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Arrependidos

Arrependidos

No judaísmo e no cristianismo, o arrependimento é um acto central da virtude religiosa que consiste num sentimento de rejeição sincera, por parte do pecador, do seu comportamento pregresso, do qual resulta a intenção de um retorno à lei moral. Nesta direcção, o arrependido é um penitente, existindo uma relação de sinonímia entre ambas as palavras, ademais com raiz etimológica partilhada. «Repentudo» era ainda, no século XIII, uma palavra comum, híbrida, utilizada no português com idêntico sentido. As vidas dos santos encontram-se, aliás, repletas de relatos desse instante redentor no qual se abjura de um passado de transgressão em nome de um caminho novo, de rectidão e pena. Existem, no entanto, modelos distintos de arrependimento: desde aquele, sincero, que resulta de uma apreensão gradual da falta de justeza de uma atitude que é seguida da sua correcção, a um outro, meramente formal, que se segue à imposição, muitas das vezes condicionada pelo medo ou pela coacção, de uma atitude que não é sentida.

Os sistemas totalitários, consolidados por uma ideologia, de pendor laico ou não, que se vê transformada em «religião do poder», serviram-se sempre do arrependimento como processo para moldar a opinião pública ou isolar a dissidência. Foram diversos os intelectuais alemães que cumpriram o papel de arrependidos, o mesmo acontecendo em França durante a República de Vichy. Os Processos de Moscovo recorreram mesmo às declarações dos «arrependidos» como arma de arremesso lançada contra outras vítimas, transformando as suas palavras em libelos da acusação destinados a esmagar os «inimigos do socialismo». Na China pudemos ver, durante a Revolução Cultural, de que forma foi possível encenar, sem qualquer maquilhagem, o «arrependimento» público de um acusado, transformado publicamente num ser desprezável, cuja atitude de rejeição de si próprio visava confirmar a abjecção e a infâmia do próprio dissídio. De Cuba chegam ainda os ecos fantasmagóricos das declarações prestadas durante o julgamento do General Arnaldo Ochoa, o único guerrilheiro de origem proletária de Sierra Maestra, e depois das arengas avulsas, devidamente televisionadas, de outros penitentes. Por isso, não nos podem surpreender já – a nós que temos, felizmente, a possibilidade de consultar arquivos, de confrontar memórias, e que por isso mais dificilmente nos deixamos enganar – as imagens daquela pobre mulher iraniana, sentada ontem em frente das câmaras, afirmando para todo o mundo, penitente, que «os culpados somos nós, os manifestantes».

    Atualidade, Democracia, História

    As causas da causa

    A rua

    Um dos bloggers que visito diariamente, com o qual numerosas vezes concordo (e quando discordo é geralmente no pormenor), é João Tunes. Referiu-se ele ontem, num post do seu imperdível Água Lisa, a uma frase que eu deixara aqui a propósito dos círculos internos a quem o antiamericanismo primário conduz frequentes vezes a posições bastante criticáveis ou a claros erros políticos. No que respeita à situação no Irão, aprecio a viragem de 180 graus na posição dos comunistas portugueses – que não eram, aliás, os únicos aos quais me referia –, bem como o facto de, após uma semana de enormes protestos de rua e do constante alargamento da sua visibilidade mundial, e provavelmente depois de uma criteriosa pesquisa científica, terem decidido falar sobre o assunto criticando as autoridades iranianas.

      Apontamentos, Atualidade

      Visionários

      Passei hoje por um enorme outdoor da Juventude Socialista no qual ainda não tinha reparado. Nele surgiam destacadas três frases de campanha, mas como ia a conduzir apenas tive tempo de ler a última. Esta conclamava as multidões de jovens a lutarem decididamente «pelo direito ao TGV».  Uma meta política exaltante, acredito. Provavelmente, eu, adepto contumaz da velha Wells Fargo, é que não estarei a captar o alcance visionário da proposta, a centelha de rasgo que a gerou e transformou em bandeira.

