Arquivo de Categorias: Apontamentos

Uma menina exemplar

Na última crónica que enviou para o DN, pressentindo a morte já muito perto de si, Maria José Nogueira Pinto fez um balanço profundo da sua vida. De uma ponta a outra, nele consigo ver reflectido – eu que até nasci no mesmo ano que ela e me formei sensivelmente na mesma época e na mesma universidade – o avesso da minha própria vida, dos valores que fui adoptando, dos combates que resolvi travar, da ausência de fé que mantenho, das causas e da perspectiva do mundo que fiz e conservo minhas. E no entanto não consigo deixar de admirar o seu trajecto. Mas julgo que sei porquê. Porque o assumiu, com coerência e frontalidade, sem desvios e trejeitos ínvios adaptados às circunstâncias, na defesa de uma perspectiva do mundo, da vida, da pátria, da moral, da família, da fé, que fez seguir por onde lhe pareceu certo e não por onde seria mais conveniente e até mais fácil que seguisse. Porque aplicou o princípio, que agora mesmo lembrou, de acordo com o qual «uma vida boa não é uma boa vida». Pessoas assim são raras e, estejam lá elas em que família política estejam, sempre exemplares.

    Apontamentos, Memória, Olhares

    Di cosa parliamo, quando parliamo di…

    De novo ao encontro de apontamentos guardados. Este de Abril de 2004.

    Arendt associava  a centelha da revolução ao momento no qual o fio do tempo «começa subitamente de novo», revelando «uma história inteiramente nova, uma história nunca antes conhecida ou contada.» Entendida desta maneira, ela chispa obrigatoriamente nos momentos luminosos, inesperados, irrepetíveis, da experiência colectiva. O mesmo se pode aplicar à vida individual: não é revolucionário quem simplesmente o deseje, ou defenda um programa capaz de proclamar com décadas de antecipação a necessidade histórica da mudança mais abrupta. Mas sim aquele que, num infinito jogo de risco, é capaz de inscrever na sua vida, principalmente na parte da vida que partilha com os outros, instantes ruidosos, insurrectos, de afirmação do inesperado e do ainda não contado. O que consegue, como um dia escreveu Adorno, «contemplar todas as coisas como se elas se apresentassem sempre sob uma perspectiva redentora». Sabendo aproveitar o vento da urgência.

      Apontamentos, Olhares

      Já vi este filme (o caso Rui Tavares)

      Rui Tavares

      Aquilo que mais me preocupa no caso da demissão de Rui Tavares do lugar de deputado europeu independente pelo Bloco de Esquerda não é saber quem «tem razão». Ou quem cometeu mais ou menos erros. Ou se as coisas poderiam, por cada uma das partes, ter sido conduzidas de outra forma. Provavelmente poderiam. Como provavelmente todos deram passos em falso, embora aceitando que alguns desses passos em falso foram mais passos em falso do que outros.

      Também não é coisa que me perturbe a evidente divergência das posições públicas do Rui Tavares em relação ao que parecia ser a linha oficial do partido. Aliás, foi justamente a sua condição de independente, foi o trabalho dele, e, em regra, foram as suas posições públicas muitas vezes autónomas, que aproximaram muitos eleitores do Bloco ou impediram outros de dele se afastarem. No que me diz respeito, foram pessoas como o Rui, o José Manuel, o Miguel, a Marisa, e tantas outras em quem confio, ou cujo trabalho aprecio mesmo quando não penso exactamente como elas, que, contra ventos e marés – para não atribuir nomes próprios a esses ventos e a tais marés – me fizeram votar uma outra vez, apesar de certas perplexidades, no BE.

      O que de facto alarma, e muito, é ver a divergência política tratada com recurso ao processo – historicamente ancorado na tradição da esquerda velha, autoritária e rezingona – da calúnia, da insinuação, da ideia de «traição», da deturpação, avançados com uma violência desproporcionada em relação à que se utiliza para atacar os verdadeiros adversários políticos. E numa altura e que essa divergência deveria servir, justamente, para estimular o debate, que se torna imperativo travar, em torno das escolhas, dos métodos, e sobretudo da orientação política e dos objectivos, complementarmente dos rostos, de um Bloco de Esquerda capaz de recuperar do recente e significativo desaire.

