Arquivo de Categorias: Atualidade

Eles já chegaram

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Vêm aí os Russos! (The Russians Are Coming, The Russians Are Coming, realizado por Norman Jewison e estreado em 1966) foi um dos produtos fílmicos da Guerra Fria mais divulgados no mundo ocidental há cerca de quarenta anos atrás. Em registo de paródia, ele partia da presunção, então espalhada no ocidente, de um carácter insuportavelmente maléfico de qualquer cidadão soviético vivo e das acções do governo que lhes orientava os passos. Ainda que, no filme, o pavor dos habitantes do Massachusetts que inesperadamente viram chegar os marinheiros russos fosse desproporcionado em relação às suas intenções não-agressivas. Tenho a impressão de voltar a sentir alguns dos fumos desse tempo de medos quando vejo, oiço e leio algumas das notícias sobre os exercícios militares navais que, neste momento, a marinha de guerra russa realiza nas águas do Mediterrâneo e do Atlântico.

    Atualidade, História, Memória

    Habash

    Poucos repararam na morte recente de George Habash. Mas foi ele o fundador e, ao longo de décadas, o dirigente máximo da Frente Popular para a Libertação da Palestina, a facção radical – para a época, naturalmente – que ao longo da década de 1970 materializou, dentro da OLP, uma oposição relativamente leal à direcção moderada de Yasser Arafat. Manteve-se, durante anos, como o rosto visível de uma linha de inspiração marxista que chegou a deter uma razoável capacidade de manobra no mundo árabe. E também algum capital de simpatia entre a esquerda e a extrema-esquerda do Ocidente (incluindo-se nesta parte da portuguesa). Em 1967, quando Habash fundou a FPLP, o «socialismo árabe», tendencialmente laico, vector de um pan-arabismo preocupado com a injustiça social, parecia ainda ser uma alternativa próxima e possível. E o «radicalismo» da FPLP não o excluía. Por muito que possa custar hoje admiti-lo, a falência dessa versão arabizada e cheia de cambiantes da utopia socialista abriu caminho, como recordou Samir Kassir, à afirmação dos grupos religiosos intransigentes que dominam actualmente boa parte do Islão. E que asseguraram já uma regressão cultural e social iniludível. Provavelmente as democracias ocidentais deveriam ter considerado de uma forma menos timorata e agressiva o programa político desse «socialismo».

      Atualidade, História

      Por exemplo

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      O ex-chanceler social-democrata alemão Helmut Schmidt, de 89 anos, e a sua mulher Loki, de 88, foram ambos processados por autoridades policiais de Hamburgo após terem sido denunciados por uma organização de vigilância e pressão de não-fumadores – sim, parece que na Alemanha já há disto – que os acusa de terem fumado durante um acto público num teatro da cidade. De acordo com o El País, Schmidt foi operado por duas vezes devido a problemas cardíacos mas fuma sem parar cigarros mentolados e gaba-se mesmo de o fazer como um acto de desobediência civil e expressão da sua própria liberdade («eu só não fumo na igreja», declarou há dias). Loki Schmidt é um pouco mais diplomática e objectiva: «os médicos aconselham-nos a não deixar de fumar pois isso provocaria uma situação de stress para o nosso corpo».

        Atualidade, Olhares

        Coimbra pelo direito à cultura

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        Esta semana foi divulgado publicamente um documento assinado por um amplo grupo de cidadãos de Coimbra com responsabilidades e com actividade na área de cultura, destinado – esgotadas que parecem estar todas as possibilidades de um diálogo construtivo e razoável com os responsáveis autárquicos – a chamar a atenção para o estado trágico e calamitoso em que se encontra a política cultural municipal. Nada melhor, para se entender o sentido do documento, do que segui-lo de perto: «Coimbra é hoje uma cidade amarfanhada do ponto de vista cultural, que só não se tornou absolutamente insignificante a nível nacional graças à actividade que, no limiar da sobrevivência, os poucos agentes culturais que ainda restam conseguem ir desenvolvendo. A Câmara Municipal já não se limita a não apoiar devidamente a actividade cultural que aqui é feita; assume-se, pelo contrário, como um elemento dificultador e tendencialmente destruidor do potencial de criação artística que a cidade possui e que é uma das suas principais mais-valias.»

