assustadores de um futuro-presente distópico.

Porém, se estivesse vivo, Orwell não estranharia essa ténue distorção proposta pelo ML. A incompreensão, muitas vezes a pura calúnia e a completa falsificação, acompanharam não só toda a sua vida pública, como grande parte da interpretação post-mortem dos seus escritos e até de alguns gestos privados. Pelo menos desde Na Penúria em Paris e em Londres, publicado em 1934, e sem interrupções desde aí até à actualidade, o escritor corporizou o intelectual independente de esquerda, provido de uma relutância visceral em pensar de forma dogmática, em agir contra a sua consciência por razões meramente tácticas, e, consequentemente, em aceitar a imposição de quaisquer formas de pensamento único. Como é de calcular, se tal atitude lhe angariou sempre um número apreciável de admiradores fiéis, mobilizou também uma não menor quantidade de adversários tenazes e impiedosos.

Aspectos centrais da intervenção política do autor são tratados de forma coerente e bem documentada nesta biografia, circunscrevendo em muito a margem de deturpação da qual foi sendo objecto por parte da direita liberal, da ortodoxia comunista e até de sectores do Labour, desconfiados dos seus assomos em favor dessa «revolução socialista» na qual jamais deixou de crer. De entre esses aspectos, destacam-se a irredutibilidade das posições anti-imperialistas e socialistas do autor; a profunda influência, nas suas convicções solidárias e na sua militância antitotalitária e anti-estalinista, da dura experiência como combatente republicano durante a Guerra Civil de Espanha (ferido em combate contra os nacionalistas e escapado por sorte ao fuzilamento reservado por agentes do NKVD); e a percepção de que o seu compromisso com o socialismo implicava necessariamente hostilidade para com o comunismo soviético, que considerava «uma brutal tirania mascarada de socialismo». Em 1947, a dois anos da saída de Mil Novecentos e Oitenta e Quatro e a três da morte, Orwell escrevia mesmo: «convenci-me de que a destruição do mito soviético é essencial, se quisermos aspirar ao renascimento do movimento socialista». A frase explica parte substancial do seu difícil trajecto político e da sua actualidade. [John Newsinger, George Orwell. Uma Biografia Política. Trad. de Fernando Gonçalves. Antígona, 288 págs. Publicado previamente na revista LER.]

    Democracia, História, Olhares

    Nem assassinos, nem carrascos

    paz agora

    Qualquer pessoa avisada, justa, e com um sentido da História que ultrapasse o que se pode divisar apenas a dois palmos do nariz, sabe que o fim do conflito no Médio-Oriente e do confronto israelo-palestiniano passará sempre por uma solução de compromisso, com responsabilidades repartidas. A única capaz de criar condições para que um dia se possa chegar ao inevitável: uma Palestina e um Israel reencontrados e democráticos, coabitando e cooperando na construção de um futuro melhor para os seus povos e na defesa de uma paz duradoura para a região. Claro que para se chegar a tal situação está ainda quase tudo por fazer – ao fim de todas estas décadas, é verdade –, a começar pela necessidade absoluta de palestinianos e israelitas serem capazes de afastar das suas lideranças e das suas alianças de circunstância aqueles que, em nome de projectos imperiais ou de fidelidade a um deus superior, tudo fazem para impedir uma solução de aproximação que não se traduza na anulação impiedosa do outro. Será esse o primeiro passo para que se torne possível começar a lamber as feridas e iniciar a via dolorosa do tratamento de ódios tão profundos quanto compreensíveis.