      Para quem já passou por isto noutros carnavais – pelo que ouviu, pelo que leu, e sobretudo pelo que viveu – há aqui uma sensação pesada de déjà vu. De voltar atrás no tempo, na história, regressando às mesmas injustiças personalizadas, aos mesmos exageros pautados por uma rígida agressividade, à mesma sensação de tempo perdido. Aquilo de que a esquerda, esta esquerda, precisa, não é de acusar, de diabolizar, de apontar hipotéticos traidores, de empurrar figurantes para fora do tablado, de alimentar uma qualquer caça às bruxas. É, justamente ao contrário, de ouvir, de confrontar, de discutir e de traçar caminhos partilhados, abertos, com base numa pluralidade que se faz das ideias e das escolhas mas também das pessoas.

        Apontamentos, Atualidade, Opinião

        A quimera do ouro

        Chaplin em A Quimera do Ouro

        Enquanto bebia um café na esplanada interior de um centro comercial, reparei num daqueles quiosques dedicados à compra instantânea de ouro usado que se têm multiplicado às centenas por cidades e vilas. Ainda há poucos anos, quando alguém procurava negociar uma peça no circuito das ourivesarias, era habitual levantarem-lhe uma série de obstáculos, na presunção de que quem vendia poderia ser um viciado no jogo entretido a dissipar o património familiar, ou mesmo um vulgar ladrão à procura de receptador. Agora vemos homens e mulheres com um ar desgostoso e invariavelmente envergonhado mas com aquele aspecto limpo e cuidado de quem ainda há pouco tinha dinheiro suficiente, esperando a sua vez junto a pequenos balcões públicos, expostos sem piedade aos olhares dos outros, para se desfazerem do fio, do medalhão, das libras «da rainha Vitória», do pesado relógio de bolso, que ao longo de gerações os seus antepassados compraram com esforço, exibiram com orgulho e guardaram para os que haviam de vir. «Vão-se os anéis, fiquem os dedos», pensarão como autoconsolo no meio da aflição e do pessimismo. O corte profundo com o passado e com aquilo que em tempos se presumia serem os «valores seguros» da prosperidade é também uma consequência desta espiral do empobrecimento que já não se observa apenas nos bairros periféricos e nos concelhos decadentes do interior.

          Apontamentos, Olhares

          Árabes e helicópteros

          Síria

          Não sei se é por agora estarmos tão preocupados connosco, com o nosso emprego e com o vazio do nosso porta-moedas, que os árabes voltam a parecer-nos mais estranhos, mais distantes. Ou então se será por causa de vermos os helicópteros de Sarkozy e de Cameron a lançarem rockets sobre as posições de Khadaffi. Pode ser também porque o Avante! não se esqueceu de «informar» que por trás dos levantamentos populares na Síria está tão-somente a CIA em todo o seu esplendor. Ou então porque Bashar al-Assad ainda há pouco mimava com desembaraço o papel sinistro, mas popular na imprensa cor-de-rosa ocidental, de príncipe encantado. A verdade é que os acontecimentos libertadores de Tunes e do Cairo já vão longe e aquilo que está agora mesmo a acontecer na Líbia ou na Síria, com o exército a lançar os tanques contra cidades inteiras ou sobre caravanas erráticas de refugiados, quase não tem lugar nos nossos jornais e televisões, para não falar no discurso autocentrado de uma classe política sem rasgo e uma perspectiva do mundo para além dos arrabaldes de Badajoz. No Facebook, entretanto, até os profissionais das causas parecem acreditar que por ali no pasa nada. Ou de que, se algo está a acontecer, esse algo não terá seguramente muito a ver connosco. Envolve-nos um silêncio comprometedor a propósito dos sinais bem visíveis e muito preocupantes de esmagamento da revolta árabe.

            Apontamentos, Atualidade, Democracia

            Jorge e o espírito de Buchenwald

            Jorge Semprún

            Chegou a vez de Jorge, Jorge Semprún (1923-2011). A Wikipédia regista-o como «escritor, intelectual, político e guionista cinematográfico». Foi tudo isso, sem dúvida, mas para várias gerações de antifascistas e de democratas europeus foi principalmente o exilado da Guerra Civil, o resistente torturado transformado no prisioneiro 44.904 do campo nazi de Buchenwald, o dirigente comunista dedicado, expulso do Partido em 1964 por divergências políticas com Dolores Ibarruri e Santiago Carrillo, e o activo e independente ministro da Cultura de Felipe González. Como escreve o El País no seu obituário, «construiu a sua obra literária com os fragmentos da sua própria memória e nela reside, por isso, a recordação dos factos e dos sentimentos de uma vida marcada a fogo por todas as barbáries modernas.» De si próprio disse Semprún em Adiós, luz de veranos…, parafraseando Baudelaire, «tenho mais recordações do que se tivesse mil anos». Há três dias, na última colaboração que enviou para o diário madrileno onde escrevia habitualmente, recordou a última viagem a Buchenwald, realizada havia pouco mais de um mês, já em precárias condições de saúde e sabendo por isso ser a derradeira: «Ahí, en un antiguo campo de concentración nazi convertido en prisión estalinista, es donde debemos celebrar la Europa democrática. Contra todas las amnesias.»

