Arquivo de Categorias: Democracia

Quatro anos de guerra e a democracia na Europa

Há quatro anos, na noite em que começou a invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin, um conhecido major-general português, que se intitula especialista em geopolítica, estratégia e relações internacionais, mas é essencialmente um descarado propagandista de Putin, declarou perentoriamente na televisão, onde continua a perorar com regularidade, que o conflito estaria concluído, com a vitória russa, «no máximo numa semana». Neste momento, a perspetiva é que ele continue ainda por um tempo largo e indefinido, com o seu terrível rol de destruição maciça de cidades, vilas e aldeias, e a morte de centenas de milhares de civis, sobretudo de militares, sejam estes ucranianos ou russos. 

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    A cultura crítica contra a mentalidade de rebanho

    Em defesa do papel indispensável da cultura crítica, costumo afirmar, em especial ao falar para públicos jovens, que «criticar não é dizer mal». Ela emerge naquele espaço da vida coletiva onde se cruzam ideias, factos, saberes, criações e comportamentos, como dimensão na qual é possível compreender e questionar significados, valores, contextos e dinâmicas, sempre afastando hipotéticas «verdades absolutas». A cultura crítica traduz, por isso, um modo de pensar que tende a questionar saberes, ideologias, tradições e formas dominantes de representar o mundo. Apoia-se num pressuposto básico: nada «é o que é», simples, inequívoco, estático, e tudo é complexo e instável, com diferentes e contraditórios sentidos para as dinâmicas da vida e do progresso. 

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      O drama de Cuba, o protesto e o silêncio

      Passou-me há poucos dias pela caixa do correio eletrónico uma sugestão de adesão a um abaixo-assinado que tinha por objetivo protestar publicamente contra o cerco, agora mais apertado que nunca, que os Estados Unidos de Trump estão a impor a Cuba, causando uma crise de combustíveis da qual as principais vítimas são a indústria do turismo – como se sabe, o único fator de entrada de divisas e o principal vetor da economia de ilha – e, por tabela, a generalidade do povo cubano, já de si tão massacrado pelas circunstâncias e agora com dificuldades de abastecimento básico. Concordando com o protesto, e sendo desde o seu início absolutamente contra o bloqueio imposto há décadas à ilha, não me senti, todavia, em condições de honestamente colocar a minha assinatura no documento.

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        Dificuldades de perspetiva à esquerda

        De forma bem mais clara do que a adotada pelos setores do centro-direita que, por genuína defesa da democracia, ou por temerem o caos político e social que a vitória de Ventura traria, em Portugal escolheram apoiar abertamente o socialista moderado António José Seguro, alguns setores situados à esquerda do PS já estão a vincar que nele votaram forçados e, como insistem em declarar a todo o instante, «sem ilusões». Algumas pessoas desse espaço foram mesmo mais longe, tendo preferido abster-se ou votar em branco, escolha que verbalizaram antes ainda de domingo passado, embora se tenha tratado de uma ínfima minoria, dado a generalidade dos partidos de esquerda ter declarado apoio ao que a partir de 9 de março será o novo Presidente da República.

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          4 notas (e mais uma) sobre as presidenciais

          1 – Neste domingo de fevereiro menos chuvoso do que se previa, uma ampla maioria de votos expressos entendeu que não queria um presidente eleito com base no ressentimento, no medo e em fantasmas autoritários. A vitória de António José Seguro não representa um milagre nem significa uma redenção do país, é certo, mas é um não claro ao messianismo político e à ideia de que Portugal precisa, para viver melhor, de homens fortes e de dedos autoritários apontados, em vez de continuar o seu percurso como democracia adulta e equilibrada.

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            No rebanho pelo medo perseguido

            Admito que tenho pouco ou nenhum respeito por quem, diante de situações extremadas, dramáticas para a sociedade em que vive, possuindo voz prefere calar-se e nem por um segundo verbalizar a sua opinião. Pior ainda quando hoje é tão fácil fazê-lo. Se confrontarmos essas pessoas em privado, até podem afirmar que a sua escolha é esta ou aquela, eventualmente próxima da nossa, mas fazê-lo de forma pública é algo que está claramente abaixo do seu receio atávico de tomar posições. Como cantou José Mário Branco em «Perfilados pelo Medo», de 1971, para elas «decisão e coragem valem menos / e a vida sem viver é mais segura», lá seguindo em cuidadoso silêncio no meio do seu «rebanho pelo medo perseguido».

