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Uma tirania mais ou menos

É preciso dizer claramente que a forma como a generalidade dos dirigentes africanos presentes na cimeira da União Africana recebeu Robert Mugabe, com toda a afabilidade e sem referirem a ilegitimidade do título presidencial que resolveu ostentar, constitui uma vergonha que mancha a sua própria credibilidade. E é uma prova do enorme desprezo que têm pelas regras da legitimidade democrática que admitem apenas quando estas lhes servem para se manterem no poder. Uma vergonha que deve ser associada também à atitude das poucas forças políticas europeias que se recusam a condenar abertamente o tirano racista e cleptocrata e o actual regime zimbabweano. O PCP, infelizmente, tem sido uma delas.

    Atualidade

    Ser comunista

    Pietro Ingrao permanece aos 93 anos, «um homem brilhante, idealista e romântico». Assume, em entrevista ao suplemento Babelia realizada a propósito da tradução espanhola do autobiográfico Volevo la Luna, que o comunismo falhou, «que o assalto ao Palácio de Inverno fracassou». Mas não se rende. Ao seu modo poético de ser comunista, de se não rebaixar à repetição e ao estereótipo, de evocar a memória rejeitando o azedume, de conservar em tempos difíceis o optimismo revolucionário, é possível admirá-lo. Mesmo quando dele nos afastamos.

      Atualidade, História, Olhares

      Feminismos

      São de facto impressionantes, para um país como Portugal no qual jamais existiram movimentos feministas organizados, consistentes e com uma efectiva capacidade de intervenção, o número de participações e a dimensão do Congresso Feminista que começa amanhã, dia 26, em Lisboa, e se prolonga até ao dia 28. Este será plural, com toda a certeza. E dissonante, provavelmente, porque felizmente não existe um feminismo hegemónico. Esperemos também que represente um ponto de viragem, ao qual o poder político – que nem sequer se faz representar e vergonhosamente se furtou a apoiar o evento – deveria estar atento.

      PS em 29/6/2008 – Ontem o secretário de Estado Jorge Lacão esteve presente na sessão de encerramento do Congresso. Mas a sua intervenção não estava inicialmente prevista. Depois de vista a dimensão do acontecimento…

        Atualidade

        Pacatos e ordeiros

        Pertenço a uma das várias gerações que viveu a infância atormentada por dois demónios. Um era o bicho-papão, essa espécie de monstro barrigudo e de voz cava que se passeava pelos telhados e perseguia os meninos que não comiam a sopa toda. O outro era o polícia-mau, designação que sempre achei redundante antes de saber que coisa é uma redundância, uma vez que no meu universo visível não existiam polícias-bons. Por isso ainda hoje, apesar de todas as operações de cosmética, dos agentes bronzeados e com patilhas recortadas, das agentes perfumadas e com pequenas tatuagens – ou talvez um piercingzinho sabe-se lá onde -, de todo o simpático arsenal de «por-favores» e de «com-licenças» que as forças da ordem utilizam para com a maioria dos cidadãos, há uma sineta que vibra em mim sempre que contacto um polícia. Talvez seja o meu anjo da guarda libertário que não dorme e me sussurra que devo suspeitar de qualquer uniforme engomado ou de um cassetete à cintura. Por isso achei hoje um pouco suspeita a conversa de um polícia suíço que falava à televisão portuguesa do carácter très, très, très «pacato e ordeiro» dos emigrantes que andam pelas ruas de Genève e de Neuchâtel a gritarem vivas à selecção. Conhecendo alguns dos comportamentos de muitos dos nossos emigrados nos países de acolhimento, sobretudo na Europa, parecem-me elogios a mais e fazem-me evocar o medo atávico do polícia no qual, tal como eu, muitos deles foram criados. Que gritem todos os vivas e cantem A Portuguesa as vezes que quiserem, que toquem buzinas e se maquilhem a verde-vermelho, mas que depois, passado o Euro-2008, não regressem à vil obscuridade e à dimensão «pacata e ordeira» de quem não faz valer no quotidiano os seus direitos sociais e políticos. Um desejo que é uma quimera, bem sei. Mas não custa nada lembrar-nos de que podemos concebê-lo.