              Apontamentos, Democracia, História, Memória

              queixa não censurada de um democrata do ano inteiro

              campanha

              sei que não são todos iguais, mas a excepção faz a regra. não gosto, não gosto mesmo, de políticos em campanha. por muito honestos que sejam ou aparentem ser, nas suas propostas como nas suas vidas, existe sempre um sorriso a mais, uma palmada nas costas que parece supérflua, um beijinho claramente excedentário, um panfleto que se impõe a contragosto, um cheiro, ainda que ténue, a axila e a demagogia do qual bem podemos prescindir. pior ainda é o espectáculo dado por muitos daqueles que os recebem lá na terra ou no bairro. com banda trajada a preceito, criteriosas palavras de circunstância e uma incontida alegria artificial, lá estão eles nas praças e nas ruas à espera do audi, vestidos de varinas, de bombeiros, de moços-forcados, de noivas minhotas, de judocas, de meio-maratonistas, de zés-pereiras, de  mulheres partidárias, de jovens jotas, de povo-povo, com lenço e boné a condizer com a cor da bandeira. e há depois os mega-almoços, com cantores entre o proto-pimba e a pós-intervenção, copos de plástico atestados de sumol de ananás, croquetes marados, feijoadas mete-nojo, azeitonas manhosas e pães com manteiga que todos enfiam na boca atulhada enquanto se tratam por companheiros, por camaradas, por ó pá, ó doutor, ó engenheiro, olhe qu’agora é que vai ser. as campanhas, digo-vos eu, deviam ser interditas a grandes grupos. afinal sempre há a televisão, a internet, os jornais, a caixa do correio, a sessão de esclarecimento, os outdoors identificados, ou o contacto porta-a-porta como o fazem os mórmones, as testemunhas de jeová, os angariadores da cabo-tv e os mordomos das festas da padroeira. deveria criar-se um serviço grátis de desintoxicação eleitoral. e uma ponte aérea para que todos nós, os democratas do ano inteiro, pudéssemos emigrar nestas alturas para uma estância termal nas ilhas faroë. retornando, claro está, a tempo de votar em quem merece. ou quase.

                Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

                Na arqueologia do contemporâneo

                O cigarro

                Parece uma extravagância e provavelmente é-o, mas comecei há uns anos a coleccionar palavras a caírem em desuso. Não me refiro às de um arcaísmo patente, já só conservadas em livros, jornais e cartas antigas, mas sim àquelas que ainda são utilizadas e das quais se servem apenas algumas pessoas das gerações mais velhas, membros de determinados agrupamentos políticos ou cidadãos socialmente agregados por certas práticas e rituais. Apenas um exemplo: a palavra «larápio», à qual ninguém recorre agora quando quer nomear o ladrão, pouco me interessa, mas «gatuno», que já só aparece nas imprecações dos estádios de futebol – naturalmente dirigidas ao infeliz árbitro da partida e intercaladas com ofensas à sua progenitora – ou no discurso político da direita e da esquerda mais arcaicas, é um must. Talvez este seja um tique profissional, forçado que estou a seguir, se não se quiser tornar-me críptico para quem me ouve em aulas e seminários, a mudança cada vez mais veloz e ziguezagueante dos vocábulos e dos seus sentidos.

                Entretanto iniciei outra colecção. Desta vez a dos gestos que estão a evaporar-se ou deixámos de encontrar no dia-a-dia deste lado de cá do hemisfério norte. A primeira peça da colecção retirei-a de um filme dos anos 50, a preto e branco, visionado ao acaso no YouTube. Ela documenta o hábito cada vez mais proscrito de fumar fazendo desse acto uma parte importante do jogo social: aquele modo único, pouco higiénico mas que funcionava como marca de à-vontade, de estilo, por vezes de provocação, de apagar o cigarro, dentro de um café, no hall do cinema ou numa repartição pública, atirando-o ainda incandescente para o chão e esmagando-o sem piedade com o tacão ou a sola do sapato. Uma marca de macho ou de «mulher da vida» que, se repararem, quase desapareceu do nosso horizonte. Tal como engraxar os sapatos em público, cuspir para o lado sem qualquer aviso, usar um pente no bolso posterior das calças e servir-se dele com regularidade, limpar os ouvidos com o mindinho ou tamborilar com os dedos em cima do balcão do bar enquanto se espera pela cerveja gelada. Espera-me pois uma missão na arqueologia do contemporâneo. Pouco urgente, mas uma missão.

