Soldados alemães guardam um grupo de judeus em Sanok, Polónia (Setembro de 1939)
«Quem foi a primeira vítima de uma guerra que viria a fazer mais de quarenta milhões delas? Um prisioneiro desconhecido de um dos campos de concetração de Adolf Hitler, com toda a probabilidade um criminoso de direito comum. Numa tentativa para apresentar a Alemanha como vítima inocente de uma agressão polaca, vestiram-lhe um uniforme polaco, levaram-no para a cidade fronteiriça alemã de Gleiwitz, e a Gestapo abateu-o na noite de 31 de Agosto de 1939, na estranha encenação de um «assalto polaco» à estação de rádio local. Na manhã seguinte, quando as tropas alemãs começaram a entrar na Polónia, Hitler apresentou, como um dos motivos que justificavam a invasão, “o ataque ao retransmissor de Gleiwitz por tropas regulares polacas”.»
(in Martin Gilbert, A Segunda Guerra Mundial, editado pela Dom Quixote)
O resto da história é conhecida. Ou melhor, vai sendo conhecida.
Grande festa em Tripoli neste 1º de Setembro para comemorar 40 anos de Muammar Abu Minyar al-Khaddafi à frente da Jamahiriya Líbia. O destacado predador da liberdade de imprensa, déspota responsável por atentados sistemáticos contra os direitos humanos, ex-terrorista e antigo paladino do extinto «socialismo árabe», mas com dinheiro suficiente para comprar cumplicidades por todo o planeta, não consegue, no entanto, fugir à suprema ignomínia: o ter sido designado pela revista Time como um dos líderes mundiais mais mal vestidos da actualidade (embora, reconheça-se, a seguir a Kim Jong-Il e a Vladimir Putin).
Cristiano Ronaldo providenciou há dias um milagre que não foi devidamente divulgado fora da Região Autónoma da Madeira. Uma britânica com mais de 80 anos perdera-se do grupo em que seguia quando participava num passeio turístico junto à levada do Caminho dos Balcões, no Ribeiro Frio. A tentativa de resgate foi rapidamente lançada, mas não estava a resultar. A noite aproximava-se e o temor de que ela pudesse ser fatal para a turista começava a crescer. O desânimo instalava-se já quando, subitamente, se ouviu de uma ravina uma voz que bradava: «Cristiano Ronaldo! Cristiano Ronaldo! Cristiano Ronaldo!». Era mesmo a senhora que estava perdida, assim reencontrada. Não conhecendo uma única palavra de português, servia-se do nome do jogador de futebol para procurar salvação.
Provavelmente ainda voltaremos a ouvir falar deste caso, quando um dia se tratar da canonização do futebolista madeirense. Sim, que Aurélio Agostinho, o bispo de Hipona, também tivera a reputação de levar uma vida de devassidão e intemperança, com muita espetada em pau de louro e fímbria de manto pelo meio, antes de reconhecer que a sua missão terrena era outra: a de transportar o mais comum dos mortais até à Cidade de Deus. E acabaria canonizado.
Admito que não mantenho a melhor das relações com o Twitter. Sei que pode ser uma arma estupenda, particularmente em regiões do planeta – como o Irão, a China, Cuba ou a Bielorrússia – nas quais o controlo da informação exige a quem procura fazer correr uma informação livre que se sirva de meios menos convencionais. Pode também ser útil ou até divertido na partilha diária de informação específica ou mesmo para a conversa informal. Mas não vou muito à bola com o dito.
As razões da minha desconfiança têm uma origem dupla. Desde logo porque o padrão das intervenções obriga a que só possa manter uma conversa com algum nexo quem disponha de muito tempo para estar ligado, o que não é manifestamente o meu caso. Este condicionamento prende-se com o número de pessoas que é capaz de escrever diariamente 30, 50, 100 mensagens sucessivas, tornando quase instantaneamente invisíveis os outros «seguidores» de quem os segue. E depois porque ocorre neste território um tipo de intervenção que sinceramente me aborrece: o das pessoas que dizem qualquer coisa para encherem os 140 caracteres e fazerem um, mais um e outro «update». Ainda que essa «qualquer coisa» seja recomendarem diariamente dezenas de livros, filmes, sites, discos, que obviamente jamais leram, viram, seguiram ou ouviram com um mínimo de atenção. Ou escreverem a alguém, em canal aberto, o mesmo que escreveriam num mail ou numa vulgar sessão de chat.
Por isto me parece interessante o aparecimento de uma nova rede social, o Woofer, que exige mensagens com um mínimo de 1.400 caracteres, não aceita operações de copy-paste consecutivas, e requer assim, pelo menos em princípio, uma conversa muito mais pausada e substantiva. A página principal do Woofer diz-nos aquilo que poderemos então fazer com os 1.260 caracteres mínimos que podemos agora somar aos indigentes 140 que o Twitter nos permite digitar: «evitar abreviaturas», «usar advérbios», e sobretudo ter condições para «ser eloquente». Talvez valha a pena ficarmos atentos a esta experiência, apenas a começar.
