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Heróis, precisam-se

Fot. Luis Cardia

Condenado à morte por haver conspirado contra o czar, e após ter visto a pena ser comutada para prisão e degredo quando já se encontrava perante o pelotão de fuzilamento, Dostoievski acabaria por ser deportado para a Sibéria, onde seria mantido em regime de trabalhos forçados entre 1849 e 1854. Como se tal não tivesse bastado, avaliações posteriores iriam, na terra que fora a sua, condená-lo a um novo exílio. Assim, até 1953 os manuais de história e de literatura em vigor na União Soviética repudiaram a sua obra como «expressão da ideologia reacionária burguesa individualista». O fundamento desta acusação e da condenação liminar dos seus romances não se encontrava tanto nos enredos ou na evocação neles contida de valores considerados caducos, próprios de um tempo que a revolução de Outubro pretendera vencer, mas na tipologia dos seus heróis, preocupados acima de tudo com a fidelidade aos princípios e aos objetivos morais, mesmo quando, momentaneamente, as circunstâncias («o social», como alguns diriam) os podiam, ou deveriam, fazer vacilar. (mais…)

    Biografias, Democracia, Leituras, Olhares

    Mandela e os crocodilos

    Dostoievski declarou certa vez que as suas maiores angústias derivavam de «uma doença incurável chamada consciência». Não padecem de tal doença os moralistas de direita, insaciáveis na sua sanha de se baterem contra todas as iniciativas que têm como objetivo a expressão concreta, vivida, da solidariedade humana – não, não conta para este campeonato a sua preocupação natalícia com a caridade – quando vertem lágrimas de crocodilo pela morte de Nelson Mandela. Bem os vi, a eles ou aos paizinhos deles, muito calados e quietos enquanto o herói ocupava a cela com número 466/64 na prisão da Ilha Robben.

      Apontamentos, Biografias, Democracia, Direitos Humanos

      Odessa, cidade-escrita

      Todas as cidades, em particular aquelas que têm uma longa história e por isso uma forte capacidade magnética, integram uma tensão entre a vida vivida e as representações que delas os livros vão guardando. Baudelaire, Kafka e Pessoa construíram «cidades literárias» que não se confundem com as descrições prosaicas dos que habitaram as ruas e casas de Paris, Praga ou Lisboa. Odessa, a cidade-porto ucraniana do Mar Negro, é todavia um caso singular, dado o seu percurso, composto de reminiscências nostálgicas e futuros plausíveis, ter sido em larga medida ficcionado através da escrita. Tanya Richardson, que a tem visitado inúmeras vezes, lembra, em Kaleidoscopic Odessa (2008), o seu caráter intenso e singular advindo de uma cultura complexa, de uma história sinuosa, de um cosmopolitismo que alimentou um forte sentimento de pertença e até de missão. (mais…)

        Cidades, Leituras, Memória, Olhares

        Da autocensura

        Quando vejo a subserviência e a ausência de coragem que pairam aí por tantas redações de jornais, rádios e televisões, com tantos jornalistas, mais papistas que o papa, a autocensurarem-se – eu sei, eu sei, que não são todos e que andam por aí muitos dos bons –,  em vez de assumirem com nobreza e determinação a missão que é a sua, ocorre-me voltar a dois parágrafos exemplares de Manuel António Pina, saídos no Notícias Magazine em Outubro de 2011, como parte de uma crónica em registo memorialista.

        Jovem repórter, fui uma vez enviado a Aveiro para cobrir o II Congresso da Oposição Democrática. Todos os dias escrevia dois ou três linguados e todos os dias a Censura reduzia a reportagem a duas ou três linhas. Ora aconteceu passar no Cine Teatro Aveirense (o Congresso decorria no Avenida) um filme que não queria perder, La bête humaine, de Jean Renoir. Decidi – pois, de qualquer modo, a Censura cortaria o mais que escrevesse – dizer do que, naquele dia, se passara no Congresso pouco mais que quem interviera e sobre o quê, e fui ver Renoir. Manuel Ramos [chefe de Redação] ficou furioso. «Mas é a única coisa que a Censura deixa sair…», tentei justificar-me. E a lição de Manuel Ramos: «A Censura que corte, é o seu papel. O nosso é escrever tudo, independentemente de haver ou não Censura».

        Contra todas as expectativas, acabou por ser um dia feliz, vi La bête humaine e aprendi algo fundamental sobre a minha profissão: podemos ser forçados a calar-nos, mas é inaceitável que nos conformemos e nos calemos por nossa iniciativa.