    O inqualificável e desnecessário acto de guerra levado a cabo pelas forças armadas de Israel contra os navios que se dirigiam a Gaza – repudiado por quase todo o mundo, se exceptuarmos os sectores da direita sionista, mas que está também a ser ampla e radicalmente contestado por uma boa parte da opinião pública israelita – apenas demonstra, uma vez mais, de que modo a porta que abrirá esse caminho permanece ainda inacessível. A situação só pode piorar, todavia, se se diabolizar um dos lados que se deseja destruído e se se considerar que do outro apenas existem legiões de inocentes. Que uns são os bons e ou outros os maus de um filme medíocre, desgastante e previsível. Que a luta não é, como de facto é – as palavras são de Amoz Oz mas poderiam ter sido de Edward Saïd – «entre quem tem razão e quem tem razão». Os assassinos sionistas e os carrascos islamitas, bem como os seus fiéis aliados de todos os quadrantes, estão bem uns para os outros: só são capazes de conceber uma paz construída sobre cinzas, vingança, morte e opressão. Penalizando severamente, afinal, os povos que declaram representar e defender.

    [Rui Tavares publicou hoje um texto de opinião em boa parte no mesmo sentido deste. Ei-lo aqui.]

      Atualidade, Democracia, Opinião

      Esta noite sonhei com Fidel

      Juventud Rebelde

      Esta noite sonhei com Fidel. Com um Fidel jovem que me interpelava num passeio e me perguntava simpaticamente se queria tomar com ele o café da manhã. Durante o sonho, a minha reacção foi de surpresa, mas quando acordei achei natural a aparição nocturna, uma vez que a figura do terceiro filho do Senhor Ángel Castro y Argiz, o imigrante galego, permanece, como um espinho, cravada nesse ethos da minha consciência de esquerda que é absolutamente incapaz de separar a ideia de justiça social de uma liberdade sem adjectivos. Por causa desta extravagância pessoal e da sombra deixada pelo sonho nocturno, decidi-me a ler um artigo da revista Books que tinha na pilha das leituras programadas para aquele futuro que jamais se sabe quando chegará. O autor de «La splendide illusion cubaine» é José Manuel Prieto, romancista, ensaísta e professor nascido em La Habana, que publicou em alemão um livro cujo título traduzido enche logo a boca de água: A Revolução Cubana Explicada aos Motoristas de Táxi (atenção, caros editores, a edição original é da Suhrkamp). Prieto é um emigrado – viveu muitos anos no México e ensina actualmente em Nova Iorque – mas não é um gusano cego pela raiva anticastrista. Procura compreender a revolução cubana e o estado a que esta chegou, sem por isso prever um futuro para o regime que não seja o da sua preservação – para além do inevitável desaparecimento físico dos Castros – por ainda uns quantos anos.

      A sua convicção acerca da possibilidade de manutenção da Cuba «socialista» (as aspas são minhas) depende de dois factores que condicionam uma certa aceitação interna do governo e o ainda razoável prestígio internacional do regime. Um é a conservação da relação conflituosa com a América como a principal razão de ser da independência cubana ao longo de todos estes anos: sem a emanação de uma ideia de enfrentamento corajoso das iniquidades, reais ou fictícias, made in USA, há já muito tempo que Cuba se teria afundado na banalidade da pobreza generalizada (que no contexto actual é apresentada como honrada) e do bloqueio das liberdades (justificado todos os dias por uma necessidade de autodefesa). O outro factor, associado naturalmente ao primeiro, prende-se com a manutenção, devidamente apoiada numa cuidada rede de propaganda mediática de dimensões internacionais, da projecção heróica da saga cubana como um movimento de características insurrectas sem precedentes: «uma ode rebelde contra os adultos» nos anos sessenta, hoje «um país cercado» cuja dignidade não tem preço e legitima as medidas mais extremas. É isto que faz com que um abaixo-assinado há algum tempo promovido por dissidentes e que reuniu dez mil assinaturas tenha, num país com onze milhões de habitantes, sido considerado pelos círculos de oposição como uma «grande vitória». Segundo Prieto, a maioria da população permanece muito sensível à propaganda antiamericana e à retórica da valentia diante do cerco, o que se traduz na aceitação tácita de uma tirania que muitos cubanos ainda olham como uma infeliz necessidade. Mais próxima do pesadelo do que do sonho, mas por enquanto incontornável.