          Apontamentos, Atualidade

          Uma gaffe é uma gaffe

          A gaffe cometida por Cavaco ao referir-se ao 10 de Junho como «dia da Raça» não é mais do que isso: uma gaffe. Podemos entender, e provavelmente bem, que ela provém do lado mais obscuro da consciência atavicamente conformista desse português-padrão – capaz de conviver em paz com os valores e as palavras de ordem do antigo regime – que Cavaco foi na sua juventude. Podemos considerá-la, talvez igualmente bem, o resultado de um momento de descontracção, ou de irritação, no qual o PR baixou um pouco as guardas do cuidado político. Tratou-se de uma gaffe, de facto, caricata com todas as gaffes e que pode servir de motivo para alguma chacota. Agora falar gravemente do assunto e «pedir esclarecimentos» sobre o fundamento político de uma gaffe, como o fizeram o PCP e o Bloco de Esquerda, é algo da ordem do ridículo. Pior só mesmo o júbilo de alguma direita, que levou igualmente a sério as palavras disparatadas do presidente.

            Atualidade, Opinião

            A rua

            Por muitas conjecturas que se possam fazer a propósito dos processos de mobilização ou acerca da polémica em torno das palavras de ordem (calcule-se lá por causa de quem eclodiu ela…), uma manifestação com esta que hoje juntou em Lisboa bem mais de 200.000 pessoas, na rua contra a proposta de revisão do Código do Trabalho, é um poderoso sinal de protesto e deveria representar um alerta para o governo. Por muito menos que isto se estatelou o primeiro-minstro Cavaco no seu segundo mandato. Estão à espera de quê os nossos socialistas de gabinete para saírem dos casulos climatizados e experimentarem um pouco de realidade?

              Apontamentos, Atualidade

              Da festa como delito

              Seria um trabalho demorado, fastidioso e provavelmente inglório tentar decifrar junto de muitos militantes do PCP as razões pelas quais a restante esquerda rejeita colaborar com eles ou então o faz com as maiores cautelas. São anos e anos, muitas décadas, quase um século, de afastamentos, de incompreensões e de combates pela hegemonia. E repare-se que não me estou a referir à rejeição de uma esquerda mais um menos radical por parte do partido, mas sim ao seu contrário: a recusa por parte da autoproclamada «esquerda da esquerda» ou da «esquerda democrática» em chamar a si pessoas, comunistas, que, tanto pelo seu passado quanto por algumas das causas que incorporam, até seria natural que aproximassem de alguns dos seus objectivos. As dificuldades aumentam, aliás, quando começamos a descer o nível geracional das partes envolvidas: salvo raras e caquécticas excepções, os comunistas mais velhos são pessoas a quem a vida foi ensinando a combinar as convicções mais ou menos inflexíveis que detêm com algum sentido prático no relacionamento com os seus hipotéticos compagnons de route. Mas quando descemos um pouco no tal declive geracional, a prática resvala quase sempre para a impossibilidade total do diálogo político e de uma aproximação no terreno. Basta seguir-se, no limite, o discurso de alguns blogues da autoria de jovens comunistas onde se sucedem textos povoados de chavões longevos e de inamovíveis declarações de princípios, de proclamações de ódio a quem possa contestar as suas convicções, explicadas muitas das vezes com base num indigente arsenal dogmático confinado a citações de Lenine.