          Apontamentos, Democracia, Memória, Olhares

          O pântano e a dignidade

          Fotografia de Nira González

          Era prática corrente da propaganda do antigo regime a exibição contínua e manifestamente exagerada das pequenas vitórias caseiras. Estas deveriam provar, dentro e para fora das fronteiras, que se éramos pobres e «felizmente atrasados», como Salazar chegou certa vez a descrever-nos, expondo sem artifícios a sua conceção rural e imóvel do mundo, tal não nos impediria de ser melhores que os outros em modestas mas honradas áreas de atividade. Mas por aí deveria ficar o limite da nossa ambição. (mais…)

            Atualidade, Olhares, Opinião

            A desgraça pública e a política de alianças

            O pior dos tempos terríveis que estamos a atravessar é a ausência de esperança. Seria bem menos doloroso passar por tudo isto se pudéssemos pensar que se tratava somente de uma circunstância infeliz, de um transe, de uma passagem necessária, ainda que demorada, para uma situação melhor ou menos incerta. E ainda pesaria menos se pudéssemos vislumbrar uma alternativa política, uma viragem, em condições de devolver, se não todos os direitos perdidos e o quinhão de futuro que conquistámos e nos foi roubado, pelo menos uma gestão profundamente diferente e menos dolosa da coisa pública. Associada a uma política mais solidária e mais justa, menos cínica e insensível, que restituísse a tranquilidade e a segurança que nos fogem a cada manhã que passa. O drama, grande drama, é pois a ausência de uma possibilidade real de pôr termo ao estado comatoso em que a direita neoliberal pôs o país, as nossas vidas e o futuro coletivo. É ela que afasta a esperança e alimenta o desespero. E é ela também que propaga uma perigosa indiferença. (mais…)

              Atualidade, Democracia, Opinião

              O camarada Álvaro

              Álvaro Cunhal

              Álvaro Cunhal completaria hoje 100 anos. Nos últimos meses têm-se multiplicado as iniciativas destinadas a celebrar a data, evocando a vida, a intervenção e o legado daquela que foi uma das figuras centrais do século XX português. E que foi também uma das vozes mais respeitadas dentro dos setores, hegemónicos no território da esquerda e no interior do movimento comunista internacional, que pautaram a sua ação pelo «exemplo de Lenine» e pelo modelo de construção do socialismo levado a cabo a partir de 1917 na antiga União Soviética. Tais iniciativas têm assumido diferentes formas: desde uma reedição anotada dos seus escritos a livros de pendor mais ou menos biográfico, passando por estudos sobre as muitas vertentes da sua intervenção pública, dossiês nos jornais, colóquios, debates, exposições, álbuns fotográficos, filmes ou programas de televisão. (mais…)

                Biografias, Democracia, Olhares, Opinião

                Hannah

                Fui ver Hannah Arendt, de Margarethe von Trotta. As expectativas eram moderadas: grande parte da crítica levantava sérias objeções ao filme, mas algumas das pessoas com quem tinha falado e que já o tinham visto haviam gostado razoavelmente, se não «muito». Além disso, Arendt é Arendt, a filósofa de vida arriscada e de personalidade forte que escapou à bota antissemita e no exílio americano não deixou de assumir posições incómodas contra o governo ou as verdades convenientes. Fui portanto de espírito aberto e pronto para tudo. No entanto, esse tudo revelou-se bastante dececionante. O argumento foca-se numa espécie de pedagogia da «banalidade do mal para principiantes», com alguns passos nos quais flutuam conceitos algo ingénuos e com situações completamente caricaturais. O próprio referencial histórico – apoiado nas imagens televisivas a preto e branco do julgamento de Eichmann em Jerusalém, que por acaso me recordo de ter visto em criança na televisão – é muito simplificado, não enfatizando com o devido destaque a descrição desse «estado normal de obediência» da larga maioria dos alemães ao domínio nazi que, ele sim, poderia fundamentar com maior clareza a consideração do mal como parte da vida de todos os dias, da normalidade, «banalizando» até as suas expressões mais extremas. Salvou-se a representação excecional de Barbara Sukowa, uma Hannah forte e assertiva, mas ao mesmo tempo sensível e afetiva, como o era a verdadeira. E ficou-me no ar o aroma de um passado que já não participa do mundo que agora conheço: das aulas onde era possível fumar cigarro atrás de cigarro, do ruído único e familiar da máquina de escrever, das conversas argumentadas noite fora com inteligência e paixão.