        Atualidade, Devaneios

        Teerão também é aqui

        Teerão

        Nas eleições iranianas, juram os apoiantes de Moussavi e confirmam os observadores, ocorreu uma manipulação em larga escala dos votos e dos resultados destinada a assegurar a vitória de Ahmadinejad. A verdade é que, para além da luta eleitoral, se defrontam hoje no Irão dois modos incompatíveis de viver o Islão. Não dois ramos de uma mesma religião, mas duas formas de viver a vida da qual a religião é apenas uma parte. Uma que visa o unânime, a tirania do livro único, para a qual a modernidade, os direitos humanos ou a evidência social das mulheres constituem uma criação demoníaca que é preciso esmagar. A outra que é capaz de partilhar uma experiência humana contraditória e plural, mais próxima de uma ancestral cultura islâmica de liberdade que nos últimos tempos tem sido esquecida. Duas formas de estar no mundo que correspondem a dois modos de vida: o pulsar de um universo peculiar mas integrador de uma tradição partilhada, global, jovem, aberta à diferença, contra o ritmo cadenciado do ódio cego, da escalada da violência, do obscurantismo e da recusa da interacção com o diferente. Os que aceitam falar contra aqueles que escolhem obedecer. Não ter posição neste confronto, fazer de conta que não é connosco, ou, pior, tomar partido por Ahmadinejad só porque este se arvora em paladino do anti-americanismo, apenas revela cegueira e menosprezo pelos princípios básicos de uma ética democrática.

        Adenda: Ontem mesmo a nossa «televisão de serviço público» falou da situação no Irão durante 30 segundos no preciso momento em que a BBC News passava imagens em directo dos confrontos em Teerão. Após uma reportagem de cerca de 18 minutos sobre as andanças mundanas daquele rapaz madeirense que joga à bola.

          Atualidade, Opinião

          Um filme que já vimos

          Sentido de voto

          As eleições europeias são, numa certa medida, as mais importantes de todas. Não decidem quem nos vai governar a casa ou quem guardará durante quatro anos a chave da junta, mas como nelas o «voto útil» tem reduzido peso, expressam de forma mais completa que as legislativas ou as autárquicas a vontade de muitas pessoas comuns. Além disso, uma grande parte dos sectores mais despolitizados, que decidem muitos dos resultados, nesta altura deixa-se ficar em casa a ver a TVI, ou vai dar milho aos pombos e fazer o circuito dos centros comerciais. Sobressai então, um pouco mais, a opinião daqueles que a têm. Mesmo quando ela se traduz em votos dispersos, deixados em branco ou anulados com um risco de alto a baixo.

          Isto confirma o absurdo das interpretações de sectores próximos da direcção actual do PS, que, em estado pós-traumático, se centram agora na vertigem da bipolarização e insistem na ideia peregrina segundo a qual escolher opções «menores», ou que jamais serão governo, é «fazer o jogo da direita». Essas pessoas sabem muito bem que, se não ocorrer um cataclismo social neste momento imprevisível, tanto o Bloco de Esquerda como o Partido Comunista atingiram o maior score possível, e, em conjunto, jamais superarão os 25 ou 26 por cento dos votos, servindo-se desta previsão para minimizarem a escolha do grande número de pessoas que votou nesses partidos sem necessariamente se reverem neles e reconhecendo aquilo que os separa. Mas isso significa reduzir a democracia a uma espécie de teste americano com duas opções, sendo a «esquerda» da qual falam aquela que sabemos: uma área de gestão realista, desvitalizada e soporífera, filha unigénita da decrépita «terceira via», que reduz a política ao circo mediático, à genica pré-formatada das jotas e à capacidade de desempenho dos comissários políticos. De «esquerda», de «esquerda», sobra então um passado legitimador, a cor da bandeira, o «punhinho fechado», e umas quantas frases ocasionais usadas em campanha.

          Muito pelo contrário, se o alargamento do espectro político pode implicar dificuldades futuras – leia-se, dificuldades em produzir e manter maiorias absolutas – enriquece também a diversidade democrática e contribui para o empenho na coisa pública de um maior número de pessoas. As dificuldades resolvem-se com aproximações, com acordos, com verdadeiro debate, com algumas cedências de todos, e não com a constante submissão a uma força hegemónica mais bem colocada para ser poder ad infinitum e impor, sem dar ouvidos aos outros, as leis que bem lhe apetecer rabiscar. Afinal, um filme que já vimos. Um filme mau, por sinal.