        Atualidade, Democracia, Opinião

        Uma escolha difícil

        Fahrenheit 451

        Um inquérito lançado pelo blogue madrileno Papeles Perdidos pretende que assumamos o lugar do redimido Guy Montag em Fahrenheit 451 e resolvamos rapidamente o seguinte dilema: «Que obra literária memorizaria para salvá-la do fogo?». Jamais se me poria o problema, uma vez que a minha capacidade mnenónica tem diminuído um tanto – longe vão os dias gloriosos nos quais encornei em 24 horas todo o Compêndio de Filosofia de J. Bonifácio Ribeiro e José da Silva «para 7º ano e aptidão a cursos superiores» – e, para além disso, a indecisão iria paralisar-me. Se quisesse armar-me em esperto poderia escolher Finnegans Wake, de Joyce, pois tal significaria que, ao ser capaz de memorizá-lo, demonstraria ter condições para memorizar muitos outros livros. Mas prefiro aplicar as energias a trabalhar nos subterrâneos para que jamais nos possamos aproximar do futuro aterrador projectado por Ray Bradbury.

          Democracia, Etc.

          Da vida da luta de classes

          lutadeclasses

          Num inquérito sobre cunhas publicado hoje na revista Única do Expresso («Qual a cunha mais descarada que já lhe pediram?»), a socióloga Maria Filomena Mónica revela-nos que foi uma metida «por uma empregada doméstica» que lhe pediu ajuda para conseguir obter um alvará de taxista para o marido («pelos vistos uma preciosidade», desabafa un peu ennuyée). É nestas alturas, e perante impropérios desta magnitude, que torno a duvidar da morte anunciada da luta de classes.

            Apontamentos, Atualidade, Democracia

            Ana Proletária

            Anna

            Anna Walentynowycz, Proletariuszka, a «Ana Proletária», era uma mulher de estatura muito baixa. Com 51 anos, estava a começar a ganhar algum peso, mas no gigantesco Esta­leiro Naval Lenine continuavam a chamar-lhe também «Mala Anna», a «Pequena Anna». Sempre cheia de energia e de trato afável, toda a gente a conhecia e era um dos operários mais populares do estaleiro. Tinha trabalhado ali durante trinta anos e estava agora a cinco meses da reforma. Tendo ficado órfã durante a ocupação da Polónia pelos nazis, tornara-se então militante comunista. O seu projecto de vida tinha sido participar na construção do socialismo e o lugar onde começou a bater-se por essa tarefa foi o Estaleiro Naval Lenine.

            Era uma operária exemplar, uma soldadora que por causa da baixa estatura era enviada muitas vezes para os recantos mais difíceis e estreitos da estrutura dos navios. Em 1951, aos 29 anos era membro da Brigada de Trabalho Rosa Luxemburgo e ganhou o prémio Herói do Trabalho. Se­gundo o discurso de louvor, no ano anterior tinha aumentado a sua produtividade laboral em 270% («um dos momentos de que mais me orgulho na minha vida», diria muito mais tarde). Após dezasseis anos a manejar o maçarico, Anna ascendeu a uma posição mais responsável, como operadora de grua. Somente um punhado de mulheres do estaleiro – que fabricava sobretudo cargueiros para exportar para a URSS – tinha as qualificações necessárias para manobrar uma maquinaria tão cara e potencialmente perigosa.

            Em 1965 foi­-lhe diagnosticado um cancro e deram-lhe poucos anos de vida, mas mais tarde, depois da radioterapia, os médicos descobriram que se tinham enganado e que afinal ela sempre estivera de perfeita saúde. Ao longo de todo aquele tempo mantivera-se sempre uma operária empenhada, «patriótica e leal ao comunismo». Era tão respeitada que os colegas de trabalho começaram a consultá-la cada vez mais com problemas pessoais. Ela tentava ajudá-los de forma prática, ou então limitava-se a ouvir as suas queixas com empatia. Começou a abrir os olhos aos poucos e a aperceber­-se de como a sua «nova Polónia» estava bem longe do paraíso socialista pelo qual tanto trabalhara.

