Intimidade Cultural, subintitulado Poética Social no Estado-Nação, é uma colectânea de ensaios publicada entre 1986 e 1995 pelo antropólogo Michael Herzfeld, um professor da Universidade de Harvard que há cerca de trinta anos vem pesquisando e escrevendo sobre os caminhos da Grécia contemporânea. Se existe uma orientação comum aos diversos artigos compilados, ela traduz-se na tentativa de compreender a forma como aquilo a que chamamos «valores» se incorpora na experiência das relações sociais. É neste âmbito que se coloca o que Herzfeld chama aqui de «intimidade cultural», um lugar do espaço colectivo onde os valores que os indivíduos e grupos consideram como seus se cruzam e interagem com os demais. Esta intimidade cultural apoia-se, por sua vez, numa «poética social», observada como «apresentação criativa do eu individual», e que se apresenta aqui como expressão da «função poética da linguagem»: a possibilidade, inscrita na língua e na cultura de cada um, de jogar a todo o instante com os códigos que são apropriados e emitidos pelos outros. É também abordada neste livro a integração do Estado neste processo, uma vez que este é sobretudo «um conjunto de instituições e de estratégias que se apoiam nos mecanismos sociais mais quotidianos», e que, precisamente por isso, não pode ignorar as crenças e os mitos, os localismos e as segmentaridades, as identidades e os estereótipos. Uma reflexão estimulante, que nos deixa ver para além do realismo político que do mundo em volta apenas capta o óbvio e quase sempre o tristonho. [Trad. de Marcelo Félix, Edições 70, 368 págs. Originalmente na LER de Março.]
Como era de esperar, a mudança de morada deste blogue trouxe consigo uma redução temporária (espera-se, claro) dos acessos. Neste momento, para pouco mais de um terço do que ocorria ainda há poucos dias. Parte desta redução deve-se a que muitos visitantes chegam ao blogue através de motores de busca ou de posts citados que apontam para a outra direcção. Mas existe uma porção significativa de acessos que chega através das listas oferecidas por outros blogues ou dos favoritos guardados nos browsers. Pede-se por isso aos amigos e interessados n’A Terceira Noiteque não se esqueçam de actualizar essa informação. Entretanto, devido à extensão da nova barra lateral, a lista completa de blogues recomendados encontra-se agora na página Blogues.
Alguns dos factores que no início da década de 1960 transformaram a revolução cubana e os seus rostos salientes – um Fidel persistente e carismático, o efémero mas decisivo Cienfuegos, um Che em breve tornado imortal – num factor de atracção e de romântico entusiasmo para toda uma geração de europeus ocidentais e de nascidos nas Américas que incluía intelectuais e revolucionários, mas também muitas pessoas pouco politizadas, parecerão hoje algo paradoxais. Sobretudo se observarmos aquilo em que Cuba se transformou e se identificarmos o perfil político daqueles que hoje ainda defendem sem hesitações o regime que governa o país. Essa atracção e esse entusiasmo advieram, justamente na época em que os partidos comunistas começavam a perder o pé junto de alguns dos sectores mais dinâmicos da esquerda ocidental e de uma nova geração de estudantes e de trabalhadores, do facto de os revolucionários da ilha de Martí parecerem evidenciar uma acentuada ruptura em relação à cartilha ideológica proposta a partir de Moscovo e à imagem cinzenta, gerontocrática, fornecida pelos rostos que, da tribuna do Kremlin, zelavam diariamente pela sua preservação.
À deriva proto-nacionalista de grande número de partidos e organizações comunistas tradicionais, ao esgotamento do padrão de sociedade que estas erguiam como paradigma, ao impacto perturbador da invasão da Hungria pelos soviéticos e das revelações de Kruchtchev no XX Congresso do PCUS, contrapunha-se a emergência de um novo e polissémico universo de expectativas que os agora renovados movimentos sociais reivindicavam, e que os barbudos cubanos, jovens, informais, arrebatados e com os olhos no futuro, com Fidel à cabeça, pareciam materializar. Não por acaso, os insubmissos cubanos, bem como os seus primeiros e incondicionais apoiantes – com Sartre, já então saído do PCF, à cabeça – foram vistos de início com muita desconfiança pelos mesmos partidos comunistas que então, é bom não esquecer, denunciaram o «aventureirismo guevarista». Hoje deparamos com a inversão destas atitudes de afeição e de desconfiança: politicamente insulada, a «revolução cubana» viria a fixar-se nos modelos de autocelebração que originalmente repudiara. Por sua vez, privados das anteriores referências fundacionais, alguns partidos comunistas passaram a erigir como modelo o regime que um dia olharam com desconfiança ou mesmo com animosidade. A História faz-se de factos, por muita reescrita que a possa envolver, mas nela a Revolução Cubana terá sempre um lugar de destaque.