            Atualidade, Opinião

            A leste e ainda mais a leste

            Berlim-Leste

            Da responsabilidade de Jean-François Soulet, um especialista em história comparada do mundo comunista, a História da Europa de Leste da Segunda Guerra Mundial aos nossos dias desenha uma síntese do trajecto da metade oriental do «velho continente» desde a invasão da Polónia pelos nazis até à adesão dos países de toda a região à União Europeia. Divide-se em três partes repartidas numa sequência temporal: na primeira delas, «a passagem ao comunismo», o autor ocupa-se principalmente da estratégia da União Soviética para aqueles territórios durante e imediatamente após a Segunda Guerra Mundial; na segunda, «o tempo do comunismo», descreve o processo de «sovietização» de toda a região, posto em prática com o apoio dos partidos comunistas locais, mas também alguns dos movimentos de revolta e dos actos de dissidência que contestaram essa influência; na terceira parte, «a derrocada do comunismo», parte da avalancha de contestação e queda, pós-1989, dos regimes ali implantados, para seguir os processos de democratização dos diferentes Estados, mas refere-se também aos demónios acordados pelo recuo da influência ideológica comunista e às situações, por vezes críticas e trágicas, entretanto vividas. Como escreveu João Tunes no blogue Água Lisa, «ler este livro completa-nos enquanto europeus», como cidadãos «de uma Europa feita de muitos povos, muitos dramas e traumas.» É uma boa síntese, que disfarça uma quase escandalosa lacuna temática na edição local de obras sobre a nossa história recente. [Trad. de Manuel Ruas. Teorema, 382 págs.]

              Atualidade, História

              Euna e Laura

              Euna e Laura

              Por «actos hostis» e «actividades não-identificadas» – basicamente por estarem a trabalhar, após terem entrado ilegalmente no território controlado pelos empregados do «Querido Líder», sobre a vaga de fugas de norte-coreanos desesperados para a China – duas jovens jornalistas norte-americanas foram condenadas a nada menos que 12 anos de trabalhos forçados. Uma «medida disuasora», como bem assinalam os Repórteres Sem Fronteiras. É importante que não sejam esquecidas pela opinião pública internacional. E que nos lembremos delas sempre que tivermos de avaliar os consignatários locais da ditadura paranóide de Pyongyang.

                Atualidade, Democracia

                Esse composto de mudança

                Banda Larga

                Em Castanheira do Vouga, no concelho de Águeda, o povo boicotou as eleições durante mais de três horas porque a banda larga não chega à localidade. O presidente da Junta, justamente indignado com a discriminação, afirmou que a Internet é hoje «tão indispensáel como eram há anos o lápis e a borracha.» As reivindicações dos povos já nada têm a ver com o ódio às máquinas manifestado no ímpeto destruidor dos antigos operários ludistas. Será, pois, bom para o PS que as baterias dos Magalhães durem até Outubro com razoável autonomia.

                  Atualidade, Cibercultura

                  Eleições no eucaliptal

                  No eucaliptal

                  Sou um dos muitos cidadãos, provavelmente alguns milhares, que por ter obtido recentemente o Cartão do Cidadão viu o seu habitual local de voto alterado. Hoje, dentro da cidade de Coimbra e seu termo, só à quarta vez e no quarto sítio consegui meter a cartolina no pote. Andei quase 50 quilómetros dentro da cidade, perdi-me duas vezes, fiz inversão de marcha em becos, conduzi em sentido proibido, apanhei uma chuvada, falei com um polícia, um enfermeiro e um cidadão com aspecto (e comportamento) de demente que foi o único a orientar-me em condições. A nova mesa de voto, descobri ao fim de horas, fica no meio de nada, num pavilhão pré-fabricado e entre eucaliptos e urzes, já quase fora da cidade. Isto quando aquela até agora habitual está a 100 metros de minha casa. Suspeito que também por aqui a abstenção marcará pontos. Uma pessoa que eu cá sei fica a dever-me esta.

