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Desmandos exigem combate ativo

Os desmandos do Chega, praticando e disseminando em crescendo a ordinarice mais abjeta, o racismo sem máscara, a gritante xenofobia, a vulgarização do ódio, além do nacionalismo bacoco, da deturpação da nossa própria história e da subversão das conquistas democráticas, praticados inclusive dentro do próprio parlamento, requerem um combate ativo. Desde logo, através de medidas dos orgãos de soberania e dos tribunais que têm por dever aplicar a Constituição e preservar o Estado de direito, e também por meio de uma iniciativa mais enérgica dos partidos democráticos.

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    Sobre a crise do Bloco

    De modo algum posso ser indiferente à crise que o Bloco de Esquerda se encontra a viver. Não apenas porque fui «compagnon de route» e eleitor do partido, situação que de modo algum enjeito, entre a sua fundação em 1999 e 2011, quando me afastei após o terrível erro político, partilhado com o PCP, que abriu caminho ao governo de Passos Coelho. Também não só porque ali tenho bom número de amigos e amigas, pessoas de quem gosto e sei sinceramente dedicadas aos combates por um país e por um mundo melhores e mais solidários. Mais do que isso, acredito que o Bloco tem um lugar próprio e insubstituível no panorama político da esquerda plural e do socialismo, o qual merece ser preservado e ampliado, necessariamente em diálogo com outras forças progressistas. Não quero um Portugal sem o Bloco e isso não irá acontecer.
    [sou membro «de base» do Livre, o que não me impede de escrever isto]

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      Presidenciais: os pés ao caminho

      É terrível que, perante a conjuntura de avanço brutal da direita e da extrema-direita, que pode até pôr em causa o nosso regime constitucional, a esquerda não tenha sido capaz de apresentar uma candidatura individual firme, agregadora, mobilizadora e em condições de vencer, ou pelo menos disputar com impacto, as eleições presidenciais. Não falo de cada partido parlamentar apoiar a sua candidatura presidencial, o que em diversos casos é mais uma consequência do que uma estratégia pensada, salvo em relação ao PCP, que como agora é hábito decidiu desde o início do processo falar apenas para o seu nicho. Do seu lado, o Livre será, aliás, o último a fazer tal escolha, após ter aguardado até ao limite por uma solução de consenso, mas percebe-se, pois ficaria fora do debate, com as inevitáveis consequências negativas para o seu projeto se o não fizesse. O que quero sublinhar é algo bem mais grave e desanimador: é o facto de, entre tantas figuras públicas com perfil e provas dadas ao longo de décadas no combate cívico, nenhuma ter decidido, agora que tudo é mais difícil, mas também mais urgente, sair do seu território protegido e meter os pés ao caminho.
      [Originalmente no Facebook]

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        A tristeza como bem-estar

        «Tristesse, beau visage», «Tristeza, belo rosto», é o derradeiro verso do poema «À peine défigurée», de Paul Éluard, que deu o mote para o título do romance Bonjour Tristesse, de Françoise Sagan, publicado em 1954 e adaptado ao cinema por Otto Preminger. Plasma-se nele um modo de estar hoje inexplicável para muitas pessoas, incluindo algumas que dela são devedoras, mas o foram esquecendo. No mundo das «selfies», para as quais se faz um esgar de efémera e simulada felicidade, não se compreende que para sucessivas gerações, pelo menos desde o Século das Luzes, a tristeza podia ser algo de belo e sedutor. Sobretudo quando não traduzia mágoa, mas o deleite e o empenho numa forma do viver construída contra os males do mundo e no combate pela felicidade possível. Essa espécie de tristeza podia conter seriedade, serenidade e bem-estar, sendo, lembro-me bem, julgada até particularmente «misteriosa» e atraente. Havendo sempre tempo para rir muito, é claro.
        [Na fotografia, Albert Camus pelo final dos anos 40]

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          Seguro: um desastre político à vista

          É absolutamente desastrosa a decisão do PS de apoiar a candidatura a PR de António José Seguro. Em tempo de um avassalador e agressivo assalto às liberdades e aos direitos de uma direita e de uma extrema-direita cada vez mais próximas e decididas a atacar no terreno constitucional, é necessário ter naquele lugar um contrapeso, uma voz forte, corajosa, respeitada e decidida. Não apenas a de alguém que se diga de esquerda e «tem provas dadas» (sic). Para além do temperamento manso e hesitante, comprovadamente demonstrado, AJS já declarou que em eleições e se for PR dará posse a um governo do Chega se este tiver mais um só voto. Não esquecer ainda que no tempo de António Costa mostrou-se contra a Geringonça, preparando-se, antes de ser derrotado em eleições internas no PS, para avalizar o 2º governo de Passos Coelho. Aquele que se mobilizava para ir ainda mais «além da troika» e felizmente durou só 27 dias.

          Quero acreditar que uma convergência progressista e mobilizadora ainda é possível para quem ama a democracia e quer combater as forças do passado e do ódio não ter de aceitar propostas mornas e pusilânimes como a que a figura de AJS reúne. Ou para numa segunda volta não ter de engolir um sapo de dragonas.