                  Apontamentos, Atualidade, Devaneios, Olhares

                  Púbicos pêlos, públicas virtudes

                  keep brushing

                  Como a maioria dos portugueses atentos ao que acontece no mundo real – ou seja, no YouTube – franzi o sobrolho e sorri ligeiramente quando vi o putativo ministro das Finanças de um incerto governo PSD servir-se num programa televisivo da expressão «andam a discutir ‘pintelhos’». Assim mesmo, como diz o povo que não tem dicionários capazes de sabiamente converterem o «i» em «e». Mas o pasmo não ficou a dever-se à expressão em si. Todos a conhecemos, apesar da minha avó ter preferido «andam a falar de coisas que não valem dez réis de mel coado» e de muitos de nós, entre os quais me incluo, gostarem mais de recorrer aos moluscos gastrópodes terrestres de concha espiralada calcária vociferando «andam com um raio de uma conversa que não vale um caracol». A surpresa relacionou-se, isso sim, com o facto dela ter saído da boca de uma figura com a qual o PSD, partido que deseja vender uma imagem de circunspecção à medida do seu precocemente circunspecto presidente, pretende conquistar credibilidade pública. Mas terminou aqui a chalaça, pois já não me parece nada engraçado, ou sequer útil, usar a gafe para atacar o partido ou Catroga, seu – isto sim um fenómeno do domínio do paranormal – não-militante e porta-voz. Não vejo que interesse pode ter servirmo-nos de um deslize, que até humaniza o personagem, como arma de arremesso político. Aliás, já achei a mesmíssima coisa na altura do «porreiro, pá» de um conhecido político da Beira interior, ou dos chifres parlamentares ostentados por outro. É que o povo até gosta destas coisas, pá. Vão por mim e deixem-se de pentilhices.

                    Apontamentos, Atualidade, Devaneios

                    Um autor contra o seu pseudónimo

                    Manuel António Pina

                    Dados os antecedentes, acredito que o poeta, escritor, cronista e ex-jornalista Manuel António Pina – ou o seu pseudónimo, e nem ele mesmo poderá garantir qual deles – se sentirá bastante preocupado com a atribuição do Prémio Camões de 2011. Ao contrário de nós, seus leitores, admiradores e «fiéis sequazes», que ficámos só muito felizes.

                    Então, para que conste, siga-se esse alguém:

                    AVISO À NAVEGAÇÃO

                    É altura de sair do armário e fazer uma revelação particular­mente penosa: sou um pseudónimo. Na verdade, eu não sou eu. Nem outro, nem qualquer coisa de intermédio, nem «pilar da pon­te de tédio/ que vai de mim para o outro». Uso um nome suposto, só por acaso coincidente com o do BI, porque não sei, como o taoista, que nome tenho.

                    Um leitor (aliás cordialíssimo) responsabiliza-me por uma crónica aqui assinada pelo pseudónimo sobre a hipocrisia do jornalismo. Estou cansado que me confundam com o pseudónimo. Já cheguei, num café, a ser chamado de «fascista», de «populista» e até de «católico» pelo vice-presidente de uma bancada parlamentar (sou sempre eu quem paga as favas, porque o pseudónimo exis­te apenas duas ou três horas por dia, diante do computador, e não vai ao café).

                    Num pequeno texto intitulado Borges y yo, o autor de Le regret d’Héraclite, quem quer que seja, revela que tem uma existência pacata e que tudo o que lhe acontece se passa com outro, um tal Borges. Comigo é igual. Estou farto (acho que já o disse, ou terá sido o pseudónimo?) de ser confundido com o autor daquilo que escrevo.

                    JN, 16.04.2009

                      Apontamentos, Atualidade

                      Zero em economia

                      easy money

                      Sou um ignorante chapado em ciência económica e durante muito tempo até fiz gala disso. Um tipo que gosta é das letras, das artes, de mexer em arquivos e de idear futuros, que não se preocupa em demasia com o vil metal ou com o preenchimento do IRS, dificilmente fará melhor. Deito fora os suplementos de economia sem os ler, e quando no banco me sugerem «um novo produto» digo logo que estou com pressa. Além disso, jamais confiro os trocos, mudo de canal quando aparece o Gomes Ferreira e não ligo peva aos extractos de conta. Não tenho pois grande capacidade – melhor, não tenho capacidade alguma – para observações minimamente elaboradas e de confiança sobre a evolução económica e financeira do nosso país ao longo dos últimos 37 anos. Mas sou suficientemente ingénuo, ainda assim, para atirar uma pergunta para o ar. O que terá levado as finanças públicas portuguesas ao estado pré-cadavérico em que se encontram? Foi a construção de um Estado social projectada por uns quantos nos anos 60 e lançada ao caminho após a Revolução de Abril, como insinuam a todo o instante os urubus do neoliberalismo que «analisam» a crise em curso, ou foi a edificação de um suposto oásis de dinheiro fácil, de descontrolo das despesas públicas e de crédito sem limites projectada nos «anos dourados» do teso Cavaco e do bom Guterres? Uma pergunta insensata, de ignaro, admito.