                    Atualidade, Devaneios

                    Eles, elas e os livros

                    O ovo estrelado

                    A poucas horas de fechar a campanha eleitoral para as eleições europeias, vale a pena conferir as respostas dos cabeças de lista dos principais partidos ao pedido feito pela revista LER para que indicassem os «dez livros obrigatórios» que irão levar para Bruxelas. Como seria de esperar, as respostas dizem muito sobre as pessoas, a sua dimensão cultural e a amplitude da sua abertura política. Sublinho as respostas de Vital Moreira e de Ilda Figueiredo, discrepantes mas produtos de uma mesma artesania que não brinca em serviço.

                    Vital Moreira (PS): Cinco monografias sobre a integração europeia e cinco sobre o Parlamento Europeu.

                    Paulo Rangel (PSD): Memórias de Adriano (Marguerite Yourcenar), A Castro (António Ferreira), Peregrinação Interior (António Alçada Baptista), O Processo (Franz Kafka), Jóia de Família (Agustina Bessa-Luís), A Imortalidade (Milan Kundera), Júlio César (William Shakespeare), A Montanha Mágica (Thomas Mann), Mensagem (Fernando Pessoa), De profundis, Valsa Lenta (José Cardoso Pires).

                    Ilda Figueiredo (CDU): Constituição da República Portuguesa, Outro Rumo: Nova Política ao Serviço do Povo e do País, A Arte e os Artistas do Vale do Côa (Luís Luís), O Livro Negro do Capitalismo, A Globalização da Pobreza e a Nova Ordem Internacional (M. Chossudovsky), Materialismo e subjectividade – Estudos em torno de Marx (José Barata Moura), Obras Escolhidas (Álvaro Cunhal), Subsídios para a História das Lutas e Movimentos das Mulheres em Portugal sob o Regime Fascista, O Caminho das Aves (José Casanova), A Viagem do elefante (José Saramago), A Terceira Mão (Manuel Gusmão), Triunfo do Amor Português (Mário Cláudio), Alentejo (Eugénio de Andrade).

                    Nuno Melo (CDS): Dicionário da Língua Portuguesa, A Espuma do Tempo (Adriano Moreira), O Império Maríimo Português (Charles Boxer), Actas das Sessões Secretas da Câmara dos Deputados e do Senado da República sobre a Participação de Portugal na I Grande Guerra (Ana Mira), O Doutor Arrowsmith (Sinclair Lewis), Amor nos Tempos de Cólera (Gabriel García Márquez), A Primeira Guerra Mundial (Martin Gilbert), Para Além do Capricórnio (Peter Trickett), Trafalgar (Roy Adkins), Estratégia, o Grande Debate (Sun Tzu/Clausewitz).

                    Miguel Portas (BE): Odisseia (Homero), Bíblia, O Rei Lear (Shakespeare), Memorial do Convento (José Saramago), As Benevolentes (Jonathan Littel), Breviário Mediterrânico (Predrag Matvejevitch), As «Quatro Eras» (A Era das Revoluções, A Era do Capital, A era dos Impérios, A era dos Extremos, de Eric Hobsbawm), Le Proche Orient Éclaté (Gerorges Corm), Comment le peuple juif fut inventé (Shlomo Sand), The superclass: the global power elite and the world they are making (David Rothkopf).

                    Gostaria muito de conhecer as escolhas da segunda linha de cada um dos partidos, mas ficará para outra oportunidade.