                  Apontamentos, Artes, Cinema, História

                  No reino da apatia

                  Até ao início dos anos oitenta, principalmente na Europa e nas Américas, dois setores sociais mostravam-se particularmente sensíveis aos processos de crítica e de reforma da ordem do mundo, neles jogando um papel muitas vezes decisivo enquanto forças dinâmicas dos tempos de mudança. Pela natureza da sua formação e da sua associação ao mundo do conhecimento, da dimensão essencialmente reflexiva da sua atividade, da sua natural abertura ao mundo e das suas expectativas históricas, os intelectuais – pensadores, artistas, escritores, jornalistas – e os estudantes mostravam-se mais naturalmente dispostos a intervir como fator nuclear, estímulo ou apoio no domínio da reflexão crítica, do conhecimento e da atividade cívica. (mais…)

                    Apontamentos, Atualidade, Opinião

                    Imperativos

                    Fragmento do notável discurso pronunciado em 10 de Dezembro de 1957, quando, de fraque alugado para a ocasião, Albert Camus recebeu em Estocolmo o Prémio Nobel da Literatura.

                    «O papel do escritor (…) é inseparável dos imperativos difíceis. Por definição, ele não pode colocar-se ao serviço daqueles que fazem a História. Se o fizer, ficará só e privado da sua arte. Os exércitos da tirania, com os seus milhões de homens, serão incapazes de libertá-lo dessa solidão definitiva, ainda que possam marchar ao seu lado. Já o silêncio de um prisioneiro desconhecido, abandonado à humilhação do outro lado do mundo, bastará para retirar o escritor do exílio, de cada vez que, pelo menos, este consiga, recorrendo aos privilégios da liberdade, impedir que esse silêncio permaneça ignorado, fazendo-o ecoar pelos meios que a sua arte fornece.

                    Nenhum de nós é suficientemente grande para cumprir uma tal vocação. Mas em todas as circunstâncias da sua vida, obscuro ou momentaneamente célebre, atirado às feras da tirania ou livre para se exprimir, o escritor pode reencontrar o sentimento de uma comunidade viva que o legitimará, na condição única de assumir enquanto puder as duas tarefas que fazem a sua grandeza: o serviço da verdade e o da liberdade. (…) Não pode acomodar-se à mentira e à servidão que, lá onde imperam, multiplicam as solidões. Sejam quais forem as nossas fraquezas pessoais, a nobreza da atividade do escritor radica-se sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre aquilo que sabemos e a resistência à opressão.»

                      Apontamentos, Democracia, Olhares

                      Nos cem anos de Camus

                      «Não sou filósofo, e por isso não posso falar senão daquilo que vivi. Vivi o niilismo, a resistência, a violência e a vertigem da destruição. Ao mesmo tempo, festejei o poder de criar e o esplendor da vida. Nada me autoriza, por isso, a julgar de uma forma sobranceira a época com a qual sou inteiramente solidário. Julgo-a a partir do seu interior, confundindo-me todos os dias com ela. Mantenho, no entanto, o direito de dizer sempre aquilo que sei sobre mim e sobre os outros, na condição única de que tal não sirva para aumentar a insuportável infelicidade do mundo, mas sim para designar, nos muros obscuros que vamos tacteando, os lugares ainda invisíveis ou as portas que podem ser abertas.» (Albert Camus, Actuelles II, 1953)

                        Atualidade, Olhares, Recortes

                        Ser ou não ser

                        Um post com quatro anos recuperado do baú das futilidades.

                        Quando falamos de nós próprios é difícil esquivar a insolência. Se somos demasiado benévolos parecemos arrogantes, se nos fazemos de humildes ou despretensiosos tudo soa a contrafeito. E se procuramos parecer imparciais fazemos com que a nossa vida pareça um pântano de apatia e displicência. Mas vou correr o risco de desempenhar um desses papéis dizendo que gosto de me ver como um tipo da província. A figura faz-me uns anos mais novo e deixa que me sejam perdoados erros e omissões, bem como uma ou outra quebra das regras de etiqueta. Gosto dela porque me serve de máscara e às vezes de álibi. É pois como provinciano que me repugna um tanto o jogo social que passa pela ostentação da própria singularidade. Naquela atitude a que os decadentistas franceses da segunda metade do século XIX chamavam, à época com relativa propriedade, «épater la bourgeoisie». Ora é esta rejeição visceral do poseur que me fez gostar de ter conhecido um episódio como o relatado por Enrique Vila-Matas no Diário Volúvel. (mais…)

                          Apontamentos, Devaneios, Olhares

                          Ruído de fundo

                          Começou nos estádios de futebol. Depois foram os elevadores. A seguir chegou às lojas de «roupa jovem» e aos autocarros pullman de longo curso. Mais tarde aos hipermercados e aos centros comerciais. Até aí, ainda vá: aceitámos ser constrangidos a ouvir insistentemente, naqueles espaços, música de gosto duvidoso, reproduzida aos berros em lastimáveis sistemas de som. Mas se a ideia inicial era apenas «animar» os cidadãos ou embriagá-los para comprarem mais, o horror ao silêncio – tomado como expressão de um sombrio vazio que é forçoso preencher – tornou-se no presente a causa essencial do constante e frenético ruído de fundo, das vagas de alarido supostamente ritmado, intragável para quem gosta de sossego, de conversar ou apenas de ouvir música com qualidade estética, equilíbrio acústico e adequada às circunstâncias.