              Um bom exemplo desta incapacidade de adequação e de diálogo pode, porém, ser encontrado em pessoas cuja experiência poderia significar outra ponderação da realidade. Num texto completamente rancoroso ao qual cheguei através de um post publicado por João Tunes, uma jornalista responsável pelo Avante online aplica-se a abordar o comício «unitário» do Teatro da Trindade – abaixo mencionado, como se terá percebido, sem qualquer entusiasmo da minha parte – referindo-se a uma «esquerda alegre», ou a uma «esquerda em festa», como qualificativos destinados a menorizar sectores com os quais os comunistas deveriam procurar conviver, e que, no seu todo, até representam hoje um universo eleitoral provavelmente mais alargado que o do próprio PCP. Eles recordam-me epítetos rigorosamente iguais, velhos de quarenta anos, utilizados no passado para designar os esquerdistas, ou os «esquerdalhos», que ensaiavam vias próprias de combate à ordem estabelecida. Na austeridade do espírito de seita que os seus cultores mantêm, na sisudez da uma atitude rigorista perante a política e perante a vida que procuram afirmar, na fé simplista e sofredora do seu credo escatológico, são incapazes de perceber uma coisa tão simples como o lugar central da dimensão festiva (e não apenas o «da Festa do Avante!») na mobilização para a vida colectiva e para a política das novas gerações e dos agora decisivos sectores intermédios da sociedade. E continuam a considerá-lo um atestado de menoridade política ou de degradação ideológica. Não querem saber de uma das principais (ou das poucas, consoante a perspectiva) lições do Maio de 68, que continua a entrar-lhes por um ouvido e a sair-lhes pelo outro, deixando de permeio apenas a incompreensão e a animosidade. Não é coisa da qual devamos rir-nos, aqui deste lado um pouco menos sectário e um pouco mais «festivo» da vida.

                Atualidade, Opinião

                E agora o horror

                Uma das mais impressionantes descrições do horror da guerra, da total combustão provocada pelas bombas de enorme potência, da devastação para além do imaginável, foi produzida por Sebald na História Natural da Destruição, ao descrever Hamburgo reduzida, em Julho de 1943, a escombros, fantasmas errantes e cadáveres feitos em papa. E no entanto o escritor alemão referia-se a uma devastação silenciada, olhada durante décadas como justificável por ter acontecido do lado dos vencidos. Não tanto os nazis, que esses puderam sempre suicidar-se ou mudar de identidade, mas todos aqueles, pessoas mais ou menos comuns, que viram desmoronar-se o prometido «Reich de Mil Anos» e deveriam expiar até ao fim, na humilhação, no silêncio e na carne, a cumplicidade, involuntária ou não, com um horror considerado maior pelos vencedores.

                Não me surpreende, pois, o emudecimento daqueles que calam hoje os crimes resultantes das bombas largadas nos últimos vinte anos sobre todo esse território, vasto e arenoso, que vai de Gaza até Cabul. Aqueles que mais de perto têm experimentado o seu impacto não estão do lado dos vencedores, pouco sabem do que representou Auschwitz, e jamais ouviram falar do Gulag ou mesmo de Guantánamo. Pouco sabem até das «fronteiras bíblicas» que lhes são atribuídas. Ou da liberdade da qual falam em seu nome. Não escolhem nem sabem que podem escolher, apenas vivem. E o horror que conhecem, e o ruído dos voos rasantes dos F-16 dos quais nos falam os títulos da manhã, apenas lhes importam na medida em que lhes interrompem os hábitos de sobrevivência. Vistos daqui do nosso conforto, ou lá de cima desde os cockpits, são apenas pontos negros que se movem e que olhamos com a mesma dose de piedade que experimentamos ao olharmos as moscas de verão liquidadas com um jacto de spray. O horror dos outros não existe quando o não vemos ou desviamos o olhar.

                Publicado originalmente, por convite, no Corta-Fitas

                  Atualidade, Olhares

                  Invocar evocando

                  Pelos ecos que vão chegando, o comício-festa com bilhete de entrada que reuniu no pequeno Teatro da Trindade bloquistas, ex-pintasilguistas (que las hay, las hay), renovadores comunistas, Helena Roseta e Manuel Alegre, supostamente para «comemorar Abril e Maio» numa noite de Junho, não excedeu as expectativas: uma invocação do futuro na evocação do passado. A paisagem fotográfica que nos é revelada pelos jornais em papel e em linha acompanha-a: é incontornavelmente triste e soturna. Assim não vamos lá.