        Quem vive em Coimbra ou conhece bem a cidade tal qual ela é hoje, e tem uma noção actualizada e democrática do que pode e de qual deve ser o lugar dos executivos municipais na dinamização e na modernização cultural, sabe bem do que se fala quando se desenha um panorama funesto daquilo que a este nível ali (aqui) se tem vindo a passar. O que é tanto mais grave quanto se sabe que a «cidade dos estudantes» é principalmente habitada por quadros de formação universitária, bem como por uma classe média e por uma população juvenil bastante numerosas, que possuem expectativas culturais, de uma natureza urbana e crescentemente globalizada, totalmente incompatíveis com a dimensão popularucha e kitsch que neste domínio a gestão camarária tem assumido. Voltada quase exclusivamente para um público semi-rural, adepto de um certo «folclorismo» passadista e minoritário já em termos demográficos, a Câmara de Coimbra nem sequer parece aperceber-se da forma como essa atitude cria um mal-estar que prejudica a sua própria imagem. No presente e para o futuro. É importante – e urgente – contrariar este estado de coisas.

        Este manifesto público de preocupação e protesto pode ser lido na íntegra no blogue Amigos da Cultura. Onde é possível também saber quem o subscreveu e juntar-lhe novas assinaturas. E acompanhar o debate agora aberto.

          Atualidade, Coimbra, Olhares

          Revolução de veludo

          Uma das conclusões pode surpreender-nos. A outra não.

          «Os professores são os profissionais em quem os portugueses mais confiam e também aqueles a quem confiariam mais poder no país, segundo uma sondagem mundial efectuada pela Gallup para o Fórum Económico Mundial. Os professores merecem a confiança de 42 por cento dos portugueses, muito acima dos 24 por cento que confiam nos líderes militares e da polícia, dos 20 por cento que dão a sua confiança aos jornalistas e dos 18 por cento que acreditam nos líderes religiosos. Os políticos são os que menos têm a confiança dos portugueses, com apenas 7 por cento a dizerem que confiam nesta classe.»
          Público, 25/1/2008 [os sublinhados são meus]

            Atualidade, Recortes

            O tabu do incenso

            incenso

            Na sequência do oportuno reparo de João Tunes sobre alguns problemas ambientais que deveriam preocupar seriamente o nosso zeloso e apostólico Director-Geral da Saúde – e também os mais corajosos e consequentes dos deputados da nação –, uma chamada de atenção para a actividade nefasta do incenso. Essa agressiva substância aromática, supostamente purificadora, que tantos católicos praticantes ou simples turistas são forçados a respirar passivamente nas mais diversas ocasiões litúrgicas e que o insuspeito Catholic News considera manifestamente perigosa para a higiene pública ou, pelo menos, para a saúde dos fiéis. Mais detalhes aqui.

              Atualidade, Etc.

              «Éramos vinte ou trinta nas margens do Sena»

              «Para mim, todos os justos, bem como todos os heróis, só em França se produziam na perfeição, como os espargos». A asserção de Eça terá sido produzida por volta de 1887, mas oitenta anos e várias gerações depois era ainda a partir das coordenadas da França, e em língua francesa, que muitos portugueses de leituras – dos que se não ajustavam ao «doce viver habitualmente» apetecido pelo eminente saloio do Vimieiro – olhavam o mundo e as suas mutações. É provável até que eu próprio pertença à última geração que aprendeu a dizer táble muito antes de saber pronunciar têible, mas cá me fui adaptando, embora de vez em quando possa deixar fugir le pied pour le chausson. Um pouco como aconteceu com o «Ministro do deserto» e esse repentino jamais que os jornais – onde proliferam licenciados em jornalismo que «não fazem a mínima» sobre quem foi Émile Zola ou Jean-Paul Sartre – verteram sem problema algum para jamé. Apesar de não ser de aceitar a condescendência das chefias de redacção com tal coup de pied no dicionário, temos de admitir que o episódio não passa de um pequeníssimo sintoma do trambolhão da língua e da cultura francesas que se tornou irreversível a partir dos anos 80. E não há Sarkozy, com elas ou sem elas, que lhe possa dar a volta. Quel dommage!