            Os acontecimentos precipitaram-se em 1970, quando num grosseiro erro de timing, apenas uma quinzena antes do Natal o governo aumentou em 36% os preços de alimentos básicos como a carne, o pão, o leite e os ovos. Estalaram então motins em várias cidades polacas. O mais violento foi em Gdansk, onde a polícia disparou contra manifestantes desarmados no exterior do Estaleiro Naval Lenine. Morreram ali 44 operários. Ainda assim, Anna manteve-se longe dos problemas. Porém, tal como muitos dos seus compatriotas, começou a radicalizar-se à medida que se ia inteirando da vida quotidiana na «Polónia socialista». Referia-se sempre aos operários que tinham morrido em 1970 como «mártires» e tornou-se uma das pessoas que procuravam assegurar que houvesse sempre velas e flores nas suas campas. Descobriu entretanto um esquema de extorsão que envolvia uma fraude a larga escala, da qual beneficiavam pessoalmente os dirigentes do sindicato oficial do estaleiro, naturalmente controlado pelo Partido Comunista.

            No 1º de Maio de 1978 deu então o primeiro passo que a iria colocar sob a mira dos apparatchicks do Partido como um problema potencial. Juntou-se a um grupo criado nesse dia, chamado Comité Fundador para os Sindicatos Livres da Costa Báltica. Em breve este comité receberia um nome mais fácil de decorar: Solidarnosc, ou Solidariedade. Começaram a publicar um jornal, O Trabalhador Costeiro, que na primeira página da sua edição inaugural declarava o seu principal e objectivo: «Somente os sindicatos independentes, que contam com o apoio dos trabalhadores que eles representam, têm uma oportunidade para desa­fiar o regime. Somente eles conseguem representar um poder com o qual as autoridades terão de lidar um dia numa base de igualdade.» Anna Walen­tynowycz foi um dos 65 activistas que assinaram a carta de direitos do jornal no dia da sua fundação.

            Anna morreu hoje, aos 80 anos, no mesmo desastre de aviação que vitimou o presidente da Polónia e um grande número de dirigentes e quadros do país. Dirigiam-se todos para Smolensk, na Rússia, com o objectivo de participarem nas cerimónias fúnebres em memória das vítimas do massacre de Katyn, ocorrido em 1941 quando a polícia secreta estalinista, o NKVD, executou mais de 20 mil oficiais polacos capturados pelo Exército Vermelho. Dela poucos falarão, mas aqui fica a lembrança.

            NOTA – Parte substancial deste post foi escrita recorrendo a Revolução 1989. A Queda do Império Soviético, um livro do jornalista húngaro Victor Sebestyen editado em 2009 pela Presença.

              Atualidade, Democracia, História

              Vozes da Revolução

              Silvio Rodriguez

              Depois do cantautor Pablo Milanés é agora a vez de Silvio Rodriguez. Não se passa mesmo nada em Cuba para além dos murmúrios de uns quantos «mercenários do imperialismo», como se esforçam por fazer-nos acreditar os patéticos publicistas da Revolución traída e da ditadura?

              Nota posterior importante – Como fui uma das pessoas enganadas pela informação que me chegara acerca da posição de Silvio Rodriguez, não posso deixar de apontar agora para o post «Diálogos Cubanos», no qual Joana Lopes oferece alguns links importantes para um mais completo esclarecimento do caso.