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            Evidência muito preocupante

            Ignorância e estupidez, juntas ou em separado, são um mal transversal nos percursos da história e também da natureza humana. A tendência dominante foi, todavia, para se irem gradualmente distanciando do centro dos poderes e para irem recuando na paisagem mais visível e dinâmica do mundo. Contrariando este caminho, o tempo que estamos a atravessar inventou a sua afirmação vitoriosa, agora desavergonhada, como fonte de prestígio, instrumento de poder e alimento dos discursos que este propaga para se manter.
            [Originalmente no Facebook]

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              Desconfiar da liberdade entre quem por ela se bate

              O tema da liberdade e do seu papel nas sociedades contemporâneas pode parecer pouco relevante para o campo plural da esquerda política e cultural, dado vivermos um tempo em que a sua preocupação maior e mais urgente é, com todo o sentido, o avanço do populismo, do autoritarismo, do ódio, do egoísmo, do racismo e, no geral, dos valores, metas e métodos da extrema-direita. Conta-se entre estes, aliás, a manipulação demagógica do ideal de liberdade, utilizado, com a ajuda das redes e de alguma comunicação social – e sem o equilíbrio oferecido pela responsabilidade, pela verdade comprovada e pelo conhecimento adquirido –, para influenciar a consciência dos cidadãos.

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                Livros: o deserto da imprensa

                Sabia que assim era, mas afinal ainda é pior. Ao preparar uma lista de jornalistas e de jornais ou revistas a quem enviar um exemplar do meu novo livro para eventual escrita de uma notícia ou nota crítica, tomei consciência «de facto» de como em muitos jornais a secção de livros e de cultura desapareceu, enquanto nos outros foi reduzida ao mínimo. Alguns ainda acabaram há pouco ou está em vias de lhes acontecer a mesma coisa. Pior: a escassa divulgação cinge-se agora quase apenas à ficção e, embora bem menos, a alguma poesia, como acontece com uma publicação onde até fiz crítica de livros por mais de uma década. A não-ficção – ensaio, biografia, crónica – confina-se agora a «estrelas» internacionais que vêm a Portugal promover a edição local dos seus livros, ou a obras sobre temas quentes e tantas vezes passageiros. Tudo isto enquanto, paradoxalmente, se publica como nunca. O lixo literário divulgado pela publicidade paga, esse abunda. Mas, como refere a conhecida consigna, «a luta continua», embora não se saiba se a vitória é certa.

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                  Presidenciais: as hesitações do PS e uma urgência

                  O Partido Socialista teve uma prestação razoável nas autárquicas, afastando para já, espero que por muito tempo, o crescimento do Chega e o espectro de uma bipolarização partidária à direita. A boa prestação deveu-se em alguns casos, como em Coimbra, a um discurso positivo, diverso da arrogância de há não muito tempo, e à celebração de acordos políticos com outras forças de esquerda. No caso, o Livre, o PAN e os Cidadãos por Coimbra. Aliás, sem este acordo, e ao contrário do que já escutei nos «mentideros» da urbe, a vitória de Ana Abrunhosa não teria sido possível. Basta fazer as contas para o perceber. O que posso dizer é que ainda bem que assim foi, servindo a abertura para materializar uma mudança face ao marasmo, e para estabelecer laços entre setores progressistas que por vezes se encaravam com desconfiança. Pena foi apenas que a aproximação não tivesse ido mais longe, englobando o Bloco de Esquerda e, embora esta fosse uma possibilidade pelo próprio julgada contranatura, ainda o PCP.

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                    Boas pessoas ou programas?

                    Mais que quaisquer outros momentos eleitorais, as autárquicas – disputadas num território essencial da nossa democracia – comportam bastantes vezes alguns equívocos. É certo que em quaisquer atos de natureza política, a qualidade das pessoas que os protagonizam, e se possível a sua proximidade de quem vota, têm grande importância, mas nas eleições autárquicas esse fator de proximidade tem um peso maior. Para o bem e para o mal, diga-se. Por um lado, conhecem-se melhor muitas das pessoas que se candidatam, o que pode ser positivo, por outro, existem por vezes relações individuais que causam os tais equívocos. 

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                      Coimbra: três bloqueios em tempo de autárquicas

                      Uma das grandes conquistas do nosso regime democrático constitucional é a afirmação do poder autárquico. Sob a ditadura, além de não resultar de eleições livres e de estar fora do escrutínio público, quem o representava era escolhido pelo governo e controlado a partir da capital, detendo reduzida capacidade de decisão e orçamentos sempre curtos, dependentes da intervenção de figuras «da terra» com poder, dinheiro e ligações a quem mandava. Mesmo reconhecendo que, em democracia, o poder autárquico foi por vezes discricionário, de vistas curtas e pouco transparente, ele jamais deixou de conter uma importante dose de dedicação, criatividade e proximidade, capaz de trazer claras melhorias às populações, aos seus lugares e à sua vida.