                      Atualidade, Olhares

                      Às tantas, aos poucos

                      Provos
                      Amsterdão-1967: provos no Vondel Park

                      Redigida por volta de 1685-1686, a Carta sobre a Tolerância foi publicada pela primeira vez em 1689, nessa mesma Holanda onde o seu autor, John Locke, procurara protecção. Nela se rejeitava terminantemente a ideia segundo a qual se poderia constranger alguém a crer, visando mostrar-lhe o verdadeiro caminho da salvação, e se defendia que as opções no campo do pensamento devem ser completamente indiferentes para as autoridades. Muito antes, durante as guerras de religião do século XVI, os Países Baixos tinham sido já uma ínsula de liberdade e de relativa paz numa Europa intransigente e a ferro e fogo. Aí encontraram refúgio milhares de judeus hispânicos e de protestantes de diferentes tendências, muitos deles a contas com os patíbulos do Santo Ofício se ali não tivessem buscado refúgio. Na década de 1960, Amesterdão transformou-se numa cidade plural e ali nasceram as primeiras comunidades contraculturais de jovens provos, aceites pelas autoridades apesar das suas posições radicalmente não-violentas e anti-sistema.

                      Pois é nesta mesma Holanda que uma força da extrema-direita nacionalista e xenófoba – o Partido para a Liberdade do Povo Holandês, de Geert de Wilders – acaba de ficar em segundo lugar no decurso das eleições para o Parlamento Europeu, admitindo-se já a possibilidade de vir a ganhar as próximas legislativas. No ponto em que estamos, a situação dá bastante que pensar e recoloca um velho problema que os políticos europeus têm feito por varrer para debaixo do tapete: será legítimo integrar no jogo democrático e na arquitectura do bem comum os grupos e organizações que se destinam precisamente a contestá-los? Precisaremos de vê-los no poder para acordarmos e fazermos algo mais do que piedosas reprimendas?

                      Adenda – Recebi entretanto um mail de um amigo português que conhece muitíssimo bem a Holanda e me diz que classificar o partido de Geert Wilders como «da extrema-direita e xenófobo» lhe parece «simplificar em demasia a realidade política e social holandesa». Junta ao que me diz um link para um texto de outrem que lhe parece ir ao encontro daquilo que ele próprio pensa. Esse texto pode ler-se aqui. Da minha parte, registo esta opinião, embora muita da informação que me chega às mãos pareça corroborar a leitura que fiz. Incompleta? É muito provável que sim. Por isso esta adenda.

                        Apontamentos, Atualidade, Democracia, História, Memória

                        7 Maravilhas: a petição

                        São Jorge da Mina

                        Não partilho das concepções, de natureza a-histórica, que partem dos problemas e das contradições do presente para estabelecerem juízos anacrónicos sobre figuras, episódios ou situações do passado. Não podemos ignorar, ou mandar arrasar, as pirâmides de Gizé ou o zigurate de Ur, apenas porque definiram no tempo da sua construção formas de imposição de um modelo social, de uma crença e de uma ordem posteriormente questionados. Ou porque foram erguidos com recurso a trabalho escravo. Como não faz sentido adoptarmos uma avaliação apenas negativista da colonização europeia dos séculos XV a XIX, que não integre as iniciativas contraditórias envolvendo heroísmo e crime, encontro e exclusão, paixão e cobiça. «Todo o documento de cultura», escreveu uma vez Benjamin, «é também um documento de barbárie». Mas também não podemos aceitar uma história asséptica, utilizada acriticamente como curiosidade, instrumento de negócio ou engodo turístico.

                        Parece-me pois lamentável que, independentemente do carácter lúdico e popular do concurso As 7 Maravilhas de Origem Portuguesa do Mundo, historiadores profissionais e autoridades académicas aceitem omissões graves, tendentes a embelezar publicamente o passado e a ignorar a sua dimensão contraditória e dramática, falando em abstracto de um «valor histórico e patrimonial.» Concordo por isso com os termos da petição dirigida ao governo que está a circular na Internet, relacionada com a escolha de construções como o Forte de São Jorge da Mina ou da ilha de Moçambique, entre outras. Escolha capaz de elogiar a beleza arquitectónica, o fulgor dos seus muros, o poder que simbolizavam, mas omitindo que serviram, e prolongadamente, de entreposto decisivo para a manutenção do tráfico de escravos. De lugar de desterro, sofrimento e morte. É inadmissível o disfarce da verdade e, em consequência, a redução da dimensão compreensiva, complexa e crítica que toda a História deve ter. Mesmo aquela que legitimamente se destina a alimentar a indústria do turismo ou serve de divertimento.