                Atualidade, Democracia, Música

                Silêncio romano

                Silêncio

                Os anticlericais mais impenitentes têm-se divertido bastante com a recente revelação em catadupa de casos de abuso de menores ou de práticas de exploração e comércio sexual levadas a cabo, durante décadas, por um número indeterminado mas seguramente alto de membros do clero católico. Claro que, neste como noutros casos ocorridos com a Igreja romana, a procissão jamais sairá do adro. Ao longo de séculos, a sexualidade ínvia determinada pelos Padres da Igreja, que encaravam o sexo como um mal necessário, apenas admissível por ser indispensável à reprodução da espécie, bem como a prática compulsória do celibato, ambas associadas a posições de poder e de influência sobre pessoas, terão contribuído para atribuir a tais práticas uma natureza inevitavelmente endémica e continuada da qual jamais será possível conhecer a verdadeira dimensão. No entanto, nem todos os casos podem ser avaliados do mesmo modo: uma coisa são os abusos, desejavelmente denunciados e eventualmente punidos, outra são as legítimas escolhas de cada um daqueles homens e daquelas mulheres para viverem a sexualidade que jamais deixaram de possuir. O que não está a ser devidamente realçado é, por isso, a dimensão de hipocrisia que preside à convivência entre este tipo de situações e a atitude formal da suprema hierarquia da Igreja católica: existem com toda a certeza dramas intensos de infelicidade e de solidão, vividos por pessoas obrigadas a habitar uma vida inteira com os seus fantasmas e as suas secretas fantasias, das quais Roma e os seus representantes jamais falarão com clareza e verdadeiro arrependimento.

                  Apontamentos, Democracia, Olhares

                  Pela liberdade

                  Havaneza

                  Um novo abaixo-assinado, desta vez massivo e global, de protesto pela morte de Orlando Zapata Tamayo e pela libertação dos prisioneiros políticos em Cuba. Onde, é preciso não esquecer, estes possuem o estatuto particularmente cruel e humilhante de criminosos de delito comum. Pode ser assinado AQUI. Notícias sobre a campanha em curso aqui.

                    Atualidade, Democracia

                    Este homem não é um homem?

                    Guillermo Fariñas

                    «Hay momentos en que es necesario ser semilla, ser raíz, ser muerte…»
                    Guillermo Fariñas

                    Adenda em 15/3 – Imprescindível, sobre a democracia em Cuba e a responsabilidade dos intelectuais, o artigo de Antonio Muñoz Molina publicado este sábado no Babelia. Onde se fala da atitude de um segmento significativo da esquerda democrática europeia e americana que, em vez de assumir uma posição de princípio contra toda e qualquer ditadura, se esta se autoproclamar «de esquerda» prefere, indulgente, «olhar para outro lado», silenciar a opressão, com um medo terrível de que a acusem de ser «cúmplice da reacção». «Yo pensaba que ser de izquierdas era estar a favor de la igualdad justiciera de los seres humanos, del derecho de cada uno a vivir soberanamente su vida. No imaginaba que duraría tanto la costumbre estalinista de injuriar a los perseguidos y a los asesinados.»

                      Atualidade, Democracia

                      Contra o ódio

                      Guantanamera

                      O conhecimento da História ajuda-nos a relativizar «verdades» absolutas, a entender a complexidade do que parece simples, a reconhecer que a perfeição possível resulta sempre da superação do transitório e da dispersão do inabalável. Ver e rever as sequências do passado faz-nos rejeitar as interpelações do mundo que trocam a análise objectiva, complexa, instável, pela afirmação peremptória de uma interpretação simples que parece irrevogável. É a recusa desta perspectiva fácil e maniqueísta que torna inaceitável que se some à denúncia das iniquidades contra os direitos humanos cometidas pelos americanos no centro de detenção de Guantánamo a compreensão pelos crimes cometidos em Cuba contra a liberdade de consciência e os direitos cívicos dos que a defendem. Que torna inadmissível que à exposição dos crimes consumados pelos responsáveis israelitas contra as pretensões legítimas dos palestinianos se junte a defesa irracional do anti-semitismo e a cumplicidade para com as manifestações de brutalidade do Islão radical. Que nos mostra como o único lugar para a firmeza e a irredutibilidade se deve circunscrever ao combate diário contra o elogio da incompreensão e a disseminação do ódio.