No dia Primeiro de Abril de 1939, perfazem-se hoje setenta anos, terminou a Guerra Civil de Espanha. Singularmente violenta e persistentemente traumática, causou mais de 600.000 vítimas civis e militares caídas de ambos os lados, tendo servido de palco para um número ainda indeterminado de atrocidades. Viveu os primeiros bombardeamentos aéreos sistemáticos sobre populações civis efectuados por aviação fornecida pela Alemanha nazi e pela Itália fascista; assistiu à eliminação metódica de um grande número de militantes do POUM, a organização comunista antiestalinista, por parte de agentes da polícia política soviética lançados no terreno; e coabitou com execuções sumárias de suspeitos, em regra membros do clero ou pessoas das classes média e alta, consumadas por anarquistas e comunistas. Ao mesmo tempo, os nacionalistas faziam assentar o seu avanço militar, e o poder no terreno que a partir dele iam exercendo, sobre a chacina, o terror e depurações sistemáticas, prolongadas por muitos anos após o termo dos combates.
Para além da preservação da dimensão lendária desta guerra, em boa parte justificada pela forte mobilização da opinião pública ocidental que provocou e pelo empenho nas fileiras das Brigadas Internacionais de um grande número de artistas e intelectuais antifascistas, a sua memória é presentemente objecto de um combate colectivo que visa libertar do silêncio a recordação dos actos de brutalidade praticados pelos franquistas. Alterando a narrativa parcial e artificialmente benigna que estes produziram a propósito das condições em que chegaram ao poder e sobre a forma como o mantiveram. E procurando promover a reconciliação com o seu próprio passado da metade da Espanha que ao longo de décadas permaneceu calada.
Adenda: os Caminhos da Memóriareferem aqui um conjunto de seis vídeos sobre as circunstâncias e o decurso da guerra, enquanto o El País e o Público.es têm vindo a publicar excelentes artigos sobre o tema.
A informação chega-me através de um artigo de Miguel Gaspar: o governo britânico está a estudar uma reforma do ensino básico que pretende destacar a aprendizagem das novas tecnologias, em especial a das redes sociais da Internet, em detrimento dos saberes considerados convencionais. Não tenho nada contra a divulgação alargada e sistemática destes processos – que uso diariamente, intensamente, produtivamente muitas vezes, e que recomendo –, mas tenho tudo contra a desqualificação do conhecimento estruturante em favor de uma deriva comunicacional apresentada como valendo por si mesma. O problema, julgo, advém em larga medida do facto dos centros de decisão política – leia-se: os partidos institucionais – estarem cada vez mais nas mãos de gente «especialista» em conhecimento funcional, que cresceu politicamente na gestão do imediato, e que descarta, como anticorpos, aqueles que pensam para além do momento. Daí também a desvalorização sistemática das humanidades e da reflexão crítica que estas oferecem. Temas aos quais regressar aqui com mais tempo e um outro cuidado.
Sempre tão ágil e zeloso a amordaçar a informação livre na Internet, o governo chinês cala-se perante a descoberta de uma rede de espionagem electrónica, sediada no seu território, que se tem dedicado a violar computadores de ministérios, embaixadas e associações de diversos países ocidentais e asiáticos. Não por um acaso, algumas destas associações têm tornado público o seu apoio ao respeito pelos direitos nacionais do povo tibetano, e pelo menos duas embaixadas portuguesas contam-se também entre os alvos atingidos pelos ciberpiratas chineses. O objectivo era instalar maliciosamente, em numerosos computadores, software capaz de actuar como um cavalo de Tróia, identificando referências ao Dalai Lama e encaminhando-as para servidores sediados na República Popular da China.