                        Por isso me parece criticável o apoio dado à iniciativa pela Presidência da República, pela Universidade de Coimbra, pelo Instituto Camões ou, por paradoxal que possa parecer, pela CPLP. Pode ler e, se concordar, assinar aqui a petição. [Nota posterior: a petição foi entretanto encerrada, pelo que o link deixou de estar disponível.]

                        Publicado originalmente em Caminhos da Memória

                          Atualidade, Democracia, História

                          Tiananmen e o «dever de esquecimento»

                          Tiananmen

                          Li há algum tempo, no blogue de um conhecido militante do PCP, uma observação desdenhosa – logo secundada por comentários entusiásticos de leitores – sobre as pessoas que se preocupam com «aquilo» que aconteceu há setenta anos. «Aquilo» eram os crimes do estalinismo, e o que preocupava o conhecido militante era o aproveitamento dessa evocação como arma de arremesso contra o conceito de liberdade que entronca na teoria e rege a prática dos comunistas que não vão em palavrório, continuando, do fundo do coração e do armazém de adrenalina, a acalentar o devaneio de uma ditadura «dos explorados sobre os exploradores». Sendo o vértice do partido marxista-leninista, naturalmente omnisciente, a determinar, sem meias-tintas, quem está de um ou do outro dos lados.

                          A ideia é absurda, pois tomada à letra anularia o lugar histórico da construção e do desenvolvimento dos movimentos sociais, da emergência do ideal comunista e até da «luta de classes». Além de que, como qualquer pessoa informada e intelectualmente honesta bem sabe, jamais as operações de instrumentalização ou de silenciamento da História foram tão longe quanto o foram nos regimes, pretéritos e presentes, do «socialismo real» e dos seus sucedâneos. O mais grave, porém, é que aquela atitude de desdém atribui ainda à memória, invocada a bel-prazer ou ignorada consoante as metas do momento, um valor de uso, que, como tal, tanto pode ser descartado como servir de moeda de troca.

                          Afinal, será justo esquecer aquilo que aconteceu há cinquenta ou há setenta anos – para muitos milhões de seres humanos, o silêncio, a solidão, a fome, o desespero, a tortura ou a morte – apenas porque tal serve para iludir a ausência de uma resposta clara, por parte dos comunistas de pedra, às circunstâncias da democracia no nosso tempo? Porque tal permite a defesa de uma democracia mitigada, na qual certas pessoas são mais «livres» que as outras, devendo estas pagar pela «liberdade» das primeiras? Trata-se também aqui, para quem não pensa dessa forma, de um «dever de memória», materializado na obrigação de evocar o horror para recordar os mártires e, ao mesmo tempo, para evitar que o futuro revisite os crimes que os esmagaram.

                          Os acontecimentos de Tiananmen ocorreram há muito menos tempo, perfazem-se agora vinte anos, e a sua evocação pelos grandes meios de comunicação tem, por vezes, muito de protocolar e farisaico. As imagens guardadas e divulgadas dos episódios de Junho de 1989 foram até, de tão repetidas, perdendo parte do seu sentido dramático. Por isso, agora é mais a sua omissão, o silêncio de determinadas vozes, que ganha um particular significado. Omitir Tiananmen, apagar aquele acto de revolta juvenil e eventualmente ingénua que, como na Budapeste de 1956 ou na Praga de 1968, materializou o apoio da rua, popular em sentido lato, a uma tentativa de democratização de um regime comunista ao velho estilo, é pois sustentar uma espécie de «dever de esquecimento». Aplicado em nome de regimes e de programas para os quais a democracia, escrita com minúsculas, não passa de factor de verborreia e elemento de propaganda.

                          É importante lembrar os acontecimentos de Tiananmen. É socialmente higiénico, historicamente justo e politicamente necessário, atendendo à actual situação dos direitos humanos e das liberdades na China. Mas, lembrando, reparar também naqueles que os silenciam ou menorizam. Para acalentarem, porque a espécie se não extinguiu, o ovo da serpente.