                    Atualidade, Opinião

                    «O homem certo»

                    Tal como quase toda a gente, tenho poucas dúvidas sobre qual vai ser a prestação de Manuela Ferreira Leite como líder da oposição. O perfil com o qual chegou à direcção do seu partido não é o de alguém com um real poder de sedução, capaz de tiradas empolgantes, com quem seja possível estabelecer grandes empatias ou a quem se possa colar um sentimento de esperança. É antes o de «pessoa séria», com uma argumentação ponderada, que vive da reputação adquirida no tempo em que foi ministra e do cansaço da maioria dos cidadãos – incluindo-se nestes uma parte significativa dos militantes social-democratas – diante das figuras circenses que têm dirigido o partido. É também o de uma mulher que não vale perante a opinião pública pelo facto de o ser. Apesar das flores e dos beijinhos, não ganhou o PSD por usar saltos altos, mas sim pelo contrário: por dar a ideia de ser «o homem certo» em condições de arrumar os negócios de família. O que não deixa de ser uma desvantagem em termos de novidade e de capacidade de mobilização. E uma segurança adicional para Sócrates. Tudo muito previsível e très ennuyant, aqui por estes lados.

                      Atualidade, Opinião

                      Perder a razão

                      Sempre insinuada nestas alturas, parece-me obtusa e petulante a fantasia de que quanto pior correrem as coisas à selecção portuguesa de futebol tanto melhor a nossa vida colectiva progredirá. Menos distraídos, passaremos então a interessar-nos pelos temas que realmente importam, como a leitura, a política, a produção de couve-lombarda e a ginástica rítmica. Mas não é por não colaborar nesse pranto inútil que diluo, em centenas horas de sofá a ver a Sport-TV, o sentido crítico que me esforço por manter.

                      A verdade é que, como muitos outros compatriotas, gosto tanto de futebol quanto sinto uma profunda aversão pelo meio em si. E também me aflige a obsessão mediática pela unha encravada do Cristiano, pela flatulência do Deco, pela Playsation do filho do Simão ou pela simpática e trabalhadeira prometida do jovem Rui Patrício. Incomodam-me, realmente, os «egrégios avós» berrados por pessoas que não sabem o que possa ser tal coisa. Mas não é por isso que deixo de saborear a arte em si, e que me recusarei a vibrar, espero, com as vitórias alpinas da nossa selecção. Ou deixarei de ficar bastante deprimido com uma eliminação precoce. Como o amor e o ódio, o gosto pelo futebol exige de nós a melhor dose possível de irracionalidade. E é aí que está o gozo todo.

                        Apontamentos, Atualidade

                        «Ce n’est qu’un début!»

                        Apontamentos do Maio – 16

                        Neste Maio que se completa deixei por aqui algumas notas sobre esse outro Maio evocado. É provável que elas tenham projectado – foi essa, pelo menos, uma das intenções – uma certa recusa da perspectiva nostálgica e melancólica que a chamada periódica da data sempre comporta. Ainda assim, não terá sido possível evitar, neste meio e neste tempo que instigam a leitura apressada e oblíqua, a ideia de que se tratavam apenas de umas quantas efabulações de soixante-huitiard reincidente. Mas contra isso, batatas.

                        Reconheço, porém, a validade dessa outra nostalgia, positiva e construtora, da qual fala Svetlana Boym. Aquela que busca no passado um sopro, uma inspiração, um balanço para a interferência emocional do passado no presente. Uma capacidade exemplar, capaz, em circunstâncias completamente diversas, de invocar pelo exemplo o génio da mudança e da insubmissão. Ela fica por aqui, na companhia das canções de Dominique Grange, a soixante-huitiard (ela sim) assumida, acompanhadas do traço militante de Tardi, que a Casterman editou há pouco tempo. Chama-se o álbum 1968-2008… N’effacez Pas Nos Traces! «Não apaguem as nossas pegadas!» Pode lá haver melhor forma de fechar este balanço!?