Preparemo-nos agora para a procissão do costume: o governo chinês irá primeiramente ficar em silêncio, depois negará qualquer intervenção no caso, e finalmente encontrará um qualquer funcionário de terceiro ou quarto escalão que possa servir de bode expiatório. Será então que os governos dos países afectados pela intrusão irão aceitar as explicações e curvar-se diante do governo imperial de Pequim. É claro que os chineses não são os únicos a fazerem isto e ainda há pouco tempo se soube que o governo alemão andou a navegar pelas mesmas águas lamacentas. E, evidentemente, há muitos anos que os americanos tomam medidas neste campo. Mas o gesto torna-se particularmente agressivo e repelente quando parte de um governo – ninguém acreditará que foi a «sociedade civil» chinesa que produziu tais hackers – que se dedica a controlar e a censurar abertamente a Internet, reprimindo com punho de aço o menor gesto de autonomia informativa dos seus cidadãos.
Já desisti de tentar explicar por que razão um sujeito de meia-idade como eu, com uma educação clássica, responsabilidades profissionais e um problema com o excesso de glicemia no sangue, gosta tanto da música pop descarada e adolescente dos agora já meio-avelhados Pet Shop Boys. Aqueles dois tipos de country town, nascidos na Inglaterra deprimida dos anos 50, que desde os eighties andam por aí a colar à pop as chamadas «letras inteligentes». Eu próprio não percebo a origem da atracção. Evoco só antigas viagens matinais a caminho da praia, com o Neil e o Chris a rodarem no leitor de cassetes do carro em segunda mão. E sei que um dia gostaria de viver no universo epopeico e elementar que durante todo este tempo os rapazes da loja dos bichos me têm feito imaginar.
Durante a manhã considerei a possibilidade de escrever um post sobre a reunião dos blogueiros apoiantes dos grandes comunicadores Kim Jong-Il e Lukashenko, mas logo a minha atenção se desviou para a banca dos jornais. Como previsto, já lá estava em exposição o primeiro número da Playboy portuguesa. Convencido de que estava a ser espirituoso, disse à vendedora qualquer coisa como «temos finalmente a Playboy connosco». Mas esta não mostrou ter descortinado a alusão à conhecida frase do doutor do Vimieiro e respondeu com um «pois» que me pareceu estranhamente frio. A situação pareceu piorar quando se apercebeu de que eu queria mesmo comprar a revista. E não fechámos o negócio sem que ela devolvesse o troco da nota de cinco euros como se eu fosse portador do vírus da peste bubónica.
Mas a compra valeu bem o esforço e a desonra. A revista tem qualquer coisa de sadio e lustroso, com lugar garantido em antecâmara de consultório ou no porta-luvas de um taxista. Trabalho honesto, asseado, sem nada a ver com aqueles exemplares americanos, obtidos à socapa e em segunda mão, com os quais numa certa fase do passado aprendi, como dizia o Sr. Alberto Alfaiate, um pouco das «coisas da vida». Mas estas coisas de vida são, de facto, menos peludas, avantajadas e concupiscentes que as originais, nada que perturbe as famílias. E se alguém duvida é porque não folheou as páginas da novel revista. Ainda me enchi de esperanças quando na Carta do Director li uma frase na qual este aliciava o leitor com um «vamos a isto», mas cedo me desenganei sobre a possibilidade de existirem sugestões menos próprias. Afinal, na Playboy portuguesa fala-se dos sapatos da Madonna sem qualquer assomo de fetichismo e de fotografias tiradas a cheeseburgers por David La Chapelle sem qualquer vislumbre de crítica ao higienismo galopante. Anuncia-se inocentemente que 62% dos homens mais ricos do planeta se casam com mulheres de cabelo castanho e que 4 de cada 10 preservativos vendidos são adquiridos por senhoras. A Conselheira – cujo nome por momentos me pareceu evocar umas certas fantasias – desalenta logo qualquer um ao aconselhar à leitora Paz Diego, de Málaga, para «basicamente dizer ao seu marido não levar a questão a peito, até porque o peito é seu.» E ao pedido «gostava de perceber como funciona o sexo em mundos virtuais como o Second Life», a senhora dos conselhos não respondeu nada que se percebesse. Emocionante poderia ser a entrevista ao futebolista Costinha, mas quando li a pergunta sobre se este «chegou a privar com a realeza monegasca», resolvi passar à frente. Em boa hora, admito, porque logo de seguida dei com as 18 páginas (e um desdobrável) com fotografias de Rute Penedo, uma loira com implantes apresentada como «mulher de Artes». Não pude, no entanto, ver a grande reportagem com atenção porque a senhora da mesa do lado começou a olhar para mim com uma expressão esquisita. Por isso – admito que um pouco cobardemente – guardei a leitura da reportagem com Mónica Sofia, a «estrela da capa», para uma melhor oportunidade.