Foi criado o NaqaTube, uma versão árabe do YouTube, que se declara regida pelos princípios do islamismo. Música, mulheres e notícias desfavoráveis ao governo saudita são alguns dos temas censurados no projecto. «O nosso objectivo», assume um dos seus criadores, «é reduzir o número de visitantes do YouTube». Apenas serão admitidos «vídeos seguros», adequados a qualquer internauta interessado «na religião muçulmana e na moral». Uma fonte próxima sublinhou entretanto que os criadores do NaqaTube estão a dar voz «ao islamismo moderado, nada extremo».
Ao usar hoje o meu caderno Sapiens, vendido como «uma réplica fiel» dos livros para notas e esboços utilizados por Rafael, Galileu e Leonardo, reparei em como o tenho desprezado nas últimas semanas. A culpa é do iPhone. Há mais de dez anos que me sirvo apenas de agendas electrónicas, e tinha até comprado há pouco tempo um utilíssimo HTC, mas as novidades do novo iPhone 3GS resolveram quase todos os defeitos da versão anterior e converteram-me. Trespassei a máquina com menos de um ano de uso, comprei o novo aparelhómetro e procurei aplicações das quais precisava, entre elas uma versão de bolso do Office que permite modificar documentos, um editor de imagem, outro para os blogues, um dicionário, uma enciclopédia, um leitor de e-books. A seguir actualizei o livro de endereços para poder usar o correio electrónico, atulhei a máquina de música, e fiquei pronto para andar com um completo computador (telefone, máquina fotográfica, câmara de vídeo e agenda também, naturalmente) no bolso das calças.
Só posso dizer que o acessório é mesmo magnífico, de uma utilidade imensa para quem precisa a qualquer hora, para trabalho ou lazer, de um computador eficaz e de uma ligação rápida à Internet. Desde que não se importe de mudar radicalmente determinados hábitos e de transmitir, a quem observe de fora, a impressão de passar tempos infinitos a escrever SMS. É pena o preço bastante elevado (nos EUA custa menos de metade) e as limitações da bateria (o paralelepípedo faz tanta coisa que precisa ser carregado todos os dias). Apresento a prova final de que falo verdade e de que não sou um mero mercenário da Apple: este post foi integralmente escrito, a fotografia editada, e o conjunto publicado neste blogue, sem outra intervenção que não a do iPhone.
Aos 94 anos, morreu ontem o músico Les Paul, inventor da guitarra eléctrica e também um dos seus mais importantes fabricantes. Sem a iniciativa que tomou em 1941, quando pela primeira vez juntou um amplificador a uma guitarra de madeira, o mundo não seria aquele que conhecemos nos últimos sessenta anos. Em Rock’n’Roll Jews, Michael Billig lembra como o tom estridente da guitarra eléctrica, produzido a um ritmo intenso, rápido e sincopado, capaz de efeitos acústicos inusitados, passou a soar «de uma forma completamente diferente de qualquer coisa que a anterior geração tivesse ouvido». Enquanto aqueles que tinham atravessado os anos difíceis da Grande Depressão e da Segunda Guerra Mundial preferiam ainda a música amena e romântica dos crooners, que induzia estados melancólicos e de acalmia, da uma natureza basicamente conformista, muitos dos seus filhos, crescendo em tempos de maior segurança e de expansão económica, mas também de recusa de uma perspectiva auto-satisfeita do mundo que herdaram, escolheram a sonoridade inesperada e rude, associada a um novo hedonismo e a novos modos de vida, que o jazz pós-bebop e sobretudo o rock and roll passaram a oferecer. Recorrendo à invenção de Paul. Aquele senhor que ainda há poucos meses continuava a tocar regularmente no Iridium Jazz Club de Nova Iorque.
O recente caso da bandeira alvi-anil hasteada na varanda do município de Lisboa coincide com a divulgação de uma queixa da Associação Nacional de Guardas-Nocturnos por aqueles que não possuírem arma própria se verem forçados a trabalhar munidos apenas de uma simples lanterna. Imaginemos pois o problema que seria observar um desses senhores já com uma certa idade, mais barriga que perna, mais vulto que corpo, a enfrentar à mão-desarmada a sanha monárquica dos moços do Darth Vader. E se ele tivesse a reivindicada arma da ordem, o que faria? Dispararia para o ar lançando o pânico na madrugada da Rua do Arsenal e prejudicando a campanha eleitoral de António Costa? Ou atiraria sobre os próprios pés, para não experimentar problemas de maior?