                        Dominique GrangeLes Nouveaux Partisans
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                          Atualidade, História, Memória

                          Boomerang

                          Apontamentos do Maio – 15

                          De vez em quando colhemos frases. Muitas delas riscadas na areia, durando apenas o tempo de uma emoção, de um desejo ou de uma pequena rajada de vento. Outras parecem-nos escritas sobre a pedra: aparentemente únicas, esplêndidas, imperecíveis. Usei há muitos anos um pequeno caderno de capa de oleado negro para guardar algumas, que acreditava perpétuas e depois se mostraram desleais, fugidias. Ou insensatas. Agora acredito sobretudo em frases-boomerang. Que passam por nós, e se vão, e depois podem voltar. Únicas e incólumes, irrompendo de novo nas nossas vidas distraídas. Como esta, proclamada por Raoul Vaneigem, que retiro do Aviso aos alunos do básico e do secundário: «Não queremos ser os melhores, queremos que nos caiba o melhor da vida, segundo o princípio da inacessível perfeição que revoga a insatisfação em nome do insaciável.»

                            Atualidade, Memória, Recortes

                            Resistir

                            Entra-me pela mailbox adentro um anúncio de um espectáculo que recomenda, subvertendo a velha frase, «Relax, don’t have a cigar». Acreditem os seus autores que produziu o efeito inverso. Uma bandeira da resistência ao higienismo dominante esvoaça desde há meses na janela do meu gabinete de trabalho. Sem a hipótese de ser trocada pelas ordens verde-rubras de mister Scolari ou do professor Marcelo. Ao menos aqui deixem-me em paz.

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                              Sem ícones

                              Apontamentos do Maio – 14

                              Vi hoje à hora de almoço, por um acaso, a maior parte do documentário televisivo 1968. O Mundo em Revolta, de Michèle Dominici. Nada de particularmente novo, para além de mais uma revisitação à memória do tempo por parte de alguns dos seus mais conhecidos actores de ambos os lados do Atlântico (Cohn-Bendit, Robin Morgan, Tommie Smith, Felix Dennis, Alain Krivine, o argelino Nadir Boumaza e o irmão mais velho do estudante checo suicida Jan Palach). Todos eles, exceptuando naturalmente o último, pessoas que permanecem activas e que não entendem a sua experiência militante como simples desvario de uma juventude consumida em gestos equívocos (como o fazem alguns dos nossos ex-maoístas, por exemplo, que insistem em falar do seu próprio passado como de uma velha medalha oxidada).

                              Particularmente interessante, porque mais prospectivo, o testemunho de Krivine, na época figura central da Juventude Comunista Revolucionária, de orientação trotskista, e hoje dirigente da LCR. A um dado momento, refere um pormenor ao qual acaba por dar relevância: para ele, o Maio de 68 terá representado, talvez, um dos derradeiros momentos nos quais, no interior das democracias parlamentares do ocidente, se utilizaram fotografias de figuras associadas ao conceito de revolução socialista (Marx, Engels, Lenine, Rosa Luxemburgo, Trotsky, Mao, Ho Chi Minh, Fidel, o Che, e outras) como ícones de um movimento de massas. De todas elas, apenas o Che permanece visível, e ainda assim, como se sabe, mais como uma insígnia do que como representação de um «guia para acção». Krivine conclui esta constatação conferindo-lhe uma dimensão positiva: olhando este desaparecimento como sinal contemporâneo de uma certa dessacralização da mitografia marxista e de um tempo de procura de uma nova ideia de transformação, capaz de dispensar a imagem ou mesmo a presença simbólica de guias admiráveis e inspiradores. Não deixa de ser uma percepção que vale a pena recolher.

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                                O milagre de Lisboa

                                O noticiário da SIC acaba de adiantar como título de notícia, pela boca de Rodrigo Guedes de Carvalho, que «a chuva parou em Lisboa durante a procissão do Corpo de Deus». Ao mesmo tempo, as imagens mostravam o Cardeal-Patriarca, ataviado com vestes sumptuárias apropriadas ao momento, espalhando incenso ao desbarato – um produto, recorde-se, que provoca danos na saúde de quem o absorve – pelas ruas de uma urbe supostamente em festa. Como se esperava, ninguém deu vivas a Afonso Costa.

                                (Em Espanha o espectáculo não difere muito.)

                                  Atualidade, Devaneios, Etc.