                        Atualidade, Democracia, História

                        O direito a dissidir

                        Dissidência

                        Pode parecer uma bizantinice, mas vale a pena encarar a questão levantada por Pedro Correia – de quem cordialmente ‘dissido’ neste particular (e por vezes noutros) – a propósito da palavra ‘dissidente’, quando considera que o termo não deve ser utilizado para referir opositores ou contestatários isolados dos regimes de Pequim ou de Havana. Para sustentar a sua opinião, refere que ele foi cunhado na antiga União Soviética «para designar todos quantos se afastavam da ‘normalidade’ política e social, insinuando uma espécie de doença psíquica». Se o regime dizia representar todo o povo, quem não se sentisse representado por ela só poderia então ser ‘dissidente’. Ou seja, anormal, louco e criminoso.

                        É parcialmente verdadeiro este referencial histórico, mas não o é inteiramente. Na verdade, a palavra surgiu de início, no ocidente, para se referir aos intelectuais soviéticos que se opunham, quase sempre isoladamente e de forma ilegal, a um regime totalitário que remetia a diferença, a divergência em relação ao pensamento único e a um sistema que se considerava a caminho da perfeição, para a esfera da marginalidade e da doença. Como era possível alguém em seu perfeito juízo, e para mais um cidadão supostamente informado, membro da intelligentsia, divergir do cientificamente determinado e comprovado, do tão indiscutivelmente justo que nem precisava ser sufragado? Foi o eco do combate desses homens e dessas mulheres – nem sempre com idêntico sentido, uma vez que agiam isoladamente ou em pequenos grupos e não constituíam propriamente uma associação com objectivos programáticos – que os revelou como… dissidentes. E para cunhar o qualificativo não foi preciso ir longe: bastou recorrer à velha palavra dissidentia, que em latim significa oposição, antipatia, desarmonia. E hoje lá vem no dicionário dissidência como o «acto de separar-se (de uma parcela de um grupo, agremiação, partido, etc.) em virtude de divergência de opiniões». Em qualquer tempo ou lugar.

                        Sim, Hu Jia ou Wei Jingsheng, como Guillermo Fariñas ou Yoani Sánchez, podem ser considerados dissidentes. E até o devem ser, uma vez que os antecedentes históricos do qualificativo apenas enobrecem o seu combate pelo direito a pensarem por si e a comunicarem aos outros aquilo que pensam. O direito a dissidir, o imperativo moral de viver e actuar em dissídio. Ainda que se enganem mil vezes.

                          Apontamentos, Democracia

                          Voo picado

                          Aviador

                          Um artigo «de opinião» saído hoje no Público, assinado pelo tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira («A democracia e o casamento entre géneros idênticos»), constitui um dos exercícios mais retrógrados, intolerantes, violentos e sobretudo demagógicos que tenho lido nos últimos tempos. Não se trata de um texto que exprima uma posição da qual discordemos mas que possamos respeitar: este arrazoado execrável e rancoroso ultrapassa em muito o nível do ensaio argumentativo para se transformar num exercício proto-fascista de agressão à própria democracia. Pode ser lido na íntegra num post publicado no Jugular.

                          Publicado originalmente no Arrastão

                            Atualidade, Democracia, Olhares

                            Protesto dirigido à embaixada de Cuba

                            À embaixada de Cuba em Portugal:

                            “Nós, cidadãos de um país que conquistou a sua liberdade há 36 anos, solidários com a resistência a todas as formas de imperialismo, críticos do bloqueio injusto e injustificável a Cuba por parte dos Estados Unidos da América, vimos através deste abaixo-assinado protestar contra morte do activista Orlando Zapata Tamayo depois de uma pena de prisão absurda e de uma greve de fome pelos seus direitos civis. E, através deste protesto, manifestar a nossa solidariedade empenhada para com todos os presos políticos cubanos e para com todos aqueles que em Cuba lutam por valores que, para quem, como os portugueses, viveu meio século de ditadura, são bens preciosos: a democracia, a liberdade e o direito a autodeterminação dos povos e dos indivíduos. Não há verdadeira independência de um povo sem democracia. Não há revolução que valha a pena sem liberdade.”

                            Pode assinar aqui. Divulgue através das redes sociais e do seu blogue.