                Atualidade, Memória

                Ópio para o povo

                O Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações declarou à Visão que uma das mais importantes tarefas da referida aliança consiste em fomentar a «integração da história das religiões» no ensino e em promover o «diálogo inter-religioso». Quis com isto dizer o «laico» Jorge Sampaio que apoia um reforço do papel das religiões na formação cultural e ética das novas gerações. Tenderia a concordar se, como um outro dever da mesma aliança, idêntico destaque fosse dado à sua crítica e à enunciação do papel central que elas historicamente têm cumprido como entraves da mudança, factores de desigualdade social e agentes da guerra. O que não deixaria de ser uma forma de aproximação entre os povos (a «aliança das civilizações» da qual fala o novo jargão) e de melhoria da sua qualidade de vida.

                  Atualidade, Opinião

                  Segundo plano

                  Não conheci Simone de Beauvoir logo através dos livros. Na viragem para a década de 1970 apenas tinha acesso a uma imprensa mais ou menos generalista que se lhe referia de uma forma quase sempre superficial – «a existencialista», «a defensora do amor livre», «a companheira de Sartre» – e que já então oscilava entre o reconhecimento do seu papel pioneiro no campo do feminismo e a revelação de um feitio difícil. Associado, talvez demasiado livremente, à relação complicada que mantinha com o filósofo. Aquele penteado antiquado com o qual aparecia em todas as fotografias, o raríssimo sorriso, o ar reservado ou colérico, reforçavam ainda uma silhueta que parecia muito distante. Bem mais distante que Paris e o quartel-general de Saint-Germain-des-Prés.

                  A outra Simone, anunciadora, ainda nos anos 40, de um feminismo «de segunda vaga», só a encontrei anos depois, ao procurar pôr em dia as leituras das quais falavam as pessoas da geração imediatamente anterior à minha. Mas rapidamente percebi que a frase-epítome do Segundo Sexo (1949) – «não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres» – tinha entretanto sido apropriada por uma esquerda que procurava conciliar a «emancipação da mulher» com a emancipação mais geral do proletariado, rumo a uma sociedade-outra na qual, então sim, fosse possível construir uma efectiva situação de «igualdade» (ou, mais exactamente, de paridade). Até lá, pois, a tarefa fundamental seria o derrube da ordem estabelecida, jogando com as «capacidades objectivas e subjectivas» existentes na sociedade a fazer tombar, as quais admitiam uma situação de efectiva diferença ao nível dos papéis sociais.

                  Esta interpretação, associada no caso português à persistente secundarização que o salazarismo impôs à mulher, fazendo recuar o seu lugar social a um nível de subalternidade anterior ao verificado durante a Primeira República, tornou inevitável a sua depreciação prática, tão atávica quanto assumida, na própria lógica de organização das diversas facções da oposição de matriz marxista. Isto apesar da introdução gradual, ao longo da década de 1960 e nos ambientes estudantis universitários e urbanos, de uma situação mais «permissiva». Independentemente do reconhecimento teórico da importância do seu papel – que os sectores conservadores recusavam liminarmente –, na prática as mulheres da esquerda foram quase sempre mantidas, de acordo com um modelo que só nos anos 90 começou a recuar de forma visível, num lugar de segundo plano, enquanto retaguarda da luta pela mudança na qual deveriam trabalhar os seus homens.

                  Tantos anos depois, essa é ainda uma marca patente no conservadorismo moral de muitas das mulheres associadas ao referido quadrante político e cultural, e também uma das causas da sua quase-ausência nos rostos visíveis e com protagonismo da geração agora no poder. A verdade é que, em Portugal, a «segunda vaga» do feminismo, beauvoiriana, quase não existiu, para além de algumas manifestações mais ou menos folclóricas e de experiências pessoais isoladas, muitas vezes de «estrangeiradas». E a «terceira», propondo uma mais eficaz desconstrução das diferenças, apenas agora – globalização oblige – começa a fazer-se sentir. Mas antes tarde que nunca.

                    Atualidade, História, Memória

                    STASI minds

                    Os resultados de um inquérito realizado pela Universidade Livre de Berlim, tendo como universo de respondentes cerca de 5.000 alunos alemães com idades compreendidas entre os 15 e os 17 anos moradores na Renânia do Norte-Vestefália, na Baviera, em Berlim e no Brandeburgo, foram encarados pelo Le Monde com bastante alarme. O diário francês considerou-os inquietantes e um claro sinal das graves lacunas na informação sobre a história recente do seu próprio país que muitos desses jovens possuem.