Acossado pelos olhares da matrona, tive pouco tempo para folhear as páginas que faltavam e me raspar dali. Ainda li uma citação de Bertrand Russel pressagiando a extinção da raça humana no final do século passado. E outra de John Wayne onde este declarava acreditar na supremacia branca «até que os negros sejam educados para atingirem um estado de responsabilidade». Passei os olhos por uma frase de Pedro Paixão na qual o escritor declarava peremptoriamente que «o amor é um trabalho pelo qual se tem de lutar e o que já se conseguiu dissipa-se no passado». E foi nessa altura que percebi ter passado mais de uma hora a tomar estes apontamentos e que já não tinha tempo para escrever o tal post sobre a reunião dos blogueiros apoiantes dos grandes comunicadores Kim Jong-Il e Lukashenko.
Regresso a um texto que em 2002 publiquei na revista História a propósito de uma então recém-editada biografia do argentino. Uma das poucas disponíveis no mercado que não é apenas «pró» ou «contra».
Retomada em imagens que povoam jornais e documentários, nos muros das cidades, na decoração de espaços privados, em t-shirts e tatuagens, a expressão decidida do Che Guevara, captada há mais de trinta anos pelo fotógrafo Alberto Korda, continua a povoar a nossa imaginação. Como sinal da memória, insígnia de utopias ou insólito produto pronto-a-usar. Omissões várias e umas tantas mentiras, somadas a um certo oportunismo político e comercial – em alguns países vende-se até uma bebida gaseificada, aRevolution Soda, com o rosto do Che estampado como logótipo – têm adensado a carga simbólica que envolve um dos heróis e dos ícones do século que passou. Vale a pena desvendar o mito na sua origem.
Morreu na quarta-feira passada Omid Mir Sayafi, um bloggeriraniano de 25 anos condenado a 30 meses de prisão por insultos ao ayatollah Ali Khamenei. O advogado de Omid – que pouco antes de ser detido definia o seu blogue como de natureza essencialmente cultural – disse à AFP que «ainda não existem documentos oficiais, mas os responsáveis da prisão afirmam que Mir Sayafi se terá suicidado». O governo de Teerão lançou entretanto uma campanha contra bloggers e internautas, acusados de escreverem textos hostis às autoridades e aos valores islâmicos. E os Guardas da Revolução anunciaram em comunicado uma intervenção enérgica para «desmantelar os mais diversos sites anti-religiosos, obscenos e contra-revolucionários», que publicam «artigos contra o regime islâmico», «os valores religiosos» e «histórias sexuais». Claro que os EUA são apontados como os primeiros responsáveis pela iniciativa dos internautas «degenerados», combatidos sem piedade pelos heróicos funcionários do Centro de Delitos de Internet dos Guardas da Revolução. Nem outra coisa seria de esperar.
Só Deus sabe como aprecio durante 60 minutos em cada ano a música do Conjunto Diapasão (em particular a voz de veludo martelado do vocalista Marante), como abomino música sertaneja (os empregados do Gauchão também conhecem este ódio pessoal) e como experimento sentimentos assassinos quando sou forçado a ouvir a vozearia ululante acompanhada de ferrinhos e acordeão que o Estado Novo nos doou como «folclore do bom». Mas ouvir tudo isso em sistema random, a partir de colunas potentíssimas e mais altas que o Pau Gasol instaladas no hipocentro da universidade mais antiga do país, ao mesmo tempo me esforço até ao limite por conseguir dar uma aula debaixo de tal barragem de som, é experiência que tem qualquer coisa de transcendental. Aconteceu ontem à tarde e acabei a aula a falar da grande Maria do Carmo Miranda da Cunha, mais conhecida como Carmen Miranda.