                        Apontamentos, Atualidade, Olhares

                        Achtung, camaradas!

                        W. Merkel

                        Wolfgang Merkel – não, que se saiba não é nada à outra senhora – não se trata de um sujeito qualquer. É cientista político, investigador emérito no Centro de Investigação em Ciências Sociais de Berlim, e noutros tempos foi conselheiro, calculem lá, dos senhores Blair, Schroeder e Zapatero. Um de cada vez, bem entendido. Está de passagem por Lisboa e ontem respondeu assim a duas das perguntas que o Público lhe fez.

                        A Terceira Via parecia ser a resposta da social-democracia à globalização. O seu sucesso também acabou. Essa corrente ainda contém elementos para essa resposta do centro-esquerda à globalização?

                        Enquanto metáfora, acabou. Quanto aos seus elementos constitutivos, há um legado negativo e outro positivo (…). Deixe-me citar primeiro dois ou três fracassos. Um dos maiores foi aquilo a que eu chamo o «Estado dos impostos». Eles não pensaram realmente que a social-democracia precisa de um Estado forte e que este tem de ser capaz de cobrar impostos a todas as classes da sociedade. E o que fizeram foi reduzir os impostos às empresas, às corporações, aos altos rendimentos, isso abriu as portas àquilo a que o grande economista Douglass North chama o «caminho da dependência». Passou a ser extremamente difícil voltar atrás, porque qualquer força política que o fizesse seria logo acusada pelos adversários de querer aumentar os impostos e isto faz perder eleições em quase todos os países europeus. O enfraquecimento do «Estado dos impostos» foi certamente um dos principais fracassos.

                        O segundo foi terem sobrevalorizado os efeitos positivos da globalização, levando-os ao credo na desregulação financeira. Foi um erro. Não viram que o impacto da globalização, que se traduziu num aumento de bem-estar geral, deixou de fora o terço mais pobre das nossas sociedades, que se dividiram entre os ganhadores e os perdedores da globalização.

                        O terceiro erro eu diria que foi terem deixado de fora o espaço da UE como espaço de acção política. Estes três erros acabaram por acelerar os problemas da social-democracia.

                        As coisas boas?

                        Não são tão fáceis de enunciar. Uma delas foi a importância que deu à sociedade civil, dizendo que o Estado não pode fazer tudo pelas pessoas. E, pelo menos em teoria, a ênfase que colocaram na educação, educação, educação.

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                          A sombra

                          a sombra

                          Inteiramente de acordo com o texto do Daniel Oliveira sobre o péssimo gesto e o mau sinal que foi a recusa do PCP e do Bloco de Esquerda a apresentarem-se nas reuniões dos partidos políticos portugueses com a delegação do FMI. Não gasto tinta em argumentos, uma vez que a maior parte do que aqui poderia dizer já ficou dito pelo DO. Como a posição do PCP é coerente com aquilo que o PCP tem desde há muito tempo mantido, resta-me acrescentar, enquanto cidadão que desde a primeira hora considerou o Bloco uma peça imprescindível da democracia portuguesa – e nele tem esperançosa e persistentemente votado –, ter começado a temer que a situação crítica que vivemos tenha em alguns dos seus dirigentes retirado da hibernação os velhos fantasmas do maximalismo kamikaze. Ou isso ou então a Ruptura-FER tomou já o poder e ninguém avisou a malta.

                            Apontamentos, Atualidade, Opinião

                            O fotógrafo

                            Nadar_autoportrait_tournant

                            Se tivesse permanecido entre nós, Félix Nadar (1820-1910) – o valente figurão, o fotógrafo de Baudelaire, de Courbet, de Delacroix, de Verne, de Dumas, de Bernhardt, de Clemenceau, de Doré, de Nerval, de Liszt, de Sand, de Gautier, de Thiers – completaria hoje a bonita idade de 191 anos. Sem ele a memória visual da cultura europeia de Oitocentos teria sido outra. Bem mais pobre e cega, sem dúvida.

                              Apontamentos, Memória, Olhares