                    Perto de 37 por cento deles, por exemplo, considerou que a STASI, o eficientíssimo órgão de segurança e de contra-informação do Estado da ex-RDA – que se autodesignava como «Escudo e Espada do Partido» e integrava milhões de agentes e informadores –, era «um serviço de informações como outro qualquer». 54,4 por cento dos inquiridos não tinha conhecimento do ano de construção do Muro de Berlim nem sabia que este foi erguido por iniciativa do governo comunista alemão. E 40 por cento entendia que o regime democrático no qual actualmente vive não é melhor que a anterior ditadura comunista, valorizando alguns factores de segurança no emprego que esta parecia assegurar.

                    O singular é que um artigo não-assinado do Avante! («O sonho do socialismo») põe de lado as inquietações do Le Monde e não disfarça a felicidade e o contentamento pela desculpabilização do antigo regime leste-alemão que parece revelar a débil memória histórica dos jovens inquiridos. Fala rancorosamente, e com uma dose notável de ignorância e parcialidade, sobre «a verdadeira história do muro de Berlim e as pesadas responsabilidades das três potências administrativas ocidentais, que impuseram a divisão da Alemanha no pós-guerra contra a vontade da União Soviética»(*), e aponta alegremente para o facto de 32 por cento dos inquiridos não se importarem de regressar a um sistema no qual fosse possível recuperarem as «vantagens daquela sociedade», aceitando «restringir as suas liberdades individuais» para o conseguirem. As frases transcritas em itálico são do Avante!.

                    (*) Disponível nas livrarias uma investigação sólida escrita num registo invulgar: O Muro de Berlim. 13 de Agosto de 1961 – 9 de Novembro de 1989, de Frederick Taylor (Tinta da China).

                      Atualidade, Memória

                      Exultate, jubilate

                      Tive hoje a oportunidade de presenciar dois fedayin proibicionistas a entrarem lampeiros e coruscantes num restaurante sem espaço para fumadores. Li-lhes nos olhos e bebi-lhes das palavras a alegria e o arrebatamento dos iluminados. E tremi.

                        Atualidade, Devaneios

                        Agrião obrigatório

                        O meu último post de 2007 era previsível e contém, digamos, uma espécie de declaração de derrota.

                        Desde que o proibicionismo antitabagista se preparou para substituir as campanhas contra os malefícios do tabaco, insisti na ligação entre o gozo de fumar e práticas culturais tão válidas quanto o são aquelas que associamos ao consumo do álcool e do café. Serão males que, para muitas pessoas, se foram traduzindo num bem maior: o acesso a um padrão de vida que têm todo o direito de escolher. Em seu nome – e apesar de quase não fumar ou consumir bebidas alcoólicas – fui tomando aqui e ali a defesa de uma política equilibrada, capaz de combinar os interesses de todas as partes.

                        Em vão, pois no final ganhou uma delas. Aquela que foi capaz de associar uma maioria de políticos e legisladores profissionais – que procuram mostrar um «ar de modernidade» empurrando, hipocritamente, concidadãos para um gueto – à minoria de fanáticos e exaltados que entende ser a sua maneira de viver a única irrepreensível e aquela que merece todos os direitos de cidadania.

                        Por isso deixarei praticamente de fumar, uma vez que apenas o fazia em sociedade e não aceito passar a ser tratado a partir de agora como um pária. Confinado a expelir baforadas furtivas em pátios e portarias, exposto à chuva, ao vento e ao opróbrio dos higienistas triunfantes. Mas vou vingar-me nas carnes verdes, pois a minha esperança de vida ainda integra a possibilidade de me ver um dia reduzido ao consumo obrigatório do agrião, do nabo e da cenoura. Não posso perder tempo.

                          Atualidade, Opinião

                          Cumplicidades

                          Diversos têm sido os blogues que têm apontado A Terceira Noite como um dos seus apeadeiros favoritos no ano que agora acaba. Como não se trata de mais uma votação sem critério visível, mas sim da expressão subjectiva do genuíno interesse de quem declara a escolha, agrada-me a empatia que ela revela.