Lendo o fascículo de hoje de «As Grandes Operações da Guerra Colonial», saído com mais um volume da colecção Os Anos da Guerra Colonial que o Correio da Manhã está a publicar (e que pode ser adquirido sem o jornal), resolvo um enigma que me acompanha desde os anos de vida de caserna. Qualquer coisa que intrigava um grande número de militares nos anos da guerra e nos primeiros tempos da democracia e os trazia em suspenso: serviria ou não o monóculo de António de Spínola para corrigir a visão do olho direito? A solução é oferecida pelo testemunho de um ex-furriel que em 1962 transportou de Lisboa para Bissau uma pequena caixa de madeira destinada ao então Coronel de Cavalaria, diante da qual foi incapaz de resistir à tentação de espreitar aquilo que ela trazia lá dentro: uma colecção de seis reluzentes monóculos sem qualquer graduação.
«Os cozinheiros italianos foram levados para uma base militar de alta segurança onde perceberam que a missão seria ensinar três oficiais do exército a confeccionar pizzas». «O nosso povo também tem de ter acesso a esta comida conhecida internacionalmente», disse na ocasião ao jornal japonês Chonson Simbo o gerente do restaurante, citando o próprio Kim Jong-Il. Para saber mais, siga-se a notícia do Público online sobre a abertura de uma pizzaria em Pyongyang.
Adaptação do original publicado na revista LER de Fevereiro
Vencedor do Prémio de História Contemporânea Victor de Sá de 2008, eis um estudo, resultante da dissertação de doutoramento do autor, que propõe uma releitura crítica da história do PCP entre o Segundo Pós-Guerra e o 25 de Abril e lança ao mesmo tempo um olhar renovado sobre o trajecto da resistência política e cultural ao Estado Novo. A tese central de Comunismo e Nacionalismo em Portugal define a temática nacionalista como uma das preocupações políticas fulcrais da direcção do PCP a partir do final da Segunda Guerra Mundial, distribuindo-se pelas quatro partes da obra. As duas primeiras seguem mais de perto os documentos políticos partidários ou aqueles que com eles confluem, ocupando-se da construção do «comunismo nacionalista» na sua relação com o processo de reorganização dos comunistas portugueses encetado em 1941, e do discurso político do PCP na sua ligação à realidade do país e às grandes linhas teóricas sobre a «questão nacional» que resultaram da experiência histórica da União Soviética e do movimento comunista internacional. As outras duas partes, com um carácter mais abertamente prospectivo, acompanham os processos de nacionalização da cultura enunciados por diversos intelectuais comunistas ou simpatizantes, e discutem as experiências de nacionalização e de reescrita da história pátria tomadas em mãos por alguns deles. Nos últimos capítulos o autor aproxima-se, de uma forma particularmente estimulante, dos instrumentos de configuração do «ideal comunista» na sua ligação com a actividade militante internacionalista de muitos intelectuais.
O valor deste livro, escrito sempre de uma forma atractiva, marcada por uma grande frescura da linguagem deslocada do previsível jargão que tem sido o principal responsável pelo divórcio entre o leitor comum e a generalidade da produção historiográfica portuguesa, não pode deixar de estar vinculado a uma peculiaridade do seu autor. José Neves é um historiador ainda jovem, consagrado a uma investigação intensa já sem incorporar na experiência pessoal as marcas de muitas de algumas das duras polémicas que envolveram as gerações anteriores – as quais naturalmente conhece, mas sem com elas conservar um vínculo de dependência inevitável em quem as acompanhou mais de perto -, o que desde logo confere ao seu trabalho um benéfico distanciamento crítico. A metodologia adoptada, jogando constantemente e sem aviso prévio na abordagem sincrónica do movimento e na leitura diacrónica dos seus episódios, define também uma marca de originalidade, destacando o carácter frequentemente lento das mudanças operadas no domínio da convicção, mas também os instantes de viragem nos quais algo de novo e de dinâmico claramente emerge.