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                        Gaza e o outro Israel

                        A inqualificável e inaceitável política genocida praticada sobre a população civil de Gaza pelo governo de Netanyahu e dos seus aliados da extrema-direita fundamentalista, é nefasta mesmo para uma boa parte da população de Israel. Tem como resultado prático, para além do sofrimento sem fim do povo palestiniano, o bloqueio absoluto de uma imprescindível solução de dois estados independentes e pacíficos, aquela que se funda verdadeiramente na história da região e dos seus povos – não é isto o que dizem as pessoas parciais ou desconhecedoras posicionadas de ambos os lados – e a única que pode pôr fim à instabilidade e ao contínuo tormento. Ela tem também como consequência uma generalização do combate contra todos os cidadãos israelitas, parte deles muito erradamente identificados como «judeus», bastantes até muçulmanos, que se opõem ao atual governo e às suas políticas. Infelizmente, estes constituem em Israel ainda uma minoria, embora ela seja uma grande minoria, ilustrada até pelos resultados eleitorais, que não pode ser olhada como mera cúmplice dos crimes em curso.

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                          Conversa ou monólogo?

                          As redes sociais são sempre, para o bem e para o mal, um espaço de interação com os demais humanos. Seja qual for o sentido ou a forma do que escrevemos ou mostramos, o resultado será sempre olhado e apreciado por pessoas que não apenas nós próprios ou escassos outros. É claro que podemos sempre criar e comunicar num registo de monólogo, mas ainda assim serão pessoas distintas a ler-nos, a ver-nos, eventualmente a julgar-nos, concordando ou discordado do que dizemos, ou seguindo em frente sem mostrar interesse.

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                            Arrogância e cobardia nos EUA e por todo o lado

                            A cada dia que passa, as notícias que nos chegam dos EUA sobre a contínua extensão do autoritarismo, do combate contra a igualdade, da regressão civilizacional e da afirmação triunfante da estupidez e da desumanidade, são cada vez menos surpreendentes. Provavelmente, já nos habituámos a esperar tudo, mesmo o que ainda há pouco tempo era considerado inimaginável, da parte da segunda administração Trump e das forças políticas e sociais que a temem e, por isso ou por cumplicidade, com ela contemporizam.

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                              É um caso ao qual se aplica a expressão popular «mais vale tarde do que nunca». O governo português, apesar de visivelmente contrariado, cedeu à pressão e reconheceu o Estado palestiniano, sendo o 13º país da União Europeia a fazê-lo. Como aconteceu com outros países, este reconhecimento está vinculado à iniciativa da Autoridade Palestiniana e não do Hamas, o que me parece justo, em primeiro lugar para o próprio povo palestiniano. Todavia, e sendo absolutamente favorável à solução de dois Estados pacíficos para a região, e completamente avesso à ideia absurda e antissemita do apagamento de Israel do mapa, não me parece nada bom que, na declaração formal agora assinada, a condenação da política agressiva e genocida do atual governo israelita para Gaza não seja mais claramente vincada.
                              [Originalmente no Facebook]

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                                Tudo ao contrário na educação

                                Começo com parte de um importante post de alerta publicado no seu mural do Facebook por Paulo Marques:

                                «Recentemente, o ministro da Educação, Fernando Alexandre, de visita a uma escola, numa aula, disse a alunos do 12.º ano que “quem anda em manifestações perde a aura”. Não se trata de uma frase inocente, nem de um simples deslize retórico. É uma mensagem política e, diria, perigosa.

                                “Aura” é uma palavra carregada de simbolismo. Sugere prestígio, distinção, brilho pessoal. O que o ministro transmitiu àqueles jovens foi claro: quem protesta, quem se envolve, quem ocupa o espaço público para reclamar justiça, perde reputação, mancha a sua imagem, arrisca o futuro.

                                Mas não é exatamente o contrário? Se hoje temos direitos fundamentais, do voto universal à liberdade sindical, da escola pública ao Serviço Nacional de Saúde, foi porque milhares de pessoas saíram à rua, arriscaram empregos, enfrentaram repressão, desafiaram a ordem estabelecida.»

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                                  Generalizações tóxicas e discurso eleitoralista

                                  A tendência para referir determinados grupos sociais utilizando uma generalização que dilui as suas diferenças internas e salienta apenas aquilo que num determinado contexto lhes é apontado como comum, é uma prática tão antiga quanto a existência humana registada. Desde a criação da escrita na Suméria, a evocação pública dos protagonistas da história, fosse esta a dos poderosos ou a dos povos, sempre deu voz a esse processo de filtragem da realidade que dilui as efetivas diferenças e contradições. Neste sentido, é vulgar falar-se como de um todo do «povo», dos «portugueses», dos «europeus», dos «trabalhadores», dos «estudantes», dos «árabes» ou dos «ciganos», qualificando cada grupo como bloco possuidor de um carácter comum, muitas vezes apresentado como estereótipo que reforça a separação entre um «nós» e um «eles». 

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