                          Esta aproximação leva-me a discordar em pelo menos um ponto do artigo «A cultura do blogue nacional», que José Pacheco Pereira fez sair no Público e agora divulga, ligeiramente ampliado, no seu Abrupto. No todo, ele parece-me um retrato transparente – embora apenas um retrato – deste território de partilha. Parece-me excessiva, porém, a crítica da rede das cumplicidades criadas entre esses «viveiros de elogios mútuos e de complacência» que considera dominarem a blogosfera portuguesa. Não que me agrade o «amiguismo» da citação, o constante cruzamento de hiperligações e referências em circuito fechado, o fechamento a quem se situe fora da mesma área política, o elogio da semelhança e a recusa liminar da diferença. São males reais, que diminuem a independência e o próprio impacto dos numerosos blogues que os praticam. Mas um dos aspectos que me parece mais característico deste espaço de comunicação é também a capacidade que este revela para gerar empatias e aproximações, concretizáveis ou não de uma forma física – o que aqui nem sequer é essencial – e criadoras de áreas de sociabilidade tão tonificantes e legítimas quanto o são aquelas que construímos, a partir do papel, em volta do jornal ou do cronista que nos agrada e escolhemos ler.

                          É esta forma de solidariedade que me parece existir na enunciação de cumplicidades da qual A Terceira Noite tem sido objecto. E é por isso que ela me agrada. Obrigado pois pela preferência.

                            Atualidade, Cibercultura

                            Déjà vu

                            O último e mais substancial daqueles que, no Syllabus da encíclica Quanta Cura (1864), o papa Pio IX considerou serem os oitenta «principais erros» do seu tempo, consistia em aceitar que «o Pontífice Romano tem de se reconciliar e acordar com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna». Condenava-se ali, sem contemplações, aquilo que na altura era associado à chamada «heresia do americanismo»: a defesa da liberdade de religião e da liberdade de pensamento, bem como o reconhecimento da separação da Igreja do Estado. Lê-se o relato da manifestação que decorreu hoje em Espanha, organizada pelo Arcebispado de Madrid, com perto de um milhão de pessoas a gritarem na rua «por la familia cristiana» e «contra el laicismo radical», e sobrevém uma enjoativa sensação de déjà vu. Mas também de receio e incerteza.

                              Atualidade, História

                              Prémio Pessoa

                              Ainda que com atraso, não posso deixar de referir a merecida atribuição do Prémio Pessoa 2007 à historiadora Irene Flunser Pimentel. Para além desta distinção chamar a atenção de um público alargado para releituras não-assépticas de alguns temas da história portuguesa recente (as organizações femininas no Estado Novo, os judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial, a PIDE e a censura, a propaganda da Mocidade Portuguesa Feminina, e, ao que se anuncia, também a vida de José Afonso), ela valoriza igualmente a requalificação da História como instrumento da cidadania. Permitindo ver de que forma se podem conjugar método e rigor com esse «dever de memória» que constitui, afinal, desde pelo menos Heródoto, a essência da própria actividade historiográfica. E mostrando como, neste campo, é possível – e também urgente – escrever ao mesmo tempo para dentro e para fora da academia. Sem que essa escolha implique necessariamente uma simplificação do discurso ou um abrandamento do seu grau de fundamentação. Os meus parabéns a Irene Pimentel.

                                Atualidade, História, Memória

                                Os melhores

                                Desconfio sempre de toda a iniciativa que procure dizer-me quais são «os melhores» nisto ou naquilo. Sejam eles restaurantes, vinhos, livros, perfumes, futebolistas ou mesmo… blogues. Nada tenho contra os prémios – nunca pensei devolver os poucos que ganhei – e parece-me bem que se premeiem publicamente qualidades ou capacidades. Mas referir «os melhores» sem explicar o porquê da designação parece-me uma forma de contornar o carácter relativo que comporta sempre um qualificativo dessa natureza. E a situação piora quando um suposto critério de qualidade («o melhor») é determinado por um factor essencialmente quantitativo: o maior número de votos obtidos numa votação assente em critérios vagos e subjectivos de gosto ou simpatia (para além de não imune, por vezes, a uma «chapelada» garantida por amigos, companheiros e clientes). Como dizer que só porque ganhou as últimas eleições legislativas José Sócrates é «o melhor político português». Ou porque vendeu não sei quantas centenas de milhares de exemplares de cada um dos seus livros José Rodrigues dos Santos é «o melhor escritor lusitano». Ou porque Salazar foi votado «o maior português de sempre» tenha sido de facto «o maior». Absurdo, não é?

                                Parece-me por isso de uma grande lucidez o comentário à sua própria vitória feito pelo autor do Bitaites, vencedor absoluto da interessante e repercutente iniciativa O Melhor Blog Português de 2007. Parabéns, dos sinceros, pela pedagógica honestidade. E pelo prémio também, naturalmente.

                                  Atualidade, Cibercultura, Etc.