Olhando o trajecto histórico do qual se ocupa, o historiador reconhece principalmente os momentos e as vias de «fragilização do modo proletário», pontuado por preocupações de uma natureza vincadamente internacionalista, mas também o simultâneo «revigoramento de um modo nacional», associado uma estratégia nacionalista aplicada à actividade dos comunistas e à daqueles que com as suas causas e a sua percepção do mundo foram confluindo. É pena que o próprio PCP não se esteja a servir deste livro e do trabalho do seu autor – como o deveria fazer também em relação à biografia de Álvaro Cunhal escrita por José Pacheco Pereira, bem diversa tanto na metodologia adoptada quanto nos objectivos propostos neste livro de José Neves – para reflectir interna e externamente, isto é, ao nível da formação dos militantes e na exposição pública do seu trajecto histórico e das suas propostas menos imediatistas, sobre o seu próprio destino. Talvez um dia.
José Neves, Comunismo e Nacionalismo em Portugal. Política, Cultura e História no Século XX. Tinta da China, 504 págs.
No novo volume da sua biografia de Estaline, Simon Sebag Montefiore recua no tempo para narrar a infância e a juventude do ditador desde os primeiros tempos em Gori, na Geórgia, até à intervenção destacada na tomada do poder pelos bolcheviques, percorrendo o envolvimento revolucionário que o levou a uma sucessão de prisões e de exílios, sempre razoavelmente benévolos, impostos pelo regime czarista. A abordagem proposta em O Jovem Estaline põe de parte as velhas hagiografias oficiais, que depuraram algumas das manchas de uma juventude violenta, criminosa e obscura, e recorre a documentos disponibilizados apenas a partir de 1991, o que permite construir uma narrativa detalhada, cheia de novidade e por vezes aliciante. Segue, porém, alguns caminhos que lhe reduzem o valor: desde logo um excesso de «psicologismo» adiantando afirmações sobre a construção da personalidade megalómana e psicopata de Estaline que aqui não passam de hipóteses; depois, uma fixação excessiva na descrição de episódios rocambolescos, alguns deles envolvendo o lado mulherengo do georgiano, que poderiam servir um argumento de comédia mas desviam a atenção da fundamentação interpretativa; e, por fim, a construção de um retrato íntimo através de estratégias, próprias das utilizadas nas biografias ficcionadas, que uma obra de natureza assumidamente historiográfica deve usar com parcimónia. [Trad. de Victor Antunes, Manuela Novais Santos e Maria José Figueiredo. Alêtheia, 512 págs. Originalmente na LER de Fevereiro.]
A propósito da visita a Portugal de José Eduardo dos Santos, presidente do MPLA e chefe supremo da clique cleptocrática que neste momento dirige um grande país onde a democracia, a transparência e o respeito pelos menos protegidos tardam em chegar, parece-me aceitável a posição do governo recebendo educadamente o chefe de Estado angolano e tratando com ele de uma forma normal. Afinal, com mais de 100.000 portugueses a trabalharem em Angola e muitas centenas de empresas e instituições envolvidas em negócios e projectos, com a grande tradição cultural e (assumidamente) histórica partilhada pelos dois países, seria de uma irresponsabilidade total insistir no carácter não-democrático e corrupto do poder instalado em Luanda voltando as costas aos seus circunstanciais porta-vozes. Mas é também justa a posição do Bloco de Esquerda ao recusar participar na parte teatral da visita: não estando no poder, o Bloco pode assumir uma atitude de princípio que exprime, tenho a certeza, aquilo que a maioria dos portugueses verdadeiramente pensa. Não faz sentido, pois, a rábula de Vital Moreira referindo-se à atitude frontal dos bloquistas como «falta de sentido de Estado». Nem, uma vez mais, o silêncio conivente do PCP, que não precisa de mostrar «sentido de Estado» mas ainda pensa o MPLA como uma espécie de «partido-irmão» subtropical que é necessário proteger.
Há meses que o não via e não sabia que estava doente. Muito doente, por sinal. Estava prevista uma conversa por um destes dias por causa de um artigo a sair na Rua Larga e contava telefonar-lhe durante esta semana para acertarmos pormenores. Soube agora, há uma hora e picos atrás, por uma mensagem de e-mail, que o João Mesquita morreu hoje de manhã. Com ele foi-se também uma pessoa generosa, afável sem servilismo, e um dos já raros combatentes de um jornalismo intransigente e de causas. De esquerda, sim. Vai fazer cá muita falta o João.