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              Viver com «pegada digital» ou não existir

              Chama-se «pegada digital», ou «eletrónica», ao rasto de dados que deixamos para trás ao usar a Internet. Ela pode ser passiva, composta sobretudo por páginas que visitamos, mails que enviamos e alusões que por ali nos são feitas, ou então ativa, incluindo textos e imagens que produzimos e deixamos em «sites», caixas de comentários e redes sociais. Esta «pegada» pode ser usada com objetivos muito diversos, seja para rastrear a atividade de alguém ou para assinalar a sua presença física e virtual. E por muito que isso possa ser lastimável, quem hoje a não possua pode ver bastante reduzida, ou até apagada, a perceção da sua atividade e até a sua existência pessoal, ainda que estas sejam notáveis.

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                De social-democracia pouco, quase nada, nada

                Quando nas aulas de história contemporânea lhes procurava explicar o sistema partidário português, uma das dificuldades que tinha com os meus alunos estrangeiros, principalmente europeus, que se mostravam interessados no tema, passava por anular junto deles um compreensível e recorrente equívoco. Consistia ele em associarem o Partido Social-Democrata à social-democracia, julgando-o à medida do que conheciam dos partidos análogos dos seus países.

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                  A abstenção como grave erro político

                  Na eleição do próximo domingo, mais do que eleger uma pessoa essencialmente decente, tranquila e progressista como PR, importa que o candidato da extrema-direita não tenha mais de 30%. Tudo o que for acima disso, mesmo não se traduzindo em eleição, representa um enorme reforço daquele setor, bem como da sua capacidade para se preparar para governar, passando a disseminar com maior à-vontade o ódio, a mentira e a demagogia. Por este motivo, autoproclamar-se antifascista e decidir abster-se – apenas para não votar ao lado de pessoas, algumas sem dúvida detestáveis, da direita democrática – não se trata apenas um gesto de cegueira, é também um grave erro político. Mesmo sabendo que umas quantas pessoas jamais o farão, é muito importante mobilizar quem pudermos para não cair neste logro e para não deixar de votar.

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                    Ponto da situação

                    Chegámos a um ponto, aqui no retângulo e ilhas, em que a oposição entre entre tranquilidade e fúria, consenso e polarização, ponderação e imprudência, decência e desonestidade, tolerância e ódio, diálogo e gritaria, civilidade e crime, se sobrepõe a todas as outras, determinando as nossas escolhas bem mais do que as diferenças complexas e naturais com as quais nos habituámos a conviver ao longo de décadas.

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                      O perigo da irredutibilidade

                      Continuo a ver, sobretudo nas redes sociais, uma posição de recusa de um apoio à vitória na segunda volta de António José Seguro chegado de pessoas que formalmente se consideram de esquerda. Ela advém, por um lado, do facto de sobrevalorizarem o que de menos positivo para as suas opções contém a candidatura de Seguro, desvalorizando até a sua dimensão inquestionavelmente democrática e a favor da Constituição de Abril. Mas vem também, e até principalmente, de ela ter agora, à última hora, o apoio de muitas personalidades da direita, algumas efetivamente detestáveis, mas que se demarcam do caos e da violência associados à extrema-direita.

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                        Contra a desmobilização e a teimosia

                        Na segunda volta das presidenciais a democracia enfrenta, para além do candidato da extrema-direita, duas posições igualmente perigosas. A primeira é a de quem, perante as sondagens favoráveis a Seguro, considera que não vale a pena votar, pois a eleição «está ganha». Não só pode não estar, como será de grande importância que Ventura não ultrapasse os 30%, se possível menos. De outra forma terá no resultado um balão de oxigénio e, como hoje lembra David Pontes, diretor do Público, passará a liderar de facto a direita, preparando o assalto final ao poder. A segunda posição perigosa, que já começa a escutar-se, é a de setores da esquerda teimosa para quem o apoio a Seguro de pessoas conservadoras e/ou de direita faz com que elas decidam não votar na democracia. Uma cegueira ciclicamente retomada por quem não aprende com a história e até com os próprios erros.