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                              Toda a dissidência será castigada

                              Conta-me coisas de Cuba

                              O historiador e ensaísta cubano Rafael Rojas publicou no México, onde vive e trabalha por não poder retornar à sua ilha, Tumbas Sin Sosiego, um livro sobre a experiência da relação revolução-dissidência entre os intelectuais cubanos do exílio. Aí escreve a dada altura que a religiosidade política da ideia cubana de Revolução «não radica tanto na escatologia do marxismo-leninismo quanto na mitologia do nacionalismo revolucionário», o qual possui, como se sabe, um grande lastro histórico em toda a América Latina. É em parte por esta razão que todo o dissidente é equiparado a um traidor, traindo não propriamente a classe operária, que aliás mal existe em Cuba, mas sim «a Pátria». É por isso, inevitavelmente, um «mercenário» a soldo do inimigo externo, cujo «crime» – divergir e expressar a sua divergência, pedir uma ordem política que aceite a expressão de alternativas – é da ordem do delito comum, um a vez que atenta contra a unidade que presumivelmente garante a independência face ao inimigo imperialista.

                              Este é um dos grandes paradoxos do regime cubano: sustenta, desde 1959, um combate sem tréguas contra os Estados Unidos da América – contra aquilo que eles representavam nos primeiros tempos da Revolução, e depois contra o injusto e desnecessário bloqueio que têm mantido – mas precisa desse combate para justificar a repressão contra os «desordeiros sabotadores». Assim se compreende que as autoridades castristas tenham agora deixado morrer Orlando Zapata Tamayo, um canalizador de origem humilde, membro da organização de defesa dos direitos civis Directório Democrático, preso em 2003 quando foi apanhado numa vaga repressiva contra a oposição em que dezenas de pessoas foram acusadas de «conspirar com os Estados Unidos para derrubar o regime», sendo então quase todas condenadas a penas pesadíssimas, que chegaram aos 28 anos de prisão. A sua morte é «lamentável», como o próprio Raúl Castro acaba de reconhecer para estrangeiro ver, mas para a clique gerontocrática que governa a ilha ela é compreensível e, de certa forma, necessária. No final do excelente artigo disponível online («2009: El año en que se desvaneció el raulismo»), é ainda Rafael Rojas quem recorda:

                              «Esses anciãos sempre viveram em guerra, real ou imaginária, e as suas mentes acomodaram-se à lógica do confronto. Como guerreiros que são, compreenderam que quaisquer reformas, ainda que limitadas e controláveis, serão a porta de entrada para uma mudança maior que não querem viver. Qualquer decisão que tomem em política interna ou externa, nos próximos anos, reger-se-á por esse cálculo biológico: o tempo que lhes resta de vida deve ser invertido na perpetuação do sistema político, não na sua transformação, problema que diz respeito apenas aos jovens. É a isso que chamam “vitória”: morrer sem mudar.»

                              O mais difícil de entender é a existência, esparsa mas visível, fora de Cuba, de alguns rebentos serôdios seduzidos por uma Sierra Maestra de fantasia. Que medem a sua têmpera revolucionária em função da fidelidade a um modelo histórico que permanece «firme», inalterado, e que não foi democraticamente referendado em mais de meio século de regime. Que bradam sem hesitações «Patria o Muerte. Venceremos!». Para defenderem a sua quimérica e envelhecida Revolución, aceitam, justificam e fazem eco de todas as afirmações do governo de Havana contra os supostos traidores. Cuja prova de traição é facílima de identificar: não acreditam na perfectibilidade do regime, consideram a hipótese de o submeter à lógica «burguesa» e «reaccionária» do voto, e, calcule-se a suprema insolência, esforçam-se, com risco da sua liberdade, do seu emprego e até da própria vida, por declará-lo publicamente.

                              Três posts sobre o tema que publiquei num passado mais ou menos recente: A imensa tristeza (já de 2003), Do Caddilac ao Trabant e Relógios cubanos – 50 anos depois.

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