                            Atualidade, Democracia, História, Memória

                            Extrema-esquerda on the rocks

                            Inuit Ataqatigiit

                            A Gronelândia é uma ilha de elevado valor estratégico, com riquezas naturais imensas – jazidas de zinco, chumbo, ferro, ouro, platina e urânio, pelo menos – por debaixo de uma superfície gelada que derrete todos os dias, e como em mais lado algum, sob a pressão do aquecimento global do planeta. Apesar de escassamente povoado pelos seus 57.000 habitantes, dos quais 50.000 são inuit, e de um clima quase sempre rigoroso, completamente inóspito a norte, estima-se que em breve, com o recuo do gelo, as condições de habitabilidade aumentem consideravelmente. O que coloca no horizonte dos habitantes da ilha, agora a caminho da independência total da administração dinamarquesa, um futuro interessante.

                            Entretanto, as eleições neste momento a decorrer devem levar ao poder o Inuit Ataqatigiit. Uma sondagem da Universidade de Nuuk, a capital da ilha, aponta para que o partido social-democrata, no poder há 30 anos, seja derrubado, ganhando claramente as eleições um movimento político que a generalidade dos observadores classifica como de extrema-esquerda. O emblema do partido, aliás, apenas enganará os mais distraídos. Vai pois ser interessante observar, num país sem classe operária ou campesinato, com elevadas potencialidades em termos de crescimento e a uma distância relativamente pequena do Canadá e dos EUA, a emergência de uma dinâmica assumidamente anticapitalista. Este século XXI está com alguma piada.

                              Atualidade, Olhares

                              Poderemos nós mudar?

                              O Contabilista

                              Depois de Portugal, Hoje: O Medo de Existir, editado em 2004, José Gil transformou-se, de certa forma, num «filósofo popular». Não que multidões de peregrinos tenham afluído às livrarias para comprar os seus livros ou obter a custo o precioso autógrafo. Nada disso. José Gil tornou-se conhecido fora do jardim da intelligentsia local porque deu algum destaque, naquele ensaio, a uma das características que os portugueses, num misto de autocomplacência e gozo, mais facilmente reconhecem em si próprios: a inveja como eixo da sociabilidade. Claro que a projecção não adveio de uma leitura aturada do texto – afinal, quantos marxistas leram Marx? quantos existencialistas se esqueceram de Sartre no porão? -, mas do eco propalado pelos média na precisa altura em que Santana Lopes, prestes a ser escorraçado do poder, chorava no ombro dos compatriotas a invídia que supostamente o vitimara.

                              Pois agora Gil publicou um livro mais curto, embora não menos mordaz e interveniente. Em Busca da Identidade – O Desnorte, da Relógio d’Água, tem de facto todas as condições para ser amado ou odiado, uma vez que constitui um brilhante libelo contra o Portugal visto da soleira do actual governo. Um ataque em forma lançado contra o culto obsidente da sacrossanta avaliação, medida de uma modernização desumanizada e sem outro norte que não aquele que ela própria inventa. Realidade da qual as maiorias se queixam, e que as maiorias temem, sem por isso serem capazes de mudar o seu sentido de voto.

                              Detecta-se, de início, uma imputação ao biénio revolucionário do 25 de Abril. Não ao período em si, mas às suas circunstâncias, sequência e desfecho, que rapidamente exauriram uma dimensão trágica ditada pela rua. Ela sim com capacidade regeneradora dos grandes vícios nacionais: a falta de confiança, a inércia, a autocomplacência, o queixume, a inveja. Ocorrendo porém, logo de seguida, um regresso ao estado de prostração herdado do salazarismo. O essencial do argumento passa então a centra-se nas vicissitudes da introjecção. Esta é olhada como uma ferramenta do conformismo, uma vez que situa uma integração neurótica de um mundo «engolido», mas sempre exterior, assente numa incapacidade congénita para traçar um caminho próprio. Um caminho não dependente de modas ou influências importadas, imune à psicose colectiva que se foi desenvolvendo.