Seguindo a Wikipédia, o guarda-nocturno é «um profissional que exerce a actividade de ronda e de vigilância de uma determinada área urbana, durante o período nocturno, auxiliando as forças de segurança e os serviços de protecção civil.» A actividade é antiga, tendo assumido um maior destaque urbano ao longo do século XIX, quando as cidades cresceram a um ritmo novo e a quietude da noite abalou para lugares ermos ou bairros despovoados. Em Portugal já foram milhares, mas hoje rondarão os 500, quase sempre em idade avançada, mal-equipados, sem grande treino, e até, temo, sem um enquadramento jurídico adequado. Lamento pela ANGN, mas se nem um homem dos seus, capaz de soprar o apito regulamentar para espantar os mariolas, se protegia do orvalho da noite sob as arcadas da varanda camarária, para que quer agora que a PSP lhes distribua pistolas? Ainda se fossem canhões…
Nunca apreciei muito o humor de Raul Solnado. Algumas das razões desta desafectação percebem-se vendo ou revendo no YouTube pedaços dos seus anos dourados. Solnado fez rir gerações para as quais a levíssima insinuação da «malandrice» constituía um sinal de transgressão, a momice representava um corte num tempo pontuado por rigorosas máscaras, e o abuso do trocadilho perturbava uma fala pública ainda demasiado rígida, o que não foi pouco. Mas esse não era já o padrão de humor requerido por alguns dos da minha geração, e daí o inevitável distanciamento. Afinal também não ríamos com Fernandel, Totò ou Mario Moreno, o «Cantinflas». Recordo, no entanto, muitas pessoas que escutavam pela enésima vez os 45 rotações em vinil com a «ida à guerra» ou «o bombeiro», e pela enésima vez riam com textos que já conheciam de cor. Ou que iam ao Maria Vitória ou ao Variedades de propósito para o ouvirem. A essas, e a muitas outras – por vezes fora do registo da comédia –, Raul, o artista popular, ofereceu inesquecíveis instantes de divertimento e de felicidade. Suficientes, independentemente do gosto de cada um, para que a sua partida tenha deixado a nossa vida colectiva um pouco mais pobre e sisuda.
Não, o blogger não perdeu a voz nem desapareceu em combate. Passa só por uns quantos dias de letargia, como sempre menos que os desejados, para recarregar as pilhas e poder retomar a marcha com um pouco mais de força de braços.
Na noite passada, a Sky News apresentou um programa sobre a vida e a obra de Sir Robert William Robson. Omitiu, no entanto, a sua passagem por Portugal, onde entre 1992 e 1996 treinou o Sporting e depois o FC Porto. E referiu José Mourinho apenas para dizer que este conheceu Bobby Robson no Barcelona, o que aliás não é verdade: foi em Lisboa que se encontraram e foi em Alvalade que começaram a colaborar. A atitude da Sky é, para nós, particularmente injusta. Desde logo porque aqueles foram anos intensos da vida de Robson, que este relembraria depois inúmeras vezes, ligados também, em especial ao serviço do Porto, a êxitos desportivos importantes. Depois porque a sua forma de trabalhar, a sua personalidade forte e a sua bonomia, associados a um portinglês inconfundível e espectacular, o transformaram num dos estrangeiros mais populares no nosso país, o que ficou agora bem patente na forma como inúmeras pessoas – até Sousa Cintra, que o despediu do Sporting mas entretanto reconheceu o erro – o evocaram de forma inequivocamente comovida e carinhosa. E também porque Bobby Robson foi um treinador e um profissional de futebol raríssimo por estes lados: daqueles que via no desporto do qual gostava e ao qual dedicou a vida inteira, como não se tem cansado de recordar quem o conheceu de perto, uma fonte de prazer e uma forma positiva de passar a correr por este mundo, não um problema constante para o fígado. No fim de contas, Sir Bob, o treinador que costumava esquecer-se dos nomes dos seus próprios jogadores, jamais deixou de ser um gentleman abroad. Por um acaso em comissão de serviço no universo pouco cavalheiresco do futebol.
O desejo de devir, escreve o sociólogo do quotidiano Michel Maffesoli no seu notável Du nomadisme, «penetra, conscientemente ou não, as diferentes atitudes sociais, e convida a uma vagabundagem cuja esfera é ilimitada». Inclusive ao nível das convicções e dos programas. Um dos dramas centrais da política contemporânea mainstream liga-se à tentativa dos seus representantes de derrotarem essa torrente, procurando atirá-la para o território desértico da crença voluntarista e da inocência utópica. Empurrando as sociedades para um tempo morto, confiado a uma gestão do possível concebida à vista e exclusivamente para o curto prazo. Ignorando as vagas que não podem dirigir para se fixarem nos escolhos que são capazes de deslocar.
Depois do disparate, mais valia ficar calado por umas horas. Mas o homem não consegue, está-lhe na massa do sangue falar pelos cotovelos. Alberto João Jardim veio agora esclarecer aquilo que pretendia com a tal proposta absurda de proibição do comunismo por decreto. Diz que realmente «o ideal seria a Constituição Portuguesa não proibir ideologias», tendo defendido aquilo que defendeu apenas para evitar situações de privilégio. Ora, se o exercício inicial, comparando as duas grandes experiências totalitárias do século passado, ainda se entendia, se bem que em termos menos grosseiros e ignaros do que os propostos, já o mesmo se não aplica ao fascismo e ao comunismo enquanto «ideologias». Se, no plano dos princípios, o primeiro é essencialmente elitista e agressivo, o segundo é – nos fundamentos, não na lógica grotesca dos regimes e dos partidos que perverteram a sua raiz utópica – estruturalmente igualitário e fraterno. Uma banalidade de base da qual alguns comentadores certificados se esquecem. Da qual o político ilhéu não se apercebe. Mas que faz toda a diferença.