                          Agora entramos em cafetarias de museu, galerias de arte ou livrarias, espaços tradicionalmente reservados – mas a tradição já não é o que era, bem sei – à reflexão e ao alimento do espírito, e temos de ouvir «Apache», o velho tema dos Shadows, em versão-sucedâneo de Waldo De Los Rios ou de Ray Conniff & His Orchestra and Chorus. Ou então antigas canções dos Creedence Claearwater Revival passadas de forma aleatória. Ou ainda decrépitas antologias de b-sides da Tamla Motown e temas esquecidos do Top of the Pops. É demais. Apetece perguntar: para quando drum’n’bass nas repartições de finanças? E quando teremos techno ou trance com a amplificação no máximo nos cemitérios? Para animar os cidadãos mais sorumbáticos e introspetivos, claro. Os utentes sempre poderão seguir o ritmo e esquecer-se de que estão a matá-los. Ou mesmo de que já estão mortos.

                            Apontamentos, Devaneios, Olhares

                            O leste selvagem de Hitler

                            Mais de três décadas após o suicídio de Adolf Hitler no seu bunker berlinense, uma perspetiva bastante redutora da fulgurante ascensão do nacional-socialismo alemão era ainda dominante entre os historiadores. De facto, o nazismo era visto como resultado exclusivo de uma combinação letal de maldade alucinada, protagonizada por uns quantos dirigentes e ativistas, com as circunstâncias de uma época perturbada e propensa a acreditar nas propriedades redentoras da experiência totalitária. Somente para o final do século se começou a compreender e a dar como adquirida a intervenção de outros aspetos até então relevados, como o aplauso ou o silêncio cúmplice de um grande número de alemães, ou a ingénua cegueira de muitos dos responsáveis políticos europeus da altura. Em O Império de Hitler, o britânico Mark Mazower expõe uma outra forma de entender o que aconteceu, não totalmente ignorada por outros historiadores do nazismo mas raramente considerada com o merecido destaque. (mais…)

                              História, Leituras

                              Lou Reed

                              À medida que vamos avançando no nosso próprio roteiro, cresce o número dos que vão morrendo e com eles levam uma parte de nós. Não acontece só com os familiares mais chegados, os amigos queridos, as ex-namoradas, os colegas de todos os dias, os rancores mal resolvidos, aqueles que foram parte mais ou menos sólida do nosso universo. Acontece também com os que, à distância, sem o verem, sem o suspeitarem, ajudaram a alimentar a fábula da nossa existência. De cada vez que partem, já se sabe, levam sem devolução possível alguma coisa nossa. Sem Lou Reed, a minha perfeição dos dias jamais será a mesma.

                                Apontamentos, Biografias, Memória, Olhares

                                Mobilização e inércia

                                Fotografia de Cralos
                                Fotografia de Cralos

                                Nasci e vivi até aos dezasseis numa vila do interior beirão. Na época, não existiam por aqueles lados, como não existia em praticamente lado algum, estradas decentes e rápidas. Uma reta de cem metros era tão rara que parecia uma pista de ensaios para fanáticos da velocidade. Notavam-se mais ainda esses limites quando se vivia numa região de montanha que transformava qualquer jornada numa pequena aventura. O trajeto que leva hoje 45 minutos a fazer durava então o dobro, por vezes mais. Além disso, poucos possuíam automóvel e ninguém sem profissão estável e razoavelmente remunerada tinha sequer carta de condução. O isolamento era aí, sobretudo aí, a condição natural da existência, agravado pelo facto da informação que chegava ser parca, lenta e filtrada pela censura. Era o país possível, no qual tudo decorria modelado por aquele «viver habitualmente», sem o calor da novidade ou do desassossego, que à imagem do rústico temeroso das cidades Salazar quisera para todos. (mais…)

                                  Atualidade, Olhares, Opinião

                                  Impropriamente vida

                                  A 19 de outubro completou-se um ano sobre a morte de Manuel António Pina. O poeta, escritor de prosas várias, o cronista obstinado, o homem dos jornais, dos seus amigos e da vida dele. Na vaga quase unânime de elogios e recordações que inundou diários e semanários, rádios e televisões, blogues e redes sociais, duas facetas suas emergiram mais vincadamente. A primeira recordava «o Pina», assim lhe chamavam sempre os seus próximos, os seus amigos, como alguém que era rigorosamente aquilo que parecia; a segunda insistia na falta que nos faz por ter interpretado um papel público único, que mais ninguém parece estar em condições de preencher. (mais…)

                                    Democracia, Etc., Leituras, Memória, Olhares