                              Sucede-se então o diagnóstico de um discurso da governação, o de agora, que injecta na sociedade portuguesa um veneno que a impede de seguir um caminho próprio: «é o discurso da via única; é o discurso anti-ideológico que pretende emanar da evidência do “real” das próprias coisas»; (…) é o discurso da competência e da redução da subjectividade a perfiz numéricos de competências.» Como é também «o discurso que nega a diferença entre esquerda e direita, considerando-a obsoleta.» Nesta viagem, «a governação socialista» oferece-nos então «o instrumento para transitar sem percalços da velha sociedade para o novo modo de viver: a avaliação». Esta «dará e medirá», de uma vez por todas, «o mérito e a recompensa.» Gil refere-se então ao caso exemplar da avaliação dos professores, ocupando com ela perto de um quarto do livro, e mencionando a dimensão panóptica – no sentido delineado por Foucault – do sistema instituído pelo Ministério da Educação. Considera-o pós-kafkiano e fortemente marcado por «uma espécie de delírio que atravessa quotidianamente os seus conceptores e decisores.»

                              Claro que os alvos naturais deste ensaio – os actuais dirigentes socialistas em primeiro lugar, mas também muitos dos políticos partidários que sem sucesso os combatem noutras barricadas – dificilmente passarão da página 21, que é onde fecha a primeira parte do volume. Leitura difícil, indigesta e um pouco irritante para quem se dedica mais à sucessão de dossiês ou à leitura das gordas. Para quem segue na fila das prebendas. Impenetrável para os doentes crónicos do «chico-espertismo», observado por José Gil como «traço psicológico» de um certo padrão de arrivista nacional. E que pululam, agora como nunca, pelas áreas de decisão e seus interstícios.

                              Leitura complementar: entrevista de José Gil ao Público

                                Atualidade, Olhares

                                O fantasma de Jdanov

                                Jdanov

                                A reunião de Hugo Chávez com «intelectuais socialistas e revolucionários», destinada a atenuar o impacte de um encontro internacional sobre liberdade e democracia a decorrer ao mesmo tempo em Caracas, por causa do qual Mario Vargas Llosa ficou retido e foi enxovalhado em pleno aeroporto da capital venezuelana, faz, pelo simples facto de afastar, enquanto intelectuais, essas pessoas das «outras», ecoar ideias velhas e perigosas. Evocar tempos sombrios que saltam do além-túmulo para atemorizarem os vivos. A possibilidade enunciada de existir quem possa pensar, escrever, falar, representar, pintar ou filmar de um modo objectivamente «patriótico», «socialista», «revolucionário» – ou mesmo «proletário», como se tentou noutros lugares –, naturalmente situada num lugar privilegiado de acesso ao poder «revolucionário» e às honrarias destinadas aos melhores cidadãos, abre sempre as portas a um universo monolítico e carcerário. Ao qual, pela menorização social e pelo castigo objectivo determinado pela sua diferença, são confinados todos os que se atrevam a pensar à margem do paradigma celebrado. Mesmo aqueles que pisem, solitários e sem programa político visível, o seu próprio caminho. Os autoproclamados «intelectuais socialistas e revolucionários» deveriam ser os primeiros a percebê-lo – para mais com a experiência histórica do seu lado –, recusando aceitar o estatuto de casta ou servir de tropa de choque. Mas preferem acobardar-se, vestindo a camiseta vermelha e tomando-se por valentes.

                                  Atualidade, Democracia, Memória, Opinião

                                  Pela igualdade

                                  MPI

                                  Fui uma das cerca de 800 pessoas que subscreveram inicialmente o documento fundador do MPI – Movimento pela Igualdade no acesso ao casamento civil. A apresentação pública do manifesto teve lugar neste domingo. Pode conhecê-lo e assiná-lo também aqui. Transcrevo o parágrafo final, aquele que define a meta mais essencial deste esforço.

                                  O acesso ao casamento civil por parte de casais do mesmo sexo, em condições de plena igualdade com os casais de sexo diferente, não trará apenas justiça, igualdade e dignidade às vidas de mulheres e de homens LGBT. Dignificará também a nossa democracia e cada um e cada uma de nós enquanto cidadãos e cidadãs solidários/as – e será um passo fundamental na luta contra a discriminação e em direcção à igualdade.

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