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                          Um combate urgente pela decência e pela democracia

                          Vivemos um confronto de amplitude e intensidade sem precedentes nas cinco décadas da nossa Terceira República. Ele não se limita à expressão verbal e nas urnas das diferenças políticas, natural e necessária em democracia, mas liga-se sobretudo a uma tentativa de subversão do regime e das formas mais essenciais do convívio social. Esta traduz-se na atividade antidemocrática de um setor que visa alcançar o poder e instalar uma ordem autoritária, servindo-se para o efeito de mecanismos e processos oferecidos pela própria democracia. Tem um rosto visível, o do Chega e do seu líder, mas integra também grupos, alguns de natureza criminosa, que aceitam ou levam ainda mais longe os seus objetivos e a sua retórica incendiária.

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                            Presidenciais: agora é centro-esquerda

                            Algumas notas muitíssimo breves e rápidas sobre a primeira volta das presidenciais, originalmente deixadas no meu mural do Facebook.

                            •⁠ ⁠Os resultados finais só podem surpreender quem andasse bastante distraído (incluindo, talvez, as próprias empresas de sondagens). Nenhum dos resultados, nem mesmo o paupérrimo do Marques Mendes ou o do bufão Vieira, determinou o inesperado;

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                              De novo o papel do voto útil

                              Em democracia, a valorização positiva ou negativa do «voto útil» depende sempre, passe a forçada redundância, da utilidade política que ele serve e materializa. Este modo de votar no que se pode considerar um mal menor não é intrinsecamente «bom» ou «mau», mas é vantajoso ou não, de acordo com as circunstâncias. Em eleições legislativas ele quase sempre possui mais de negativo, uma vez que tende a esvaziar a pluralidade das propostas, acentuando a distância entre os grandes partidos, os do poder, e aqueles que fundamentalmente atuam como contrapoder, contribuindo para silenciar as perspetivas que se assumem como alternativas às que são momentaneamente dominantes. 

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                                Inacreditável ou talvez não

                                A revolta popular, em especial aquela que está a acontecer nas grandes cidades, e a repressão do regime dos aiatolás, estão a acentuar-se no Irão, com a ditadura religiosa a usar a força bruta para sobreviver, usando balas reais e fazendo prisões em massa. Ontem deixei no meu mural do Facebook um pequeno apontamento chamando a atenção para o que de poderoso e dramático neste capítulo ali está a ocorrer. Como se tratou de um post aberto a comentários, recebi um de uma pessoa que não consigo perceber como era minha «amiga» – já o não é, felizmente -, pois sempre pondero com o cuidado possível os pedidos feitos nesse sentido.

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                                  O perigoso desaparecimento do «assunto menor»

                                  No meio da avalanche imensa que é hoje a sucessão de informação noticiosa e a abundância da opinião, vemo-nos cada vez mais empurrados, queiramos ou não, para temas considerados urgentes ou prioritários. Estes são logo substituídos – por vezes, bastam dois dias para que aconteça – por outros de igual forma julgados urgentes e prioritários, fazendo os mais recentes destaques com que os anteriores sejam logo abandonados. E fazendo também, num processo contínuo, com que determinados assuntos se tornem irrelevantes, salvo para nichos de audiência, acabando por ser confinados à irrelevância da memória ou ao silêncio.

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                                    No nosso regime constitucional, em eleições como as presidenciais o voto útil não é em si um mal ou um crime – como alguns setores por ele inevitavelmente prejudicados insistem em apregoar -, uma vez que nelas se escolhe mais uma personalidade agregadora do que um projeto político específico de natureza partidária, este sim, necessariamente diferenciado e diferenciador. Mais ainda num tempo de forte bipolarização da sociedade, de profundo terramoto no equilíbrio mundial, e de elevado risco para a democracia, como o que estamos a atravessar. Não o entender – mesmo que isso não signifique praticá-lo, direito que a cada um felizmente assiste – possui a marca, queira-se ou não, goste-se ou não, da cegueira ou do sectarismo, no mínimo da ingenuidade política.

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